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Por Gabriel Arruda - @gabrielarruda07
Em 2021, em plena pandemia, uma banda que trouxe a influência do heavy metal e hard rock oitentista chamou a atenção do público brasileiro com o disco Prisioneiro do Rock N’ Roll, que marca a estreia do Trovão e que despertou o interesse do público, das mais variadas faixas etárias, por esse resgate clássico do estilo e por ser cantado em português.
Depois de três anos, a banda, agora com uma nova formação e mais consolidada, lançou o Diamante, que, depois de um ano de lançamento, ainda continua rendendo bons frutos e proporcionando shows em festivais importantes, como o Bangers Open Air e o Keep It True, um feito histórico para uma banda que canta na sua língua nativa em um país que respira heavy metal.
Para falar sobre esse momento especial que a banda vem vivendo, o vocalista Gustavo conversou com a Road To Metal para falar sobre esses acontecimentos, o mais recente disco, os novos singles e o novo trabalho, que já está na fase de composição e que será lançado no próximo ano.
2026, até agora, está sendo um ano muito legal para o Trovão. Teve o lançamento do Diamante no ano anterior e a estreia de vocês lá no Bangers. Vocês fizeram recentemente um show bem legal abrindo para o Riot V, em Curitiba, e, muito em breve, vão estar no Keep It True, na Alemanha. São consequências do trabalho que vocês estão fazendo? Como vocês têm vivido esse momento? Em algum instante caiu a ficha de que a banda estava alcançando um novo patamar?
Gustavo: Na verdade, a coisa foi andando passo a passo. A gente lançou o Diamante sem nenhuma pretensão, apenas de lançar mais um disco, já que o Prisioneiro... tinha ido muito bem na época. Acabou sendo uma continuação, mas não foi pensando em fazer grandes shows ou esse monte de coisa. A coisa simplesmente foi acontecendo. O primeiro convite que a gente teve foi para tocar lá fora. Não foi no Keep It True, foi em um evento em Portugal, que teria o Sortilégio como headliner. Mas a parte financeira que eles iam arcar não estava tão interessante para a gente. Acabamos recusando. Depois veio o convite para tocar no Ópera de Arame com o Riot V. E aí foi indo. Depois apareceu o convite do Keep It True. Então foi uma coisa atrás da outra. Mas não era algo que estava programado, que a gente pensou que ia acontecer. As expectativas sempre foram baixas. A gente é uma banda, querendo ou não, de nicho. É uma banda underground. Então não pode ficar sonhando com muita coisa. Eu estou preocupado em fazer um bom material, que é o que vai ficar. O resto é consequência, e a gente está aproveitando cada momento.
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| Leandro Almeida - @leandroalmeidashow |
E olhando para trás, desde a formação do Trovão até hoje, qual você considera ter sido o principal ponto de virada da trajetória da banda?
Gustavo: Eu costumo falar que não teve um ponto de virada. A virada foi quando a gente decidiu gravar o primeiro disco. A partir daí foi uma sequência. A gente gravou, ficou satisfeito com o trabalho e o pessoal gostou bastante. Foi muito bem aceito na época. Até hoje ele é muito bem falado. Depois pegamos tudo o que faltou no primeiro disco e trouxemos para o segundo. Fizemos mais músicas, mais variações. Trabalhamos melhor as letras, a timbragem dos instrumentos e a produção. Então fomos melhorando o trabalho. Para mim, não houve uma virada, e sim uma evolução da banda. Foi consequência da vontade de fazer a coisa muito bem feita.
Agora falando sobre o Diamante, um disco que eu adorei, gostei bastante. Ele foi recebido com muito entusiasmo pelo público. É difícil até escolher uma faixa preferida, porque todas são ótimas. Parabéns mesmo. Mas, se eu fosse escolher uma, seria Olhos da Cidade, que é a que eu mais curto do disco.
Gustavo: Essa também está entre as minhas favoritas. Foi uma música que eu fiz meio de última hora. Ela surgiu para completar o repertório, porque faltava uma balada. Acabei fazendo ela. Dessas músicas do disco, acho que é uma das mais novas que eu compus.
E justamente por essa questão de ser uma balada, de ter aquela melodia logo no início, ela me cativou muito. Foi isso que mais me surpreendeu. Conceitualmente e musicalmente, o que esse álbum representa para o Trovão?
Gustavo: Para a gente, esse foi o ápice da parte criativa. Tudo o que a gente pôde fazer de melhor, fez. Eu lembro que foi um trabalho de dois anos. Pensamos com muito cuidado em tudo: na ordem das músicas, na parte lírica, na capa. Fizemos tudo com muito carinho. Então, para mim, representa isso: o melhor que a gente podia fazer naquele momento. Agora já estamos trabalhando nos materiais futuros.
Todo disco registra um momento específico de uma banda. O que o Diamante diz sobre quem vocês eram durante o processo de composição e gravação?
Gustavo: Fala muito sobre maturidade. Eu, particularmente, consegui gravar algumas tonalidades que, na época do Prisioneiro..., eu não conseguia cantar. Era muito difícil para mim. No Diamante eu consegui. Tem várias músicas em tonalidades que eu jamais imaginaria que conseguiria interpretar. Explorei bastante essa parte vocal. A parte dos solos de guitarra também evoluiu bastante. Os teclados cresceram muito. Quando o Luke foi gravar com a gente, trouxe outras referências de timbres e ideias que agregaram bastante ao som. Agora, nesse próximo disco, vamos contar com o Fusa, que está tocando teclado com a gente. Ele também vai trazer outras referências. Então a gente vai agregando, amadurecendo e se aprimorando. O futuro ninguém sabe, mas eu sei que quero gravar outro disco. Já estou com algumas músicas prontas e também tenho um cover que vou fazer. Vou resgatar mais uma banda nacional desconhecida. Vai ser uma grande surpresa para quem curte. Não vou revelar agora o que é, mas podem ficar tranquilos que vem coisa boa. Depois que a gente finalizar o show do Keep It True, ainda teremos mais um show de encerramento, no final do ano, aqui em São Paulo. Depois vamos parar os shows para nos dedicar somente ao estúdio, à composição e ao próximo trabalho.
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| Leandro Almeida - @leandroalmeidashow |
Continuando falando sobre o Diamante, existe alguma faixa do álbum que ganhou um significado diferente, além de Olhos da Cidade, que a gente comentou agora, seja por ter sido levada aos palcos ou pela forma como foi abraçada pelos fãs?
Gustavo: Acredito que não. Acho que as letras foram abraçadas da maneira que eu imaginei mesmo. Não acho que tenha mudado o significado de nenhuma delas.
Recentemente vocês lançaram um single novo, que é como se fosse uma prévia do que a gente vai ver no terceiro disco, que você comentou que deve sair no ano que vem. Meu Caminho transmite, ao mesmo tempo, uma sensação de perda — você tinha comentado isso comigo antes —, mas também de perseverança e identidade. Temas que parecem dialogar com o momento que o Trovão vive atualmente. Essa conexão foi intencional ou a música acabou ganhando um significado ainda maior conforme a trajetória da banda foi evoluindo?
Gustavo: A letra de Meu Caminho fala sobre perda, sobre luto. Ela conta a história de uma pessoa que perdeu outra e, para continuar sentindo essa pessoa por perto, conversa com ela. A letra fala disso. Nem todo mundo entendeu essa parte. Muita gente levou para o lado da perseverança. Também existe essa questão da perseverança, mas acho que ela é muito mais focada no luto. É uma música mais melancólica.
Junto com esse novo single, Meu Caminho, vocês também fizeram um cover de Olho Animal, da Patrulha do Espaço, e, de certa forma, estabeleceram um diálogo com uma obra que faz parte da história do metal brasileiro. O que motivou essa escolha? E como vocês encontraram esse equilíbrio entre preservar a essência da música original e imprimir a identidade do Trovão nessa nova versão?
Gustavo: A Patrulha do Espaço foi uma das minhas referências para montar o Trovão. Então, acho que nada mais justo do que prestar essa homenagem. Eu fui mais na onda da regravação que eles fizeram no Primos Inter Pares, com o Percy Weiss nos vocais, que também é uma grande influência para mim. É um cover que eu já queria gravar havia algum tempo. Na época do Diamante, eu já cogitava gravar esse som, mas, como eu já tinha feito o cover de Vapor, não queria colocar dois covers no mesmo disco. Então pensei: "Em um material futuro eu lanço essa música." Eu já tinha feito alguns testes em casa, algumas gravações minhas, e tinha dado certo. Depois imprimimos a nossa marca nela. Trabalhamos melhor a questão dos solos, acrescentamos algumas camadas de teclado, sem destoar da música e sem descaracterizar a versão original, mas trazendo mais para a nossa identidade. Então acredito que o resultado ficou bem bacana.
Agora falando um pouquinho do que aconteceu com o Trovão neste ano. Vocês tocaram no Bangers Open Air, um dos festivais mais importantes da América Latina e um objetivo para muitas bandas brasileiras. Como foi receber esse convite e viver essa estreia dentro do que é o maior festival de heavy metal do Brasil e também da América Latina?
Gustavo: Eu já tinha tocado em alguns festivais na época do Selvageria, mas não desse porte. Não eram festivais tão grandes, com tantas bandas internacionais e com uma estrutura como aquela. Então, para a gente, foi uma experiência totalmente nova. Foi bem diferente e muito legal. A gente tocou na festa de abertura, na sexta-feira, na Audio, e depois no Memorial da América Latina, no domingo. Foi fantástico. Um palco excelente, qualidade de som muito boa e um público incrível. Muita gente que não conhecia o Trovão teve a oportunidade de conhecer a banda ali. Como somos uma banda de nicho, existe muita gente de outros estilos que nem imaginava que existíamos. Também conhecemos muita gente de fora: pessoas do Chile, da Argentina e de outros países vizinhos que foram prestigiar o evento. Eles ficaram malucos com a banda e me mandam mensagens até hoje. Foi uma oportunidade muito importante para nós.
E vocês receberam esse convite através do Edu Macedo, da MS Metal. Foi muito legal da parte dele.
Gustavo: Exatamente. Ele colocou a gente no evento. O Edu é fantástico. Um abraço para ele, se estiver vendo esta entrevista. Foi foda. Foi muito legal. Inesquecível.
O que mais marcou você naquele dia? A preparação, a reação do público ou os bastidores, dividindo espaço com artistas consagrados? Pelo que eu sei, você teve a oportunidade de conversar com o Ralf Scheepers e ainda conseguiu um autógrafo em um vinil da primeira banda dele. Você tinha comentado isso comigo antes e eu achei muito legal. Infelizmente eu não consegui assistir ao show de vocês no domingo do Bangers, porque foi no mesmo horário do Smith/Kotzen.
Gustavo: A gente até encontrou o Adrian Smith de relance no túnel que tinha embaixo do palco. Na hora em que eu estava prestes a entrar, ele estava passando pelo mesmo corredor. Existe um corredor subterrâneo onde as bandas circulam, e foi muito legal. Eu vi o Udo, vi um monte de gente. No domingo tinha um espaço onde o pessoal ficava comendo, tinha churrasco, bebida... então as bandas acabavam se encontrando por lá. Eu tinha levado os discos do Tyran' Pace, que foi a primeira banda do Ralf Scheepers. Na sexta-feira eu não consegui encontrá-lo, porque estava uma correria muito grande. Então levei novamente no domingo para ele assinar. Ele ficou impressionado, porque muita gente nem conhece essa fase da carreira dele. O pessoal acha que ele nasceu no Primal Fear, mas não foi assim.
E também teve o Gamma Ray. Muita gente conhece ele por causa do Gamma Ray.
Gustavo: Exatamente. O Tyran' Pace era uma banda dos anos 80, com uma influência muito forte de Judas Priest. Depois ele foi para o Gamma Ray e, em seguida, para o Primal Fear, onde está até hoje. Eu não sei se ele tem algum outro projeto atualmente, mas esses são os que eu conheço.
Só esses mesmo. Ele chegou a fazer uma participação no Avantasia, mas o foco dele sempre foi o Primal Fear.
Gustavo: Ah, então. Acabei pegando o autógrafo e conversando um pouco com ele. Foi uma honra enorme.
Você comentou sobre o fato de terem tocado tanto na pré-party quanto no domingo, e de muitas pessoas que não estavam habituadas ao estilo do Trovão terem se surpreendido com as músicas da banda e com a qualidade de vocês ao vivo. Depois dessas duas apresentações, vocês perceberam mudanças concretas na visibilidade da banda, no alcance, nos convites para shows e também no reconhecimento dentro da cena?
Gustavo: Sempre acontece. Sempre abre novos horizontes. Recebemos outras propostas e estamos conversando com bastante gente, produtores também. Lá no evento a gente conheceu até o dono do Wacken. Ele foi na sexta-feira, tiramos uma foto com ele e tudo mais.
Eu cheguei a encontrar com ele também lá no Bangers.
Gustavo: Legal. A cada dia que passa, a gente acaba fazendo mais contatos, recebendo novos convites e surgindo novas oportunidades. Mas vamos avaliando o que faz sentido e o que não faz. Neste momento, a gente realmente vai parar para fazer um novo disco. Precisamos de tempo para isso. Não tem como manter uma agenda intensa de shows e, ao mesmo tempo, focar na composição. Pelo menos para a gente, não funciona. A cabeça acaba ficando concentrada em uma coisa só. Mas, neste ano, tudo o que a gente queria conquistar, conquistou. Foi muito legal. Até agora, tudo saiu melhor do que a gente imaginava. Nunca pensamos que conseguiríamos fazer tanta coisa em um único ano. Ficamos muito felizes, porque superamos as expectativas que tínhamos.
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| Leandro Almeida - @leandroalmeidashow |
Na sequência, depois do show de hoje, no Sesc Belenzinho (N.T.: a entrevista foi realizada no dia do show, 18/07), vocês embarcam para o Keep It True, na Alemanha. É um festival onde vocês vão dividir palco com Savatage, Saxon e Armored Saint. Levar um trabalho autoral brasileiro para um país que tem uma tradição tão forte no heavy metal — afinal, além do Keep It True, eles têm o Wacken, o Summer Breeze e tantos outros festivais importantes — certamente tem um peso especial. Qual é a expectativa de vocês para essa experiência, que também representa outra grande conquista para o Trovão?
Gustavo: Essa talvez seja a maior conquista. Levar um heavy metal cantado em português para a Alemanha, sendo que a gente ainda é uma banda de nicho, é um grande feito. É uma coisa que eu nunca imaginei que aconteceria. Eu até imaginava que faríamos shows internacionais mais perto daqui, como Bolívia ou Argentina, onde a língua é mais próxima da nossa e existe uma facilidade maior de entendimento. Na Europa, eu pensava mais em Portugal e Espanha, mas isso para um futuro mais distante. Não era uma coisa para acontecer agora. Mas aconteceu. Como eu tinha comentado, nosso primeiro convite internacional foi aquele evento em Portugal, que acabou não acontecendo por questões financeiras. Tenho certeza de que, depois do Keep It True, outros convites vão aparecer. Portugal e Espanha são mercados interessantes para a gente. Agora é fazer bonito, mostrar o nosso trabalho e colher os frutos, ainda mais quando tivermos material novo. Além disso, temos a parceria com a Classic Metal, que faz as prensagens dos nossos discos e CDs, e também com a Lost Helmet, de Portugal. Isso facilita bastante, porque você já tem um braço na Europa, alguém com contatos por lá, e isso ajuda a ampliar as oportunidades.
Acho que cheguei a ver um post da Classic Metal. Acho que eles estavam até mandando o disco do Trovão para o Japão.
Gustavo: Vai para o Japão algumas cópias também. O meu sonho é tocar no Japão. No dia em que eu tocar lá, vou sentir que venci na vida.
E eu sei que você é muito fã do Michael Schenker. Ele gravou aquele disco ao vivo no Budokan. Nossa, acho que seria um sonho para qualquer banda tocar ali. Os Beatles tocaram no Budokan também.
Gustavo: O Japão, para mim, é um grande sonho. Um sonho que eu tenho de conhecer, quanto mais tocar por lá. Acredito que um dia isso possa acontecer. Tenho essa esperança. Quem sabe mais para frente? Vamos ver como as coisas acontecem. Vamos gravar mais material, manter o nível do Diamante e do Prisioneiro. É capaz de isso acontecer lá na frente.
Vai dar certo, sim. Vocês estão fazendo um trabalho muito consistente. Tudo direitinho. Com calma, vocês vão conquistar isso.
Gustavo: Obrigado!
Falando agora sobre a identidade da banda. O Trovão vem construindo uma identidade bastante própria dentro do metal nacional. Na sua visão, quais características fazem a banda ser reconhecida logo nos primeiros minutos de um show ou de uma música?
Gustavo: Acho que muito pelo vocal. A forma como eu canto acaba trazendo uma identidade forte. Eu tenho um jeito específico de cantar. Peguei muita referência dos vocalistas nacionais dos anos 70. Tenho muita influência da forma de cantar do Made in Brazil, do Cornelius, do Percy Weiss, da Patrulha do Espaço. Toda essa aura do rock paulista dos anos 70 e 80. Então eu tenho muito essa veia na questão da voz. Eu não sou um cara supertécnico, superestudado, mas acredito que a forma como eu canto faz com que a pessoa escute e já saiba que sou eu. Agora, com essa questão dos teclados sintetizados e das guitarras, o pessoal também já faz essa associação. Então foi se criando essa identidade. O que eu faço não é uma inovação. Isso sempre existiu, principalmente lá atrás. Mas hoje em dia acabou ficando em desuso. É difícil encontrar uma banda que misture heavy metal, hard rock e AOR. Antigamente existiam várias. Hoje você encontra uma banda de heavy metal, outra de hard n' heavy, outra de AOR lá fora. Mas que faça essa junção toda, atualmente eu realmente não conheço ninguém.
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Você falou das influências da banda. Como vocês conseguem equilibrar todas essas características? Porque, quando a gente ouve as músicas do Trovão, percebe claramente a influência do heavy metal clássico dos anos 80, mas também do hard rock, do AOR e do melodic rock. E eu noto isso principalmente nos timbres de guitarra. Percebo muita influência do Warren DeMartini, do Ratt, e também do George Lynch, do Dokken.
Gustavo: Em termos de guitarra, minhas principais referências para fazer esse tipo de som são justamente o Warren DeMartini e o George Lynch, do Dokken. Para mim, eles são as grandes referências de guitarra para esse estilo que eu faço. Eu pego muita influência deles mesmo. Sempre tento chegar o mais próximo possível daquilo que me agrada. Às vezes muda alguma coisa no timbre, mas minha base sempre vai ser essa: o hard n' heavy. Sou apaixonado por esse estilo. É o tipo de som que eu realmente gosto. Mas também tem muita influência do Accept e do Judas Priest. Para mim, o Judas é a melhor banda de heavy metal do planeta. Não existe banda mais foda que o Judas. Vou pegando uma coisa aqui, outra ali. Também temos muita referência do Pretty Maids. É uma banda que fazia exatamente isso: misturava heavy metal com hard rock e também com AOR.
Eu adoro o Pretty Maids.
Gustavo: É uma banda de que pouca gente fala, mas fazia isso com excelência.
Você chegou a assistir ao show do Pretty Maids no Bangers Open Air do ano passado?
Gustavo: Não. Acabei não indo.
Que show sensacional! Foi uma realização ver o Pretty Maids ao vivo. Eu também consegui conhecer o Ronnie Atkins.
Gustavo: Conheceu? Ele estava enfrentando um câncer. Nem sei como conseguiu fazer aquele show.
Ele continua se tratando, mas está muito bem e cantando demais. É impressionante.
Gustavo: Demais! O Pretty Maids, para mim, é uma banda-modelo. Se eu tivesse que citar uma banda internacional como referência, seria o Pretty Maids. É uma puta referência para mim.
E naquele dia ele estava muito animado. Acho que, para eles também, foi a realização de um sonho. Afinal, são mais de quarenta anos de estrada. Ele comentou que faltava apenas um show do Pretty Maids no Brasil. Foi realmente um show inesquecível.
Gustavo: Todo mundo que foi falou muito bem.
Agora falando sobre o cenário nacional. Na sua opinião, o metal brasileiro vive um momento de renovação? O que ainda precisa acontecer para que as bandas autorais tenham mais espaço e consigam alcançar novos públicos?
Gustavo: É difícil responder isso. O metal underground ainda tem pouco espaço hoje em dia. Não existem muitos lugares que ofereçam uma boa estrutura. Acho que as bandas precisam correr atrás do próprio trabalho e fazer o melhor possível. É preciso se profissionalizar ao máximo. Eu estou nessa estrada há muitos anos. A primeira vez que subi em um palco foi em 2001. Então já comi muita poeira, já toquei em muito buraco. Sei bem do que estou falando. É preciso ter perseverança. Não se vender por pouco. Tem muita banda que paga para tocar. Eu mesmo já paguei muito para tocar. Tirei dinheiro do bolso e só me ferrei. Então acho que cada banda precisa fazer o seu trabalho e se preocupar em construir uma identidade. Isso é importantíssimo. Não adianta ser apenas uma cópia. É claro que a minha ideia nunca foi criar algo totalmente novo. Não é essa a proposta. A minha ideia sempre foi prestar uma homenagem a tudo aquilo de que eu gosto. Fazer o som que eu gostaria de ouvir em uma banda. Tudo aquilo que eu queria escutar, eu faço no Trovão. Então não é uma questão de inovação, mas é fundamental ter identidade. Identidade visual também. Se preocupar em fazer o melhor possível com os recursos que você tem. Acho que tudo começa por aí. Agora, o que falta? É difícil responder. O heavy metal continua sendo um estilo muito pequeno. É um nicho. E o som que a gente faz é o nicho do nicho. Então não tem muito segredo. É seguir em frente. Gravar discos. Fazer shows. Fazer aquilo em que você acredita de verdade. Não ficar pensando apenas no mercado, porque isso não funciona. Eu tenho o meu trabalho. Não vivo da banda. Os outros integrantes também trabalham. É claro que seria maravilhoso viver da música, mas essa ainda não é a nossa realidade. Como a banda não gera renda suficiente para isso, você precisa fazer tudo com a alma, com o coração, dentro das possibilidades que tem. O restante vai acontecendo naturalmente. As oportunidades aparecem como consequência do trabalho. Hoje a gente vai para a Europa. Tocamos no Bangers. Fizemos vários shows. Vamos tocar hoje no Sesc. Tudo isso aconteceu por causa do trabalho. É simples. Claro que também existe um pouco de sorte. Nem tudo depende apenas da gente. Mas o importante é continuar fazendo. Continuar seguindo em frente.
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Depois de conquistar festivais importantes, vocês sentem uma responsabilidade maior em representar essa nova geração do metal nacional?
Gustavo: Com certeza. A maioria dos shows que fizemos agora tinha gente de todas as idades. O pai levando o filho, o filho com a camiseta do Trovão... Teve um show que fizemos na Burning House, acho que foi o primeiro da turnê do Diamante. Cara, estava lotado. Tinha criança, adolescente, o pai levando o filho porque o filho gostava da banda. O pai também gostava, mas o filho gostava ainda mais. Também vi gente com mais de 70 anos no show. Isso é muito legal. O que mais me deixa feliz é ver o pessoal mais novo, porque é uma forma de manter tudo isso vivo. Não pode morrer com a nossa geração. As coisas precisam ser passadas para frente. Amanhã eu posso não estar mais aqui.
E o mais legal é que pessoas que nem ouvem o estilo do Trovão acabam gostando da banda. Vou dar um exemplo. Uma amiga minha vai estar no show de hoje. Eu apresentei o Trovão para ela, mas o estilo que ela costuma ouvir é mais metal sinfônico. Mesmo assim, ela falou: "Caramba, a banda é muito legal. Ela resgata esse feeling retrô." Ela gosta de coisas mais clássicas, mas não está acostumada com esse nicho. Ainda assim, gostou tanto que falou que irá assistir ao show hoje.
Gustavo: Isso foi uma conquista nossa. Muita gente de fora do nicho gosta do Trovão. Muita mesmo. Tem gente do black metal que gosta. O Wagner, que foi do Sarcófago, adora o Trovão. O pessoal do Vulcano veio falar comigo assim que lancei o Prisioneiro do Rock'n'Roll. Tem muita gente fora dessa onda do hard and heavy que gosta da banda. Até pessoas que tinham certo preconceito com metal em português acabam gostando do Trovão. Por algum motivo, elas se identificam. Eu não sei explicar exatamente o que é.
Acho que isso acontece porque, apesar de as letras serem em português, quando a gente ouve parece que vocês estão cantando em inglês. É muito difícil encontrar bandas brasileiras que compõem em português, mas que têm essa fluidez na melodia vocal. Acho que esse é um dos grandes diferenciais do Trovão.
Gustavo: Talvez seja pela forma como eu componho as melodias. Eu penso quase como se estivesse escrevendo em inglês. Penso de uma maneira que a melodia deslize sobre a música, sem aquela sensação de encaixe forçado. Eu componho o riff junto com a linha vocal. Não faço primeiro o riff para depois colocar a voz, nem escrevo a letra antes para depois criar a melodia. Eu faço tudo junto. É um processo meio maluco, mas foi a forma que encontrei de compor. Acho que isso acaba criando essa sensação de que a música tem uma sonoridade internacional. Cada compositor tem um método diferente. Não existe regra. Foi assim que eu me encontrei como compositor. Fazia isso no Trovão e também fazia no Selvageria, quando as letras também eram em português.
Já existem músicas novas? Um novo álbum? Outros projetos que o público já pode começar a esperar?
Gustavo: Sim. Na verdade, já tenho três músicas prontas. Também já decidi qual será o próximo cover. Então já posso considerar quatro faixas encaminhadas. A ideia é compor mais cinco músicas, totalizando nove, para gravar o próximo disco. Agora vamos focar totalmente nisso. Mas, antes do álbum de estúdio, quero lançar um trabalho ao vivo. Quero ver se consigo gravá-lo na Alemanha, para não ficar um intervalo muito grande entre um disco e outro. Quero fazer um disco ao vivo de verdade, bem produzido. As faixas ao vivo que lançamos como bônus são praticamente bootlegs, retiradas da mesa de som. Agora queremos fazer um trabalho com mixagem, tratamento e qualidade para se tornar um álbum oficial ao vivo. Como você comentou do Live at Budokan, existem vários discos ao vivo clássicos: Live After Death, Unleashed in the East, Priest... Live!, Stay Alive, do Accept... A ideia é fazer um trabalho que reúna músicas do Prisioneiro e do Diamante. Vamos ver se conseguimos lançar esse material antes do terceiro álbum.
Para a gente encerrar: se daqui a dez anos alguém olhar para a história do Trovão, o que você gostaria que fosse lembrado? Os palcos que a banda conquistou ou o impacto que as músicas tiveram na vida das pessoas? E por quê?
Gustavo: Com certeza, o impacto das músicas. O show é momentâneo. É uma lembrança daquele dia. Agora, o disco é eterno. A gente pode pegar como exemplo as bandas de que gosta. O Dio já se foi. Eu tive a oportunidade de assistir a vários shows dele, acho que três ou quatro. Os shows passaram, mas os discos continuam intactos. O disco é praticamente a imortalização do artista. É a obra que permanece. As músicas são eternas. Ninguém tira isso. Elas sempre vão estar lá, seja no formato físico ou no digital. Então, eu gostaria que o Trovão fosse lembrado pelo impacto das músicas.







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