Por Flavio Borges
À medida que se aproximam de uma década de existência, os suecos do Cyhra parecem cada vez mais confortáveis em ocupar um território próprio dentro do metal moderno europeu. Nascida da união de músicos oriundos de gigantes como Amaranthe, In Flames e Kamelot, a banda sempre caminhou na delicada linha entre acessibilidade melódica e agressividade contemporânea. Em Requiem For A Pipe Dream, porém, essa identidade finalmente parece atingir seu ponto mais sólido e maduro.
Longe de simplesmente repetir a fórmula apresentada em Letters to Myself, No Halos in Hell e The Vertigo Trigger, o grupo amplia sua paleta sonora sem perder coesão. O resultado é um disco que alterna entre o metal melódico escandinavo clássico, o metal moderno carregado de elementos eletrônicos e até incursões em territórios próximos do alternative metal e do nu metal — tudo embalado por uma produção grandiosa, limpa e extremamente contemporânea.
A abertura com “Bleed With Pride” deixa claro, desde os primeiros segundos, que o álbum não pretende soar nostálgico. A base eletrônica conduz a música enquanto guitarras densas e refrões monumentais constroem uma atmosfera cinematográfica. O peso está ali, mas sempre acompanhado por melodias cuidadosamente calculadas. O solo aparece quase soterrado pela parede sonora da mixagem — escolha estética que privilegia o impacto coletivo da faixa em vez do virtuosismo individual.
Escolhida como single de divulgação, “Superman” sintetiza perfeitamente a proposta do álbum. A construção minimalista dos versos, sustentada por elementos eletrônicos e pulsação quase dançante, desemboca em um refrão enorme e imediatamente memorável. Há momentos em que a faixa flerta descaradamente com a dance music moderna, mas sem jamais abandonar a agressividade característica do grupo.
Sombria e atmosférica, “Miss Me When I’m Gone” mergulha ainda mais fundo na faceta contemporânea da banda. Os elementos eletrônicos dominam boa parte da composição, enquanto o baixo ganha protagonismo raro dentro do gênero, funcionando como eixo central entre peso e ambiência. A ausência quase total de exibicionismo instrumental revela uma banda muito mais preocupada em construir atmosfera do que em impressionar tecnicamente.
Aqui o disco muda drasticamente de direção e abraça o DNA do metal melódico escandinavo. “Ghostbound” é rápida, épica e carregada de energia, a faixa poderia facilmente dialogar com a escola clássica de Gotemburgo, ainda que os vocais mantenham uma abordagem claramente moderna. O trabalho de bateria, especialmente nos momentos de bumbo duplo, injeta intensidade quase power metal à composição. Uma das faixas mais explosivas do álbum.
A inevitável power ballad “In The Center Of A Miracle” surge com elegância e sem excessos. Piano, voz e uma condução mais orgânica permitem que a banda explore emoção sem cair no sentimentalismo barato. O grande mérito da música está justamente na contenção: em vez de recorrer a explosões exageradas ou solos intermináveis, o Cyhra aposta em dinâmica, nuances e construção melódica. O resultado é uma das faixas mais maduras do disco.
O álbum retorna ao território moderno com agressividade renovada em “Skin From Bones”. Há influências claras de nu metal, industrial e até hip hop espalhadas pela estrutura da faixa, enquanto os teclados assumem papel central na condução rítmica. Ainda assim, o grupo jamais sacrifica o senso melódico — algo que diferencia o Cyhra de tantas bandas contemporâneas que confundem peso com excesso de ruído.
Se fosse necessário escolher uma faixa para definir o álbum, provavelmente seria “Ghost I’m Meant To Be”. O equilíbrio entre peso moderno, ambiência eletrônica, melodias grandiosas e instrumental técnico aparece aqui de forma quase perfeita. As transições entre os versos e o refrão são particularmente eficientes, enquanto os efeitos orgânicos — incluindo batidas cardíacas — ajudam a ampliar a sensação cinematográfica da composição. O encerramento épico reforça ainda mais essa impressão.
Sem abandonar a fluidez do álbum, em “Mark Of My Sins” a banda mergulha novamente em uma estética fortemente contemporânea. Os vocais abusam de texturas e efeitos sem comprometer a força melódica, enquanto as guitarras alternam entre riffs secos e intervenções mais atmosféricas. Talvez seja uma das faixas que mais divide opiniões entre ouvintes tradicionais e fãs do metal moderno atual.
“Venom In Me” é uma das músicas mais equilibradas do disco. As harmonias de guitarra remetem diretamente ao metal melódico clássico, mas convivem naturalmente com timbres modernos e produção atualizada. O trabalho de baixo e bateria merece atenção especial pela riqueza de detalhes e dinâmica. Existe um cuidado evidente na construção dos arranjos, evitando que a faixa se transforme apenas em mais um exercício de fórmula escandinava.
Fortemente influenciada pela fase mais moderna do In Flames, “Box With Spirits” praticamente abandona qualquer traço mais tradicional em favor de uma abordagem totalmente contemporânea. Os vocais carregados de efeitos e as guitarras densas criam uma atmosfera pesada e urbana. Curiosamente, é justamente aqui que surge um dos solos mais inspirados do álbum — breve, mas extremamente eficiente.
“Hold Your Fire” com participação de Samy Elbanna, do Lost Society, o encerramento mergulha sem medo no território do melodic death metal finlandês. As referências a Children of Bodom são inevitáveis e aparecem tanto nas linhas de guitarra quanto na agressividade dos vocais e da cozinha rítmica. É uma faixa intensa, veloz e extremamente melódica — encerramento forte para um álbum que entende perfeitamente sua proposta.
Requiem For A Pipe Dream talvez não seja um disco pensado para puristas do metal tradicional, mas dificilmente esse foi o objetivo do Cyhra. O que a banda entrega aqui é um trabalho moderno, ambicioso e cuidadosamente produzido, capaz de dialogar tanto com a nova geração do metal europeu quanto com fãs da clássica escola melódica escandinava. Mais importante: soa como uma banda plenamente consciente de sua identidade — algo que muitos grupos veteranos ainda passam a carreira inteira tentando encontrar.
***ENGLISH VERSION***
As they approach their tenth anniversary, Sweden’s Cyhra seem increasingly comfortable occupying a territory of their own within modern European metal. Born from the union of musicians connected to giants such as Amaranthe, In Flames and Kamelot, the band has always walked the delicate line between melodic accessibility and contemporary aggression. On Requiem For A Pipe Dream, however, that identity finally reaches its most confident and mature form.
Far from simply recycling the formula presented on Letters to Myself, No Halos in Hell and The Vertigo Trigger, the group expands its sonic palette without sacrificing cohesion. The result is an album that moves effortlessly between classic Scandinavian melodic metal, modern electronic-infused heaviness, and even excursions into alternative metal and nu metal territory — all wrapped in a massive, polished and unapologetically contemporary production.
Opening track “Bleed With Pride” makes it immediately clear that nostalgia is not on the agenda here. Electronic textures drive the song forward while dense guitars and towering choruses build a cinematic atmosphere. The heaviness is undeniable, but always balanced by meticulously crafted melodies. Even the solo feels almost buried beneath the wall of sound — an aesthetic choice that favors the collective impact of the track over individual virtuosity.
Chosen as the album’s lead single, “Superman” perfectly encapsulates the record’s overall vision. The minimalist verse structure, supported by electronic elements and an almost dancefloor-ready pulse, explodes into a huge and instantly memorable chorus. At times, the song openly flirts with modern dance music, yet never abandons the band’s inherent aggression.
Dark and atmospheric, “Miss Me When I’m Gone” dives even deeper into the band’s contemporary side. Electronic elements dominate much of the composition, while the bass takes on an unusually prominent role, serving as the central axis between weight and atmosphere. The near-total absence of instrumental showmanship reveals a band far more interested in mood and texture than technical exhibitionism.
Here the album takes a sharp turn and fully embraces the DNA of Scandinavian melodic metal. Fast, epic and packed with energy, “Ghostbound” could easily sit alongside the classic Gothenburg school, even as the vocals maintain a distinctly modern approach. The drumming — especially during the relentless double-kick sections — injects a near power metal intensity into the composition. One of the album’s most explosive moments.
The inevitable power ballad, “In The Center Of A Miracle”, arrives with elegance and restraint. Piano, vocals and a more organic arrangement allow the band to explore emotion without slipping into cheap sentimentality. The song’s greatest strength lies precisely in its subtlety: instead of relying on exaggerated crescendos or endless solos, Cyhra invest in dynamics, nuance and melodic construction. The result is one of the album’s most mature compositions.
The record returns to modern territory with renewed aggression on “Skin From Bones”. Clear influences from nu metal, industrial and even hip hop are woven throughout the song’s structure, while keyboards take center stage in the rhythmic framework. Even so, the group never sacrifices melody — something that separates Cyhra from many contemporary acts that mistake heaviness for sheer noise.
If one track had to define the album, it would probably be “Ghost I’m Meant To Be”. The balance between modern heaviness, electronic ambience, massive melodies and technical musicianship is executed here almost flawlessly. The transitions between verses and chorus are particularly effective, while organic sound effects — including heartbeat pulses — amplify the song’s cinematic scope. The epic finale only reinforces that impression.
Without disrupting the album’s flow, “Mark Of My Sins” once again dives headfirst into a strongly contemporary aesthetic. The vocals lean heavily on textures and effects without losing melodic strength, while the guitars alternate between sharp-edged riffs and atmospheric passages. It may well be one of the tracks most likely to divide traditional metal listeners and fans of today’s modern metal scene.
“Venom In Me” stands as one of the album’s most balanced songs. The guitar harmonies draw directly from classic melodic metal traditions, yet coexist naturally with modern tones and updated production. The bass and drum work deserve particular praise for their richness in detail and dynamic interplay. There is an obvious level of care in the arrangement, preventing the track from becoming just another Scandinavian formula exercise.
Strongly influenced by the more modern era of In Flames, “Box With Spirits” almost entirely abandons traditional elements in favor of a fully contemporary approach. The heavily processed vocals and dense guitar layers create a dark, urban atmosphere. Ironically, it is here that one of the album’s most inspired guitar solos unexpectedly appears — brief, but highly effective.
Closing track “Hold Your Fire”, featuring Samy Elbanna of Lost Society, dives fearlessly into Finnish melodic death metal territory. The references to Children of Bodom are unmistakable, surfacing both in the guitar work and in the aggressive vocal and rhythm section performance. It is intense, fast and highly melodic — a powerful conclusion to an album that understands exactly what it wants to be.
Requiem For A Pipe Dream may not be an album designed for traditional metal purists, but that was likely never Cyhra’s intention. What the band delivers here is a modern, ambitious and carefully crafted record capable of connecting equally with the new wave of European metal listeners and fans of the classic Scandinavian melodic school. More importantly, it sounds like a band fully aware of its own identity — something many veteran acts spend entire careers trying to achieve.
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| Linda Florin |


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