terça-feira, 2 de junho de 2026

A.A. Williams: Vulnerabilidade em Peso (Also In English)

Reingning Phoenix Music (Imp.)

Por Michelle F. Santana

Natural de Londres, A.A. Williams vem construindo seu nome desde o lançamento de seu EP de estreia, em 2019. Misturando doom atmosférico, post-rock, dark rock e influências da música clássica, a cantora e multi-instrumentista se destacou pela capacidade de unir delicadeza e peso emocional em composições profundamente pessoais.

Em Solstice, seu novo álbum, Williams aprofunda ainda mais essa proposta. O título faz referência ao solstício, fenômeno que marca a transição entre luz e escuridão, ideia que atravessa todo o disco ao equilibrar momentos de tristeza, reflexão e esperança. Com uma atmosfera densa e carregada de emoção, o álbum convida o ouvinte a encarar suas próprias vulnerabilidades através de músicas que exploram diferentes facetas da dor, da contemplação e da fragilidade humana.

Um dos maiores destaques do disco é a forma como A.A. Williams usa sua voz. Mais do que apenas cantar, ela transforma o vocal em parte da atmosfera das músicas. Sua interpretação transita entre o delicado, o etéreo e o melancólico, carregando cada verso com emoção e fazendo da voz o elemento mais marcante do álbum.

O peso de Solstice não está em riffs agressivos ou em momentos de explosão sonora. Ele nasce da atmosfera construída ao longo das faixas e da carga emocional presente em cada composição. É um disco que encontra força justamente na sensibilidade e na capacidade de envolver o ouvinte em seus sentimentos.

Comparando com o álbum *As the Moon Rests*(2022), Solstice não tenta mudar radicalmente a identidade da artista. Em vez disso, A.A. Williams refina o que já funcionava tão bem em seus trabalhos anteriores. O resultado é um álbum mais maduro e consistente, onde tudo parece trabalhar em favor da mesma proposta emocional.


Faixas em Destaque

"Poison" funciona como a porta de entrada perfeita para o universo do álbum. Guiada pela voz marcante da artista, a faixa cresce aos poucos e estabelece o clima melancólico que acompanha todo o trabalho.

"Wolves" é um dos momentos em que a influência do doom atmosférico aparece com mais força. A música cria uma tensão constante que envolve o ouvinte e reforça a carga emocional do disco.

"Little by Little" é o ponto mais alto do álbum. A faixa mostra com clareza a habilidade de A.A. Williams em criar peso sem recorrer à agressividade. A emoção cresce aos poucos até atingir um dos momentos mais tocantes de Solstice.

"The Veil" destaca-se pela atmosfera sombria e pela forma como a voz parece flutuar sobre os instrumentos. É uma faixa que reforça o caráter introspectivo do álbum e convida o ouvinte a olhar para dentro de si.

"The Gentle Harm" encerra o disco de forma perfeita. A música funciona como o capítulo final dessa jornada emocional, deixando uma sensação melancólica que permanece mesmo depois dos últimos acordes.

Solstice vai além do doom atmosférico: é um mergulho nas emoções humanas. A.A. Williams mostra que o peso nem sempre vem da agressividade; muitas vezes, ele nasce da forma crua e sincera com que sentimentos difíceis são expostos. É um disco que exige atenção e entrega do ouvinte, mas recompensa quem aceita embarcar nessa jornada com uma experiência intensa, sensível e profundamente tocante.

***ENGLISH VERSION***

Hailing from London, A.A. Williams has been steadily building her reputation since the release of her debut EP in 2019. Blending atmospheric doom, post-rock, dark rock, and classical influences, the singer-songwriter and multi-instrumentalist has carved out a unique space through her ability to balance delicacy with emotional weight in deeply personal compositions.

On Solstice, her latest album, Williams pushes that approach even further. The title refers to the solstice, a phenomenon that marks the transition between light and darkness, an idea that runs throughout the record as it balances moments of sadness, reflection, and hope. With a dense and emotionally charged atmosphere, the album invites listeners to confront their own vulnerabilities through songs that explore different facets of pain, contemplation, and human fragility.

One of the album's greatest strengths is the way A.A. Williams uses her voice. Rather than simply singing, she turns her vocals into an essential part of the music's atmosphere. Her performance moves between the delicate, the ethereal, and the melancholic, filling every line with emotion and making her voice the most striking element of the record.

The weight of Solstice does not come from aggressive riffs or explosive moments. Instead, it emerges from the atmosphere woven throughout the album and the emotional depth embedded in each composition. It is a record that finds its power in sensitivity and in its ability to draw listeners into its emotional world.

Compared to As the Moon Rests (2022), Solstice does not seek to radically redefine Williams' artistic identity. Instead, she refines the elements that have worked so well in her previous releases. The result is a more mature and cohesive album, where every element serves the same emotional purpose.


Highlights

Poison serves as the perfect gateway into the album's world. Guided by Williams' captivating vocals, the track gradually builds in intensity while establishing the melancholic tone that runs throughout the record.

Wolves is one of the moments where the influence of atmospheric doom is most apparent. The song creates a constant sense of tension that draws the listener in and reinforces the album's emotional weight.

Little by Little stands as the album's high point. The track showcases Williams' remarkable ability to create a sense of heaviness without relying on aggression. Its emotional impact builds steadily, culminating in one of the most moving moments on Solstice.

The Veil stands out for its dark atmosphere and the way Williams' voice seems to float above the instrumentation. It is a deeply introspective piece that encourages listeners to turn inward and reflect.

The Gentle Harm provides the perfect closing chapter to the album. The song brings this emotional journey to a fitting conclusion, leaving behind a lingering sense of melancholy long after the final notes have faded.

Solstice goes beyond atmospheric doom; it is a profound exploration of human emotion. A.A. Williams demonstrates that heaviness does not always come from aggression. More often, it emerges from the raw and honest way difficult emotions are laid bare. It is an album that demands attention and emotional investment, but rewards those willing to embrace its journey with an experience that is intense, sensitive, and deeply moving.

Jack Owens



segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cobertura de Show: Cult Of Fire – 20/05/2026 – Burning House/SP

O Cult of Fire transformou sua passagem por São Paulo em uma experiência sensorial profunda, quase um ritual fechado, em que música, simbolismo e atmosfera se fundiram em uma única entidade sonora. Integrando a turnê “Mantras for Peaceful Death Over Latin America” e promovendo o excelente The One, Who Is Made of Smoke (2025), a banda tcheca reafirmou aquilo que a tornou um dos nomes mais singulares do metal extremo contemporâneo: sua capacidade de dissolver as fronteiras entre apresentação musical e cerimônia espiritual. Conhecido por suas performances ritualísticas, figurinos inspirados em tradições orientais e forte carga visual, o grupo fez, mais uma vez, da cenografia um elemento indispensável de sua narrativa sonora. A apresentação aconteceu na Burning House, no último dia 20.

Durante o show, ficou claro que não haveria espaço para conversas desnecessárias, brincadeiras com o público ou discursos inflamados. O Cult of Fire optou pela imersão absoluta. Em meio a luzes calculadamente projetadas, fumaça abundante e à presença quase litúrgica dos músicos em seus figurinos característicos, “Loss” abriu o caminho como um portal para o universo conceitual do novo álbum. “Mourning” e “Anger” vieram na sequência, ampliando a sensação de envolvimento emocional e transcendência, ao combinar a agressividade do black metal com camadas melódicas densas, elementos ritualísticos e uma construção atmosférica que parecia engolir lentamente o ambiente.

A execução do material recente foi simplesmente impecável. “Dhoom”, “Blessing” e “Joy” demonstraram como The One, Who Is Made of Smoke funciona quase como uma obra contínua quando transportada ao palco. Em vez de depender apenas da violência tradicional do gênero, a banda construiu tensão por meio de contrastes: passagens contemplativas colidiam com explosões de bateria, guitarras hipnóticas e vocais alucinantes. “There Is More to Lose” surgiu como um dos pontos altos da apresentação, carregando um peso emocional particular e reforçando a temática do álbum, centrada em perda, transformação e espiritualidade.

Se o início foi marcado pelo mergulho no trabalho mais recente, a segunda metade do show serviu como uma celebração da identidade construída pelo grupo ao longo da carreira. “Závěť Světu”, “Kālī mā”, “Untitled 1” e “Khaṇḍa maṇḍa yōga” conduziram o público por paisagens sonoras em que a brutalidade do black metal convive naturalmente com referências hinduístas, atmosferas meditativas e uma abordagem quase cinematográfica. Era impressionante perceber como a audiência acompanhava, em silêncio reverente, cada transição entre as faixas, absorvendo cada detalhe, em vez de buscar a reação caótica típica de apresentações extremas.

“(ne)Čistý”, “Satan Mentor” e “Buddha 5” elevaram ainda mais a intensidade antes do encerramento. Mesmo sem interação constante, a conexão entre banda e público era evidente justamente pela ausência de palavras: o Cult of Fire preferiu permitir que a música falasse sozinha. E funcionou. Cada composição parecia cuidadosamente posicionada dentro de uma narrativa maior, como capítulos de uma liturgia obscura que exigia atenção total dos presentes.

Somente próximo da despedida veio a primeira interação, rompendo o silêncio ritualístico. Antes da última música, o vocalista Vojtěch Holub finalmente dirigiu algumas palavras ao público, agradecendo a presença, lembrando que aquela era a apresentação final da turnê e anunciando uma faixa extra dedicada ao falecido amigo brasileiro Leonardo. O gesto simples ganhou peso justamente por surgir após uma apresentação quase inteira sem interação com o público. O encore com “Reach The Sky and Die!” encerrou a cerimônia de forma explosiva, liberando a energia acumulada durante toda a performance. Mais do que um show memorável, o Cult of Fire entregou, na Burning House, uma experiência de entrega total, intensa, contemplativa, desconcertante e profundamente hipnótica. Uma noite que não pediu participação do público; pediu apenas rendição. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 




Cult Of Fire – setlist:

Loss

Mourning

Anger

Dhoom

Blessing

Joy

There Is More to Lose

Závěť Světu

Kālī mā

Untitled 1

Khaṇḍa maṇḍa yōga

(ne)Čistý

Satan Mentor

Buddha 5

Reach The Sky and Die!