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sábado, 15 de agosto de 2026

The Eternal: Horizontes Obscuros (Also In English)

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Há algo de paradoxal em Obscured Horizons. O oitavo álbum do The Eternal é, sem dúvida, uma obra mergulhada na escuridão, mas não se trata de um disco derrotista. Pelo contrário: por trás das guitarras pesadas, das atmosferas melancólicas e das paisagens progressivas existe uma insistente sensação de movimento — como se cada momento de desolação apontasse, ainda que discretamente, para algum lugar além dela.

Desde Skinwalker (2024), o The Eternal vem refinando uma identidade que combina dark metal, gothic, doom e progressivo sem permitir que nenhum desses elementos domine completamente a composição. Obscured Horizons representa um passo adiante nesse processo. A banda amplia suas dimensões sonoras, mas preserva aquilo que sempre foi seu maior trunfo: a capacidade de transformar peso em emoção.

A abertura, “Lament For The Hollow”, estabelece imediatamente o tom. Não há pressa em revelar todas as cartas. O The Eternal constrói tensão através de camadas de guitarras, atmosferas densas e da interpretação de Mark Kelson, cuja voz continua sendo um dos elementos mais reconhecíveis da banda. “Existing To Expire” aprofunda essa sensação, equilibrando melancolia e intensidade em uma composição que sintetiza bem a proposta do álbum.

“Colours Fade” acrescenta outra dimensão ao disco. A música começa de maneira mais contemplativa antes de ganhar corpo, mostrando que o The Eternal entende dinâmica como algo mais importante do que simplesmente alternar momentos pesados e suaves. A banda trabalha com espaços, texturas e mudanças graduais, criando uma sensação quase cinematográfica.

Mas é justamente quando o grupo abandona parte desse controle que Obscured Horizons se torna mais interessante. “Liminality” surge como um dos momentos de maior impacto, introduzindo guitarras mais agressivas e vocais que acrescentam uma dose de brutalidade ao repertório. É uma faixa que quebra a previsibilidade e demonstra que o The Eternal ainda possui algumas cartas escondidas na manga.

A faixa-título mantém a densidade característica do álbum, enquanto “Yesterday’s Gone” expande sua dimensão progressiva. Aqui, a banda parece menos preocupada em criar um single imediato e mais interessada em desenvolver uma narrativa musical. O resultado é um disco que recompensa a audição integral — algo cada vez menos comum em uma época dominada pela lógica das faixas isoladas.

No centro de tudo está Mark Kelson. Sua interpretação raramente busca o exibicionismo; sua força está justamente na capacidade de transmitir vulnerabilidade sem transformar a música em melodrama. As guitarras de Kelson e Richie Poate, por sua vez, funcionam tanto como instrumento de peso quanto como elemento atmosférico, enquanto Niclas Etelävuori e Jan Rechberger fornecem uma base suficientemente sólida para que as composições possam respirar e evoluir.

É importante, entretanto, não confundir sofisticação com reinvenção. Obscured Horizons não representa uma ruptura radical com o passado do The Eternal. Grande parte de sua força está justamente no aperfeiçoamento de uma fórmula que a banda vem desenvolvendo há anos. A diferença é que agora ela parece mais segura de como utilizar seus diferentes componentes.

O álbum também se beneficia de sua coerência temática. A ideia de enfrentar desilusão, identidade fragmentada e a dificuldade de distinguir realidade e ilusão atravessa as composições sem transformar o disco em um manifesto conceitual excessivamente explícito. A escuridão está presente, mas não existe uma glorificação da própria decadência. Há sempre uma possibilidade de saída.

E é essa perspectiva que impede Obscured Horizons de se transformar em mais um exercício previsível de melancolia. O The Eternal entende que tristeza e esperança não são necessariamente opostos. Em sua música, elas coexistem.

“Awaken”, responsável por encerrar o álbum, resume essa trajetória. Depois de atravessar nove faixas marcadas por conflitos internos, peso e introspecção, o The Eternal não oferece uma conclusão triunfalista. O despertar sugerido pelo título é mais humano do que épico: não significa eliminar a escuridão, mas finalmente aprender a enxergar através dela.

Se Skinwalker marcou o início de uma nova fase e Celestial serviu como uma expansão dessa identidade, Obscured Horizons soa como o momento em que essas experiências finalmente encontram uma forma mais madura. Não é necessariamente o álbum mais pesado ou mais progressivo da carreira do The Eternal — e talvez nem precise ser. Sua ambição está em outro lugar: criar uma obra emocionalmente consistente, capaz de transformar atmosferas sombrias em uma narrativa sobre sobrevivência, consciência e renovação.

O horizonte pode estar obscurecido. Mas, para o The Eternal, isso não significa que tenha deixado de existir.


***ENGLISH VERSION***

There is something paradoxical about Obscured Horizons. The Eternal’s eighth album is undoubtedly a work immersed in darkness, but it is by no means a defeatist record. Quite the opposite: behind the heavy guitars, melancholic atmospheres and progressive landscapes lies a persistent sense of movement — as if every moment of desolation, however subtly, were pointing towards somewhere beyond it.

Since Skinwalker (2024), The Eternal have been refining an identity that combines dark metal, gothic, doom and progressive elements without allowing any one of them to completely dominate the compositions. 

Obscured Horizons represents another step forward in that process. The band expands its sonic dimensions while preserving what has always been its greatest strength: the ability to transform heaviness into emotion.

The opening track, “Lament For The Hollow”, immediately establishes the tone. There is no rush to reveal all the cards. The Eternal builds tension through layers of guitars, dense atmospheres and Mark Kelson’s performance, his voice remaining one of the band’s most recognisable features. “Existing To Expire” deepens that feeling, balancing melancholy and intensity in a composition that effectively encapsulates the album’s overall approach.

“Colours Fade” adds another dimension to the record. The song begins in a more contemplative fashion before gradually gaining weight, demonstrating that The Eternal understand dynamics as something far more important than simply alternating heavy and softer passages. The band works with space, texture and gradual shifts, creating an almost cinematic sensation.

Yet it is precisely when the band relinquishes some of that restraint that Obscured Horizons becomes most compelling. “Liminality” emerges as one of the album’s most powerful moments, introducing more aggressive guitars and vocals that inject an additional dose of brutality into the material. It is a track that breaks the sense of predictability and proves that The Eternal still have a few cards hidden up their sleeves.

The title track maintains the album’s characteristic density, while “Yesterday’s Gone” expands its progressive dimension. Here, the band seems less concerned with creating an immediate single and more interested in developing a musical narrative. The result is a record that rewards a complete listen — something increasingly uncommon in an era dominated by the logic of individual tracks.

At the centre of it all is Mark Kelson. His performance rarely seeks to impress through sheer showmanship; its strength lies precisely in his ability to convey vulnerability without allowing the music to descend into melodrama. Kelson and Richie Poate’s guitars, meanwhile, function both as instruments of weight and as atmospheric elements, while Niclas Etelävuori and Jan Rechberger provide a sufficiently solid foundation for the compositions to breathe and evolve.

It is important, however, not to confuse sophistication with reinvention. Obscured Horizons does not represent a radical break with The Eternal’s past. Much of its strength lies precisely in the refinement of a formula the band have been developing for years. The difference is that they now appear more confident in how to deploy each of its components.

The album also benefits from its thematic coherence. The idea of confronting disillusionment, fractured identity and the difficulty of distinguishing reality from illusion runs through the compositions without turning the record into an overly explicit conceptual manifesto. Darkness is ever-present, but there is no glorification of decay itself. There is always a way out.

And it is this perspective that prevents Obscured Horizons from becoming yet another predictable exercise in melancholy. The Eternal understand that sadness and hope are not necessarily opposites. In their music, they coexist.

“Awaken”, the album’s closing track, encapsulates this journey. After traversing nine songs marked by inner conflict, heaviness and introspection, The Eternal offer no triumphant conclusion. The awakening suggested by the title is more human than epic: it is not about eliminating the darkness, but finally learning to see through it.

If Skinwalker marked the beginning of a new phase and Celestial served as an expansion of that identity, Obscured Horizons feels like the moment when those experiences finally take on a more mature form. It is not necessarily the heaviest or most progressive album of The Eternal’s career — and perhaps it does not need to be. Its ambition lies elsewhere: to create an emotionally cohesive work capable of transforming dark atmospheres into a narrative about survival, awareness and renewal.

The horizon may be obscured. But for The Eternal, that does not mean it has ceased to exist.

AJ Savolainen

domingo, 28 de junho de 2026

Soturno, Maduro e Baudelairiano: Moonspell Reconquista a Essência do Metal Gótico em Far From God


Por: Michelle Santana
Fotos: Divulgação 
Selo: Napalm Records

A banda portuguesa de Gothic/Dark Metal formada em 1992, consolidou sua carreira através de composições marcadas por temas como ocultismo, poesia, melancolia e erotismo, tornando-se uma das maiores referências do gênero. Agora, o grupo chega ao seu 14º álbum de estúdio, "Far From God".

Embora as comparações com Irreligious (1997) sejam inevitáveis, "Far From God" está longe de ser uma mera cópia daquele clássico. As semelhanças aparecem principalmente na melancolia que permeia a obra e em suas temáticas sombrias, mas a execução segue um caminho próprio, marcado por uma abordagem mais sóbria e madura. 

Ao mesmo tempo, o álbum resgata parte da sensibilidade romântica e decadente que remete à poesia de Charles Baudelaire, influência que se revela tanto nas letras quanto na construção emocional das canções.

Em vez de apostar em grandes arranjos ou momentos excessivamente dramáticos, o Moonspell constrói sua identidade através de uma instrumentação cuidadosamente equilibrada. 

As guitarras de Ricardo Amorim ocupam posição de destaque, explorando afinações mais baixas e linhas minimalistas que acrescentam peso sem comprometer a elegância característica da banda. Os solos surgem com forte influência do gothic rock clássico, funcionando como extensões naturais das melodias e contribuindo para a paisagem sonora contemplativa que atravessa o disco.

A influência oitentista é perceptível ao longo de toda a obra, especialmente na forma como as composições priorizam clima e emoção em vez de impacto imediato. Ainda existem os teclados de Pedro Paixão, que dá o elemento atmosférico, enriquecendo os arranjos, mas eles são utilizados com moderação, sempre a serviço das canções e nunca como protagonistas.

Fernando Ribeiro entrega uma de suas performances mais consistentes dos últimos anos. Seu vocal soa mais controlado e introspectivo do que em alguns momentos de Irreligious, privilegiando interpretação e nuance em vez de teatralidade. Essa abordagem combina perfeitamente com o caráter do álbum, reforçando a sensação de maturidade presente em cada faixa.

"Far From God" demonstra a capacidade do Moonspell de revisitar aspectos fundamentais de sua identidade sem se tornar refém deles. O resultado é um trabalho que conversa com uma das fases mais celebradas da banda, mas encontra vigor suficiente para caminhar com personalidade própria.

Entre os destaques do álbum, "Cross Your Heart" é provavelmente uma das faixas que mais abraça a proposta do rock gótico oitentista. Guitarras carregadas de texturas e efeitos modulados, aliadas a bateria de Hugo Ribeiro, que dão contorno à composição e reforçam sua identidade. 

A letra já estabelece seu tom melancólico logo nos versos iniciais — "Crosses and flowers by the side of the road" — conduzindo o ouvinte a uma paisagem fúnebre e contemplativa. Uma passagem falada acrescenta profundidade à música, enquanto seu ritmo envolvente e levemente dançante faz dela uma forte candidata a se tornar um dos pontos altos das apresentações ao vivo.

A faixa-título, "Far From God", surge de forma intimista, com vocais falados e quase sussurrados acompanhados por teclados que estabelecem uma ambiência sombria desde os primeiros instantes. Fernando Ribeiro adota uma interpretação sóbria e controlada, enquanto o baixo de Aires Pereira, é marcante e característico do gothic rock, assume papel de destaque na construção da música. 

Liricamente, a faixa introduz com maestria a forte influência de Charles Baudelaire que permeia a obra. A composição transborda o conceito do amor baudelairiano, onde o afeto caminha lado a lado com a decadência, a culpa existencial e um romantismo sombrio. O resultado é uma canção nostálgica, fortemente ancorada na poesia maldita e nos elementos tradicionais do gênero.

Já "The Great Wolf in the Sky" representa o ponto alto do álbum. A faixa se desenvolve sobre uma ambientação soturna e densa, na qual instrumentos e vocais trabalham em perfeita sintonia para sustentar a proposta emocional da composição. Os teclados desempenham papel fundamental na construção do clima da música, enquanto uma passagem com vocais mais rasgados adiciona intensidade sem recorrer à teatralidade que marcou alguns trabalhos anteriores da banda. O violino presente nos momentos finais amplia ainda mais a carga dramática da faixa, encerrando-a de forma memorável.

"For the Love of Mortals" é, possivelmente, a composição mais atmosférica do disco, mergulhando de cabeça no romantismo trágico que define o conceito lírico do trabalho. A interpretação vocal permanece contida e melancólica, mas aqui são as guitarras que roubam a cena. Os solos carregam grande parte do peso emocional da música, enquanto a bateria atua de forma precisa, preenchendo os espaços e tornando a experiência ainda mais envolvente.

A mais pesada das composições é "Our Freedom to Fall", faixa que também remete de forma mais evidente à era Irreligious. Alternando vocais limpos e passagens guturais, a música apresenta uma intensidade emocional muito bem expressa por Fernando Ribeiro. Sua performance confere personalidade à faixa e amplifica o impacto de seus momentos mais sombrios.

O encerramento do álbum fica a cargo da faixa "Reconquista", que inicia com vocais rasgados que transmitem a revolta e a carga emocional exigidas pela composição. A atmosfera é densa, intensa e carregada de tensão, enquanto uma passagem falada em português acrescenta identidade e autenticidade à música. 

Trata-se de um recurso recorrente na trajetória do Moonspell, reafirmando que a banda jamais abandonou suas raízes portuguesas. O próprio título parece sugerir uma dupla missão: a reconquista do território sagrado do metal gótico clássico e a reafirmação de sua própria soberania cultural e identidade lusitana.

Segundo os próprios integrantes, Far From God foi concebido com simplicidade musical, mas grande complexidade emocional. Fernando Ribeiro comentou sobre as dificuldades criativas enfrentadas durante o período da pandemia, e esse peso emocional parece ecoar em cada faixa do álbum. Ao mesmo tempo, o trabalho soa como um verdadeiro manifesto em defesa do metal gótico, reafirmando a relevância de um gênero que raramente ocupa posição de destaque no cenário contemporâneo.

O resultado é um álbum profundamente nostálgico, mas que evita a armadilha da mera repetição. Carregado de melancolia, romantismo, decadência e imagética vampírica, Far From God abandona boa parte das reflexões filosóficas e sociais presentes em Hermitage (2021) para mergulhar de cabeça na estética gótica que ajudou a consagrar o Moonspell. 

Sóbrio, soturno e emocionalmente denso, o disco encontra um equilíbrio admirável entre tradição e maturidade, oferecendo aos fãs do gênero uma obra que honra o passado sem deixar de possuir identidade própria.



********ENGLISH VERSION*********


Gloomy, Mature, and Baudelairean: Moonspell Reclaims the Essence of Gothic Metal on Far From God



By: Michelle Santana
Photos: Courtesy
Label: Napalm Records


Moonspell, the Portuguese  Gothic/Dark Metal band formed in 1992, established its career through compositions marked by themes such as occultism, poetry, melancholy, and eroticism, becoming one of the most influential acts in the genre. Now, the group arrives with its fourteenth studio album, "Far From God".

While comparisons to Irreligious (1997) are inevitable, Far From God is far from being a mere copy of that classic. The similarities lie mainly in the melancholy that permeates the record and its dark themes, but the execution follows its own path, marked by a more restrained and mature approach. 

At the same time, the album revives part of the romantic and decadent sensibility associated with the poetry of Charles Baudelaire, an influence that reveals itself both in the lyrics and in the emotional construction of the songs.

Rather than relying on grand arrangements or excessively dramatic moments, Moonspell builds its identity through carefully balanced instrumentation. Ricardo Amorim's guitars take center stage, exploring lower tunings and minimalist lines that add weight without compromising the band's characteristic elegance. The solos draw heavily from classic gothic rock, functioning as natural extensions of the melodies and contributing to the contemplative sonic landscape that runs throughout the album.

The influence of the 1980s is evident across the entire record, particularly in the way the compositions prioritize atmosphere and emotion over immediate impact. Pedro Paixão's keyboards continue to provide the album's atmospheric dimension, enriching the arrangements while being used with restraint, always serving the songs rather than dominating them.

Fernando Ribeiro delivers one of his most consistent performances in years. His vocals sound more controlled and introspective than in certain moments of Irreligious, favoring interpretation and nuance over theatricality. This approach perfectly complements the character of the album, reinforcing the sense of maturity present in every track.

"Far From God" demonstrates Moonspell's ability to revisit fundamental aspects of its identity without becoming trapped by them. The result is a work that engages with one of the band's most celebrated eras while possessing enough vitality to move forward with a distinct personality of its own.

Among the album's highlights, "Cross Your Heart" is probably one of the tracks that most fully embraces the spirit of 1980s gothic rock. Textured guitars layered with modulation effects, combined with Hugo Ribeiro's drumming, help shape the composition and reinforce its identity. 

The lyrics establish their melancholic tone immediately with the opening line, "Crosses and flowers by the side of the road," leading the listener into a funeral-like and contemplative landscape. A spoken-word passage adds depth to the song, while its engaging and subtly danceable rhythm makes it a strong contender to become one of the highlights of the band's live performances.

The title track, "Far From God," unfolds in an intimate manner, with spoken and nearly whispered vocals accompanied by keyboards that establish a dark atmosphere from the very beginning. Fernando Ribeiro adopts a restrained and controlled performance, while Aires Pereira's bass, prominent and deeply rooted in gothic rock tradition, plays a key role in shaping the song. 

Lyrically, the track masterfully introduces the strong influence of Charles Baudelaire that permeates the album. The composition overflows with the concept of Baudelairean love, where affection walks hand in hand with decadence, existential guilt, and dark romanticism. The result is a nostalgic song firmly anchored in cursed poetry and the traditional elements of the genre.

"The Great Wolf in the Sky" stands as the album's high point. The song develops through a gloomy and dense atmosphere in which instruments and vocals work in perfect harmony to sustain its emotional purpose. 

The keyboards play a fundamental role in shaping the song's mood, while a passage featuring harsher vocals adds intensity without resorting to the theatricality that characterized some of the band's earlier works. The violin that emerges toward the end amplifies the song's dramatic impact even further, bringing it to a memorable conclusion.

"For the Love of Mortals" is arguably the most atmospheric composition on the album, diving headfirst into the tragic romanticism that defines its lyrical concept. The vocal performance remains restrained and melancholic, but here it is the guitars that steal the spotlight. The solos carry much of the song's emotional weight, while the drumming acts with precision, filling the spaces and making the experience even more immersive.

The heaviest composition on the album is "Our Freedom to Fall," a track that also bears the strongest resemblance to the Irreligious era. Alternating between clean vocals and guttural passages, the song presents an emotional intensity masterfully expressed by Fernando Ribeiro. His performance gives the track its personality and amplifies the impact of its darkest moments.

The album closes with "Reconquista," which opens with harsh vocals that convey the anger and emotional charge demanded by the composition. The atmosphere is dense, intense, and filled with tension, while a spoken passage in Portuguese adds identity and authenticity to the track. 

It is a recurring element throughout Moonspell's career, reaffirming that the band has never abandoned its Portuguese roots. The title itself seems to suggest a dual mission: the reconquest of gothic metal's sacred territory and the reaffirmation of its own cultural sovereignty and Lusitanian identity.

According to the band members themselves, Far From God was conceived with musical simplicity but emotional complexity. Fernando Ribeiro has spoken about the creative difficulties the band faced during the pandemic years, and that emotional burden seems to echo throughout the album. At the same time, the record feels like a true manifesto in defense of gothic metal, reaffirming the relevance of a genre that rarely occupies a prominent place in today's musical landscape.

The result is a deeply nostalgic album that avoids the trap of mere repetition. Filled with melancholy, romanticism, decadence, and vampiric imagery, Far From God leaves behind much of the philosophical and social reflection found on Hermitage (2021) and dives headfirst into the gothic aesthetic that helped establish Moonspell's legacy.

Restrained, gloomy, and emotionally dense, the album achieves an admirable balance between tradition and maturity, offering fans of the genre a work that honors the past while maintaining a strong identity of its own.

Moonspell Site 
Napalm Records 
Primotion All Noir





sexta-feira, 13 de junho de 2025

Finita: Uma Viagem Musical Pesada, Melódica, Sombria e Intrigante,

 



Completando seus 15 anos de existência neste 2025, a Finita, oriunda de Santa Maria RS, comemora essa marca com o lançamento do seu segundo full-lenght nesta sexta-feira 13 de junho.

Antes de começar a ouvir o álbum “Children of the Abyss” eu recomendo aos ouvintes terem em mente que a Finita entrega “conceito”, e o rótulo Dark Metal, embora até de certa forma adequado, pode limitar o entendimento do que lhe espera, musicalmente falando. 

A sonoridade do Finita traz elementos diversos do Metal, principalmente do lado mais extremo e, digamos, mais obscuro, como Death, Black, Gothic e Doom Metal, além de elementos sinfônicos e “cinematográficos”. 


Como referência podemos citar nomes surgidos ali nos anos 90, como Dimmu Borgir, Limbonic Art, Cradle of Filth, Tristania, Crematory e a cultuada Imago Mortis e seu Doom Metal/Philosophy.

Naturalmente, para uma audição mais ampla, é primordial ter em mãos as letras e o resumo da alegoria conceitual do álbum, criada pelo guitarrista Bruno Portela, a qual a banda apresenta como “uma mitologia própria que se entrelaça com referências filosóficas, religiosas e literárias”. 

O conceito central do álbum a banda explana que pode ser entendido como um momento em que as almas jovens (as “crianças do abismo”) contam sua própria história, enquanto os deuses, seus “pais”, estão ausentes.


E nesse enredo um panorama caótico se instaura, onde o fantástico se entrelaça com o trágico e o sagrado, temos a segunda guerra dos anjos, Lúcifer retorna ao portal de onde foi expulso e desencadeia uma interferência de grandes proporções (percebemos aí que há uma ligação com os dois EPs da banda), as leis naturais entram em colapso, o tempo e o espaço se distorcem, e o sobrenatural invade o plano terreno. 

Esse evento singular permite o retorno da magia ancestral, a presença de entidades mitológicas e o despertar da bruxaria.

Resumo este que coloco aqui como sendo a “orelha do livro”. 

Segundo a banda, cada faixa do álbum aborda uma perspectiva diferente: a dissonância entre os mundos reabre também o Portal do Esquecimento, e são narradas por diversas vozes, ilustrando os pontos de vista do homem comum, das bruxas e do filósofo, por exemplo.

A gravação e produção no estúdio Fusão, de Thiago Bianchi, está excelente, e podemos ouvir todos os instrumentos claramente, com as guitarras bem “na cara”. 

A maturidade e qualidade dos músicos entrega um instrumental equilibrado entre técnica e feeling, e as nuances teatrais e cinematográficas da sonoridade complementam-se magistralmente à performance vocal da versátil  Luana Palma, uma força da natureza, que transita pelo lírico, gutural e vozes mais limpas, interpretando as canções e dando vida aos personagens.



O álbum possui 11 faixas, e nos levam a uma viagem musical densa, emocional, pesada e intrigante, passeando pelas influências e elementos que já citei acima, que transitam pelo Metal Extremo e Gothic/Symphonic, com muita teatralidade - às vezes me vem Tim Burton a mente - e musicalidade.

Do peso caótico e sinfônico, entrecortados por momentos mais introspectivos e sombrios, como em “Goddess of Disharmony”, “Fortuna” (com a letra toda em português) e “War Curse”, que finda com um solo melódico e inspirado de Bruno Portela, passando pela teatralidade de “Witches Laught”, a qual alterna trechos melódicos à passagens mais agressivas, o Finita vai envolvendo o ouvinte.

Luana transita por nuances diversas de sua voz, destacando a citada faixa acima. O vídeo da música inclusive causou impacto, e caso não tenha conferido, veja o link ao fim da matéria.

Na já conhecida “Quicksand”, um dos singles que precederam o álbum, conferimos mais da capacidade de Luana em interpretar e transitar por nuances diversas, em uma música onde a banda nos apresenta melodias orientais, cozinha com Groove, e vale ressaltar que os teclados preenchem os climas e camadas com maestria durante o álbum. 

Temos momentos mais densos, sinfônicos e que combinam paisagens sonoras atmosféricas com passagens agressivas, criando uma tensão constante, como em “Gates of Oblivion”, uma excelente amostra da qualidade e capacidade do quinteto.


O mérito da Finita está em apresentar diversas camadas, onde cada um pode encontrar significados diferentes ou mais profundos e te prender e transportar para dentro de cada narrativa.

Um trabalho forte e bem construído lírica e musicalmente, onde os elementos se sustentam e entregam uma viagem musical pesada, melódica, sombria, intrigante, e acima de tudo empolgante.

A história é ampla para a duração do álbum, e pelo que sei a banda planeja lançar um livro, onde a teremos por completo. Seria algo muito interessante, um diferencial a mais, para um trabalho que se mostra de alto nível, e acima da média. Confira, mergulhe e aprofunde-se no mundo da Finita, uma das melhores bandas do Metal nacional na atualidade.

Texto: Caco Garcia
Fotos: Divulgação 

Banda: Finita
Álbum: Children of the Abyss (2025)
Estilo: Dark Metal 
País: Brasil

Formação:
Luana Palma (Vocal)
Bruno Portela (Guitarra)
Fernando Back (Baixo)
Guilherme Pereira (Teclado)
Pablo Castro (Bateria)

Tracklist
Womb of the Night 
Goddess of Disharmony 
War Curse
Witch’s Laugh.
Quicksand
Dead Seeds
Fortuna
Sketch Art
Prophecy
Gates of Oblivion
Mermaid Melody



CONTATOS E REDES SOCIAIS

Email: finita.rs@gmail.com
Assessoria de Imprensa: hellyeahassessoria@gmail.com







sábado, 17 de junho de 2023

Garganta do Diabo Festival: Tradicional Evento de Metal no Interior do RS Retorna em Edição Comemorativa


Criado em 2008, o festival foi batizado Garganta do Diabo por ser um nome forte e por fazer alusão ao imenso e alto vale, que liga a cidade sede do evento, Santa Maria, ao município vizinho de Itaara. Sobre o vale há uma ponte curva, a qual também é atração na bela e assustadora vista.

O festival teve seis edições anteriores, acontecendo de 2008 a 2012 (em 2011 houveram duas edições, em abril e dezembro), passando pelo evento nomes conhecidos no cenário regional, nacional e até mundial, como por exemplo Dark Funeral, Symphony Draconis, Red Front, Nervochaos, Vakan, Amen Corner, A Sorrowful Dream e outros.

Com organização elogiada pelo público e bandas, muito lamentou-se o hiato que o festival teve desde a última edição, fazendo muita falta ao cenário Metal do interior do RS.

Mas renascido das profundezas da Garganta do Diabo, o festival que leva o mesmo nome do grandioso vale, retorna para uma edição comemorativa de 15 anos, que se realizará dia 27/10/2023, trazendo um cast matador, reunindo quatro nomes potentes da cena do Metal Extremo.


A primeira banda anunciada foi o representante da cena local, a FINITA (Dark Metal), que foi fundada em 2010. O grupo mescla influências do Gothic e Death Metal, utilizando vocais líricos, limpos e guturais. Atualmente estão divulgando o EP "Above The Chaos", lançado no final do ano passado.


A segunda atração é o FUNERATUS, fundado em SP em 1993, faz um Death Metal tradicional e brutal, angariando muitos seguidores nesses 30 anos de carreira, tornando-se uma das mais tradicionais forças do estilo no Brasil.

O grupo tem no currículo um álbum adorado pelos fãs do Metal da morte, "Accept The Death" de 2018, que foi mixado na Alemanha por Andy Classen.


A terceira atração, não seria exagero dizer, é uma das mais importantes bandas do Metal extremo brasileiro, o NERVOCHAOS (Death/Grande/Thrash Metal), que está desde 1996 na estrada, e inclusive já tocou no fest, retorna a Santa Maria para mostrar a força da nova formação e de seu recém lançado 11° álbum de estúdio, "Chthonic Wrath".


O nome estrangeiro que vem somar ao pesadíssimo line-up é o MORK da Noruega, formado em 2004, e tendo como mentor o multi-instrumentista Thomas Eriksen.

A banda é considerada parte da nova geração do Black Metal norueguês, mas possui influências da cena dos anos 90 do estilo, porém buscando inovação a cada álbum. Os temas líricos são voltados ao ocultismo, paganismo, natureza e misantropia. 


Não por acaso, o MORK faz parte do cast de um dos mais tradicionais e importantes selos de Metal Extremo mundial, o Peaceville Records, e vem à América do Sul na tour de divulgação do seu mais recente trabalho, "Dypet" (2023),o sexto full-lenght de uma discografia que possui vários EPs, Splits e Singles.


Um cast muito especial, artilharia pesada de Metal Extremo para movimentar os bangers do interior e capital, em uma edição que além de comemorativa, pretende também marcar história pelos nomes de peso, e quem sabe abrir novas portas para a continuidade e crescimento deste e de outros festivais no interior do Rio Grande do Sul.

O evento acontecerá do dia 27/10/2023, no Clube Comercial de Santa Maria, e os ingressos já podem ser adquiridos.

Confira informações sobre local e ingressos no cartaz abaixo e acompanhe as atualizações através do perfil oficial do evento @gargantadodiabofestival e pelo nosso site e Instagram @road_to_metal.











sábado, 1 de abril de 2023

Entrevista - Fernando Ribeiro (Moonspell)

 


O maior expoente do Metal de Portugal, o Moonspell, completa 30 anos de carreira. A banda desde seu início mostrou que iria surpreender a cada álbum, buscando sempre novos desafios, e passo a passo foi conquistando fãs pelos continentes. (English Version Clic Here)

A banda está já em uma tour para comemorar esses 30 anos, passando pela América Latina, inclusive Brasil, tendo uma data em terras gaúchas no dia 07/04, onde apresentará músicas de destaque de sua carreira, e dos dois últimos e elogiados álbuns, "1755" e "Hermitage". 

Aproveitamos a ocasião para conversar com o icônico vocalista Fernando Ribeiro, que com seu habitual cavalheirismo nos concedeu a entrevista que vocês conferem a seguir.



RtM: "Hermitage" já pode ser considerado um marco para a carreira da banda, e creio que vocês também acreditam nisso, pois realizaram essa ousada Ideia de tocar o álbum na íntegra, e ainda na gruta Mira D'aire.
Fernando Ribeiro: Obrigado! Acima de tudo, o Hermitage será sempre um disco especial, devido ao contexto em que foi gravado e lançado, e a uma certa “confirmação” de várias coisas que constituem o conceito literário do disco.


RtM: Fale um pouco mais sobre como surgiu essa incrível ideia de fazer esse concerto e a escolha do local.
FR: Como sabíamos que este disco, devido à pandemia, não iria ser apoiado por uma turnê de promoção, decidimos, desde logo, documentá-lo ao vivo, completo e na íntegra para que assim se fizesse alguma justiça ao disco.

As Grutas de Mira D’Aire, são um “monumento” natural que faz parte do imaginário dos Portugueses. Durante a pandemia, tornei a visitar o sítio com o meu filho e sobrinha e, como que juntei os pontos.

O cenário natural e a iluminação, parecia uma obra geológica de Bosch ou Caravaggio e achei uma ótima ideia levar ali música sobre eremitas... Primeiro, fizemos sessão de fotos, depois o vídeo para o Common Prayers e finalmente o evento ao vivo.


 
RtM: E como foi a preparação na questão de, primeiramente conseguir autorização para realizar o show na Mira D'aire? pois acredito que devem haver vários cuidados e restrições. E, claro, teve a preparação e cuidados para captação de som, a acústica, a captação  de imagens, tudo deve ter sido uma experiência bem diferente.
FR: Sim. Teve de ser um silent event, isto é, as pessoas escutavam os Moonspell através de headphones, com uma mistura sonora especialmente preparada para os fãs.

Depois, havia as questões das autorizações (Portugal é muito burocrático), eletricidade, problemas de claustrofobia do público, testes de covid, máscaras sociais, e todo o aparato de luzes e som que teve de ser pensado ao menor detalhe porque era um espaço pequeno, diferente e limitado.  
 

RtM: O Moonspell jamais se permitiu estagnar ou se limitar musicalmente, e "Hermitage" surpreende depois do maravilhoso e complexo  "1755", trazendo uma sonoridade mais progressiva, por vezes mais limpa e soturna. Comente a respeito do que inspirou a temática das letras e a sonoridade de "Hermitage".
FR: Não sei se é inquietude ou simplesmente o fato de que nunca estamos verdadeiramente satisfeitos com o que fazemos, pelo menos eu, nunca estou. No caso do Hermitage, a sonoridade foi inspirada pelo progressivo que tem sido uma influência muita clara ao Metal e ao Moonspell, especialmente, desde discos como o "Wildhoney" do Tiamat.

No meu caso eu recebi uma sacola do meu tio com TODA a discografia do Pink Floyd dos anos 70 e isso acabou por me influenciar também.

O conceito literário prende-se com a solidão à qual o mundo está voltado, a falta de comunicação e empatia entre as pessoas, que leva muita gente a isolar-se do mundo por razões diversas dos santos clássicos eremitas, e nesse contraponto se fez o disco.
Falava-se de distanciamento social, mas sem ser decretado por lei ou por emergência sanitária.
Somos como que eremitas de nós mesmos e uns dos outros.



RtM: Ainda sobre a sonoridade de "Hermitage", eu senti bastante influência do progressivo dos anos 70, inclusive depois com o lançamento do "From Down Below",  lembrei também que o Pink Floyd fez um show em Wembley no ano seguinte ao lançamento do "Dark Side of The Moon", tocando o disco na íntegra. Gostaria que você comentasse a respeito da influência desses clássicos e citasse alguns de seus favoritos. 
FR: Bem, como me referi antes, herdei toda a discografia do Pink Floyd em vinil! Escutei muito coisas como Relics, adoro o tema Set the Control to the Heart of the Sun, mas também Piper at the Gates of Dawn e claro o "Dark Side of the Moon" que é uma obra-mestra.

Também gosto muito de Emerson Lake e Palmer, por exemplo, ou post rock como Apse, A Perfect Circle ou coisas mais metaleiras como Katatonia que fazem grande música.

 
RtM: "Hermitage" também apresenta o novo baterista Hugo Ribeiro.  E referente a Hugo, como foi o contato e adaptação dele até o momento, e o que ele trouxe de novo para acrescentar à sonoridade da banda?
FR: O Hugo é o baterista mais talentoso e completo que já tocou na banda e podemos evoluir muito na complexidade das partes rítmicas e essa segurança nos permitiu ter mais imaginação e ir mais longe. Penso que o Hugo ainda tem muito para dar ao Moonspell e apenas está começando! E creio que começou com o pé direito, já que a sua performance no Hermitage é excelente.
 

RtM: Mike Gaspar acabou deixando a banda depois de todos esses anos. Como foi lidar com esse processo de mudança? Claro, entendemos que mudanças fazem parte, mas quando envolve um membro original, pode ser um pouco mais difícil. 
FR: Muito difícil. Pessoalmente, o Mike era não só o baterista de Moonspell, mas também o meu melhor amigo e cheguei a equacionar não continuar sem ele. Foi das decisões mais duras da minha vida, mas tínhamos, de fato, chegado a um ponto que não podíamos resolver. Desejo toda a sorte ao Mike e aos Seventh Storm, a sua nova banda, criada à sua imagem.

RtM: Sobre o "1755", considero não só um marco para o Metal mundial, mas um trabalho complexo, rico em história e com um clima único. Cheio de nuances épicas e instigantes. Levando a emoção a picos altíssimos. Gostaria que se possível comentassem sobre a importância e ideia criativa para um álbum tão poderoso e instigante.
FR: Foi uma coisa do momento, embora as ideias radiquem no meu passado de estudante. O disco nasce também da ausência de uma obra musical que contemplasse esse evento e todas as suas consequências sociais, políticas, artísticas e filosóficas.

Expliquei o conceito aos meus parceiros e eles entenderam logo que o som teria de ser grande e épico, quase sinfónico, e que teria de ser cantado integralmente em Português. (N. do R.: O disco conta a história do terremoto, seguido por um tsunami, que devastou Lisboa no primeiro dia de novembro do ano de 1755.)

Para nós foi muito importante, pois juntou duas paixões do Moonspell: História de Portugal e Heavy Metal. E queremos muito fazer outro disco em Português, assim que se encontre um tema.
 

RtM: Como artistas e banda consolidada, creio que desde o início vocês buscaram trazer algo inovador, se desafiar e ainda sentirem o compromisso de trazer mensagens e ideias para fazerem o seu público refletir, interpretar, instigando a curiosidade. Gostaria que vocês comentassem a respeito, e se vocês entendem que todo artista, tem que ter esse dever e também o cuidado de levar uma mensagem aos seus fãs, pois é um potencial formador de opinião. 
FR: Cada artista faz o que quer e não há que haver julgamento. Existem diversos caminhos que se podem percorrer e para mim, não vejo porque um caminho deva ser mais legítimo que outro. Se quiser citar Feuerbach ou apresentar um pato de borracha gigante no palco, a nossa missão é entreter.

Hoje em dia com toda cisão, crise e depressão que existe, um músico que consiga com que a pessoa esteja a pensar noutra coisa e focada no show e não nos problemas que tem, é um ato de imensa generosidade e empatia.

Pessoalmente, gosto da parte poética, filosófica e intelectual do Metal. Gosto de saber que o tema de Maiden "The Evil that men Do" é uma citação shakespeariana. E sigo esse caminho. Mas se outro músico quiser colocar o público fingir que está num barco viking, remando, quem sou eu para dizer que deve ser do meu modo e não do dele? Há espaço para tudo e para todos.

 

RtM: A discografia do Moonspell se mostra muito forte e diversificada. Pois a cada lançamento temos os elementos característicos, porém, com sínteses diferentes. Você escuta, sabe que é o Moonspell, mas de uma maneira renovada e diferente. Como é o processo criativo de um modo geral da banda?
FR: Somos uma banda de zeitgeist, i.e., o que está acontecendo no mundo, nas nossa vidas, o que entra ou é recuperado nas nossas biblioteca e discotecas e pela insatisfação com o que fazemos e o entusiasmo em descobrir novas melodias e, quem sabe, adicionar novos temas do Moonspell ao quotidiano das pessoas. Se tivéssemos parado nos primeiros discos, ou repetido as fórmulas, não teríamos dado ao mundo temas como Nocturna, Scorpion Flower, Breathe ou todo o 1755.
 

RtM: Vocês recentemente tiveram que cancelar a turnê europeia pela crise financeira que alguns países vêm passando. No Brasil e América do Sul em geral, não seria tão diferente, pois as crises chegam, os governantes negligenciam e o povo paga o preço infelizmente. Na visão de vocês que já rodaram o mundo, o que poderia ser feito para conter essas crises em massa que acontecem?

FR: A turnê Europeia foi realizada. A turnê dos EUA foi cancelada por falta de transporte e a do Reino Unido não vendeu bilhetes suficientes em Londres, o que foi bizarro, pois Londres sempre foi uma das cidades mais importantes para Moonspell. O que pode ser feito? Absolutamente nada. 


Temos apenas de contar com a generosidade dos fãs e depender da profundidade do seu amor pela música, e, no nosso caso para que decidam gastar o seu duramente ganho dinheiro e viver uma experiência com o Moonspell. O mundo escolheu o capitalismo e o liberalismo, sem regras, não há equilíbrio, nem base para que se experimente regular, por isso a carga será sempre em cima dos fãs e das bandas e de quem ainda investe neste tipo de negócio com pessoas, em vez de números ou algoritmos.


No nosso caso, os Moonspell optaram por baixar condições, cachês/pagamentos à banda,produção, preços de merch, para que consigamos ainda tocar para os nossos fãs. Estamos sempre a trabalhar para lhes dar o melhor.


RtM: Obrigado pelo seu tempo e por nos responder esta entrevista, que a tour pela América Latina seja muito bem sucedida, estaremos lá no Opinião em Porto Alegre, se assim o universo quiser. E para finalizar poderia nos adiantar alguma coisa do que os fãs podem esperar do próximo álbum?

FR: Muito grato pela oportunidade. E pelos votos! Vemos-nos em Porto Alegre para uma grande noite, sob o feitiço.


Iremos trabalhar num novo disco, sem pressas, algo mais simples, menos prog, regresso às canções mais emblemáticas, algo mais inteligível à primeira escuta e com o conceito à volta do poder dos livros e das palavras. Sairá em 2024, ou, no pior dos casos, em 2025.


Entrevista por: Carlos Garcia e Renato Sanson

Agradecimentos: Erick Tedesco - Tedesco Mídia

IDL Entertainment


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