quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Cobertura de Show: Symphony X – 27/07/2024 –Tokio Marine Hall/SP

No último sábado (27/07), o Tokio Marine Hall em São Paulo foi palco do show da influente banda de metal progressivo Symphony X, formada pelos músicos Michael Romeo (guitarra), Russell Allen (vocal), Michael LePond (baixo), Michael Pinella (teclados) e Jason Rullo (bateria). 

A noite também contou com o show do guitarrista Luiz Toffoli, que se apresentou ao lado de Léo Carvalho (teclado), Pedro Tinello (bateria), Marcos Janowitz (baixo) e Cássio Marcos (vocais).

O curitibano começou a noite diante de um público pequeno, já que o show começou de forma inesperada. Mas isso não impediu que realizassem uma ótima apresentação. O setlist trouxe faixas do álbum “Engima Garden” e incluiu um cover de  “As I Am”, do Dream Theater e uma das maiores inspirações do guitarrista, que deixou o público extremamente animado. Todos os integrantes demonstraram grande técnica e carisma, proporcionando um show incrível.

Em pouco tempo, chegou o momento mais esperado da noite: a apresentação da renomada banda Symphony X. Michael Romeo, Michael LePond, Michael Pinella e Jason Rullo subiram ao palco pontualmente às 22h, seguidos por Russell Allen, que entrou correndo e já começou com a enérgica "Iconoclast", que abriu caminho para "Nevermore".

Russell, sempre muito gentil, interage constantemente com o público e seus colegas de banda, mostrando sua habilidade enquanto se movimenta de um lado para o outro no palco, fazendo com que cantar pareça a tarefa mais fácil do mundo – e, de fato, para ele, é. Sua voz se manteve impecável, preservando uma qualidade inabalável durante toda a apresentação.

O show continuou com “Inferno” e “Serpent's Kiss”. Michael Romeo, como de costume, deu um verdadeiro show com sua guitarra.

A quinta música foi a balada “Without You”, depois dela engataram uma sequência com “To Hell and Back”, “Evolution” e “Run With the Devil”, aproveitando a oportunidade para apresentar os membros da banda e trocar algumas palavras com o público presente. Russel demonstrou enorme agradecimento aos fãs brasileiros.

Concluindo a primeira parte do show, “Set the World on Fire” foi apresentada após uma breve pausa para o bis. O público clamava pelo retorno da banda, que voltou ao palco com um solo de teclado antes de executar “Paradise Lost”.

Uma novidade anunciada durante a noite foi que, no próximo ano, teremos um novo álbum, além de uma possível visita da banda ao Brasil em breve. As duas últimas faixas escolhidas para o grand finale foram “Out of the Ashes” e “Of Sins and Shadows”, encerrando mais um show sensacional do Symphony X em São Paulo.


Texto: Aline Fernandes

Fotos: Belmilson Santos (Headbangers BR)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Top Link Music


Symphony X

Iconoclast

Nevermore

Inferno (Unleash the Fire)

Serpent's Kiss

Without You

To Hell and Back

Evolution (The Grand Design)

Run With the Devil

Set the World on Fire (The Lie of Lies)

***Encore***

Paradise Lost

Out of the Ashes

Of Sins and Shadows

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Cobertura de Show: Roland Grapow – 18/07/2024 – Manifesto Bar/SP

O guitarrista Roland Grapow desembarcou em terras paulistanas no último dia 18/07 e reuniu fãs de sua vasta carreira no Manifesto Bar. 

Entretanto, para abrir o palco, a escalação contou com a brasileira Allen Key, cuja sonoridade contemporânea e suas linhas melódicas cativaram claramente o público, como também o carisma e energia de Karina Menasce (vocal), Pedro Fornari e Victor Anselmo (guitarras), William Moura (baixo) e Felipe Bonomo (bateria). Um belo início! 

Já o lendário guitarrista alemão contou com uma poderosa banda de apoio, formada por João Luiz (vocal, Golpe de Estado), Affonso Jr. (guitar, Confessori Band), Fabio Carito (baixo, Metalium, UDO, Tim Ripper Owens, Warrel Dane, Leather Leone) e Marcus Dotta (bateria, Metalium, UDO, Tim Ripper Owens, Warrel Dane, Leather Leone, About 2 Crash, The Heathen Sÿthe). Nesse contexto, os primeiros acordes de "Mr. Torture" deram o ritmo do que haveria por vir: uma viagem por clássicos de Helloween e Masterplan para nenhum fã de power metal colocar defeito. 

Canções como “Spirit Never Dies” (Masterplan), “The Chance” e “Time of the Oath” (Helloween) foram os destaques da noite e foram cantadas pela casa, que contava com um bom público para uma fria quinta-feira em São Paulo. 

Para o bis, vocalistas convidados foram chamados ao palco e ajudaram a nos levar para clássicos tocados pela carreira de Grapow. Ricardo Peres cantou “ A Tale that Wasn’t Right”, enquanto Victor Emeka, “Eagle Fly Free” e “I Want Out”. 

Por fim, “Heroes”, executada pelo agora trio de vocalistas – completado por Samyr Morgue –, homenageia e exalta as composições de Grapow como grande influência na história power metal.


Texto: Matheus Lopes

Fotos: Bárbara Matos

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: TC7 Produções

Mídia Press: LP Metal Press


Roland Grapow

Mr. Torture

Spirit Never Die

The Chance

Back for My Life

The Time of the Oath

Escalation 666

Kind Hearted Light

The Dark Ride

The Departed (Sun Is Going Down)

After This War

Deliberately Limited Preliminary Prelude Period in Z

Push (feat. Ricardo Peres)

A Tale That Wasn't Right (feat. Ricardo Peres)

Eagle Fly Free (feat. Victor Emeka)

I Want Out (feat. Victor Emeka)

Heroes  

Crawling From Hell 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Resenha: Auro Control – The Harp (2024)

Por Ozyrys Sheratan

Metal Relics (Nac.) / RockShots (Imp.)

Nota: 9,5/10 Nota dos amigos: 9,27/10

Meu primeiro contato com a banda Auro Control foi no show do SHAMANGRA que ocorreu no dia 14/01/24, evento que muitos chamam carinhosamente de “Festa da Firma Mariutti Team”, comunidade que faço parte e considero uma família. Nesse dia, dentre as bandas de abertura, a Auro Control foi a que se destacou de longe para mim, pois percebi seu profissionalismo e qualidade ao vivo que entrega com fidelidade o material gravado em estúdio no álbum The Harp.

Como cantor, me chamou muito atenção a qualidade do vocalista Lucas de Ouro, que possui uma potência vocal e extensão incrível, além da precisão na microafinação (coisa que 90% dos cantores de metal peca, futuramente irei escrever um artigo a respeito disso, aguardem). Mas o restante da banda toda é de altíssimo nível, formando aqueles times que fica difícil dizer quem é o craque, pois a banda é uma verdadeira “Dream Team” em termos de qualidade.

Baixo é meu instrumento preferido, e estamos muito bem servidos com o Thiago “Bonga” Baumgarten (Hibria), que possui técnica e agilidade invejável, além de dominar o tapping, que virou uma marca do Heavy Metal brasileiro tanto no Angra como no Hibria.

A dupla de guitarristas Lucas Barnery (Solo) e Diego Pires (Warlord, Beyond Frequencies) faz uma excelente equipe, com duetos, harmonias e solos incríveis, e para finalizar, o baterista Davi Britto (Nomin, Dream Theater Cover) fecha o time com chave de ouro, trazendo elementos do power e prog metal, além de um excelente trabalho percussivo que agrega a brasilidade e elementos tribais que elevaram muito a sensação de inovação e criatividade do álbum. A ilustração é muito bem-feita, representativa do título e conceito temático do álbum.

A faixa de introdução, “Aurum Regium”, já demonstra a qualidade da banda com arranjos orquestrais de altíssimo nível. O álbum começa para valer com “Feel The Fire” mostrando que a equalização e mixagem dos instrumentos estão muito bem arranjadas no álbum inteiro, mérito do estúdio Fusão e do Thiago Bianchi, que sempre faz produções de altíssimo nível com todas as bandas que passam por suas mãos. O interlúdio inicial do baixo é muito interessante, pena que o baixo some depois disso na mixagem dessa música. Aqui já é possível notar algumas influências de bandas como Angra, Helloween, Stratovarius e Iron Maiden, e nessa música especificamente é possível notar influência da música “Eagle Fly Free”, do Helloween. 

Os vocais estão muito bem colocados e equalizados, as melodias são criativas e cativantes em todo álbum, com backing vocals sem exagero que preenchem a harmonia e que não irão prejudicar a reprodução fiel ao vivo. Destaque também para as letras profundas de todo álbum, que são reflexivas, filosóficas e psicológicas, o que faz ganhar ainda mais pontos comigo, pois como vocalista psicólogo e espiritualista universalista, valorizo muito as mensagens positivas que podem ajudar os fãs a se identificarem, refletirem e superarem momentos difíceis de suas vidas.

O álbum segue com “Not Alone”, música que tem tudo que o fã de rock e metal gosta, e a participação do Jeff Scott Soto dispensa apresentações e comentários, tudo que esse monstro toca/canta vira OURO. 

Continuando com as colaborações, “Rise of the Phoenix” conta com Aquiles Priester na bateria. As suas participações costumam se destacar, e com essa não foi diferente. A letra e metáfora da Fênix foram muito bem utilizadas e casam perfeitamente com o conceito psicológico/filosófico do álbum inteiro.

“The Harp”, faixa-título, tem o baixo fazendo toda a diferença na música. Esse exemplo deveria ser seguido em todas as músicas do álbum, pois essa está entre as melhores do álbum. Felipe Andreolli fez um trabalho incrível com suas melodias utilizando a técnica tapping, que é uma das suas marcas registradas. 

“The Afterglow” possui influências de Stratovarius e Dream Theater, mas senti falta um pouco da identidade da banda nessa música que me chamou muito mais atenção nas músicas com mais brasilidade. “Head Up High” destaca a melodia vocal de Lucas e a letra motivacional incrível para ajudar nos momentos mais difíceis da vida.

“Conception”, power ballad do álbum, é cheia de sentimento. Ótima para fazer uma pausa na correria speed e power metal do álbum. “Runner” segue claramente os clichês do power metal, o que não é necessariamente ruim, pois a música tem um ótimo refrão estilo hino que é cativante e vai ser cantado em coro pelos fãs, mas perto das outras músicas, ela não se destacou para o meu gosto pessoal atual. 

“Breaking Through Silence”, a melhor do álbum, apresenta o melhor mix de volumes e equalizações de baixo, guitarra, voz, bateria e percussões do álbum inteiro, eu usaria essa música como modelo para todas futuras músicas, ficou impecável. Brasilidade e percussões são usadas perfeitamente nessa música. Thiago Bianchi, como sempre, quebrando tudo com suas interpretações viscerais e autênticas.

Tanto a minha média final (9,5) como a média com integrantes da banda e amigos (9,27) ficaram muito próximas, o que indica que a qualidade desse álbum provavelmente vai ser praticamente uma unanimidade entre os apreciadores de um bom rock e metal com elementos progressivos e folclóricos. 

  

O que faltou para a nota 10?

Nesse bloco da resenha, eu me coloco na posição como se fosse um “produtor” para analisar e dar dicas e sugestões para que os próximos trabalhos da banda tenham uma qualidade ainda maior, segundo a minha experiência de 21 anos como ouvinte e cantor de metal.

- Solos de Guitarra: Solos e duetos muito bem arranjados, mas as guitarras poderiam estar mais à frente na mixagem em termos de volume com mais frequências médias/agudas na equalização nos solos e duetos.

- Bateria: poderia ter mais variação em algumas músicas, para não ter bumbo duplo o tempo todo que satura e cansa o ouvinte. O volume da caixa e bumbos poderiam ser um pouco mais baixos, para não poluir o som, pois em algumas músicas a bateria aparece na mixagem muito à frente, “tampando” um pouco a guitarra, e principalmente o baixo.

- Baixo: poderia ter mais variação além de só seguir a bateria em algumas músicas mais rápidas,  e também faltou equalização média e aguda para deixar o baixo mais saliente e audível com aqueles “estalos” gostosos que ouvimos em baixos como do Steve Harris, Luis Mariutti, Felipe Andreolli e Raphael Dafras.


Auro Control chegou com tudo, mostrando a que veio e que poderá se tornar uma das bandas mais representativas da nova fase do Heavy Metal brasileiro. Eu realmente gostei da banda e várias músicas entraram na minha playlist e com certeza vou assistir o próximo show deles em Porto Alegre/RS.

Resenha: Blues Pills – Birthday (2024)

Por Carol Pen

Throwdown Entertainment / BMG (Imp.)

Blues Pills navega sob a mais crua essência do blues rock psicodélico pesado diante das notórias influencias musicais sessentistas, setentistas e oitentistas que o quarteto – atualmente formado pelos suecos Elin Larsson (vocal), André Kvarnström (bateria), Kristoffer Schander (baixo) e o norte-americano Zach Anderson (guitarra) – carregam. 

Sem contar os EPs e álbuns ao vivo, quatro são os que compõe a discografia da banda: o álbum de estreia hardzão autointitulado “Blues Pills” (2014), o psicodélico “Lady In Gold” (2016), “Holy Moly!” (2020) em peso maior, e o recente “Birthday” (2024).

2 de agosto de 2024 é a data que fica marcada na história da cena rock and roll atual, com o lançamento do quarto álbum de estúdio. Conta com onze faixas, de duração 38 minutos e 54 segundos, que tiveram a produção feita por Freddy Alexander.

Ao lado A do novo álbum dos Pills encontramos as faixas “Birthday’, “Don’t You Love It”, “Bad Choices”, “Top Of The Sky”, “Like A Drug” e “Piggyback Ride”.

A faixa-título “Birthday” foi a primeira a ser disponibilizada nas plataformas (8 de março), e abre os trabalhos do álbum. Ela entrega uma ótima mixagem de fortes e marcantes linhas de baixo, bateria e guitarra com a voz poderosa de Elin. A letra foi composta pela banda após terem saído para comemorar, durante uma turnê no México, o aniversário da vocalista e a mesma ter sido desrespeitada por um garçom. Assim explica-se a origem do primeiro verso da faixa: “I’m gonna ruin someone’s birthday”.

“Don’t You Love It” é uma pílula sonora para o ouvinte se soltar e aproveitar os aspectos positivos da vida apesar dos pesares. Também lançada como single, no dia 19 de abril, foi o segundo a sair nas plataformas de streaming e, em edição especial para o Record Store Day 2024, em vinil de 12 polegadas (30cm) juntamente da faixa-título “Birthday”. 

“Bad Choices” é um dos pontos altos do disco e remete bastante a performance vocal da Amy Winehouse. Contém viradas interessantes que envolvem uma variedade nas batidas dos versos ao refrão. Como o próprio título já entrega, a letra da música aborda as escolhas ruins que fazemos, assunto que surgiu durante o momento em que a banda conversava e compunha.

Não podia faltar uma balada poderosa em que Elin Larsson faria uma entrega vocal de arrepiar. “Top Of The Sky” combina cada instrumento em destaque, principalmente as batidas lentas e marcadas da bateria, e faz reflexão aos dias atuais onde a tecnologia predomina sob os limites da humanidade. Foi lançada como single no dia 31 de maio, sendo o terceiro e penúltimo antes do lançamento álbum. “Like A Drug” conta com um groovy ao decorrer da música que cria uma atmosfera bluesística.

“Piggyback Ride” encerra o lado A do álbum com uma energia selvagem e livre. O último single lançado pelos Pills que colaborou para criarmos uma ideia da sonoridade que eles entregariam neste álbum novo. Nessa faixa, a voz de Elin tem o tom abaixado para que ela soasse como um porco e a letra remete a suas reflexões sobre os porcos selvagens que andam por sua vizinhança.

Ao trocar o lado A (que entregou muito) para o lado B é possível encontrar as faixas “Holding Me Back”, “Somebody Better”, “Shadows”, “I Don’t Wanna Get Back On That Horse Again” e “What Has This Life Done To You”. 

“Holding Me Back” inicia o lado B do álbum com uma energia pop punk rock, proeminentemente no refrão. A faixa seguinte, “Somebody Better”, integra viradas fortes com o vocal poderoso. O álbum é concluído com três músicas mais lentas e emotivas: “Shadows”, “I Don’t Wanna Get Back On That Horse Again” e “What Has This Life Done To You”. Destaque para a faixa que encerra o álbum, que é uma balada introspectiva muito tocante.

Considerando a história do Blue Pills que foram de tocadas em bares sujos e lotados para tocadas em festivais grandes, como o Wacken Open Air, a banda evoluiu muito na sonoridade através da personificação de tudo aquilo que carregam como referências e da energia em uma sonoridade única por si só, autentica e moderna que facilmente agrada todos os gostos, falando em gerações. 

A solidificação do som dos Pills neste novo álbum é essencial, tendo em vista que a banda sofreu muitas críticas dos fãs em relação a mudança do som de suas músicas de álbum em álbum. Mas isso só prova que eles estavam experimentando as sonoridades para obter um som característico deles, coisa que bandas renomadas como Led Zeppelin e Black Sabbath fizeram, e se deixaram ser livres.

“Birthday” simboliza a captura da essência mais pura da banda em sua performance cheia de energia, atitude e poder. É um álbum que define a carreira dos Pills pelas letras de atmosfera emocionante e reflexiva, influencia clara pela gravidez de Elin durante a criação do álbum, junto do trabalho impecável que a banda fez nas composições e processos de mixagem juntos.

O álbum novo do Blue Pills está disponível tanto em mídia física (CDs e vinis) quanto nas plataformas de streaming. Para promover sua divulgação a banda está em turnê pela Europa. E quem sabe o Brasil entra na lista de turnê para o ano que vem?


sábado, 10 de agosto de 2024

Uganga: Liberdade, Amor à Música e Sem Máscaras

Por: Renato Sanson/Carlos Garcia


Desde os anos 80 batalhando na cena Metal mineira e brasileira, Manu Joker teve suas primeiras experiências com o Angel Butcher, lançando demos que posteriormente foram relançadas no exterior, e com uma passagem marcante pelo Sarcófago, lançando com a banda o EP "Rotting" (1989), que se tornou um clássico e referência a muitas bandas de Metal extremo. 

Mas a principal referência ao trabalho e capacidade criativa de Manu com certeza é o Uganga, banda a qual fundou em 1993, e se desafia e evolui a cada álbum.

Conversamos com Manu sobre o Uganga, Sarcófago, Manu Joker and The Rottens e muitos outros assuntos e histórias, as quais fazem parte do relicário do Metal e som pesado brasileiro.

Foto por Luan Ferreira

RtM: Manu, resuma pra gente como foi o inicio do Uganga? Pois a banda está ativa há bastante tempo, certo?

Manu Joker: Cara o Uganga foi criado por mim em Uberaba no ano de 1993, ou seja, ano passado celebramos 3 décadas na ativa sem nenhuma pausa. 

Inicialmente era um projeto paralelo já que todos os integrantes tinham outras bandas, porém com o tempo passou a ser nossa prioridade. Vieram mudanças de formação, 7 álbuns, várias tours pelo Brasil e Europa e inúmeras histórias incríveis. Tem sido uma jornada interessante.


RtM: Em sua época de Sarcófago você era baterista, mas no Uganga assumiu as vozes. Como foi lidar com essa mudança?

Manu: Na verdade no início do Uganga eu também era baterista, assumi o posto de vocalista pouco antes das gravações do nosso primeiro álbum “Atitude Lótus” de 2002. 

Nesse disco inclusive eu também toquei bateria em praticamente metade das faixas. Como nós vínhamos tendo dificuldades com os vocalistas, acabei assumindo o posto e meu irmão mais novo, Marco Henriques, veio pra batera. 

Mesmo na época que era o baterista eu sempre cantei algumas músicas, tanto no Angel Butcher quanto no início do Uganga, então acabou sendo uma transição tranquila. A real é que sempre me vi mais como vocalista do que baterista, mas obviamente amo tocar batera.


RtM: Em termos líricos a mensagem passada pela banda traz muito da realidade em que vivemos e muitas criticas ao modo governamental do nosso país. Como é construir as letras para casarem com a sonoridade?

Manu: Eu falo do que está a minha volta, falo sobre o que me inspira, instiga e também sobre o que irrita (risos). Se a gente olhar pela janela não veremos só flores, o mundo é um lugar rude, cruel e belo ao mesmo tempo. 

Tento usar todas essas tonalidades em minhas letras, sempre buscando algo de positivo com esses questionamentos assim como emoldurar essa lírica com uma sonoridade que também represente essas paisagens e emoções diversas.


RtM: Em 2013 vocês lançaram o álbum “Eurocaos ao Vivo” em sua passagem pela Europa. Como foi a recepção dos fãs referente à banda cantar em português?

Manu: Surpreendentemente positiva. Eu esperava algum tipo de rejeição pelo fato de nossas letras serem em português, mas ocorreu exatamente o contrário, fomos muito bem recebidos nas duas tours internacionais. 

Eu acho que o público europeu tem a cabeça mais aberta em relação a esse lance da língua, tanto é que por lá nós tocamos com bandas que cantam em húngaro, alemão, sueco e polonês, além-claro de inglês, e foi uma experiência muito enriquecedora. 

Eu sempre procuro explicar antes, geralmente em inglês ou espanhol, sobre os temas das letras e isso nos aproxima mais do público. Prefiro cantar com verdade, usando minhas gírias, falando sem máscaras e do meu jeito, do que com um sotaque caricato que pode inclusive tirar a poética da escrita. Acredito que lá fora boa parte do público tem concordado comigo nessa visão.


RtM: A cada álbum o Uganga explorou novos elementos, você acredita que essa coragem de experimentar, de buscar caminhos diferentes são fatores que contribuem para um artista se manter relevante e também se desafiar, não perdendo a gana de criar novas músicas? Vejo muitos artistas e bandas que parecem ter se tornado meras cópias de si mesmo.

Manu: Concordo com vocês, muitas bandas simplesmente repetem clichês por décadas e vivem de passado, mas esse definitivamente não é o nosso caso. O Uganga é regido pela liberdade, pelo amor a música e por uma visão de mundo onde as emoções não são suplantadas pelos modismos. 

Não posso falar pelos outros, mas no meu caso eu tenho definitivamente a necessidade de ser livre, inclusive artisticamente. Isso não quer dizer que nosso som não tenha uma assinatura ou influências, eu vejo os elementos que caracterizam a sonoridade do UG em todos nossos álbuns, mas acredito que encontramos a nossa fórmula de experimentar sem descaracterizar a essência.

Foto por Luan Ferreira

RtM: Sobre a discografia do Uganga você poderia nos descrever em poucas palavras cada um dos álbuns?

Manu: "Atitude Lótus (2002)": Um álbum experimental e nosso trabalho menos pesado. Ele registra o momento inicial do UG e reúne material composto nos primeiros anos. Tenho muito orgulho desse trampo apesar de soarmos como outra banda. Creio que a essência já estava ali.

"Na Trilha Do Homem De Bem (2006)": O nosso disco de transição, o elo entre a fase inicial mais leve e a retomada crossover que viria no nosso terceiro álbum. Esse disco reúne elementos dessas duas fases e foi meu primeiro somente como vocalista.

"Vol. 3: Caos Carma Conceito (2010)": Um álbum muito importante que abriu várias portas. Consolidou nosso estilo e até hoje reverbera. Faixas como “Fronteiras da Tolerância” e “Meus Velhos Olhos de Enxergar o Mal (2 Lobos)” são praticamente obrigatórias no set list.

"Eurocaos - Ao Vivo (2013)": Um registro cru, sem truques e artimanhas de estúdio, do que era uma apresentação do Uganga em 2010. Esse material foi gravado em Datteln (Alemanha) no Razorblade Festival e fora o nosso set completo naquele dia tem vários bônus bem interessantes, como por exemplo: versões de “Troops Of Doom” (Sepultura) e “Nightmare” (Sarcófago) extraídas de uma apresentação em Portugal. Tanto esse álbum quanto o “Vol. 3” foram lançados também na Europa.


"Opressor (2014)": Um disco pesado, visceral e com certeza um dos nossos melhores trabalhos. “Opressor” ao meu ver leva alguns passos além a sonoridade do “Vol.3” e rendeu nossa maior tour até aqui, tocamos com Exodus, Coroner, Catedral, Olho Seco, RDP e várias outras bandas que amamos. É outro que também foi lançado na Europa e aqui no Brasil além da opção em CD também saiu em vinil verde.

"Manifesto Cerrado - DVD (2017)": Esse material possui um longa metragem de mesmo nome que retrata nossa trajetória do início da banda até o ano de 2019. Além disso tem também uma apresentação mais intimista do Uganga num prédio histórico aqui da região chamado “Estação Stevenson”. Recomendo muito ambos os materiais que estão disponíveis no nosso canal do YouTube.

"Servus (2019)" - Ao menos até hoje esse é o meu preferido. “Servus” é o único álbum gravado como sexteto, com 3 guitarras, e foi lançado pelo selo alemão Wacken Foundation. Todas as características da banda estão ali, o peso, o groove, a velocidade, a desaceleração, a espiritualidade e o cinismo punk. Foi um álbum ousado, trabalhoso, intenso e também foi, infelizmente, nosso álbum pandêmico. 

Entre outras situações já estava fechada nossa terceira tour na Europa e iríamos pela primeira vez pra Rússia e, de repente, me vi trancado em casa. Mesmo assim fizemos alguns shows legais antes do lockdown tocando ao lado de bandas como: Corrosion Of Conformity, Rattus, Garotos Podres, Black Pantera, Pato Fu entre outras. Amo esse play!

"Libre! (2022)" - Eu encaro o “Libre!” como outro álbum de transição assim como também uma continuação da sonoridade do “Servus”. Esse disco manteve a banda viva e aponta para uma nova fase agora como quarteto e que vai mostrar a que veio muito em breve com o novo álbum. 

É nosso único trabalho que não tem 13 faixas e o primeiro a não passar de 25 minutos de música e gostei muito desse formato. Álbuns como “Reign In Blood” (Slayer), “Cavalo de Pau” (Alceu Valença) e mesmo o “Rotting” tem essas características e é algo que faremos de novo no próximo. É desse disco minha música preferida do UG “Retrovisor”.


RtM:Voltando no tempo, conte-nos um pouco sobre a sua passagem pelo Sarcófago, quais as principais lembranças que você guarda, tendo participado daquela época em que surgiram muitas bandas importantes no cenário mineiro. Inclusive o “Rotting” foi composto e até em parte gravado na sua casa, não é?

Manu: Na verdade o álbum foi composto e ensaiado aqui em casa e gravado no mítico JG Estúdio em BH. As lembranças dessa fase são as melhores possíveis, estávamos extremamente focados em dar o nosso melhor e levamos 12 dias para terminar tudo. Vez ou outra nos encontrávamos com amigos de bandas como Sextrash, Witchhammer, Holocausto ou Overdose para conversas e algumas cervejas, a cena na cidade estava em total ebulição nessa época.


RtM: Ainda sobre o EP “Rotting”, que é até hoje muito celebrado pelos fãs de Metal extremo, em sua visão, qual a importância desse legado?

Manu: “Rotting” segue sendo meu preferido dentre a discografia da banda e não é porque eu toquei nele. Vejo esse disco como uma evolução natural do “INRI”, antes da guinada pro Thrash/Death ocorrida em “The Laws Of Scourge” e acho as letras mais legais também. É o tal “disco de transição” e um item da minha discografia que muito me orgulha.


RtM: Até hoje se fala de certa “disputa” entre algumas bandas da época, o que você lembra a respeito e o que realmente existia em termos de competição ou alguma animosidade.

Manu: A competição positiva sempre vai existir entre as bandas e acho isso saudável, você se motiva a ir além. O foda é quando isso descamba pra ódio, violência etc… Teve um período aí onde Sarcófago e Sepultura foram para esse lugar e coisas não tão legais aconteceram. Apesar de ser um ex-Sarcófago eu nunca tive nenhum problema com o Sepultura, muito pelo contrário.


RtM: Lembro que alguns anos atrás, um tributo ao Sarcófago tomou forma com você e outros ex-integrantes. Como surgiu e porque não seguiram adiante?

Manu: A ideia era fazer só alguns shows pontuais celebrando os 25 anos da “Warfare Noise 1” e deu muito certo. Além de 6 cidades no Brasil fizemos um festival foda em Santiago (Chile) ao lado do grande Possessed (EUA).


RtM: Atualmente você também tem o Manu Jokers & The Rottens, com vários músicos experientes, gostaria que nos falasse um pouco mais sobre esse projeto, e se é algo que vocês podem levar além de tocar o “Rotting” na íntegra e outras versões, de repente produzir músicas inéditas nessa linha?

Manu: O MJTR é um projeto de metal/punk extremo oitentista porém olhando prós dias atuais, ao meu ver é trazer pros palcos de hoje músicas que fazem parte da minha história sem querer soar saudosista. 

A vida segue… Estão comigo nessa empreitada meus irmãos Maurício Nogueira (ex-Krisiun, Matanza, Torture Squad etc…), Bráulio Drumond (Dorsal Atlântica) e Igor Wallace (Rëstos). Além de executar o “Rotting” na íntegra tocamos material do Angel Butcher (minha banda pré Sarcófago) e outras homenagens aos nossos heróis do underground brasileiro. Sobre material novo com certeza isso vai acontecer em algum momento.

Foto por Luan Ferreira

RtM: Você também trabalha como produtor, conhece os dois lados, quais as principais dificuldades ainda enfrentadas pelas bandas e produtores na questão de condições para shows e turnês? O que mudou dos anos 80 e 90 para cá?

Manu: O underground sempre será um lugar de luta, dificuldades e auto afirmação de vontades. Creio que hoje em dia está mais fácil tocar, porém a oferta muitas vezes é maior que a demanda. 

Você pode organizar tours e gravar discos por sua conta com uma acessibilidade que não existia nos anos 90, mas ao mesmo tempo a corrida por likes e seguidores tem inundado o mercado com porcarias sem alma, tá tudo muito padronizado, geral pagando de juiz sem nem limpar o próprio rabo e isso ao meu ver é o lado negativo mais gritante.


RtM: Você sempre expressa seus posicionamentos te políticos e sociais, o que você acha a respeito de pessoas que dizem que o artista deve simplesmente fazer sua música, subir no palco e tocar e pronto, não ficar dando opiniões ou fazendo discursos sobre a sociedade, temas atuais ou posicionamentos políticos?

Manu: Eu não julgo quem não quer se posicionar politicamente, cada um faz o que quiser com sua arte. O que não abro é do meu direito de falar sobre o que eu quiser, onde quiser e quando eu quiser. Escrevo muitas vezes sobre a realidade a minha volta, e essa realidade nos oprime deixa de guarda alta e preocupados com nosso futuro nesse planeta.


RtM: Estamos vendo nos últimos anos um aumento da procura pelas mídias físicas, com as vendas de LPs, e agora novamente o CD, aumentando e com um público novo também se interessando pelas mídias físicas. Pode ser um fator que favoreça nosso nicho? Como você vê a viabilidade hoje e em médio prazo o investimento das bandas em material físico?

Manu: Eu tenho visto as pessoas voltarem a gastar com vinis, cds e até fitas K7 e fico feliz com isso. Vai chegar uma hora que ficar ouvindo trechos de 15 segundos no TIk Tok não vai mais resolver, não trará preenchimento e muitos vão se tocar que não existe nada como apreciar um trabalho completo com arte gráfica, músicas e conceito bem alinhados.


RtM: Com esses anos todos de estrada e vários shows e álbuns lançados, o que você almeja ainda alcançar como artista?

Manu: Eu almejo seguir fazendo o que amo, com saúde e energia positiva. Estamos trabalhando em um documentário da banda, temos muitas datas daqui pro final do ano em várias regiões do país e vamos iniciar as gravações do oitavo álbum. 

As músicas estão matadoras, é UG 100% e muito mais. Esperem, confiram e se possível nos digam o que acharam depois. Também está nos nossos planos a terceira tour internacional. Vamos em frente pois tem muito mais, salve!


Fotos: Acervo do artista e Luan Ferreira Fotografia e Videografia 

Uganga Instagram

Spotify

YouTube 





terça-feira, 6 de agosto de 2024

Cobertura de Show: Dogma – 23/07/2024 – Casa Aurea/SP

Dogma faz show extra em São Paulo e surpreende público com apresentação de álbum de estreia, sons novos e performances diferenciadas

Apresentação na Casa Áurea contou com a abertura dos paulistanos do The Heathen Scÿthe; banda feminina também fez tributo a grandes bandas do Metal internacional

A misteriosa banda de Heavy Metal e Hard Rock Dogma fez uma apresentação como atração principal na Casa Áurea, no bairro da Bela Vista, Centro de São Paulo, no último dia 23 de julho. A banda de abertura foi a The Heathen Scÿthe e a organização do evento foi da OKF Produções junto à IDL Entertainment.

O quarteto, que se apresenta ao vivo como quinteto – uma guitarrista adicional – e que foi uma das atrações da edição de 2024 do Odin’s Krieger Fest, realizado dois dias antes, apresentou todas as faixas de seu álbum de estreia, “Dogma” (2023), além de possíveis faixas inéditas e um tributo às bandas Iron Maiden, Metallica, Megadeth, Slayer e Lamb of God. Fora a parte musical, o show da Dogma contou com um momento de dança em meio à apresentação. Todo o teor misterioso das integrantes teve como consequência as poucas interações com o público, assim como a falta de discursos que foi recompensada em um show enérgico e de alta qualidade sonora.

Já o The Heathen Scÿthe, na abertura, trouxe sua temática pautada no paganismo sobre diversas culturas e localidades tanto nas letras, quanto no visual. Tão bem produzidos quanto às freiras do Dogma, em termos de maquiagem e vestimentas, os paulistanos trouxeram uma variação de subgêneros do Heavy Metal em suas faixas e combinaram com o visual assustador e, ao mesmo tempo, impressionante.

A Casa Áurea não teve lotação total, ocupando metade do palco e o mezanino. No entanto, os que compareceram, seja por não terem ido ao Odin’s Krieger Fest, seja por terem ido e quererem ver tanto a abertura, quanto a segunda apresentação da Dogma, vieram curiosos com possíveis novidades e, também, ficaram totalmente vidrados nas duas apresentações.

 

The The Heathen Scÿthe

Nada mais obscuro do que ver uma cabeça de bode contida em um círculo com espécie de pentagrama. Essa foi justamente a decoração presente no microfone central do equipamento da banda paulistana The Heathen Scÿthe. É claro que mais surpresas viriam no show de abertura, mas a espera pelo início do evento teve esta figura como centro das atenções daqueles que se posicionaram próximos ao palco, desde a chegada. Os demais suportes de microfone tinham pequenos e “magros” galhos e pedaços de correntes em volta, aprimorando assim a decoração do palco.

O grupo é formado por Tato de Luca, o Da’at (vocal), Marcus Dotta, o Malkhuth (bateria), Fernando Giovannetti, o Yesod (baixo), Flavio Sallin, o Hokhmah (teclado), Bruno Luiz, o Netzah (guitarra) e Paulo Roveri, o Hesed (guitarra) e tem faixas com variações de subgêneros do Heavy Metal e temáticas ocultistas.

A entrada da banda começou às 20h. Dos membros, Tato foi o último a entrar e apresentou um traje mais elaborado, com lentes que simulavam olhos sem pupila, um capacete com chifres grandes, jaqueta rasgada e uma espécie de foice, em uma verdadeira representação para Da’at. Os demais membros tinham jaquetas de couro e maquiagens menos elaboradas, porém agregadoras para todo o ambiente formado ao show.

The Heathen Scÿthe começou a abertura da noite com a instrumental “The Offering”, dando o cartão de boas-vindas da musicalidade da banda. “Into the Fire”, primeiro single da banda (lançado em 2023) e faixa presente no EP de mesmo nome da banda, de 2024, veio logo na sequência, com ótimos riffs e o potencial vocal de Tato de Luca.

As decorações do tripé do frontman da banda ameaçaram de cair em “The Magus”, mas um dos roadies da banda fez questão de ajustar durante a faixa, de modo a manter a boa estética do palco. A música veio com todo o peso e mostrou a desenvoltura de Flavio Sallin (Hokhmah) com seus equipamentos, tanto o fixo, quanto o móvel – este em formato de espada. Sentado, o tecladista conseguiu transitar bem com os instrumentos, tendo o móvel no colo e, ainda assim, conseguindo bater cabeça quando preciso.

A apresentação seguiu com as poderosas “Welcome (To the Dead)”, cujo público acompanhou os gritos de “Welcome” e ovacionou o gesto aparentemente ocultista de Tato, e a sequência com “Carmini Pagani” e “S.O.L.O.M.O.N.”, com headbangings sincronizados da banda e uma mistura de canto com performance por parte de Tato, o Da’at, que bateu sua foice ao chão no ritmo da faixa.

Após um breve discurso do frontman do Heathen Scÿthe, que indicou que as duas faixas anteriormente citadas terão clipes futuramente, o grupo retomou à música com “Siras, Etar, Besanar”, descrita como uma faixa “para invocar anjos e demônios para si” e que contou com ótimos solos de guitarra. E após “Acolytes of Heka” e “Heathen Scÿthe”, música descrita por Tato como “aquela que cita o nome da banda 19 vezes”, a banda terminou sua grande apresentação com “Runes & Blood”, faixa que tem um pequeno trecho narrado e que foi muito bem conduzida pelos músicos. O solo de bateria de Marcus Dotta e o levantamento da foice de Tato foram o gran finale.

Outro grande exemplo de como aproveitar os pequenos espaços do local veio por parte da equipe da banda, que rapidamente desmontou os kits e usou um dos cantos que davam acesso ao palco e ao backstage como forma de organizar tudo. A ajuda de parte dos presentes para liberar as passagens fez a diferença e facilitou para dar espaço à equipe da apresentação seguinte.

 

Dogma

Muito mistério pairou sobre o palco da Casa Áurea, após o fim do show do Heathen Scÿthe. Não se sabia se haveria alguma novidade, em comparação com a apresentação do Odin’s Krieger Fest.

No entanto, perto do início da apresentação, a única decoração presente foi inserida. Era uma espécie de wind flag, com uma imagem controversa e de cunho sexual, em uma das laterais.

O início da apresentação foi em volta das 21h22. Dez minutos antes, as caixas de som tocaram um trecho musical semelhante a uma Bossa Nova e, depois, um remix de pop com sinfonia. A última, que introduziu de fato a apresentação, veio com uma versão de “Ameno”, do grupo Era, seguida de “Lux Aeterna”. As cinco integrantes, cujos nomes verdadeiros nunca foram revelados, entraram no palco dando a volta de uma entrada do backstage até a escadaria de acesso. Abrahel (baixo), Lamia (guitarra), Rusalka (guitarra, sendo membro das apresentações ao vivo), Nixe (baixo) e Lilith (vocais), ovacionadas pelo público presente, estavam com seus trajes temáticos: vestidas de feira, maquiagem branca com detalhes em preto e colares personalizados, com o símbolo feminino e chifres no topo circular. Elas logo se posicionaram para cantar “Forbidden Zone”, faixa de abertura do álbum homônimo da banda, “Dogma”, lançado em 2023 e a primeira de um setlist com 15 faixas, duas a mais que na apresentação feita no Carioca Club, dois dias antes.

A voz de Lilith foi o primeiro grande destaque na primeira faixa e, também, o indicador de que ela, assim como a banda, não estava com vergonha, e sim contida para não atrapalhar as parceiras no curto espaço do palco.

“Feel the Zeal” deu sequência à apresentação. As palmas ritmadas do público, no início, deram mais suporte para que as integrantes se soltassem mais no palco, com a mesma segurança de respeito ao espaço alheio. A performance musical, claro, gerou mais reações positivas dos fãs. Já “Be Free”, faixa que não compõe o álbum de estreia delas, trouxe um início a capella que reforçou o potencial vocal de Lilith, assim como o solo de guitarra complementou e muito a faixa, durante a parte com instrumental.

Em “My First Peak”, iniciada por sussurros de suspense, o público, também mais à vontade e com conhecimento da faixa, cantou junto o começo e os refrões. Um bom complemento performático foi o balançar de cabeças das meninas após outro bom solo de guitarra executado por uma das guitarristas.

As integrantes da banda cedem espaço para uma performance de dança. Isso acontece logo após a quarta faixa e antecedida de uma introdução com “O Fortuna”, poema dos manuscritos de “Carmina Burana” que ficou famoso graças à cantata composta por Carl Orff (1895-1982) e que foi tocada na Casa Áurea. Após esta parte musical gravada, uma sexta moça, também vestida a caráter da banda e sob outra música clássica ao fundo, performou uma dança repleta de momentos de contorcionismo e que, infelizmente, não pôde ser totalmente vista por quem estava mais ao fundo, uma vez que o palco era mais baixo do que a altura da maioria dos espectadores que estavam nas duas ou três primeiras fileiras frontais.

O show da banda Dogma prosseguiu com “Made Her Mine”, respeitando a sequência do álbum de estúdio – sem contar as faixas que não o compõe -. A sonoridade, mais Power Metal, trouxe uma nova energia ao show. Lilith seguiu impecável em sua voz, assim como a banda esteve perfeita no ritmo. A velocidade proposta se manteve com “Banned”, segunda música do setlist que não integra o LP do quinteto.

Abrahel teve seu momento de maior destaque na noite, ao executar um solo de bateria que levou o público a mais ovações e aplausos durante e depois das linhas tocadas. A finalização logo emendou para o início de “Carnal Liberation”, logo acompanhada das instrumentistas de corda e do vocal de Lilith. Uma tiara “solar” prateada apareceu na cabeça de uma das guitarristas - justamente a que executou um ótimo solo – e complementou seu traje.

“Free Yourself” deu sequência à apresentação. As iluminações a laser, que vieram do teto e seguiram em outras das músicas seguintes, foram a novidade do show neste momento, sendo algo com tom psicodélico, mas que atrapalhou muitas pessoas que, mais ao fundo da pista, tentavam gravar trechos da apresentação. Musicalmente, não houve somente o misto de Heavy Metal com Hard Rock, como um momento de Jazz sutil, que quebrou o ritmo momentaneamente, mas não a energia da faixa.

Já em “Bare to the Bones”, Lilith manteve sua qualidade vocal em alta, assim como as guitarristas dividiram a execução de um ótimo solo em meio a um momento mais Heavy Metal da música em questão. Os pedidos de gritos de “hey” ao público, por parte de uma das guitarristas – e em uma das raras interações com o público -, foram essenciais na transição para “Make Us Proud”, faixa mais lenta e que contou com a aparição de um ser encapuzado que, com uma das mãos na cabeça de Lilith – como se fizesse uma espécie de oração ou bênção -, cantou os trechos de refrão que, na versão de estúdio da música, são de um dos membros da banda de Black Metal grega The Dark Messiah.

A décima segunda faixa do show da Dogma, naquela noite, foi um verdadeiro medley com cinco covers instrumentais de riffs e partes iniciais de grandes clássicos do Metal. Na sequência, as quatro instrumentistas tocaram – muito, muito bem - “Walk”, do Pantera, “The Trooper”, do Iron Maiden, “Master of Puppets”, do Metallica, “Symphony of Destruction”, do Megadeth, “South of Heaven”, do Slayer, e “Laid to Rest”, do Lamb of God. Cada faixa levou uma parcela do público, repetidamente ou não, ao delírio e a cantar pequenas partes, principalmente nos refrões.  Lilith aproveitou para dançar ao fundo do palco, de frente para a baterista.

“Pleasure From Pain” foi a faixa que deu os ares de reta final à apresentação. O público voltou a dar gritos de “hey” no ritmo da faixa, assim como houve coreografia entre as integrantes. Lilith, com outra tiara “solar” de cor dourada, mostrou mais das variações de notas mais estridentes e agudas de sua voz durante toda a faixa.

A frontman da Dogma, após o término da faixa, se animou a ponto de ecoar uma simples frase que, pela ausência de diálogo verbal com o público, valeu como um discurso: “It’s Crazy, São Paulo sinners!” – “Isso é uma loucura, pecadores de São Paulo!”, em tradução livre.

Logo na sequência, o riff de “Father I Have Sinned” é ecoado. A faixa é uma das mais populares da banda e do álbum de estreia e, consequentemente, animou ainda mais a plateia que já estava a toda a concentração possível com o show. E a performance é espetacular: riffs pesados, refrão liricamente cativante, letra interessante, solo de guitarra de alta qualidade e uma finalização absurda de Lilith com guturais que, na apresentação, foram inéditos e aclamados pelo público.

A música “The Dark Messiah”, assim como no álbum, fechou a apresentação em grande estilo, com uma mistura de notas do peso de Heavy Metal e um background sinfônico.

Todas as integrantes da Dogma, em fila, desceram do palco e deram a volta nele para o acesso ao backstage e camarim, ao som de “Tubular Bells”, música que faz parte da soundtrack do filme “O Exorcista” (1973). O mistério quanto a cada identidade seguiu do mesmo jeitinho, mas a impressão positiva do público, seja da parcela dos que viram a banda pela primeira vez ou de quem as viu por mais uma vez, após o Odin’s Krieger Fest, foi praticamente unânime dentro da Casa Áurea. Positiva o suficiente para que muitos até mesmo esperassem a saída definitiva das integrantes para uma foto, autógrafo ou até uma tentativa de diálogo. Noite memorável para uma banda mais que promissora.


Texto: Tiago Pereira

Fotos: Edu Lawless

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: OKF Produções / IDL Entertainment 

Mídia Press: Tedesco Comunicação & Mídia

 

The Heathen Scÿthe

The Offering

Into the Fire

The Magus

Welcome (To the Dead)

Carmina Pagani

S.O.L.O.M.O.N.

Siras, Etar, Besanar

Acolytes of Heka

The Heathen Scÿthe

Runes & Blood

 

Dogma:

Forbidden Zone

Feel the Zeal

Be Free

My First Peak

Intro: O Fortuna (cantata de Carl Orff). Na sequência, uma performance de dança

Made Her Mine

Banned

Drum Solo

Carnal Liberation

Free Yourself

Bare to the Bones

Make Us Proud

The Tribute: Pantera – Walk, Iron Maiden – The Trooper, Metallica – Master of Puppets, Megadeth – Symphony of Destruction, Slayer – South of Heaven, Lamb of God – Laid to Rest

Pleasure From Pain

Father I Have Sinned

The Dark Messiah

Encerramento: Tubular Bells (música presente na soundtrack do filme “O Exorcista”, composta por Mike Oldfield)