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sábado, 24 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Apocalyptica – 16/10/2026 – Carioca Club/SP

Apesar da sexta-feira chuvosa, o Carioca Club, em São Paulo, recebeu um bom público no último dia 16 para acompanhar o retorno do Apocalyptica ao país com a turnê Apocalyptica Plays Metallica Vol. 2. Formado pelos violoncelistas Eicca Toppinen, Perttu Kivilaakso e Paavo Lötjönen, o grupo finlandês contou com Mikko Kaakkuriniemi na bateria. A proposta de unir a música clássica à intensidade do heavy metal ganhou novos contornos nas mãos dos violoncelistas finlandeses, que revisitaram clássicos do Metallica e reservaram algumas surpresas para os fãs.

A introdução com “The Ecstasy of Gold”, composição de Ennio Morricone imortalizada na abertura dos shows do Metallica, preparou o clima para uma noite em que a força das cordas assumiria o protagonismo, sem deixar a agressividade das versões originais em segundo plano.

“Ride the Lightning” abriu a apresentação com peso e precisão, enquanto o público demonstrava entusiasmo e cantava o refrão. Na sequência, “Enter Sandman” elevou a temperatura do ambiente. Antes de começar, Eicca Toppinen saudou os presentes e pediu que todos cantassem junto, antecipando uma noite dedicada ao repertório do Metallica. A resposta veio de maneira arrebatadora: os fãs cantaram praticamente a música inteira, criando um daqueles momentos memoráveis da apresentação.

“Creeping Death” manteve a intensidade, com as vozes tentando acompanhar alguns versos até explodirem no refrão, enquanto “For Whom the Bell Tolls” reforçou a capacidade do Apocalyptica de reproduzir a atmosfera monumental dos clássicos sem depender de guitarras distorcidas para impor respeito.

Em seguida, “The Call of Ktulu” trouxe um dos momentos mais especiais da noite. Perttu Kivilaakso comentou que o público teria uma experiência incrível, e Eicca destacou a importância da faixa, gravada pelo Apocalyptica com a linha original de baixo de Cliff Burton. A lembrança do saudoso músico, cuja contribuição foi fundamental para a identidade sonora do Metallica, acrescentou um significado especial à execução.

Na sequência, veio uma das surpresas do repertório: “St. Anger”, faixa-título do controverso álbum lançado em 2003. Apesar da curiosidade despertada pela escolha, foi o momento que menos empolgou o público. Ao final, Perttu perguntou quem conhecia o disco e identificou um fã que demonstrava entusiasmo. Em tom bem-humorado, aproveitou para brincar com a possibilidade de ele também gostar de outro trabalho que dividiu opiniões: Lulu, colaboração do Metallica com Lou Reed lançada em 2011.

A reação mais morna, porém, ficou para trás quando “The Four Horsemen” recolocou a apresentação nos trilhos, seguida pela devastadora “Blackened”, que voltou a provocar uma resposta explosiva dos presentes. Sem grandes anúncios, o Apocalyptica emendou “Master of Puppets” e fez o Carioca Club praticamente vir abaixo.

A combinação entre a execução precisa dos violoncelos e a participação dos fãs mostrou como essas composições continuam poderosas mesmo quando reinterpretadas por instrumentos tradicionalmente associados à música erudita. A apresentação não se limitou a reproduzir melodias conhecidas: o grupo soube preservar a agressividade, as mudanças de andamento e a dramaticidade das composições, explorando as possibilidades de seus instrumentos para conferir novas nuances a cada arranjo.

Depois de tanta intensidade, “Nothing Else Matters” ofereceu uma pausa emocional e se transformou em um dos pontos altos da noite. A interpretação delicada, conduzida pelas cordas, encontrou no público um coro afinado e espontâneo. Perttu comentou que os fãs haviam transformado a casa no “Karaokê Club”, classificando aquele momento como o mais bonito de toda a turnê.

A observação fez sentido diante da participação calorosa, que deu à canção uma atmosfera particularmente emocionante. Na sequência, “Seek & Destroy” agitou o público, mas a surpresa ainda não havia terminado: o grupo também homenageou o Sepultura com “Refuse/Resist”, aproximando dois universos fundamentais do metal e arrancando uma reação especial dos fãs brasileiros. A homenagem demonstrou que a conexão com o público brasileiro vai além do tributo ao Metallica, passando também pelo reconhecimento do Sepultura como um dos maiores nomes do metal sul-americano.

Para encerrar a noite, “One” funcionou como uma escolha certeira, reunindo dramaticidade, peso e passagens de grande intensidade musical, com os versos de James Hetfield ganhando destaque na interpretação instrumental. A faixa coroou uma apresentação que mostrou como a música do Metallica permanece aberta a novas interpretações sem perder sua essência.

Mesmo com a chuva e o caráter tradicionalmente exigente de uma sexta-feira à noite, o bom público do Carioca Club participou ativamente de uma experiência que alternou momentos de pura agressividade, passagens emocionais e surpresas bem escolhidas. Com a turnê Apocalyptica Plays Metallica Vol. 2, os finlandeses reafirmaram sua identidade singular: transformar o violoncelo em instrumento de combate e provar que a fronteira entre a música clássica e o heavy metal pode ser muito mais estreita do que parece.

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: André Tavares


Realização: Overload Brasil

Press: Tedesco Comunicação & Mídia


Apocalyptica – setlist:

The Ecstasy of Gold

Ride the Lightning

Enter Sandman

Creeping Death

For Whom the Bell Tolls

The Call of Ktulu

St. Anger

The Four Horsemen

Blackened

Master of Puppets

Nothing Else Matters

Seek & Destroy / Refuse/Resist

One

Cobertura de Show: Amorphis – 18/10/2026 – Carioca Club/SP

Entre o peso e a melodia, Amorphis transforma o Carioca Club em um reencontro de emoções

A noite de domingo tinha uma ansiedade pairando no ar. Depois de tanta expectativa, finalmente havia chegado o dia de receber o Amorphis em São Paulo. O encontro era aguardado por fãs que acompanham diferentes capítulos da trajetória dos finlandeses, que construíram uma identidade própria ao longo de mais de três décadas e que seguem encontrando maneiras de conectar peso, melodia e atmosferas que parecem transportar o ouvinte para outro lugar. No Carioca Club, em Pinheiros, o prelúdio daquela noite já anunciava que estávamos diante de mais um daqueles encontros marcantes para os amantes do metal melódico.

A apresentação fazia parte da passagem brasileira da turnê Borderland, que leva aos palcos a fase mais recente da banda sem deixar de lado composições que ajudaram a consolidar seu nome na história do metal. A expectativa, portanto, envolvia tanto a oportunidade de ouvir o material mais novo ao vivo quanto a possibilidade de reencontrar músicas que acompanham os fãs há anos. Com a casa relativamente cheia e o público começando a se preparar para uma noite de muito peso, a abertura ficou por conta do Throw Me to the Wolves, representante da nova geração do metal brasileiro.


Throw Me to the Wolves: técnica e peso surpreendentes

Foi a primeira vez que assisti a um show do Throw Me to the Wolves e confesso que a impressão deixada pela banda foi bastante positiva. O quinteto paulistano trabalha com uma combinação de death metal melódico e elementos de metalcore, equilibrando agressividade, riffs marcantes e passagens melódicas. Em uma abertura, existe o desafio de conquistar a atenção de um público que, muitas vezes, já chega com a cabeça voltada para a atração principal. A banda, porém, demonstrou qualidade técnica e presença suficientes para transformar aquele primeiro contato em uma experiência que merece ser destacada por conta própria.

Diogo Nunes foi um dos grandes responsáveis por essa impressão. O vocalista tem um domínio impressionante das diferentes possibilidades da própria voz e consegue transitar por registros extremos com intensidade e segurança. É daqueles casos em que assistir à performance ao vivo ajuda a compreender a dimensão do trabalho vocal, porque a execução acontece diante dos nossos olhos, sem que seja possível ignorar o esforço, o controle e a expressividade envolvidos. O que Diogo faz com a voz é absurdo, absurdo, absurdo! 

Na bateria, Maycon Avelino sustentou a apresentação com consistência, precisão e uma cadência que se manteve firme do início ao fim. Em um repertório que exige bastante da execução rítmica, a bateria tem papel fundamental para manter o peso sem comprometer a clareza dos arranjos. Foi justamente essa segurança que me chamou a atenção, especialmente pela maneira como a base se manteve coesa enquanto os demais instrumentos exploravam suas possibilidades.

As guitarras de Gui Calegari e Fabrício Fernandes também merecem destaque. Os dois demonstraram entrosamento e domínio técnico, alternando riffs pesados e linhas melódicas que ajudam a definir a sonoridade do grupo. Além da execução, vale registrar um detalhe que chama a atenção de quem acompanha o universo das guitarras: ambos estavam tocando instrumentos da Solar Guitars. A presença dos instrumentos da marca no palco soma um elemento interessante à apresentação, mas o que realmente se sobressaiu foi a maneira como os guitarristas conduziram o material, com firmeza e boa articulação entre as partes.

Fábio Fulini, por sua vez, completou a formação no baixo, contribuindo para a sustentação de uma base que precisa acompanhar a intensidade das guitarras e da bateria sem perder definição. O conjunto funcionou muito bem, e essa combinação entre os músicos ajudou a dar corpo à apresentação. Saí daquele primeiro contato com a sensação de ter descoberto uma banda que merece ser acompanhada de perto, principalmente por quem procura nomes da cena nacional capazes de unir técnica, peso e identidade.

O Throw Me to the Wolves cumpriu a missão de aquecer a noite, mas foi além do papel protocolar de banda de abertura. Para mim, a apresentação serviu como uma excelente oportunidade de conhecer o trabalho do grupo em seu ambiente mais natural, o palco. E, considerando a qualidade demonstrada pelos músicos, fica a curiosidade para acompanhar os próximos passos dessa trajetória.


Amorphis: uma noite de peso, atmosfera e conexão com o público

Depois da abertura, a expectativa voltou a tomar conta do Carioca Club. O intervalo parecia aumentar a ansiedade de quem aguardava a atração principal, e o início do jogo de luzes foi o sinal de que a espera estava chegando ao fim. Então, entre o apagar e o acender das luzes, a magia começou: o Amorphis subiu ao palco e deu início a uma apresentação que tinha tudo para ser especial.

Desde o começo, era possível perceber o quanto aquele encontro significava para as pessoas presentes. Havia uma vontade evidente de acompanhar cada música, reconhecer as passagens, cantar junto e fazer parte daquele momento. A energia que vinha da plateia ajudou a estabelecer o tom do espetáculo, criando uma relação de proximidade entre banda e público que se manteve ao longo da apresentação. Em vez de uma audiência que apenas observa o que acontece no palco, o Carioca Club se tornou parte ativa daquela experiência, respondendo às músicas e demonstrando o quanto a obra dos finlandeses encontra espaço na vida de quem os acompanha.

Uma das características mais interessantes do Amorphis é a capacidade de trabalhar com contrastes sem perder a própria identidade. Embora o grupo tenha raízes importantes no death metal melódico, sua trajetória passou por transformações que ampliaram consideravelmente o repertório sonoro. Hoje, o peso convive com melodias elaboradas, elementos progressivos, passagens atmosféricas e referências ao folclore finlandês, especialmente à tradição mitológica e poética do Kalevala. Essa combinação faz com que a música da banda tenha uma dimensão narrativa muito particular, alternando momentos de maior agressividade com trechos que parecem convidar o ouvinte a mergulhar em outra paisagem.

Ao vivo, essa identidade ganha força justamente pela maneira como os diferentes elementos se complementam. As guitarras dão sustentação ao peso e às melodias, enquanto os arranjos ampliam a sensação de atmosfera sem retirar a intensidade das composições. A voz de Tomi Joutsen também é fundamental para essa dinâmica, pela capacidade de transitar entre os registros extremos e melódicos que fazem parte da personalidade do Amorphis. Essa alternância ajuda a construir a tensão e a profundidade das músicas, permitindo que a banda explore diferentes intensidades sem perder a conexão com quem está diante do palco.

O repertório percorreu diferentes momentos da discografia, combinando faixas mais recentes com composições que já ocupam um lugar especial na história do grupo. A abertura com “Bones”, seguida por “Light and Shadow” e “Silver Bride”, estabeleceu uma sequência que reuniu diferentes aspectos da identidade musical da banda. “Wrong Direction” e “Death of a King” deram continuidade a essa construção, enquanto “Fog to Fog” ajudou a conduzir o espetáculo por outras nuances do repertório.

Ao longo da apresentação, músicas como “The Castaway”, “The Lantern” e “The Moon” ampliaram esse percurso, evidenciando como o Amorphis consegue explorar diferentes atmosferas sem abandonar a força das guitarras e da base rítmica. Já “Sampo” trouxe ao repertório uma composição que dialoga diretamente com as referências mitológicas presentes na obra do grupo. Essa ligação com a tradição cultural finlandesa é um dos elementos que tornam a banda tão particular, porque suas músicas frequentemente ultrapassam a experiência imediata do peso e da melodia para construir imagens, narrativas e sensações.

A apresentação também reservou espaço para momentos importantes da trajetória do Amorphis, incluindo “The Smoke”, “Magic and Mayhem” e “Black Winter Day”, esta última acompanhada de um trecho de “My Kantele”. A presença dessas composições ajudou a aproximar diferentes fases da carreira, lembrando que a identidade atual da banda foi construída a partir de uma trajetória de experimentação e mudanças. Para os fãs que acompanham o grupo há mais tempo, são músicas que carregam o peso da história; para quem se aproximou da banda em fases posteriores, representam a oportunidade de conhecer melhor as raízes de uma sonoridade que continua em transformação.

“Dancing Shadow” e “House of Sleep” conduziram o repertório para seus momentos finais, antes de “The Bee” encerrar a apresentação no bis. A escolha das músicas permitiu que a noite transitasse entre diferentes facetas do Amorphis, mantendo o equilíbrio entre o peso, a melodia e as passagens mais envolventes. Ao observar a resposta do público, ficava evidente que o repertório não era composto apenas por canções reconhecíveis, mas por músicas que carregam significados diferentes para cada pessoa presente.

E talvez seja justamente essa a força de uma banda que atravessou tantas fases sem perder sua personalidade. O Amorphis não depende de uma única fórmula para construir sua música. Existe espaço para a agressividade, para a contemplação, para a melodia e para os arranjos mais elaborados, e tudo isso se encontra em uma identidade que permanece reconhecível. A apresentação no Carioca Club mostrou como esses elementos funcionam juntos e como a relação construída com os fãs continua sendo parte essencial dessa experiência.

Outro detalhe importante desta passagem foi a presença de Pyry Hanski no baixo. O músico, que também integra a banda finlandesa ...And Oceans, acompanhou o Amorphis nesta etapa da turnê, substituindo temporariamente Olli-Pekka Laine. Mesmo com a alteração na formação, a apresentação manteve a força coletiva que sustenta a sonoridade do grupo. É um lembrete de que as turnês também envolvem adaptações e circunstâncias pessoais, enquanto a música precisa seguir encontrando seu caminho até o público.

Quando a música também encontra a nossa história

Para mim, entretanto, aquela noite teve uma camada adicional de significado. O show do Amorphis carregava um apelo emocional ligado a questões pessoais, algo que tornou a experiência particularmente intensa. Há momentos em que o trabalho de cobertura nos coloca diante de uma banda que admiramos, e precisamos observar a apresentação com atenção aos detalhes, à execução, ao repertório e à resposta da plateia. Mas também existem noites em que a relação pessoal com a música atravessa esse olhar profissional e transforma a experiência em algo difícil de traduzir apenas por critérios técnicos.

Ao fim, o Amorphis deixou a impressão de uma noite marcada pela entrega, pela consistência musical e pela conexão com os fãs. O domingo terminou, mas a experiência permaneceu. E talvez seja essa a melhor maneira de definir o que aconteceu no Carioca Club: uma noite em que o peso e a melodia encontraram espaço para caminhar juntos, enquanto a música fazia aquilo que sabe fazer tão bem, aproximar pessoas, despertar lembranças e criar novas histórias.





Realização: Bangers Open Air


Throw Me to the Wolves – setlist:

Chaos

Days of Retribution

Fragments

Angels Fall

Forsaken Fears

Tartarus

Gaia


Amorphis – setlist:

Bones

Light and Shadow

Silver Bride

Wrong Direction

Death of a King

Fog to Fog

Thousand Lakes

The Castaway

The Lantern

The Moon

Sampo

The Smoke

Black Winter Day

Dancing Shadow

House of Sleep

Bis

The Bee

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Sonata Arctica – 03/10/2026 – Audio/SP

Sonata Arctica e Noturnall transformam sábado paulistano em celebração à vida e à música ao vivo

São Paulo teve um daqueles sábados em que cruzar a cidade para ir a um show significou muito mais do que simplesmente assistir a uma banda no palco. No último dia 3, o Espaço Audio recebeu Noturnall e Sonata Arctica em uma noite que reuniu peso, experiência, virtuosismo e, principalmente, uma conexão muito particular entre músicos e público. Em meio à reta final de um fim de semana marcado pela expectativa das eleições, quase três mil pessoas escolheram ocupar a casa para celebrar aquilo que só um show consegue proporcionar: estar presente, dividir o mesmo espaço e viver a música em tempo real./


Noturnall: técnica, experiência e sangue no olho

A missão de abrir a noite ficou com o Noturnall, que apresentou um set coeso e musicalmente muito bem amarrado. A trajetória individual dos integrantes é perceptível e aparece tanto na execução quanto nos arranjos, mas a apresentação não se apoiou só no currículo ou na capacidade técnica dos músicos. Havia uma banda funcionando como unidade, com peso, precisão e segurança suficientes para sustentar uma abertura diante de um público que ainda aguardava a atração principal.

No centro dessa dinâmica esteve Thiago Bianchi. O vocalista assumiu naturalmente a função de conduzir a apresentação, estabelecendo uma comunicação direta com a plateia e mantendo a intensidade do show do início ao fim. O resultado foi uma apresentação que soube equilibrar a complexidade musical do Noturnall com uma postura de palco acessível e espontânea. No encerramento, Bianchi deixou o palco e se jogou no meio do público, levando para a pista a mesma energia que havia construído durante o set. Foi uma escolha que resumiu bem a proposta da banda naquela noite.

Sonata Arctica: 30 anos de história compartilhada

Quando o Sonata Arctica entrou em cena, a resposta foi imediata. O Espaço Audio estava tomado por um público que conhecia aquelas músicas como parte da discografia de uma das principais bandas do power metal finlandês, e principalmente, como trilha sonora de diferentes momentos de suas próprias vidas. A celebração dos 30 anos de carreira ganhou, portanto, um significado que ultrapassava a marca comemorativa da turnê. Era também uma oportunidade de reencontro entre a banda, seus fãs e memórias construídas ao longo de décadas.

“I Have a Right”, “Black Sheep” e “Paid in Full” colocaram a apresentação em movimento desde os primeiros minutos, enquanto “Last Drop Falls” e “Tallulah” ampliaram o repertório emocional da noite. A sequência ainda passou por “8th Commandment”, “Closer to an Animal”, “Letter to Dana” e “White Pearl, Black Oceans...”, mostrando a capacidade do Sonata Arctica de transitar entre diferentes momentos de sua carreira sem perder a identidade. A banda não precisou transformar o aniversário em uma retrospectiva protocolar. O próprio repertório foi suficiente para evidenciar o caminho percorrido ao longo dessas três décadas.

Tony Kakko foi um dos grandes responsáveis pela atmosfera criada no palco. Muito à vontade, o vocalista conversou, brincou e interagiu constantemente com a plateia, diminuindo qualquer distância entre o palco e quem estava na pista. Ao seu lado, Elias Viljanen, Pasi Kauppinen, Henrik Klingenberg e Tommy Portimo sustentaram a apresentação com precisão e entrosamento, formando uma base sólida para que as músicas ganhassem força ao vivo. “Shy” preparou o terreno para “FullMoon”, que se tornou um dos momentos mais catárticos da noite, antes de a banda retornar para o bis com “The Last Amazing Grays”, “Don’t Say a Word” e a tradicional “Vodka”, encerrando a apresentação em clima de celebração.

Na minha visão, o que marcou a noite foi a dimensão coletiva daquele encontro. Desde os primeiros acordes, o público cantou, respondeu às interações de Kakko e acompanhou praticamente todas as músicas. Ver o Audio cheio de pessoas genuinamente felizes por estar ali trouxe uma dimensão diferente para a apresentação. Em uma época em que boa parte do consumo musical acontece individualmente, por meio de fones, telas e algoritmos que determinam o que chega até nós, havia algo particularmente significativo em ver tantas pessoas escolhendo sair de casa para compartilhar a mesma experiência.

Essa percepção ganhou ainda mais força quando Kakko falou sobre a importância de continuar consumindo música ao vivo. O vocalista lembrou que apresentações como aquela só são possíveis porque existe um público disposto a comprar ingressos, frequentar casas de shows e manter esse circuito funcionando. O comentário poderia parecer simples, mas ganhou peso naquele contexto. O show só existia porque havia músicos dispostos a estar no palco e pessoas dispostas a estar diante dele, mantendo viva uma relação que nenhuma plataforma digital consegue reproduzir completamente.

Às vésperas das eleições, o Espaço Audio acabou funcionando como um intervalo do ruído que tomava conta do lado de fora, mas sem representar uma fuga da realidade. Era um espaço de encontro, convivência e expressão através da arte. No fim, Noturnall e Sonata Arctica entregaram propostas diferentes, mas complementares: de um lado, uma banda brasileira mostrando força, experiência e excelência musical; do outro, uma formação com três décadas de história reafirmando sua capacidade de reunir gerações em torno de suas canções.





Realização: Honorsounds



Noturnall – setlist:

Try Harder

No Turn at All

Reset the Game

Sugar Pill

Shadows

Shallow Grave

Scream! For!! Me!!!

Nocturnal Human Side


Sonata Arctica – setlist:

I Have a Right

Black Sheep

Paid in Full

Last Drop Falls

Tallulah

8th Commandment

Closer to an Animal

Letter to Dana

White Pearl, Black Oceans...

Shy

FullMoon

Bis

The Last Amazing Grays

Don't Say a Word

Vodka

sábado, 22 de agosto de 2026

Cobertura de Show: Swallow The Sun – 11/08/2026 – Hangar 110/SP

Na noite de 11 de agosto, o Hangar 110, em São Paulo, recebeu a terceira passagem do Swallow the Sun pelo Brasil, um dos nomes mais respeitados do doom/death metal finlandês, em uma apresentação marcada pela atmosfera sombria, introspectiva e profundamente melancólica. Um bom público compareceu para prestigiar a banda durante a passagem da turnê Shining Over Latin America e encontrou um espetáculo que privilegiou a música e a ambientação em detrimento da interação direta. Formado em Jyväskylä, em 2000, o grupo construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma identidade baseada na combinação entre peso, melodia e atmosferas densas, características que se mostraram especialmente fortes ao vivo.

Com Mikko Kotamäki (vocal), Juha Raivio (guitarra), Juho Räihä (guitarra), Matti Honkonen (baixo) e Juuso Raatikainen (bateria) no palco, a apresentação teve início com "Innocence Was Long Forgotten", faixa do álbum Shining, de 2024, estabelecendo imediatamente o clima que dominaria toda a noite. Sem grandes discursos ou tentativas de transformar o show em um palanque, o Swallow the Sun deixou que suas próprias composições conduzissem a experiência. "Descending Winters" e "New Moon" deram sequência ao setlist, alternando passagens pesadas com momentos de maior delicadeza, enquanto "Under the Moon & Sun" reforçou o caráter contemplativo da apresentação. A sensação era de que o público não estava simplesmente assistindo a um show, mas sendo conduzido para dentro do universo sombrio criado pela banda. O repertório também funcionou como uma retrospectiva de diferentes fases da carreira, que começou com The Morning Never Came, em 2003, e chegou ao mais recente Shining.

A sequência formada por "Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)", "Out of This Gloomy Light" e "November Dust" aprofundou ainda mais essa proposta. Em vez de buscar explosões constantes de energia, o Swallow the Sun trabalhou com contrastes, silêncios e longas construções instrumentais, permitindo que cada mudança de andamento tivesse seu impacto. "Out of This Gloomy Light", inclusive, remete aos primeiros anos da banda, já que a composição surgiu na demo homônima lançada antes do álbum de estreia e posteriormente foi lançada no álbum The Morning Never Came (2003). Já "Hope" trouxe uma das passagens mais emblemáticas da noite, recuperando o espírito do terceiro álbum do grupo, lançado em 2007 e conhecido justamente por transformar a ideia de esperança em matéria-prima para uma música carregada de desesperança.

Se havia pouca comunicação verbal entre banda e público, isso não significou falta de conexão. Pelo contrário: músicas como "MelancHoly" e "Falling World" encontraram um público imerso, que respondeu muito mais por meio do silêncio concentrado, dos aplausos e da entrega às canções do que por meio de uma participação ruidosa. A própria "Falling World", presente originalmente em New Moon, mostrou como o grupo consegue transformar melodia e peso em uma experiência quase cinematográfica. A apresentação ainda avançou para "These Woods Breathe Evil", encerrando o set principal de maneira densa, sombria e sem concessões, representando uma das fases mais importantes da trajetória da banda.

O bis trouxe "Deadly Nightshade" e "Swallow (Horror, Part 1)", duas escolhas particularmente adequadas para concluir uma noite tão carregada de sombras. A última faixa, originalmente presente em The Morning Never Came, ainda estabeleceu uma ligação direta entre o presente e os primeiros passos do grupo. O repertório apresentado em São Paulo, portanto, percorreu diferentes momentos da carreira sem abandonar aquilo que sempre esteve no centro da proposta do Swallow the Sun: a capacidade de transformar dor, solidão e melancolia em música.

Na apresentação, o quinteto mostrou que nem todo grande show precisa ser construído sobre discursos, brincadeiras ou interação constante. O Swallow the Sun fez justamente o contrário: criou uma espécie de bolha de isolamento dentro do Hangar 110, na qual peso, melancolia e introspecção falaram mais alto. Para quem estava disposto a mergulhar nessa atmosfera, foi uma experiência intensa e imersiva, fiel à essência de uma banda que transformou a tristeza em uma de suas mais poderosas formas de expressão. 


Texto: Marcelo Gomes



Realização: Overloard Brasil



Swallon The Sun – setlist:

Innocence Was Long Forgotten

Descending Winters

New Moon

Under the Moon & Sun

Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)

Out of This Gloomy Light

November Dust

Hope

MelancHoly

Falling World

These Woods Breathe Evil

Deadly Nightshade

Swallow (Horror, Part 1)

sábado, 15 de agosto de 2026

The Eternal: Horizontes Obscuros (Also In English)

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Há algo de paradoxal em Obscured Horizons. O oitavo álbum do The Eternal é, sem dúvida, uma obra mergulhada na escuridão, mas não se trata de um disco derrotista. Pelo contrário: por trás das guitarras pesadas, das atmosferas melancólicas e das paisagens progressivas existe uma insistente sensação de movimento — como se cada momento de desolação apontasse, ainda que discretamente, para algum lugar além dela.

Desde Skinwalker (2024), o The Eternal vem refinando uma identidade que combina dark metal, gothic, doom e progressivo sem permitir que nenhum desses elementos domine completamente a composição. Obscured Horizons representa um passo adiante nesse processo. A banda amplia suas dimensões sonoras, mas preserva aquilo que sempre foi seu maior trunfo: a capacidade de transformar peso em emoção.

A abertura, “Lament For The Hollow”, estabelece imediatamente o tom. Não há pressa em revelar todas as cartas. O The Eternal constrói tensão através de camadas de guitarras, atmosferas densas e da interpretação de Mark Kelson, cuja voz continua sendo um dos elementos mais reconhecíveis da banda. “Existing To Expire” aprofunda essa sensação, equilibrando melancolia e intensidade em uma composição que sintetiza bem a proposta do álbum.

“Colours Fade” acrescenta outra dimensão ao disco. A música começa de maneira mais contemplativa antes de ganhar corpo, mostrando que o The Eternal entende dinâmica como algo mais importante do que simplesmente alternar momentos pesados e suaves. A banda trabalha com espaços, texturas e mudanças graduais, criando uma sensação quase cinematográfica.

Mas é justamente quando o grupo abandona parte desse controle que Obscured Horizons se torna mais interessante. “Liminality” surge como um dos momentos de maior impacto, introduzindo guitarras mais agressivas e vocais que acrescentam uma dose de brutalidade ao repertório. É uma faixa que quebra a previsibilidade e demonstra que o The Eternal ainda possui algumas cartas escondidas na manga.

A faixa-título mantém a densidade característica do álbum, enquanto “Yesterday’s Gone” expande sua dimensão progressiva. Aqui, a banda parece menos preocupada em criar um single imediato e mais interessada em desenvolver uma narrativa musical. O resultado é um disco que recompensa a audição integral — algo cada vez menos comum em uma época dominada pela lógica das faixas isoladas.

No centro de tudo está Mark Kelson. Sua interpretação raramente busca o exibicionismo; sua força está justamente na capacidade de transmitir vulnerabilidade sem transformar a música em melodrama. As guitarras de Kelson e Richie Poate, por sua vez, funcionam tanto como instrumento de peso quanto como elemento atmosférico, enquanto Niclas Etelävuori e Jan Rechberger fornecem uma base suficientemente sólida para que as composições possam respirar e evoluir.

É importante, entretanto, não confundir sofisticação com reinvenção. Obscured Horizons não representa uma ruptura radical com o passado do The Eternal. Grande parte de sua força está justamente no aperfeiçoamento de uma fórmula que a banda vem desenvolvendo há anos. A diferença é que agora ela parece mais segura de como utilizar seus diferentes componentes.

O álbum também se beneficia de sua coerência temática. A ideia de enfrentar desilusão, identidade fragmentada e a dificuldade de distinguir realidade e ilusão atravessa as composições sem transformar o disco em um manifesto conceitual excessivamente explícito. A escuridão está presente, mas não existe uma glorificação da própria decadência. Há sempre uma possibilidade de saída.

E é essa perspectiva que impede Obscured Horizons de se transformar em mais um exercício previsível de melancolia. O The Eternal entende que tristeza e esperança não são necessariamente opostos. Em sua música, elas coexistem.

“Awaken”, responsável por encerrar o álbum, resume essa trajetória. Depois de atravessar nove faixas marcadas por conflitos internos, peso e introspecção, o The Eternal não oferece uma conclusão triunfalista. O despertar sugerido pelo título é mais humano do que épico: não significa eliminar a escuridão, mas finalmente aprender a enxergar através dela.

Se Skinwalker marcou o início de uma nova fase e Celestial serviu como uma expansão dessa identidade, Obscured Horizons soa como o momento em que essas experiências finalmente encontram uma forma mais madura. Não é necessariamente o álbum mais pesado ou mais progressivo da carreira do The Eternal — e talvez nem precise ser. Sua ambição está em outro lugar: criar uma obra emocionalmente consistente, capaz de transformar atmosferas sombrias em uma narrativa sobre sobrevivência, consciência e renovação.

O horizonte pode estar obscurecido. Mas, para o The Eternal, isso não significa que tenha deixado de existir.


***ENGLISH VERSION***

There is something paradoxical about Obscured Horizons. The Eternal’s eighth album is undoubtedly a work immersed in darkness, but it is by no means a defeatist record. Quite the opposite: behind the heavy guitars, melancholic atmospheres and progressive landscapes lies a persistent sense of movement — as if every moment of desolation, however subtly, were pointing towards somewhere beyond it.

Since Skinwalker (2024), The Eternal have been refining an identity that combines dark metal, gothic, doom and progressive elements without allowing any one of them to completely dominate the compositions. 

Obscured Horizons represents another step forward in that process. The band expands its sonic dimensions while preserving what has always been its greatest strength: the ability to transform heaviness into emotion.

The opening track, “Lament For The Hollow”, immediately establishes the tone. There is no rush to reveal all the cards. The Eternal builds tension through layers of guitars, dense atmospheres and Mark Kelson’s performance, his voice remaining one of the band’s most recognisable features. “Existing To Expire” deepens that feeling, balancing melancholy and intensity in a composition that effectively encapsulates the album’s overall approach.

“Colours Fade” adds another dimension to the record. The song begins in a more contemplative fashion before gradually gaining weight, demonstrating that The Eternal understand dynamics as something far more important than simply alternating heavy and softer passages. The band works with space, texture and gradual shifts, creating an almost cinematic sensation.

Yet it is precisely when the band relinquishes some of that restraint that Obscured Horizons becomes most compelling. “Liminality” emerges as one of the album’s most powerful moments, introducing more aggressive guitars and vocals that inject an additional dose of brutality into the material. It is a track that breaks the sense of predictability and proves that The Eternal still have a few cards hidden up their sleeves.

The title track maintains the album’s characteristic density, while “Yesterday’s Gone” expands its progressive dimension. Here, the band seems less concerned with creating an immediate single and more interested in developing a musical narrative. The result is a record that rewards a complete listen — something increasingly uncommon in an era dominated by the logic of individual tracks.

At the centre of it all is Mark Kelson. His performance rarely seeks to impress through sheer showmanship; its strength lies precisely in his ability to convey vulnerability without allowing the music to descend into melodrama. Kelson and Richie Poate’s guitars, meanwhile, function both as instruments of weight and as atmospheric elements, while Niclas Etelävuori and Jan Rechberger provide a sufficiently solid foundation for the compositions to breathe and evolve.

It is important, however, not to confuse sophistication with reinvention. Obscured Horizons does not represent a radical break with The Eternal’s past. Much of its strength lies precisely in the refinement of a formula the band have been developing for years. The difference is that they now appear more confident in how to deploy each of its components.

The album also benefits from its thematic coherence. The idea of confronting disillusionment, fractured identity and the difficulty of distinguishing reality from illusion runs through the compositions without turning the record into an overly explicit conceptual manifesto. Darkness is ever-present, but there is no glorification of decay itself. There is always a way out.

And it is this perspective that prevents Obscured Horizons from becoming yet another predictable exercise in melancholy. The Eternal understand that sadness and hope are not necessarily opposites. In their music, they coexist.

“Awaken”, the album’s closing track, encapsulates this journey. After traversing nine songs marked by inner conflict, heaviness and introspection, The Eternal offer no triumphant conclusion. The awakening suggested by the title is more human than epic: it is not about eliminating the darkness, but finally learning to see through it.

If Skinwalker marked the beginning of a new phase and Celestial served as an expansion of that identity, Obscured Horizons feels like the moment when those experiences finally take on a more mature form. It is not necessarily the heaviest or most progressive album of The Eternal’s career — and perhaps it does not need to be. Its ambition lies elsewhere: to create an emotionally cohesive work capable of transforming dark atmospheres into a narrative about survival, awareness and renewal.

The horizon may be obscured. But for The Eternal, that does not mean it has ceased to exist.

AJ Savolainen

segunda-feira, 18 de maio de 2026

The 69 Eyes: Os Vampiros de Helsinque Reafirmam Sua Essência Gótica (Also In English)

BLKIIBLK (Imp.)

Por Michelle F. Santana

Desde os anos 90, o The 69 Eyes construiu uma identidade praticamente inconfundível dentro do gothic rock e do chamado “goth’n’roll”. Entre riffs carregados de hard rock oitentista, estética vampiresca e melodias melancólicas, a banda finlandesa nunca pareceu interessada em seguir tendências e talvez justamente por isso tenha mantido uma base de fãs tão fiel ao longo das décadas. Em I Survive, novo EP da banda, essa proposta permanece intacta, mas com um detalhe importante: este é o primeiro lançamento do grupo pelo selo BLKIIBLK, divisão voltada ao rock e metal do Frontiers Label Group. Essa nova fase parece refletir diretamente na sonoridade do trabalho, que aposta em uma abordagem mais direta, encorpada e fortemente apoiada no hard rock sem abandonar a identidade gótica que sempre acompanhou a banda.

Outro ponto que chama atenção é a produção e a ambientação sonora do EP. A mixagem assinada por Barry Pointer, conhecido por trabalhos ao lado de Ozzy Osbourne, reforça uma atmosfera ampla e quase cinematográfica, especialmente perceptível na faixa-título. Existe um senso de profundidade e dramatização nas camadas instrumentais que ajuda a potencializar essa estética noturna, melancólica e decadente que o The 69 Eyes domina tão bem.

Muito se fala hoje sobre inovação constante dentro do rock e do metal, mas existe uma diferença importante entre estagnação e coerência artística. Para um EP, especialmente vindo de uma banda com uma estética tão consolidada quanto o The 69 Eyes, faz muito mais sentido apostar no refinamento da própria fórmula do que em uma ruptura artificial. I Survive entende exatamente isso: não tenta reinventar a banda, apenas reforçar aquilo que ela sempre soube fazer bem.

A faixa-título “I Survive” deixa isso claro desde os primeiros minutos. O clima sombrio e melancólico remete diretamente à influência do "pós-punk", especialmente nas linhas vocais arrastadas e na atmosfera noturna quase cinematográfica. Ao mesmo tempo, a música mantém aquele peso acessível entre gothic rock, hard rock e glam decadente que sempre caracterizou o som do grupo. Há ecos evidentes do álbum "Wasting the Dawn" (1999) na construção da ambiência, principalmente no contraste entre sensualidade sombria e guitarras mais encorpadas.

Tecnicamente, a faixa trabalha riffs simples, porém extremamente eficientes, sustentados por uma cozinha sólida e um andamento cadenciado que favorece o clima melancólico sem perder o apelo de refrão. A participação de Steve Stevens, conhecido por seu trabalho com Billy Idol, adiciona ainda mais personalidade à música, especialmente nos detalhes de guitarra que reforçam esse lado hard rock clássico presente em toda a faixa.

O vocal de Jyrki 69 merece destaque especial em todo o EP. Sua interpretação soa confortável, madura e segura dentro da proposta da banda. Há uma dramaticidade característica do gothic rock clássico em sua performance, mas sem soar artificial ou exagerada. Pelo contrário: sua voz continua sendo uma das peças centrais da identidade construída pelo The 69 Eyes ao longo das décadas.

Em “Cold Sweat”, clássico originalmente lançado pelo Thin Lizzy e já revisitado por nomes como Megadeth e Helloween, o The 69 Eyes opta sabiamente por preservar a essência hard rock da composição. Em vez de transformar completamente a música, para encaixar em um molde gótico exagerado, a banda prefere incorporar pequenos elementos da própria identidade sem descaracterizar o espírito original da faixa. O resultado é um cover sólido, com guitarras vibrantes e uma interpretação que respeita a energia clássica da composição.

"In the Misery” talvez seja o momento em que o EP mais explicita o DNA da banda. Toda a decadência vampiresca, o romantismo sombrio e a estética urbana noturna aparecem de forma quase emblemática, principalmente na atmosfera melancólica construída pela faixa. Musicalmente, diferente das faixas mais cadenciadas do EP, aqui as guitarras surgem mais marcadas e presentes, conduzindo a música de maneira firme enquanto o instrumental mantém uma aura obscura e melancólica. O solo carrega uma pegada clássica de hard rock, adicionando ainda mais personalidade à faixa sem quebrar o clima decadente que define sua identidade. É justamente esse equilíbrio entre peso, melancolia e teatralidade vampiresca que transforma “In the Misery” em um verdadeiro retrato da essência do The 69 Eyes.

Mas é em “Devil’s Rose” que o EP encontra seu ponto mais alto. Muito mais puxada para o hard rock do que as demais faixas, a música encerra o trabalho de maneira energética sem abandonar a identidade gótica da banda. A participação do lendário guitarrista norte-americano Ed Mundell, ex-Monster Magnet, traz ainda mais força à composição. Suas guitarras brilham ao longo da faixa, incorporando elementos característicos do stoner rock com riffs encorpados, solos marcantes e muito feeling, mas sempre respeitando o universo sonoro do The 69 Eyes. As guitarras de Bazie também merecem destaque, funcionando em perfeita sintonia com a participação de Mundell e criando uma das construções instrumentais mais fortes do EP. Enquanto isso, Jyrki 69 entrega uma interpretação carregada de carisma sombrio e presença, reforçando ainda mais a personalidade da banda. O resultado é uma faixa intensa, energética e extremamente eficiente para encerrar o EP.

No fim, I Survive não é um trabalho revolucionário e nem precisa ser. O EP funciona porque entende exatamente a identidade da banda e não tenta fugir dela. Entre melodias sombrias, riffs acessíveis e uma atmosfera decadente que parece saída diretamente de clubes góticos dos anos 80 e 90, o The 69 Eyes entrega um trabalho sólido, tecnicamente consistente e fiel à própria identidade. Para os fãs antigos, é um reencontro confortável com aquilo que sempre tornou a banda especial. Para novos ouvintes, talvez seja um convite interessante para mergulhar nesse universo entre o hard rock e a escuridão romântica do gothic rock.

***ENGLISH VERSION***

Since the 1990s, The 69 Eyes have built an almost unmistakable identity within gothic rock and the so-called “goth’n’roll” scene. Blending ‘80s-inspired hard rock riffs, a vampiric aesthetic, and melancholic melodies, the Finnish band has never seemed particularly interested in following trends and perhaps that is precisely why they have maintained such a loyal fanbase throughout the decades. On I Survive, the band’s new EP, that approach remains fully intact, though with one important detail: this marks the group’s first release through BLKIIBLK, the rock and metal division of Frontiers Label Group. This new chapter seems directly reflected in the sound of the record, which embraces a more straightforward, fuller-bodied approach heavily rooted in hard rock while still preserving the gothic identity that has always defined the band.

Another element that stands out is the EP’s production and sonic atmosphere. The mix, handled by Barry Pointer known for his work alongside Ozzy Osbourne reinforces a broad and almost cinematic ambiance, especially noticeable on the title track. There is a sense of depth and dramatization in the instrumental layers that amplifies the nocturnal, melancholic, and decadent aesthetic that The 69 Eyes have mastered so well over the years.

There is constant discussion nowadays about the need for innovation within rock and metal, but there is an important difference between stagnation and artistic coherence. For an EP, especially from a band with such a consolidated aesthetic as The 69 Eyes, refining their own formula makes far more sense than forcing an artificial reinvention. I Survive understands this perfectly: it does not attempt to reinvent the band, but rather reinforces everything they have always done well.

The title track, “I Survive,” makes that clear from its very first moments. Its dark and melancholic atmosphere strongly recalls post-punk influences, especially through the drawn-out vocal lines and the nearly cinematic nocturnal mood. At the same time, the song maintains the accessible balance between gothic rock, hard rock, and decadent glam that has always characterized the band’s sound. There are even clear echoes of "Wasting the Dawn" (1999) in the way the atmosphere is constructed, particularly in the contrast between dark sensuality and heavier guitar textures.

From a technical perspective, the track is built around simple yet highly effective riffs, supported by a solid rhythm section and a steady pacing that enhances the melancholic atmosphere without sacrificing its hook-driven appeal. The participation of Steve Stevens best known for his work with Billy Idol adds even more personality to the song, particularly through guitar details that strengthen its classic hard rock edge.

Jyrki 69’s vocals deserve special recognition throughout the EP. His performance feels comfortable, mature, and fully confident within the band’s musical proposal. There is a dramatic quality typical of classic gothic rock in his delivery, though it never sounds artificial or exaggerated. On the contrary, his voice remains one of the central pillars of the identity The 69 Eyes have built over the decades.

On “Cold Sweat,” originally released by Thin Lizzy and later revisited by bands such as Megadeth and Helloween, The 69 Eyes wisely choose to preserve the hard rock essence of the composition. Rather than completely reshaping the song into an exaggerated gothic framework, the band subtly incorporates elements of its own identity without stripping away the spirit of the original version. The result is a solid cover featuring vibrant guitars and a performance that respects the song’s classic energy.

On “Cold Sweat,” originally released by Thin Lizzy and later revisited by bands such as Megadeth and Helloween, The 69 Eyes wisely choose to preserve the hard rock essence of the composition. Rather than completely reshaping the song into an exaggerated gothic framework, the band subtly incorporates elements of its own identity without stripping away the spirit of the original version. The result is a solid cover featuring vibrant guitars and a performance that respects the song’s classic energy.

“In the Misery” may be the moment where the EP most explicitly showcases the band’s DNA. The vampiric decadence, dark romanticism, and nocturnal urban aesthetic all emerge in an almost emblematic way, particularly through the melancholic atmosphere built around the song. Musically, unlike some of the EP’s slower and more restrained moments, the guitars here are sharper and more prominent, driving the track firmly forward while the instrumentation maintains an obscure and melancholic aura. The solo carries a distinctly classic hard rock feel, adding even more personality without disrupting the decadent atmosphere that defines the song’s identity. It is precisely this balance between heaviness, melancholy, and vampiric theatricality that turns “In the Misery” into a true portrait of The 69 Eyes’ essence.

However, it is on “Devil’s Rose” that the EP reaches its strongest moment. Leaning much more heavily into hard rock than the other tracks, the song closes the record in an energetic fashion without abandoning the band’s gothic identity. The participation of legendary American guitarist Ed Mundell, formerly of Monster Magnet, adds even more power to the composition. His guitar work shines throughout the track, incorporating characteristic stoner rock elements through thick riffs, striking solos, and a strong sense of feel, while still respecting the sonic universe of The 69 Eyes. Bazie’s guitars also deserve praise, working in perfect synergy with Mundell’s contributions and creating one of the EP’s strongest instrumental moments. Meanwhile, Jyrki 69 delivers a performance filled with dark charisma and presence, further reinforcing the band’s personality. The result is an intense, energetic, and highly effective closing track.

In the end, I Survive is not a revolutionary release nor does it need to be. The EP succeeds because it fully understands the band’s identity and never tries to escape from it. Between dark melodies, accessible riffs, and a decadent atmosphere that feels pulled directly from gothic clubs of the ‘80s and ‘90s, The 69 Eyes deliver a solid, technically consistent work that remains completely faithful to its own identity. For longtime fans, it is a comfortable reunion with everything that made the band special in the first place. For newer listeners, it may serve as an intriguing invitation into this world suspended between hard rock and the romantic darkness of gothic rock.

Marek Sabogal


terça-feira, 14 de abril de 2026

Temple Balls: Mais Afiado Do Que Nunca

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Os finlandeses do Temple Balls dão mais um passo consistente em sua trajetória com o lançamento de Temple Balls, álbum autointitulado que consolida a evolução iniciada em Avalanche (2023). Mais uma vez sob a produção de Jona Tee (H.E.A.T), o grupo apresenta um trabalho que equilibra com precisão energia e refinamento, apostando em uma combinação eficaz de refrões fortes, guitarras afiadas e uma base rítmica sólida.

Logo na abertura, “Flashback Dynamite” estabelece o tom do disco com sua abordagem direta e um refrão de fácil assimilação, evidenciando a habilidade da banda em trabalhar melodias acessíveis sem abrir mão do peso. Na sequência, “Lethal Force” desacelera levemente o andamento, mas reforça a identidade sonora do álbum, destacando o timbre vocal de Arde Teronen e um trabalho de guitarras que já aponta para a coesão do conjunto.

“Tokyo Love” surge como um dos momentos mais cativantes do repertório, com linhas de baixo que ganham protagonismo e uma atmosfera que remete ao Edguy de sua fase mais inspirada. Já “There Will Be Blood” introduz elementos eletrônicos de forma mais evidente, com teclados e timbres que evocam o Turbo, do Judas Priest, ampliando o espectro sonoro do disco sem comprometer sua essência.

O single “We Are The Night” sintetiza bem essa proposta híbrida, transitando entre referências do rock norte-americano e uma abordagem mais moderna, enriquecida por arranjos de teclado e até mesmo um inesperado solo de sax. Em contrapartida, “Hellbound” resgata a veia mais agressiva da banda, com uma pegada que flerta com o Motörhead e entrega uma das performances mais intensas do álbum.

Na segunda metade, o grupo mantém a consistência. “Soul Survivor” aposta no hard rock mais tradicional, com foco em linhas vocais fortes e um refrão pensado para o público. “The Path Within” e “Stronger Than Fire” reforçam a coesão estética do trabalho, equilibrando elementos melódicos e estruturas bem definidas, enquanto “Chasing The Madness” retoma a velocidade e o peso, reafirmando a versatilidade do quinteto.

Encerrando o álbum, “Living In A Nightmare” funciona como uma síntese de suas influências, dialogando com nomes clássicos do hard and heavy europeu como Judas Priest, Black Sabbath e Rainbow. É um fechamento que não apenas respeita a tradição do gênero, mas também evidencia a maturidade de uma banda que parece cada vez mais confortável em expandir seus próprios limites.

Com Temple Balls, o grupo finlandês entrega um trabalho coeso, dinâmico e estrategicamente construído, reforçando sua posição dentro do cenário contemporâneo do hard rock melódico e apontando para voos ainda mais ambiciosos.

***ENGLISH VERSION***

Finnish hard rockers Temple Balls take another confident step forward with their self-titled release, Temple Balls, a record that solidifies the sonic evolution first showcased on Avalanche (2023). Once again produced by Jona Tee (H.E.A.T), the album finds the band striking a fine balance between raw energy and polished songwriting, built on infectious hooks, sharp guitar work, and a powerful rhythmic backbone.

Opening track “Flashback Dynamite” wastes no time in setting the tone, delivering a straight-ahead punch with a highly memorable chorus that highlights the band’s knack for crafting accessible yet hard-hitting material. “Lethal Force” follows with a slightly more restrained pace, but further reinforces the album’s cohesive identity, with Arde Teronen’s distinctive vocal tone and a guitar-driven approach that begins to tie the record together.

“Tokyo Love” stands out as one of the album’s most engaging moments, driven by prominent bass lines and a melodic sensibility reminiscent of Edguy at their peak. Meanwhile, “There Will Be Blood” expands the band’s sonic palette with a stronger electronic edge, featuring keyboard textures and guitar tones that echo Judas Priest’s Turbo era, adding variety without straying from the core sound.

The single “We Are The Night” encapsulates this hybrid approach, shifting between American rock influences and a more modern, keyboard-laden arrangement—complete with an unexpected saxophone solo that adds an extra layer of character. In contrast, “Hellbound” taps into a heavier, more aggressive vein, channeling a Motörhead-like intensity and delivering one of the album’s most hard-hitting performances.

The second half maintains the album’s consistency. “Soul Survivor” leans into classic hard rock territory, with strong vocal lines and a chorus clearly designed for audience participation. “The Path Within” and “Stronger Than Fire” further underline the record’s cohesion, balancing melodic elements with solid structural songwriting, while “Chasing The Madness” brings back the speed and metallic edge, showcasing the band’s versatility.

Closing track “Living In A Nightmare” serves as a fitting summary of the band’s influences, drawing from the legacy of European hard and heavy icons such as Judas Priest, Black Sabbath, and Rainbow. It’s a finale that not only pays tribute to the genre’s roots but also highlights a band growing increasingly confident in pushing its own boundaries.

With Temple Balls, the Finnish outfit delivers a cohesive, dynamic, and strategically crafted album that strengthens their standing within the contemporary melodic hard rock scene—and suggests even bigger things ahead.

Marko Syrjala