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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Bolan: Rebeldia e Raízes (Also In English)

earMusic (Imp.)

Rachel Bolan retorna às raízes em Gargoyle of the Garden State

Por Michelle F. Santana 

Após quatro décadas dedicadas ao rock, Rachel Bolan dispensa apresentações. Como baixista e fundador do Skid Row, ajudou a escrever capítulos importantes do hard rock norte-americano, mas nem todas as suas ideias encontraram espaço dentro da sonoridade da banda. Ao longo dos anos, riffs, melodias e composições foram ficando pelo caminho até encontrarem o momento certo para ganhar vida. Esse momento chega agora com Gargoyle of the Garden State, sua estreia solo.

Livre das amarras naturais de uma banda consolidada, Bolan aproveita o projeto para explorar caminhos próprios e dar vazão a influências que sempre fizeram parte de sua formação musical. Existe algo muito punk nessa proposta: fazer música sem a preocupação de seguir fórmulas, tendências ou expectativas externas. O resultado é um disco que soa espontâneo, autêntico e, acima de tudo, divertido.

O título também revela muito sobre o caráter pessoal do álbum. "Garden State" é o apelido oficial de Nova Jersey, estado onde Bolan nasceu e para o qual decidiu retornar ao lado da esposa após cerca de 25 anos vivendo longe. O disco carrega esse sentimento de reencontro com o lugar de onde veio. Já as gárgulas presentes no título fazem referência a uma antiga fascinação do músico por essas figuras, frequentemente associadas à proteção e ao misticismo. Juntos, esses elementos ajudam a construir um álbum profundamente conectado às origens de Bolan.

Produzido por Nick Raskulinecz em parceria com o próprio Bolan, o trabalho encontra equilíbrio entre o hard rock que marcou sua carreira e uma forte inclinação para o punk rock. Essa combinação aparece durante todo o álbum, adicionando velocidade, atitude e uma energia quase juvenil às canções. É o tipo de disco que não perde tempo com excessos: vai direto ao ponto e mantém o pé no acelerador do início ao fim.

A presença de músicos ligados à trajetória de Bolan reforça ainda mais esse clima de reunião entre amigos. Os companheiros de Skid Row, Dave "Snake" Sabo, Scotti Hill e Rob Hammersmith, aparecem ao longo do álbum, enquanto convidados como Danko Jones, Steve Conte (New York Dolls) e Damon Johnson (Lynyrd Skynyrd) ajudam a ampliar ainda mais a paleta sonora do projeto.

Entre os momentos mais marcantes está "Anything but You", que mostra como Bolan continua sabendo construir refrões memoráveis sem abrir mão do peso. Já "Jet Black Universe" ganha força extra com a participação de Nuno Bettencourt (Extreme), cuja guitarra acrescenta técnica, personalidade e um brilho especial à faixa.

Por outro lado, "Big Stick" representa o lado mais irreverente e agressivo do álbum. Com a participação de Corey Taylor (Slipknot), a música mergulha de cabeça na estética punk, carregada de atitude, sujeira e energia. É uma das faixas que melhor traduzem o espírito livre que move todo o projeto.

A escolha de regravar "Rock and Roll Star", do Oasis, também faz sentido dentro dessa proposta. Em vez de reproduzir fielmente o clássico britânico, Bolan o conduz para seu próprio território, fazendo com que a canção se encaixe naturalmente no contexto do álbum.

Quando "Walk Away" encerra a experiência, fica a sensação de que Gargoyle of the Garden State cumpriu exatamente aquilo que se propôs a fazer. Não há pretensão de reinventar o rock nem de apresentar algo revolucionário. O objetivo aqui é outro: celebrar a liberdade criativa, as amizades construídas ao longo da estrada e a paixão pela música.

Misturando hard rock, punk rock e uma saudável dose de rebeldia, Rachel Bolan entrega um trabalho carregado de personalidade. É um disco feito por alguém que conhece profundamente suas raízes e que, mesmo depois de tantos anos de carreira, ainda demonstra o mesmo entusiasmo de quem começou ontem, bastando ligar os amplificadores e deixar o rock and roll falar por si.


***ENGLISH VERSION***

Rachel Bolan Returns to His Roots on Gargoyle of the Garden State

After four decades devoted to rock music, Rachel Bolan hardly needs an introduction. As the bassist and founding member of Skid Row, he helped write some of the most memorable chapters in American hard rock. Yet not every idea he developed over the years fit within the band's musical identity. Riffs, melodies, and songs were often left waiting for the right moment to come to life. That moment has finally arrived with Gargoyle of the Garden State, his solo debut.

Free from the natural constraints of an established band, Bolan uses this project to explore his own creative path and embrace influences that have always been part of his musical DNA. There's something inherently punk about the entire concept: making music without worrying about formulas, trends, or outside expectations. The result is an album that feels spontaneous, authentic, and, above all, fun.

The album's title also reveals much about its personal nature. "Garden State" is the official nickname of New Jersey, where Bolan was born and where he recently returned with his wife after spending roughly 25 years away. The record carries that sense of reconnecting with the place he calls home. The gargoyles referenced in the title stem from Bolan's longtime fascination with these figures, often associated with protection and mysticism. Together, these elements help shape an album that is deeply connected to his roots.

Produced by Nick Raskulinecz alongside Bolan himself, the album strikes a balance between the hard rock that defined much of his career and a strong punk rock influence. That blend runs throughout the record, injecting the songs with speed, attitude, and a youthful energy. It's the kind of album that wastes no time on unnecessary excess—it gets straight to the point and keeps its foot firmly on the gas from beginning to end.

The presence of musicians closely tied to Bolan's career further reinforces the feeling of a gathering among old friends. Fellow Skid Row members Dave "Snake" Sabo, Scotti Hill, and Rob Hammersmith all make appearances, while guests such as Danko Jones, Steve Conte (New York Dolls), and Damon Johnson (Lynyrd Skynyrd) help broaden the album's sonic palette.

Among the standout moments is "Anything but You," which demonstrates Bolan's continued ability to craft memorable hooks without sacrificing heaviness. "Jet Black Universe" receives an additional boost from the appearance of Nuno Bettencourt (Extreme), whose guitar work adds both technical flair and personality to one of the album's most compelling tracks.

Meanwhile, "Big Stick" showcases the record's most aggressive and irreverent side. Featuring Corey Taylor (Slipknot), the song dives headfirst into punk territory, fueled by attitude, grit, and raw energy. It stands as one of the tracks that best captures the free-spirited nature driving the entire project.

The decision to cover Oasis' "Rock and Roll Star" also fits naturally within the album's overall vision. Rather than simply recreating the British classic, Bolan makes it his own, seamlessly integrating it into the record's musical landscape.

By the time "Walk Away" brings the album to a close, there's a strong sense that Gargoyle of the Garden State accomplishes exactly what it set out to do. It doesn't aim to reinvent rock music or break new ground. Instead, it celebrates creative freedom, friendships forged over decades on the road, and a genuine love for making music.

Blending hard rock, punk rock, and a healthy dose of rebellion, Rachel Bolan delivers an album full of personality. It's the work of an artist who remains deeply connected to his roots and who, after all these years, still approaches music with the enthusiasm of someone just getting started—simply plugging in, turning up the volume, and letting rock and roll speak for itself.

Divulgação 


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Spread Eagle: Rebeldia Em Alto Volume (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)
Por Flavio Borges

Após um longo intervalo entre lançamentos de estúdio, o Spread Eagle retorna com The Brutal Divine, seu quarto álbum e um novo capítulo na trajetória de uma das bandas mais autênticas do hard rock norte-americano. Lançado pela Frontiers Music Srl, o disco canaliza toda a energia acumulada em anos de estrada e a transforma em uma coleção de canções que equilibram peso, melodia e atitude. Com uma abordagem mais sombria e agressiva, sem abandonar suas raízes, a banda entrega um trabalho que reafirma sua relevância no cenário atual e demonstra que ainda há muito combustível em seu tanque criativo.

A abertura com “Flat Earth Vultures” é envolta em uma atmosfera intrigante. A introdução, construída gradualmente por guitarras e vocais carregados de suspense, desemboca em um hard rock cru e vigoroso. O refrão surge de forma direta e eficiente, enquanto a guitarra assume papel central durante toda a execução, alternando momentos de agressividade e melodia. O solo, sustentado por uma base sólida de baixo e bateria, evidencia a qualidade técnica da banda sem comprometer a energia visceral da composição.

Com forte influência punk, “Street Noise” surge como um dos momentos mais diretos do álbum. Rápida, agressiva e desprovida de excessos, a faixa se apoia em uma seção rítmica simples, porém extremamente eficaz. O solo de guitarra acrescenta um toque de hard rock à estrutura essencialmente punk, criando um interessante contraste entre os dois universos.

“Gunflower” amplia essa fusão de estilos ao incorporar elementos mais evidentes do heavy metal. Enquanto os versos são sustentados por riffs robustos e uma abordagem mais metálica, o refrão mergulha de cabeça na urgência e na simplicidade do punk rock. O trabalho de baixo merece destaque especial, conferindo peso e profundidade à composição. Em determinados momentos, os timbres de guitarra evocam claramente a influência do Motörhead, reforçando a identidade híbrida da faixa.

Em “Jail Rat”, o grupo mantém a energia punk, mas investe em uma construção mais elaborada. Pequenos solos surgem ao longo da música, enriquecendo os arranjos sem comprometer a agressividade da proposta. As passagens em que a velocidade diminui aproximam a composição do heavy metal tradicional, enquanto os efeitos aplicados aos vocais de Ray West acrescentam uma camada moderna que contrasta com a crueza normalmente associada ao punk. Mais uma vez, a guitarra se destaca como protagonista absoluta.

A cadenciada “Forbidden Local Honey” oferece uma mudança de dinâmica bem-vinda. Com uma batida quase tribal e uma rica textura de guitarras, a faixa se aproxima mais do hard rock clássico, embora mantenha traços do espírito punk que permeia o álbum. Os backing vocals reforçam o apelo melódico do refrão, enquanto o baixo ganha protagonismo ao conduzir os versos e sustentar o solo com notável competência.

A grande surpresa do disco talvez seja “Pushed To The Limit”. Com forte inspiração no hard rock e no heavy metal dos anos 70, a música remete aos primeiros trabalhos do Judas Priest. Os riffs são diretos e marcantes, a seção rítmica mantém tudo firmemente ancorado, e os vocais exploram melodias que remetem ao estilo clássico de Rob Halford. O solo, mais técnico e veloz, representa um dos pontos altos do álbum.

Quando surge “Ant Farm”, o Spread Eagle quebra completamente as expectativas. A música incorpora timbres contemporâneos, guitarras mais densas e uma produção que dialoga diretamente com o metal alternativo e o grunge dos anos 90. É uma das faixas mais ousadas do trabalho, mostrando que a banda não está interessada apenas em revisitar fórmulas do passado, mas também em expandir seu vocabulário musical.

“Scars In Our Eyes (City Kids)” equilibra tradição e modernidade de forma particularmente eficiente. O baixo aparece em destaque logo na introdução, conduzindo uma composição de andamento moderado e forte apelo melódico. As harmonizações vocais são cuidadosamente trabalhadas e o solo surge no momento exato, acrescentando intensidade sem quebrar a atmosfera construída pela música.

“Inside A Shrunken Head” representa o mergulho definitivo no punk rock. Direta, veloz e sem concessões, a faixa remete ao hardcore nova-iorquino do início dos anos 90. É uma composição construída para o impacto imediato, com poucas mudanças de andamento e foco total na energia bruta. Ainda assim, a presença de um solo bem elaborado impede que a música se torne excessivamente previsível.

Encerrando o álbum, “Makebeliever” funciona como uma síntese perfeita da proposta artística de The Brutal Divine. A música transita naturalmente entre heavy metal, punk rock e hard rock, reunindo em poucos minutos todos os elementos explorados ao longo do disco. O resultado é uma conclusão coerente para um trabalho que faz da mistura de estilos sua principal identidade.

Mais do que um simples retorno, The Brutal Divine apresenta um Spread Eagle revitalizado e disposto a desafiar expectativas. A combinação de hard rock, heavy metal e punk rock não busca agradar a todos os públicos — e talvez seja justamente essa sua maior virtude. Trata-se de um álbum que exige uma audição aberta, disposto a cruzar fronteiras estilísticas sem pedir licença. Em um cenário frequentemente dominado por bandas que reproduzem fórmulas consagradas, o Spread Eagle entrega um trabalho com personalidade, coragem e autenticidade. Nem todas as experiências propostas pelo disco atingem o mesmo nível de excelência, mas sua recusa em seguir caminhos previsíveis torna The Brutal Divine uma audição relevante e, acima de tudo, genuína.


***ENSLIGH VERSION***

After a lengthy gap between studio releases, Spread Eagle returns with The Brutal Divine, its fourth studio album and a new chapter in the career of one of American hard rock’s most authentic bands. Released through Frontiers Music Srl, the record channels years of road-tested energy into a collection of songs that balance heaviness, melody, and attitude. Embracing a darker and more aggressive approach without abandoning its roots, the band delivers a work that reaffirms its relevance in today’s scene and proves there is still plenty of fuel left in its creative tank.

Opening track “Flat Earth Vultures” arrives wrapped in an intriguing atmosphere. Built gradually through suspenseful guitar work and haunting vocal lines, the introduction eventually erupts into a raw and vigorous hard rock assault. The chorus is immediate and effective, while the guitar takes center stage throughout the song, shifting effortlessly between aggression and melody. Supported by a solid bass-and-drums foundation, the solo showcases the band’s technical prowess without sacrificing the visceral energy that drives the composition.

With a strong punk influence, “Street Noise” stands out as one of the album’s most straightforward moments. Fast, aggressive, and stripped of unnecessary embellishments, the track relies on a simple yet highly effective rhythm section. The guitar solo injects a dose of hard rock flair into an otherwise punk-oriented framework, creating an engaging contrast between the two worlds.

“Gunflower” expands this stylistic fusion by incorporating more overt heavy metal elements. While the verses are driven by robust riffs and a distinctly metallic approach, the chorus dives headfirst into the urgency and simplicity of punk rock. The bass performance deserves special recognition, adding both weight and depth to the arrangement. At times, the guitar tones evoke the unmistakable influence of Motörhead, reinforcing the track’s hybrid identity.

On “Jail Rat” the band maintains its punk energy while opting for a more elaborate construction. Short guitar leads appear throughout the song, enriching the arrangements without compromising the raw aggression at its core. Slower passages bring the composition closer to traditional heavy metal territory, while the vocal effects applied to Ray West’s performance add a modern layer that contrasts with the roughness typically associated with punk. Once again, the guitar emerges as the song’s dominant force.

The more measured “Forbidden Local Honey” provides a welcome shift in dynamics. Driven by a nearly tribal beat and rich guitar textures, the track leans more toward classic hard rock while retaining traces of the punk spirit that runs throughout the album. The backing vocals enhance the melodic appeal of the chorus, while the bass takes on a leading role, guiding the verses and underpinning the solo with remarkable confidence.

Perhaps the album’s biggest surprise is “Pushed To The Limit”. Drawing heavily from the hard rock and heavy metal sounds of the 1970s, the song recalls the early work of Judas Priest. The riffs are direct and memorable, the rhythm section keeps everything firmly grounded, and the vocal melodies echo the classic style associated with Rob Halford. The faster, more technical solo ranks among the album’s standout moments.

When “Ant Farm” arrives, Spread Eagle completely shifts expectations. The song embraces contemporary tones, denser guitar textures, and a production style that speaks directly to alternative metal and the grunge movement of the 1990s. It is one of the album’s boldest compositions, demonstrating that the band is not merely interested in revisiting past formulas but also in expanding its musical vocabulary.

“Scars In Our Eyes (City Kids)” balances tradition and modernity with notable effectiveness. The bass takes center stage from the outset, driving a mid-tempo composition rich in melodic appeal. The vocal harmonies are carefully crafted, and the solo arrives at precisely the right moment, adding intensity without disrupting the atmosphere established by the song.

Meanwhile, “Inside A Shrunken Head” represents the album’s most uncompromising dive into punk rock. Fast, direct, and unapologetic, the track evokes the spirit of early-1990s New York hardcore. Built for immediate impact, it features few tempo changes and remains focused on sheer energy. Even so, a well-executed guitar solo prevents the song from becoming overly predictable.

Closing the album, “Makebeliever” serves as a perfect summary of The Brutal Divine’s artistic vision. The song flows naturally between heavy metal, punk rock, and hard rock, bringing together all the elements explored throughout the record. The result is a fitting conclusion to an album whose defining characteristic is its seamless blending of styles.

More than just a comeback, The Brutal Divine presents a revitalized Spread Eagle willing to challenge expectations. Its combination of hard rock, heavy metal, and punk rock is not designed to please everyone—and that may well be its greatest strength. This is an album that demands an open-minded listener, one willing to embrace stylistic boundaries being crossed without hesitation. In a landscape often dominated by bands content to recycle established formulas, Spread Eagle delivers a work of personality, conviction, and authenticity. Not every experiment reaches the same level of success, but the band’s refusal to follow predictable paths makes The Brutal Divine a compelling and, above all, genuine listening experience.

Keith Celentano


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: T.S.O.L. & Adolescents – 29/11/2025 – Cine Joia/SP

T.S.O.L. e Adolescents fazem “noite californiana” com shows explosivos em São Paulo

Evento, que se tornou um show único por conta dos cancelamentos em outras cidades brasileiras, contou com público incansável nos bate cabeças e fileiras de clássicos das bandas estadunidenses

O dia 29 de novembro de 2025 não foi somente memorável para os flamenguistas, que se sagraram tetracampeões da Copa Libertadores da América com uma vitória em cima do Palmeiras. Em São Paulo, no Cine Jóia, localizado no Centro de São Paulo, fãs de Punk Rock presenciaram e fizeram parte, na mesma faixa de horário do jogo e pós-jogo, de uma “noite verdadeiramente californiana” com os shows das pioneiras bandas T.S.O.L. e Adolescents, no que se tornou um show único das bandas nesta passagem em solo brasileiro, contando também com a abertura dos brasileiros do Treva.

O evento, promovido pela New Direction Productions (NDP), ocorreu justamente no ano em que os álbuns de estreia das duas bandas, “Adolescents” e “Dance With Me”, lançados em 1981, completam 44 anos. E todo esse tempo de carreira foi amplamente celebrado com setlists de mais de 20 faixas, com boa parte delas focando nos álbuns de estreia e, ainda assim, sem deixar de passar por clássicos e outras músicas importantes de todas as fases e décadas das bandas.

O Cine Joia teve casa cheia a partir do segundo show e o público tornou o local um pedacinho da Califórnia por algumas horas. Se no show do T.S.O.L. os ânimos já foram altos na pista, com moshes, pogo e bate cabeças intensos, a situação se tornou ainda mais caótica (positivamente, claro) no show do Adolescents, com as mesmas características ampliadas e com o incremento de stage dives com participação feminina e até mesmo de um garoto que se tornou destaque tanto pelos pulos seguidos e seguros, quanto a de sua presença no degrau mais baixo do palco do meio para o fim do show, observando e sendo notado pelos membros da banda, no que pareceu uma verdadeira introdução ao Punk Rock

O clima amplamente animado foi suficiente para fazer com que Jack Grisham, vocalista do T.S.O.L., e Tony Reflex, do Adolescents, expressassem sua impressão positiva com o público através dos gestos no palco, parados ou não, e pela faceta impressionada do início ao fim, encarando o mar de fãs em um Cine Joia lotado

Confira mais detalhes dos shows abaixo:


Treva

A banda paulistana Treva teve a responsabilidade de abrir o evento, que começou às 18h45 com as entradas de Felipe Ribeiro (guitarra e vocal), Gian Coppola (bateria), Felipe Skid (guitarra) e Eduardo Moratori (baixo). Eles iniciaram o show em meio a uma introdução, com punhos para o alto e os instrumentistas de frente de costas para o público, virando rapidamente para a galera na primeira faixa.

Havia quantidade pequena de fãs no Cine Joia, que chegavam aos poucos ou chegaram mais cedo para ver tudo, o que não foi empecilho para que, nas sete faixas tocadas, os membros do Treva entregassem tudo de si em uma sonoridade e repertório que incrementaram elementos do Rock, do Punk Rock e do Blues Rock.

A banda trouxe músicas como “Novo Amanhã”, “Meu Sofrer”, “O Passado que Se Tem” e “Onde Morre o Sol”, em performances enérgicas ao longo do show. Um dos grandes destaques ocorreu já na reta final, com “Renasce em Dor”, com boa cadência e letra pautada em superação, além de uma pausa no meio da faixa para que levantassem os punhos para o alto por segundos. 

Junto a isso, discursos de grande impacto vieram em doses, com destaque para as falas de Felipe antes da última música, indicando que “Onde o Treva estiver, sempre haverá um acolhimento para todos”, agradecendo os funcionários e produtores do local e evento e terminando com uma reflexão positiva e motivacional em contexto político-social: “(...) As coisas mudam. As coisas mudaram pra pior em 2013, pioraram muito em 2018 e começaram a melhorar a partir de 2022 (...)”. 

Por um todo, o Treva fez uma abertura impactante, que agradou os que vieram mais cedo e que bota a banda com um grande potencial para a cena nacional dos próximos anos.

T.S.O.L.

O tempo entre a preparação do palco e teste dos instrumentos do T.S.O.L. e o início de seu show foi o suficiente para que o Cine Joia ficasse muito bem ocupado por fãs, principalmente próximos ao palco. Foi o suficiente para criar, de uma vez, o clima californiano de um sábado à noite.

A situação ficou mais evidente com a subida dos membros da banda de Long Beach, Califórnia, cinco minutos mais cedo que o previsto. Mike Roche (baixo), Ron Emory (guitarra, vocal) e Antonio Val Hernandez (bateria) entraram primeiro, muito ovacionados. Porém, nada como na subida do icônico Jack Grisham (vocal) que, de smoking e calça social, desde o primeiro passo já no palco, se mostrou imponente com seu olhar fixo ao público e, principalmente, pelo caminhar de um lado para o outro na área central, à espera de soltar as mensagens mais diretas e poderosas das letras da banda.

“Sounds of Laughter” foi a primeira música das 21 selecionadas para aquela noite - sete delas, incluindo esta, sendo do clássico álbum de estreia “Dance With Me” (1981) -. Foi um aquecimento perfeito para a banda e para o público, que logo acendeu a chama do bate cabeça com uma roda ainda tímida, mas que cresceria (e muito) ao longo da noite.

A progressão dos ânimos veio com músicas como as bem cadenciadas “Give Me More”, do álbum “The Trigger Complex” (2017) e, sem pausas, “Terrible People”, do álbum “Disappear” (2001). O microfone de Jack Grisham chegou a falhar mais a partir da segunda faixa citada, porém foi rapidamente substituído por um roadie ainda no meio da faixa, o que alegrou ainda mais os fãs presentes.

Público e banda intensificaram as energias com o primeiro clássico do EP “T.S.O.L” (1981), a rápida e potente “Superficial Love”, que fez a parte frontal da pista “explodir” com um mosh mais intenso, em meio a uma letra altamente irônica e com críticas ao militarismo e às altas cúpulas militares dos EUA e seus privilégios. O clima ficou um pouco mais calmo com o Punk Rock mais leve de “Satellites”, que incluiu um bom solo de guitarra de Ron Emory.

O descanso rítmico foi necessário, uma vez que a chegada de “In My Head” e seu Hardcore Punk potente intensificaram a roda principal com direito a circle pit seguido de bate cabeça e um refrão amplamente cantado. “I’m Tired” veio com Ron Emory cantando trechos alternados com Jack, o que melhorou a dinâmica no palco e preparou o retorno de um público animado para “Love Story”, com uma linha forte de baixo, letra direta e poderosa e até mesmo outro pequeno solo de guitarra acompanhados do coro do público.

“Die For Me” deu sequência à onda de clássicos do T.S.O.L., desta vez encabeçada totalmente por Ron, que toca guitarra e canta enquanto Jack dá uma pausa no canto do palco, observando banda e público de forma altamente positiva. O guitarrista também cantou “80 Times” e inflamou a roda punk da frente da pista, que cresceu com a entrada de mais fãs a todo momento. O resultado foi a conversão completa do Cine Joia para uma casa de shows californiana, com direito a aclamações da galera ao final da faixa.

O auge total do show veio quando Jack Grisham voltou ao posto de vocalista, com os movimentos de um lado para outro, acompanhado das palhetadas iniciais de Mike Roche para “World War III”, que inflamaram ainda mais os adeptos ao bate cabeça do local e gerando um clima absurdo para a noite. A situação se manteve com “Abolish Government / Silent Majority”, medley que tanto fez Grisham cantar com mais intensidade, quanto fez o público cantar, a plenos pulmões, os versos imperativos da faixa.

“Property Is Theft” e “The Triangle” foram tocadas e mantiveram o poderio do Punk Rock do T.S.O.L. e deram mais destaque para as linhas de baixo de Mike, que também brilhou no início da poderosa “Fuck You Tough Guy”, a ponto de ser alvo dos pedidos de agradecimento e aplausos poderosos por parte do frontman da banda, amplamente respondidos pelo público. Ainda houve tempo para o show retomar com “Wash Away”.

Outro grande ponto do show veio na clássica “Dance With Me”, música que praticamente marcou a adesão do pogo na roda de bate cabeça, quando a faixa caiu para um ritmo um pouco mais lento. Tudo isso em meio a uma letra amplamente melancólica.

“Low Low Low”, apesar de ser uma faixa do recente álbum “A-Side Grafitti” (2024), foi bem recebida e cantada pelo público, dentro do ritmo e sonoridade mais “alegres”. Em seguida, veio “I Wanted to See You”, com acordes lentos, porém impactantes.

Jack Grisham fez questão de discursar e agradecer pelos 36 anos de banda e pelo acompanhamento dos fãs nessa caminhada. Um setlist foi entregue para um fã da frente antes de o clima, por uma última vez no show do T.S.O.L., elevar ao máximo com a chegada de “Code Blue”, com mosh poderoso, stage dives pela primeira vez na noite e coros dos que não estavam na parte caótica da pista. “Red Shadows” encerrou a noite, consolidando um clima alegre e poderoso que ainda teria uma continuidade mais absurda, mas que deu ao T.S.O.L. a garantia de que o público brasileiro ama a banda e valoriza o pioneirismo deles na cena californiana.

Adolescents

Um ponto interessante da pausa antes do show final da noite foi o “esvaziamento repentino” da pista, com grande parte das pessoas ou indo aos banheiros, ou para os bares do local. Isso deixou a parte baixa fácil para chegar mais próximo do palco. A situação durou alguns minutos e, aos poucos, o ambiente voltou a ficar cheio, assim como o restante da pista do Cine Joia. 

Certo foi que o tempo de descanso foi suficiente para um “caos organizado” ainda maior para encerrar o evento. E esse clima começou logo às 20h59, com o fim da playlist que foi reproduzida e a subida dos integrantes do Adolescents.

Mike Cambra (bateria), Brad Logan (baixo), Ian Taylor (guitarra rítmica), Dan Root (guitarra principal) e o lendário Tony Reflex (vocal) subiram pontualmente ao palco. E ficou a curiosidade: assim como Jack Grisham, Tony estava bem diferente do que anos atrás - no caso dele, muito magro -. Mas a aparência virou um detalhe ínfimo a partir do momento em que o show começou e ele, junto à banda, soltou 23 faixas poderosas - com direito a um medley 2 em 1 - para inflamar o público.

E assim como o T.S.O.L., os membros do Adolescents trouxeram muitas faixas do álbum de estreia que, no caso da banda de Fullerton, Califórnia, é o autointitulado de 1981. E “L.A. Girl” foi a grande abertura que, logo de cara, inflamou completamente a parte frontal da pista com um mosh imediato e até mesmo os primeiros stage dives na parte baixa do palco.

A impressão positiva de Tony Reflex veio na frase gritada ao final da primeira faixa: “São Paulo, What The F*ck???”. O público retribuiu a reação positiva com mais energia a partir de faixas como “Monolith at the Mountlake Terrace”, do álbum “La Vendetta…” (2014), e “Escape From Planet Fuck”, do disco “Manifest Density” (2016), que intensificaram ainda mais a roda e a expandiu da esquerda para a direita, na visão do público, na parte frontal.

O Medley “Who Is Who / Self Destruct” tornou o ambiente ainda mais caótico no Cine Joia, dobrando a quantidade de stage dives que levaram pessoas do palco até o fundo da pista, em certos momentos. A situação seguiu em “Brats in Battalions”, outro clássico da banda do segundo álbum, de mesmo nome, de 1987.

“Forever Summer” e “5150 or Fight” trouxeram um pouco do Hardcore Punk da banda com sonoridade moderna e rápida. Tudo o que o público ama para bater cabeça intensamente. Houve, ainda, uma volta ao repertório dos anos 2000 com “Lockdown America”.

O retorno do setlist aos clássicos veio com “Word Attack”, mantendo o clima intenso e agradável para os fãs presentes mesmo em uma velocidade maior no ritmo da faixa. Já em “Lockdown America”, até mesmo fãs mulheres arriscaram stage dives que, vendo do elevado da pista, foram totalmente respeitosos por parte de quem ajudou, tornando a situação ainda mais universal no show.

“Rip It Up” provou que a galera estava incansável na noite, assim como a banda, que seguia enérgica. No caso desta faixa, o baixista Brad Logan se destacou tanto pelo ritmo alto e potente de suas notas, quanto pela finalização por meio de tapas nas cordas. Em seguida, veio mais um clássico do primeiro álbum, “Things Start Moving”, que teve um começo escalado e que foi fator proveitoso para que a roda se abrisse e, quando a faixa chegasse ao ponto instrumental completo, todos pulassem como um verdadeiro tsunami de pessoas, convertendo a energia em outro mosh imparável na parte frontal da pista.

Mas apesar de todos os momentos caóticos citados, talvez nada tenha sido melhor do que na poderosa, aclamada e amplamente cantada “Amoeba”. Desde as primeiras notas, a pista do Cine Joia se tornou ainda mais um pandemônio com a expansão de seu tamanho e, principalmente, a presença de uma criança, que estava na área reservada, no stage dive, sendo carregada por várias vezes de forma respeitosa. Foi o ponto máximo da noite, ainda mais com a garantia de que o responsável (pai ou mãe) estava atento, pois ele rapidamente voltava para o ponto inicial e voltava a pular do palco, contando também com a segurança de quem o carregava. A faixa em si, claro, foi alegria pura e ainda contou com bom solo de guitarra na parte final.

Músicas também clássicas do Adolescents, como “OC Confidential”, “Losing Battle” e “Let It Go”, vieram para manter a energia da banda e do público no alto. Houve, também, a reprodução de “Class War”, cover do D.O.A., com riff poderoso e prova do conhecimento do público ao cantar a faixa. Tony ainda teve um momento para reforçar sua felicidade em se apresentar novamente em São Paulo.

Mais faixas dos anos 80 vieram para descansar um pouco a galera incansável da pista, como “No Way” e “Welcome to Reality”. Na segunda faixa citada, já era possível ver o garoto do stage dive sentado no degrau inferior do palco, quieto e prestando atenção na apresentação da banda, principalmente de Tony Reflex, que volta e meia fez questão de interagir com ele. 

“Just Because” trouxe os ânimos de volta, ainda mais pela dedicatória negativa da faixa, por Tony, para Donald Trump, o chamando de “Puto” em Espanhol - o álbum desta faixa, “Cropduster” (2018), tem muitas faixas e até a capa em críticas ao presidente dos EUA que, após perder o pleito de 2020, voltou a comandar o país a partir de 2024.

“Kids of the Black Hole”, “Cropduster”, “Wrecking Crew” vieram como pavimento para a reta final do show, mas sem deixar que a peteca do ânimo do público caísse, uma vez que a roda se manteve intensa. O gran finale veio com “Do the Eddie”, que virou praticamente um chamado para vários stage dives, incluindo um fã que subiu até o palco e arriscou pular dali (com sucesso). A loucura generalizada fez até mesmo com que alguns fãs tentassem interações e cantassem com Tony. Na parte baixa, o bate cabeça foi intenso pela última vez. Tudo isso com um frontman amplamente impressionado com o poderio brasileiro.

Todos os fãs que presenciaram dois dos panteões do Punk Rock californiano se lembrarão muitas vezes dessa noite. Mas ninguém lembrará mais que o garoto da frente do palco que, além de participar dos stage dives e waves de forma introdutória ao Punk e ao Rock em geral, ainda se lembrará dos presentes que recebeu dos fãs do Adolescents: baquetas, setlist, palheta e aplausos.

A noite memorável muito provavelmente faz com que o público espere por mais uma vinda de T.S.O.L. e Adolescents, juntos ou não, para o Brasil, torcendo para que a noite em questão não tenha sido a última de um deles no nosso país. De todo modo, será memorável para as bandas que, mesmo com os cancelamentos em outras cidades antes da turnê, têm a segurança de que São Paulo é uma cidade perfeita para mais noites californianas como essa.

Texto: Tiago Pereira 

Fotos: Raíssa Correa para o RaroZine 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: NDP Live

Press: Tedesco Comunicação & Mídia


T.S.O.L. – setlist:

Sounds of Laughter

Give Me More

Terrible People

Superficial Love

Satellites

In My Head

I’m Tired

Love Story

Die For Me

80 Times

World War III

Abolish Government / Silent Majority

Property Is Theft

The Triangle

Fuck You Tough Guy

Wash Away

Dance With Me

Low Low Low

I Wanted to See You

Code Blue

Red Shadows


Adolescents – setlist:

L.A. Girl

Monolith at the Mountlake Terrace

Escape From Planet Fuck

Who Is Who / Self Destruct

Brats in Battalions

Forever Summer

Word Attack

Lockdown America

Rip It Up

Things Start Moving

Amoeba

OC Confidential

Losing Battle

Let It Go

Class War (cover de D.O.A.)

No Way

Welcome to Reality

Just Because

Kids of the Black Hole

Cropduster

Wrecking Crew

Do the Eddie

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Entrevista - Jack Grisham (T.S.O.L): Entre Horror, Humor e Humanidade

Kitten Robot

Por Paula Butter

A Road To Metal bateu um papo descontraído com Jack Grisham, grande personalidade do punk rock horror e vocalista do T.S.O.L, e ficamos sabendo um pouco mais deste carismático californiano que inspirou várias bandas da atualidade

A entrevista aconteceu às vésperas do show da banda em São Paulo, no dia 29 de novembro de 2025, juntamente com outra banda épica, o Adolescents. 

Jack Grisham é um músico daqueles do qual você nunca esquece, carismático, sincero e disposto a responder às mais difíceis perguntas, sem perder o bom humor. Começamos com o básico, sobre seu entusiasmo ao voltar para o Brasil e qual sua relação com o público brazuca, e a resposta veio com um sorriso sincero e muitos elogios ao país e especialmente às pessoas. Ele disse que conhece muitos brasileiros que surfam com ele, e são muito bons no esporte e nas conversas, e em suas palavras atrapalhadas “muito intensas” no melhor sentido. Relatou também algumas vindas ao Brasil em grandes eventos e que sempre gostou muito da experiência. 

Com relação aos shows do T.S.O.L. e das outras bandas das quais fez parte, ele disse que as horas mais cansativas são as longas viagens que uma turnê demanda, ainda mais nesta fase da vida, mas que ainda se sente feliz e enérgico em cima do palco. Relatou ainda (com muitas risadas), que recentemente excursionou com alguns músicos alemães e fizeram juntos alguns shows em Berlim, que fica bem longe da Califórnia, e apesar da diferença cultural e linguística, foi muito divertido. 

Figura centrada nas questões sociais e políticas da atualidade, deixou claro que a fase atual do True Sounds Of Liberty está mais madura e focada em agradar aos fãs. Ao falar sobre o novo álbum da banda A-Side Graffiti, ele relata que trata-se de um apanhado de inspirações, como em uma arte feita em grafite, dele e dos integrantes da banda, em suas palavras “Fizemos canções que remetem ao que gostamos, como filmes de horror, histórias engraçadas, homenagens, inclusive tem uma dedicada ao grande Bowie, clássicos de horror, reinvenção de antigos hits, vamos fazer o que temos vontade e é isto, com certeza resultou em um ótimo álbum”. 

Jack também contou um pouco sobre a versão de “Sweet Transvestite”, que gravou com Keith Morris do Circle Jerks. Além disso, também foi produzido um videoclipe com animações para lá de irreverente e um certo humor negro.  A música original fez parte do clássico “The Horror Picture Show” de 1974, e rendeu boas risadas durante sua explicação sobre refazer este clássico, juntamente com o amigo Keith. E pode-se perceber que ele realmente colocou sangue e suor nesta faixa, tanto que a pergunta sobre a releitura de “What a wonderful World” ficou só na pauta. 

Inclusive, a banda pretende executar algumas das novas canções no show de São Paulo, juntamente com os clássicos, é claro. Aproveitando a descontração, arrisquei a pergunta sobre o set list no Brasil e se teríamos a chance de ouvir alguma canção do quarto álbum da banda “Revenge”, que ficou famoso em 1986. Porém, Grisham mostrou-se sincero em dizer que esta época não se encaixa mais na dinâmica atual da banda, falou que não se sentiria confortável em executar as canções deste álbum, mesmo porque na época, a formação da banda era outra, e não tem motivos para reviver este momento passado, e ainda afirmou que o pensamento engloba todos os músicos da banda. Atualmente, a cortesia chama atenção nas pessoas, é muito gratificante entrevistar alguém que consegue falar sobre uma fase pessoal ruim com elegância, este é Jack Grisham. 

A fim de mudar os ares da questão anterior, o assunto foi a cena do punk na Califórnia, tanto décadas atrás, quanto em 2025. Segundo o vocalista, a troca de integrantes entre as bandas é constante, e no final todos acabam se encontrando e sem mágoas, tudo muito natural, surgem projetos aqui e ali, participações em shows e tudo certo, como se fosse uma grande família. Nesta parte da entrevista, surgem nomes como Bad Religion, dentre outros gigantes do punk californiano. 

Enfim, a grande pergunta: “O Punk ainda tem alguma relevância social atualmente? Para você, o que é ser Punk em 2025?”. A questão o pegou em cheio, mas após uma pequena pausa, Grisham começou a falar no sentido mais humano da palavra. Ele disse que apesar de estarmos em uma época “politicamente correta”, o preconceito ainda existe, algumas vertentes do punk não aceitam mudanças de estilos, roupas ou modo de vida, são muito radicais, enquanto que a maioria continua achando que o punk é somente contracultura, e não se encaixa nas lutas sociais da atualidade, outros pensam ser somente uma “modinha” que insiste em continuar entre nós. Em vez de preconizar a união, o movimento acaba incentivando a desunião entre os fãs do estilo. E segundo, Jack, isto não pode acontecer, os fãs de punk precisam se unir, e também aprender gentilezas, dizer “Bom Dia” ou “Olá” para o vizinho, o colega ao lado no show de sua banda favorita, enfim, não julgar, mas sim acolher. E independente do estilo de música, a união contra as desigualdades é mais importante do que a roupa ou o som que o outro ouve. Então, para resumir, o punk atual precisa de gentileza, de informação, de acolhimento e principalmente de união.

Bom, recado dado, vamos para o final, carreira e planos futuros. Jack falou com orgulho que não possui redes sociais em seu nome pessoal, pois acredita que as pessoas conseguem fazer amizades pessoalmente e não só através das telas. Contou o dia em que conheceu um “cara que usava sapatos sem meias” e disse: “No começo achei estranho, mas no final das contas, acabamos nos encontrando eventualmente e viramos colegas. E sabe de uma coisa? Eu também passei a não usar meias (risadas) e me sinto ótimo com isto”. 

Grisham, que também é escritor e já concorreu ao cargo de governador da Califórnia, falou que no momento está escrevendo outro livro. Segundo ele, estar sempre trabalhando em algo é muito importante para se manter ativo, independente do que for, mas no momento seu foco são os shows deste ano e seu futuro livro.

E o mais importante, o recado final do músico foi: “Continuar fazendo o que gosta, independente do que seja e sempre tentar ser uma pessoa melhor e mais gentil, sem comprometer sua identidade, isto é ser punk”.

A banda T.S.O.L. vai se apresentar em São Paulo, juntamente com o Adolescents, no dia 29 de novembro, no Cine Joia. 

Os ingressos estão disponíveis através do site da Fastix: https://fastix.com.br/events/adolescents-eua-t-s-o-l-eua-em-sao-paulo

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Cobertura de Show: Billy Idol – 08/11/2025 – Vibra/SP

O show de Billy Idol em São Paulo marcou o retorno do icônico roqueiro britânico ao Brasil, em uma apresentação realizada no Vibra São Paulo, que reuniu um bom público ansioso por reviver os anos 1980. A noite começou com a energia do cantor brasileiro Supla, também conhecido como Papito, que abriu o evento com seu rock direto influenciado pelo punk. 

Acompanhado de sua banda, nomeada “Punks de Boutique”, aqueceu o público com os hits “Green Hair” e “O Charada Brasileiro”, além dos clássicos de sua ex-banda Tokio, como “Humanos” e “Garota de Berlim”. É inegável a influência de Billy Idol na estética de Supla; o próprio reconhece isso e afirma também incorporar elementos de David Bowie em seu visual.  

Para quem acredita que Supla é apenas um personagem, seu show surpreende: ele entrega energia e músicas consistentes, capazes de prender a atenção dos presentes e oferecer um entretenimento sólido, sem desviar o foco da atração principal.

O início do show de Billy Idol foi marcado por uma entrada energética com “Still Dancing”, que mostrou o astro de 68 anos em plena forma, transitando pelo palco e interagindo com os fãs. Em seguida, o clássico “Cradle of Love” pareceu animar um público ainda morno. 

Antes de “Flesh for Fantasy”, o cantor fez sua primeira interação da noite, elogiando a performance de Supla. A faixa “77”, composta em parceria com Avril Lavigne, ganhou uma versão eletrizante. No entanto, foi com “Eyes Without a Face” que Idol realmente conquistou o público, gerando um dos momentos mais emocionantes da noite no Vibra São Paulo. 

Tudo isso foi acompanhado por uma excelente banda formada por Steve Stevens (guitarra), Billy Morrison (guitarra), Stephen McGrath (baixo), Erik Eldenius (bateria), Paul Trudeau (teclado) e pelas backing vocals Kitten Kuroi e Jess Kav, que demonstraram versatilidade ao transitar entre o punk rock e baladas melódicas.

Como todo bom show de rock, não poderia faltar um solo de guitarra, e Steve Stevens cumpriu esse papel com maestria. Iniciando de forma acústica, exibiu técnica e sensibilidade, encantando a plateia. 

Em seguida, apresentou um medley impressionante com trechos de “Over the Hills and Far Away” e “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin, finalizando com “Eruption”, do Van Halen. A performance foi espetacular e rendeu fortes aplausos do público paulistano.

Um dos pontos altos da noite foi a variedade do setlist, que incluiu covers interessantes como “Mony Mony”, de Tommy James & the Shondells, e “Love Don’t Live Here Anymore”, de Rose Royce, ambos interpretados com o carisma característico de Idol. Canções como “Too Much Fun” e a estreia ao vivo de “Gimme the Weight” também ganharam destaque. 

Billy comentou que decidiu incluir a faixa porque recebeu inúmeros pedidos dos fãs brasileiros nas redes sociais, o que foi recebido com bastante entusiasmo. O show manteve a pegada com “Ready Steady Go”, de seu período no Generation X, e com a fusão de “Blue Highway” e “Top Gun Anthem”, que trouxe um tom épico e nostálgico, especialmente para quem viveu os anos 1980.

A reação do público foi mais calorosa nos clássicos que definem a carreira de Billy Idol. Enquanto faixas menos conhecidas mantiveram parte da plateia mais contida, hits como “Rebel Yell” levantaram o público. Antes de iniciar a música, Idol mencionou Keith Richards e Mick Jagger, contando que estava em uma festa com ambos quando Jagger gritou “Rebel Yell”, inspirando o título da canção. 

Nesse momento, o Vibra São Paulo literalmente vibrou, com fãs cantando e dançando como se estivessem de volta aos anos 1980. Esse contraste evidenciou como o setlist equilibrava novidades e nostalgia, sendo nos momentos mais familiares que o público realmente se soltava.

Billy Idol escolheu um repertório que misturou energia punk, baladas e momentos instrumentais impressionantes. Apesar de o público ter começado um pouco frio, Billy conseguiu ganhar o público, impulsionado pelos hits atemporais e por sua conexão genuína com os fãs brasileiros. Foi uma experiência marcante para os amantes do rock, que deixou saudades e alimentou a esperança de novas visitas do astro ao país.


Texto: Marcelo Gomes 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Move Concerts 

Press: Midiorama


Billy Idol – setlist:

Still Dancing

Cradle of Love

Flesh for Fantasy

77

Eyes Without a Face

Steve Stevens Guitar Solo / Over the Hills and Far Away / Stairway to Heaven / Eruption

Mony Mony 

Love Don't Live Here Anymore 

Too Much Fun

Gimme the Weight 

Ready Steady Go 

Blue Highway / Top Gun Anthem

Rebel Yell

Bis

Dancing With Myself 

Hot in the City

People I Love

White Wedding

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Cobertura de Show: Michale Graves – 31/10/2025 – Basement/CWB

Michale Graves em noite de Halloween!

Nesta sexta-feira, dia 31 de Outubro, noite de Halloween, Curitiba recebeu Michale Graves, lendário ex-vocalista do Misfits. O show faz parte da turnê “Something Wicked Tour 2025”, e chegou ao Brasil pela Caveira Velha Produções.

A expectativa para este show era grande, a notícia do “Sold Out” alguns dias antes do evento, aumentaram a curiosidade. Afinal, o local é um pouco mais intimista, sem espaço para área de pit, ou seguranças, deixando público e artista cara a cara. A noite prometia ser longa, afinal era esperado a execução na íntegra de “American Psycho” e "Famous Monsters”, clássicos álbuns do Misfits, da década de 90.

Ao chegar ao local, por volta das 19:50, que convém dizer, tem como referência o Cemitério Municipal da cidade. Coincidência? Para os mais empolgados, é apenas questão de localização mesmo, por tratar-se do Centro Histórico, reduto underground de bares e casas de show de pequeno porte. 

O evento não contou com banda de abertura, e seu início estava marcado para às 20:30. Por volta das 20 horas o interior do Basement já estava cheio, e ainda iria aumentar, visto que muitos estavam na área descoberta da casa, pois o calor estava complicado de aguentar. Ali já era visto que realmente haveria a lotação máxima esperada. 

Após um pequeno atraso, sobe ao palco o carismático Michale Graves e banda. A presença de palco do vocalista é impressionante, ocupa muito bem o espaço total do espaço. Inclusive ao verificar a quantidade de pessoas e o calor no local, fez questão de avisar para todos se respeitarem, e que, caso precisassem de ajuda era só pedir. 

Também solicitou à casa, para verificar se o público da frente precisava de água durante todo o show. Enfim, precauções importantes para a situação, e vindas da própria atração principal torna mais fácil o entendimento de alguns fãs mais rebeldes. Mas afinal, o que seria de um show de punk horror sem a rebeldia? 

Logo no início, já haviam todas punk e fãs sendo carregados até palco, para pularem novamente na sequência, Uma animação nunca vista no local. Inclusive o próprio Michael comentou que o público superou suas expectativas na empolgação. O calor humano era tanto que a maquiagem do vocalista quase derreteu por inteira, e também o fez abrir mão de seu famoso chapéu.

A apresentação inteira estava cheia de euforia, que se intensificava cada vez mais, só respirando entre as músicas, uma conversa ou outra com a platéia e uma sessão de autógrafos improvisada. A clássica “Dig up Her Bones” logo nos primeiros minutos foi fora de série, e na sequência somente loucura entre o público, tudo voava, cerveja, bonés e até os próprios fãs. 

O frenesi não tinha fim, “Punk Rock Is Dead”, todos cantando a plenos pulmões a maravilhosa “Scream!”, uma pausa para o romantismo com “Saturday Night”. E quando todos achavam que não podia melhorar, quase fechando a noite, os acordes de “War Pigs” surgiram para animação dos presentes. 

Por fim, pode-se dizer que foi uma noite insana na capital paranaense, com público fiel, enérgico, mas respeitoso. Michale Graves surpreendeu pela simpatia e carinho com os fãs, mas com muito profissionalismo. Merecendo assim, um lugar dentre os shows mais excepcionais do ano em Curitiba.


Texto: Paula Butter 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda  





Michale Graves – setlist:

Abominable Dr. Phibes

American Psycho

Speak of the Devil

Walk Among Us

From Hell They Came

Dig Up Her Bones

Last Caress

Lost in Space

Shining

Crimson Ghost

Dust to Dust

Punk Rock Is Dead

Where Eagles Dare

Forbidden Zone

Scream!

Saturday Night

Descending Angel

Hunting Humans

Resurrection

Pumpkin Head

Skulls

Fiend Club

When We Were Angels

Don't Open 'Til Doomsday

Bis 

Halloween

Hybrid Moments

Helena

War Pigs (Black Sabbath cover)

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Cobertura de Show: Cro-Mags – 08/10/2025 – Burning House/SP

Cro-Mags incendeia o Burning House e transforma São Paulo em templo do hardcore

Na quarta-feira, 8 de outubro de 2025, o Burning House em São Paulo se tornou o epicentro do hardcore mundial. A lendária banda Cro-Mags subiu ao palco em uma apresentação histórica, crua, intensa e absolutamente arrebatadora, daquelas que fazem o público sair com a garganta rouca, o corpo suado e a alma em chamas.

A noite começou em alto nível com a apresentação de Paura, banda veterana que há anos carrega a bandeira do hardcore nacional com autenticidade e peso. O set foi uma explosão de energia e abriu as rodas de mosh logo nos primeiros acordes, aquecendo a plateia para o que viria a seguir.

*Raíssa Corrêa (Raro Zine)

Entre os fãs, a presença ilustre de Supla adicionou ainda mais brilho ao evento, quando subiu ao palco para apresentar o Cro-Mags. Seu carisma e atitude elevaram a expectativa para o que estava por vir, unindo gerações em um mesmo frenesi sonoro.

Monise Bianchi

Liderados pelo icônico Harley Flanagan nos vocais, os nova-iorquinos incendiaram o Burning House com um setlist que revisitou décadas de clássicos, incluindo “We Gotta Know”, “Show You No Mercy”, “Apocalypse Now”, “No One’s Victim”, “Hard Times”, “My Life”, “World Peace”, “Days of Confusion” e “These Streets”, entre outros. Cada música era recebida como um hino, com coros poderosos e mosh pits incansáveis.

Monise Bianchi

O clima dentro da casa era quase físico, calor humano e energia concentrada transformaram o espaço em um forno pulsante. Enquanto lá fora a quarta-feira gélida de São Paulo lembrava que o mundo seguia em seu ritmo frio e urbano, dentro do Burning House, riffs e vocais criaram uma sensação térmica de 45 graus, suor, adrenalina e emoção em estado bruto, como se cada acorde fosse capaz de derreter o concreto da cidade.

Monise Bianchi

A performance foi impecável, riffs cortantes como navalhas, bateria esmagadora e o vocal rasgado de Flanagan guiando a multidão como um maestro de caos controlado. Os fãs, imersos nesse ritual sonoro, colidiram nos mosh pits, gritaram e cantaram cada verso, formando uma comunhão que transcendeu o simples formato de show.

Monise Bianchi

No fim, restaram gargantas roucas, corpos exaustos e corações em chamas, mas também a certeza de terem testemunhado algo maior do que música, uma experiência quase mística, intensa e inesquecível, onde o hardcore mostrou toda sua força, energia e relevância, décadas após ter surgido.

Monise Bianchi

Com casa lotada e uma atmosfera incandescente, a apresentação reafirmou por que o Cro-Mags segue sendo um nome sagrado no hardcore mundial.

Monise Bianchi

Texto e Fotos: Monise Bianchi (*exceto onde indicado)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Xaninho Discos / Caveira Velha Produção / Solid Music Entertainment 

Press: Tedesco Comunicação & Mídia


Cro-Mags – setlist:

We Gotta Know

My Life

Crush the Demoniac

Malfunction

Show You No Mercy

World Peace

Hard Times

The Only One

Down but Not Out

Apocalypse Now

Then and Now

These Streets

No One's Victim