Um período emblemático do calendário brasileiro é o feriado prolongado do carnaval, uma comemoração tão marcante que, por consciência coletiva, foi considerada como o marco do início de um período: todo e qualquer ano só se inicia, de fato, após findar tal comemoração.
Para além disto, ele é um feriado produzido para agradar todos os tipos de públicos, de gregos a troianos: seja quem gosta de sentir o Sol escaldante atrás dos blocos, seja para quem prefere estar presente nos retiros religiosos, ou até mesmo para quem prefere curtir aquele video-game ou um Netflix no conforto dos seus lares.
Felizmente, os amantes de uma música extrema estavam bem-servidos no marco zero do Rock e do Metal no Brasil: a capital paulista. Logo no primeiro dia oficial das celebrações carnavalescas, o SESC Bom Retiro hospedou uma celebração ao Metal extremo com uma autêntica instituição do Thrash Metal nacional: o TORTURE SQUAD.
O primeiro show do ano da banda foi arquitetado de maneira diferenciada: um Teatro, ao invés do palco convencional que uma barricada de riffs agressivos e bateria avassaladora que percorrem o seu caminho, já que “diferenciada” foi a palavra de ordem para esta apresentação.
“CARNAVAL” POSSUI MAIS DE UM SIGNIFICADO NO DICIONÁRIO
Para uma parcela, o último dia 13 de fevereiro foi o primeiro show do ano, o que era causa suficiente para uma animação acima do convencional. Animação esta que pôde ser vista com o público dispersado dentro do teatro do SESC Bom Retiro, mesmo após dar o horário marcado de 20h, socializando com os seus pares. Acontece que esta sensação teria vida curta, pois apesar de ser com atraso, na exata minutagem de 20:11, as luzes se apagaram para dar início à construção de uma atmosfera apropriada.
Proferindo as primeiras notas, HELL IS COMING tem sido uma tradição quase religiosa no uso do começo dos shows do TORTURE SQUAD desde que “Devilish” foi lançado, e assim como o próprio título implica, a avalanche sonora que ela carrega é um convite para quem escuta a adentrarem os portões do Inferno, tal como ocorre no Rio Aqueronte, ponto inicial dos domínios de Hades, o Imperador dos Mortos da mitologia grega.
Sem espaço para sequer a duração de uma batida cardíaca entre uma canção e outra, FLUKEMAN é emendada logo no final da anterior, seguindo o hábito do repertório estar mais centrado no lançamento mais recente, “Devilish” (2023), cujo trabalho teve o ponto de reforçar ainda mais a mescla de duas das vertentes mais extremas do Metal desde o advento de Mayara Puertas e Rene Simionato, há mais de dez anos atrás (em 2015), respectivamente nas tarefas vocais e de guitarra.
E foi justamente Mayara, após o fim da faixa anterior, carregando o dever de manter a maior comunicação entre a banda e o público que realizou uma louvável atitude: uma quebra do protocolo formal do SESC de ver o show sentado numa cadeira. Assim que BURIED ALIVE estava para começar, a mesma tratou de convocar todos a ficarem mais próximos do palco e a curtirem a apresentação da forma como Deus (ou Satanás?) planejou. E uma nota precisa ser feita para esta aqui: a terceira faixa do último álbum carrega uma agressividade tão bem-vinda e infectante que mesmo o ser mais puro e calmo presente é altamente capaz de sentir uma fervura em seu sangue e renunciar a sua capacidade de comportamento formal e estar em linha com o seu modus operandi selvagem, já que é da selva onde nós viemos.
O QUE É CHAMADO DE “TORTURA”, PARA ALGUNS É UM LAR
Como se essa transmissão vigorosa de energia não fosse suficiente, a dupla HELLBOUND e MURDER OF A GOD veio com uma declaração de intenção. Com a alteração de posição da plateia, o quarteto capitalizou a continuação do ritual com os supramencionados petardos, lançados na forma de uma hecatombe auditiva e com o surgimento de moshes (ainda que tímidos, mas presentes) na área situada entre as cadeiras e o palco.
Assim que a total e completa escuridão governou o ambiente, um observador poderia acreditar que o clima pintado era o de um show de Black Metal, para que todos os mortais atualmente preenchendo aquele espaço do SESC Bom Retiro se tornassem um com o meio-ambiente, tal como quando o Cavaleiro de Ouro Régulus de Leão realizou tal façanha ao ascender ao Oitavo Sentido, em CAVALEIROS DO ZODÍACO. Metatextualmente, HELLBOUND serve a este propósito ambiental, mas um dos seus deveres é o de antecipar um certo show à parte que se torna tradicional nas apresentações do “Esquadrão da Tortura”.
A iluminação do palco fica superconcentrada “na cozinha” do grupo. A bateria de Amílcar Cristófaro recebe um tratamento como se ela tivesse feito bullying com ele na infância, dado o nível da “marretagem” recebida, a qual é condição sine qua non para o domínio do kit, e não é à toa que Amílcar é constantemente lembrado ser um dos melhores bateristas que nasceu em solo brasileiro nas opiniões do público em geral. Vê-lo executar um solo em seu instrumento é a pura definição de uma poesia em movimento, e se o ouvinte não sente um fogo pulsando em seu corpo ao testemunhar tal privilégio, o ouvinte em questão está vivendo a vida do jeito errado.
Ato contínuo, o paulistano tomou a frente e discursou para a plateia, prestando homenagem à cena nacional e destacando a produção acústica de nível Lamborguini, além de lamentar a ausência de Jão, membro do RATOS DE PORÃO, que infelizmente não pôde estar presente devido a um acidente de moto que o vitimou dias antes do show.
OLÁ, MI CASA ES SU CASA
Esta foi a brecha para dar as boas-vindas para outra convidada que também merece a alcunha de “especial”. Jéssica Falchi entrou no palco assim que o seu nome foi invocado. Conhecida pela sua passagem na CRYPTA, a paulista vem construindo uma reputação como uma das maiores revelações no cenário nacional, aonde quer que ela vá.
Carregando um carisma tão poderoso, ensinando aos pretendentes que tentam imitar como é que se exala entusiasmo genuíno, a sua aparição inicial veio na forma de WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS, um cover do BEATLES. Apesar da quebra quase radical de ritmo, perfazendo uma guinada de 180⁰ de um lado ao outro, reza uma das regras não escritas do universo que “a calmaria precede a tempestade”.
Provando que essa valia se mantém verdadeira com o teste do tempo, a canção do BEATLES e a sua tranquilidade foram um prelúdio para que uma das principais inspirações da monte-altense fosse lembrada na apresentação. Não é nenhuma surpresa que MARTY FRIEDMAN é um dos motivos que a fez praticar guitarra, demonstrando a honra a um dos seus antepassados, a escolha foi DRAGON MISTRESS, do seu álbum de estreia de 1988.
Ao contrário da balada (que fez com que Mayara trocasse para o vocal limpo), aqui vemos a convidada demonstrar o porquê de estar categorizada como uma revelação, não precisando utilizar palavra nenhuma para deixar isso bem claro, mas sim deixando exalar o seu talento fazer todo o falatório.
Em sequência, HORROR AND TORTURE, PULL THE TRIGGER e THE UNHOLY SPELL são uma trindade que marcam presença da mesma forma que o banho diário faz parte da cultura tupiniquim, servindo como combustível para que o Bloco do Esquadrão continuasse testando a resistência do poderio vindo dos equipamentos do SESC.
Antes delas darem o ar da graça, no entanto, é importante frisar que a vocalista aproveitou o momento para desmentir os rumores do momento, que seria a possibilidade dela integrar a banda sueca de Death Metal Melódico ARCH ENEMY, considerando os mistérios rondando a nova vocalista, deixando claro que a própria integra o TORTURE SQUAD e que o ano atual será marcado por muito trabalho por parte da banda.
EM RETROALIMENTAÇÃO, A VIDA IMITA A ARTE
Uma frase tão comum quando o pôr do Sol acontecendo ao redor das 18h é que todas as coisas boas infelizmente estão fadadas a terem um fim. Em uma realização de um autêntico gran finale, todos fomos agraciados com o retorno da presença contagiante de Jéssica para o ato final: um medley do METALLICA. Não é surpresa nenhuma que a natural de Monte Alto possui a banda dos estadunidenses como uma de suas maiores predileções em vida (ao ponto de realizar diversos covers dela nas suas contas das redes sociais), então não foi nada algo "fora de lugar" um encerramento deste calibre. Olhando em retrospecto, isso acaba sendo uma "homenagem dentro de uma homenagem" (do TORTURE SQUAD à Jéssica, de Jéssica ao METALLICA), no maior clima do filme A ORIGEM, de 2010 encontrando um paralelo à vida real.
E assim foi finalizado o "bloquinho" de Carnaval calmo e tranquilo do Esquadrão da Tortura, perfeito para os que precisam acalmar os ânimos e alcançar um estado zen que o corpo humano consegue atingir.
Assim como a NERVOSA antes deles, é comum achar estranha a performance de um dos atos do Thrash/Death ocorrer dentro de um teatro. Porém, a mensagem aqui fica clara de que esta não é uma apresentação ordinária, mas sim uma dedicatória na forma de show.
Dedicar um show aos seus antepassados que, de certa forma, detém o mesmo sangue brasileiro, é uma das atitudes mais nobres possíveis enquanto na posição não só de musicista, mas de profissional também. Isto por si só reforça o fato de que, mesmo quem tem o – este redator ousa dizer - péssimo gosto de não apreciar música extrema -, faz com que o TORTURE SQUAD mereça o respeito até mesmo por quem curte o lado oposto do espectro musical.
O TORTURE SQUAD é: Mayara Puertas (voz), Castor (baixo), Rene Simionato (guitarra) e Amílcar Cristófaro (bateria).






Um comentário:
Cara, de todos os shows que fui do Torture nesses últimos 24 anos. Com certeza esse foi o melhor, onde pude ouvir um som mais apurado, visões mais técnicas e público mais concentrado. Experiência surreal.
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