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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Triosphere: Um Retorno Que Valeu Cada Ano de Espera (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Tem bandas que desaparecem por um tempo e deixam aquela dúvida: será que ainda voltam? Com o Triosphere foi exatamente assim. Formada em 2004, na cidade de Trondheim, na Noruega, a banda conquistou seu espaço no heavy metal melódico ao combinar riffs marcantes, refrões envolventes e uma identidade que sempre equilibrou peso e emoção. Depois de lançar The Heart of the Matter, em 2014, os noruegueses passaram mais de dez anos sem apresentar um álbum de inéditas. Mas bastaram os primeiros singles de Oceans Above, Stars Below para mostrar que a espera não foi em vão. O grupo voltou inspirado e com um disco que resgata tudo aquilo que fez tanta gente se apaixonar por sua sonoridade.

O mais interessante é que o Triosphere não tenta reinventar o gênero. Em vez disso, aposta justamente no que sempre fez de melhor. O álbum soa maduro, intenso e muito autêntico, alternando momentos de pura energia com passagens mais introspectivas. Existe um clima épico que acompanha praticamente toda a audição, mas sem excessos. Tudo acontece de forma muito natural.

As letras seguem esse mesmo caminho. O disco fala sobre mudanças, superação, manipulação, abuso de poder e conflitos internos. São temas com os quais qualquer pessoa consegue se relacionar, e isso torna a experiência ainda mais envolvente.

Outro ponto que merece elogios é a produção. A mixagem deixa tudo muito claro, permitindo que cada instrumento tenha seu espaço sem perder o impacto. As guitarras aparecem fortes e definidas, o baixo tem presença, a bateria sustenta o peso das músicas e os teclados entram na medida certa, ajudando a construir essa atmosfera cinematográfica que envolve o álbum.

O trabalho dos músicos também merece destaque. Marius Silver Bergesen entrega riffs marcantes e solos cheios de personalidade, enquanto Kenneth Tårneby e Tor Ole Byberg formam uma base sólida que sustenta o álbum do começo ao fim.

E aí chegamos ao grande trunfo do Triosphere: Ida Haukland. Sua voz continua sendo um dos elementos mais marcantes da banda. Ela canta com uma força impressionante, mas também consegue transmitir fragilidade e melancolia quando a música pede. É justamente esse equilíbrio que faz suas interpretações soarem tão sinceras e emocionantes.

Entre os destaques, a faixa-título, Oceans Above, Stars Below, é praticamente o cartão de visitas do álbum. Ela resume muito bem tudo o que o Triosphere quer apresentar aqui: velocidade, peso, melodias envolventes e momentos mais densos que reforçam o lado emocional do disco.

Já Of Tyrants acelera o ritmo e aposta em um heavy metal direto, com guitarras afiadas e muita energia. Além da força instrumental, a música chama atenção pela letra, que critica a ganância, a manipulação e o abuso de poder de forma bastante contundente.

Quem acompanhou o retorno da banda certamente se lembra de Monster's Ball. Escolhida como primeiro single, a faixa teve a missão de encerrar oficialmente o longo hiato e apresentar novamente o Triosphere ao público. E fez isso muito bem, reunindo riffs marcantes, um refrão forte e toda a personalidade que sempre acompanhou a banda.

Shorelines mostra um lado mais sensível do grupo. A música cresce aos poucos, mistura passagens progressivas com uma enorme carga emocional e entrega um dos momentos mais bonitos de todo o álbum. É impossível não se envolver.

Encore é uma das faixas mais bonitas do álbum. A balada mantém um ritmo calmo do início ao fim, criando uma atmosfera delicada e envolvente. Aqui, a voz de Ida Haukland assume uma abordagem mais suave, entregando delicadeza e emoção, especialmente em um refrão carregado de sentimento.

O grande destaque fica por conta do piano e das guitarras, que se entrelaçam de maneira sutil ao efeito de reverb hall, criando uma sonoridade ampla e profunda. É justamente essa combinação entre a interpretação vocal e a atmosfera dos instrumentos que dá à faixa uma sensação quase etérea, tornando Encore um dos momentos mais emocionais do álbum.

E quando parece que a viagem chegou ao fim, surge Gjenklang. Uma continuação instrumental, mais orquestrada e cinematográfica, de Encore. O título, que significa “eco” ou “ressonância” em norueguês, quebra a sequência de nomes em inglês e fecha o disco de maneira muito simbólica. A sensação é justamente essa: quando a última nota termina, as músicas continuam ecoando na cabeça por um bom tempo.

No fim das contas, Oceans Above, Stars Below não é apenas o retorno de uma banda depois de onze anos. É a prova de que o Triosphere continua sabendo exatamente como unir peso, melodia e emoção sem perder a própria essência. Um disco que conversa tanto com quem acompanha a banda desde o início quanto com quem está chegando agora — e que faz a longa espera ter valido completamente a pena.


***ENGLISH VERSION***

There are bands that disappear for a while and leave you wondering: will they ever come back? That was exactly the case with Triosphere. Formed in 2004 in Trondheim, Norway, the band carved out its place in melodic heavy metal by combining memorable riffs, captivating choruses, and an identity that has always balanced heaviness and emotion. After releasing The Heart of the Matter in 2014, the Norwegian band spent more than ten years without releasing a new studio album. But the first singles from Oceans Above, Stars Below were enough to show that the wait had not been in vain. The band returned inspired, with an album that brings back everything that made so many people fall in love with their sound.

The most interesting thing is that Triosphere does not try to reinvent the genre. Instead, they rely on what they have always done best. The album sounds mature, intense, and incredibly authentic, alternating moments of pure energy with more introspective passages. There is an epic atmosphere that runs through almost the entire listening experience, but never feels excessive. Everything unfolds naturally.

The lyrics follow the same path. The album deals with themes of change, overcoming adversity, manipulation, abuse of power, and inner conflicts. These are themes anyone can relate to in some way, making the experience even more engaging.

Another aspect that deserves praise is the production. The mix keeps everything clear, allowing each instrument to have its own space without sacrificing impact. The guitars sound powerful and defined, the bass has a strong presence, the drums carry the weight of the songs, and the keyboards are used with just the right amount of restraint, helping build the cinematic atmosphere that surrounds the album.

The musicians' performances also deserve recognition. Marius Silver Bergesen delivers memorable riffs and highly distinctive solos, while Ørjan Haraldset and Tor Ole Byberg provide a solid foundation that carries the album from beginning to end.

And then we come to Triosphere greatest asset: Ida Haukland. Her voice remains one of the band's most distinctive elements. She sings with remarkable power, while also being able to convey vulnerability and melancholy whenever the music calls for it. It is precisely this balance that makes her performances feel so genuine and emotionally compelling.

Among the highlights, the title track, Oceans Above, Stars Below, is practically the album's calling card. It perfectly sums up what Triosphere wants to deliver here: speed, heaviness, captivating melodies, and darker, denser moments that reinforce the album's emotional side.

Of Tyrants picks up the pace and goes for a straightforward heavy metal approach, with sharp guitars and plenty of energy. Beyond its instrumental strength, the song stands out for its lyrics, which deliver a pointed criticism of greed, manipulation, and the abuse of power.

Anyone who followed the band's comeback will certainly remember Monster's Ball. Chosen as the first single, the track had the task of officially ending the band's long hiatus and reintroducing Triosphere to its audience. And it did so brilliantly, bringing together memorable riffs, a powerful chorus, and all the personality that has always been part of the band's identity.

Shorelines, on the other hand, reveals a more sensitive side of the band. The song gradually builds, blending progressive passages with an immense emotional weight and delivering one of the most beautiful moments on the entire album. It is impossible not to get swept up in it.

Encore is one of the album's most beautiful tracks. The ballad maintains a calm pace from beginning to end, creating a delicate and captivating atmosphere. Here, Ida Haukland's voice takes on a softer approach, delivering tenderness and emotion, particularly in a chorus filled with feeling.

The real highlight comes from the piano and guitars, which subtly intertwine with a hall reverb effect, creating a wide and deeply resonant sound. It is precisely this combination of the vocal performance and the instrumental atmosphere that gives the track an almost ethereal quality, making Encore one of the album's most emotional moments.

And just when it seems the journey has come to an end, Gjenklang emerges. It is a more orchestral and cinematic instrumental continuation of Encore. The title, which means “echo” or “resonance” in Norwegian, breaks the album's sequence of English titles and brings the record to a highly symbolic conclusion. The feeling is exactly that: when the final note fades away, the songs continue to echo in your mind for a long time.

Ultimately, Oceans Above, Stars Below is more than just the return of a band after eleven years. It is proof that Triosphere still knows exactly how to combine heaviness, melody, and emotion without losing its essence. An album that speaks both to those who have followed the band since the beginning and to those discovering them now — and one that makes the long wait feel completely worthwhile.

Ronny Danielsen


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Issa: Melodia em Alta (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Após consolidar seu nome como uma das vozes mais consistentes do AOR contemporâneo, a norueguesa Issa Oversveen retorna com Fire And Ice, um álbum que reafirma sua posição de destaque dentro do melodic rock europeu. O trabalho ganha relevância ao evidenciar o quanto sua proposta permanece atual: uma combinação cuidadosamente equilibrada entre a grandiosidade melódica dos anos 1980 e uma produção moderna, limpa e cinematográfica.

Com todas as composições assinadas pelos irmãos Tom Martin e James Martin, "Fire And Ice" não tenta reinventar o gênero. Seu objetivo é outro: aperfeiçoar uma fórmula clássica através de arranjos refinados, refrães memoráveis e uma atmosfera que transita naturalmente entre o AOR tradicional, o hard rock melódico e discretas influências synthwave.

A abertura com "The Call Of Love" estabelece imediatamente as coordenadas do álbum. Teclados envolventes, guitarras elegantes e uma produção cristalina criam o cenário ideal para que Issa apresente uma interpretação segura e carregada de personalidade. É uma faixa que não surpreende pela inovação, mas pela eficiência com que executa cada elemento característico do gênero.

"Stranded" eleva a intensidade logo em seguida. Sustentada por uma linha de baixo particularmente inspirada, a música combina peso e melodia de forma exemplar. O refrão surge com força avassaladora, cercado por camadas de teclados e backing vocals que ampliam sua dimensão radiofônica. É uma daquelas composições construídas para permanecer na memória após poucas audições.

A faixa-título mantém o alto nível. "Fire And Ice" aposta numa arquitetura musical mais elaborada do que seu refrão aparentemente simples sugere. O trabalho de teclados conduz a narrativa da música, enquanto guitarras e seção rítmica oferecem a sustentação necessária para que a voz de Issa brilhe. O resultado é um dos momentos mais sofisticados do álbum.

Com "Sea Of Desire", o disco desacelera para apresentar sua grande power ballad. Piano, guitarras emotivas e uma interpretação vocal particularmente sensível criam uma atmosfera que remete diretamente à era dourada das baladas do melodic rock. A música evita excessos sentimentais graças à elegância dos arranjos e ao equilíbrio entre emoção e contenção.

"All Or Nothing" devolve o protagonismo às guitarras. Mais direta e orientada ao hard rock, a faixa aposta em riffs robustos e um refrão menos açucarado que a média do álbum. A presença marcante do baixo e o excelente solo central reforçam seu apelo mais roqueiro.

"The Shadow Of Night" mergulha sem reservas na estética oitentista. Os timbres clássicos de sintetizadores são utilizados com inteligência, funcionando como parte essencial da composição em vez de simples elemento nostálgico. A combinação entre teclados exuberantes, guitarras melódicas e uma interpretação vocal segura transforma a música em mais um dos pontos altos do trabalho.

"Bullet On The Road" apresenta uma das composições mais elegantes do repertório. Sua introdução quase épica conduz a uma construção gradual que culmina num refrão contagiante e emocionalmente eficiente. É uma faixa que demonstra a maturidade dos compositores ao equilibrar acessibilidade e sofisticação.

Se existe uma música capaz de sintetizar a proposta estética de Fire And Ice, essa música é "Pay The Price". A influência dos anos 1980 aparece em cada detalhe: dos sintetizadores exuberantes aos riffs cristalinos e ao refrão monumental. Ainda assim, a produção moderna impede que a faixa soe como mera reprodução do passado. É nostalgia reinterpretada com competência.

"One Step To Paradise" aposta numa abordagem mais simples e direta. Sem grandes floreios, a composição cresce gradualmente até atingir um refrão eficiente e envolvente. Sua força está justamente na objetividade e na capacidade de manter a dinâmica do álbum sem comprometer sua coesão.

A influência synthwave retorna em "Running From The Night". Os teclados assumem papel de destaque ao lado das guitarras, criando uma atmosfera que remete tanto ao AOR clássico quanto às releituras modernas do gênero. O resultado é uma faixa vibrante e extremamente agradável.

Encerrando o disco, "The Waiting Game" funciona como uma síntese de tudo o que foi apresentado anteriormente. Não oferece grandes surpresas, mas reafirma as qualidades que sustentam o álbum: melodias fortes, refrães marcantes e uma produção impecável. É um fechamento seguro e coerente para uma obra construída com atenção aos detalhes.

Fire And Ice não busca revolucionar o melodic rock nem romper fronteiras estilísticas. Sua força reside justamente na compreensão profunda dos códigos do gênero e na capacidade de executá-los com excelência. A química entre as composições dos irmãos Martin e a interpretação carismática de Issa produz um álbum extremamente consistente, repleto de refrões memoráveis e arranjos sofisticados.

Mais do que uma simples celebração da nostalgia oitentista, Fire And Ice demonstra como o AOR ainda pode soar relevante quando executado com talento, bom gosto e convicção. Um trabalho que confirma Issa como uma das principais representantes da atual cena melódica europeia e que merece ser redescoberto por uma nova geração de ouvintes.

***ENGLISH VERSION***

Having firmly established herself as one of the most consistent voices in contemporary AOR, Norwegian singer Issa Oversveen returns with Fire And Ice, an album that further cements her standing within the European melodic rock scene. The record remains remarkably relevant, showcasing a carefully balanced blend of 1980s melodic grandeur and a modern, polished, cinematic production.

With every song penned by brothers Tom and James Martin, Fire And Ice does not seek to reinvent the genre. Instead, its mission is to refine a classic formula through sophisticated arrangements, memorable hooks, and an atmosphere that effortlessly moves between traditional AOR, melodic hard rock, and subtle synthwave influences.

Opening track "The Call Of Love" immediately establishes the album’s sonic identity. Lush keyboards, elegant guitar work, and crystal-clear production provide the perfect backdrop for Issa to deliver a confident and characterful vocal performance. It may not surprise through innovation, but it excels through the sheer effectiveness with which it executes every hallmark of the genre.

"Stranded" raises the intensity from the outset. Driven by a particularly inspired bass line, the song masterfully balances weight and melody. Its towering chorus arrives with undeniable force, surrounded by layers of keyboards and backing vocals that enhance its radio-friendly appeal. This is the kind of song designed to linger in the listener’s mind long after the first spin.

The title track maintains the album’s high standards. "Fire And Ice" reveals a more sophisticated musical architecture than its seemingly straightforward chorus initially suggests. Rich keyboard textures guide the song’s narrative, while the guitars and rhythm section provide a solid foundation for Issa’s voice to shine. The result is one of the album’s most accomplished moments.

With "Sea Of Desire," the pace slows to deliver the record’s quintessential power ballad. Piano, emotive guitar work, and an especially heartfelt vocal performance create an atmosphere that recalls the golden era of melodic rock balladry. The song avoids descending into sentimentality thanks to the elegance of its arrangements and its careful balance between emotion and restraint.

"All Or Nothing" places the spotlight firmly back on the guitars. More direct and hard rock-oriented than much of the album, the track relies on muscular riffs and a chorus that is less sugary than the record’s average. A prominent bass performance and an excellent central guitar solo further enhance its rock credentials.

"The Shadow Of Night" embraces the aesthetics of the 1980s without hesitation. Classic synthesizer tones are employed intelligently, functioning as an essential component of the composition rather than mere nostalgic decoration. The combination of lush keyboards, melodic guitars, and another assured vocal performance makes this one of the album’s standout tracks.

"Bullet On The Road" ranks among the most elegant compositions in the set. Its near-epic introduction leads into a gradual build-up that culminates in a contagious and emotionally resonant chorus. It is a song that highlights the composers’ maturity, balancing accessibility with genuine sophistication.

If there is one track capable of encapsulating the album’s overall aesthetic, it is "Pay The Price." The influence of the 1980s is present in every detail, from the expansive synthesizers and crystalline guitar tones to its monumental chorus. Yet the contemporary production prevents the song from feeling like a mere recreation of the past. Instead, it is nostalgia reinterpreted with skill and conviction.

"One Step To Paradise" adopts a simpler and more direct approach. Without unnecessary embellishments, the song gradually builds toward an effective and engaging chorus. Its strength lies in its straightforwardness and its ability to maintain the album’s momentum without compromising overall cohesion.

The synthwave influence returns on "Running From The Night." Keyboards take center stage alongside the guitars, creating an atmosphere that draws equally from classic AOR and modern reinterpretations of the genre. The result is a vibrant and immensely enjoyable track.

Closing the album, "The Waiting Game" serves as a summary of everything that has come before. It offers few surprises, yet successfully reinforces the qualities that define the record: strong melodies, memorable choruses, and impeccable production. It is a safe but satisfying conclusion to an album crafted with great attention to detail.

Fire And Ice does not seek to revolutionize melodic rock or push stylistic boundaries. Its strength lies in its profound understanding of the genre’s core principles and its ability to execute them with exceptional confidence. The chemistry between the Martin brothers’ songwriting and Issa’s charismatic vocal delivery results in a remarkably consistent album filled with memorable hooks and sophisticated arrangements.

More than a simple celebration of 1980s nostalgia, Fire And Ice demonstrates how AOR can still sound fresh and relevant when performed with talent, taste, and conviction. It is an album that confirms Issa’s status as one of the leading figures in today’s European melodic rock scene and one that deserves to be rediscovered by a new generation of listeners.

Alison Martin

terça-feira, 19 de maio de 2026

Dimmu Borgir: A Serpente Troca de Pele (Also In English)

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Michelle F. Santana 

Dimmu Borgir é uma das bandas mais importantes e influentes do black metal sinfônico, formada na Noruega em 1993 por Shagrath e Silenoz durante a ascensão da segunda onda do black metal norueguês. Conhecida por unir agressividade extrema, atmosferas sombrias e arranjos orquestrais grandiosos, a banda construiu sua identidade explorando temas ligados à morte, ocultismo, misantropia, espiritualidade e transformação humana, sempre equilibrando brutalidade e sofisticação musical.

Oito anos após "Eonian" (2018), o grupo retorna com Grand Serpent Rising, um álbum que resgata parte da essência mais obscura e agressiva do Dimmu Borgir sem abandonar completamente sua grandiosidade sinfônica.

Produzido novamente por Fredrik Nordström responsável por clássicos como "Puritanical Euphoric Misanthropia" (2001) e "Death Cult Armageddon" (2003) o disco aposta em uma sonoridade mais orgânica, visceral e equilibrada, priorizando riffs, atmosfera e intensidade ao invés de excessos orquestrais constantes. O retorno do produtor Fredrik reforça essa sensação de reconexão com as origens da banda. 

Após anos dividindo opiniões com trabalhos mais experimentais, Dimmu Borgir retorna de forma triunfal em Grand Serpent Rising, um álbum que reafirma a essência da banda, trazendo elementos que marcaram parte de sua trajetória.

Mesmo sendo um disco com 13 faixas, Grand Serpent Rising dificilmente se torna cansativo. Pelo contrário: a consistência das composições mantém a intensidade do começo ao fim. Os riffs estruturados, a orquestração é bem dosada, os vocais impecáveis de Shagrath e a atmosfera sombria fazem do álbum um verdadeiro prato cheio para fãs de black metal sinfônico. 

“Ascent” surge como um dos momentos mais fortes do álbum justamente por equilibrar peso, velocidade e atmosfera, remetendo diretamente ao Dimmu Borgir do início dos anos 2000. A guitarra de Silenoz brilham com precisão nessa faixa.

A faixa “The Qryptfarer” reforça o lado mais obscuro e agressivo do disco, sustentada por riffs marcantes e uma construção quase sufocante em determinados momentos.

“Ulvgjeld & Blodsødel”, cantada na língua nativa da banda, representa um retorno claro às raízes norueguesas do grupo. A faixa carrega uma atmosfera ritualística e sombria que aproxima novamente o Dimmu Borgir de elementos mais tradicionais do black metal, sem perder a grandiosidade característica da banda.

Em “Phantom of the Nemesis” que o álbum encontra seu ponto de equilíbrio mais impressionante. Aqui, o lado sinfônico reaparece, mas sem sufocar os riffs ou a agressividade das guitarras. Pelo contrário: a orquestração com os riffs reforçando a sensação cinematográfica sem transformar a música em um excesso de grandiosidade artificial. A faixa deixa claro que o elemento sinfônico continua sendo parte fundamental da identidade do Dimmu Borgir apenas mais equilibrado e melhor integrado à composição.

O encerramento com a instrumental “Gjoll” é outro grande acerto do álbum. Extremamente atmosférica, a faixa conduz o ouvinte por paisagens sombrias que remetem quase visualmente a florestas frias e obscuras do norte europeu. Os riffs mais arrastados, aliados às camadas ambientais e à construção melancólica da música, criam um fechamento preciso e elegante para o disco, encerrando Grand Serpent Rising com sensação de grandiosidade sem precisar recorrer a excessos.

E talvez seja justamente aí que esteja a força de Grand Serpent Rising: não em tentar reviver o passado, mas em compreender que até mesmo a escuridão evolui. Como uma serpente trocando de pele nas sombras das florestas norueguesas, o Dimmu Borgir retorna mais maduro, agressivo e consciente da própria identidade, transformando peso, melancolia e grandiosidade em um ritual sonoro sombrio e imponente.

***ENGLISH VERSION***

Dimmu Borgir is one of the most important and influential bands in symphonic black metal, formed in Norway in 1993 by Shagrath and Silenoz during the rise of the second wave of Norwegian black metal. Known for uniting extreme aggressiveness, dark atmospheres, and grandiose orchestral arrangements, the band built its identity by exploring themes related to death, occultism, misanthropy, spirituality, and human transformation, always balancing brutality and musical sophistication.

Eight years after "Eonian" (2018), the group returns with Grand Serpent Rising, an album that reclaims part of Dimmu Borgir's darkest and most aggressive essence without completely abandoning its symphonic grandiosity.

Produced once again by Fredrik Nordström—responsible for classics such as "Puritanical Euphoric Misanthropia" (2001) and "Death Cult Armageddon" (2003)—the record bets on a more organic, visceral, and balanced sound, prioritizing riffs, atmosphere, and intensity over constant orchestral excesses. The return of producer Fredrik reinforces this sense of reconnection with the band's origins.

After years of dividing opinions with more experimental works, Dimmu Borgir makes a triumphant return in Grand Serpent Rising, an album that reaffirms the band's essence, bringing back elements that marked part of their trajectory.

Even as a 13-track album, Grand Serpent Rising rarely becomes tiresome. On the contrary: the consistency of the compositions maintains the intensity from start to finish. The structured riffs, well-measured orchestration, Shagrath's flawless vocals, and the dark atmosphere make the album a true feast for symphonic black metal fans.

“Ascent” emerges as one of the album's strongest moments precisely because it balances heaviness, speed, and atmosphere, directly recalling the Dimmu Borgir of the early 2000s. Silenoz's guitars shine with precision on this track.

The track “The Qryptfarer” reinforces the darker and more aggressive side of the record, sustained by striking riffs and an almost suffocating structure at certain points.

“Ulvgjeld & Blodsødel”, sung in the band's native language, represents a clear return to the group's Norwegian roots. The track carries a ritualistic and dark atmosphere that once again brings Dimmu Borgir closer to more traditional elements of black metal, without losing the band's characteristic grandiosity.

It is in “Phantom of the Nemesis” that the album finds its most impressive point of balance. Here, the symphonic side reappears, but without suffocating the riffs or the aggressiveness of the guitars. On the contrary: the orchestration works with the riffs, reinforcing the cinematic feel without turning the music into an excess of artificial grandiosity. The track makes it clear that the symphonic element remains a fundamental part of Dimmu Borgir's identity—just more balanced and better integrated into the composition.

The closing with the instrumental “Gjoll” is another great success of the album. Extremely atmospheric, the track leads the listener through dark landscapes that almost visually evoke the cold, dark forests of Northern Europe. The slower, dragging riffs, combined with ambient layers and the song's melancholic build, create a precise and elegant closing for the record, ending Grand Serpent Rising with a sense of grandiosity without having to resort to excesses.

And perhaps that is precisely where the strength of Grand Serpent Rising lies: not in trying to revive the past, but in understanding that even darkness evolves. Like a serpent shedding its skin in the shadows of the Norwegian forests, Dimmu Borgir returns more mature, aggressive, and aware of its own identity, transforming heaviness, melancholy, and grandiosity into a dark and imposing sonic ritual.



sexta-feira, 15 de maio de 2026

Kaasin: Riffs Densos, Musicalidade Refinada e Autenticidade (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

A banda norueguesa Kaasin retorna em 2026 com The Underworld, álbum que representa uma evolução natural — e significativamente mais ambiciosa — de sua proposta musical. Explorando atmosferas mais densas e sombrias sem abandonar as bases clássicas do hard rock melódico, o grupo liderado pelo guitarrista Jo Henning Kaasin reafirma sua identidade artística através de composições maduras, forte senso melódico e uma produção orgânica que privilegia peso, dinâmica e musicalidade acima de excessos modernos de estúdio.

Após o excelente debut Fired Up, a impressão que fica é a de que o KAASIN compreendeu exatamente quais elementos tornam sua sonoridade especial: a fusão entre o hard rock setentista de escola britânica e uma abordagem contemporânea que evita tanto a caricatura nostálgica quanto a artificialidade excessivamente polida que domina parte do gênero atualmente. The Underworld surge, assim, como um disco mais confiante, coeso e artisticamente refinado, consolidando a banda entre os nomes mais interessantes do hard rock escandinavo contemporâneo.

“The Real World” abre o álbum com impacto imediato. Construída sobre uma base sólida de hard rock europeu clássico, a faixa impressiona pela coesão instrumental e pela forma como os teclados dialogam com guitarras mais pesadas e ásperas do que normalmente se espera do hard melódico tradicional. A cozinha formada por baixo e bateria sustenta tudo com precisão quase orgânica, enquanto o vocal de Jan Thore Grefstad adiciona agressividade sem comprometer o apelo melódico. As influências setentistas aparecem de maneira evidente, mas nunca limitam a personalidade da composição.

A estética setentista domina completamente “Two Hearts”. Os versos remetem diretamente à escola clássica britânica, especialmente pelo trabalho de teclados inspirado em nomes como Deep Purple. Ainda assim, o KAASIN evita soar datado graças a um refrão extremamente melódico e moderno dentro do contexto da faixa. O grande mérito está justamente no equilíbrio entre reverência e atualização estética, algo que poucas bandas conseguem executar com naturalidade.

Mantendo a mesma identidade sonora, mas privilegiando velocidade e dinamismo, “We Speed at Night” apresenta uma abordagem mais direta. O riff principal é extremamente eficiente, enquanto o baixo assume papel fundamental na condução rítmica da música. As referências a Rainbow, Dio e ao próprio Deep Purple aparecem em diversos momentos, porém sem transformar a faixa em simples exercício de nostalgia. O KAASIN demonstra personalidade suficiente para absorver influências clássicas sem perder identidade.

 “Iron Horse” talvez seja uma das faixas que melhor sintetizam a essência do álbum. A introdução construída sobre voz, piano e guitarra cria tensão antes da entrada definitiva do hard rock clássico, claramente influenciado pela fase setentista do Deep Purple. O destaque, porém, está no refinamento dos arranjos: mudanças sutis de dinâmica, linhas de baixo extremamente vivas e teclados com timbres vintage autênticos — especialmente os Hammond — enriquecem a composição sem torná-la excessivamente técnica. Há sofisticação musical aqui, mas sempre a serviço da canção.

 “Invisible” amplia levemente o horizonte sonoro do disco ao incorporar elementos mais contemporâneos em sua estrutura. Após uma introdução atmosférica conduzida pelos teclados, a faixa explode em um refrão extremamente melódico sustentado por ótimos backing vocals. O baixo novamente merece destaque pelas linhas elaboradas e pelo protagonismo nos versos, enquanto Jan Thore Grefstad entrega uma de suas melhores performances do álbum. Sua interpretação confere profundidade emocional à faixa sem recorrer a exageros dramáticos.

 “Over the Mountain” reforça a influência do hard rock clássico dos anos 70, mas talvez seja uma das músicas mais elaboradas do álbum em termos estruturais. As mudanças de andamento e as pequenas variações rítmicas adicionam dinamismo constante à composição. Ao mesmo tempo, elementos modernos surgem discretamente para impedir que a faixa se transforme apenas em homenagem ao passado. Mais uma vez, chama atenção a impressionante coesão instrumental da banda, que executa arranjos relativamente complexos com enorme naturalidade.

Após uma introdução claramente inspirada em sonoridades orientais, “Arabian Night” inevitavelmente remete a clássicos épicos como “Stargazer”, do Rainbow. A influência de Ronnie James Dio também aparece com força nas linhas vocais e na construção melódica, mas o KAASIN demonstra inteligência suficiente para evitar qualquer sensação de cópia. A música possui personalidade própria, especialmente graças ao excelente trabalho de baixo e ao solo melódico extremamente bem encaixado dentro da narrativa da faixa.

“The Descent of Souls” funciona como uma breve vinheta instrumental que prepara o terreno para o encerramento do disco. Guitarras sintetizadas e teclados criam uma atmosfera futurista, sombria e quase cinematográfica, reforçando a identidade conceitual do álbum.

A faixa-título encerra o disco em altíssimo nível. “The Underworld” soa como um encontro improvável entre Motörhead e Deep Purple: veloz, pesada e impulsionada por uma seção rítmica incessante. Baixo e bateria trabalham quase em estado de urgência permanente, permitindo que guitarras e teclados alternem riffs agressivos e passagens melódicas com enorme fluidez. Os teclados, aliás, brilham especialmente aqui, transitando entre timbres modernos e vintage sem perder unidade estética. É um encerramento forte, energético e extremamente eficiente.

The Underworld é um disco denso, pesado e musicalmente sofisticado, feito para fãs do hard rock europeu de orientação setentista, mas suficientemente inteligente para dialogar com ouvintes contemporâneos sem soar preso ao passado. Mais do que apenas reverenciar gigantes como Deep Purple, Rainbow ou Dio, o KAASIN demonstra compreender a essência artística daquele período: composições fortes, musicalidade orgânica e personalidade acima de tendências passageiras. Em um cenário onde grande parte do hard rock atual parece satisfeita em reciclar fórmulas, The Underworld se destaca justamente por soar genuíno, inspirado e artisticamente relevante.

***ENGLISH VERSION***

Norwegian band Kaasin returns in 2026 with The Underworld, an album that represents a natural — and significantly more ambitious — evolution of its musical vision. Exploring darker and denser atmospheres without abandoning the classic foundations of melodic hard rock, the group led by guitarist Jo Henning Kaasin reaffirms its artistic identity through mature songwriting, a strong melodic sense, and an organic production that prioritizes weight, dynamics, and musicianship over modern studio excesses.

Following the excellent debut Fired Up, it becomes clear that KAASIN fully understands what makes its sound distinctive: the fusion of ‘70s British hard rock with a contemporary approach that avoids both nostalgic caricature and the overly polished artificiality that dominates much of the genre today. The Underworld therefore emerges as a more confident, cohesive, and artistically refined record, firmly establishing the band among the most compelling names in contemporary Scandinavian hard rock.

“The Real World” opens the album with immediate impact. Built upon a solid foundation of classic European hard rock, the track impresses through its instrumental cohesion and the way the keyboards interact with guitars that are heavier and rougher than what is typically expected from traditional melodic hard rock. The rhythm section provides an almost organic precision throughout, while Jan Thore Grefstad’s vocals inject aggression without sacrificing melodic appeal. The ‘70s influences are unmistakable, yet they never overshadow the band’s own identity.

The ‘70s aesthetic completely dominates “Two Hearts.” The verses strongly evoke the classic British school of hard rock, particularly through the keyboard work inspired by bands such as Deep Purple. Even so, KAASIN avoids sounding dated thanks to an extremely melodic and modern-sounding chorus within the context of the track. The true achievement lies in the balance between reverence and reinvention — something very few bands manage to execute naturally.

Maintaining the same sonic identity while emphasizing speed and dynamism, “We Speed at Night” delivers a more direct approach. The main riff is remarkably effective, while the bass takes on a fundamental role in driving the song forward. References to Rainbow, Dio, and Deep Purple surface throughout the track, though never to the point of reducing it to a mere exercise in nostalgia. KAASIN demonstrates enough personality to absorb classic influences without losing its own voice.

“Iron Horse” may well be the track that best encapsulates the essence of the album. The introduction, built around vocals, piano, and guitar, creates tension before the definitive arrival of classic hard rock clearly inspired by Deep Purple’s ‘70s era. The true highlight, however, lies in the sophistication of the arrangements: subtle dynamic shifts, highly expressive bass lines, and authentic vintage keyboard tones — especially the Hammond textures — enrich the composition without making it unnecessarily technical. There is undeniable musical sophistication here, but always in service of the song itself.

“Invisible” slightly expands the album’s sonic horizon by incorporating more contemporary elements into its structure. Following an atmospheric keyboard-driven introduction, the song erupts into an extremely melodic chorus supported by excellent backing vocals. Once again, the bass deserves recognition for its intricate lines and strong presence throughout the verses, while Jan Thore Grefstad delivers one of his finest performances on the album. His interpretation adds emotional depth without resorting to theatrical excess.

“Over the Mountain” reinforces the influence of classic ‘70s hard rock, yet structurally it may be one of the album’s most elaborate compositions. Tempo changes and subtle rhythmic variations provide constant movement, while modern elements discreetly emerge to prevent the song from becoming merely a tribute to the past. Once again, the band’s remarkable instrumental cohesion stands out, particularly in the effortless execution of relatively complex arrangements.

Following an introduction clearly inspired by Middle Eastern sonorities, “Arabian Night” inevitably recalls epic classics such as “Stargazer” by Rainbow. The influence of Ronnie James Dio is also strongly present in both the vocal lines and melodic construction, yet KAASIN shows enough intelligence to avoid any sense of imitation. The track possesses its own identity, especially thanks to the outstanding bass work and a beautifully crafted melodic guitar solo seamlessly integrated into the song’s narrative.

“The Descent of Souls” functions as a brief instrumental interlude that prepares the listener for the album’s finale. Synthesized guitars and keyboards create a futuristic, dark, and almost cinematic atmosphere, reinforcing the conceptual identity of the record.

The title track closes the album on an exceptionally high note. “The Underworld” sounds like an unlikely collision between Motörhead and Deep Purple: fast, heavy, and driven by a relentless rhythm section. Bass and drums operate in a near-constant state of urgency, allowing guitars and keyboards to alternate between aggressive riffs and melodic passages with remarkable fluidity. The keyboards, in particular, shine throughout the track, shifting between modern and vintage tones without losing aesthetic cohesion. It is a powerful, energetic, and highly effective conclusion.

The Underworld is a dense, heavy, and musically sophisticated album crafted for fans of ‘70s-oriented European hard rock, yet intelligent enough to resonate with contemporary listeners without sounding trapped in the past. More than simply paying tribute to giants such as Deep Purple, Rainbow, or Dio, KAASIN demonstrates a genuine understanding of the artistic essence of that era: strong songwriting, organic musicianship, and personality above fleeting trends. In a landscape where much of modern hard rock seems content recycling formulas, The Underworld stands out precisely because it feels genuine, inspired, and artistically relevant.



quarta-feira, 13 de maio de 2026

Rozario: Hinos de aço e fogo (Also In English)

Pride And Joy (Imp.)

Por Flavio Borges 

Após causar excelente impressão com To The Gods We Swear em 2023, os noruegueses do Rozario retornam com um trabalho ainda mais ambicioso e seguro de sua identidade artística. Northern Crusaders não apenas amplia os horizontes sonoros apresentados no disco anterior, como também consolida a banda entre os nomes mais promissores da nova geração do heavy metal melódico europeu. Em vez de simplesmente reproduzir fórmulas nostálgicas, o grupo compreende que a essência do metal clássico está menos na reverência estética e mais na capacidade de transformar riffs, melodias e refrães em experiências grandiosas.

Com produção robusta assinada por Trond Holter (Jorn , Wig Wam) e a adição do jovem guitarrista Taran Lister, o álbum exibe uma sonoridade ampla, poderosa e extremamente coesa. Há ecos evidentes de gigantes do gênero, mas o Rozario evita cair na armadilha da simples homenagem. O que se encontra aqui é uma banda que entende perfeitamente a linguagem do heavy metal tradicional e a utiliza para construir algo moderno, vibrante e genuinamente apaixonado.

A abertura com “Fire and Ice” já deixa clara a proposta do álbum: heavy metal direto, épico e sem excessos desnecessários. Os riffs surgem afiados, a cozinha baixo/bateria trabalha com precisão cirúrgica e os vocais aparecem carregados de imponência. O refrão, sustentado por coros grandiosos e backing vocals extremamente bem posicionados, possui aquele caráter imediato típico dos grandes hinos do gênero. Sem reinventar a roda, a faixa acerta justamente por entender que impacto e execução ainda são elementos fundamentais no metal tradicional.

Mantendo o tom heroico do disco, “We Are One” aposta em uma construção mais melódica e emocional. O tema inicial de guitarra conduz a faixa para uma levada cadenciada enriquecida por teclados e piano discretamente inseridos na mixagem. O refrão é colossal — claramente pensado para ser entoado por grandes audiências — enquanto as guitarras trabalham em perfeita sintonia entre peso e melodia. Há uma forte influência de power metal europeu aqui, mas equilibrada por uma abordagem mais clássica e orgânica. David demonstra excelente controle vocal, escolhendo timbres e intensidades com inteligência ao longo de toda a música.

“Down Low” introduz uma abordagem mais pesada e moderna, tanto na estrutura instrumental quanto em determinadas linhas vocais. O andamento mais arrastado adiciona variedade ao repertório sem quebrar a identidade do álbum. Embora o refrão não alcance o mesmo impacto épico das faixas anteriores, a música funciona justamente por expandir o alcance sonoro da banda. É um momento importante para demonstrar que o Rozario não pretende permanecer preso a uma única fórmula composicional.

Com “Free Forever”, a banda explora uma interessante combinação entre heavy metal tradicional e hard rock melódico. Os riffs mantêm o peso elevado, enquanto o refrão surge carregado de energia festiva graças ao excelente trabalho dos backing vocals. A seção rítmica funciona como uma engrenagem perfeitamente ajustada, oferecendo base sólida para o intenso trabalho das guitarras. O solo encaixa-se com naturalidade absoluta, reforçando o caráter vibrante da faixa. É daquelas músicas que praticamente exigem o movimento involuntário da cabeça do início ao fim.

O título do álbum praticamente ganha vida em “Crusader”. Desde a introdução grandiosa, quase litúrgica, a música assume postura de verdadeiro hino metálico. Mudanças de andamento, riffs clássicos e uma construção crescente desembocam em um refrão extremamente épico, onde os vocais assumem protagonismo absoluto. A atmosfera heroica é intensificada pelos coros e pelas camadas vocais cuidadosamente distribuídas na produção. É exatamente o tipo de faixa criada para transformar apresentações ao vivo em celebrações coletivas.

“Coming Home” abre espaço para uma abordagem mais melódica e refinada. A interação entre voz, guitarra e teclados cria uma ambientação rica, sustentada por uma base rítmica firme e elegante. Há claras reminiscências do Deep Purple da era The Battle Rages On..., especialmente no tratamento dado aos teclados e à dinâmica dos riffs. Os solos e licks distribuídos ao longo dos versos adicionam sofisticação à composição sem comprometer sua fluidez.

Uma das grandes faixas do álbum. “Die Like Warriors” abraça completamente a grandiosidade épica que define Northern Crusaders. A introdução baseada apenas em voz e guitarra cria expectativa antes da entrada triunfal de baixo e bateria. A partir daí, tudo cresce de maneira monumental até atingir um refrão que nasce com status de clássico. Os timbres foram escolhidos com extremo cuidado, e o trabalho de coros e dobras vocais amplia ainda mais a dimensão cinematográfica da música. É impossível não imaginar arenas inteiras cantando esse refrão em uníssono.

Mais direta e objetiva, “Until the Gods Are Calling” resgata elementos mais tradicionais do heavy metal oitentista. A dinâmica entre riffs pesados, versos conduzidos pela guitarra e refrões carregados de coros funciona com enorme eficiência. Existe novamente uma aproximação com o hard rock melódico em determinados momentos, mas sempre dentro da proposta central do álbum. O contraste com a grandiosidade da faixa anterior ajuda a manter a audição dinâmica e evita qualquer sensação de repetição estrutural.

“Sleepless” talvez seja a faixa mais atmosférica do disco. Após uma introdução pesada e marcada pelos teclados, a música assume contornos quase de power ballad antes de explodir em um refrão épico e emocional. O andamento mais lento e sombrio diferencia a composição do restante do repertório, enquanto pequenos elementos modernos adicionam textura sem descaracterizar a identidade da banda. O solo de guitarra surge como ponto alto emocional da faixa, reforçando seu caráter melancólico e introspectivo.

“The Warning” retorna imediatamente ao território épico. Desde os primeiros segundos, a música apresenta uma construção extremamente sólida, equilibrando peso, melodia e dramaticidade com precisão. O refrão aposta novamente em coros grandiosos, mas sem soterrar a interpretação principal de David — mérito tanto da produção quanto da inteligência dos arranjos. Tudo parece cuidadosamente calculado: melodias, timbres, dinâmica e estrutura trabalham em favor de uma experiência coesa e impactante.

A introdução remete imediatamente a “Wasted Years”, do Iron Maiden, mas “Haunted by the Past” rapidamente encontra sua própria personalidade. A forte presença dos teclados adiciona profundidade à composição, enquanto os backing vocals criam uma atmosfera quase de registro ao vivo durante os refrães. Após o solo, o destaque passa para a condução vocal, que leva a música ao encerramento mantendo o nível de energia do álbum em alta.

Encerrando o disco, “Betrayed” surpreende ao incorporar um groove distinto do restante do repertório. Mais moderna e carregada de influência hard/blues americana, a faixa mostra novamente a disposição do Rozario em expandir sua paleta sonora sem perder identidade. É um fechamento inteligente justamente por evitar repetir fórmulas já exploradas anteriormente.

Northern Crusaders é o tipo de álbum que reafirma por que o heavy metal tradicional continua relevante mesmo em tempos dominados por excessos de produção e fórmulas previsíveis. O Rozario demonstra enorme maturidade ao equilibrar peso, melodia, técnica e acessibilidade sem soar artificial ou excessivamente nostálgico. A produção é poderosa, os refrães são memoráveis e a dinâmica do repertório impede que o disco se torne cansativo em qualquer momento.

Mais do que simplesmente celebrar influências clássicas, o Rozario entrega um trabalho que compreende profundamente o espírito do gênero. Northern Crusaders não soa como um exercício de saudosismo — soa como uma banda determinada a carregar o heavy metal clássico para frente com convicção, personalidade e ambição genuína.

***ENGLISH VERSION***

After making a strong impression with To The Gods We Swear in 2023, the Norwegian metallers of Rozario return with an even more ambitious and self-assured effort. Northern Crusaders not only expands upon the sonic foundations laid by its predecessor, but also firmly establishes the band among the most promising names of the new generation of European melodic heavy metal. Rather than merely reproducing nostalgic formulas, the group understands that the essence of classic metal lies less in aesthetic reverence and more in the ability to transform riffs, melodies, and choruses into truly grand experiences.

With a powerful production handled by Trond Holter (Jorn, Wig Wam) and the addition of young guitarist Taran Lister, the album delivers a broad, commanding, and remarkably cohesive sound. There are obvious echoes of genre giants throughout the record, yet Rozario avoids the trap of becoming a mere tribute act. What emerges instead is a band that fully understands the language of traditional heavy metal and uses it to craft something modern, vibrant, and genuinely passionate.

Opening track “Fire and Ice” immediately establishes the album’s mission statement: direct, epic heavy metal stripped of unnecessary excess. The riffs arrive razor-sharp, the rhythm section operates with surgical precision, and the vocals carry undeniable authority. Supported by massive choirs and expertly placed backing vocals, the chorus possesses that instant, fist-raising quality that defines the genre’s greatest anthems. Without reinventing the wheel, the track succeeds because it understands that impact and execution remain essential elements of traditional metal.

Maintaining the album’s heroic tone, “We Are One” leans into a more melodic and emotional approach. The opening guitar theme guides the song into a mid-tempo groove enriched by subtly layered keyboards and piano textures. The chorus is colossal — clearly designed to be sung back by festival-sized crowds — while the guitars balance weight and melody with impressive finesse. There is a strong European power metal influence here, but it is tempered by a more organic and classic sensibility. David delivers an outstanding vocal performance, carefully selecting tones and dynamics throughout the song.

“Down Low” introduces a heavier and more modern dimension, both instrumentally and vocally. Its slower pacing adds welcome diversity to the album without compromising its identity. Although the chorus does not reach the same epic heights as the previous tracks, the song succeeds by broadening the band’s sonic range. It serves as an important reminder that Rozario has no intention of confining itself to a single compositional formula.

With “Free Forever,” the band explores an engaging fusion of traditional heavy metal and melodic hard rock. The riffs remain heavy, while the chorus bursts with celebratory energy thanks to the excellent backing vocal arrangements. The rhythm section functions like a perfectly tuned machine, providing a solid foundation for the dynamic guitar work. The solo fits naturally into the composition, reinforcing the song’s vibrant character. It is the kind of track that practically demands involuntary headbanging from start to finish.

The album’s title truly comes alive in “Crusader.” From its grand, almost liturgical introduction, the song presents itself as a genuine metal anthem. Tempo changes, classic riffs, and a steadily escalating structure culminate in an enormously epic chorus where the vocals take center stage. The heroic atmosphere is intensified by carefully layered choirs and vocal harmonies throughout the production. This is exactly the type of song built to transform live performances into collective celebrations.

“Coming Home” opens the door to a more melodic and refined side of the band. The interplay between vocals, guitars, and keyboards creates a rich atmosphere supported by an elegant and steady rhythm section. There are clear reminiscences of Deep Purple during The Battle Rages On... era, particularly in the keyboard textures and riff dynamics. The solos and guitar licks woven throughout the verses add sophistication to the composition without sacrificing its fluidity.

One of the album’s undeniable highlights, “Die Like Warriors” fully embraces the epic grandeur that defines Northern Crusaders. The introduction, built solely around voice and guitar, creates anticipation before the triumphant entrance of bass and drums. From there, everything grows monumentally until reaching a chorus that feels destined to become an instant classic. The tones were chosen with exceptional care, and the layered choirs and vocal harmonies amplify the song’s cinematic scale even further. It is impossible not to imagine entire arenas singing along in unison.

More direct and straightforward, “Until the Gods Are Calling” revisits the more traditional side of ‘80s heavy metal. The interplay between crushing riffs, guitar-driven verses, and choir-laden choruses works with tremendous efficiency. Once again, traces of melodic hard rock emerge in certain moments, though always within the album’s central framework. The contrast with the previous track’s grandiosity helps maintain the album’s dynamic pacing and prevents any sense of structural repetition.

“Sleepless” is perhaps the album’s most atmospheric composition. After a heavy keyboard-driven introduction, the song evolves into something close to a power ballad before exploding into an emotional and epic chorus. Its darker and slower pacing sets it apart from the rest of the material, while subtle modern elements add texture without compromising the band’s identity. The guitar solo emerges as the emotional centerpiece of the track, reinforcing its melancholic and introspective character.

“The Warning” immediately returns the album to epic territory. From the opening moments, the song showcases an exceptionally solid construction, balancing heaviness, melody, and dramatic tension with precision. Once again, the chorus relies on massive choirs, though never at the expense of David’s lead vocal performance — a testament both to the production quality and the intelligence of the arrangements. Everything feels meticulously crafted: melodies, tones, dynamics, and structure all work together to create a cohesive and impactful experience.

The introduction to “Haunted by the Past” instantly recalls “Wasted Years” by Iron Maiden, yet the song quickly establishes its own identity. The strong presence of keyboards adds depth to the composition, while the backing vocals create an almost live-performance atmosphere during the choruses. After the solo section, the spotlight shifts to the vocal delivery, which guides the track toward its conclusion while keeping the album’s energy level consistently high.

Closing the album, “Betrayed” surprises by incorporating a groove distinct from the rest of the record. More modern and infused with American hard rock and blues influences, the track once again demonstrates Rozario’s willingness to expand its sonic palette without losing its identity. It is a smart conclusion precisely because it avoids simply repeating formulas already explored earlier in the album.

Northern Crusaders is the kind of album that reaffirms why traditional heavy metal remains relevant even in an era dominated by overproduction and predictable formulas. Rozario displays remarkable maturity in balancing heaviness, melody, technique, and accessibility without ever sounding artificial or excessively nostalgic. The production is powerful, the choruses are memorable, and the album’s pacing prevents it from becoming tiresome at any point.

More than simply celebrating classic influences, Rozario delivers a work that deeply understands the spirit of the genre. Northern Crusaders does not feel like an exercise in nostalgia — it sounds like a band determined to carry classic heavy metal forward with conviction, personality, and genuine ambition.

Divulgação 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Mayhem – 07/12/2025 – Vip Station/SP

Após três anos de sua última apresentação em São Paulo, o Mayhem desembarcou na Vip Station para uma celebração de quatro décadas de história, controvérsia e pura escuridão sonora. A banda norueguesa, precursora do black metal, voltou ao Brasil para comemorar seu 40º aniversário, e o que ocorreu foi uma viagem ao submundo através de seu vasto e impactante catálogo. Apesar de um atraso de uma hora devido a problemas de voo vindos do Chile, que poderia ter abalado o ânimo de qualquer público, a energia e a expectativa na Vip Station permaneceram inabaláveis, provando que a aura dos noruegueses é capaz de transcender qualquer contratempo.

Com a formação atual composta por Attila Csihar nos vocais, Teloch e Ghul nas guitarras, Necrobutcher no baixo e Hellhammer na bateria, o Mayhem subiu ao palco para entregar uma performance visceral. O set principal mergulhou em diversas fases da banda, começando com a agressividade de “Malum” e “Bad Blood”, que imediatamente acenderam a chama da intensidade. Faixas como “MILAB”, “Psywar” e “Illuminate Eliminate” demonstraram a evolução sonora da banda, mesclando a brutalidade característica com elementos mais complexos, enquanto a execução impecável da formação atual garantia que cada riff e batida atingisse o público com a força de um tridente vindo direto do inferno.

A atmosfera sombria intensificou-se ainda mais com a sequência de clássicos que definiram a trajetória do Mayhem. “Chimera” e “My Death” prepararam o terreno para a avalanche de hinos que viria a seguir. Os fãs responderam com fervor e rodas a cada nota de “Crystalized Pain in Deconstruction”, “View From Nihil” e “Ancient Skin”, evidenciando a profunda conexão do público com a obra da banda. Contudo, foi com “Symbols of Bloodswords”, “Freezing Moon” e a transcendental “Life Eternal” que o show atingiu um pico de imersão, culminando na execução majestosa da faixa-título “De Mysteriis Dom Sathanas”, um verdadeiro pilar do black metal. A inclusão de “Funeral Fog”, com o backing track vocal de Dead, foi um momento arrepiante, uma ponte direta com o passado sombrio e reverenciado da banda.

A chegada do encore veio para coroar esse momento, e foi então que o baixista Necrobutcher, em uma demonstração de pura camaradagem e respeito pela história da banda, dirigiu-se à plateia dizendo que a celebração dos 40 anos não estaria completa sem a presença de Messiah e Manheim. Assim, para delírio dos presentes, os ex-integrantes originais Messiah (vocais) e Manheim (bateria) subiram ao palco, prontos para reescrever um capítulo da história do black metal ao vivo.

O Deathcrush EP foi o foco do encore, e a execução foi nada menos que lendária. A introdução de “Silvester Anfang” criou um prelúdio sombrio e hipnotizante antes que a explosão de “Deathcrush” tomasse conta do ambiente, com Messiah no vocal e Manheim na bateria, transportando a todos para as raízes mais cruas e primitivas do Mayhem. A energia contagiante continuou com “Chainsaw Gutsfuck” e “Necrolust”, nas quais a química entre os membros originais e a intensidade da performance foram inegáveis. O ápice da noite, no entanto, ocorreu com “Pure Fucking Armageddon”, que contou com a participação de Attila Csihar e Messiah nos vocais, com Manheim mantendo a brutalidade implacável. Ver duas eras dos vocais do Mayhem compartilhando o palco foi um momento histórico e eletrizante, uma prova da duradoura e complexa linhagem da banda.

No fim, a impressão geral foi unânime: a apresentação foi uma verdadeira aula de história do black metal. O atraso inicial, rapidamente esquecido, apenas serviu para intensificar a expectativa de uma noite que reuniu lendas e celebrou a arte sombria do Mayhem. A fusão do passado e do presente no palco, com a formação atual e os membros originais, criou um evento que ficará gravado na memória dos fãs como um dos momentos mais significativos da trajetória da banda no Brasil. 

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Roberto Sant'Anna

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Caveira Velha Produções


Mayhem – setlist:

Malum

Bad Blood

MILAB

Psywar

Illuminate Eliminate

Chimera

My Death

Crystalized Pain in Deconstruction

View From Nihil

Ancient Skin

Symbols of Bloodswords

Freezing Moon

Life Eternal

De Mysteriis Dom Sathanas

Funeral Fog

Silvester Anfang 

Deathcrush (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria)

Chainsaw Gutsfuck  (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria))

Necrolust (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria))

Pure Fucking Armageddon (com Messiah e Attila nos vocai;  Manheim na bateria)

domingo, 1 de dezembro de 2024

Cobertura de Show: Satyricon – 13/11/2024 – Carioca Club/SP

Satyricon no Brasil: uma noite épica de Black Metal no Carioca Club

Após sete anos de espera, a icônica banda norueguesa de Black Metal Satyricon retornou ao Brasil para uma apresentação arrebatadora em São Paulo. Com um setlist que transitou entre clássicos de sua carreira e momentos mais recentes, Satyr, Frost e companhia entregaram um espetáculo memorável, repleto de energia, interação com o público e uma produção impecável.

Quer saber como foi essa noite histórica e quais músicas fizeram o Carioca Club tremer? Confira nossa resenha completa e mergulhe na experiência única que marcou o retorno do Satyricon ao Brasil!

Após sete anos, a lendária banda norueguesa de Black Metal SATYRICON finalmente retornou ao Brasil para dois shows. Em São Paulo, o tão aguardado evento ocorreu no dia 13/11/2024 no Carioca Club. Apesar de ser uma quarta-feira, a casa estava bem cheia.

As portas da casa se abriram às 19h30, e o público continuou chegando até o início do show, que começou por volta das 20h35. 

Sob uma intro sombria, Satyr e Frost subiram no palco com muita euforia pelo público, acompanhados dos músicos de apoio Anders Hunstad (teclados), Steinar "Azarak" Gundersen e Ben Ash (guitarras) e do baixista Phil Pieters. No fundo do palco havia uma imagem com corvos em volta, parecida com a capa do EP My Skin Is Cold, mas com um toque visual remetendo à capa do Deep Calleth Upon Deep, seu álbum mais recente de 2017.

Abriram com “To Your Brethren in the Dark”, do “Deep Calleth Upon Deep”. Apesar de ser uma música mais cadenciada, encantou o público, e a bateria de Frost soava poderosa como um tanque de guerra. 

Daí então partiram para a destruição sonora, com o clássico “Nemesis Divina”, faixa título de 1996, empolgando os fãs old school na plateia. Nesse momento a pista já estava bem cheia, e o jogo de luzes do palco estava sensacional, contribuindo para a intensidade da apresentação.

Frost faz um pequeno drum solo carregado de ritmo e groove na introdução de “Now, Diabolical”, faixa título de 2006. Esse som mescla elementos do Black Metal e Rock’n roll, o qual virou sua marca registrada, e que tem sido muito prestigiado pelos fãs, levando a galera à loucura logo nos primeiros acordes.

Logo após, Satyr – visivelmente alegre – faz um discurso cativante, chamando todos da plateia de amigos e falando sobre quando perguntam sobre qual é o seu país e cidade favorita da América Latina nas turnês, ele diz que “nunca é sobre restaurantes ou natureza, e sim o encontro com as pessoas”, arrancando aplausos e gritos da plateia. Ainda diz: “então, na verdade, eu não posso dizer a vocês qual vai ser o melhor show nesta tour latino-americana, porém o que eu posso prometer é que toda noite quando entramos no palco nós damos o nosso melhor, é o que nós fazemos sempre! E isso cabe a vocês a julgar, mas quando nós voltarmos para o outro lado do mundo, a impressão que nós levaremos conosco é o que acontece aqui e agora, então este é o meu pequeno desafio amigável a vocês! Nós já tocamos em Bogotá, Santiago, amanhã Brasília e em 2 dias tocaremos no México, então este é o meu desafio a vocês, vamos fazer desta noite a melhor da tour. E vocês entendem que uma grande parte disso vem do palco, mas a maior parte vem de vocês, então nós podemos fazer nosso melhor, se vocês fizerem o seu melhor.” E então tocam impecavelmente o clássico “Black Crow on a Tombstone”, do álbum “The Age Of Nero”, de 2008, com um público mega animado que respondia prontamente e cantava junto. 

Ao final da música, Satyr diz que essa intensidade do público era exatamente o que ele procurava, e agradeceu a todos. E então o pessoal “corta” ele batendo palmas e gritando “Ole, ole ole ole, Satyricon”, o que deixa os músicos extremamente satisfeitos. E ele continua a falar que a cada  álbum que eles fazem, são conquistas importantes na vida dele. Quando ele pensa na vida dele, ele não pode deixar de pensar nesses álbuns, e que essa “jornada” que envia eles ao redor do mundo também está conectada a estágios importantes de suas vidas que são os álbuns, e na última vez que estiveram aqui, em 2017, promoveram o álbum “Deep Calleth Upon Deep”. E então executaram essa faixa-título. Ao fim da música, Satyr agradece – visivelmente feliz – com a interação do público. 

Seguiram com “Our World, It Rumbles Tonight”, uma das mais emocionantes do álbum “Satyricon” de 2013. 

Logo após tocaram a energética “Repined Bastard Nation”, do álbum Volcano (2002), atiçando a galera que interagia espontaneamente, principalmente nas partes mais rápidas.

Ouvimos agora uma nova intro, que nos prepara para a vigorosa “Black Wings and Withering Gloom”, do Deep Calleth Upon Deep (2017). Destaque para os blasts e bumbos matadores de Frost. A partir desta música, Satyr começou a tocar guitarra em alguns momentos, contribuindo para a intensidade sonora. Devo dizer que o som vindo do palco estava realmente impecável.

Nesse momento rolou um pequeno bloco nostálgico, começando com a intensa “Hvite Krists Død”, do The Shadowthrone (1994), agradando os fãs desta fase em que tocavam um Black Metal mais tradicional. Inclusive alguém ao meu lado gritou “Isso é que é Satyricon car*lho!!”

Em seguida rolou “Walk the Path of Sorrow”, do “Dark Medieval Times” (1994), que começa com uma intro arrepiante. O público parecia em transe, prestando mais atenção e agitando menos.

Então rolou “Filthgrinder”, do Rebel Extravaganza (1999), em que Satyr introduziu essa música contando uma história sobre como eles fizeram uma sonoridade mais direta e agressiva desse álbum, indo ao contrário de muitas bandas da época no fim dos anos 90, em que o Black Metal era feito com excesso de teclados, afirmando que aquilo soava muito gótico e que odeia esse tipo de som gótico, falando que o Black Metal de verdade não é sobre besteiras de vampirinhos e tecladinhos – claramente se referindo a uma certa banda inglesa que sempre flertou com o Gothic e o Black Metal.

Seguiram então com a intensa “Die by My Hand”, do The Age Of Nero (2008). Saíram do palco e retornaram rapidamente para tocar o clássico “To The Mountains”, do “Now, Diabolical”. Satyr também fez a terceira guitarra nessa. “The Pentagram Burns”, ainda com Satyr na terceira guitarra, foi outra paulada do mesmo álbum. O público não parava de interagir com gritos e palmas. Ao fim, pessoal gritou sem parar “Ole, ole ole ole, Satyricon!” enquanto Frost acompanhava no ritmo com a bateria. 

Satyr segue tocando guitarra e fala que se divertiram muito em Bogotá, Santiago e agora em São Paulo, mas que nunca imaginou que teria duas noites seguidas sem um mosh pit decente e que ele espera que role o mesmo nesta terceira noite. E ele continua: “se vocês não estiverem afim de fazer mosh pit, talvez seja a hora de irem se refrescar no bar ou ver o merchan no fundo ou algo do tipo, mas vamos fazer isso!”. E então rolou uma das mais conhecidas e animadas, “Fuel For Hatred”, do Volcano (2002). Ao final o público gritava e aplaudia muito.

Satyr diz que isso foi tão bom quanto o samba que ele gosta, arrancando risos da plateia.  Continua: “Ok, houve um mosh pit, mas agora vocês conseguem cantar?”. E o pessoal responde gritando “Yeahh!” Então começa “Mother North”, um clássico absoluto do álbum Nemesis Divina (1996). Sem dúvidas um hit que fez a banda despontar em sua carreira nos anos 90 com o icônico clipe na MTV e um dos pontos altos da noite, com o público fazendo um grande coro emocionante. 

O público estava em êxtase completo ao final, gritando novamente “Satyricon” sem parar, enquanto Satyr chega a se sentar no PA, assistindo com extrema satisfação e até manda beijo para os fãs. 

E fala: “Lembrem-se, há muitas bandas no mundo todo com certeza, mas a porcentagem de bandas que vem pro Brasil da Noruega é muito pequena, e nós temos feito isso por um longo tempo, então a minha respeitosidade por fazer parte deste pequeno grupo privilegiado é sem fim.“ E ele diz que vai continuar a fazer isso por mais alguns anos, enquanto estiverem fazendo isso de forma bem feita. Então ele não sabe ao certo quando virão novamente, mas ele afirma que virão novamente ao Brasil, e diz ainda: “queremos voltar no ano que vem...eu espero que sim”. Então agradece e anuncia a última música do show, “K.I.N.G.”, mais um clássico do Now, Diabolical (1996), encerrando este espetáculo com chave de ouro às 22h35.

Portanto vamos aguardar e torcer para que voltem mais uma vez em breve, e com mais um novo álbum!




Fotos: Roberto Sant'Anna (Roadie Crew)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Estética Torta



Satyricon  setlist:

To Your Brethren in the Dark

Nemesis Divina

Now, Diabolical

Black Crow on a Tombstone

Deep Calleth Upon Deep

Our World, It Rumbles Tonight

Repined Bastard Nation

Interlude (Black Wings and Withering Gloom intro)

Black Wings and Withering Gloom

Hvite Krists død

Walk the Path of Sorrow

Filthgrinder

Die By My Hand

Bis 

To The Mountains

The Pentagram Burns

Fuel For Hatred

Mother North

K.I.N.G.