segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cobertura de Show: The Gathering – 15/10/2026 – Audio/SP

The Gathering e os 30 anos de Mandylion: Emoção e Nostalgia

Sabe quando você vai a um show e, depois, fica tentando encontrar palavras para explicar o que acabou de viver, mas simplesmente não consegue? Pois é, estou tentando escrever sobre o show do The Gathering celebrando os 30 anos de Mandylion e confesso que está difícil. Não por falta do que dizer, mas porque parece que nenhuma palavra consegue chegar perto do que foi aquela noite.

Primeiramente, preciso dizer que, para uma pessoa como eu, que quase nunca chora, sentir vontade de chorar durante praticamente o show inteiro foi uma experiência e tanto! Mas também, convenhamos: estamos falando de Mandylion, um dos meus discos preferidos da vida, tocado na íntegra pela formação daquela época. Como é que a pessoa fica normal diante de uma coisa dessas?

A primeira vez que ouvi esse álbum eu tinha 15 anos. Quinze! E foi um daqueles discos que abrem a sua cabeça, sabe? Que fazem você descobrir coisas novas, enxergar a música de outra maneira e perceber que existe um mundo inteiro para além daquilo que você já conhece. Naquela época, eu jamais imaginaria que um dia teria a oportunidade de ver essas músicas ao vivo, com a formação original. E olha só, hoje, aos 33 anos, eu estava lá.

É muito louco pensar nisso. A gente cresce, a vida acontece, tanta coisa muda, mas algumas músicas continuam morando naquele cantinho especial dentro da gente. E, de repente, você está ali, diante delas, tentando processar tudo ao mesmo tempo.

E eu nem comecei a falar do show ainda! Mas, antes, vamos falar de Mandylion?

Para quem não conhece a história, o The Gathering é uma banda holandesa formada em 1989, que começou sua trajetória explorando sonoridades mais próximas do death/doom metal. Mas foi em 1995, com o lançamento de Mandylion, que o grupo deu um passo decisivo para construir a identidade pela qual se tornaria conhecido.

O disco marcou a chegada de Anneke van Giersbergen aos vocais e trouxe uma mudança importante na sonoridade da banda, misturando peso, atmosferas sombrias, passagens progressivas e melodias que fugiam bastante do que se costumava ouvir no metal naquela época.

A formação de Mandylion reunia Anneke nos vocais, René Rutten e Jelmer Wiersma nas guitarras, Frank Boeijen nos teclados, Hugo Prinsen Geerligs no baixo e Hans Rutten na bateria.

E o resultado foi um daqueles trabalhos que envelhecem muito bem. Na época, o álbum chamou a atenção justamente por essa combinação de peso e delicadeza, com uma sonoridade atmosférica e uma vocalista que tinha uma maneira muito particular de interpretar as músicas. Com o tempo, Mandylion se consolidou como um dos grandes discos do metal gótico dos anos 90 e uma referência para muita gente que veio depois.

E não é difícil entender o motivo. Basta ouvir “Eléanor”, “Strange Machines”, “Leaves” ou a maravilhosa “Sand and Mercury” para perceber que existe algo muito especial ali.

Não é só um disco importante para a história do The Gathering. É um disco que marcou a vida de muita gente. E, pelo que vi naquela noite, não estou falando apenas de mim.

Anneke van Giersbergen é um acontecimento à parte

Gente, o que dizer dessa mulher?

Anneke tem uma voz linda, etérea, daquelas que parecem te puxar para dentro da música. Mas não é só a voz. É a maneira como ela canta, como se movimenta, como se conecta com as pessoas e como consegue transmitir tanta coisa sem precisar fazer esforço para chamar a atenção.

Ela tem um carisma absurdo! É uma cantora premiada, com uma trajetória incrível, mas que mantém uma leveza e uma simpatia que tornam tudo ainda mais especial. E sabe o que acho mais legal? A gente costuma ouvir falar muito bem dela nos bastidores, principalmente sobre a maneira como trata os fãs e como gosta de interagir com o público. Quando você vê isso acontecendo ao vivo, percebe que não é só conversa. Ela realmente parece gostar daquela troca.

Durante o show, Anneke agradeceu diversas vezes pelo carinho, pela recepção e pelo que chamou de lindo coral brasileiro. Dava para perceber que ela estava genuinamente impressionada com o que estava ouvindo.

Aliás, a reação dela quando começou “Eléanor” foi uma das coisas mais bonitas da noite. Assim que ela começou a cantar, o público veio junto com uma força absurda. Anneke ficou claramente surpresa e, em vários momentos, colocou a mão perto do ouvido para ouvir melhor aquela multidão cantando. Imaginem a cena!

E não foi só nessa música. O público cantou durante o show inteiro, e Anneke fez questão de agradecer diversas vezes. Comentou sobre o jet lag, as poucas horas de sono e agradeceu por ter tanta gente ajudando a cantar.

Meus amigos, se vocês precisam de ajuda para cantar, pode deixar que o brasileiro resolve!

Mas, brincadeiras à parte, foi realmente emocionante ver a reação dela. A cantora disse o quanto achava aquele carinho lindo e o quanto ela e os músicos se sentiam abençoados por receber tanto amor.

E acho que essa troca foi uma das coisas mais bonitas do show. Não era só uma banda tocando para um público. Era uma multidão devolvendo, em forma de canto, todo o amor que aquelas músicas receberam durante esses 30 anos.

Uma catarse coletiva. E não estou exagerando!

Eu juro que teve momentos em que olhei ao redor e pensei: gente, o que está acontecendo aqui? Era gente chorando, gente cantando com os olhos fechados, gente com as mãos na cabeça, naquele clássico gesto de quem está tentando entender o que acabou de presenciar. E, no meio disso tudo, sempre aparecia alguém soltando um “PQP, QUE SHOW É ESSE?!”.

E eu entendia perfeitamente, porque estava pensando exatamente a mesma coisa.

Foi uma emoção coletiva muito difícil de explicar. Parecia que todo mundo ali estava vivendo alguma coisa pessoal, mas, ao mesmo tempo, estávamos todos sentindo a mesma coisa juntos.

Sem exagero, parecia um ritual. Um culto sagrado ao som de Mandylion. E olha que nem sou de ficar romantizando tudo, mas aquela noite mereceu!

Foi uma experiência sensorial e emocional profunda. Tinha a música, a voz da Anneke, os instrumentos, milhares de pessoas cantando e aquela sensação de que você estava vivendo um momento que não se repetiria daquela mesma maneira.

E acho que é isso que torna um show inesquecível. Não é só ouvir as músicas de que você gosta. É sentir que está compartilhando algo muito maior do que você, mesmo sem conhecer a pessoa que está chorando do seu lado.

O público brasileiro foi um espetáculo à parte. E a produção também merece reconhecimento, porque tudo funcionou muito bem. Os músicos estavam entrosados, a execução foi impecável e as músicas mantiveram aquela atmosfera tão característica da banda.

Mas, sinceramente? Meu olhar voltava o tempo todo para Anneke. Ela estava brilhando, conduzindo tudo com aquela voz maravilhosa e um carisma que parece não ter fim.

E ainda teve muito mais além de Mandylion

A celebração não ficou restrita ao álbum, e o repertório trouxe outras músicas importantes da fase de Anneke no The Gathering.

Tivemos “On Most Surfaces”, do Nighttime Birds (1997), e “Travel”, do experimental How to Measure a Planet? (1999), mostrando um pouco dessa evolução musical da banda ao longo dos anos.

Também tocaram “Liberty Bell” e “Third Chance”, esta última especialmente interessante por não ser tocada desde 2007, conforme o histórico de apresentações da banda.

É muito legal quando uma banda entende que celebrar um disco clássico não significa necessariamente ficar presa a ele. Essas outras músicas ajudaram a ampliar a experiência e lembrar que a fase de Anneke foi muito além de Mandylion.

E aí veio “Saturnine” para fechar a noite.

Olha, que escolha acertada! Uma das músicas mais emblemáticas dessa fase, com aquele clima que parece abraçar a gente e apertar o coração ao mesmo tempo. Foi um encerramento lindo, daqueles que deixam você emocionalmente destruída, mas feliz por ter vivido aquilo.

Eu não consigo imaginar uma maneira melhor de terminar aquela noite.

E agora, como é que eu explico isso?

Sabe o que mais me pega quando penso nesse show? É lembrar daquela menina de 15 anos que ouviu Mandylion pela primeira vez e não fazia ideia de tudo o que ainda viveria. Naquela época, eu não imaginava que, tantos anos depois, estaria diante daquela banda, ouvindo aquelas músicas ao vivo, cantando junto e quase chorando do começo ao fim.

E não é só nostalgia. Acho que é também perceber o quanto a música acompanha a gente, mesmo quando a vida muda completamente. A gente cresce, passa por tanta coisa, conhece outras bandas, descobre novos discos, muda de opinião sobre um monte de coisas, mas alguns álbuns continuam ali, intactos em sua importância.

E, de repente, você tem a chance de viver algo que, durante anos, parecia impossível. Foi exatamente isso que senti naquela noite: uma mistura de alegria, nostalgia e gratidão por finalmente ver ao vivo um disco que marcou tanto a minha vida.

Saí do show tentando processar tudo o que tinha vivido, mas algumas experiências não precisam ser explicadas em detalhes. Basta sentir e agradecer por ter estado ali. Mandylion fez parte de quem eu era aos 15 anos e agora também faz parte da memória de uma das noites mais emocionantes que já vivi.

Aquela menina que descobriu o disco jamais imaginaria que, tantos anos depois, estaria ali, cantando e quase chorando ao ouvir aquelas músicas ao vivo. E tenho certeza de que ela ficaria feliz em saber que, mesmo depois de tanto tempo, esse amor continua vivo.


Texto: Michelle F. Santana

Fotos: Jaqueline Souza (Headbangers News) 


Realização: Honorsounds 

Press: Hoffman & O'Brian


The Gathering – setlist

Eléanor

Fear the Sea

In Motion #1

On Most Surfaces (Inuït)

Broken Glass

Waking Hour

Probably Built in the Fifties

Liberty Bell

Analog Park

In Motion #2

Leaves

Sand and Mercury

Strange Machines

Bis

Travel

Third Chance

Saturnine

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