FM faz apresentação impecável e cativante em São Paulo, na celebração de 40 anos de “Indiscreet"
Há bandas que chegam a 40 anos ou mais de existência, com ou sem pausas, com um vigor ou qualidade sonora tão bons quanto nos primórdios. O FM, grupo londrino de Hard Rock com grande relevância na cena AOR (Adult-Oriented Rock, ou Álbum orientado a adultos), mostrou que, no caso deles, isso é aplicável, ainda mais em um contexto de especial como o do último dia 05 de março, na Burning House, Zona Oeste de São Paulo, onde o quinteto fez um show da turnê de celebração de 40 anos do álbum de estreia, “Indiscreet”. O evento foi organizado pela própria casa de shows.
Esta foi a segunda passagem da banda em solo brasileiro e somente na capital paulista, sendo a primeira em 2024, na turnê de 40 anos da fundação do grupo. A apresentação não contou com aberturas e gerou uma boa lotação no local em uma plena quinta-feira. Os presentes, além de ouvirem “Indiscreet” em uma ordem diferente da versão de estúdio, ainda presenciou uma sequência com clássicos do segundo álbum do FM, “Tough It Out” (1989), e mais três de outros álbuns da banda.
Tanto os fãs quanto a banda tiveram momentos animados e total dedicação às interações propostas pelo frontman Steve Overland, batendo palmas, criando corais líricos e aclamando cada solo instrumental, linha de destaque, introdução marcante ou nota vocal executada no show. Você confere mais detalhes a seguir.
Celebrando os 40 anos de “Indiscreet”
Ter chegado perto do início do show me ajudou a ter a percepção da lotação do local, que foi praticamente total salvo alguns espaços de circulação. Para os fãs da banda e/ou do Hard Rock, não importava que era uma quinta-feira à noite, pois era uma noite de celebração.
O show, que não contou com aberturas, começou de fato às 21h32, em meio ao que parecia a introdução da Fox Films e somente a entrada de Pete Jupp (bateria). Subiram ao palco, logo depois, os demais membros de instrumentos, em semblante alegre até mesmo antes da escadaria, enquanto a segunda introdução, a música da Pantera Cor-de-rosa, tocava: Jem Davis (teclados e sintetizadores), Merv Goldsworthy (baixo e backing vocal) e Jim Kirkpatrick (guitarra).
O quarteto no palco iniciou os primeiros acordes de “Digging Up the Dirt" e, na sequência, Steve Overland (vocal e guitarra rítmica) fez sua entrada para fechar a formação e iniciar de vez a apresentação. A faixa em questão, que faz parte do disco "Heroes and Villains”(2015), mostrou que, apesar de a noite ser uma celebração para o álbum “Indiscreet", não haveria prioridade inicial ou a obediência com a sequência original do disco de 1986. E isso ficou evidente ao longo do show, apesar de não ser algo que incomodou aos que presenciaram o show na Burning House.
A faixa de abertura do setlist, que teve 19 faixas no total (a maior parte do álbum de estreia), foi um aquecimento para uma banda animada durante e depois da música, com a saudação animada encabeçada por Overland; e para um público que demonstrou euforia desde o começo. E essa sensação e a expressão de alegria cresceram ainda mais quando "That Girl”, faixa que abre o primeiro disco de estúdio do FM, foi tocada. A boa execução do quinteto levou a pulos de parte da galera e, de forma quase unânime e uníssona, aos cantos nos refrões da faixa.
“Other Side of Midnight” e ˜Love Lies Dying” vieram na sequência, fechando as três primeiras faixas do álbum na ordem ao contar com a segunda do setlist. Duas músicas que remetem bem ao estilo sonoro que definiu parte distinta das bandas de Hard Rock dos anos 80, com um pézinho no Pop, solos repletos de Feeling (e que ótimas execuções da parte de Jim Kimpatrick), bons trechos de teclado e bons refrões, A combinação foi perfeita para manter o misto nostálgico e agradável do público presente.
A viagem por “Indiscreet” seguiu, porém pulando uma faixa da ordem do álbum - que veio a ser tocada depois -. Assim, “American Girls” retomou a um Hard Rock clássico e bem orientado ao chamado AOR, ao mesmo tempo que a faixa lembrou algo parecido com “Jump", do Van Halen. Mas nada de achar isso ruim, e sim acreditar em uma inspiração excelente, ainda mais com o ânimo evidente de Jem Davis nos teclados.
"Frozen Heart", oitava faixa do debut do FM e sexta do setlist em São Paulo, surgiu como uma balada triste. Foi amplamente comemorada e cantada pelos fãs presentes ao longo da música, além de contar com uma boa leva de solos de Jim e, ao final, um falsete de Steve Overland que levou o público aos gritos e aplausos. Já "Hot Wired” veio como uma faixa mais Pop Rock, porém sem tirar a base Hard do álbum e com um demonstrativo claro de sinergia entre os integrantes somada com as interações entre eles e com a plateia.
Steve Overland, em mais um discurso, reforçou a importância e a comemoração em cima de “Indiscreet”, elogiando a fanbase como um todo: “O álbum faz 40 anos e nós os amamos há 40 anos também", declarou o frontman do FM.
O show seguiu com mais uma dobradinha do debut sem a ordem da tracklist original: “Face to Face” e “I Belong to the Night” foram amplamente comemoradas e cantadas, reforçando os patamares de clássicos que têm junto a outras faixas do disco. A primeira citada teve o par de solos de Jim e Overland como destaque, enquanto a segunda trouxe o ápice das interações desse show, quando o vocalista do FM pediu para que o público cantasse trechos da faixa e alguns momentos de refrão. A resposta do público levou Steve a falar “Fantastic” por várias vezes, assim como ele também foi aclamado com os falsetes impressionantes no final da música, muito próximos do que executava há 40 anos.
O fim da passagem por “Indiscreet” se deu com mais duas músicas. “Heart of the Matter”, que fecha o álbum na versão de estúdio, teve seus trejeitos de anos 80 a partir dos teclados, o ritmo embasado em características Hard Rock e Pop e um refrão que repete o nome da faixa, algo que o público também fez durante a música. Já “Dangerous”, que fechou este "quase primeiro ato” do show, foi parcialmente prejudicada por uma interferência no som que prejudicou o vocal e, por um trecho, as guitarras, deixando o solo da faixa mais baixo. Nada que fosse problema para uma rápida correção e uma boa finalização de um álbum que marcou e tanto, logo no começo, a carreira do FM.
Do primeiro para o segundo álbum (e outros sucessos)
A considerada segunda parte do show trouxe, em boa parte, faixas do segundo LP do FM, "Though It Out", lançado em outubro de 1989, além de uma faixa representante para os discos ˜Aphrodisiac” (1992), “Atomic Generation” (2018) e "Synchronized” (2020).
E esse bloco começou justamente com a mais nova das faixas, que leva o nome do álbum de 2020. O ritmo, muito bem cadenciado pelos pedais de Pete Jupp, logo foi incrementado pelas linhas e movimentações animadas de Jim e sua guitarra e de um baixo ainda mais potente da parte de Merv, respondidos com as palmas ritmadas da plateia já na reta final da faixa.
Já "Let Love Be the Leader” foi amplamente aclamada a partir das primeiras notas dos teclados de Jem, que anunciaram um Hard+Pop clássico e empolgante para um público que acompanhou fortemente o vocal de Steve Overland do início ao fim, principalmente os coros em “uoooo”. Steve, inclusive, mesmo em um tom um pouco diferente da versão de estúdio, mandou muito bem na execução vocal da música em questão.
Já “Someday (You'll Come Running)”, outro clássico do FM, teve coro do público ainda maior ao longo da faixa. “Does It Feel Like Love” veio praticamente na sequência, contando com uma ótima linha de baixo geral e um trecho de destaque para Merv, além de outro falsete absurdo de Steve Overland para fechar a faixa.
O solinho inicial de Overland e Kirkpatrick deu o início épico para a aclamada "Bad Luck", que não deixou de ser cantada pelos fãs presentes, algo que se manteve muito bem executado na pista para a faixa seguinte, “Tough It Out”, iniciada sob ritmo dos teclados e sintetizadores e cuja sonoridade geral veio logo após o primeiro “ooouoooo” tanto de Overland, quanto da galera da pista. Talvez tenha sido o momento de melhor exploração dos tons variados de voz do frontman do FM, que junto ao restante da banda, finalizou a faixa de forma épica antes da pequena pausa.
Passados alguns minutos e os coros clássicos de “olê, olê” que são comuns na maioria dos shows em São Paulo, os membros do FM voltaram para mais duas músicas. “Closer to Heaven”, do álbum “Aphrodisiac”, veio como uma balada muito cadenciada no Blues Rock e que, da mesma forma que nas músicas com elementos Pop, não deixou de lado o Hard Rock característico. Steve não somente deu show vocal, como também no solo de guitarra que executou.
O gran finale da noite se deu com ˜Killed by Love˜, do “Atomic Generation”, numa representação mais fidedigna ao Hard Rock com “refrão chiclete” e que direcionou a um repertório mais recente e que, analisando o setlist, pode ser que, mesmo sem a intenção clara da banda, é um direcionamento para mostrar que o FM tem mais lançamentos além dos que foram clássicos no final dos anos 1980.
E o fim do show, após tamanha entrega dos músicos, sinergia entre os mesmos, bom repertório e execução geral impecável, me gerou uma dúvida: como o FM, depois de um boom nos anos 80 e lançamentos constantes desde o álbum de retorno (“Metropolis”, 2010), demorou tanto para vir ao Brasil - a primeira vez em 2024, na comemoração de 40 anos de banda -? Seja qual for o motivo, não muda a percepção de que, se viessem nos 11 anos iniciais e nos 18 desde o retorno da banda, teriam uma base de fãs ainda maior e que trariam mais da valorização que a banda merece, tamanha a competência sonora no palco. O que vale, por agora, é torcer tanto para que venham o mais breve possível, quanto para que mais pessoas aqui no Brasil possam conhecer o FM.
Texto: Tiago Pereira
Fotos: Amanda Vasconcelos
Edição/Revisão: Gabriel Arruda
Realização: DNA Rock Events
Press: Ase Press
FM – setlist:
Digging Up the Dirt
That Girl
Other Side of Midnight
Love Lies Dying
American Girls
Frozen Heart
Hot Wired
Face to Face
I Belong to the Night
Heart of the Matter
Dangerous
Synchronized
Let Love Be the Leader
Someday (You'll Come Running)
Does It Feel Like the Love
Bad Luck
Tough It Out
Closer to Heaven
Killed by Love














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