sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Hansen: Quando Uma Lenda Decide Tocar Sem Mapa

Valhall Music (Nac.) / earMUSIC (Imp.) 

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Depois de mais de quatro décadas ajudando a definir os caminhos do heavy metal europeu, Kai Hansen poderia simplesmente repetir a fórmula que o transformou em um dos nomes mais importantes do gênero. Afinal, existe pouca coisa mais tentadora para um músico com uma história como a dele do que voltar ao território seguro de Helloween e Gamma Ray. Born With A Hammer, porém, parte justamente da direção contrária.

Lançado oficialmente em 18 de setembro de 2026 pela earMUSIC, o álbum é o primeiro trabalho solo de Hansen em dez anos, depois de XXX – Three Decades in Metal, lançado em 2016 sob o nome Hansen & Friends. Desta vez, o projeto aparece simplesmente como Hansen, acompanhado por Eike Freese, Alexander Dietz, Dan Wilding e Tim Hansen, filho de Kai. São dez faixas e pouco mais de 45 minutos em que o guitarrista parece ter se permitido uma coisa que sua carreira raramente exige dele: não precisar responder às expectativas de ninguém.

E isso fica evidente já nos primeiros minutos. Feeding The Beast começa com uma introdução limpa e relativamente contida antes de o peso entrar de maneira progressiva. Quando a bateria acelera e as guitarras assumem o controle, a primeira associação inevitável é com o Hansen que conhecemos. Há velocidade, melodias de guitarra, vocal imediatamente reconhecível e aquela combinação entre agressividade e senso melódico que ajudou a moldar o power metal europeu.

Só que, depois de estabelecer esse território conhecido, o disco começa a desmontá-lo. A grande qualidade de Born With A Hammer está justamente nessa sensação de que Hansen sabe perfeitamente onde o ouvinte espera que determinada música vá chegar e, em seguida, decide virar o volante.

1. Feeding The Beast

A abertura funciona quase como uma isca. Os primeiros acordes criam uma atmosfera mais introspectiva, e por alguns instantes parece que o álbum vai seguir uma direção mais tradicional. Então entram as guitarras e a bateria, e a música ganha velocidade até desembocar em um heavy metal bastante familiar.

O riff principal é direto, mas não simplório. Há uma boa dinâmica entre as partes mais abertas e os momentos em que a guitarra aperta o andamento, enquanto Hansen mantém aquela voz que nunca dependeu de perfeição técnica para ser imediatamente identificável.

É provavelmente a faixa que mais conversa com o legado de Gamma Ray e Helloween, e isso é importante porque oferece ao ouvinte uma porta de entrada segura antes de o álbum começar a mostrar suas outras faces. Resenhas publicadas antes e no dia do lançamento também destacaram justamente essa proximidade inicial com o power metal clássico.


2. Welcome To Life

Se a primeira faixa apresenta o Hansen que você esperava ouvir, Welcome To Life é a primeira grande rasteira do álbum. A música chega mais solta, com uma energia quase punk e uma abordagem menos polida. A guitarra parece propositalmente mais crua, e a estrutura transmite uma sensação de espontaneidade que contrasta bastante com a precisão de Feeding The Beast.

E então acontece a mudança mais inesperada: a faixa mergulha em um trecho de inspiração reggae. Sim, reggae.

E o mais curioso é que a transição não soa como uma piada colocada ali apenas para causar estranhamento. O próprio Hansen explicou que a ideia veio de seu gosto pelo gênero e da influência do ambiente em que estava trabalhando, inclusive associando essa sonoridade às experiências vividas durante sua passagem pela Costa Rica.


3. Don’t Care

A terceira faixa aumenta ainda mais essa sensação de liberdade. Don’t Care tem uma energia brincalhona e deliberadamente descompromissada. A guitarra continua sendo protagonista, mas aparecem texturas eletrônicas e uma batida que foge consideravelmente do que se esperaria de um disco associado a um dos arquitetos do power metal.

É também uma música em que a personalidade de Hansen pesa mais do que a necessidade de impressionar. Existe algo quase juvenil na composição, no melhor sentido possível. O músico parece estar se divertindo com as próprias possibilidades, e isso acaba sendo mais interessante do que qualquer tentativa de produzir uma faixa “importante”.

O contraste entre os instrumentos eletrônicos e o refrão guiado por guitarra é um dos detalhes que fazem a música permanecer na cabeça. Ao mesmo tempo, é aqui que o álbum começa a revelar seu primeiro problema: nem toda ideia experimental possui a mesma força das melhores composições.


4. Wait And See

E então Hansen fecha a porta da brincadeira e coloca o álbum novamente sob tensão. Wait And See é mais pesada, mais escura e consideravelmente mais compacta. O riff trabalha em uma região mais grave, com uma sonoridade que se aproxima do metal moderno sem abandonar a capacidade melódica do guitarrista.

A diferença é perceptível principalmente no tratamento rítmico. Em vez de simplesmente acelerar, a música pesa. Os grooves são mais secos, a bateria tem uma presença mais física e a guitarra ganha uma textura quase industrial. O single já havia sido apresentado antes do álbum como uma mudança de direção em relação à liberdade rock'n'roll de Welcome To Life, assumindo uma atmosfera mais pesada e intensa.


5. Born With A Hammer

E chegamos ao coração do álbum. Com pouco mais de oito minutos, a faixa-título é a composição em que Hansen finalmente abandona qualquer preocupação com concisão e simplesmente deixa a música crescer.

O começo já estabelece uma atmosfera mais teatral, com piano, harmonias vocais e uma construção que imediatamente remete à tradição do rock épico. Conforme a música avança, aparecem mudanças de dinâmica, passagens mais pesadas, melodias de guitarra e arranjos vocais cada vez maiores.

A referência a Queen é impossível de ignorar, especialmente na maneira como Hansen trabalha os diferentes blocos da composição. Mas o interessante é que ele não tenta esconder a influência. Ela faz parte da própria proposta da música.

O guitarrista contou que a composição nasceu ao piano, a partir de alguns acordes e de uma melodia que já estava em sua cabeça. Segundo ele, desde o início ficou claro que a música não seria um formato convencional e que a direção mais grandiosa fazia sentido.

Há uma quantidade enorme de ideias acontecendo aqui, mas Hansen consegue impedir que a música vire apenas uma colagem de referências porque existe uma linha melódica conduzindo tudo. É uma faixa que exige mais atenção do que as anteriores e, justamente por isso, cresce a cada audição.


6. I.D.G.A.F.

Depois de oito minutos de grandiosidade, Hansen faz a coisa mais Hansen possível: volta com uma música que praticamente manda toda a pompa para o inferno.

I.D.G.A.F. é curta, agressiva e extremamente direta. O riff tem uma pegada quase punk, mas a produção adiciona elementos eletrônicos que deixam tudo mais estranho. A batida sintética cria um contraste interessante com a guitarra, e o refrão é construído para ser gritado.


7. End Of The Road

Aqui aparece novamente o Kai Hansen que os fãs antigos provavelmente estavam esperando. End Of The Road é mais melódica, pesada e tradicional. As guitarras retomam uma construção mais próxima do heavy/power metal, e o refrão tem aquela dimensão de hino que Hansen domina há décadas.

Mas existe uma diferença importante na letra. A música fala sobre o fim de um relacionamento, e não sobre o próprio Hansen chegando ao fim da estrada. O encerramento de uma relação aparece como algo doloroso, mas também como uma experiência que não apaga o carinho e a história compartilhada.

Essa dualidade aparece na própria composição: existe melancolia, mas não uma atmosfera derrotista. É provavelmente a música que melhor equilibra passado e presente. Tem DNA de power metal, mas não soa como uma tentativa de voltar no tempo.


8. Triple Trouble

Com pouco mais de três minutos, Triple Trouble é o tiro curto do álbum. A música entra acelerada e não parece particularmente interessada em desenvolver uma grande narrativa. Ela quer velocidade, riff e energia.

Existe uma agressividade punk na maneira como a composição avança, e a presença de Tim Hansen na guitarra acrescenta uma energia diferente ao conjunto. O contraste entre pai e filho também dá à faixa uma espécie de sensação geracional, ainda que o álbum nunca transforme isso em seu conceito central.


9. Invaders

Invaders trabalha com uma fórmula muito mais simples. A música aposta em um riff insistente, bateria firme e um refrão grande, daqueles que parecem nascer pensando no palco. Não há a mesma quantidade de desvios estilísticos de Welcome To Life ou I.D.G.A.F., e isso faz com que ela funcione quase como uma pausa dentro da extravagância do disco.

A guitarra encontra um groove bastante eficiente, e Hansen não precisa exagerar na interpretação para fazer a faixa funcionar. É uma composição que depende muito mais do riff e da repetição estratégica do que de grandes mudanças estruturais.


10. Wonderland

Wonderland chega pesada, com guitarras encorpadas, bateria forte e uma atmosfera que mistura o peso do heavy metal tradicional com algumas das características mais modernas apresentadas ao longo do disco.

O vocal de Hansen aparece mais grave e áspero, e isso combina com a sensação de fechamento da música. É como se, depois de percorrer todos aqueles estilos, o álbum finalmente voltasse ao elemento que nunca desapareceu em nenhum momento: a guitarra.

O riff é provavelmente o elemento mais memorável da faixa, e a bateria de Dan Wilding dá um peso considerável ao encerramento. É uma escolha interessante para terminar porque Hansen poderia ter optado por uma balada ou por outro épico. Em vez disso, ele termina com força.


Divulgação

Confira a tracklist completa do Born With A Hammer:

1. Feeding The Beast 

2. Welcome To Life 

3. Don’t Care 

4. Wait And See 

5. Born With A Hammer 

6. I.D.G.A.F.

7. End Of The Road 

8. Triple Trouble 

9. Invaders 

10. Wonderland

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