Por Flavio Borges
Após um período de silêncio desde The Testament (2022), os suecos do Seventh Wonder retornam com VII, seu sétimo álbum de estúdio e o primeiro a apresentar Mattias Olofsson nos vocais, substituindo Tommy Karevik. Com lançamento previsto para janeiro de 2027 pela Frontiers Music Srl, o trabalho inaugura uma nova fase na trajetória do grupo, que preserva os elementos fundamentais de sua identidade: arranjos sofisticados, virtuosismo instrumental, mudanças de andamento e, acima de tudo, um apurado senso melódico. A mudança de vocalista, contudo, não representa uma ruptura, mas uma oportunidade para explorar novas nuances dentro de uma sonoridade construída ao longo de mais de duas décadas.
A escolha de Memories, primeiro single do álbum, para abrir o repertório é bastante representativa. Desde os primeiros compassos, os timbres e as construções rítmicas remetem imediatamente à sonoridade característica do Seventh Wonder. O metal progressivo está presente em toda a sua complexidade, mas são as melodias, especialmente as linhas vocais, que conduzem a composição. O refrão é marcante e oferece a primeira oportunidade de perceber as diferenças entre Karevik e Olofsson. Mais suave e menos incisiva que a de seu antecessor, a voz do novo integrante imprime uma personalidade distinta à música sem comprometer sua força. Pelo contrário: a execução é impecável, e a adaptação à identidade do grupo soa bastante natural.
Em Riverside, o Seventh Wonder mergulha ainda mais fundo em seu universo progressivo. Uma introdução de piano estabelece o clima antes que os demais instrumentos introduzam um andamento pouco convencional, sobre o qual Olofsson desenvolve linhas vocais melódicas. O refrão, mais direto, ganha dimensão com os bem elaborados backing vocals, enquanto a interação entre baixo e piano proporciona um dos momentos mais interessantes da faixa. Os arranjos vocais merecem destaque à parte, tanto pela riqueza de detalhes quanto pela maneira como se integram à instrumentação. É um exemplo de como a banda consegue equilibrar complexidade e acessibilidade sem sacrificar nenhuma das duas.
Com pouco mais de sete minutos, The Villain and the Whisper amplia consideravelmente o leque de possibilidades do álbum. A familiaridade dos timbres de guitarra e baixo convive com elementos menos habituais, como passagens vocais próximas do gutural, que contrastam com a abordagem limpa e suave de Olofsson. A duração permite à banda desenvolver uma sucessão de mudanças e texturas, explorando diferentes caminhos sem perder a coesão. Até aqui, é a composição que melhor sintetiza o lado mais intrincado do disco, com os músicos demonstrando pleno domínio dos recursos técnicos e criativos à disposição. O resultado acrescenta novas cores à sonoridade do Seventh Wonder e evidencia que a progressividade do grupo vai muito além das mudanças de compasso.
Com Evermore, o álbum assume contornos de balada, embora a classificação não faça justiça à variedade de caminhos percorridos pela composição. Piano e cordas estabelecem uma base elegante para a interpretação de Olofsson, enquanto o baixo ocupa posição de destaque na sustentação harmônica e rítmica. As guitarras também merecem atenção, tanto pelo trabalho de arranjo quanto pela contribuição para a dinâmica da música. Mais uma vez, os backing vocals são empregados com precisão, conduzindo a um refrão de forte apelo melódico, próximo do hard rock melódico. Ao longo de seus mais de sete minutos, a faixa transita entre diferentes territórios, incluindo passagens que remetem ao metal tradicional e ao melodic metal. Essa diversidade não soa como um exercício gratuito de estilo, mas como uma extensão coerente da proposta do álbum.
Cry Wolf recupera uma abordagem mais direta, sem abrir mão dos atributos que definem o Seventh Wonder. Em determinados momentos, a interpretação de Olofsson remete a James LaBrie, uma das referências vocais mais reconhecidas do metal progressivo. O refrão é imediato e bastante melódico, sustentado por camadas de backing vocals que ampliam sua dimensão. A integração entre baixo e bateria também merece destaque: a seção rítmica trabalha em perfeita sintonia com os demais instrumentos, mantendo a precisão necessária mesmo diante da riqueza de detalhes dos arranjos. A mixagem permite distinguir com clareza as diferentes linhas instrumentais e vocais, um aspecto fundamental para que a complexidade da música seja apreciada em toda a sua extensão.
A produção de VII merece um parágrafo próprio. Em uma banda cuja proposta depende tanto da interação entre instrumentos, vozes e camadas de arranjos, o equilíbrio entre definição e impacto é essencial. Aqui, a mixagem permite que os detalhes sejam percebidos sem exigir do ouvinte sucessivas audições para identificar os elementos que compõem cada música. O resultado valoriza tanto o virtuosismo individual quanto o trabalho coletivo, preservando a clareza mesmo nos momentos de maior densidade instrumental. É uma produção à altura das ambições musicais do Seventh Wonder.
A opção por The Storm é particularmente corajosa para um álbum que também funciona como apresentação de um novo vocalista. Sem guitarras, baixo ou bateria, a faixa se sustenta exclusivamente em piano, orquestrações e voz. Olofsson assume uma interpretação teatral, explorando as possibilidades expressivas de sua voz em uma composição essencialmente melódica. Os arranjos de piano e cordas são bem construídos, enquanto os backing vocals surgem nos momentos certos, reforçando a dramaticidade sem sobrecarregar a música. A ausência da instrumentação habitual permite que o vocalista demonstre outras facetas de sua interpretação e acrescenta uma pausa bem-vinda à sequência do álbum. É um momento diferente, elegante e bastante agradável.
A guitarra, o baixo e a bateria voltam a ocupar o primeiro plano em Silver Lining, composição que retoma as mudanças de andamento e a arquitetura progressiva características do grupo. Os diferentes segmentos são organizados com cuidado, sem que a música perca o direcionamento melódico. O refrão, que ganha intensidade em relação aos versos, é o principal destaque e demonstra novamente a capacidade da banda de conciliar sofisticação instrumental e apelo imediato. Trata-se de uma faixa que poderia facilmente figurar em qualquer um dos trabalhos anteriores do Seventh Wonder, reafirmando a continuidade de sua identidade musical e oferecendo aos fãs os elementos que esperam encontrar.
Na reta final, Echoes funciona como uma breve vinheta de pouco mais de um minuto, reduzindo o arranjo a voz e violão. A simplicidade da passagem coloca novamente Olofsson em evidência e prepara o terreno para Ad Infinitum, encerramento épico que ultrapassa os nove minutos. Após preservar inicialmente a atmosfera acústica, a composição se transforma gradualmente em uma extensa jornada pelo universo do rock e do metal progressivo.
A introdução evoca, em determinados momentos, os grandes nomes do rock progressivo, enquanto o desenvolvimento vocal e instrumental aproxima a faixa de referências mais associadas ao Dream Theater. O refrão, de forte apelo melódico, ganha proporções épicas com um amplo conjunto de backing vocals e arranjos vocais particularmente grandiosos. Os timbres de teclado também merecem destaque, contribuindo decisivamente para a atmosfera cinematográfica da composição.
Como não poderia deixar de ser, Ad Infinitum oferece espaço para que todos os músicos demonstrem suas habilidades. Há solos de baixo, guitarra, piano e teclado, integrados à estrutura da música sem comprometer seu desenvolvimento. A bateria é igualmente irrepreensível, acompanhando as sucessivas mudanças de levada com precisão e versatilidade. Longe de se transformar em uma simples demonstração de técnica, a faixa utiliza o virtuosismo como parte de uma construção maior, na qual melodias, arranjos e dinâmica trabalham em conjunto para produzir um encerramento à altura do repertório.
VII confirma que o Seventh Wonder não precisa renunciar à própria identidade para iniciar um novo capítulo. Mattias Olofsson se integra à banda com uma naturalidade surpreendente, oferecendo uma abordagem vocal distinta sem descaracterizar as composições. Ao mesmo tempo, o grupo amplia seu campo de exploração, aprofundando o diálogo entre o metal progressivo, o rock progressivo e passagens de forte apelo melódico. O resultado é um álbum consistente, tecnicamente refinado e repleto de arranjos cuidadosamente elaborados, no qual a complexidade nunca elimina a importância das melodias. VII representa a reafirmação de uma banda que, após mais de duas décadas de carreira, ainda encontra espaço para evoluir sem perder aquilo que a tornou reconhecível.
Segue a versão em inglês, com adaptação editorial para soar como uma resenha originalmente escrita em inglês, seguindo a linha de publicações como Metal Hammer e Classic Rock. Mantive suas impressões sobre cada faixa, as comparações musicais e os destaques instrumentais, preservando o conteúdo da versão em português.
***ENGLISH VERSION***
After a period of silence following 2022’s The Testament, Swedish progressive metal veterans Seventh Wonder return with VII, their seventh studio album and the first to feature new vocalist Mattias Olofsson, who takes over from Tommy Karevik. Due for release in January 2027 via Frontiers Music Srl, the record ushers in a new chapter for the band while retaining the key ingredients that have defined their sound for more than two decades: sophisticated arrangements, instrumental virtuosity, shifting time signatures and, above all, a keen melodic sensibility. Rather than representing a radical departure, the change behind the microphone provides an opportunity to explore fresh nuances within an established musical identity.
Opening with lead single Memories is a statement of intent. From the opening bars, the familiar Seventh Wonder sound is unmistakable, from the instrumental tones to the rhythmic twists and turns. The progressive metal framework is firmly in place, but melody remains at the heart of the composition, particularly in the vocal lines. The chorus is immediately memorable and offers the first opportunity to appreciate the differences between Karevik and his successor. Olofsson’s voice is softer and less forceful than that of the former frontman, bringing a fresh character to the band without diminishing the song’s impact. His performance is assured throughout, and his integration into the group’s sound feels remarkably natural.
Riverside takes a more overtly progressive approach. A distinctive piano introduction sets the scene before the rest of the band enters with an unconventional rhythmic pattern, over which Olofsson delivers another melodic vocal performance. The chorus is more direct, its impact enhanced by carefully arranged backing vocals. The interplay between bass and piano provides one of the track’s most compelling moments, while the vocal harmonies deserve particular praise for their precision and attention to detail. It is a fine example of Seventh Wonder’s ability to balance instrumental complexity with accessibility without compromising either.
At just over seven minutes, The Villain and the Whisper expands the album’s musical palette considerably. Familiar guitar and bass tones are joined by less expected elements, including near-growled vocal passages that contrast sharply with Olofsson’s clean, understated delivery. The extended running time gives the band ample room to explore a succession of changes and textures, yet the composition never loses its cohesion. It is the album’s most overtly progressive track so far, showcasing the musicians’ command of their instruments while adding new dimensions to the Seventh Wonder sound. More than simply demonstrating technical prowess, the arrangement reveals a band willing to push its established formula into more adventurous territory.
Evermore initially suggests a ballad, although such a straightforward label hardly does justice to the range of ideas contained within its expansive structure. Elegant piano and orchestral arrangements provide the backdrop for another accomplished vocal performance, while the bass takes a prominent role in shaping the song’s rhythmic and harmonic foundations. The guitar work is equally noteworthy, contributing both texture and dynamics to the arrangement. Once again, the backing vocals are expertly handled, leading into a chorus with a strong melodic pull and a distinctly melodic hard rock flavour. Across its seven-plus minutes, the track moves between different musical territories, incorporating elements of traditional metal and melodic metal without losing sight of the band’s progressive foundations. The stylistic variety feels entirely organic, serving the composition rather than distracting from it.
Cry Wolf returns to a more direct approach while retaining all the hallmarks of Seventh Wonder’s sound. At times, Olofsson’s delivery recalls James LaBrie, one of progressive metal’s most recognisable vocalists. The chorus is immediate and highly melodic, with layered backing vocals adding depth and impact. The chemistry between bass and drums is another highlight, the rhythm section working in perfect synchronisation with the instrumental arrangements. Despite the density of the music, every element remains clearly audible, from the individual instrumental lines to the intricate layers of lead and backing vocals. That clarity allows the listener to appreciate the detail without losing sight of the song’s overall impact.
The production deserves special mention. For a band whose music relies so heavily on the interplay between instruments, vocal layers and intricate arrangements, achieving the right balance between definition and impact is essential. VII succeeds on that front, allowing individual details to emerge without requiring repeated listens to uncover the elements buried within the mix. The result highlights both the musicians’ individual abilities and their collective chemistry, maintaining clarity even during the album’s densest passages. It is a polished production that serves the music’s ambitions without sacrificing its energy.
The decision to include The Storm is a particularly bold move on an album that also introduces a new vocalist. Dispensing entirely with guitars, bass and drums, the track relies solely on piano, orchestration and voice. Olofsson delivers a theatrical performance, exploring the expressive possibilities of his voice within an essentially melodic framework. The piano and orchestral arrangements are beautifully constructed, while the backing vocals appear at precisely the right moments, enhancing the drama without overwhelming the composition. Stripped of the band’s customary instrumentation, the song allows the new singer to reveal another side of his abilities and provides a welcome change of pace. Elegant, engaging and refreshingly different, it is one of the album’s most distinctive moments.
Guitars, bass and drums return to the foreground on Silver Lining, a track that revisits the shifting time signatures and intricate structures associated with the band. Its various sections are carefully assembled, yet the music never loses its melodic direction. The chorus, which builds in intensity from the verses, is the main attraction, demonstrating once again Seventh Wonder’s ability to reconcile progressive sophistication with immediate appeal. This is a track that could comfortably sit alongside material from any of the band’s previous albums, reaffirming the continuity of their musical identity and delivering precisely the qualities long-time fans will be hoping to hear.
As the album approaches its conclusion, Echoes serves as a brief, little-over-a-minute interlude built around nothing more than voice and acoustic guitar. The stripped-back arrangement once again places Olofsson firmly in the spotlight, setting the stage for Ad Infinitum, an epic closing statement that stretches beyond the nine-minute mark. Initially retaining the acoustic atmosphere established by its predecessor, the composition gradually unfolds into an expansive journey through progressive rock and metal.
The opening passages occasionally evoke the genre’s classic pioneers, while the vocal and instrumental development brings Dream Theater to mind. The chorus is strongly melodic, elevated by a broad ensemble of backing vocals that gives the track an unmistakably epic character. The vocal arrangements are particularly grand, while the keyboard tones contribute significantly to the composition’s cinematic atmosphere.
As expected, Ad Infinitum also provides ample room for each musician to shine. Bass, guitar, piano and keyboard solos are woven into the song’s structure without disrupting its momentum. The drumming is equally impressive, navigating the successive rhythmic shifts with precision and versatility. Rather than becoming a mere showcase for technical ability, the track uses its instrumental fireworks in service of a larger musical vision, bringing melody, arrangement and dynamics together for a finale worthy of the album.
VII confirms that Seventh Wonder can embrace a new chapter without abandoning the qualities that have made the band distinctive. Mattias Olofsson settles into his role with surprising ease, bringing a different vocal character to the material without compromising its identity. At the same time, the band broadens its musical horizons, exploring the relationship between progressive metal, progressive rock and more overtly melodic passages. The result is a cohesive, meticulously crafted album in which technical sophistication never comes at the expense of memorable songwriting. VII represents the reaffirmation of a band that, after more than two decades, continues to evolve while remaining unmistakably itself.
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| Tallee Savage |

