Está aí uma banda que desde seu primeiro álbum vem tendo uma aceitação bem positiva, com canções cativantes, e até de fácil assimilação, mas que fogem do óbvio muitas vezes, com seu conceito girando em torno de ocultismo, experiências espirituais e pessoais, utilizando muitas metáforas e doses de humor, e sonoridade voltadas ao Occult Rock, Hard 70’s e Doom.
Fundada em 2014 pela vocalista e compositora Johanna Sadonis, o Lucifer chega ao seu quinto álbum, intitulado “V”, o primeiro pela gravadora Nuclear Blast. Com uma formação estabilizada, e Johanna tendo como parceiro, e agora marido, Nicke Andersson nas guitarras, o grupo vem crescendo em popularidade e fazendo cada vez mais shows, inclusive passando aqui pela América do Sul em 2022 pela primeira vez.
No release a expectativa gerada é grande, pregando que a banda entregou seu melhor álbum até agora, e traz todos os elementos vistos em seus trabalhos anteriores.
Cedo ainda para dizer se é o melhor trabalho, mas que as canções já me cativaram de imediato, isso é fato!
“Fallen Angel” inicia o disco, com seu riff rasgado, que me lembrou um pouco o de “Schools Out”. Hardão explosivo e cativante, com trechos de riffs pesados e bem Doom, traduzindo bem essa mistura de inspirações da sonoridade da banda.
"At The Mortuary” inicia com riffs que trazem o peso do Doom para em seguida entrar com licks e bases Hard, destacando as cativantes melodias do refrão, e como uma das qualidades do Lucifer é não se óbvio, temos mais uma mudança de clima, com um trecho mais tétrico antes do solo e refrão final.
Riding Reaper” traz riffs e backing vocals cativantes e melodiosa daqueles que grudam de imediato e aquele ar Occult Rock; "Slow Dance in a Crypt" é como uma valsa tétrica, com o piano trazendo esse clima soturno, e toques de blues num hipnotizante balanço.
"A Coffin Has no Silver Lining” traz essa mistura deliciosa de Hard Rock e Occult Rock, e é impossível já não sair cantarolando. Destaque para as melodias do refrão e backing vocals, e claro, o lirismo com as doses de humor negro.
"Maculate Heart” inicia com dedilhados, parecendo que vem uma baladona por aí, mas a bateria logo intervém e temos um Hard de riffs marcantes e com Groove;
“Strange Sister” é um Rock and Roll/ Hard 70’s de refrão cativante, e com trechos que trazem aquele ar de filmes de horror; "The Dead Don't Speak", vem mais cadenciada, com licks cativantes e o peso do Doom, mas sem deixar de lado os refrãos cativantes.
O Blues pesado e soturno de “Nothing Left To Lose But My Life” fecha o álbum e deixa aquele gosto de quero mais.
Um disco que facilmente se ouve todas as músicas sem pular, algo que tem ficado cada dia mais raro. É o melhor álbum do Lucifer? Bem possível. Mas o que posso afirmar de certeza é que vai agradar e muito quem já curte, vai angariar novos fãs e contribuirá para o contínuo crescimento da banda em passos mais largos.
A Suécia é um dos mais aclamados
produtores de Metal e Heavy Rock deste século, apresentando excelentes e
originais bandas, algumas alcançando um status maior de popularidade, como é o
caso do Ghost, por exemplo, que já esteve por aqui, inclusive tocando em um
Rock in Rio, e só não volta em 2020 - faria tour junto com o Metallica – por estar
envolvido na produção de novo álbum.
Um desses novos nomes surgidos na cena sueca, e que cada vez
ganha mais seguidores, é o Avatarium. Inicialmente surgiu como um projeto
paralelo de Leif Edling e Marcus Jidell (ambos do Candlemass), mas foi ganhando status, principalmente após o elogiado álbum de estreia, “Avatarium” (2013).
Um dos grandes diferenciais do grupo desde seu surgimento, a
voz cheia de sentimento e profunda de Jennie-Ann Smith, continua em destaque, e parece se superar a cada trabalho.
Neste quarto álbum a banda, "The Fire i Long For", agora com a parte criativa mais a cargo de Marcus e Jennie, traz
várias das características que permearam os álbuns anteriores, mas com menos ênfase no peso e mais nas sonoridades limpas e melodiosas.
Os elementos 70's, que vão de Purple, Sabbath e Floyd até o Occult Rock estão espalhados em doses generosas e criativas pela sonoridade.
O grupo mostra uma
personalidade única, com uma música que traz peso, melodia, com elementos
acústicos, psicodélicos e progressivos, adicionando doses de melancolia e toda
a paixão da voz de Jennie-Ann Smith.
O maior distanciamento de Leif Edling, pelos seus demais compromissos e questões de saúde, poderia causar certo temor quanto a qualidade final, mas o Avatarium mostrou um trabalho ainda superior ao álbum antecessor. A banda utilizou o rótulo Dark Gospel para descrever a sua
sonoridade, afirmando que seria o que melhor traduz os sentimentos que a sua
música passa.
Em um álbum com qualidade acima da média, intenso e carregado de emoção, ainda é possível apontar canções que se sobressaem, como “Rubicon” e seu riff principal e melodias marcantes, instrumental naquela veia 70's e às vezes beirando o Doom, ou seja, uma peça com a personalidade Avatarium.
Jeannie procura diversos caminhos em suas interpretações, como em "Stars They Move", onde a voz e o piano estão em primeiro plano, e em “Lay
Me Down”, balada melancólica, com nuances psicodélicas e algumas melodias estilo "western"; para quem espera ouvir algo mais de peso, as raízes Doom estão bem presentes em “Voices”.
E vale um parágrafo, ou mais, para a fantástica faixa título, “The Fire I Long For”, que traduz perfeitamente o que a banda quis dizer com "Dark Gospel", uma "balada dark", digamos assim, carregada de emoção.
Destaque absoluto para a interpretação de Jennie, que provoca arrepios. O instrumental denso, mas ao mesmo tempo melódico, com a guitarra trabalhando riffs graves e melodias com slides, e ora com notas mais limpas, e ainda trechos com Hammonds e vocais gospel ao fundo. Espetáculo!
O Avatarium merece logo estar em um patamar elevado, com sua sonoridade cheia de personalidade, transitando pela aura 70's, indo do Heavy e Classic Rock, ao Occult, psicodélico e progressivo. E claro, os riffs, solos e melodias criativos de Marcus e as maravilhosas interpretações de Jennie-Ann Smith, uma cantora realmente acima da média! Nota 10!!
Texto: Carlos Garcia
Banda: Avatarium
Álbum: "The Fire I Long For" (2019)
País: Suécia
Estilo: 70's Heavy Rock, Occult Rock, Doom, Dark Gospel
Selo: Nuclear Blast/Shinigami Records
Line-Up:
Jennie-Ann Smith: Vocais
Marcus Jidell: Guitarra, Piano
Lars Sköld: Bateria
Mats Rydström: Baixo
Rikard Nilsson: Órgão
Muitos ainda não aceitam muito
bem a bem-sucedida carreira do Ghost, pessoalmente acho que é mais por
picuinhas conhecidas e retrógradas do cenário Metal, que não lidam muito bem
quando uma banda alcança um certo patamar ou o mainstream. Para esses eu
pergunto: “Você quer que sua banda preferida não saia do underground? ”. Para
os que simplesmente não se agradam da sonoridade ou temática, ok, normal.
Fato é que, você gostando ou não
gostando da banda, seja qual sua razão, o que não pode ser negado é a
impressionante ascensão do grupo, alcançando admiradores inclusive de outras
bandas, que fazem questão de exibir camisetas da banda e até de participar como
convidados, e, reza a lenda, muitos membros de bandas famosas já subiram ao
palco ou tocaram em álbuns do Ghost.
Essa aura misteriosa que cerca o
grupo, a temática satanista, as máscaras e o “segredo” das identidades dos
integrantes, embora não seja mais tão segredo assim, são elementos que, somados
a sonoridade inspirada nos anos 70 e 80, e uma capacidade louvável de criar
músicas com melodias que prendem, mesmo que por vezes soem até clichês. E nesse
visual e temática é que reside outra vitória, pois é interessante ver uma banda
com essa conotação alcançar um patamar mais elevado.
Cardinal Copia, o "novo" frontman do Ghost
Em “Prequelle” (expressão usada para definirobra literária, dramática ou
cinematográfica que relata acontecimentos anteriores de uma determinado obra,
muitas vezes revelando os mesmos personagens quando eram mais novos. "dramático" e "cinematográfico", palavras que caem bem neste álbum), o novo e quarto
álbum, como era esperado, o Ghost novamente “troca” seu frontman, e o Papa
Emeritus III deu lugar ao Cardinal Copia, que em seu reinado também traz
mudanças na sonoridade, algo que o grupo sueco também vem apresentando a cada
álbum, não tendo medo buscar o novo.
“Prequelle” trata de temas em torno da morte e desgraça, com a temática em tempos medievais, porém com uma ligação à temas bem atuais. A sonoridadeapresenta um Ghost
mais sinfônico, num estilo por vezes meio Rock Opera, com uso maior de teclados
e sintetizadores, muitos corais e com refrãos e melodias mais “grudentas” e cativantes.
Podemos sentir uma linha mais anos 80 desta vez, com nuances do Melodic Rock e
Rock de Arena, mas com a aura sinistra e teatral peculiar ao Ghost. E se nos hinos do Rock de
Arena dos 80 as letras falavam de histórias de amor, musas e festas, Forge fala da peste bubônica, do encontro inevitável com a morte e as superstições humanas quanto ao bem e o mal.
Nos EPs “If you Have Ghost” e “Popestar”, onde a banda apresentou covers
de Eurythmics, Echo & the Bunnymen e Roky Erickson, por exemplo, já
corroboravam a paixão pela sonoridade 80’s e Pop.
Vamos às faixas desta macabra
Opera Rock que viajou no tempo. A intro “Ashes”, com as meninas cantarolando “Ring
a Ring 0’ Roses”, canção folk que, segundo a lenda, descreveria a grande praga
de Londres a “Black Death”, serve como uma sinistra preparação para “Rats”, com
seus riffs Heavy tradicional e coros no melhor estilo musical/opera Rock, é uma
canção cheia de ganchos! O vídeo para a música também é muito bom, tipo uma
paródia macabra de “Singing in the Rain”; “Faith”tem peso e pegada, lembrando
o material mais antigo e mais Metal da banda.
“See the Light” é uma balada com
melodias grandiosas, destacando o piano e o refrão cativante, porém com
mantendo essa certa aura sinistra;“Miasma” é a seguinte, e é uma instrumental
criativa. Sintetizadores remetem ao Progressivo dos anos 70 e 80,
como Asia, YES e ELP, por exemplo, possuindo melodias de guitarras dobradas e os riffs de
guitarras ao final são substituídos pelo saxofone, com um finalzinho com ares “noir”.
“Dance Macabre”é anos 80 total!
Eu cheguei a procurar mais a fundo para ver se não era alguma cover de alguma
banda dos 80 (caberia bem numa trilha de algum filme do Stallone nos anos 80). Seria heresia dizer que é uma faixa dançante? Melodic Rock
extremamente cativante, refrão pegajoso, tecladinho. Tem até uma daquelas paradinhas que
fica aquele gancho pra banda pedir pro público cantar junto, inclusive com
alguns jogos de palavras legais: “I just wanna be, wanna bewitch you in the
moonlight”.(numa canção "normal" de Melodic Rock certamente as palavras seriam "be with you", mas no estilo Ghost só poderia ser "bewitch you" ) “Pro Memoria” começa com ares bem trilha sonora com as
orquestrações, para em seguida o vocal entrar acompanhado por profundas, belas
e sinistras linhas de teclado. Bela e macabra balada. “Don’t you forget about
dying, don’t you forget about your friend death, don’t you forger you will die”. Tem muito de Queen também neste álbum, nessas canções construídas sobre piano e voz, com essa tendência operística e sinfônica.
“Witch Image” tem um belo
trabalho nas melodias cativantes das guitarras, em um andamento “soft” e que
gruda na mente; “Helvetesfonster” é mais uma instrumental, onde novamente flertam com o progressivo, a qual, assim como “Miasma”,
mantém o ouvinte preso, tendo várias mudanças de ritmo, muitos teclados (tem
uma melodia que me lembrou a trilha da série “Stranger Things”, passando por
trechos mais suaves, alguns até valseados e sinfônicos.“Life Eternal”, a peça que encerra “Prequelle”,
é também um dos pontos altos, traduzindo bem esse estilo puxado para Rock Opera
do álbum, com seus arranjos sinfônicos e grandes corais.
Em algumas versões podemos
encontrar faixas bônus, e uma é “It’s a Sin”, cover dos Pet Shop Boys, e não
poderia ser mais apropriada para essa inclinação anos 80 do Ghost atual. E eles
conseguiram deixa-la no estilo Ghost. “Avalanche”, de Leonard Cohen, original
de 71, é outra, que além de ter sido nominada pela revista Rolling Stone como
uma das 25 músicas mais aterrorizantes de todos os tempos, ganhou doses extras
de dramaticidade.
“Prequelle” veio para levar o
Ghost a um patamar ainda mais elevado, ganhar grandes arenas, mostrar que Forge
e seus asseclas não vão ter medo de ousar e buscar espalhar sua macabra, teatral, criativa e cativante música a todos os inocentes e desavisados lares deste
planeta. Só sei que não consigo parar de ouvir!