quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Golpe de Estado – 21/12/2025 – Carioca Club/SP

O dia 21 de dezembro de 2025 marcou o ponto final de uma jornada de 40 anos, um adeus grandioso e emocionante da banda Golpe de Estado. Intitulado de forma poética e impactante como “O Último Golpe”, o evento reuniu fãs de todas as gerações, amigos, ex-integrantes e uma constelação de convidados para celebrar o legado de uma das maiores referências do hard rock brasileiro. Quase três horas de pura energia, nostalgia e gratidão marcaram uma despedida digna da história que a banda construiu.

O Golpe de Estado surgiu em meados dos anos 1980, em São Paulo, estabelecendo-se rapidamente como um dos pilares do hard rock e do heavy metal brasileiro. Sua formação clássica, que eternizou discos como Golpe de Estado (1986) e Nem Polícia, Nem Bandido (1988), contava com a voz inconfundível de Catalau, a guitarra virtuosa de Hélcio Aguirra, o baixo e as letras poéticas de Nelson Britto e a bateria potente de Paulo Zinner. Ao longo dos anos, a banda passou por diversas mudanças, com João Luiz assumindo os vocais em uma fase posterior e músicos como Kiko Miller, Tadeu Dias e Mateus Schanoski contribuindo para a evolução e a continuidade do som. Apesar das trocas, a essência do Golpe de Estado foi mantida, com um rock direto e visceral, além de letras que refletiam o cotidiano e as angústias urbanas, conquistando uma legião de fãs fiéis.

Antes que as primeiras notas ecoassem pelo Carioca Club, a atmosfera já era de profunda reverência. Um vídeo emocionante, projetado no telão, levou o público a uma viagem no tempo, revisitando momentos marcantes da trajetória do Golpe de Estado, desde seus primórdios até os dias atuais. Imagens raras, trechos de shows históricos e depoimentos costuraram a narrativa de uma banda que, por quatro décadas, manteve a chama do rock acesa no cenário nacional.

Com a formação atual composta por João Luiz (vocal), Marcelo Schevano (guitarra), Fabio Cezzar (baixo) e Roby Pontes (bateria), a banda deu início ao show com a explosiva “Quantas Vão”. João Luiz dominou o palco desde os primeiros segundos e, ao final da música, resumiu o espírito da noite com poucas palavras, ditas entre gratidão e melancolia: “Sejam bem-vindos ao Último Golpe”. Em seguida, “Não Faz Mal” manteve a energia em alta, enquanto o vocalista prometia uma noite longa, repleta de surpresas e amigos dividindo o palco. As canções “Não É Hora” e “Pra Conferir” ganharam novos contornos com a presença de Mateus Schanoski nos teclados. Embora integrante da formação atual, ele foi apresentado como convidado especial e recebeu uma calorosa resposta do público, acrescentando camadas sonoras que enriqueceram o hard rock característico da banda.

“Janis” trouxe à tona a força das letras de Nelson Britto. João Luiz fez questão de homenagear o ex-baixista e o ex-guitarrista Hélcio Aguirra, lembrando que ambos estariam orgulhosos daquela celebração. A emoção cresceu ainda mais quando Kiko Miller, ex-vocalista da banda, subiu ao palco para “Pra Poder”. João Luiz literalmente passou o bastão ao amigo, destacando sua importância e contribuição para a história do Golpe de Estado.

O impacto foi ainda maior em “Libertação Feminina”. Ovacionado, Kiko Miller participou de um dos momentos mais intensos da noite, com a plateia cantando em uníssono e reforçando a atualidade da mensagem da música. Em “Forçando a Barra”, João Luiz e Kiko dividiram os vocais e o palco, simbolizando a união entre diferentes fases da banda.

A sonoridade ganhou novos ares em “Olhos Vendados”, com a entrada de Bocato no trombone e a participação do ex-guitarrista Tadeu Dias, que substituiu Hélcio Aguirra logo após seu falecimento. Essa fusão se aprofundou em “Tudo Que Vem Fácil” e “Caosmópolis”, quando o saxofone de Neurozen se somou aos metais, criando uma atmosfera sofisticada e inesperada para o hard rock da banda. “Caosmópolis”, em especial, destacou mais uma vez a genialidade lírica de Nelson Britto, com vocais inspirados no rap, segundo João Luiz, a pedido do próprio Nelson.

“Moondog” elevou ainda mais o nível com a participação de Rodrigo Hid, ex-guitarrista do Patrulha do Espaço e figura lendária do rock nacional, acrescentando peso, história e respeito ao palco. Em seguida, “Zumbi”, um dos grandes clássicos da banda, fez o público cantar cada verso, relembrando a icônica participação de Rita Lee na versão de estúdio. Um dos momentos mais surpreendentes da noite aconteceu em “Paixão”. O jornalista e apresentador Celso Cardoso subiu ao palco declarando que o Golpe de Estado é, em suas palavras, “a maior banda de hard rock do Brasil”. Para surpresa geral, entregou uma performance vocal segura e emocionante, arrancando aplausos sinceros da plateia.

A emoção continuou com a entrada de Rogério Fernandes em “Todo Mundo Tem Um Lado Bicho”. Visivelmente emocionado, ele confessou estar à beira das lágrimas e fez questão de vestir uma camiseta da banda Malvada, exaltando o protagonismo feminino no rock. A parceria seguiu em “Cobra Criada” e “Feira do Rato”, com Rogério e João Luiz dividindo os vocais em um clima de cumplicidade e celebração.

Até esse momento, o show já era espetacular, mas a expectativa aumentou quando João Luiz anunciou a volta do vocalista original, Catalau. O Carioca Club veio abaixo. Ansioso e emocionado, Catalau retornou ao palco sendo recebido como um ícone, iniciando sua participação com “Dias de Glória”, cantada pelos fãs como um verdadeiro hino.

Após o solo de bateria de Roby Pontes, que demonstrou toda a força rítmica que sempre impulsionou a banda, Catalau voltou a dividir os vocais com João Luiz em “Onde Há Fumaça, Há Fogo”, unindo duas vozes fundamentais da história do Golpe de Estado. A sequência com “Filho de Deus” e “Real Valor” emocionou os fãs, mas quando Catalau pegou o violão para tocar “Olhos de Guerra” e “Caso Sério”, muitos não conseguiram conter as lágrimas. Da emoção à nostalgia, “Velha Mistura” reforçou o carisma de Catalau e sua conexão com o público, afinal, um rei nunca perde sua majestade.

Antes de “Terra de Ninguém”, Catalau fez questão de agradecer aos fãs, afirmando que tudo o que conquistou ao longo da carreira foi graças a eles. O momento, marcado por humildade e respeito, demonstrou que o tempo fez bem a todos. Com todos os convidados no palco, “Nem Polícia… Nem Bandido” e “Noite de Balada” transformaram-se em uma grande festa, coroando a celebração e a despedida dessa importante banda brasileira. Durante “Noite de Balada”, em um gesto retribuição, Catalau sentou-se na beirada do palco e distribuiu autógrafos aos fãs. Nem precisa dizer que esses grandes hinos levaram todos a cantarem juntos, transformando o Carioca Club em uma única voz, celebrando liberdade, atitude e resistência. Um encerramento emocionante a essa apresentação incrível.

O Último Golpe não foi apenas o fim de uma banda. Foi a despedida de uma era, de uma sonoridade que marcou gerações e de uma paixão inabalável pelo rock. As quase três horas de show, repletas de convidados, emoção e um setlist impecável, provaram que o Golpe de Estado encerra sua trajetória em grande estilo. A banda pode ter dado seu último golpe nos palcos, mas sua música e seu legado continuam vivos, ecoando e inspirando novas gerações. Apesar da ausência de Paulo Zinner, baterista da formação original, foi uma noite histórica para o rock nacional, um adeus que ficará gravado na memória de todos que testemunharam a grandeza do Golpe de Estado. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: TC7 Produções 



Golpe de Estado – setlist:

Quantas Vão

Não Faz Mal

Não É Hora

Pra Conferir

Janis

Pra Poder

Libertação Feminina

Forçando a Barra

Olhos Vendados

Tudo Que Vem Fácil

Caosmópolis

Moondog

Zumbi

Paixão

Todo Mundo Tem Um Lado Bicho

Cobra Criada

Feira Do Rato

Dias De Glória

Onde Há Fumaça, Há Fogo

Filho De Deus

Real Valor

Olhos De Guerra

Caso Sério

Velha Mistura

Terra De Ninguém

Nem Polícia... Nem Bandido

Noite De Balada 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Tiamat – 15/12/2025 – Carioca Club/SP

A noite de segunda-feira (15), no Carioca Club, marcou um retorno muito aguardado para os fãs brasileiros do Tiamat. Após 16 longos anos de ausência, a lendária banda sueca de doom/gothic metal escolheu São Paulo para encerrar sua turnê latino-americana, em um evento que, apesar da data pouco convencional, transformou-se em uma noite inesquecível. A expectativa era grande e, mesmo com a desvantagem de um show em plena segunda-feira, que naturalmente impactou a presença do público, aqueles que compareceram demonstraram uma paixão e devoção que valiam por uma multidão.

O início da apresentação teve um pequeno atraso de 15 minutos, mas o que poderia ser um inconveniente rapidamente se transformou em um momento memorável para os presentes. De cima do palco, o carismático vocalista Johan Edlund aproveitou a espera para autografar álbuns, camisetas e outros itens que os fãs estendiam em sua direção. Esse gesto inesperado agradou profundamente os fãs mais ardorosos, que fizeram questão de prestigiar a banda, criando uma atmosfera de cumplicidade e gratidão mútua. A felicidade estava estampada em cada rosto e, a cada autógrafo, a certeza de que seria uma noite especial se consolidava.

Especialmente notável foi a postura da banda. Longe de se abalar com o número de presentes, o Tiamat entregou uma performance impecável, como se estivesse tocando para um estádio lotado. A experiência de décadas e a paixão pela música transbordavam de cada integrante, transformando o Carioca Club no lugar perfeito para se vivenciar aquele momento. Os riffs melancólicos, os vocais profundos e a atmosfera densa, marcas registradas do Tiamat, preencheram o ambiente, e a banda conectou-se de forma intensa com cada fã que fez questão de testemunhar esse momento histórico. A resposta calorosa transformou o show quase em um encontro entre velhos conhecidos, algo que a banda pareceu valorizar a cada música.

O setlist, uma verdadeira viagem pela discografia da banda, começou com a força de “Church of Tiamat”, estabelecendo o tom sombrio e envolvente da noite. Clássicos absolutos como “In a Dream”, “Clouds” e a icônica “The Sleeping Beauty” foram recebidos com entusiasmo, transportando os fãs de volta às raízes do som que os conquistou. A precisão instrumental e a entrega emocional em cada nota provaram que o Tiamat não apenas retornou, mas o fez em sua melhor forma, revivendo a magia de seus álbuns mais aclamados.

A jornada musical continuou com uma seleção que contemplou diferentes fases da carreira, passando por “Divided”, “Will They Come?”, “Cain” e a hipnotizante “Love in Chains”. Faixas como “Phantasma De Luxe”, “Brighter Than the Sun” e, especialmente, “Wildhoney” e “Whatever That Hurts”, esta última considerada um hino por muitos, levaram o público a cantar em coro, ecoando anos de espera. A banda soube dosar a melancolia com momentos de pura intensidade, mantendo os fãs imersos em sua sonoridade única.

Para encerrar a noite e a turnê, o Tiamat brindou o público com uma sequência poderosa que incluiu “The Ar”, “Do You Dream of Me?”, “Visionaire”, “Cold Seed”, “Wings of Heaven”, “Vote for Love” e “25th Floor”, culminando com a épica “Gaia”. Cada música foi uma celebração da longevidade e da relevância da banda, provando que o tempo apenas solidificou seu legado. Foi uma despedida à altura: um show que, apesar das circunstâncias, tornou-se um testemunho da lealdade dos fãs brasileiros e da maestria de uma banda que, mesmo após tanto tempo, ainda tem muito a oferecer. O Carioca Club foi palco de um retorno tardio, porém honesto e intenso, que comprovou que a conexão entre o Tiamat e o Brasil segue viva, mesmo depois de 16 anos de espera. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Cacique Entertainment



Tiamat – setlist:

Church of Tiamat

In a Dream

Clouds

The Sleeping Beauty

Divided

Will They Come?

Cain

Love in Chains

Phantasma De Luxe

Brighter Than the Sun

Wildhoney

Whatever That Hurts

The Ar

Do You Dream of Me?

Visionaire

Cold Seed

Wings of Heaven

Vote for Love

25th Floor

Gaia 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Rhapsody Of Fire – 14/12/2025 – Carioca Club/SP

A noite do último dia 14, no Carioca Club, em São Paulo, foi palco de uma verdadeira odisseia sonora, com o Rhapsody of Fire entregando uma jornada épica que celebrou tanto seu trabalho mais recente, “Challenge the Wind” (2024), quanto o 25º aniversário do clássico “Dawn of Victory”. A expectativa era grande, e a banda italiana, mesmo com a ausência forçada do tecladista Alex Staropoli, devido a problemas de saúde, prometeu e entregou uma performance memorável. Abrindo a noite, a banda brasileira Cova Rasa aqueceu o público com sua energia, preparando o terreno para a tempestade sinfônica que estava por vir.

Responsável por abrir a noite no Carioca Club, o Cova Rasa mostrou por que vem conquistando espaço no cenário do metal nacional. Diante de um público que chegava aos poucos, mas já atento, a banda entrou no palco com postura segura e um som bem ajustado, algo que geralmente não é muito comum em shows de abertura. Abrindo a apresentação com “The Red Mansion” e “Borley Rectory”, a banda deixou clara sua proposta musical. “Heartbreakers Hunter” e “Countess of Blood” mantiveram o público envolvido, com refrões fortes e clima épico, enquanto “Reaper’s Rival” e “King of Ghouls” trouxeram um peso maior ao set. Na reta final, “Dr. Death” e “Black Shadow” encerraram a apresentação com energia e personalidade, consolidando um show coeso que agradou bastante quem chegou cedo ao Carioca Club.

Com a formação composta por Giacomo Voli nos vocais, Roby De Micheli nas guitarras, Alessandro Sala no baixo e Paolo Marchesich na bateria, o Rhapsody of Fire subiu ao palco sob uma recepção calorosa. O show teve início com a grandiosidade de “The Dark Secret”, seguida pela fúria de “Unholy Warcry” e pela intensidade de “Rain of Fury”, que imediatamente transportaram a plateia para os reinos fantásticos da banda. A presença de palco de Giacomo Voli mostrou-se magnética, e a coesão instrumental, mesmo sem a presença de Alex, evidenciou a força e a experiência da banda. 

Um dos momentos mais tocantes da noite ocorreu durante “I’ll Be Your Hero”, dedicada a Alex Staropoli, gesto que emocionou profundamente os fãs e evidenciou a união da banda. A emoção deu lugar à interação calorosa em “Chains of Destiny”, quando Giacomo Voli surpreendeu a todos ao cantar “parabéns” para uma fã chamada Priscila e, fiel à promessa feita minutos antes, desceu do palco para cantar no meio da plateia, criando uma conexão genuína e inesquecível. A magia seguiu com a execução envolvente de “The Magic of the Wizard’s Dream”, que hipnotizou o público presente.

O repertório transitou com maestria entre o novo e o clássico, apresentando faixas de “Challenge the Wind”, como a música-título e “Kreel’s Magic Staff”, que se integraram perfeitamente aos hinos consagrados da carreira. A celebração dos 25 anos de “Dawn of Victory” foi um dos pontos altos da noite, com a canção sendo entoada em uníssono pelo público. Um incidente inesperado durante “Triumph for My Magic Steel”, marcado por uma queda de energia de alguns minutos, acabou se tornando um momento memorável: ao perguntar se retomariam do trecho interrompido ou recomeçariam a música, Giacomo ouviu uma resposta enfática dos fãs, que levou a banda a reiniciar a canção do início, ganhando ainda mais o respeito dos presentes.

A parte final do show foi um verdadeiro deleite sonoro. Após a apresentação dos integrantes, a banda mergulhou em uma sequência de clássicos que culminou em uma apoteose. “Dargor, Shadowlord of the Black Mountain” preparou o terreno para a explosão de “Holy Thunderforce”, “A New Saga Begins” e “Land of Immortals”, mantendo a intensidade no nível máximo. O grand finale com “Emerald Sword” foi épico, com Giacomo Voli instigando um wall of death, transformando o Carioca Club em uma verdadeira arena, com o público entregue ao último mosh da noite.

Ao final, o Rhapsody of Fire deixou o palco do Carioca Club com a certeza de ter entregado uma performance que superou as expectativas. Apesar da ausência de Alex Staropoli, a banda demonstrou resiliência e paixão, honrando seu legado e apresentando um show vigoroso. Foi uma noite de power metal sinfônico em sua essência mais pura, repleta de momentos emocionantes, intensa interação com os fãs e uma energia contagiante, reafirmando o status do Rhapsody of Fire como uma das maiores forças do gênero e deixando uma marca duradoura na memória dos presentes. 

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: André Tavares

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Dark Dimensions

Press: JZ Press


Rhapsody of Fire – setlist:

The Dark Secret

Unholy Warcry

Rain of Fury

I'll Be Your Hero

Chains of Destiny 

The Magic of the Wizard's Dream

Challenge the Wind

Kreel’s Magic Staff

Lux Triumphans

Dawn of Victory

Triumph for My Magic Steel 

The Village of Dwarves

Dargor, Shadowlord of the Black Mountain

Holy Thunderforce

A New Saga Begins

Land of Immortals

Emerald Sword

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Loserville Gringo Papi Tour – 20/12/2025 – Allianz Parque/SP

Loserville Gringo Papi Tour transforma o Allianz Parque em caos coletivo com Bullet For My Valentine e Limp Bizkit

A tão aguardada edição do “mini festival” Loserville Gringo Papi Tour desembarcou no Brasil no último sábado, 20/12, reunindo nomes como Slay Squad, Riff Raff, Ecca Vandal, Bullet for My Valentine, que entrou como substituição após o cancelamento do Yungblud e o aguardado headliner da noite, Limp Bizkit.

A equipe do Road To Metal esteve presente e relata abaixo como foi a experiência do que se consolidou como o último grande festival de metal a encerrar o ano de 2025, marcando o calendário com peso, nostalgia e muita energia.


Slay Quad

O grupo californiano Slay Squad, que mistura hip hop, death metal e elementos industriais, foi responsável por abrir as apresentações do dia, enfrentando um calor intenso e um público que ainda chegava timidamente ao local.

O show teve início por volta das 16h10 e contou com cerca de 30 minutos de duração, encerrando-se às 16h40.

Ainda pouco conhecida por parte do público brasileiro, a banda chamou atenção pelo estilo agressivo de se apresentar, sobretudo pela energia constante de seus integrantes, que não economizaram na interação: ao longo do set, foram arremessados diversos itens de merch para a plateia, camisetas, palhetas e até um tênis, lançado pelo vocalista Brahim Grousse.

Riff Raff

O rapper americano Riff Raff, nome artístico de Horst Christian Simco, subiu ao palco às 16h55 para uma apresentação solo, sem banda de apoio. Com um setlist curto, figurino extravagante e pouco carisma, o artista teve dificuldades em prender a atenção do público, que também pareceu não compreender totalmente sua proposta de estética caricata.

O mini show durou cerca de 15 minutos, encerrando-se por volta das 17h10, deixando uma impressão morna e sem grande impacto na plateia.

Ecca Vandal

Em sua estreia em solo brasileiro, a artista sul-africana Ecca Vandal levou ao público presente uma energia e carisma distintos. Vestindo uma camiseta do Sepultura, com letras rápidas, muita dança e um forte “gingado”, a cantora que mescla punk e hip hop, conseguiu elevar o clima do festival, recuperando a energia que havia sido deixada pela atração anterior.

Com um setlist ainda curto, consequência da quantidade de artistas escalados para a noite, a apresentação teve cerca de 30 minutos, tempo suficiente para deixar uma excelente impressão em todos os presentes e marcar positivamente sua primeira passagem pelo país.

311

A banda americana 311 foi a primeira atração do dia a contar com mais tempo de palco e um setlist completo. Conhecida por mesclar rock alternativo, hip hop e reggae, a sonoridade do grupo é bastante familiar aos fãs de Sublime, por exemplo.

Liderada pelo vocalista Nick Hexum, a banda entregou uma performance que equilibrou momentos de energia, como em “Down” e “Come Original”, e com passagens mais melancólicas, destacando “Love Song”, cover do The Cure.

A sinergia entre os vocais de Hexum e Doug "SA" Martinez (DJ e também vocalista) evidenciou o entrosamento da banda no palco. A apresentação contou com 10 músicas e teve duração aproximada de 1 hora, sendo um dos pontos altos da tarde.

Bullet For My Valentine

A Bullet for My Valentine foi a primeira grande banda a se apresentar no dia. A participação do grupo galês veio após o cancelamento, por problemas de saúde, do artista Yungblud. Muitos fãs e inclusive este que vos escreve, consideraram a troca melhor do que o line-up inicial, algo que o Bullet For My Valentine fez questão de provar logo na primeira música.

A banda havia prometido executar na íntegra seu álbum de estreia, The Poison, lançado em 2005. Bastaram os primeiros acordes para ficar claro o porquê de o Bullet ter sido a melhor escolha possível como banda de abertura para o Limp Bizkit.

Logo nos primeiros segundos, entregando todo seu scream rasgado, Matthew Tuck, mais conhecido como Matt, incendiou o público com “Her Voice Resides”. A sequência veio com “4 Words (To Choke Upon)”, e nada acompanhou melhor a banda do que moshpits intensos, que surgiam por todos os lados. O público estava tão eufórico que sinalizadores vermelhos tomaram conta do espaço.

Sem dar tempo para respirar, “Tears Don’t Fall” entrou como uma verdadeira pedrada: muitos cantavam, muitos se jogavam no mosh, e muitos faziam as duas coisas ao mesmo tempo. Vale destacar que, mesmo após 20 anos do lançamento do álbum, a voz de Matt soa praticamente idêntica à de estúdio, sem oscilações. Os backing vocals de Jamie Mathias acompanham o frontman de forma magistral.

A sequência seguiu com “Suffocating Under Words of Sorrow (What Can I Do)” e “Hit the Floor”. Para dar um breve respiro após tantos pulos e rodas, veio a já clássica “All These Things I Hate (Revolve Around Me)”. Mas a calmaria durou pouco: em “Hand of Blood”, qualquer pausa foi deixada de lado. Sendo uma das faixas perfeitas para rodas punk, o que se viu foi um verdadeiro redemoinho de moshpits, novamente tingidos de vermelho pelos sinalizadores, um espetáculo tanto da banda quanto dos fãs.

Já se encaminhando para o final, “Room 409” e a faixa-título “The Poison” mantiveram o público em êxtase. A todo momento, Matt agradecia o público brasileiro, e a banda parecia tão empolgada quanto os fãs, que não viam o grupo no país desde 2022, quando passaram pelo Rock in Rio e um apresentação solo na Audio.

“Cries in Vain” sinalizou que a apresentação se aproximava do fim. A dobradinha final com “The End” e “Waking the Demon” encerrou o set, mas não a energia. Os fãs abriram a maior roda punk da noite até então, aquecendo definitivamente os motores para o headliner que viria a seguir.

Após aproximadamente 1h10 de apresentação, o Bullet for My Valentine mostrou toda a sua força e deixou claro o porquê de ter sido a escolha perfeita para a noite, reunindo fãs, incendiando o público e criando a atmosfera ideal para a sequência do festival.

Limp Bizkit

Todo o aquecimento e a energia deixados pelo Bullet For My Valentine vieram à tona quando o Limp Bizkit finalmente subiu ao palco. Com o estádio lotado e o público em êxtase antes mesmo da aparição dos integrantes, rolou uma singela e respeitosa homenagem ao ex membro Sam Rivers, faleceu em 18 de Outubro aos 48 anos.

Aos poucos, os membros da banda começaram a dar as caras e, logo nos primeiros segundos de “Break Stuff”, o público simplesmente não se conteve. Toda a energia que havia sido economizada durante as apresentações anteriores foi liberada de uma vez só, já no início do show.

Moshs, pulos, gritos, coros e muitos, muitos mesmos - sinalizadores tomaram conta do espaço. Era visível que o público parecia estar se guardando justamente para aquele momento e, como a própria música traduz, todos pareciam prontos para “quebrar alguma coisa”.

“Ladies and gentlemen, introducing the chocolate starfish and the hot dog flavored water”. A introdução marcante de “Hot Dog” trouxe ainda mais ritmo e energia ao palco, elevando o nível do show e mantendo o público em constante explosão.

Em “Show Me What You Got”, ficou evidente tudo aquilo que popularizou o Limp Bizkit: riffs marcantes, as rimas e o rap característicos de Fred Durst, além de DJ Lethal em plena ação, reforçando a identidade sonora de Nu metal, que consagrou a banda.

A sequência veio sem fôlego, com “My Generation” e “Livin’ It Up”, duas faixas que incendiaram ainda mais o público e transformaram o estádio em um verdadeiro caos controlado, com rodas, pulos e coros ecoando por todos os lados.

Para melhorar o que já estava bom, vieram “My Way” e, na sequência, “Rollin (Air Raid Vehicle)”, a faixa perfeita para quem quer cantar, dançar ou simplesmente se jogar no meio da galera enquanto se diverte sem pensar no amanhã.

“Re-Arranged” e “Behind Blue Eyes” vieram para acalmar os ânimos e dar tempo para todos respirarem, e incluo nisso tanto o público quanto a própria banda. Em seguida, com o estádio inteiro iluminado pelos flashes dos celulares, o clima se transformou em um verdadeiro momento de celebração coletiva durante “Behind Blue Eyes”.

Arrisco dizer que a canção ganha outra atmosfera na interpretação do Limp Bizkit, encaixando-se perfeitamente à proposta do grupo e, para muitos, inclusive este que escreve, tornando-se ainda mais impactante do que a versão original do The Who.

Após esse breve momento de celebração coletiva, a banda voltou a todo vapor com “Eat You Alive” e “Nookie”, recolocando o público em estado de caos e retomando a intensidade do show.

Em “Full Nelson”, tivemos uma das grandes surpresas da noite: uma fã, Bia Marcato, foi convidada a subir ao palco para cantar ao lado de Fred Durst. O momento chamou ainda mais atenção pelo talento e desenvoltura da fã, que mostrou muita atitude e conseguiu elevar ainda mais a energia da música, arrancando uma reação imediata do público.

Mantendo o nível e o ritmo da apresentação, veio “Boiler”. Na sequência, a banda surpreendeu com um pequeno trecho de “Careless Whisper”, de George Michael, cantado em coro por todo o estádio, enquanto alguns casais aproveitavam o momento para dançar e se divertir.

Acho curioso e até engraçado, como cada vez mais bandas e artistas do Metal, vêm utilizando esse clássico em suas apresentações. Esse tipo de pausa deixa o clima do show mais leve e descontraído e passa aquele recado implícito que todo mundo entende: metal não é só porradaria, também é amor e diversão.

“Faith” trouxe aquela vibe descontraída que o Limp Bizkit executa com maestria. Em seguida, veio um dos pontos mais altos da noite com “Take a Look Around”. Como o próprio Fred Durst brincou, era hora de “incorporar” Tom Cruise em Missão: Impossível.

A segunda metade da música reuniu tudo o que havia sido visto ao longo da apresentação: moshpits intensos, sinalizadores por todos os lados e o público completamente entregue. Em um momento tão inesperado quanto insano, um fã, quase em sincronia perfeita com o refrão, acendeu um rojão, que explodiu exatamente junto ao ápice da música.

Esse momento, aumentou ainda mais a sensação de loucura coletiva, elevando o clima do show, que já se encaminhava para sua última música.

Em “Break Stuff (Part 2)”, tivemos tudo o que já havia acontecido na abertura do show, porém em uma escala ainda maior e mais coletiva. O Limp Bizkit trouxe todos os artistas que haviam se apresentado anteriormente ao palco para acompanhar a execução da música, instaurando um caos absoluto e compartilhado, perfeito para encerrar a noite em altíssimo nível, após 1h40 de show.

O Loserville Tour Brasil cumpriu o que prometeu, entregando uma noite intensa, diversa e marcada por muita energia do início ao fim. Com apresentações que cresceram ao longo do dia e um encerramento caótico e memorável do Limp Bizkit, o mini festival fechou o ano em alto nível, deixando a sensação de missão cumprida para bandas e público.




Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: 30e


Limp Bizkit – setlist:

Break Stuff

Hot Dog

Show Me What You Got

My Generation

Livin’ It Up

My Way

Rollin’ (Air Raid Vehicle)

Re-Arranged

Behind Blue Eyes (The Who) — cover

Eat You Alive

Nookie

Full Nelson (participação da fã Bia no palco)

Boiler (com apresentação da banda)

Faith

Take a Look Around

Break Stuff (encerramento, com Slay Squad, RiFF RAFF, Ecca Vandal, 311 e Bullet For My Valentine no palco)