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terça-feira, 14 de abril de 2026

Vanden Plas: Sofisticação e Profundidade (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Três décadas após o lançamento de AcCult (1996), os alemães do Vanden Plas revisitam um dos capítulos mais emblemáticos de sua trajetória com AcCult II. Longe de se limitar a um exercício nostálgico, o novo trabalho amplia a proposta original ao apresentar releituras acústicas que equilibram sofisticação, sensibilidade e uma abordagem artística amadurecida.

O repertório mescla versões de composições marcantes da banda — como “Far Off Grace” e “The Ghost Xperiment” — a releituras de clássicos de Metallica e Styx, criando um diálogo interessante entre diferentes universos musicais. Com participação especial de John Helliwell (Supertramp) e uma execução impecável por parte da formação atual, o álbum reafirma a identidade do grupo dentro do metal progressivo, mesmo em um contexto essencialmente acústico.

A abertura com “Far Off Grace” já estabelece o tom do disco. Em uma construção gradual e minimalista, a ausência quase total de percussão na maior parte da faixa valoriza a interpretação de Andy Kuntz, enquanto os arranjos de Stephan Lill se desenvolvem de forma elegante até o clímax final, onde a entrada da percussão amplia a intensidade emocional.

Na sequência, “Holes in the Sky” rompe com essa introspecção inicial ao apostar em uma dinâmica mais energética. A percussão mais presente impulsiona a faixa, enquanto o trabalho de violão e o solo bem estruturado reforçam o caráter técnico da banda. O piano de Alessandro Del Vecchio surge como elemento de refinamento, enriquecendo a textura sonora.

Um dos momentos mais aguardados do álbum, “The Ghost Xperiment” mantém sua essência progressiva ao transpor sua complexidade para o formato acústico. A bateria assume papel central desde os primeiros compassos, enquanto o piano conduz a narrativa até um refrão sustentado por arranjos vocais densos. O uso de cordas adiciona profundidade e contribui para uma das interpretações mais completas do disco.

O primeiro cover aparece em “Boat on the River”, clássico do Styx, que ganha aqui uma leitura delicada e detalhista. A combinação entre cello, acordeão e violão cria uma atmosfera rica, permitindo que a interpretação instrumental se destaque sem perder o caráter melódico da composição original.

“Healing Tree” representa uma mudança de atmosfera, apostando em uma sonoridade mais etérea e textural. A presença de vocais femininos — não creditados oficialmente — adiciona uma nova camada à interpretação de Andy Kuntz, resultando em uma das faixas mais acessíveis do álbum, mesmo dentro de sua complexidade estrutural.

Em “Postcard to God”, o Vanden Plas explora uma abordagem mais tradicional dentro do conceito acústico, com arranjos que combinam piano, violão, contrabaixo e intervenções pontuais de cordas. A performance vocal novamente se destaca, enquanto o solo remete à sonoridade clássica dos instrumentos acústicos, com discretas incursões de elementos eletrônicos.

A releitura de “Nothing Else Matters”, do Metallica, surge como um dos pontos mais delicados do álbum. Iniciando em formato intimista de piano e voz, a faixa se desenvolve gradualmente, incorporando elementos orquestrais e uma abordagem vocal menos fiel à versão original, o que contribui para uma interpretação própria. O resultado é uma versão que respeita a essência da composição, mas encontra identidade própria dentro da proposta do disco.

Encerrando o trabalho, “You Fly” sintetiza a proposta do álbum ao incorporar elementos característicos do metal progressivo em uma roupagem acústica. As mudanças de andamento, os arranjos elaborados e o refrão marcante são complementados pela participação de John Helliwell no saxofone, adicionando uma coloração distinta ao desfecho do álbum.

Mais do que uma celebração de aniversário, AcCult II se apresenta como uma reafirmação artística. Ao revisitar seu repertório com novas perspectivas, o Vanden Plas demonstra maturidade e domínio criativo, entregando um trabalho que dialoga tanto com fãs antigos quanto com ouvintes que buscam sofisticação dentro do gênero.

***ENGLISH VERSION***

Three decades after the release of AcCult (1996), German progressive metal veterans Vanden Plas return to one of the most distinctive chapters of their career with AcCult II. Far from being a mere nostalgic exercise, the album expands on the original concept, delivering a collection of acoustic reinterpretations that balance sophistication, emotional depth, and artistic maturity.

Blending revisited band staples such as “Far Off Grace” and “The Ghost Xperiment” with carefully selected covers from Metallica and Styx, AcCult II builds a compelling bridge between progressive metal and classic rock sensibilities. Featuring a guest appearance by John Helliwell (Supertramp), the record highlights the band’s ability to reshape their identity without losing its core essence.

Opening track “Far Off Grace” immediately sets the tone. Built on a restrained and gradual arrangement, the near absence of percussion for most of the song allows Andy Kuntz’s expressive vocals to take center stage, while Stephan Lill’s acoustic work unfolds with elegance, culminating in a subtle yet powerful climax.

“Holes in the Sky” shifts gears with a more dynamic and rhythm-driven approach. The stronger percussive presence pushes the track forward, while intricate acoustic guitar work and a well-crafted solo underline the band’s technical finesse. Alessandro Del Vecchio’s piano adds an extra layer of refinement, enriching the overall texture.

One of the album’s most anticipated moments, “The Ghost Xperiment”, successfully translates its original complexity into an acoustic setting. The drums establish a strong presence early on, while the piano guides the arrangement toward a chorus supported by lush vocal harmonies. The addition of string arrangements enhances the depth, resulting in one of the album’s most fully realized performances.

The first cover, Styx’s “Boat on the River”, is handled with remarkable sensitivity. The interplay between cello, accordion, and acoustic guitar creates a rich and organic soundscape, allowing the band to reinterpret the track without losing its melodic identity.

“Healing Tree” introduces a shift in mood, leaning into a more atmospheric and textural direction. The inclusion of uncredited female vocals adds an intriguing dimension to Kuntz’s performance, resulting in one of the album’s most accessible yet nuanced tracks.

On “Postcard to God”, Vanden Plas embraces a more traditional acoustic framework. Piano, acoustic guitars, and upright bass form a warm foundation, complemented by subtle string details. Kuntz delivers one of his strongest vocal performances here, while the solo evokes a classical acoustic tone, with brief touches of synthesized elements adding contrast.

Taking on Metallica’s “Nothing Else Matters” is no small task, yet Vanden Plas approach it with confidence and restraint. Beginning as a sparse piano-and-vocal arrangement, the track gradually evolves, incorporating orchestral layers and a more interpretative vocal delivery that diverges from the original. The result is a respectful yet distinctive reimagining that fits seamlessly within the album’s concept.

Closing track “You Fly” encapsulates the essence of AcCult II. With its shifting dynamics, intricate arrangements, and memorable vocal lines, it brings progressive elements into the acoustic realm with ease. John Helliwell’s saxophone contribution adds a unique tonal color, providing a fitting and elegant conclusion.

More than a commemorative release, AcCult II stands as a testament to Vanden Plas’ enduring creativity. By revisiting their catalogue through a refined acoustic lens, the band not only honors their legacy but also reinforces their relevance within the progressive music landscape.

Jannik S. Wagner

segunda-feira, 23 de março de 2026

Cobertura de Show: Symphony X – 20/03/2026 – Tokio Marine Hall/SP

Symphony X celebra 30 anos com repertório abrangente e casa cheia em São Paulo

O Symphony X voltou a São Paulo na noite de 20 de março para um Tokio Marine Hall lotado, em uma apresentação que funcionou como um panorama consistente dos 30 anos de carreira da banda. A passagem faz parte da turnê latino-americana organizada pela Top Link Music, com datas também no México, Chile, Argentina, Curitiba e Rio de Janeiro.

Com mais de três décadas de atividade, o grupo norte-americano ocupa um lugar específico no metal progressivo, especialmente pela forma como ajudou a consolidar uma vertente que aproxima o virtuosismo técnico do peso do power metal e de estruturas sinfônicas. Discos como The Divine Wings of Tragedy e V: The New Mythology Suite continuam sendo referências quando se fala na expansão do progressivo para além das estruturas mais tradicionais do gênero.

Em São Paulo, a resposta do público deixou claro como essa trajetória construiu uma base fiel no Brasil. A casa cheia e a recepção intensa desde os primeiros minutos indicavam um público que não estava apenas pela nostalgia, mas pela relevância contínua do Symphony X no metal técnico.

A abertura com Of Sins and Shadows já estabeleceu o tom da noite, com a banda soando coesa e precisa. Na sequência, Sea of Lies manteve a energia alta, enquanto Out of the Ashes trouxe o equilíbrio entre melodia e peso que marca a fase mais recente do grupo.

Um dos primeiros grandes momentos veio com The Accolade, recebida com entusiasmo e reforçando o quanto o material clássico ainda ocupa um lugar central na relação da banda com o público. Na parte intermediária do show, Smoke and Mirrors e Evolution (The Grand Design) reforçaram a dimensão mais técnica do repertório, com destaque para a execução segura e a dinâmica entre os músicos.

Communion and the Oracle e Inferno (Unleash the Fire) mantiveram a intensidade da apresentação, mostrando como a banda transita bem entre fases diferentes da carreira sem que o repertório pareça fragmentado. Já Nevermore funcionou como um dos pontos de maior resposta coletiva do público antes do encore.

No retorno ao palco, a banda apresentou Without You, em um momento mais direto e emocional, também utilizado para as apresentações individuais dos integrantes. O encerramento com Dehumanized e Set the World on Fire (The Lie of Lies) consolidou a proposta da turnê: revisitar diferentes momentos da discografia sem transformar o show apenas em um exercício de nostalgia.

Liderado por Michael Romeo e Russell Allen, o Symphony X demonstrou porque permanece como um dos nomes mais respeitados do metal progressivo: consistência técnica, repertório sólido e uma identidade musical que continua reconhecível mesmo após décadas de atividade.

O show em São Paulo mostrou uma banda ainda funcional na cena, com um público que acompanha essa trajetória não apenas pela memória, mas pela permanência de sua relevância no progressivo contemporâneo.

Texto: Patrícia Araújo

Fotos: Roberto Sant'Anna

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Top Link Music 


Symphony X – setlist:

Intro/Of Sins and Shadows

Sea of Lies

Out of the Ashes

The Accolade (with “The Divine Wings of Tragedy Part VII: Paradise Regained” snippet)

Smoke and Mirrors

Evolution (The Grand Design)

Communion and the Oracle

Inferno (Unleash the Fire)

Nevermore

Bis

Without You (preceded by band introductions)

Dehumanized

Set the World on Fire (The Lie of Lies)

terça-feira, 15 de abril de 2025

Entrevista – Savatage: o reencontro com os palcos que os fãs sempre sonharam

Por Gabriel Arruda 

Savatage, uma das bandas mais icônicas do Heavy Metal mundial, que conquistou seu auge entre os anos 1980 e 1990, anunciou seu retorno às atividades no final do ano passado, após quase uma década de hiato. 

O primeiro show dessa aguardada volta acontece neste fim de semana, no festival Monsters of Rock, no sábado (19/04), no Allianz Parque, em São Paulo, seguido por uma apresentação no Espaço Unimed, na segunda-feira (21/04). 

Em meio aos ensaios, o guitarrista Chris Caffery atendeu rapidamente o Road to Metal para falar sobre esse momento especial e outros assuntos relacionados à trajetória da banda.


Sei que vocês estão no meio dos ensaios, se preparando para os dois primeiros shows deste retorno, que vão acontecer nessa semana no Monsters of Rock (19/04) e o outro no Espaço Unimed (21/4). Como estão os preparativos finais? Imagino que deve estar sendo divertido revisitar essas músicas depois de tanto tempo.

Chris Caffery: Os ensaios têm sido incríveis. Honestamente, nem parece que se passaram tantos anos desde a última vez em que tocamos essas músicas juntos. É como andar de bicicleta, sabe? A gente nunca esquece.


Essa será a segunda vez que vocês tocam no festival Monsters of Rock. Naquela ocasião, dividiram o palco com bandas como Megadeth, Slayer e Dream Theater. Que lembranças você guarda daquele show e também dos outros dois que fizeram aqui?

Chris Caffery: Todos os shows que fiz no Brasil foram incríveis. O Monsters of Rock foi uma experiência inesquecível. Me lembro das câmeras da MTV me seguindo pelo palco em um momento que eu joguei minha guitarra na direção de uma câmera, quase fui parar na plateia, mas acabei me segurando nela e caí de volta no palco. 

Lembro claramente dos caras do Manowar me olhando e dizendo: ‘Isso é metal!’. Os shows principais também foram incríveis. No último que fizemos – o de São Paulo, há alguns anos – foi absolutamente insano. Como eu disse, cada show no Brasil foi uma experiência única. Nunca vou esquecer.


O último show do Savatage foi no Wacken, em 2015. Confesso que fiquei com um pouco de inveja por não ter estado lá para vê-los ao vivo. Mas agora são os fãs de outros países que terão que esperar, já que vocês escolheram o Brasil como ponto de partida para esse retorno. Existe um carinho especial pelo nosso país?

Chris Caffery: Com certeza. O Brasil, junto com a Grécia e a Alemanha, é um dos três países que realmente consideramos como uma segunda casa. Claro, a lista é longa... temos muitos amigos e fãs incríveis na Itália, na Holanda e em tantos outros lugares. Mas esses três, em especial, sempre tiveram shows ao vivo com uma energia única e inesquecível.

O Savatage ficou fora dos holofotes por bastante tempo, mas a música da banda continuou conquistando novas gerações. Imagino que, com o surgimento desses novos fãs, também tenha crescido o desejo de voltar aos palcos, até porque muitos deles nem eram nascidos quando a banda estava ativa. Isso pesou na decisão de voltar?

Chris Caffery: Eu sempre tive a esperança de que voltaríamos a tocar. Parte de mim sabia que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Eu costumava dizer às pessoas que, quando chegasse a hora certa, eu estaria pronto. 

E chegou a hora. Desde a última vez que subimos no palco, ganhamos muitos novos fãs, como você disse, muitos nem estavam vivos na época! Estou muito empolgado para rever os rostos familiares, mas também para conhecer os novos fãs dessa legião que nos acompanha.


O período mais marcante do Savatage foi entre os anos 80 e 90. A banda não viveu tanto a era da internet, das redes sociais e dos serviços de streaming. Como você enxerga a cena do Heavy Metal hoje em dia?

Chris Caffery: É engraçado, porque pra quem tem a minha idade, o Heavy Metal continua sendo uma parte essencial da vida. Claro, mudou um pouco entre os mais jovens, hoje existem muito mais opções de entretenimento do que quando eu era criança. 

Mas a música ainda é muito especial, ainda ocupa um lugar importante na vida de muita gente. Eu diria que talvez não seja mais um estilo de vida tão dominante quanto era nos anos 80, mas vejo muitos fãs jovens super dedicados, e isso é animador. 

Também tem muitas bandas novas excelentes por aí. E os músicos de hoje têm acesso a muitos recursos online, isso ajuda a nova geração a atingir um nível técnico impressionante desde cedo. Quando eu era jovem, se você não tivesse dinheiro para aulas, era praticamente impossível aprender. Hoje você encontra tudo online e de graça.


Na sua opinião, está melhor ou pior do que naquela época? Muitos músicos dizem que os anos 90 foram um período difícil para o gênero, mas foi justamente ali que a banda lançou "Edge of Thorns", talvez a música mais emblemática da carreira do Savatage. Como foi enfrentar a ascensão de outros estilos musicais naquela época?

Chris Caffery: Como eu disse, naquela época a gente precisava se virar para aprender. Ou você pagava por aulas ou passava 20 horas tentando tirar uma música de ouvido. Hoje você abre um vídeo no YouTube e alguém te ensina um solo em cinco minutos. 

E sim, os anos 90 foram diferentes. Nos anos 80, o Metal estava em alta, era moda. Já nos 90, vieram as camisas de flanela, nada de maquiagem, nada de spray de cabelo. O Metal saiu dos holofotes e voltou para o underground, de onde veio nos anos 70, com bandas como Black Sabbath e Led Zeppelin. 

A diferença é que nos anos 90 surgiram grupos como Metallica, Alice In Chains e Pantera, que tinham uma pegada mais crua, mais de rua, mais próxima das raízes. Foi um contraste forte com o estilo glam que dominava a MTV nos anos 80, como Guns N’ Roses, Whitesnake, Mötley Crüe e Bon Jovi.

Além dos shows de reunião, vocês estão trabalhando em um novo álbum, previsto para ser lançado ainda nesse ano de 2025. O que os fãs podem esperar? Será uma continuação da onde pararam ou pretendem revisitar toda a essência do Savatage?

Chris Caffery: Nosso objetivo é fazer um álbum do Savatage que seja realmente grandioso. Já se passou muito tempo, então queremos garantir que ninguém se decepcione. O Savatage tem uma história musical rica, com composições cheias de narrativa, vocais marcantes, contrapontos e queremos continuar explorando tudo isso. 

Vamos honrar o legado do Paul O’Neill e usar todas as influências que ele nos deixou. Claro que sentiremos falta dele como letrista e produtor, mas vamos fazer o possível para canalizar sua energia e entregar o melhor disco que pudermos.


Chris, não quero tomar mais do seu tempo. Sei que você está bastante ocupado. Muito obrigado pela atenção! Você gostaria de deixar uma mensagem para os fãs brasileiros?

Chris Caffery: Quero apenas agradecer por estarem sempre com a gente. Vocês são uma das grandes razões pelas quais estamos voltando. Sentimos a falta de vocês, amamos vocês e mal podemos esperar para vê-los de novo!



terça-feira, 26 de novembro de 2024

Cobertura de Show: Enslaved – 14/11/2024 – Fabrique Club/SP

Provando que Black Metal não precisa ser cru e nem de corpse paints

Os noruegueses do Enslaved são um dos nomes mais proeminentes do enorme - e muitas vezes polêmico - cenário do Black Metal no país. Mas, diferente de muitas bandas que ganharam fama por suas atitudes questionáveis, e até condenáveis, o que os torna um ponto fora da curva é sua qualidade técnica nos instrumentos, o som mais limpo, e seu flerte com a parte mais progressiva da música. Por isso, o que se esperava, e o que se teve no show na fria quinta-feira de novembro foi exatamente o que se teve: um show musicalmente incrível, com uma atitude muito positiva por parte de público e banda.


BAIXO VOLUME NA FILA ENGANOU! SHOW FOI SUCESSO DE PÚBLICO:

As portas do Fabrique Club estavam previstas para abrir às 19h30, e pouco antes das 19h, com o céu ainda escurecendo, havia algum movimento de fãs no entorno. Pessoas com suas camisetas de consagradas bandas do Black e Death Metal, coletes e jaquetas cheias de “patches” de bandas bebendo e conversando. Nos bares, ao redor, poucos clientes, mas se divertindo ouvindo sons do próprio Enslaved e outras bandas do gênero. Pontualmente, as portas se abriram e aos poucos esses fãs foram entrando na casa. O ambiente era tranquilo, sem filas, sem confusões.

Do lado de dentro, o pouco volume aglomerado de fora mostrava-se diferente. Gradualmente, o local foi enchendo. Contra todas as probabilidades por conta da “semana caótica” de shows em São Paulo, e por ser uma quinta-feira, já próximo das 20h30, meia hora antes de começar o show - que não teria banda de abertura -, a casa estava já com mais de metade de sua capacidade, e a última camiseta da banca de merchandising havia sido vendida. Para um show de Black Metal, isso é algo notório.


SHOW PESADO, TÉCNICO E AGRESSIVO NA MEDIDA CERTA:

Se a imagem de músicos de Black Metal com seus “corpse paints”, som cru e letras “malvadas” é um estereótipo do gênero, o Enslaved prova que isso não é necessário! A música da banda é técnica, com toques progressivos, uma atitude positiva por parte dos membros e letras completamente focadas na mitologia nordico-germânica. De cara limpa, e com um teclado e sintetizador analógico no palco, os noruegueses abriram o show às 21h10, mais ou menos, ao som de “Kingdom”, single do álbum Heimdal de 2024, o qual estão divulgando no momento. 

O vocalista e baixista Grutle Kjellson, sentindo o público um pouco quieto, falou algumas palavras para tentar agitar. “Isso aqui é um show de rock, de metal, não uma porcaria gospel ou algo assim”, disse o vocalista levando todos a gritar, finalmente. “Homebound” seguiu, e depois “Forest Dweller”, músicas muito longas, mas que nunca perdem a intensidade. Funcionam perfeitamente ao vivo, e demonstram a capacidade técnica do quinteto.

As partes de vocais limpos, para quem olhava de longe, parecia até playback. Mas, na verdade, eram feitas magistralmente ao vivo pelo baterista Iver Sandøy, que impressionantemente tocava de forma rápida, muitas vezes quebrada, e cantava ao mesmo tempo. Outro ponto a se destacar, o vocalista e baixista Grutle muitas vezes parava de tocar e cantar e tocava um sintetizador analógico, fazendo sons curiosos e atmosféricos graves, que não apenas cobriam o que seria o baixo, mas também davam o clima pagão da apresentação. Além disso, a dupla de guitarristas Ivar Bjørnson e Arve Isdal é provavelmente uma das mais entrosadas e harmônicas que se pode ter no gênero mais extremo do metal.

Após a apresentação bem-humorada da banda, até tirando algumas risadas pela diferença de idade do tecladista Håkon Vinje, de 32 anos, em relação aos outros membros, tocaram a climática Congelia. Seguiram com “The Dead Stare”, “Havenless”, e a surpresa da noite, a excelente “Fenris”.

A banda saiu do palco com o público pedindo mais, e o baterista Iver voltou sozinho, tomando a frente, e pedindo para todos agitarem. Fez um curto e bem encaixado solo de bateria, que precedeu a volta dos outros membros ao palco, para tocarem “Isa”, e finalmente, encerraram com chave de ouro a apresentação com Allfǫðr Oðinn. O show relativamente curto, com pouco mais de uma hora e dez minutos de apresentação, foi suficiente para valer a noite e a semana.


SOM BAIXO E PÚBLICO TÍMIDO, MAS BANDA CARISMÁTICA E CLIMA NÓRDICO COMPENSAM, E SALDO DA NOITE É MUITO POSITIVO:

Uma parte estranha, digna de menção, foi a frieza do público. Mesmo numeroso, não dá para se dizer que houve um grande barulho por parte do público. Mesmo quando Grutle pedia para todos animarem, o faziam por apenas alguns instantes, mas longe de ser uma plateia calorosa. Para um show de metal extremo, isso é algo curioso.

O som também teve seus problemas. Instrumentos um pouco baixos, especialmente levando em conta o local, conhecido por ter uma acústica que deixa mais alto, e muitas vezes a bateria encobria o resto. Os vocais, por sua vez, todos na medida!

Apesar dessas adversidades, quem foi ao Fabrique Club curtir boa música, saiu completamente satisfeito - em alguns casos, até surpreendentemente satisfeito. Uma banda afiada, um set-list matador, e musicalidade acima do peso, com músicas muitas vezes atmosféricas de oito, nove e dez minutos de duração, mostraram, de uma vez por todas, que Black Metal não precisa ser cru, não precisa ser algo com temática violenta, e o sucesso do show, e da banda, provam que há espaço para a finesse no som extremo.


Texto: Fernando Queiroz 

Fotos: Belmilson Santos (Roadie Crew)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Agência Powerline

Mídia Press: Tedesco Comunicação & Mídia


Enslaved – setlist: 

Kingdom

Homebound

Forest Dweller

Congelia

The Dead Stare

Havenless

Fenris

Isa

Allfǫðr Oðinn

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Cobertura de Show: Angra & Jeff Scott Soto - 12/04/24 - Bar Opinião/RS

Por: Renato Sanson

Poucos meses depois de sua última passagem pela capital gaúcha, o Angra retornava mais uma vez e dando continuidade à turnê do seu aclamado novo álbum: “Cycles of Pain” lançado no ano passado.

O local escolhido, mais uma vez o Bar Opinião, mas desta vez o Angra trazia uma participação especial, a do icônico vocalista Jeff Scott Soto para um show acústico.

A abertura (assim como no ano passado) ficou a cargo do excelente guitarrista Luiz Toffoli. Uma grata surpresa, pois, apresenta um Prog Metal de alto nível tendo como base os americanos do Dream Theater. Mas nada que tirasse o brilho de suas composições.

Com um som nítido e cristalino, a banda de Luiz desfilou técnica e requinte com sua musicalidade. Sendo o guitarrista um show a parte. Vale ainda destacar a presença do baterista Pedro Tinello que dispensa apresentações e do excelente vocalista maranhense Cassio, da banda Alchimist. Mandando muito bem em sua performance e tendo aquela influencia melódica de Halford com a vitalidade de Tim Owens.


Uma excelente abertura de uma banda muito profissional e promissora.

Eis que as 22h Jeff Scott Soto entra em cena acompanhado do fiel escudeiro Leo Mancini. O palco já montado para o acústico e ambos com seus violões em mãos. Começando a noite com “Livin the Life” (criada para a trilha sonora do filme Steel Dragon) levantando o público, seguida do clássico “Mysterious” do Talisman, que abriu caminho para “Alive” do Sons of Apollo.

É impressionante como canta Scott Soto. De forma natural e encantadora. Com muita simplicidade e simpatia ganhando os presentes. Sendo um caso raro de talento e humildade.

As composições ficaram muito bem nesse formato acústico, a exemplo de “Comes Down Like Rain” do W.E.T. e “Carry On Wayward Son” do Kansas que fez a galera cantar junto do começo ao fim.

Um show curto, mas muito bem executado com Soto bem à vontade e um som muito bom ecoando dos PA’s, o que deixou a apresentação ainda mais incrível.

Passado das 23h era hora da atração principal e a intro “Crossing” ecoa nos alto falantes, com Bruno Valverde fazendo a frente para o delírio dos fãs e aos poucos a banda vai adentrando e “Nothing to Say” inicia o caldeirão para o mago Fabio Lione dar o seu show. Mais um clássico chega com tudo e “Angels Cry” adentra para a felicidade dos presentes. Dispensando comentários.

O Angra atualmente consolidou o seu novo momento com Lione, Bruno e Barbosa. Mostrando muita personalidade até aqui, mas solidificando essa formação com “Cycles of Pain”. Não que os dois álbuns anteriores fossem ruins (longe disso), porém “Cycles...” traz uma formação mais amadurecida e com a “cara” do Angra. Com Lione muito mais encaixado a sonoridade.

E sim, os grandes destaques deste show ficaram por conta das composições novas, que embalam essa fase atual como: “Vida Seca” (um show de interpretação de Lione), “Dead Man on Display” (com Barbosa e Bruno soberbos), a faixa titulo que é um show de técnica e variações.

Tendo ainda a rápida e agressiva “Ride Into the Storm” e a moderna e bela “Tide of Chances Pt. 01 e Pt. 02” que contou com a participação de Jeff Scott Soto em um dueto magnifico com Fabio Lione. Que de quebra, ainda tocaram “The Show Must Go On” do Queen.

Claro que outros momentos do show também foram marcantes, como o set acústico que o Angra adotou já há alguns anos, Rafael sempre a frente, informou que desta vez tinha esquecido seu violão em casa e pegou emprestado o do amigo Leo Mancini, e brincou que teria que improvisar. Destaque deste pequeno set fica para a belíssima “Gentle Chance”. “Make Believe” também apareceu, mas no formato acústico a mesma perde força, pois é extremamente emocional e seria incrível se o Angra voltasse a tocar a mesma em seu formato original.

Outra grata surpresa foi “Time” tendo uma interpretação de tirar o folego de Fabio. Assim como "Morning Star” e “Beeding Heart”.

Mas, “Silence and Distance” foi em minha opinião o ponto alto do show em uma performance que honrou essa época dourada da banda.

O encerramento vocês já sabem:  as mais que clássicas “Carry On” e “Nova Era”. Matando a saudade dos fãs gaúchos que não lotaram a casa, mas estavam em peso em mais uma sexta-feira chuvosa em Porto Alegre.

Alguns pontos a se considerar:

Fazia muito tempo em que não via um som tão cristalino e redondo no Bar Opinião. Todas as bandas que tocaram estavam com uma qualidade acima da média. O que é ótimo para os fãs e imprensa.

Referente a polêmica pista vip. Penso que, em um local como o Opinião que abrange de 1500 à 1900 pessoas, se torna desnecessário a pista vip. Pois, o local já é pequeno e você limitando os presentes que não pagam barato para estar ali, fica insustentável. Já que era visível o desconforto dos fãs na pista vip que ficou extremamente pequena e apertada.

Finalizando, o local destinado às pessoas com deficiência deveria ser revisto, pois, é um local baixo demais e para as pessoas que utilizam cadeira de rodas é um desafio ver os shows daquela posição. Um pequeno elevador até o mezanino resolveria esse impasse e daria mais qualidade às pessoas com deficiência que pagam tanto quanto os outros para estarem prestigiando seus artistas favoritos.

 

P/S: infelizmente nossos fotógrafos não estavam disponíveis nesta data. Por isso, a cobertura consta sem fotos. Pedimos desculpas e contamos com a compreensão de todos.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Entrevista - Alchimist: “Painkiller” do Judas Priest é o álbum que mais traduz o que é heavy metal

Por: Renato Sanson

Músico entrevistado: João Lobo (baixista)

A ideia sonora do Alchimist vai além do Thrash Metal em si. Tendo uma linha bem tênue com o Heavy Metal mais tradicional. O que deixa a sonoridade bem interessante. A ideia sempre foi essa?

Primeiramente, obrigado pela oportunidade dessa conversa e sim, a ideia inicial era mesclar várias vertentes do heavy metal fazendo com que o nosso sonho fosse o mais autêntico possível. Para que pudéssemos criar uma identidade forte e até hoje essa identidade ela é bem reconhecida pelos fãs e tem dado bons frutos.

Quais influências tiveram para criar a arquitetura sonora?

Nossa influência não foge muito das bandas mais tradicionais de heavy metal. Adicionado claro, as bandas do metal nacional e musicalmente nós temos muita influência da música brasileira na parte melódica e em outros elementos, que giram em torno do metal.

Em 2016 nascia o debut “The Wisher”. Com uma gama sonora forte e marcante. Conte-nos a respeito da parte criacional do mesmo.

Na época nós não tínhamos tanta experiência em composições e gravações então estávamos à procura desse formato, dessa identidade, dessa forma de compor e dessa forma de expressar. Desde lá até aqui fomos criando experiência e fomos também gravando com outras bandas, tocando com outros projetos e ampliando a nossa gama sonora.

Como foram as críticas do trabalho na época? Acredito, que até hoje repercute positivamente para a banda.

Em geral positivas! A análise girou em torno do que realmente parece ser o “The Wisher” como trabalho que é: uma mistura entre metal progressivo e power metal. Então na época essas não eram as nossas influências mais presentes, mas temos muito orgulho de ter feito dessa forma. 

Na época próxima ao lançamento saímos em muitos sites e atendemos a muitas entrevistas então a repercussão foi bem positiva e logo após o lançamento nós fizemos muitos shows, principalmente no ano seguinte em outras cidades perto da nossa cidade Natal.

Oito anos se passaram do primeiro álbum. Existe uma previsão de lançamento para o sucessor?

Durante todos esses anos estivemos compondo e fazendo músicas novas. Nosso próximo trabalho sairia durante a pandemia ali em 2020, no entanto, pelo próprio acontecimento da pandemia nós tivemos que postergar tudo isso e só agora em 2024 temos previsão para lançar um novo álbum. Com single novo saindo durante o mês de abril. 

Tivemos também algumas mudanças de formação na banda e tudo isso leva bastante tempo para reestruturar e consolidar o que já tem como trabalho. O próximo álbum será um trabalho conceitual muito robusto e que traduz verdadeiramente o momento atual da banda.

Em 2023 foi lançado o live “The Ritual”. Tocando na integra “The Wisher” com a adição da composição “Obsessed”. Comentem sobre a ideia de lançar um disco ao vivo. Eu particularmente sou muito fã dos lives.

O disco ao vivo sempre expressa bem o som de uma banda e eu também sou muito fã de trabalhos ao vivo, e a ideia foi justamente aproveitar o momento de lives e shows ao vivo pela internet para fazermos um registro e deu muito certo! O material ficou com uma qualidade decente (não ficou extremamente profissional), mas o registro é muito válido e a ideia é fazer com que todos os álbuns tenham álbum ao vivo após o lançamento em estúdio.

 Eu particularmente gostei bastante do resultado e acho que mostrou bem a pegada do Alchimist. A faixa “Obsessed” já era tocada ao vivo e estará presente no próximo álbum e decidimos colocar no trabalho ao vivo por mostrar esse nosso lado mais atual.

Em relação aos shows, vocês tocarão com o Angra em breve. Como está a expectativa? O que estão planejando para este grande momento?

A expectativa é a melhor possível! Vamos tocar duas músicas novas e além de trocar experiência com a equipe do Angra e experimentar um novo setlist nesse segundo show com um novo baterista o Pedro Isaac. Vai ser um grande show e esperamos fazer isso mais e mais vezes.

Finalizando, gostaria de saber os próximos passos da banda e se pudesse criar um ranking dos cinco melhores álbuns de Heavy Metal de todos os tempos, quais seriam? Obrigado pela participação!

É difícil criar um ranking dos 5 melhores álbuns, mas vale a tentativa: Iron Maiden (The Number of the Beast), Black Sabbath (Paranoid), Sepultura (Beneath the Remains), Angra (Temple of Shadows) e em primeiro lugar tem que ser o “Painkiller” do Judas Priest que em minha opinião é o álbum que mais traduz o que é heavy metal.



 

 

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Entrevista: Age of Artemis: "Jogando" Para a Música


 
Formada na capital federal em 2008, o Age of Artemis sempre foi uma banda que gerou grandes expectativas, com um ótimo nível em seus trabalhos, os quais apresentam uma evolução constante em termos musicais. 

Após várias demos, singles e dois álbuns completos, além de inúmeros shows pelo brasil, destacando a participação no Rock in Rio em 2015, o que trouxe mais visibilidade para a banda, uma nova fase se iniciou, e o terceiro e esperado full-lenght, "Monomyth", vem com uma força capaz de consolidar a carreira do Age of Artemis e levá-lo a outro patamar.

O álbum também traz a estreia em disco dos novos integrantes, incluindo o vocalista Pedro Campos (também Soulspell, Hangar), e, a exemplo do anterior, "The Waking Hour" (2014), foi lançado primeiramente no Japão, em início de abril. A banda agora parte para divulgar o máximo possível o novo álbum, e tão conversamos com eles para saber um pouco mais de "Monomyth". Confira!


RtM: Para iniciar esta entrevista, gostaria que vocês fizessem uma breve explanação a respeito do conceito lírico em “Monomyth”.
Riccardo Linassi - Ele fala da jornada do herói, ou o herói de mil faces. Trata de alguém desde quando é um sujeito comum, passando por desafios até se tornar alguém melhor. Esse herói pode ser encarado como cada um de nós no nosso dia a dia.

RtM: A produção do álbum desta vez ficou “em casa”, com o Giovanni Sena. Gostaria que  você comentasse a respeito dessa decisão, que com o resultado que pude conferir, foi muito acertada! Acredito que foi uma decisão por já ter uma segurança e saber o que vocês queriam para a banda.
Giovanni Sena – Bem acredito que acabei conquistando a confiança dos meus parceiros. Isso foi se desenvolvendo ao longo dos anos. Na verdade, no cover que gravamos em 2014, eu já tinha assumido tal papel. Foi de forma bem natural. Em 2017 quando gravamos “Unknown Strength”, esse papel foi reafirmado. Como o resultado ficou muito bom, decidimos que na gravação do “Monomyth” eu continuaria a frente da produção.

RtM: Gostaria que vocês comentassem também a respeito da mixagem, que foi feita em Los Angeles, e vejo que também foi acertada, pois para a sonoridade da banda, e tantos detalhes nos arranjos, era uma etapa muito importante. Ficou excelente, é possível perceber todos os detalhes. Estava ouvindo o álbum e “nossa que linha de baixo incrível! E esse solo!! Putz...essa percussão ficou ótima! ”
Riccardo Linassi - Sim, nossa preocupação era encontrar alguém que entendesse do estilo e tivesse cuidado com os detalhes. Creio que o Damien (Rainaud) foi a decisão mais acertada!

"O conceito está mais nas letras do que nas músicas em si. A gente 'joga pra música'." 
RtM: A banda também passou por algumas mudanças de formação até chegar a este novo álbum, inclusive com a troca de vocalista, algo que sempre é mais marcante, saindo o Alírio e entrando o Pedro Campos (também Hangar e Soulspell). Gostaria que você comentasse como foi o entrosamento e a colaboração que esses novos membros trouxeram.
Giovanni Sena – A vida nos traz algumas surpresas. E com elas as mudanças. Em princípio o ser humano tem a tendência de ver as mudanças de forma cautelosa. Mas tudo é uma questão de adaptação. E o Pedro se adaptou a nossa forma de trabalho de uma forma bem natural e rápida. E isso não foi só na parte musical, mas no pessoal também. Não consigo separar trabalho de amizade. Só consigo desenvolver um bom trabalho quando há um certo nível de amizade.

RtM: Gostaria de destacar o trabalho do Pedro Campos, que eu já acompanho há um bom tempo, e o cara encaixou muito bem, com aqueles drives já característicos dele, mas também muito bem quando a música pediu vocais mais limpos ou mais altos.
Riccardo Linassi - Pois é, sempre que há mudanças numa banda, gera certo temor, ainda mais se tratando de vocalista. Mas o Pedro é muito bom no que faz e chegou “com a faca nos dentes” pra dar o melhor de si e realizar esse belo trabalho!

RtM: Lembro que ano passado vocês comentaram que a banda iria surpreender muita gente com este novo álbum, e realmente, para meu gosto musical, acredito ser o mais completo trabalho da banda. Antes de eu tecer meus comentários (que também coloquei na resenha do disco), peço que vocês comentem em quais aspectos vocês acreditam que a banda inova e surpreende em “Monomyth”.
Giovanni Sena – Acredito que o maior aspecto é que a Age of Artemis encontrou a sua própria voz. A banda tem suas próprias características apesar das varias influências que cada um de nós possui e coloca, seja nas composições, seja na hora de interpretar melodias e/ou notas. Isso é um processo que leva tempo, além de ser um processo natural.


RtM: Quando se fala em Prog Metal e álbum conceitual, muitos já pensam em algo para um público mais restrito (até porque muitas bandas exageram no quesito técnico e esquecem do feeling), mas vocês criaram músicas que possuem passagens intrincadas, refinadas em termos técnicos, mas também com melodias marcantes e bom gosto, se diferenciando de muitas outras do estilo, e acredito que cairá no gosto de um público mais amplo. Gostaria que comentasse a respeito.
Riccardo Linassi - na verdade os rótulos “prog”, “power”, etc., nem estavam nos planos. Criamos as músicas sem pensar muito nisso. O conceito está mais nas letras do que nas músicas em si. A gente “joga pra música”. Se algum arranjo saiu mais cheio de notas, compassos compostos etc., foi só coincidência. Há momentos em que há pouca nota e a música flui da mesma forma.

RtM: Falando um pouco das músicas, sendo complicado apontar apenas algumas, mas vou pedir que comentem um pouco mais a respeito de algumas, começando com duas que estão entre minhas favoritas, a “The Call of the Fear” e “What Really Matters”, cheias de melodias marcantes, percussões, e bem diversificadas, acho que representam bem o balanço entre o refino técnico com o feeling.
Giovanni Sena – Na hora de compor, a melodia acaba sendo o nosso “Norte”. E todo resto trabalha em função disso. Uma característica da música da Artemis é o acréscimo de camadas à medida que a música vai se desenvolvendo. Isso pode ser notado por todo o disco. Dessa vez, o texto também teve extrema importância nas composições onde em muitos momentos há uma comunicação direta entre o que está sendo dito e a parte instrumental.

RtM: Finalizando, gostaria que comentassem sobre a “The Calling”, que abre o álbum logo após a intro “Status Quo”, e abre de forma explosiva, com peso, várias mudanças de “climas” e a “A Great Day to Live”, mais suave e melodiosa.
Giovanni Sena – Como falei anteriormente, aqui há uma conexão entre o texto e a música muito latente. “The Calling” retrata um(a) jovem começando uma experiência que ele(a) não sabe bem como vai terminar. “A Great Day to Live” se trata dessa mesma pessoa, mas mais experiente, com mais sabedoria, mais evoluída, com um maior conhecimento da vida e de sua “missão” aqui na Terra.

"Acredito que o maior aspecto é que a Age of Artemis encontrou a sua própria voz."
RtM: Obrigado pela atenção, espero que o álbum tenha a repercussão que merece, tanto aqui como lá fora, inclusive, assim como os anteriores, foi lançado já no Japão. Fica o espaço para as suas considerações finais.
Giovanni Sena – Gostaríamos de parabeniza-lo pela o trabalho desenvolvido e reafirmar que esse tipo de trabalho é essencial para que um dia o Brasil seja um país não só de artistas estrangeiros, mas também onde haja uma cena onde bandas brasileiras também assumam posições de destaque em shows, festivais etc.

Entrevista: Carlos Garcia
Fotos: Divulgação

Assessoria de Imprensa: TRM Press
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domingo, 28 de abril de 2019

Age of Artemis: "Monomyth" Chega Para Surpreender!


 
Quando o baixista, e também produtor, Giovanni Sena afirmou ano passado que o novo trabalho iria surpreender, até poderia soar como auto-promoção, ou aquela velha conversa de todo músico quando lança um álbum novo, mas "Monomyth" chega agora para provar que Giovanni não exagerou, estava sim ciente do excelente trabalho que estavam produzindo.


Nota-se que a produção, que ficou "em casa", a cargo de Giovanni (que já havia produzido a versão para "Power", para o tributo ao Helloween), foi uma decisão acertada, e que ele  e seus companheiros sabiam o que queriam para a banda, a qual firma de vez sua identidade. A masterização e mixagem ficaram a cargo do francês radicado em Los Angeles Damien Rainaud, responsável por trabalhos de grupos como Fear Factory, Dragon Force, Almah e Baby Metal, ou seja, um profissional altamente capacitado, que contribuiu para uma excelente sonoridade, valorizando os detalhes e apuro musical do álbum.


"Monomyth" tem uma musicalidade muito bem interligada com o conteúdo lírico, onde os músicos conseguiram traduzir em cada música o clima contido em cada tema. A sonoridade tem a sua base no Prog Metal e Melodic Power Metal, mas nota-se que a banda não se preocupou em buscar soar dentro deste ou aquele rótulo, e sim trabalhou as canções conforme a música e o sentimento pediam. O conceito trata da jornada de um personagem, suas experiências, crescimento pessoal, temas que o ouvinte facilmente poderá se identificar.

A jornada, que inicia com o prelúdio "Status Quo", leva o ouvinte por diversos caminhos e climas, em músicas muito bem lapidadas. Temos "The Calling", onde a veia Prog Metal aparece bem forte, com trechos intrincados, mas sempre com melodias marcantes e variedade de climas. Pedro Campos se mostra bem a vontade, utilizando seus conhecidos drives, mas também com timbres mais limpos e altos quando a música pede; em "Helping Hand" temos um andamento mais acelerado, e a banda caminha tranquilamente entre o Prog e Melodic Metal.

Em "The Call of Fear" temos momentos mais emocionais, com um belo trabalho da cozinha, em levadas e linhas melodiosas, intrincadas e marcantes. O andamento mais moderado valoriza as melodias de guitarra e climas proporcionados pelos teclados, e Pedro canta com a carga emocional de causar arrepios. Há de se destacar o trabalho do vocalista, que não somente cantou, interpretou as canções. Acredito que o trabalho com a Metal Opera Soulspell deve também ter contribuído para esse know-how do vocalista.


"Unknown Strenght" tem um jeitão de trilha sonora em seu início, com grande trabalho dos teclados. O instrumental intrincado e mais cadenciado traz grandes melodias, principalmente no pré-refrão e refrão. E é notável como eles conseguiram preencher cada canção e também mudar de direção várias vezes durante as músicas; "Lightning Strikes" tem uma pegada mais pesada, destacando o riff principal, aliás, a guitarra é que comanda esta faixa bem à frente, mas as melodias marcantes estão sempre presentes. 

A busca em traduzir em cada canção o sentimento contido em cada parte do conteúdo lírico, temos "Reborn", que soa bastante tensa e agressiva, com Pedro alternando vocais rasgados e altos, e em seguida a beleza de "Endless Fight", com ótimas melodias e uma grande performance de Pedro, em uma canção tocante e emocionante. É um belo, por vezes intrincado e refinado instrumental, mas caramba! são melodias marcantes, que você pode assoviar! 

A banda trabalhou para a música, colocando muita alma nas composições. A belíssima "What Really Matters", que além das melodias emocionais, o trampo excepcional da cozinha, as variações instrumentais e belo trabalho de vocais e melodias dos backing, tem um refrão extremamente memorável, ouvi a primeira vez e não saiu mais da cabeça.


"Where Love Grows" inicia com percussões, passando por um andamento cadenciado e riffs marcantes e mais graves, ganhando velocidade no refrão. As percussões aparecem novamente acompanhadas por vocais femininos e orquestrações , trazendo um belo trabalho nessas mudanças de andamento, algo bem presente no trabalho; "A Great Day to Live" é uma balada, com piano e guitarra acústica e ritmos brasileiros. Tem um misto de melancolia e esperança, e nuances bem num estilo teatral. Logo em seguida temos o final com o poslúdio "Prelude to a New World".

Pouco mais tenho a dizer, a não ser elogiar o belo trabalho da banda, tentando ainda traduzir o que senti ouvindo o álbum, posso dizer que, pessoalmente, ele preencheu uma certa lacuna deixada por bandas que tinham essa capacidade de trazer um trabalho conceitual, onde as músicas possuem uma ligação muito bem feita com as letras, trazendo emoção e bom gosto nas melodias (Savatage, por exemplo, e também alguns momentos do Angra). E é isso que, acredito, o ouvinte busca, uma música que lhe traga emoção, que lhe toque a alma, que dê vontade de ouvir de novo e assoviar a melodia. Se consegui falar a mesma língua com você, leitor, caia de cabeça em "Monomyth". 

Texto: Carlos Garcia
Fotos: Divulgação

Ficha Técnica:
Banda: Age of Artemis
Álbum: "Monomyth" 2019
País: Brasil
Estilo: Prog Metal, Power Metal, Melodic Metal
Produção: Giovanni Sena
Assessoria de Imprensa: TRM Press
Selo: Independente


Line-Up
Pedro Campos: Vocais
Jeff Castro: Guitarra
Giovanni Sena: Baixo
Riccardo Linassi: Bateria
Gabriel Soto: Guitarras

Tracklist:
Tracklist
01 – Status Quo
02 – The Calling
03 – Helping Hand
04 – Unknown Strength
05 – Lightning Strikes
06 – The Call of The Fear
07 – Reborn
08 – Endless Fight
09 – What Really Matters
10 – Where Love Grows
11 – A Great Day to Live
12 – Prelude to a New World


       


       




domingo, 21 de abril de 2019

Cobertura de Show – Amorphis (13/04 – Porto Alegre/RS): finalmente em solo gaúcho


Cobertura: Renato Sanson
Fotos: Uillian Vargas


Da fria e bela Finlândia tivemos o prazer de presenciar a nova tour  - a “Queen of Time Tour”, que divulga seu 13° álbum de estúdio “Queen of Time” – do ícone Amorphis, que desta vez passou por Porto Alegre.

É interessante notar que mesmo com toda sua mudança musical o Amorphis mantém uma legião de fãs bastante solida, claro, alguns se dividem, até mesmo pela questão de preferirem a fase mais extrema e outros a fase mais experimental, mas o que fica é a qualidade e a evolução eminente em sua música.

O local escolhido para o show foi o Centro de Eventos da Fiergs, complexo este que também estava recebendo o maior evento de tatuagem do Brasil, o Inked Art Tattoo (realizado nos dias 11, 12 e 13 de abril) e nada melhor que na segunda noite do mesmo receber está grande atração do Metal mundial.


Em termos de estrutura só temos elogios, pois o local escolhido foi de um acerto absurdo tendo acessibilidade e bastante comodidade para os que ali estavam para assistir ao show, além da ótima sonorização apresentada, muito bem equalizada e soando sem falhas e sem contar o ótimo atendimento dos funcionários do local.

Após a montagem de palco finalizada – muito bela por sinal – não demora para a intro ecoar nos PA’s e os monstros mostrarem ao que vieram despejando logo de cara “The Bee” e “The Golden Elk” (ambas do álbum mais recente) que agitou os presentes, com uma banda extremamente entrosada e cheia de feeling.

O que me chamou a atenção do show em si, foi a predileção pela fase de Tomi Joutsen no grupo, respectivamente o vocalista que mais tempo ficou à frente do Amorphis e gravou mais discos, ao total de sete até o momento. Não que isso seja ruim, mas da fase inicial que muitos também gostam (me incluo nela) tivemos só a clássica “Black Winter Day”, as demais todas pertencentes aos álbuns com a voz de Tomi.


Mas claro que grandes clássicos surgiram desta “nova” - “velha” fase como: “Sky Is Mine” (emocionante no mínimo), “Silver Bride” e “House Of Sleep”.

Vale destacar a presença de palco da banda e todo seu comprometimento com o público, interagindo e sendo mais do que atenciosos, mostrando que não era apenas mais um show da turnê, mas que estavam felizes de estarem ali nos brindando com sua musicalidade única pela primeira vez.


Demorou, mas enfim Porto Alegre recebeu o Amorphis saciando a vontade dos fãs, tendo um ótimo público que se mostrou presente desde a primeira nota executada. Agora é torcer pela volta dos finlandeses o quanto antes!


Setlist:
01 – The Bee
02 – The Golden Elk
03 – Sky Is Mine
04 – Sacrifice
O5 – Against The Widows
06 – Silver Bride (intro)
07 – Bad Blood
08 – Wrong Direction
09 – Daughter Of Hate
10 – Heart Of The Giant
11 – Hopeless Days
12 – Black Winter Day
Bis
13 – Death Of a King
14 – House Of Sleep


O Amorphis atualmente é:
Tomi Joutsen (vocal – desde 2005)
Esa Holopainen (guitarra – desde 1990)
Tomi Koivusaari (guitarra – desde 1990)
Olli-Pekka Laine (baixo – 1990 – 2000 / 2017 – atual)
Santeri Kallio (teclado – desde 1998)
Jan Rachberger (bateria – 1990 – 1995 / 2002 – atual)