Enforcer faz retorno avassalador e impacta ambiente oitentista em São Paulo
Quinta passagem da banda contou com a turnê “Unshackle”, trazendo novidades e clássicos que exemplificam o que era o Heavy Metal nos anos de ouro
Entre blocos de marchinhas de rock e bares em ritmo de pré-Carnaval, o bairro da Água Branca teve uma noite que melhor representou um show de Heavy Metal dos anos 80, mesmo que nenhuma das bandas tenham surgido naquela (já longínqua) década.
Isso porque a Burning House, casa de shows nesse bairro da Zona Oeste de São Paulo, recebeu os suecos do Enforcer como banda principal, antecedidos pelos brasileiros do Creatures, no último dia 07 de março. Enquanto a banda paranaense celebrou o lançamento de seu mais recente álbum de estúdio e iniciou a sequência de shows em preparação para sua primeira turnê europeia, os europeus, em sua quinta passagem em solo nacional, deram sequência em sua turnê sul-americana, a “Unshackle Latin America 2026”, que também contou com uma apresentação em Curitiba.
Tanto a banda de abertura quanto a principal fizeram shows que levaram o público a uma viagem imersa a um clima de anos 1980 na Burning House. O Creatures, em ritmo de preparo para uma turnê internacional, contou com fãs e o apoio do público de modo a fazer uma apresentação de altíssima qualidade. Já o Enforcer, praticamente imparável (fora algumas pausas nos solos de guitarra e bateria), trouxe um setlist bem engrenado com 18 faixas e dois momentos de solo.
Nem mesmo o calor impediu que a lotação fosse concreta na Burning House que, perdão o trocadilho, “pegou fogo” com faixas consistentes e envolventess durante a noite
A experiência oitentista do Creatures
O quarteto paranaense, composto por Marc Brito (vocal), Mateus Cantaleäno (guitarra), CJ Dubiella (bateria) e Ricke Nunes (baixo) pegaram uma Burning House lotada antes mesmo do início do show e com uma base de fãs e admiradores da banda brasileira presentes em todos os cantos do local.
A lentidão dos transportes, por conta das chuvas do dia, fez com que eu perdesse as três primeiras músicas da noite, “Devil In Disguise”, “Night of the Ritual” e a maior parte de “Beware the Creatures”, podendo ouvir o finalzinho depois da entrada. O ponto de análise, então, se dá a partir do primeiro discurso da noite, feito por Marc Brito, exaltando o Caveira Velha Produções, os primeiros shows da banda no Caveira Velha Rock Bar, em Jandira; e sobre a presença do Creatures no festival alemão de Heavy Metal Keep It True, sendo a primeira banda brasileira em um lineup do evento, considerado um dos mais tradicionais do gênero. Marc também exaltou o Trovão, banda também brasileira que estará na edição Legions do mesmo festival, em agosto deste ano. Logo, o show da Burning House e as apresentações seguintes no Brasil fazem parte da preparação do Creatures para o Keep It True.
As demonstrações de uma noite épica vieram com "Children of the Moon” e um público cativo e cantando muito nos refrões em uma faixa característica de um som oitentista. "Danger” foi bem conduzida, contando com um solo muito impactante e distorcido da parte de Mateus, além de uma finalização de bateria e público que levantou ainda mais os ânimos do local.
As energias de banda e plateia seguiram em "Nothing Lasts Forever", onde Mateus Cantaleano teve um bom momento de solo de guitarra antes do início de "Lightning in My Eyes", introduzindo uma faixa que, depois, dentro da faixa, foi antro de interações entre Marc (agachado) e os fãs da grade e parte frontal da pista. Mateus teve outro grande solo no meio da faixa, misturando feeling e técnica.
"Dressed to Die” fechou a experiência oitentista dos brasileiros do Creatures. A “última dança”, como citou Marc Brito, elevou o ritmo com um misto de Heavy e Speed Metal arrasadores do início ao fim, acompanhado dos cantos do público e de um ótimo último solo de guitarra, além de agudos do vocalista ao final que encerraram o show da melhor forma, firmando um aquecimento de respeito para o show principal e exemplificando o motivo de a banda estar em uma ótima fase de reconhecimento nacional e internacional.
Uma noite arrasadora e imparável com Enforcer
Se durante o show do Creatures a Burning House já estava lotada, no intervalo antes do show do Enforcer, a chegada de mais pessoas tornou o cenário ainda mais cheio. Isso significou um misto de ansiedade para o início com confraternização entre o público, em rodas de conversa, de bebidas ou se conhecendo.
Certo foi que a casa ficou ainda mais quente - sem trocadilhos intencionais - quando "Diamonds and Rust", do Judas Priest, tocou como introdução para o início da apresentação inicial. Às 21h03, Jonas Wikstrand (bateria) subiu ao palco do local para iniciar "Destroyer”, primeira das 20 faixas da noite, e animar ainda mais um público que fez barulho na entrada triunfal e enérgica do trio de frente: Garf Condit (baixo), Jonathan Nordwall (guitarra) e Olof Wikstrand (vocal e guitarra) correram e frearam a corrida para se posicionarem perfeitamente e, além da sonoridade potente, realizarem diversas movimentações ensaiadas.
Pedradas como “Undying Evil”e “Unshackle Me” vieram na sequência, para a alegria do público, com elementos do Heavy Metal dos anos 1980 e com muitos bons solos dos guitarristas. Após breve discurso do vocal, veio as também aclamadas “From Beyond” e “Live For the Night", sendo uma a plenos pulmões da galera e a outra com direito a mosh pit no meio da pista, no embalo de um ritmo mais acelerado e potente da banda.
Os ânimos também tiveram espaço para um momento emocional em meio à velocidade e precisão musicais do Enforcer. Isso porque a banda tocou um cover de "Die Young", do Black Sabbath, gerando ainda mais cantos. A velocidade rítmica seguiu com "Roll the Dice”.
O início lento de "Zenith of the Black Sun” foi um momento breve de descanso físico do público e que logo se converteu a uma sonoridade de Heavy Metal de arena, com riff marcante e heys uníssonos dos fãs, além de ótimo solo de guitarra. Depois, veio a rápida "Coming Alive” para retomar o ritmo frenético no palco e na pista, contando com a técnica dos guitarristas da banda.
Jonas teve seu momento de solo, arregaçando na bateria e emendando com "Diamonds", faixa com ritmo de Heavy Metal clássico. Foi nesse momento que a organização local teve que abrir as portas dos fundos, por conta do calor forte devido a lotação e a noite quente. "Scream of the Savage” veio em seguida para complementar.
Os coros do público voltaram com tudo com "Nostalgia”, em intro de violão, coros e balanços de mãos a pedido da banda, além de outro ótimo solo de finalização. Depois vieram faixas como "Mesmerized by Fire” e a comemorada “Running in Menace", reforçando a característica clássica de Heavy Metal dos suecos. A performance é digna de uma boa banda, de coreografias a pulinhos no palco dos membros.
Jonathan Nordwall também teve seu momento de solo, executando sem desperdiçar uma nota e com total feeling. “One With Fire” foi a faixa que veio em seguida, “botando mais fogo” Burning House com sua velocidade rítmica absurda. Vale citar que, nesse momento, o vocal de Olof continuava impecável e sem falhas.
“Take Me Out of This Nightmare” foi outra faixa muito comemorada e cantada na noite, sendo um dos maiores picos de interação entre banda e público. Houve uma pequena pausa antes do retorno, para executar as faixas finais.
"Katana” e “Midnight Vice", clássicos do Enforcer, vieram para encerrar a noite. No caso da primeira, houve comemoração dos fãs logo na introdução, quando Olaf a citou como “Este som japonês" e, na faixa, executaram com total energia. Já a segunda e última contou com uma condição pedida pelo vocalista: que fizessem moshes, stage dives e headbangings sem parar, algo que foi muito bem respondido pela galera.
Todo o clima pré e pós-evento deixou dois pontos muito evidentes. O primeiro é o de que a cena Heavy Metal brasileira está mais viva do que nunca e preservando muito bem o estilo sonoro e visual. O segundo é que, mesmo em meio a todas as contrariedades, o rock segue vivo no Brasil, seja nas releituras, seja nas suas vertentes em geral.
Texto: Tiago Pereira
Fotos: Roberto Sant'Anna
Edição/Revisão: Gabriel Arruda
Realização: Caveira Velha Produções / Xaninho Discos / Solid Music Entertaiment
Creatures – setlist:
Devil in Disguise
Night of the Ritual
Beware the Creatures
Children of the Moon
Danger
Nothing Lasts Forever
Lightning in My Eyes
Dressed to Die
Enforcer – setlist:
Destroyer
Undying Evil
Unshackle Me
From Beyond
Live for the Night
Die Young (cover de Black Sabbath)
Roll the Dice
Zenith of the Black Sun
Coming Alive
Diamonds
Scream of the Savage
Nostalgia
Mesmerized by Fire
Running in Menace
One With Fire
Take Me Out of This Nightmare
Katana
Midnight Vice















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