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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Behemoth: Uma Viagem Pelas Raízes da Besta (Also In English)

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast Records (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Confesso que gosto quando uma banda consegue olhar para o próprio passado sem ficar presa a ele. Foi exatamente essa sensação que tive ouvindo I, Scvlptor, novo trabalho do Behemoth, lançado em 4 de setembro de 2026.

Com oito faixas e pouco menos de 38 minutos, o disco tem uma proposta diferente de um álbum tradicional. Ele mistura músicas novas, releituras de antigas composições e covers e, talvez por isso, tenha para mim um pouco de “cara de EP”. É um trabalho mais direto, sem aquela obrigação de ser “o próximo grande álbum” da banda.

Para quem ainda não conhece o Behemoth, a banda foi formada em Gdańsk, na Polônia, em 1991, por Nergal, começando sua trajetória dentro do Black Metal. Com o passar dos anos, incorporou cada vez mais elementos do Death Metal até chegar à sonoridade pesada e grandiosa que conhecemos hoje. Atualmente, Nergal assume os vocais e guitarras, ao lado de Seth nas guitarras, Orion no baixo e Inferno na bateria.

E talvez I, Scvlptor seja justamente uma oportunidade de olhar para toda essa história de uma vez.


Esculpindo o próprio caminho

O título já dá uma pista importante sobre o conceito do disco. Scvlptor é uma forma estilizada de escrever “Sculptor”, ou “escultor”. A troca do “U” pelo “V” remete visualmente às antigas inscrições em latim, criando aquele aspecto arcaico e sombrio tão ligado ao universo do Black Metal.

Segundo Nergal, o conceito gira em torno da autoescultura: moldar a si mesmo, enfrentar a morte, quebrar limites e continuar evoluindo. O martelo e a pedra aparecem como metáforas desse processo de transformação pessoal.

E foi aí que minha interpretação foi um pouco além.

Para mim, I, Scvlptor também funciona como uma espécie de auto-homenagem. Não apenas ao Behemoth, mas aos próprios “escultores” que ajudaram a construir o Black Metal e que, de alguma maneira, também ajudaram a moldar a banda.

É como se Nergal estivesse olhando para a pedra que vem esculpindo há mais de três décadas e reconhecendo quem começou a dar forma a ela muito antes.


A velha besta com novas ferramentas

Musicalmente, não espere uma grande reinvenção do Behemoth. E acho que nem era essa a proposta.

Nergal continua explorando diferentes formas de vocais extremos, alternando entre guturais profundos, vocais rasgados e ataques mais secos. O interessante é que essas técnicas acompanham a interpretação e ajudam a construir a atmosfera de cada música.

Nas guitarras, Nergal e Seth fazem uma ponte interessante entre o Black Metal dos primeiros anos e o som atual do Behemoth. Riffs mais crus e sombrios convivem com melodias épicas e uma produção muito mais pesada e definida.

Inferno continua sendo um monstro na bateria. Os blast beats estão lá, rápidos e precisos, mas ele também trabalha muito bem as mudanças de ritmo e dinâmica. Orion completa essa base com um baixo que dá bastante corpo ao som.

A produção segue moderna e pesada. Jens Bogren ficou responsável pela mixagem e masterização, enquanto Bartłomiej Rogalewicz cuidou da arte e do design. O resultado é interessante porque as músicas antigas ganham uma cara atual sem perder totalmente aquilo que fazia delas músicas de outra época.


I, Scvlptor*

A faixa-título é um ótimo começo. “I, Scvlptor” traz um Black Metal épico, sombrio e cheio de atmosfera. As guitarras criam uma sensação quase monumental, enquanto Inferno mantém tudo em movimento.

Mas o que mais me chamou atenção foi a interpretação de Nergal. Os vocais não estão ali apenas para deixar a música mais pesada; eles ajudam a contar a história e dão à faixa uma sensação quase ritualística.

O conceito do escultor aparece muito bem aqui. A música parece estar sendo construída aos poucos, como se cada riff fosse mais uma camada retirada ou acrescentada à pedra.

Rise of the Blackstorm of Evil

Aqui começa uma viagem ainda maior pelo passado.

“Rise of the Blackstorm of Evil” foi originalmente lançada em 1992, durante a fase mais clássica de Black Metal do Behemoth, na demo The Return of the Northern Moon. A versão de 2026 mantém a essência da composição, mas recebe nova produção, arranjos e a experiência de uma banda que percorreu um caminho enorme desde então.

A atmosfera continua sombria e agressiva, mas a interpretação de Nergal traz uma maturidade diferente. É quase como ouvir dois Behemoths conversando: o jovem, ainda descobrindo seu caminho, e o gigante que ele se tornou.

Begotten

“Begotten” foi uma surpresa muito boa para mim.

A música foi composta durante as sessões de The Shit Ov God, mas acabou ficando de fora daquele álbum. Agora ganha espaço em I, Scvlptor e, talvez, tenha encontrado seu lugar certo.

Ela tem uma atmosfera diferente, com alguns elementos que fogem do que esperamos do Behemoth, mas sem perder sua identidade. A produção está excelente e deixa esses detalhes muito mais claros.

É aquela música que poderia ter continuado esquecida em algum arquivo, mas ganhou uma segunda chance — e funcionou muito bem.

In Thy Pandemaeternum

Essa faixa tem um peso histórico enorme dentro da carreira do Behemoth.

“In Thy Pandemaeternum” apareceu originalmente em Pandemonic Incantations, de 1998, um álbum fundamental para entender a transformação da banda. Foi nesse período que o Behemoth começou a deixar para trás o Black Metal mais tradicional e caminhar cada vez mais para o Death Metal, chegando posteriormente ao Blackened Death Metal que se tornou sua marca.

Ouvir as versões de 1998 e 2026 é perceber claramente essa diferença. A composição continua reconhecível, mas agora temos uma produção muito mais limpa, pesada e moderna.

Colocar “In Thy Pandemaeternum” no mesmo disco de “Rise of the Blackstorm of Evil” foi uma escolha certeira. Juntas, elas praticamente contam uma parte da evolução do Behemoth.

In League With Satan

E chegamos a uma das homenagens mais claras às raízes do Black Metal.

“In League With Satan”, do Venom, lançada em 1981, está entre as gravações que ajudaram a estabelecer o som e a estética do que viria a ser chamado de Black Metal. O Venom é considerado uma das bandas fundamentais da primeira onda do gênero.

E aqui temos uma participação especial que deixa tudo ainda mais interessante: Shagrath, vocalista do Dimmu Borgir, divide os vocais com Nergal.

A presença de Shagrath cria uma ligação muito legal entre diferentes gerações e estilos do Black Metal. A versão do Behemoth também ganha mais peso que a original, inclusive com guitarras de sete cordas, mas sem perder sua essência simples, suja e provocadora.

É como pegar uma peça clássica e colocar uma armadura.

The Return of Darkness and Evil

Se Venom representa uma das grandes raízes do Black Metal, Bathory é outro nome impossível de ignorar.

“The Return of Darkness and Evil” aparece em uma versão ao vivo e conta com a participação de Sakis Tolis, vocalista e guitarrista do Rotting Christ.

Bathory foi uma das bandas pioneiras da primeira onda do Black Metal e teve enorme influência sobre tudo que veio depois. A música original tem aquela sonoridade crua e agressiva que marcou o início do gênero.

Na versão do Behemoth, ela ganha uma dimensão muito maior. As guitarras estão mais pesadas, a bateria de Inferno dá ainda mais velocidade e a presença de Sakis deixa tudo ainda mais especial.

Por ser uma gravação ao vivo, existe também uma energia diferente. Não é apenas uma homenagem: dá para imaginar essa música funcionando diante de uma plateia.

Um álbum com alma de EP

Se eu tivesse que comparar I, Scvlptor com The Shit Ov God, diria que o novo trabalho parece menos preocupado em fazer uma grande declaração e muito mais interessado em celebrar a própria trajetória.

The Shit Ov God tinha uma proposta mais fechada e uniforme. I, Scvlptor segue outro caminho, misturando músicas novas, material resgatado, releituras e covers. Mesmo assim, tudo parece fazer parte da mesma ideia: revisitar as raízes do Behemoth e do Black Metal sem simplesmente repetir o passado.

E talvez seja justamente isso que deixe a experiência mais leve.

É um álbum, mas tem aquela sensação boa de EP. Você dá o play e, quando percebe, acabou. Não existe excesso e nenhuma faixa parece estar ali apenas para completar o disco.

O Behemoth revisita o passado, mas não fica preso a ele. Venom, Bathory e as primeiras fases da própria banda aparecem como referências importantes, mas passam pelo olhar de uma banda que evoluiu muito desde aqueles primeiros anos. As músicas antigas ganham peso, definição e uma produção moderna, enquanto as novas conversam naturalmente com esse material.

É como voltar para um lugar conhecido depois de muitos anos e enxergá-lo de outra maneira.

No fim, I, Scvlptor não é apenas uma coleção de músicas antigas revisitadas ou uma homenagem aos nomes que vieram antes. Para mim, ele representa o próprio ato de esculpir: pegar aquilo que já existe, preservar algumas partes, quebrar outras e transformar tudo em algo novo.

O Behemoth olha para a pedra que ajudou a construir seu caminho, reconhece os escultores que vieram antes e, usando as ferramentas que possui hoje, dá uma nova forma a essa história.

E talvez seja essa a beleza do disco: olhar para trás sem voltar para o mesmo lugar.


***ENGLISH VERSION***

I have to admit, I like it when a band can look back at its own past without getting stuck there. That’s exactly how I felt listening to I, Scvlptor, Behemoth’s new release, out on September 4, 2026.

With eight tracks and just under 38 minutes, the album takes a slightly different approach from a traditional full-length. It mixes new songs, reworked older material, and covers, and maybe that’s why it feels a little like an EP to me. It’s a more direct record, without the pressure of having to be “the band’s next big album.”

And I think that works in its favor.

For anyone who still doesn’t know Behemoth, the band was formed in Gdańsk, Poland, in 1991 by Nergal, starting out firmly rooted in Black Metal. Over the years, they gradually brought in more and more Death Metal influences, eventually developing the heavy and massive sound they are known for today. The current lineup features Nergal on vocals and guitars, Seth on guitars, Orion on bass, and Inferno on drums.

And perhaps I, Scvlptor is exactly the kind of record that gives us a chance to look at that entire journey at once.


Sculpting Their Own Path

The title itself gives us an important clue about the album’s concept. Scvlptor is a stylized version of “Sculptor.” Replacing the “U” with a “V” visually recalls ancient Latin inscriptions, giving the title that archaic and dark look so closely associated with the Black Metal world.

According to Nergal, the concept revolves around self-sculpting: shaping yourself, facing death, breaking through limitations, and continuing to evolve. The hammer and the stone work as metaphors for this process of personal transformation.

And that’s where my own interpretation goes a little further.

To me, I, Scvlptor also works as a kind of self-tribute. Not only to Behemoth, but to the “sculptors” who helped shape Black Metal and, in their own way, helped shape the band itself.

It feels as if Nergal is looking at the stone he has been carving for more than three decades and acknowledging those who started giving it shape long before him.


The Old Beast With New Tools

Musically, don’t expect a major reinvention of Behemoth. And honestly, I don’t think that was the point.

Nergal continues to explore different extreme vocal styles, moving between deep growls, harsher screams, and sharper attacks. What I find interesting is that these techniques follow the mood of each song and help build its atmosphere.

On guitars, Nergal and Seth create an interesting bridge between the band’s early Black Metal years and Behemoth’s current sound. Rawer, darker riffs sit alongside epic melodies and a much heavier, more defined production.

Inferno remains a monster behind the drums. The blast beats are there, fast and precise, but he also makes great use of changes in rhythm and dynamics. Orion completes the foundation with a bass sound that gives the songs plenty of weight.

The production follows Behemoth’s modern approach, with plenty of clarity and heaviness. Jens Bogren handled the mixing and mastering, while Bartłomiej Rogalewicz took care of the artwork and design. The result is interesting because the older songs gain a modern edge without completely losing what made them sound like products of their own era.


I, Scvlptor

The title track is a great way to start.

“I, Scvlptor” delivers epic, dark, atmospheric Black Metal. The guitars create an almost monumental feeling, while Inferno keeps everything moving.

But what stood out most to me was Nergal’s performance. His vocals aren’t there simply to make the song heavier; they help tell the story and give the track an almost ritualistic feeling.

The sculptor concept also comes through very clearly. The song feels like it is being built piece by piece, as if every riff were another layer being removed from or added to the stone.

Rise of the Blackstorm of Evil

Here we take an even deeper trip into the past.

“Rise of the Blackstorm of Evil” was originally released in 1992, during Behemoth’s classic Black Metal era, on the The Return of the Northern Moon demo. The 2026 version keeps the essence of the original composition, but brings new production, arrangements, and the experience of a band that has traveled an enormous distance since then.

The atmosphere is still dark and aggressive, but Nergal’s performance carries a different kind of maturity. It’s almost like hearing two versions of Behemoth having a conversation: the young band still finding its way, and the giant it eventually became.

Begotten

“Begotten” was a very pleasant surprise for me.

The song was written during the sessions for The Shit Ov God, but ultimately didn’t make it onto that album. Now it finally finds a home on I, Scvlptor — and perhaps this is where it was always meant to be.

It has a different atmosphere, with some elements that step slightly outside what we normally expect from Behemoth, but without losing the band’s identity. The production is excellent and makes those details much easier to appreciate.

It’s the kind of song that could have remained forgotten somewhere in an archive, but instead got a second chance — and it works really well here.

In Thy Pandemaeternum

This track carries huge historical weight within Behemoth’s career.

“In Thy Pandemaeternum” originally appeared on Pandemonic Incantations in 1998, an essential album for understanding the band’s transformation. This was the period when Behemoth began moving away from more traditional Black Metal and increasingly toward Death Metal, eventually developing the Blackened Death Metal sound that became their trademark.

Listening to the 1998 and 2026 versions makes that difference very clear. The composition remains recognizable, but now it has a much cleaner, heavier, and more modern production.

Putting “In Thy Pandemaeternum” on the same record as “Rise of the Blackstorm of Evil” was a great choice. Together, they tell an important part of Behemoth’s evolution.

In League With Satan

And here we get one of the clearest tributes to the roots of Black Metal.

“In League With Satan” by Venom, released in 1981, is among the recordings that helped establish the sound and aesthetics that would become associated with Black Metal. Venom are considered one of the key bands of the genre’s first wave.

And there’s a special guest here who makes things even more interesting: Shagrath, vocalist of Dimmu Borgir, shares vocal duties with Nergal.

Shagrath’s presence creates a really cool connection between different generations and styles within Black Metal. Behemoth’s version is also heavier than the original, including the use of seven-string guitars, but without losing its essence.

It’s like taking a classic piece and putting it in armor.

The Return of Darkness and Evil

If Venom represents one of the great roots of Black Metal, Bathory is another name that simply cannot be ignored.

“The Return of Darkness and Evil” appears here as a live version featuring Sakis Tolis, vocalist and guitarist of Rotting Christ.

Bathory were one of the pioneers of the first wave of Black Metal and had an enormous influence on everything that came after. The original song has that raw and aggressive sound that defined the early days of the genre.

In Behemoth’s version, it takes on a much bigger dimension. The guitars are heavier, Inferno’s drumming adds even more speed, and Sakis’ presence makes the whole thing feel even more special.

And because it’s a live recording, there’s a different kind of energy here. It isn’t just a tribute — you can actually imagine the song hitting a crowd.

An Album With an EP Soul

If I had to compare I, Scvlptor with The Shit Ov God, I’d say the new record seems less interested in making a grand statement and much more interested in celebrating Behemoth’s own journey.

The Shit Ov God had a more focused and uniform approach. I, Scvlptor takes a different route, mixing new songs, recovered material, reworked tracks, and covers. Even so, everything seems connected by the same idea: revisiting Behemoth’s roots and the roots of Black Metal without simply repeating the past.

And maybe that’s exactly what makes the experience feel lighter.

It’s an album, but it has that good EP feeling. You press play and, before you know it, it’s over. There’s no sense of excess, and none of the tracks feel like they’re there just to fill out the record.

Behemoth revisits the past, but doesn’t get trapped in it. Venom, Bathory, and the band’s own early years are important references, but they are filtered through the perspective of a band that has evolved enormously since those days. The older songs gain weight, clarity, and modern production, while the newer material naturally fits alongside them.

It’s like returning to a familiar place after many years and seeing it differently.

In the end, I, Scvlptor isn’t simply a collection of old songs revisited or a tribute to the names that came before. To me, it represents the very act of sculpting: taking what already exists, preserving some parts, breaking others, and turning everything into something new.

Behemoth looks at the stone that helped build its path, acknowledges the sculptors who came before, and uses the tools it has today to give that history a new shape.

And maybe that’s the beauty of the record: looking back without ever returning to the same place.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Dimmu Borgir: A Serpente Troca de Pele (Also In English)

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Michelle F. Santana 

Dimmu Borgir é uma das bandas mais importantes e influentes do black metal sinfônico, formada na Noruega em 1993 por Shagrath e Silenoz durante a ascensão da segunda onda do black metal norueguês. Conhecida por unir agressividade extrema, atmosferas sombrias e arranjos orquestrais grandiosos, a banda construiu sua identidade explorando temas ligados à morte, ocultismo, misantropia, espiritualidade e transformação humana, sempre equilibrando brutalidade e sofisticação musical.

Oito anos após "Eonian" (2018), o grupo retorna com Grand Serpent Rising, um álbum que resgata parte da essência mais obscura e agressiva do Dimmu Borgir sem abandonar completamente sua grandiosidade sinfônica.

Produzido novamente por Fredrik Nordström responsável por clássicos como "Puritanical Euphoric Misanthropia" (2001) e "Death Cult Armageddon" (2003) o disco aposta em uma sonoridade mais orgânica, visceral e equilibrada, priorizando riffs, atmosfera e intensidade ao invés de excessos orquestrais constantes. O retorno do produtor Fredrik reforça essa sensação de reconexão com as origens da banda. 

Após anos dividindo opiniões com trabalhos mais experimentais, Dimmu Borgir retorna de forma triunfal em Grand Serpent Rising, um álbum que reafirma a essência da banda, trazendo elementos que marcaram parte de sua trajetória.

Mesmo sendo um disco com 13 faixas, Grand Serpent Rising dificilmente se torna cansativo. Pelo contrário: a consistência das composições mantém a intensidade do começo ao fim. Os riffs estruturados, a orquestração é bem dosada, os vocais impecáveis de Shagrath e a atmosfera sombria fazem do álbum um verdadeiro prato cheio para fãs de black metal sinfônico. 

“Ascent” surge como um dos momentos mais fortes do álbum justamente por equilibrar peso, velocidade e atmosfera, remetendo diretamente ao Dimmu Borgir do início dos anos 2000. A guitarra de Silenoz brilham com precisão nessa faixa.

A faixa “The Qryptfarer” reforça o lado mais obscuro e agressivo do disco, sustentada por riffs marcantes e uma construção quase sufocante em determinados momentos.

“Ulvgjeld & Blodsødel”, cantada na língua nativa da banda, representa um retorno claro às raízes norueguesas do grupo. A faixa carrega uma atmosfera ritualística e sombria que aproxima novamente o Dimmu Borgir de elementos mais tradicionais do black metal, sem perder a grandiosidade característica da banda.

Em “Phantom of the Nemesis” que o álbum encontra seu ponto de equilíbrio mais impressionante. Aqui, o lado sinfônico reaparece, mas sem sufocar os riffs ou a agressividade das guitarras. Pelo contrário: a orquestração com os riffs reforçando a sensação cinematográfica sem transformar a música em um excesso de grandiosidade artificial. A faixa deixa claro que o elemento sinfônico continua sendo parte fundamental da identidade do Dimmu Borgir apenas mais equilibrado e melhor integrado à composição.

O encerramento com a instrumental “Gjoll” é outro grande acerto do álbum. Extremamente atmosférica, a faixa conduz o ouvinte por paisagens sombrias que remetem quase visualmente a florestas frias e obscuras do norte europeu. Os riffs mais arrastados, aliados às camadas ambientais e à construção melancólica da música, criam um fechamento preciso e elegante para o disco, encerrando Grand Serpent Rising com sensação de grandiosidade sem precisar recorrer a excessos.

E talvez seja justamente aí que esteja a força de Grand Serpent Rising: não em tentar reviver o passado, mas em compreender que até mesmo a escuridão evolui. Como uma serpente trocando de pele nas sombras das florestas norueguesas, o Dimmu Borgir retorna mais maduro, agressivo e consciente da própria identidade, transformando peso, melancolia e grandiosidade em um ritual sonoro sombrio e imponente.

***ENGLISH VERSION***

Dimmu Borgir is one of the most important and influential bands in symphonic black metal, formed in Norway in 1993 by Shagrath and Silenoz during the rise of the second wave of Norwegian black metal. Known for uniting extreme aggressiveness, dark atmospheres, and grandiose orchestral arrangements, the band built its identity by exploring themes related to death, occultism, misanthropy, spirituality, and human transformation, always balancing brutality and musical sophistication.

Eight years after "Eonian" (2018), the group returns with Grand Serpent Rising, an album that reclaims part of Dimmu Borgir's darkest and most aggressive essence without completely abandoning its symphonic grandiosity.

Produced once again by Fredrik Nordström—responsible for classics such as "Puritanical Euphoric Misanthropia" (2001) and "Death Cult Armageddon" (2003)—the record bets on a more organic, visceral, and balanced sound, prioritizing riffs, atmosphere, and intensity over constant orchestral excesses. The return of producer Fredrik reinforces this sense of reconnection with the band's origins.

After years of dividing opinions with more experimental works, Dimmu Borgir makes a triumphant return in Grand Serpent Rising, an album that reaffirms the band's essence, bringing back elements that marked part of their trajectory.

Even as a 13-track album, Grand Serpent Rising rarely becomes tiresome. On the contrary: the consistency of the compositions maintains the intensity from start to finish. The structured riffs, well-measured orchestration, Shagrath's flawless vocals, and the dark atmosphere make the album a true feast for symphonic black metal fans.

“Ascent” emerges as one of the album's strongest moments precisely because it balances heaviness, speed, and atmosphere, directly recalling the Dimmu Borgir of the early 2000s. Silenoz's guitars shine with precision on this track.

The track “The Qryptfarer” reinforces the darker and more aggressive side of the record, sustained by striking riffs and an almost suffocating structure at certain points.

“Ulvgjeld & Blodsødel”, sung in the band's native language, represents a clear return to the group's Norwegian roots. The track carries a ritualistic and dark atmosphere that once again brings Dimmu Borgir closer to more traditional elements of black metal, without losing the band's characteristic grandiosity.

It is in “Phantom of the Nemesis” that the album finds its most impressive point of balance. Here, the symphonic side reappears, but without suffocating the riffs or the aggressiveness of the guitars. On the contrary: the orchestration works with the riffs, reinforcing the cinematic feel without turning the music into an excess of artificial grandiosity. The track makes it clear that the symphonic element remains a fundamental part of Dimmu Borgir's identity—just more balanced and better integrated into the composition.

The closing with the instrumental “Gjoll” is another great success of the album. Extremely atmospheric, the track leads the listener through dark landscapes that almost visually evoke the cold, dark forests of Northern Europe. The slower, dragging riffs, combined with ambient layers and the song's melancholic build, create a precise and elegant closing for the record, ending Grand Serpent Rising with a sense of grandiosity without having to resort to excesses.

And perhaps that is precisely where the strength of Grand Serpent Rising lies: not in trying to revive the past, but in understanding that even darkness evolves. Like a serpent shedding its skin in the shadows of the Norwegian forests, Dimmu Borgir returns more mature, aggressive, and aware of its own identity, transforming heaviness, melancholy, and grandiosity into a dark and imposing sonic ritual.



sábado, 9 de maio de 2026

Herege: Cru, hostil e insano

Por: Renato Sanson

O underground brasileiro segue mostrando sua força, e em 2025 um dos nomes que surge carregando a chama mais obscura do Black Metal nacional é o Herege. Oriunda de São Paulo e capitaneada pelo músico Fernando Iser, a banda estreia com Blood War Extermination, um álbum que abandona qualquer polimento excessivo para mergulhar de cabeça na sujeira e na agressividade do Black Metal noventista.

Conhecido por sempre flertar com a vertente mais grega do estilo, Iser apresenta aqui uma faceta muito mais crua, direta e visceral. O resultado é um disco que soa como um verdadeiro ataque nuclear sonoro, remetendo imediatamente à essência do Black Metal dos anos 90, quando o caos e a atmosfera falavam mais alto do que qualquer perfeccionismo técnico.

Formado pelo duo Iser (vocal, guitarra e baixo) e Insulter (bateria), o Herege constrói uma parede sonora intensa e sem concessões. A bateria de Insulter merece destaque absoluto: suas linhas parecem um tanque de guerra avançando sem freios, destruindo tudo pelo caminho com peso, velocidade e brutalidade. Cada virada reforça ainda mais a aura bélica e destrutiva que domina o álbum.

As guitarras carregam riffs cortantes e sombrios, trazendo aquela sensação gelada e sufocante tão característica do Black Metal underground. A produção propositalmente áspera reforça a identidade raw do trabalho e ajuda a transportar o ouvinte diretamente para a atmosfera obscura que o Herege busca construir.

Liricamente, Blood War Extermination abraça sem medo a temática anticristã, elemento clássico e fundamental do estilo. O disco respira blasfêmia, guerra e escuridão do começo ao fim, mantendo viva a essência mais primitiva e agressiva do Black Metal.

Sem reinventar a roda, mas também sem soar datado, o Herege entrega um debut honesto, violento e extremamente fiel às raízes do gênero. Blood War Extermination é um verdadeiro tributo ao espírito do Black Metal underground dos anos 90. Cru, hostil e carregado de ódio.

Para os apreciadores do raw Black Metal e da velha escola extrema, este debut é uma audição obrigatória.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Cobertura de Show - Circuíto Gárgula Underground: Velho e Desfiladeiro (03/04/2026)

 

Em mais uma edição do Circuíto Gárgula Underground (Santa Maria RS), tivemos uma noite de Metal Extremo no feriadão de Páscoa, com a já consolidada Velho e a "novata" Desfiladeiro, duas bandas que trazem como características as letras em português e sonoridade mais direta, "primitiva" e calcada nas origens do estilo, quando pioneiros como Hellhammer e Venom surgiram chocando a cena Metal com seu som agressivo, sujo e que flertava com o Punk.

O Gárgula Bar firmou-se como o principal espaço para o underground e público Metal e alternativo na região central do RS, e os eventos do Circuíto Gárgula Underground tem trazido bons nomes da cena local e brasileira, mesclando novos nomes com outros já com tempo de estrada.

O Velho, fundada em 2009 no RJ, já é um nome conhecido no meio do Metal Extremo, e que retorna a Santa Maria em meio a mais uma de suas turnês que costumam recorrer quase o Brasil inteiro, e a Desfiladeiro, novo nome que vem da fronteira, da cidade de São Borja (RS), iniciou atividades em 2023, e começa a pavimentar sua estrada.

Diante de um bom público, a Desfiladeiro iniciou os rituais, trazendo em sua formação nomes conhecidos do Underground na região, portando, não podemos dizer que se trata de uma banda de novatos, pois já possuem uma certa bagagem no meio. 

E isso se mostrou claro durante a apresentação segura e madura do quarteto, que está divulgando seu debut "Nihil", lançado no ano passado.

Logo de início a Desfiladeiro já fez o público bater cabeça, com seu Black/Death direto e agressivo e com letras em português, tendo como uma das principais inspirações o niilismo.

A banda apresentou quase todo seu álbum, excluindo apenas a instrumental "Sorumbática", e ainda os novos sons "Peste Negra" e"Na Infinidade Desértica".  Abrindo com a sorumbática intro "Funeral de Párias", que emenda com a ríspida e veloz "Profundo Abismo". Aí a Desfiladeiro já tinha conquistado a atenção dos presentes, exalando agressividade e energia.

Destaques ainda para a  climática e mais cadenciada "Marcha Final", para a veloz "Le Mistére" e o final avassalador com "Nihil". A Desfiladeiro deixou uma ótima impressão, agradando ao público, principalmente os adeptos dessa linha mais crua e direta. 

Ao final da apresentação essa boa impressão foi confirmada com os diversas fotos que a galera pediu para tirar com a banda.

Desfiladeiro é: Marcello Camargo (vocais), Jeferson Fagundes (guitarras), Flávio Arce (bateria) e Rui Brandão (baixo).



Após um intervalo e uma breve ajustada nos equipamentos e som, o Velho sobe ao palco, agora já com as pinturas tradicionais de corpse paints, em meio a nuvem de fumaça, que por um momento ficou densa demais, com a galera brincando que era a névoa da floresta, para dar um clima bem Black Metal.


Divulgando seu mais recente trabalho, "Vingando as Bruxas", o Velho já subiu ao palco com o público nas mãos, e já devidamente aquecidos pela Desfiladeiro, novas rodas de mosh se formavam, com o carismático Thiago Caronte conduzindo com maestria o ritual.

Ao fundo, o outro Thiago, o Splatter, destruia o kit de bateria, mostrando a potência e energia características. E a coesão do quarteto é algo a elogiar, com a massa sonora de raw Black Metal tomando todos de assalto, e com muitos já mostrando que até as músicas mais recentes estavam na ponta da língua, destacando a faixa título do último álbum.

O som, ora veloz e com blast beats, ora com trechos mais punk e também com aquela cadência rítmica, já características da banda, fez todos baterem cabeça e acompanharem tal qual um rito tribal, e nesta nova passagem por Santa Maria angariaram ainda mais seguidores, com muitos já pedindo um retorno breve do Velho à região.

O Velho é: Thiago Caronte (guitarra e vocais), Thiago Splatter (bateria), Rafael Lopes (baixo) e Død (guitarras).


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Finalizando, somente elogios à iniciativa dos proprietários do Gárgula pela realização das datas do já tradicional Circuito Underground, pela organização e ótimo atendimento do bar; elogios ao público, colaborando sempre para o ambiente ótimo do local, e parabéns às bandas, por proporcionarem uma noite/madrugada de muita energia e de Metal Extremo em estado bruto!


Texto/Edição: Caco Garcia 


Redes Sociais:

Gárgula Bar

Velho 

Desfiladeiro 





terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Cobertura de Show: Tribulation – 14/02/2026 – Burning House/SP

Com uma aura instigante e uma sonoridade que transcende os rótulos convencionais do metal, a banda sueca Tribulation retornou ao Brasil para sua segunda passagem, prometendo uma noite gótica com peso e músicas marcantes. A expectativa era grande para ver o grupo, conhecido por sua fusão única de black, death e gothic metal, entregar mais uma performance memorável. E, apesar de um pequeno atraso no início do show e de uma mudança inesperada na formação, o público presente não demonstrou sinais de desânimo, apenas uma crescente ansiedade pela experiência que estava por vir. A apresentação, realizada na Burning House, no último dia 14, provou mais uma vez por que o grupo é reverenciado: uma performance imersiva que transforma o palco em um portal para outra dimensão.

No entanto, o maior ponto de interrogação da noite pairava sobre a bateria. Devido a problemas pessoais, o baterista Oscar Leander não pôde acompanhar a banda nesta jornada sul-americana. Para a surpresa e o deleite de muitos, a solução veio em grande estilo: Luana Dametto, baterista da banda Crypta, foi convocada para assumir as baquetas. Tratou-se de uma substituição de última hora que carregava o peso de replicar a complexidade rítmica do Tribulation, mas que, como se verificou, foi conduzida com competência, garantindo que a espinha dorsal sonora da banda permanecesse intacta e poderosa.

Logo no início, a banda demonstrou confiança e entrosamento. A qualidade do som estava impecável, permitindo que cada nuance das guitarras de Adam Zaars e Joseph Tholl, o baixo e vocal gutural de Johannes Andersson e a bateria de Luana Dametto ressoassem com clareza. A performance na bateria mostrou energia e precisão, adaptando-se ao estilo da banda e contribuindo para a solidez da apresentação.

O setlist constituiu uma viagem pela discografia do grupo, equilibrando faixas mais recentes com clássicos. A noite começou com a intensidade de “The Unrelenting Choir”, seguida pela atmosfera sombria de “Tainted Skies” e pela melancolia envolvente de “Nightbound”. A sequência continuou com “Hamartia” e “Suspiria de Profundis”, composição que se estendeu por mais de dez minutos, apresentando momentos criativos que envolveram o público de forma marcante. Não foi diferente com “In Remembrance”, na qual cada compasso construía uma atmosfera capaz de transportar a audiência a outras dimensões. A presença de palco, os movimentos teatrais e as maquiagens características complementaram a experiência auditiva, transformando o show em um verdadeiro ritual.

A segunda parte do set principal manteve a energia e a imersão. “Hungry Waters” e “Saturn Coming Down” evidenciaram a versatilidade da banda, enquanto “Murder in Red” reforçou a atmosfera gótica com vocais profundos. O clímax do set principal foi atingido com “The Lament”, faixa que sintetiza a essência dramática e melódica do Tribulation. Ao final da música, o guitarrista Joseph Tholl protagonizou um momento memorável ao entregar sua guitarra a um fã no meio da plateia, gesto de confiança que permitiu ao admirador tocar alguns acordes até a intervenção da equipe técnica.

O público clamava por mais, e a banda retornou para o aguardado bis. Com “Melancholia”, o Tribulation retomou suas raízes mais sombrias e introspectivas, preparando o encerramento com “Strange Gateways Beckon”. A apresentação deixou a certeza de que a segunda passagem da banda pelo Brasil foi exitosa, superando desafios e oferecendo uma performance que permanecerá na memória dos presentes.


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 





Tribulation – setlist:

The Unrelenting Choir

Tainted Skies

Nightbound

Hamartia

Suspiria de profundis

In Remembrance

Hungry Waters

Saturn Coming Down

Murder in Red

The Lament

Melancholia

Strange Gateways Beckon 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Cobertura de Show: Azaghal – 13/02/2026 – La Iglesia/SP

Em plena sexta-feira de carnaval, quando as ruas do Brasil ferviam com samba e blocos, o La Iglesia serviu como reduto para os devotos do metal extremo. O “Bloco dos Camisas Pretas” resistiu bravamente, reunindo um público sedento por uma noite de riffs infernais e vocais guturais, comandada pelos finlandeses do Azaghal e precedida pelos brasileiros do Great Vast Forest. Uma noite pesada que trouxe um contraponto à euforia carnavalesca.

A responsabilidade de iniciar os trabalhos ficou com o Great Vast Forest, que apresentou o poderoso black metal brasileiro. Formado por Surgath (vocais), Sallos (guitarra), D. Katharsis (guitarra), Nero (baixo), Nahtaivel (teclados) e Draugr (bateria), o grupo conduziu o público por uma viagem ao submundo, iniciada com "Majestic South", "Wolvesclan" e "Prelude To the Victory". Logo de início, ficou nítida a capacidade da banda em criar paisagens sonoras obscuras, transportando a audiência diretamente para o vale das sombras. Um dos destaques, e um verdadeiro presente para os fãs, foi a potente e reverente versão de "Call From the Grave", do Bathory, que foi muito bem recebida. O set seguiu com a intensidade de "Bloody Winter" e a melancolia de "Memories of the Fire...", culminando com a grandiosidade de "Ride of the Valkyries" e "Imperial Moon", deixando a plateia pronta para os finlandeses.

O Azaghal, veterano do black metal finlandês formado em 1998, subiu ao palco reafirmando sua longa trajetória de devoção ao estilo. Sem rodeios, a banda mergulhou de cabeça em seu repertório, abrindo com a brutalidade de "Alttarini on luista tehty", seguida por "Myrkkyä" e "Filosofi", que intensificaram a aura blasfema e visceral do grupo. A energia crua e a entrega sem concessões criaram uma parede sonora que devastou o que vinha pela frente, reafirmando a reputação do Azaghal como mestre do caos e do terror. 

Com um simples “Como está São Paulo?”, falado em português pelo vocalista, deram início a mais uma pedrada, agora com "Black Terror Metal / Kyy". A transição para "Maailman Viimeinen Yö (Ja Ensimmäinen)" e "Madon sanat" trouxe momentos mais introspectivos, nem por isso menos pesados ou sombrios. O público respondia com devoção, provando a atemporalidade do black metal em contextos improváveis.

Avançando no set, "Syöpäläinen" e "De Masticatione Mortuorum" elevaram a intensidade a níveis infernais, com Ruho martelando a bateria como um possuído, enquanto Narqath berrava como o próprio capiroto. A química entre os membros era visível, resultando em uma execução precisa e devastadora, que manteve o público em estado de transe, provando que o black metal não é apenas música, mas a manifestação de uma escuridão intrínseca, um grito de revolta contra a luz e a conformidade.

Para encerrar a noite, o Azaghal brindou os presentes com uma sequência final de tirar o fôlego. "Mustamaa" e "Agios O Baphomet" prepararam o terreno para a mística "Quetzalcoatl", que trouxe uma dimensão quase ritualística à apresentação, com sua aura enigmática e poderosa. O grand finale com "Kun Aurinko Kuoli" e "Juudas" foi um encerramento apoteótico, deixando claro que o Azaghal não apenas tocou suas músicas, mas encenou um verdadeiro rito de black metal, uma celebração da noite e do caos. A noite no La Iglesia foi um triunfo para o “Bloco dos Camisas Pretas”, uma celebração da escuridão que, em meio à algazarra do carnaval, provou ser o refúgio perfeito para almas que buscam algo mais profundo, visceral e intransigente. 

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Sabrina Ribeiro para o Cultura em Peso

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Caveira Velha Produções


Great Vast Forest – setlist:

Majestic South 

Wolvesclan 

Prelude to the victory... 

Masters of the Old War 

Call From the Grave (Bathory) 

Bloody Winter 

Memories of the Fire... 

In the Deep Forest... 

Ride of the Valkyries 

Imperial Moon


Azaghal – setlist:

Alttarini on luista tehty 

Myrkkyä 

Filosofi 

Black Terror Metal / Kyy 

Peto 666 

Maailman Viimeinen Yö (Ja EnsimmäInen) 

Madon sanat 

Syöpäläinen 

De Masticatione Mortuorum 

Mustamaa 

Agios O Baphomet 

Quetzalcoatl 

Kun Aurinko Kuoli 

Juudas


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Entrevista - Themalefik: A União do Brasil com o Japão em Prol do Black Metal

 


THEMALEFIK, da cidade de São Paulo, Brasil, se consolidou como uma das mais importantes bandas de Death/Black Metal do Brasil desde 1994. 

Após alguns lançamentos durante os anos, e já radicada no Japão, finalmente chegou, em 2024, ao tão aguardado momento de disponibilizar o seu segundo full-lenght,  “My Inner Demons”, que marca um novo capítulo em extensão artística.

Agora, a banda já segue os próximos passos, trabalha na divulgação do terceiro álbum, "Covenant of Chaos" e já tem mais um petardo engatilhado para 2026. 

Confira o que o fundador Cláudio Monteiro tem a dizer sobre esse novo trabalho e os planos futuros 


Olá Cláudio, obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do CD “Covenant of Chaos”, pois o material está excelente.

Cláudio Monteiro: Nós é que agradecemos o espaço e a atenção da ROAD TO METAL. Muito obrigado pelas palavras. Covenant of Chaos é um trabalho construído com muito cuidado e convicção ao longo de anos de estrada. 

Ele não foi pensado para fórmulas ou concessões, mas como uma expressão honesta das reflexões que carregamos desde o início da banda, ainda em 1993. É resultado de uma longa observação das transformações — e dos colapsos — morais, sociais e espirituais que seguimos presenciando, e que continuam nos impulsionando criativamente.

Como você descreve o trabalho de composição dessa sonoridade? 

Cláudio Monteiro: A composição no ThemalefiK começa na ruptura. Trabalhamos com dissonância, repetição opressiva, variações rítmicas instáveis e camadas que criam tensão constante. Não há compromisso com gêneros ou fórmulas, apenas com intenção. A música precisa soar como falha estrutural, como algo prestes a ruir, porque é exatamente assim que o mundo se apresenta. Se o som incomoda, é porque reflete algo real.

O disco exige várias audições para ser compreendido. Isso tem sido percebido pelos fãs? 

Cláudio Monteiro: Sim, e isso é natural. Covenant of Chaos não se revela apenas pelo ouvido, mas pelo que cada um carrega por dentro. O disco não entrega respostas prontas — ele provoca dúvidas, silêncios e confrontos internos. 

A cada audição, o ouvinte encontra camadas que dialogam diretamente com suas próprias contradições, crenças e fragilidades. O caos ali não é apenas externo; ele reflete aquilo que cada um sabe que sente, mas muitas vezes evita encarar. Não acreditamos em música que passa sem deixar marcas.

Existem planos para o lançamento físico do álbum no Brasil? 

Cláudio Monteiro: Sim. O formato físico continua sendo essencial no underground. O digital espalha, mas o físico consolida. Quando Covenant of Chaos sair nesse formato, não será apenas um CD, mas um objeto conceitual, pensado como extensão do álbum. Nada será feito de forma vazia ou apressada.

O uso do inglês pode afastar o público brasileiro? 

Cláudio Monteiro: Não. O ThemalefiK nunca se limitou a idioma. Muito antes disso, já expúnhamos a realidade brasileira de forma direta em português. “Vergonha”, gravada em 1998, já escancarava uma nação construída sobre humilhação, miséria moral e silenciamento. A letra questiona diretamente do que deveríamos nos orgulhar — ou se o único sentimento honesto possível seria a vergonha. O mais perturbador é constatar que, décadas depois, essa pergunta continua válida porque nada mudou no Brasil. 

“Cadáveres nos Jornais” aprofunda essa denúncia ao mostrar a morte transformada em rotina e manchete descartável, enquanto a corrupção se esconde atrás do discurso da falta de recursos. A mídia não informa — anestesia. As pessoas veem, se calam e seguem vivendo uma vida anormal. Já “Vida”, gravada em 1998 e regravada no álbum Your Belief, vai além da crítica social e atinge o núcleo da crença humana. 

A música desmonta a ideia de transcendência, questiona a vida pós-vida e reduz a existência àquilo que ela realmente é: barro, carne, água e sangue. Não há promessa futura, apenas o instante. Essa música antecipa de forma clara a filosofia de Your Belief, que questiona a fé, a obediência e a necessidade humana de criar ilusões para suportar a finitude religiosa.

Como estão rolando os shows em suporte ao disco? 

Cláudio Monteiro: O palco não é entretenimento, é exposição. Ao vivo, o ThemalefiK funciona como um rito de confronto. Não suavizamos nada. Quem se conecta entende que não se trata de conforto, mas de presença e intensidade; quem já presenciou o ThemalefiK ao vivo sabe disso muito bem. Se alguém se sente desconfortável, talvez seja exatamente aí que deveria prestar mais atenção. Estamos preparando o terreno e fazendo o nosso papel na divulgação do álbum e, consequentemente, dos shows.

Quem assinou a capa do CD e qual a intenção dela? 

Cláudio Monteiro: A capa foi concebida junto à banda, a partir de um conceito muito claro: o pacto com o caos. Ela representa a ruptura definitiva com crenças impostas, a falência da ordem e a aceitação do colapso como força transformadora. Não explica — provoca, assim como a música. A arte nasceu de um esboço criado pelo baterista; a partir daí, buscamos a essência da banda de 1993, resgatamos isso e trouxemos o passado para o presente. Assim nasceu o disco.

“Covenant of Chaos” foi totalmente produzido pela banda? 

Cláudio Monteiro: Sim. Produzir o próprio material é uma escolha ideológica. Desde Your Belief, seguimos uma linha clara: controle total da mensagem. Questionamos a fé, a obediência e as estruturas que moldam o comportamento humano. Covenant of Chaos é a consequência direta disso — quando a crença cai, o caos assume.

Já existem novas composições em andamento? 

Cláudio Monteiro: Sim. O processo continua, mas não como ruptura, e sim como aprofundamento. Seguimos explorando crença, colapso, repetição histórica e decadência humana. O ThemalefiK não reage ao mundo — ele o reflete de forma crua. No fim, tudo isso é sobre lucidez, mesmo quando ela dói.

Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao THEMALEFIK… 

Cláudio Monteiro: Agradecemos o espaço e o respeito. O metal não sobrevive pela aceitação, mas pela resistência. Enquanto houver silêncio imposto, o ThemalefiK continuará fazendo barulho.


Site Oficial 




segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Mayhem – 07/12/2025 – Vip Station/SP

Após três anos de sua última apresentação em São Paulo, o Mayhem desembarcou na Vip Station para uma celebração de quatro décadas de história, controvérsia e pura escuridão sonora. A banda norueguesa, precursora do black metal, voltou ao Brasil para comemorar seu 40º aniversário, e o que ocorreu foi uma viagem ao submundo através de seu vasto e impactante catálogo. Apesar de um atraso de uma hora devido a problemas de voo vindos do Chile, que poderia ter abalado o ânimo de qualquer público, a energia e a expectativa na Vip Station permaneceram inabaláveis, provando que a aura dos noruegueses é capaz de transcender qualquer contratempo.

Com a formação atual composta por Attila Csihar nos vocais, Teloch e Ghul nas guitarras, Necrobutcher no baixo e Hellhammer na bateria, o Mayhem subiu ao palco para entregar uma performance visceral. O set principal mergulhou em diversas fases da banda, começando com a agressividade de “Malum” e “Bad Blood”, que imediatamente acenderam a chama da intensidade. Faixas como “MILAB”, “Psywar” e “Illuminate Eliminate” demonstraram a evolução sonora da banda, mesclando a brutalidade característica com elementos mais complexos, enquanto a execução impecável da formação atual garantia que cada riff e batida atingisse o público com a força de um tridente vindo direto do inferno.

A atmosfera sombria intensificou-se ainda mais com a sequência de clássicos que definiram a trajetória do Mayhem. “Chimera” e “My Death” prepararam o terreno para a avalanche de hinos que viria a seguir. Os fãs responderam com fervor e rodas a cada nota de “Crystalized Pain in Deconstruction”, “View From Nihil” e “Ancient Skin”, evidenciando a profunda conexão do público com a obra da banda. Contudo, foi com “Symbols of Bloodswords”, “Freezing Moon” e a transcendental “Life Eternal” que o show atingiu um pico de imersão, culminando na execução majestosa da faixa-título “De Mysteriis Dom Sathanas”, um verdadeiro pilar do black metal. A inclusão de “Funeral Fog”, com o backing track vocal de Dead, foi um momento arrepiante, uma ponte direta com o passado sombrio e reverenciado da banda.

A chegada do encore veio para coroar esse momento, e foi então que o baixista Necrobutcher, em uma demonstração de pura camaradagem e respeito pela história da banda, dirigiu-se à plateia dizendo que a celebração dos 40 anos não estaria completa sem a presença de Messiah e Manheim. Assim, para delírio dos presentes, os ex-integrantes originais Messiah (vocais) e Manheim (bateria) subiram ao palco, prontos para reescrever um capítulo da história do black metal ao vivo.

O Deathcrush EP foi o foco do encore, e a execução foi nada menos que lendária. A introdução de “Silvester Anfang” criou um prelúdio sombrio e hipnotizante antes que a explosão de “Deathcrush” tomasse conta do ambiente, com Messiah no vocal e Manheim na bateria, transportando a todos para as raízes mais cruas e primitivas do Mayhem. A energia contagiante continuou com “Chainsaw Gutsfuck” e “Necrolust”, nas quais a química entre os membros originais e a intensidade da performance foram inegáveis. O ápice da noite, no entanto, ocorreu com “Pure Fucking Armageddon”, que contou com a participação de Attila Csihar e Messiah nos vocais, com Manheim mantendo a brutalidade implacável. Ver duas eras dos vocais do Mayhem compartilhando o palco foi um momento histórico e eletrizante, uma prova da duradoura e complexa linhagem da banda.

No fim, a impressão geral foi unânime: a apresentação foi uma verdadeira aula de história do black metal. O atraso inicial, rapidamente esquecido, apenas serviu para intensificar a expectativa de uma noite que reuniu lendas e celebrou a arte sombria do Mayhem. A fusão do passado e do presente no palco, com a formação atual e os membros originais, criou um evento que ficará gravado na memória dos fãs como um dos momentos mais significativos da trajetória da banda no Brasil. 

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Roberto Sant'Anna

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Caveira Velha Produções


Mayhem – setlist:

Malum

Bad Blood

MILAB

Psywar

Illuminate Eliminate

Chimera

My Death

Crystalized Pain in Deconstruction

View From Nihil

Ancient Skin

Symbols of Bloodswords

Freezing Moon

Life Eternal

De Mysteriis Dom Sathanas

Funeral Fog

Silvester Anfang 

Deathcrush (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria)

Chainsaw Gutsfuck  (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria))

Necrolust (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria))

Pure Fucking Armageddon (com Messiah e Attila nos vocai;  Manheim na bateria)

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Atrocity, Arkona & Leaves' Eyes – 23/11/2025 – Carioca Club/SP

As bandas Atrocity, Arkona e Leaves’ Eyes desembarcaram em São Paulo no último dia 23 para apresentações memoráveis. Talvez devido ao grande número de eventos do gênero, o público foi modesto, mas extremamente participativo. O evento ocorreu no Carioca Club e apresentou um lineup diversificado dentro do metal extremo, com influências que vão do death metal ao folk e ao symphonic metal. A participação do público, embora reduzida, foi decisiva, já que os presentes interagiram ativamente, cantando e aplaudindo, o que contribuiu para uma atmosfera empolgante. No geral, as apresentações foram sólidas, com cada banda entregando performances competentes e fiéis ao próprio estilo, mantendo a magia que só acontecem em shows ao vivo. 

A primeira banda da noite foi o Atrocity, grupo alemão de death metal formado em 1985 em Ludwigsburg. O conjunto é conhecido pela longa trajetória no cenário underground e por mesclar elementos do metal extremo com influências industriais e góticas em fases mais recentes. Fundado por Alexander Krull, vocalista e principal compositor, o grupo conta com integrantes como Thorsten “Tadd” Bauer na guitarra, entre outros músicos que contribuíram para álbuns relevantes. Com mais de três décadas de carreira, o Atrocity influenciou o metal europeu com composições marcantes e consolidou sua posição como referência do estilo por meio de uma discografia extensa e pela constante evolução sonora.

O Atrocity iniciou sua apresentação com um atraso de quinze minutos, o que forçou o corte da música “Necropolis” para adequação ao cronograma. Apesar disso, o grupo entregou um setlist consistente, incluindo “Desecration of God”, “Death by Metal” e “Reich of Phenomena”, que destacaram tanto o vocal gutural característico de Alexander Krull quanto o peso instrumental da banda. O público, pequeno, porém dedicado, respondeu de forma intensa, especialmente durante “Faces From Beyond” e “Bleeding for Blasphemy”. No geral, o show foi poderoso e atendeu às expectativas dos fãs de metal extremo, demonstrando profissionalismo ao compensar o atraso com uma performance coesa e envolvente.

Em seguida, veio o Arkona, que é uma banda russa de pagan folk metal formada em 2002 em Moscou e que se destaca pela fusão de elementos tradicionais da cultura eslava, como flautas e percussões folclóricas, com o peso do metal extremo. Liderada por Masha “Scream” Archipova, vocalista e principal letrista, a banda conta com músicos como Sergei “Lazar” Atrashkevich na guitarra, além de outros integrantes que incorporam instrumentos étnicos às composições. Com álbuns consagrados, o Arkona obteve reconhecimento internacional ao celebrar o folclore pagão e a mitologia eslava, misturando vocais limpos e agressivos em um som marcante.

A apresentação do Arkona no Carioca Club seguiu sem imprevistos e ofereceu um show dinâmico que reforçou a proposta estética do grupo. Com um setlist que incluiu “Kob’”, “Ydi” e “Goi, rode, goi!”, a banda envolveu o público com performances enérgicas conduzidas pela presença marcante de Masha Archipova. A participação da plateia foi incrivel, especialmente durante “Khram” e “Zimushka”, criando um ambiente imersivo. O show foi bem executado, mantendo qualidade sonora e entregando uma experiência culturalmente rica que atendeu às expectativas e reforçou o apelo da banda no cenário metal brasileiro.

Fechando a noite, era a vez do Leaves’ Eyes. Banda alemã de symphonic metal formada em 2003. O grupo foi originalmente idealizado pela vocalista norueguesa Liv Kristine, ex-Theatre of Tragedy, que contribuiu com uma abordagem lírica e operística ao lado de Alexander Krull (também do Atrocity) e demais integrantes responsáveis por acrescentar elementos orquestrais e temáticas vikings ao som da banda. Com discos dedicados à mitologia nórdica e arranjos sinfônicos marcantes, o Leaves’ Eyes consolidou presença internacional e participação constante em grandes festivais.

O show do Leaves’ Eyes no Carioca Club foi uma excelente surpresa, contrastando com o peso das bandas anteriores. A apresentação destacou o caráter sinfônico e melódico do grupo, que abriu com “Chain of the Golden Horn” e incluiu “Hammer of the Gods”, “Who Wants to Live Forever” e outras faixas marcantes. A banda entregou um setlist variado, evidenciando a qualidade vocal e a presença cênica de Liv Kristine. A plateia, embora pequena, participou de forma ativa, especialmente durante “My Destiny”, sendo ainda surpreendida com doses de vodca distribuídas pela banda. Outro destaque foi a apresentação de “Song of Darkness”, faixa anunciada como parte do próximo trabalho. No geral, a performance foi excelente e reforçou o domínio de palco do grupo, sobretudo em “Sign of the Dragonhead”, momento em que Alexander surgiu com vestimentas medievais e empunhando uma espada, elevando ainda mais o clima teatral da apresentação.

Em síntese, as três bandas apresentaram shows de qualidade, mantendo o público engajado e satisfeito.  Para um domingo à noite, o lineup diversificado atraiu os fãs verdadeiros, provando que não é sobre quantidade, mas da qualidade e da entrega daqueles que contribuem para fazê-lo acontecer. 


Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Edu Lawless 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Estética Torta

Press: Acesso Music 


Atrocity – setlist:

Desecration of God

Death by Metal

Fire Ignites

Fatal Step

Spell Of Blood

Faces From Beyond

Bleeding for Blasphemy

Shadowtaker

Reich of Phenomena 


Arkona – setlist:

Kob'

Ydi

Na strazhe novyh let

Yav'

Khram

Goi, rode, goi!

Zakliatie

Zimushka


Leaves' Eyes – setlist:

Chain of the Golden Horn

Hammer of the Gods

Across the Sea

Serpents and Dragons

Edge of Steel

Who Wants to Live Forever

Sign of the Dragonhead

Song of Darkness

Realm of Dark Waves

My Destiny

Swords in Rock

Hell to the Heavens

Farewell Proud Men

Forged by Fire