Por: Renato Sanson
O peso, a velocidade e a atitude do verdadeiro thrash metal estão no ar.
Diretamente da linha de frente do underground brasileiro, hoje o papo é com ninguém menos que Poney, baixista e vocalista do Violator. Em uma conversa intensa, falamos sobre a energia do Bangers Open Air, os bastidores e recepção do novo álbum, a essência do thrash metal e tudo que mantém o gênero vivo, agressivo e relevante até hoje.
Se você respira som pesado, prepara o volume… Porque essa entrevista tá insana.
Satisfação aí poder conversar contigo. Sou aqui do Sul. Já trocamos ideia na Embaixada do Rock ali algumas vezes.
É lá em São Leopoldo.
Em São Leopoldo. Isso mesmo.
Ô, que maravilha, cara. Tocamos, eu acho que fizemos acho que quatro apresentações lá em duas oportunidades diferentes, talvez, né, cara?
Exato. Exato. Eu fui em três.
Que legal, cara. Que legal.
Bom, vamos começar, então. Vamos falar do novo álbum "Unholly Retribution", que saiu ano passado. Uma expectativa grande aí dos fãs, né? Minha expectativa também. Como é que foi a criação desse álbum?
Legal. Foi uma um longo preparativo, Renato, para acontecer. Eu acho que o espaço de tempo entre um álbum e outro de 12 anos representa muito bem a aventura que foi também preparar esse disco assim, né? Porque envolveu a volta, o retorno do Capaça ao Brasil, que morou seis anos fora na Irlanda, o nosso guitarrista e riff master, né? Envolveu todas as aventuras das nossas vidas pessoais ao longo dos 30 anos, a época das pessoas terem filhos, arranjarem empregos fixos e tudo mais.
E uma pandemia no meio, tal. E mais para além disso, um preparativo muito grande no sentido de como a gente queria produzir um álbum, um álbum cheio, um álbum daqueles que a gente é tão fã, que a gente tem, a gente cresceu ouvindo e gostaria, né, e aprendeu a apreciar no Heavy Metal, um disco cheio com oito músicas, 40 minutos, quatro faixas de cada lado e tudo mais.
E contamos com uma generosidade tremenda da KA Records para entender a pretensão no bom sentido desse trabalho. Então, pra gente poder trazer um gringo, o Yarne, para morar aqui em casa por duas semanas para produzir esse disco, pra gente fechar um estúdio pra gente aqui na nossa cidade, ter todo o tempo disponível para realizá-lo assim, né?
Então, ele foi uma espécie de epopeia para a realização dele, assim, que nos custou muita dedicação, trabalho, planejamento, mas que felizmente eu acho que o resultado que a gente conseguiu alcançar reflete um pouco toda essa dedicação que a gente aplicou ao disco, assim, sabe? Eu acho que valeu muito toda essa dedicação e todo esse tempo.
Ah, realmente é um disco visceral! Pra gente que é fã do thrash, do crossover, assim, quando eu ouvi, eu fiquei, puxa vida, tem uma raiva nele, tem o ódio característico do thrash e a velocidade tá tudo ali.
Essa é a melhor recepção possível, Renato, porque é a aprovação dos nossos camaradas headbangers! Porque de alguma forma o disco ele tá implicado no giro que o Violator fez em 2017 no EP The Hidden Face of Death, que é de fazer um som mais primitivo, um som que flerta com o death metal ali, né? As influências mais antigas, voltando para o Slayer do EP e do segundo álbum, tem todo um caráter mais antissocial e primitivo, eu diria, que não necessariamente foi a marca do que ficou mais conhecido do Violator ao longo dos anos, assim.
E eu acho que os nossos camaradas headbangers entenderam muito bem a nossa vontade, já mais velhos, de fazer um disco mais agressivo, de fazer um disco que não tava interessado em agradar os ouvidos mais sensíveis assim, né? Então, a maior aprovação possível foi exatamente de quem curte som, assim como a gente.
Ah, que irado, que massa. Bom, vocês fizeram parte da, vamos dizer assim, do revival do thrash metal. A gente passou por um marasmo, uma época ali que ficou difícil. Então, Violator, Municipal Waste, Gama Bomb, são bandas que, vamos dizer assim, trouxeram de volta essa chama e parece que isso incendiou do modo geral que até as bandas clássicas começaram a apertar de novo, né, e bater forte no som de novo.
Sim, os caras estavam todos de cabelos curtos, tocando som meio gótico, alternativo né.
Exato, velho. Exato. Daí parece que quando deu esse pé na porta assim, vai o Violator, Municipal, Gama Bomb, aquele estouro, parece que os caras se ligaram. Assim, opa, nós temos que voltar, senão nós vamos perder. Como que é refletir sobre isso pra você?
Uma coisa que eu acho legal, olhando que agora o Violator já completa 24 anos, o que é um tempo maior, muito mais distante do que a gente tinha dos anos 80, quando a gente começou ali no final dos anos 90 e dos anos 2000, né? Mas o que é legal de ver passado esse tempo é que eu acho que teve uma questão, teve um encontro geracional parecido com o que aconteceu na primeira geração do thrash.
Assim, nós tivemos vários moleques ao redor do mundo, como foram os caras do Toxic Holocaust, o pessoal do Farscape, o Bywar, enfim, múltiplos exemplos, que era uma molecada que tava cansada daquele tipo de metal que tava sendo feito nos anos 90, do auge do New Metal, né, daquela coisa do black metal sinfônico ou do power metal melódico e tava em busca de alguma coisa mais visceral, tava em busca de uma coisa mais honesta, de uma coisa mais em que essa agressividade fosse realizada de uma forma mais sincera, né?
E eu acho que de diferentes maneiras essa molecada foi encontrando o thrash metal, foi buscando o thrash metal assim e o Violator tava vivendo esse momento. A banda começa em 2002, o primeiro EP oficial é em 2004, o Violent Mosh.
A partir de 2002..2004, começa esse "revigoramento" e um retorno do Thrash, digamos assim.
E em 2006, que eu acho que é um ano muito definitivo para esse retorno do thrash, a gente lança o Chemical Assault, que até hoje é o disco mais representativo do Violator. Na época eu acho que a gente tava vivendo tão visceralmente essa coisa do thrash, tomando café da manhã, almoçando e jantando, thrash metal, que a gente nem entendia o movimento geracional que tava sendo formado ali.
Mas hoje em dia eu acho que dá para entender dessa forma. Foi uma geração de moleques que falou: "Cara, não tá legal isso daqui. Vamos em busca do vamos fazer um novo buscando o velho, né?" E a partir daí nós estabelecemos compromissos com o underground que a gente leva até hoje. E a partir dali se criou, vamos dizer assim, uma nova geração de bandas que leva essa bandeira, né?
Isso aí foi o mais legal para nós. Somos fãs do thrash. Daí surgiu inúmeras bandas querendo fazer um som mais extremo e isso se deve muito a vocês e as outras bandas foi citado, o próprio Bywar também, enfim, vocês pavimentaram esse novo caminho.
A própria palavra thrash era uma palavra esquecida, assim, era uma palavra que para se referir a bandas que são thrash metal, se você pegasse nas revistas e tal, eles tinham outras definições, mas a palavra thrash, né, escrevia-se errado e não se falava, era quase como uma coisa que realmente tinha sido abandonada no passado.
Agora, eu sempre gosto de dizer, apesar da gente tá ali vivendo aquele momento, nós nunca começamos nada, assim, o Violator não é pioneiro de nada, nós sempre estivemos muito acompanhados de muita gente, assim, desde o começo entendemos como era importante essa teia do underground ali, assim, né, naquele comecinho do Violator.
A gente estava patinando no começo da internet ali, conhecendo os caras do Blastrash pelo ICQ, sabe? Fazendo as primeiras pontes assim e tal, num mundo meio analógico, meio digital ainda assim, mas a gente sempre entendeu como a comunidade, formar essa comunidade era importante.
Ah, com certeza. Bom, vocês vão tocar no Bangers Open Air, né, que é aí o nosso maior evento de Heavy Metal do Brasil e um dos melhores do mundo, posso dizer com toda a certeza. Eu que já fui em três edições do evento. Como é pro Violator participar do Bangers Open Air?
O Capaça teve presente ano passado. Viu o show do Dark Angel lá, pirou muito. E da empolgação dele, da animação dele com o festival nos contaminou muito a alegria e a vontade de estar nesse festival, assim, quando recebemos o convite foi uma honra, né, poder representar o underground de Brasília e poder representar o Thrash Metal brasileiro num palco tão importante como você citou. Então, pra gente é uma sensação de muito agradecimento de estar participando com tantas bandas importantes, então a gente só tem a agradecer o convite para isso.
Agora vamos falar de um álbum que para mim ele é o mais importante da carreira do Violator, tá? Esse epezinho aqui.
Caramba, legal. Violent Mosh. EP de 2004. Curti. Que legal, cara. Moleque com 18 anos aí.
Quando tu olha para esse material hoje, o que que ele representa para ti?
É, cara, ele representa a gente sendo alfabetizado no thrash, né? A gente entendendo e aprendendo como que era a gramática desse estilo, entendendo como que se fazia os riffs, como que se tocava aquela batida, como que se desenvolvia isso, porque não tínhamos outras bandas exatamente que estavam fazendo isso para a gente se guiar.
A gente tinha os nossos LPs antigos e tal e eu acho que ele tem uma ingenuidade, uma inocência que é típica de alguns dos melhores momentos do thrash, porque eu acho que o thrash tá muito ligado a um espírito de juventude e por isso mesmo é um desafio envelhecer fazendo thrash metal, é um desafio que a gente encarou no novo álbum agora.
Sim, se reinventar e evoluir, mas mantendo uma integridade.
E as escolhas, como eu te falei, as escolhas estéticas do disco representam um pouco a nossa resposta a esse desafio do que significa envelhecer fazendo thrash, né? E no Violent Mosh isso tá em puro coração, em puro sentimento, né? Os thrash manics, nós somos os maníacos do thrash, né?
Então, é sinceridade pura e absoluta assim de quatro meninos que estavam saindo do ensino médio, né? Segundo grau, encantados com esse novo submundo, descobrindo inclusive as vestimentas, apertando as calças nas costureiras, porque não dava para comprar calça apertada, né?
Comprando tênis de morador de rua, cara, quando encontrava um tênis branco cano alto, falava: "Caracas, um tênis branco cano alto", sabe? Então, toda uma beleza que tem a ver com a juventude. Então, para mim, esse disco representa um pouco essa beleza, essa inocência da juventude ali. E os riffs eles têm isso, eles são sinceros, eles são ingênuos, assim, é um prazerzaço assim sempre revisitá-lo.
E ainda da discografia, a gente teve o Scenarios of Brutality, 2013. Ele é um disco que eu gosto muito, eu adoro esse álbum, tá? Mas na época ele recebeu críticas mistas. Eu tava ouvindo ele agora há pouco, eu tenho ele ali na minha coleção também.
Eu gosto muito da gravação dele, cara, que foi feita na Alemanha. Nós passamos duas semanas gravando com lá e eu acho que ele é o ápice do que o Violator pretendia fazer ali numa escada que vem do Violent Mosh, pro Chemical Assault, pro Scenarios of Brutality, que é aquele thrash metal ultra agressivo baseado em discos do final dos anos 80 ali, tipo Extreme Aggression, Beneath the Remains e em que a técnica, o riff, a complexidade tá ao limite do que dá para ser o thrash metal.
Eu acho que a recepção dele talvez não tenha sido a mais positiva por uma questão exatamente de tempo, cara, geracional. Eu acho que em 2013 o thrash já tinha feito uma onda e já tava retroscedendo de novosabe? As bandas estavam se desmantelando, as coisas estavam mudando. E nesse espírito mesmo do que eu falei de como o thrash metal tá ligado com o espírito da juventude, com a geração, com a energia juvenil, essa juventude que tinha 18 anos em 2006, em 2013 já tava começando a viver um outro momento assim, né?
E o disco saiu, um disco ultra thrash metal, politizado e tal. Nesse momento que era um momento de virada, eu acho que 2013 ele já é uma antesala do que a gente viveu nos anos anteriores, que foram anos de muita, como é que eu posso dizer, anos de mudança de perspectiva, cara.
A partir de 2013, o futuro passa a ser pior do que o passado, sabe? A partir de 2013, as perspectivas, né, eu acho que vem uma certa até melancolia, depressão com o mundo, com as dificuldades do mundo, com a ascensão do neofascismo. E eu acho que é um momento de retorno do revival do Death Metal, do Crust, do Punk Crust, eu acho que teve todo um movimento assim de mais niilista naquele momento que o Violator.
A positividade do thrash, porque eu acho que o thrash, mesmo que seja um subgênero muito agressivo, ele é um gênero de comunhão, ele é um gênero de união, ele é um gênero de os fracos contra o forte, assim, né? Ele tem esse espírito que de certa forma é uma energia positiva ali assim, né? E eu acho que em 2013 pra frente a gente já vai caminhando no mundo para um momento que contraria esse espírito assim, sabe?
E o disco acabou recebendo essas críticas mistas, que causas principais você acha que as ocasionaram?
Então, eu acho que o momento do disco explica muito isso, mas vale muito a pena ser revisitado, especialmente porque ele é um disco que a gente escolheu cada música sobre um conflito social, montando um conceito dos cenários de brutalidade. E na verdade ele foi um disco um pouco profético, assim, porque tudo que a gente tava explicitando ali veio numa carga muito pior. Tinha música sobre os crimes da ditadura, nunca resolvidos. Logo depois estava aparecendo um político defendendo a tortura e a ditadura, tá ligado?
Conflitos de terra, conflitos com indígenas e tal. Então, acaba que ele foi um disco tristemente profético — ele veio antes, mas essa década 2013-2023 foi uma década de muita fudição, assim, se você olhar em vários termos, o tanto que o Brasil regrediu é um pouco uma década perdida. Então, eu acho que o disco talvez no momento não tenha sido entendido dessa forma, mas ele previu muito bem os cenários de brutalidade que a gente viveria nos anos seguintes, com certeza.
É um disco que para mim envelheceu muito bem. É sensacional. É violento para caramba, brutal como tem que ser. E é um álbum atemporal, né? Porque realmente cada faixa ali traz de forma bem explícita o que aconteceu 10 anos depois, sabe? 2023, se tu for calcular, as calamidades do disco estão todas ali nessa década.
As calamidades estão lá. A morte chegou de um jeito que a gente nem previa, assim, impossível pensar 750.000 mortos no Brasil num ano. Se falasse isso em 2013, ah, Scenarios of Brutality, é isso mesmo vocês são loucos. Daqui a 8 anos vai morrer quase 1 milhão de pessoas no Brasil. Jamais a gente ia pensar isso. Ia parecer um cenário de ficção científica.
Exatamente. Pior que é verdade mesmo. Blade Runner total.
Vamos chegando ao fim da entrevista e gostaria de te agradecer mais uma vez pela oportunidade. Mas não podemos encerrar sem você falar os teus 5 álbuns preferidos do thrash.
Caramba, maravilha, cara. É pergunta muito difícil porque eu sou um maníaco. Apesar de estar mais velho com 40 anos, agora continuo o jovem Poney thrash maniac do Violent Mosh ali. Mas vamos lá. Uma lista que pode mudar um pouco ao longo do tempo, mas lá vai.
Primeiro de tudo. Esse eu sempre vou colocar em primeiro, cara. O melhor disco de thrash metal de todos os tempos é brasileiro. Beneath the Remains, Sepultura, 1989, produção do Scott Burns. Segundo lugar para mim, que mora no meu coração, Kreator, Extreme Aggression, um disco que marcou muito pela forma e a combinação de riffs complexos com a batida violenta do thrash, o Mille cantando mais do que nunca ali, né?
Número três, cara. Vamos pensar qual que merece o número três. Já se tem um alemão, então vamos voltar pros Estados Unidos. Slayer, muito difícil ficar entre o Hell Awaits e o Reign in Blood, mas eu acho que eu vou colocar o Reign in Blood. 27 minutos e uma violência pura ali do começo ao fim. Dave Lombardo brilhando muito naquele disco.
Quarto lugar, podemos voltar para a Europa, talvez, e escolher um disco bem diferente do Reign in Blood, que por isso mesmo representa a amplitude do thrash. Eu colocaria Destruction, Infernal Overkill, um disco na simplicidade da bateria ali, os músicos muito mais precários que a produção do Slayer, do Rick Rubin. Mas o Mike entrega tudo que o thrash metal precisa, que é o quê? Riff. thrash metal precisa de RIFFS.
E por fim, eu colocaria um empate técnico americano ali de dois discos que moram no meu coração. É Nuclear Assault com Game Over. Um disco altamente simples também, quase punk em alguns momentos ali, com letras altamente politizadas que influenciaram muito o Violator.
E Violence com o Eternal Nightmare, que eu acho também que é uma avalanche, um caminhão de riffs um atrás do outro assim, e ele tem aquela urgência do thrash metal do final dos anos 80 que inspirou muito o Violator. Então colocaria um empate técnico entre esses dois, Game Over e Eternal Nightmare, fechando a lista.
Boa, lista pesadíssima. A minha muda a todo momento. Eu já dividi por país já porque vai ficando difícil.
É difícil, pô. Pera aí, cara. E fica um PS, fica um PS aí importante, Renato, eu não citei nenhum disco do thrash metal canadense, que são grandes realizadores do estilo, Voivod, Razor, Sacrifice, várias bandas que entrariam na minha lista também.



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