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terça-feira, 28 de outubro de 2025

Cobertura de Show: Brujeria – 11/10/2025 – Fabrique Club/SP

Brujeria faz apresentação enérgica e celebra legados de Juan Brujo e Pinche Peach na capital Paulista

Apresentação, que fez parte da turnê em memória dos vocalistas que faleceram em 2024, contou com baixista do Carcass e filho de Juan Brujo

A Fabrique Club, localizada na Zona Oeste de São Paulo, recebeu, no último dia 11 de outubro, um dos shows mais especiais e simbólicos da banda de Deathgrind Brujeria, no que foi parte da sua 13ª passagem pelo Brasil. Desta vez, o grupo estadunidense (e com total alma mexicana) se apresentou como parte da turnê que celebrou a memória e o legado dos vocalistas Pinche Peach (1966-2024) e Juan Brujo (1968-2024), que faleceram em julho e setembro do ano passado, respectivamente, por complicações cardíacas.

O evento, produzido pela Estética Torta, não teve banda de abertura e contou com uma Fabrique Club consideravelmente cheia e com total energia por parte do público, que foi guiado pelos clássicos da banda em 17 faixas, com foco nos três primeiros discos: “Matando Güeros” (1993), “Raza Odiada” (1995) e “Brujerizmo” (2000), Houve, também, uma música do disco “Pocho Aztlán” (2016). 

O quarteto, que tinha como destaque as presenças de John Christopher Lepe (El Sativo) na bateria e de Jeff Walker (El Cynico), do Carcass, no baixo, foi enérgico ao longo de todo o show, seja na execução instrumental, seja no contato com o público, feito principalmente pelo vocalista Henry Sanchez (El Sangrón), que discursou, dançou, fez pequenas atuações e danças em determinadas e fez a “mediação” dos cigarros trazidos por parte dos fãs para os membros, antes de “Consejos Narcos”. Da mesma forma, Sangrón fez ótimas execuções vocais que firmaram o legado de Brujo e Peach naquela noite.

A sinergia entre banda e público gerou, nos pouco mais de 40 minutos de show, um ambiente que com certeza simulou o México e que tornou a noite mais especial. Por consequência, houve muitos coros e picos de intensidade por toda a pista e nos moshes abertos no centro dela.


Quarenta minutos de legado e de uma “Fabrique Mexicana”

As luzes da Fabrique apagaram momentaneamente às 19h55. No palco, apenas um tripé com um dos coletes de Juan Brujo e uma a cabeça que muito lembrava a da capa de “Matando Güeros”. E a iluminação voltou com três músicas introdutórias que transformaram o local em um verdadeiro ambiente mexicano para aquele show: “El Perro Negro”, do cantor e ator Antônio Aguilar (1919-2007); “El Rey”, de Vicente Fernández Jr. (1940-2021); e “Satanas”, de Publio Martínez. 

Eis que a gravação inicial de “Brujerizmo” começou a tocar, marcando a entrada dos membros do Brujeria. O primeiro foi El Sativo (bateria), filho de Juan Brujo, seguido de El Criminal (guitarra), El Cynico ou, simplesmente, Jeff Walker, do Carcass (baixo) e, por último, El Sangrón (vocal). Os últimos segundos de expectativa, somados com a euforia da entrada dos músicos e o riff de guitarra da faixa em questão foram os ingredientes essenciais para um boom de cantos e de pessoas na roda que se formou no centro da pista da Fabrique Club.

“El Desmadre” fechou a primeira dobradinha de um álbum, o “Brujerizmo” (2000), com toda a sonoridade Deathgrind poderosa proposta no álbum. Já “Hechando chingasos (Greñudos locos II)” trouxe os ânimos de volta à roda e ao bate-cabeça, que pelo ritmo de quem estava nela naquele momento, serviria facilmente como um exemplo de entropia. Esta dinâmica “aleatória” de parte dos fãs seguiu com a música “Anti-Castro”, faixa com críticas ao regime cubano e com destaques para pessoas que fugiam do país caribenho  em barcos de pneu, buscando uma nova vida em outros países como o México. A sonoridade brutal de Groove Metal e Deathgrind chegou com tudo em “Vayan Sin Miedo”, que gerou gritos eufóricos a partir do riff tocado por El Criminal e cadenciado por El Cínico (Jeff). Isso refletiu em um mosh pit mais insano na pista e com gritos em nome da faixa nos refrões. 

O Brujeria continuou a apresentação com uma sessão de críticas e reflexões sobre a questão imigratória e do tráfico na fronteira entre México e Estados Unidos, a partir das populares “La migra (Cruza la frontera II)” e “Ángel de la frontera”. Na segunda música, inclusive, El Sangrón, como de costume, chegou a se ajoelhar e gesticular para os céus, rezando e suplicando pelo anjo mencionado na faixa. 

A música “Chingo de Mecos” foi dedicada para as mulheres. Apesar do conteúdo explícito da letra, o maior destaque dos quase um minuto e 20 segundos da faixa foi a série de blast beats que El Sativo realizou de forma brutal na bateria, dando mais velocidade aos já rápidos riffs de guitarra tocados por El Criminal. “Christo de La Roca” veio em seguida, como uma espécie de “canto narrado” sobre um traficante que se autodenominou o “Cristo da cocaína”, além de potentes riffs e pedais duplos em momentos pontuais.

O quarteto se mostrou ainda mais animado em “Desperado”, com blast beats mais brutais após o primeiro minuto, além de uma dancinha feita por El Sangrón que também cativou o público. E tanto a banda quanto o público elevaram os ânimos novamente com “La Ley del Plomo”, com coros mais altos, um mosh totalmente insano e sonoridade poderosa da banda. Na sequência, a faixa “Colas de Rata” ainda teve o frontman do Brujeria simulando o uso de cocaína, na reta final.

Outras duas pedradas do álbum “Raza Odiada” foram tocadas antes da pequena pausa do show. A primeira, “Revolución”, foi a de maior teor político crítico do setlist, com os ataques ao Partido Revolucionário Institucional (PRI) e seus governos nos anos 1990 e as referências elogiosas aos indígenas e ao Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), responsáveis pelos levantes em Chiapas. 

Já a segunda foi a clássica “Consejos Narcos”, iniciada após um discurso em memória de Juan Brujo e Pinche Peach e uma sessão rápida de tragos em cigarros de maconha oferecidos pelos fãs após o sinal de El Sangrón - destaque para El Sativo, que chegou a fumar dois de uma vez, - e aprovados pelos membros da banda. O ato prosseguiu em alguns momentos da música, encerrados pela frase “Marijuana siempre si”.

A rápida pausa veio após as várias garrafas de água jogadas por El Cynico (Jeff Walker). O retorno, para os dois últimos triunfos veio a partir do áudio que inicia “Raza Odiada (Pito Wilson)”, uma narração de Jello Biafra que interpreta Pete Wilson e que simula as falas racistas e anti-imigratórias do político em questão, sendo respondido com ataques e ironias por Juan Brujo até o ato final de “matá-lo”. Cada resposta de Juan era gritada pelo público até o início da faixa, já com a banda de volta ao palco, que mostrou um som impecável em todos os pontos possíveis, acompanhada por mais cantos do público.

O ato final veio com a incontestável “Matando Güeros”, iniciada após El Sangrón repetir, por várias vezes, a pergunta “Matando quê?”, como um chamado para que o público desse seu último gás na pista. E a situação ficou ainda mais inflamada com o riff de El Criminal e, principalmente, quando o vocalista do Brujeria trouxe um facão para performar a faixa. A partir disso, os cantos da música se tornaram ainda mais altos e a roda, menos intensa nas últimas músicas, voltou com tudo e com a maior energia possível naquela noite. A felicidade do público foi tamanha a ponto de emendar danças malucas no final, quando “Marijuana”, uma paródia de “Macarena”, do grupo Los del Rio, foi tocada tanto para a apresentação dos integrantes, quanto para a finalização do show, que contou com El Sativo, filho de Juan Brujo, sendo ovacionado e mostrando o colete de seu pai, presente no suporte ao centro do palco, por uma última vez naquela noite. 

Parte do público ainda ficou por mais tempo tempo para pedir autógrafos e disputar palhetas e baquetas dos integrantes do Brujeria, num ato que reforçou ainda mais a gratidão da banda e a admiração mútua entre eles e o público paulistano. A energia e os ânimos esbanjados no local, de alguma forma, também deram um ar que Juan Brujo e Pinche Peach estavam ali, em forma de espírito, para também celebrar um legado que ainda é mantido pela banda e por uma base de admiradores e fãs. E se depender de ambas as partes, existirá por muito tempo.


Texto: Tiago Pereira 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Estética Torta



Brujeria – setlist:

Brujerizmo

El desmadre

Hechando chingasos (Greñudos locos II)

Anti-Castro

Vayan sin miedo

La migra (Cruza la frontera II)

Ángel de la frontera

Chingo de mecos

Cristo de la roca

Desperado

La ley de plomo

Colas de rata

División del norte

Revolución

Consejos narcos

Bis 

Raza odiada (Pito Wilson)

Matando güeros

terça-feira, 10 de junho de 2025

Cobertura de Show: Carcass – 15/05/2025 – Carioca Club/SP

Que o mês de maio foi uma loucura para o metaleiro paulistano todos nos sabemos. Com muitos ainda se recuperando do absurdo que foi abril, que trouxe o Monsters of Rock, maio não ficou para trás, começando com os pés na porta, três dias de Bangers Open Air pós feriado, aí na semana seguinte simplesmente o retorno do System of a Down (além do Upfront Fest para os punks), respirar naquele mês estava difícil. Imediatamente após a aula de show que os armênio-americanos proferiram no autódromo de Interlagos, presenciaríamos mais uma aula, mas deste vez, de metal extremo, pois os lendários britânicos do Carcass estariam passando por São Paulo em uma quinta feira à noite, pouco mais de um ano depois de sua apresentação no Summer Breeze Open Air.

Chegando no Carioca Club, a casa estava bem mais cheia do que o esperado, considerando que era quinta, a quantidade insana de shows que rolaram na mesma época e tinham anunciado a apresentação apenas no final de março, os fãs haviam aparecido em peso, a fila dobrava a rua. Tudo isso não era à toa, visto que os outros garotos de Liverpool tem uma história extensa, tanto aqui no Brasil, quanto no metal no geral, totalizando 10 apresentações em nossas terras e sendo conhecidos como os inventores do goregrind e grande influência para o mundo do death metal melódico. Como sempre, deixo aqui meus parabéns à produção da Overload, que há anos vem trazendo eventos extremamente pontuais e organizados, e desta vez, não foi diferente.

O quarteto assumiu o palco (adornado com uma  faca do lado esquerdo e um garfo do direito) pontualmente às 20:30, e com precisão cirúrgica, Bill Steer tocou os acordes iniciais de “Unfit for Human Consumption”, faixa de seu álbum de retorno, “Surgical Steel”, que desde seu lançamento, nunca saiu do repertório dos shows. Uma roda punk de tamanho considerável dominou o meio da pista desde os primeiros segundos, e simplesmente não parou. Seguiram logo com “Buried Dreams”, uma das joias da coroa do brilhante “Heartwork”, que logo no primeiro riff já praticamente enfartou os fãs. Indo contra os padrões do death metal, o mestre Jeff Walker até conseguiu levar o público a bater palmas no ritmo; estava com a galera realmente na palma da mão. Mostrando as habilidades de Dan Wilding com as baquetas, veio “Kelly’s Meat Emporium”, primeira representante do seu trabalho mais recente, “Torn Arteries” (2021), introduzida com uma virada estonteante.

Pularem de era em era, trazendo “Incarnated Solvent Abuse”, de seu terceiro álbum, lançado 30 anos antes do mais recente. Vale ressaltar que independente da era da banda, o som sempre foi dinâmico, apresentando a mescla de peso e brutalidade que tornou os uma das maiores lendas do metal, e ao vivo, isto transparecia perfeitamente, o peso dos riffs era absurdo, mas Bull Steer também tinha uma finesse incrível nos solos, estavam realmente dando aulas de metal. “Heartwork” voltou com “No Love Lost”, e figurou novamente no bloco seguinte, quando juntaram “Tomorrow Belongs to Nobody” e “Death Certificate” em versões reduzidas, uma atrás da outra. “Dance of Ixtab” viu o retorno das palminhas, mas a energia era tanta que até rolaram alguns crowdsurfs. 

A casa não era das maiores, mas os fãs estavam usufruindo de cada milímetro do Carioca Club, como em “Keep on Rotting in the Free World”, emendada com “Black Star”, onde boa parte dos fãs pularam juntos, fazendo o bairro de pinheiros tremer.A interação direta com o público era pouca, não falavam entre uma música e outra, mas a conexão entre público e banda era mais que evidente, como ocorreu logo após “Rotting” com a casa dominada por gritos de “Carcass, Carcass, Carcass”. Jeff retribuiu arriscando um “obrigado”, rapidamente voltando ao inglês com um “how are you doing”, justificando que seu português era muito ruim. A nostalgia veio forte com a sequência da instrumental “Genital Grinder” com a clássica “Pyosisified (Rotten to the Gore)”, as duas vindas de seu disco de estreia, “Reek of Putrefaction”. 

“Pyosisified” também foi lançada como parte do EP “Tools of the Trade” 4 anos depois, ao lado da já contemplada “Incarnated”, que com a faixa-título compunham o lado A, além dela e “Hepatic Tissue Fermentation II” do lado oposto. Depois dos últimos acordes de “Tools”, a entrada sinistra de “The Scythe’s Remorseless Swing”, um dos destaques do último LP. Vale destacar o trabalho que fizeram com o fundo do palco, que estava adornado com um backdrop fino de uma caixa torácica, e em certas músicas, no telão aparecia o coração da capa de “Torn Arteries” justamente onde estaria posicionado um coração no corpo humano, e a iluminação era feita de um jeito que aparecesse o backdrop também. Fica difícil de explicar, mas na hora estava incrível. Fora isso, a iluminação era inconsistente, sendo difícil de ver a banda em certos momentos, mas nada que detraísse da experiência do show no geral.

Este bloco do show foi concluído com uma trinca de peso, simplesmente a pesadíssima “316L Grade Surgical Steel”, executada com precisão esperadamente cirúrgica, “This Mortal Coil”, praticamente um Iron Maiden em versão metal extremo, fechando com uma das mais icônicas da primeira fase da banda, “Corporal Jigsaw Quandary”. Antes de iniciar esta última, Walker jogou algumas águas para o público, provavelmente após flashbacks do que aconteceu com ele no Summer Breeze do ano passado. Para os que não lembram, pelo calor, o vocalista passou mal, e teve que fazer boa parte do show com um pacote de gelo em sua cabeça. Assim que desceram do palco, o público voltou a gritar o nome deles - havia passado aproximadamente uma hora e 10 de show, mas não havia nenhum sinal de cansaço. O “Carcass, Carcass, Carcass” rapidamente virou “olê, olê olê olê, Car-cass, Car-cass”, e atendendo aos pedidos de muitos, Walker ressurgiu, perguntando se queriam ouvir mais uma música.

Puxando o resto da banda, voltaram em definitivo para o palco, e Walker relatou que mesmo tendo viajado para um lugar há mais de 3 mil milhas de distância, ele estava se divertindo demais. “Querem uma música mais devagar, vamos fazer uma mais devagar.” Se “Captive Bolt Pistol” é devagar, não sei em que velocidade toca uma banda de doom metal, pois captive é vertiginosa, dando aquela sensação de ser atropelado por um trem. Se os corações já não estavam batendo mais fortes, seria com a última sequência que pulariam para fora do corpo de cada um dos fãs de lá, trouxeram um pouco da “old shit” com “Ruptured em Purulence”, que se assemelha a sensação de fazer wakeboard no chão de asfalto com a testa e simplesmente “Heartwork”. Quando aquele riff ecoou pelo sistema de PA do Carioca, parecia que São Paulo iria entrar em erupção, foi um momento de euforia pura. O público cantava cada nota da melodia a plenos pulmões, em uníssono, era algo grandioso, épico. Terminado o momento de catarse, soltaram um “we, Carcass, love you so much, make some fucking noise”, enquanto executavam o final de “Carneous Cacophony”, e foi ao som de “Have a Cigar” do Pink Floyd pelos alto-falantes que desceram do palco.

Não é todo dia que temos a oportunidade de ver uma das bandas mais influentes do metal extremo em uma casa intimista em uma quinta-feira à noite, especialmente fazendo um show praticamente impecável, como foi o caso da aula que os britânicos proferiram naquele dia 15. Quem viu, quem esteve presente, certamente não esquecerá desta apresentação, enquanto quem não foi, perdeu uma performance histórica. Agora, esperamos que o retorno deles seja em um final de semana, algo um pouco mais digno.



Fotos: Leandro Almeida (Rock Brigade)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Overload



Carcass – setlist:

Unfit for Human Consumption

Buried Dreams

Kelly’s Meat Emporium

Incarnated Solvent Abuse

No Love Lost

Tomorrow Belongs to Nobody/Death Certificate

Dance of Ixtab

Black Star/Keep on Rotting in the Free World

Genital Grinder

Pyosisified (Rotten to the Gore)

Tools of the Trade

The Scythe’s Remorseless Swing

316L Grade Surgical Steel

This Mortal Coil

Corporal Jigsaw Quandary

Bis

Captive Bolt Pistol

Ruptured in Purulence/Heartwork

Carneous Cacophony (final)

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Cobertura de Show: Gutalax – 12/03/2025 – La Iglesia/SP

Um dos maiores - se não o maior - nomes do goregrind mundial, os tchecos do Gutalax finalmente responderam às orações dos fãs ao anunciar a “Diarrhea Invasion South America Tour 2025”, sua volta às terras latinas após fazer 2 shows pelo Brasil (São Leopoldo, RS e Duque de Caxias, RJ) em 2018. O início da turnê seria na capital paulista, em uma quarta-feira de chuva, dia 12 de março. Por algumas horas, a La Iglesia se tornaria um antro da escatologia; tudo indicava que começariam a turnê com os pés na porta.

Por conta das chuvas que atingiram a cidade, uma árvore caiu e simplesmente derrubou a energia da rua inteira, então a casa que estava marcada para abrir às 19:00 só foi abrir por volta das 22:00, mas mesmo assim, a esperança era a última que morria, e os fãs permaneceram na fila, esperando para ver a tão querida banda. A Iglesia liberou os fãs com o Trachoma já no palco. Banhados por um véu de luz vermelha, a dupla de Thales Gory (vocal, baixo) e Rafaela Begore (bateria, vocal) enfileirou uma pedrada atrás da outra, totalizando mais de 24 músicas em apenas meia hora. O microfone de Thales estava baixíssimo, praticamente inaudível, então boa parte das vozes vieram de Rafaela, que já conseguia extrair um “growl” de respeito, e armada com um pedal de efeito, tirava um som que só pode ser descrito como as portas do inferno de abrindo. Fizeram um show rápido e objetivo, que dentro da medida do possível, foi incrível, um ótimo aquecimento para o caos que viria.

Os tchecos subiram no palco, primeiro com suas roupas normais, sem estarem vestindo os tão característicos uniformes, apenas para passar o som. Ficaram uns 10 minutos no palco, interagindo brevemente com os fãs, que já abriam inúmeras rodas, tendo certeza que estaria tudo certo para a aula de “vocal de porco” que viria. O plano era que o Gutalax subisse no palco às 21:00, e com uma hora de repertório, acabariam por volta das 22:00, mas pelos imprevistos com a energia, só foram subir às 23:00, ao som do tema de “Ghostbusters”, que realmente ornava com as coisas estranhas que estavam acontecendo. Com um vórtice humano em sentido anti-horário já tendo dominado a pista, quantidades obscenas de papel higiênico voando pelo ar e até um cavalinho de borracha marcando presença no mosh, começou “Assmeralda”, ateando fogo naqueles que estavam presentes.



Passaram por “Shitpendables” com “Nosím místo ponožky kousek svojí předkožky”, e àquela altura, o caos já estava completamente instaurado. Rolou também “Shit of It All”, do mesmo split com o Spasm que veio “Assmeralda”. Maty Matoušek (vocal) aproveitou para interagir com a galera antes de resumir, dizendo que às vezes nos sentimos mal, mas sempre que nos sentimos mal, podemos nos abrir (ele dizia enquanto se dobrava) e falar com alguém que mora ali (apontando para seu orifício circular corrugado), sendo este elemento o carismático Buttman, protagonista da dançante música do mesmo nome.

Maty seguiu dizendo que pela Europa, estavam celebrando 15 anos de banda, como se fosse sua festa de aniversário. Depois, disse aos fãs paulistas que aquela noite era como se fosse a festa de aniversário exclusiva deles em São Paulo, agradecendo a presença de todos, colocando “Celebration” para tocar pelo PA. “Šoustání prdele za slunné neděle” e “Robocock” vieram, sendo elas de “Telecookies” e “Shit Beast” respectivamente. Quiseram mostrar um lado diferente, mais técnico com a próxima música, anunciando um cover do Meshuggah, mas ao invés de “Demiurge” ou “Bleed” veio ”Kocourek Mourek podráždil si šourek” (o gato malhado irritou seu saco), que impressionando a tudo e todos, não era do Meshuggah.



O caos continuou com a introdução do mais novo super herói de todos, o “Diarrhero” e “Vaginapocalypse”, que foi dedicada aos homens presentes naquela noite. Veio “Polykání semena z postaršího jelena” e “Fart and Furious” antes de “Total Rectal”, cujo o vocalista dedicou a “todos aqueles que fizeram esta turnê ser possível”, com a produção do show sendo recebida calorosamente por uma chuva de aplausos. Tentaram continuar com “Vykouření dařbujána vietnamského veterána”, mas Petr “Mr. Free” Svoboda e suas mãos leves simplesmente estouraram a pele da caixa de sua bateria, algo que se repetiu no segundo show.

Para “Shitbusters”, chamaram um amigo de longa data, Thiago Monstrinho, vocalista do Worst. Da primeira vez que a banda dele foi fazer turnê na Europa, ele ficou alojado na casa de Maty, ocasionando uma forte amizade. Monstrinho ganhou um óculos em forma de privada e soltou alguns elogios à banda, finalizando a música com um stagedive realmente monstruoso. O show como um todo fechou com “Strejda Donald”, cantada em uníssono pelo povo.

No geral, foi um show que tinha tudo para dar errado, era data extra, ficou sem luz, atrasou - e vale ressaltar que nada foi culpa da produção. O Gutalax começou sua turnê de maneira incrível, com uma apresentação exclusiva e intimista, que certamente será lembrada por anos e anos por vir.





Texto: Daniel Agapito


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Underground Produções / Caveira Velha Produções


Trachoma - setlist:

WE CAME FROM THE FILTH

MICROSTOMIA TREATMENT

ADIPOCERE CORPSE WAX

THE BODY TURNS FROM GREEN TO RED...

SUPPLIES FOR YOUR OWN OSTOMY BAG

BRAIN EATING AMOEBA

HOSPITAL PURGE

THE TASTE OF HUMAN FLESH

NEUROCYSTICERCOSIS

MEDICAL WASTE

HUMAN SLAUGHTER

SPASMODIC MOVEMENTS

SURGICALLY DIVERTED

IDIOPATHIC OSTEONECROSIS

CYSTIC FIBROSIS

MYIASIS CAVITARY

T.D.I

CADAVERINE PUTRESCINE

DELIRIUM TREMENS

HISTOPATHOLOGICAL TECHNIQUES

GRUESOME CANNIBALISTIC

POST-OPERATIVE DELIRIUM

LIQUEFACTIVE NECROSIS

BONUS: MEDLEY MDK E DFC / ULCERRHOEA


Gutalax - setlist:

Assmeralda

Nosím místo ponožky kousek svojí předkožky

Shit of It All

Buttman

Šoustání prdele za slunné neděle

Robocock

Kocourek Mourek podráždil si šourek

Diarrhero

Vaginapocalypse

Polykání semena z postaršího jelena

Fart and Furious

Total Rectal

Vykouření dařbujána vietnamského veterána

Shitbusters (part. Monstrinho)

Strejda Donald

sábado, 22 de março de 2025

Cobertura de Show: Gutalax – 13/03/2025 – Hangar 110/SP

Depois de quase um ano esperando, os checos do Gutalax finalmente pisaram em solo brasileiro, trazendo seu goregrind repleto de humor ácido e um toque de podridão. O Hangar 110 serviu como cenário para essa experiência de extremo bom gosto, contando com as bandas de abertura Red N’ Hell, representando o Death Metal old school de São Paulo, e os veteranos do underground brasileiro, Imminent Attack, que fizeram seu retorno com um rápido set de crossover após cinco anos de hiato.

Os shows começaram pontualmente às 19h30, com a Red N’ Hell esbanjando seu Death Metal cavernoso, que manteve os espectadores animados, ainda que com algumas rodas de mosh-pit. O som da banda revelava claramente as influências de grupos clássicos como Pungent Stench, Sinister e Asphyx.

A seguir, o Imminent Attack subiu ao palco com um set curto, porém muito enérgico, e o público, já aquecido, comprovou que o corcovar continua bem vivo tanto no underground quanto fora dele no Brasil.

Chegou o momento dos verdadeiros protagonistas da festa. Desde 2010, o Gutalax vem se destacando no cenário goregrind. Embora este gênero aborde temas relacionados ao gore, mutilações e violência, a banda preferiu explorar um viés mais escatológico. Suas canções costumam trazer humor com piadas sobre fezes e referências à cultura pop, como na música "Robocock", que faz uma clara alusão ao clássico filme de ação dos anos 80, RoboCop. Uma curiosidade interessante é que Gutalax também é o nome de um laxante. Para apreciar o show, os fãs se vestiram à caráter com roupas de laboratório, bexigas, vários rolos de papel higiênico e até frangos de borracha, lançados ao acaso quando a banda subiu ao palco do Hangar 110, deixando o público em frenesi.

Com a estreia do icônico filme Ghostbusters, o Gutalax subiu ao palco do Hangar 110 para apresentar sua primeira canção, “Assmeralda”. A partir daí, o caos se instaurou: uma verdadeira hecatombe de objetos voadores, rolos de papel higiênico e pessoas invadindo o palco, enquanto o público se tornava a verdadeira atração da noite, surpreendendo a banda com tanta energia descontrolada.

A confusão tomou conta de toda a apresentação do Gutalax, e diversos convidados especiais se juntaram a eles no palco, como Thiago Monstrinho (da banda Worst) em "Shitbusters", e Fernanda Mattielo (uma fã sortuda que teve a chance de cantar ao vivo com eles) na citada"Robocock", além de uma infinidade de bonecos excêntricos.

Ao final do show, o Gutalax expressou sua gratidão pelo carinho dos fãs e a dedicação de todos que estavam presentes. O evento esgotou os ingressos meses antes da data marcada. Agora, resta saber se o Brasil está preparado para o próximo ataque flatulento dos nossos amigos inusitados.



Fotos: Lara Zugaib (Lado Direito do Palco)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 




Red N' Hell – setlist: 

UFO

Colony Death

A Corpse Putrified

Slaughter

Killing Again

Reborn to Kill


Imminent Attack – setlist: 

Secret of Skin

Rush of Violence

Couch Potato

Saint Madness

Jesus S.A.

Palhaço da Mídia

Massacre

Nova Constituição

Vidas

Abductors

Splact

Defyning Gods

Devils

Elliot


Gutalax – setlist: 

Asswolf

Assmeralda

Nosím místo ponožky kousek svojí předkožky

Shit of It All

Buttman

Šoustání prdele za slunné neděle

Robocock

Kocourek Mourek podráždil si šourek

Diarrhero

Vaginapocalypse

Polykání semena z postaršího jelena

Fart and Furious

Total Rectal

Vykouření dařbujána vietnamského veterána

Shitbusters

Strejda Donald

sábado, 9 de novembro de 2024

Cobertura de Show: Bréa Extreme 2024 – 26/10/2024 – VIP Station/SP

Napalm Death desfila “pancadas músicas” em show mais que enérgico no VIP Station, em São Paulo

Apresentação foi a principal do Bréa Extreme 2024, que contou com abertura da banda Dead Congregation (Grécia) e oito bandas underground nacionais

O Bréa Extreme 2024 aconteceu na VIP Station no último dia 26 de outubro de 2024. O evento, organizado pela Xaninho Discos e pela Caveira Velha Produções, teve a participação de dez bandas, sendo a grega Dead Congregation e a inglesa Napalm Death, além de oito bandas do cenário underground brasileiro: Rot, Surra, Cemitério, Fossilization, Podridão, Baixo Calão, Andralls, Subcut, Dischavizer e Trachoma. Elas se apresentaram alternadamente, desde às 14h00, nos dois palcos montados na casa, sendo o principal já conhecido da galera que frequenta o espaço, e o outro, menor, no subsolo da VIP Station.

O Napalm Death, inclusive, fez um pequeno giro pelo país, com passagens por algumas das capitais brasileiras como Brasília, Belém, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Florianopolis, Curitiba e fechando a turnê em São Paulo.

Desde as primeiras bandas o público já estava presente, crescendo à medida que as apresentações ocorriam antes das duas principais atrações.

É necessário destacar a qualidade das bandas nacionais convidadas, todas conhecidas pelo público presente e que animaram de maneira perfeita quem já estava na casa de shows, pois já eram frequentes as rodas nas apresentações, inclusive com alguns fãs subindo no palco para cantar junto e fazer o conhecido stage diving. Já era o prenúncio do que ocorreria mais tarde.

Dead Congregation

A banda de Death Metal Grega Dead Congregation cativou a plateia com seu som pesado e uma atmosfera sinistra. Com um som que lembra muito ao de bandas como o Incantation, seu Death Metal soava mais "old school". As músicas apresentam muitas mudanças de tempo, com trechos mais rápidos, alternando com momentos mais lentos, soando por vezes quase como Doom Metal.

O setlist, composto por 11 músicas, focou nos dois primeiros álbuns da banda, “Graves of The Archangels” (2008) e “Promulgation of the Fall” (2014), além de incrementar músicas dos EPs “Purifying Conaecrated Ground” (2005) e “Sombre Doom” (2016).

O guitarrista e vocalista da banda, Anastasis Valtsanis, fez solos na medida certa, muito bonitos por sinal. Outro destaque da banda foi o baterista Vagelis Voyiantzis, que parece um metrônomo humano, dando segurança para que o restante da banda construísse atmosferas musicais cativantes ao longo da apresentação.

De certa maneira, a apresentação do Dead Congregation foi um contraponto ao que viria por último, uma espécie de "calmaria antes da tempestade".


Napalm Death

Era chegada a hora da atração principal. O grande Napalm Death, considerado o mestre e o pai do Grindcore. A banda, que hoje não tem mais nenhum de seus membros originais, é formada por Barney Greenway (vocal), Shane Embury (baixo), Mitch Harris (guitarra) e Dany Herrera (bateria).

O Napalm desfilou mais de duas dezenas de músicas, percorrendo por sua extensa discografia e miscelânea de subgêneros do Metal: do Grindcore dos primeiros anos, algumas músicas da sua passagem pelo Death Metal, com solos de guitarra e alguns riffs mais técnicos, e groove de bateria e voltando ao Grindcore na reta final. 

O quarteto tocou músicas clássicas como "Enslavement to Obliteration", que abriu o setlist, seguida de "Taste the Poison" e "Next on the List" do que eu considero um dos melhores e mais importantes albuns da banda, o “Enemy of Music Business” (2000). Tudo o que veio em diante foi uma experiência de vida única, um desfile de músicas rápidas, pesadas, que levaram a plateia à loucura. 

Claro que não faltaram as clássica "Scum", "M.A.D."  e "Sucess?" do album de estréia “Scum” (1987). E sim, para quem não percebeu tocaram a rápida - sim, rápida mesmo - e recordista mundial "You Suffer": genial. Piscou, perdeu! O grupo também tocou a faixa cover do Dead Kennedys, intitulada "Nazi Punks Fuck Off". 

O vocalista Mark Greenway, que parece sempre estar ligado em 380V no palco, em várias oportunidades interagiu com a plateia usando o famigerado portunhol, agradecendo o público que lotava o Vip Station e discursando a favor dos Direitos Humanos e falando contra o fascismo, a homofobia e transfobia.

Ir ao show do Napalm Death deveria ser obrigatório para todo mundo que se diz fã de Metal; e entrar e sair de um mosh de uma música deles é ter a sensação de ter sido atropelado por um caminhão três vezes.


Texto: Eduardo Okubo Junior 

Fotos: Eduardo Okubo Junior / Leandro Cherutti (Metal no Papel)

Edição/Revisão: Tiago Pereira / Gabriel Arruda


Realização: Xaninho Discos / Caveira Velha Produções

Mídia Press: LP Metal World


Dead Congregation – setlist:

Martyrdoom

Morbid Paroxysm

Quintessence

Wind´s Bane

Vanishing

Dismal

Auguring

Only Ashes Remain

Promulgation

Serpentskin

Teeth


Napalm Death – setlist:

From Enslavement to Obliteration

Taste the Poison

Next on the List

Continuing War on Stupidity

Contagion

The Wolf I Feed

Resentment Always Simmers

That Curse of Being in Thrall

Amoral

It´s a M.A.N.S World!

Backlash Just Because

Fuck the Factoid

Suffer the Children

When All is Said and Done

Scum

M.A.D.

Sucess?

You Suffer

Metaphorically Screw You

Dead

Nazi Punks Fuck Off (cover de Dead Kennedys)

Instinct of Survival

Contemptuous

quarta-feira, 10 de maio de 2017

NAILS – Extremismo Grind




  
Grindcore insano e brutal. Sem concessões. O Nails, que foi formado na Califórnia em 2009, não perde tempo e desce a lenha já na abertura com  ‘You Will Never Be One Of Us’; segue a brutalidade com ‘Friend To All’ com um baixo agressivo no talo; ‘Made To Make You Fail’ começa com uma levada bem Death metal, pra depois cair em desgraça. Pena que isso dura somente 55 segundos(!)...; ‘Life is a Death Sentence’ lembra os primórdios do glorioso Napalm Death. Aqui se ouve riffs Thrash também!.

Na trilha vem ‘Violence is Forever’, baseada em guitarras insanas, com levadas mais contidas, pequenos e distorcidos solos, e com uma duração de tempo maior; ‘Savage Intolerance’ já um bate-estaca que despenca pra brutalidade bem fácil com vocais desesperados. Tem tempo ainda pra um ‘headbanging’; ‘In pain’ não foge à regra; com ‘Parasite’ o bicho continua pegando, lembrando longinquamente Nailbomb em riffs.


‘Into Quietus’ segue pro fim sem deixar a peteca cair; fechando a pedrada, a longa (mais de oito minutos) 'They Come Crawling Back’, em que a banda viaja em várias direções, até mesmo com toques industriais em guitarras carregadas de peso, quebras de ritmo e levadas inquietantes. Chega um ponto em que o Nails veste um manto Doom e arrasta a atmosfera, com um pé no primeiro álbum do Catheral, por exemplo, só que menos sorumbático.


Certo que este power trio de Grindcore forjou uma obra bélica, um verdadeiro soco na boca do estômago. Indicado somente a mentes acostumadas a Grindcore.



Texto: Marcello Camargo

Edição: Carlos Garcia


Banda: Nails
Álbum: You Will Never Be One of Us
País: EUA
Estilo: Grindcore, Death Metal, Thrascore




Lançamento: Nuclear Blast/Shinigami Records




Line-Up:

Todd Jones – Vocals, Guitar

John Gianelli – Bass, Vocals

Taylor Young – Drums





Tracklist:

1. You Will Never Be One of Us
2. Friend to All
3. Made to Make You Fall
4. Life is Death Sentence
5. Violence is Forever
6. Savage Intolerance
7. In Pain
8. Parasite
9. Into Quietus
10. They Come Crawling Back