terça-feira, 1 de setembro de 2026

Flotsam and Jetsam – Quatro Décadas Depois, A Fome Continua

Napalm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira – @instephanie

Existe uma espécie de injustiça histórica na trajetória do Flotsam and Jetsam. Uma banda que ajudou a moldar o thrash metal norte-americano, lançou um dos grandes discos do gênero em 1986 e ainda assim passou boa parte da carreira sendo apresentada ao público pelo nome de um ex-baixista que deixou o grupo para entrar no Metallica.

Quarenta anos depois, talvez seja finalmente possível deixar essa história para trás. Rats in the Temple, lançado em 28 de agosto de 2026 pela Napalm Records, é o 17º álbum de estúdio do Flotsam and Jetsam e encontra Eric “A.K.” Knutson, Michael Gilbert, Steve Conley, Bill Bodily e Ken Mary em uma fase particularmente interessante.

O disco chega apenas dois anos depois de I Am the Weapon, mas não soa como uma banda simplesmente cumprindo a obrigação de colocar mais um álbum na discografia. Pelo contrário: existe uma sensação de fome aqui.

E a primeira coisa que chama atenção é que o Flotsam and Jetsam não tenta esconder sua idade. Eric A.K. não possui mais aquele registro quase sobrenatural dos primeiros anos,  e seria estranho esperar que tivesse. Em compensação, sua voz ganhou uma aspereza que combina perfeitamente com o material. As guitarras de Michael Gilbert e Steve Conley estão mais musculosas, Ken Mary conduz as músicas com uma bateria extremamente precisa e Bill Bodily dá ao conjunto um peso que aparece principalmente quando a banda diminui o andamento.

O resultado é um álbum que olha para o thrash dos anos 1980, mas não quer morar nele. Há power metal, heavy metal tradicional, groove, momentos quase progressivos e, pela primeira vez de maneira realmente perceptível na história recente da banda, elementos sinfônicos e orquestrais.

Mais importante: quase tudo isso funciona.


1. “Harvesting the Hate”

A faixa começa criando expectativa antes de liberar a bateria e as guitarras. É uma introdução que poderia facilmente funcionar como abertura de show, e isso não é coincidência: Eric A.K. revelou que o grupo vem pensando justamente em elementos que possam funcionar também como introduções ao vivo.

Quando Ken Mary finalmente entra, a sensação é de que alguém abriu uma comporta. O riff tem aquela combinação de thrash e heavy metal tradicional que sempre esteve na identidade da banda, mas a produção deixa tudo mais encorpado. A bateria não está simplesmente acompanhando a guitarra; ela empurra a música o tempo inteiro.

E então entra Eric. A voz está mais grave e áspera do que no passado, mas continua capaz de alcançar notas altas com uma autoridade impressionante. O refrão é grande, quase de arena, e cria um contraste interessante com os versos mais agressivos.

2. “Damnation”

Se a primeira faixa apresenta o lado épico do álbum, “Damnation” volta imediatamente para o thrash. O riff de abertura é mais direto, e a música trabalha com uma estrutura que parece muito mais interessada em fazer a cabeça balançar do que em criar atmosfera.

A banda intercala os ataques com momentos em que o andamento ganha um caráter mais cadenciado, fazendo com que o refrão pareça ainda maior quando retorna. O resultado é um thrash mais adulto, mais consciente de como utilizar dinâmica.

3. “Absolution”

“Absolution” é provavelmente uma das primeiras faixas em que fica impossível ignorar o trabalho das guitarras. Gilbert e Conley entram em uma espécie de duelo permanente de riffs, com ataques extremamente precisos e aquela sonoridade cortante característica do thrash americano.

Os riffs são secos, sincopados e cheios de pequenas mudanças que impedem que a estrutura pareça repetitiva. Existe uma preocupação técnica evidente, mas o que impressiona é que a técnica não domina a composição.

4. “Blame the Knife”

“Blame the Knife” foi uma das músicas que mais me fez prestar atenção na primeira sequência do álbum. Não necessariamente porque seja a mais rápida (e não é mesmo!), mas porque é uma das que melhor trabalham a tensão.

Existe uma atmosfera mais sombria no riff, enquanto o andamento se mantém pesado e relativamente contido. O refrão é bastante memorável, mas não parece deslocado do restante da composição. A melodia entra como consequência natural do riff, não como uma tentativa de tornar o thrash mais comercial.

5. “Rats in the Temple”

A faixa-título é o centro gravitacional do álbum. “Rats in the Temple” começa de maneira surpreendentemente teatral, com uma introdução orquestral que cria uma atmosfera quase apocalíptica antes de Ken Mary entrar em cena.

A bateria é um espetáculo à parte. Há uma combinação de viradas rápidas, pedal duplo e mudanças de acentuação que faz a entrada parecer maior do que a própria música. Os riffs têm uma construção mais progressiva, com mudanças de ritmo e frases que fogem um pouco da estrutura tradicional do thrash. A música também trabalha harmonias de guitarra bastante elaboradas, enquanto Eric A.K. sustenta linhas vocais longas por cima de uma base que está em constante movimento.

6. “The Ghost Behind My Door”

Se “Rats in the Temple” é o grande exercício técnico, “The Ghost Behind My Door” é a demonstração de que técnica e melodia podem coexistir. A velocidade das guitarras é absurda. Gilbert e Conley trabalham com palhetadas rápidas e harmonias que criam uma parede sonora extremamente densa, mas o refrão muda completamente a percepção da música.

7. “First on the Spike”

Depois de duas faixas mais ambiciosas, “First on the Spike” funciona quase como um retorno ao chão. É um thrash mais direto, de andamento médio, com um refrão que aparece rapidamente e fica na cabeça.

A guitarra continua cheia de detalhes, mas a composição parece mais interessada em criar um hino de mosh pit. Ken Mary também ganha bastante espaço aqui. A bateria tem uma sensação física muito forte, especialmente quando a banda entra nos trechos mais pesados.

8. “The Edge of Nowhere”

A introdução de “The Edge of Nowhere” é uma das mais curiosas do álbum. Em vez de começar imediatamente com uma parede de guitarras, a música cria tensão utilizando escalas orientais e uma atmosfera quase mística.

Por alguns segundos, parece que o disco vai entrar em outro território, mas não entra. A banda explode em um riff veloz e angular, com palm muting e ataques extremamente precisos. O contraste é justamente o que faz a faixa funcionar.

9. “Last Rites”

“Last Rites” começa quase como se o álbum estivesse respirando depois da intensidade anterior, mas a pausa dura pouco. Os riffs entram pesados, a bateria cresce e o refrão abre espaço para uma das melodias mais fortes do disco.

O trabalho do baixo também fica mais perceptível aqui, principalmente porque a produção deixa espaço para as frequências graves sem embolar o conjunto. Apesar de ter guitarras extremamente carregadas, o álbum não parece uma massa sonora indistinta. Cada instrumento tem espaço suficiente para cumprir sua função.

10. “A Taste for War”

O título pode sugerir uma música de celebração bélica, só que é justamente o contrário.

“A Taste for War” é uma das composições mais interessantes conceitualmente porque utiliza uma estrutura quase militar para falar contra a própria guerra. A bateria de Ken Mary estabelece um ritmo que lembra marcha, enquanto baixo e guitarras criam uma base pesada e repetitiva.

11. “Her Blood Your Pain”

“Her Blood Your Pain” é uma das maiores mudanças de atmosfera do álbum.

As guitarras assumem uma abordagem mais melódica, com harmonias em tonalidades menores que aproximam a música do death metal melódico europeu, mas o Flotsam não abandona o thrash. A velocidade continua presente, só que agora as melodias ocupam uma parte maior do espaço.

O resultado é uma das faixas mais atmosféricas do álbum e uma boa demonstração de como duas guitarras podem construir uma espécie de narrativa melódica.

12. “Anthem for the Broken”

“Anthem for the Broken” é o momento em que o disco transforma toda aquela agressividade em catarse.

As guitarras criam uma base pesada, a bateria empurra a música para frente e Eric canta como se estivesse falando diretamente com quem passou boa parte da vida se sentindo deslocado. É uma das faixas mais acessíveis do álbum, porque tem uma melodia que funciona.

13. “Not Goin’ Down That Way”

“Not Goin’ Down That Way” começa pesada, quase arrastada, com uma sensação de stomp que imediatamente muda a dinâmica. É uma guitarra mais seca, mais cadenciada.

A bateria acompanha esse movimento e cria uma espécie de balanço que faz a faixa parecer construída para o palco. Só depois a música começa a acelerar e revelar outras camadas. O refrão volta a trazer melodia, mas a atmosfera permanece mais sombria do que nas músicas anteriores.

É um encerramento que reúne várias das características apresentadas ao longo do disco: thrash americano, heavy metal tradicional, melodias, peso, dinâmica e aqueles pequenos elementos atmosféricos que aparecem nas introduções.

Confira a tracklist completa de Rats in the Temple:

1. Harvesting the Hate

2. Damnation

3. Absolution

4. Blame the Knife

5. Rats in the Temple

6. The Ghost Behind My Door

7. First on the Spike

8. The Edge of Nowhere

9. Last Rites

10. A Taste for War

11. Her Blood Your Pain

12. Anthem for the Broken

13. Not Goin’ Down That Way

Shane Eckert

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