terça-feira, 7 de julho de 2026

Soulwitch: O metal sinfônico curitibano que une ocultismo, orquestra e protagonismo feminino

Lucas de Melo - @olucasdemelo_

Por Michelle F. Santana (@mii.santanna) e Paula Butter (@paulabutter.rocks)

Dois anos após o lançamento de Principium, a Soulwitch segue construindo uma das trajetórias mais consistentes do metal sinfônico brasileiro. Formada em Curitiba (PR), a banda reúne peso, arranjos orquestrais e uma identidade conceitual densa, ancorada em espiritualidade, hermetismo e simbolismo, numa proposta que dialoga com referências internacionais do metal sinfônico sem abrir mão de uma voz própria.

À frente do grupo está a vocalista e diretora artística Maria Sliviany, responsável pelas letras, pelo figurino e pela narrativa visual que atravessa o álbum. Lançado pelo selo Voice Music, Principium percorre temas como amor, morte, transformação da consciência e renascimento, os chamados princípios herméticos, traduzidos em faixas como Teufelsbuhlschaft, que explora os arquétipos da bruxaria e da Inquisição, e Beltane, selecionada para o Roadie Crew Online Fest, um dos principais eventos digitais de metal do país.

Em junho de 2026, às vésperas de um show especial no Teatro Paiol, em Curitiba, para celebrar os dois anos do disco, Maria Sliviany conversou com a Road To Metal, e falou sobre o processo criativo por trás das músicas, a filosofia que atravessa cada faixa e videoclipe, e também o papel da mulher no cenário do metal brasileiro. Para ela, a Soulwitch vai além de uma banda: é uma ferramenta de cura, uma ponte entre o humano e o divino, e um convite ao autoconhecimento. "A música tem que ser sentida antes de ser compreendida", disse ela, sintetizando em uma frase o que Principium busca provocar em quem ouve.

Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Michelle: Prazer enorme conversar com você. Eu ouvi a banda e, como fã de metal sinfônico, fiquei muito feliz de conhecer uma banda brasileira com tamanha qualidade. Muito obrigada mesmo!

Maria: Nossa, eu que agradeço, Michelle. Esse reconhecimento significa muito para nós. Querendo ou não, a gente faz tudo com muito amor e muito trabalho. As bandas brasileiras também precisam de visibilidade, então acho que existem muitas bandas boas que, às vezes, o público simplesmente ainda não conhece. Fico muito feliz que você tenha gostado, de coração. Para nós, isso significa muito, ainda mais vindo de uma fã de metal sinfônico.

Michelle: Falando um pouquinho sobre isso, Maria, na sua visão, o que faz uma banda brasileira de metal sinfônico conseguir se destacar em um cenário que é tão europeu?

Maria: Então, pela quantidade de bandas e pela quantidade de conteúdo que temos hoje nas redes sociais, acaba sendo bem difícil. O metal sinfônico é bem nichado. Querendo ou não, tem a questão dos arranjos orquestrais e toda uma imersão, uma atmosfera diferente dentro do metal. Eu sempre falo que é como se fosse uma trilha sonora se juntando com o peso do metal. É um trabalho muito massa de fazer, mas exige demais também.

Toda essa parte quem cria é o Jack. Ele é o criador da banda e quem dá origem a todas essas músicas. Por ser tecladista, ele tem o conhecimento necessário para construir toda essa atmosfera e todo esse universo que o metal sinfônico exige.

Luca de Melo - @olucasdemelo_

Michelle: É bem cinematográfico, né? Muito trabalhado.

Maria: É porque você consegue se transportar para uma época, para um lugar. Acho que a ideia da Soulwitch e do metal sinfônico em si sempre foi isso. E cada banda vai trazer uma personalidade, um conceito, uma ideia. Você ouve Nightwish, Epica, Within Temptation... Todas elas têm algo em comum, mas também têm algo muito diferente, com muita personalidade, tanto na temática quanto na sonoridade.

A gente também tem essas bandas como referência e sempre quis trazer a nossa própria identidade. Acho que a gente sempre acaba se espelhando em outras bandas, porém trazendo também as nossas ideias e a nossa personalidade para criar uma arte única.

Paula: Com relação à arte e ao figurino, eu vi que vocês têm um trabalho muito grande com isso. O álbum, a capa, a arte... É uma coisa muito perfeita e muito bem-feita que, atualmente, é difícil ver em bandas nacionais. Eu queria saber como surgem essas ideias: o figurino da banda, os videoclipes... O quanto dá de trabalho elaborar esses conceitos, esses figurinos? Isso vem de dentro de você?

Maria: Eu falo que a nossa criação é muito fluida. Eu acredito que a arte tem que nascer dessa sensibilidade do artista. Tem toda a parte técnica, que é super necessária. O conhecimento geral da música, saber estruturar uma música, a técnica que você vai utilizar, tanto como instrumentista quanto como vocalista, é essencial. Mas a alma tem que falar através desse sentimento, dessa liberdade que a arte permite, porque, se você pensa demais, a arte acaba travando.

Então, a gente sempre tenta fazer tudo de uma forma muito fluida, livre de amarras. A Soulwitch se torna bruxa também dentro desse conceito por conta dessa liberdade de expressão.

E a questão do figurino, do audiovisual, dos videoclipes e da parte gráfica é uma extensão disso. Eu sou apaixonada por arte. Estudei arte, estudo arte, consumo arte. Sou apaixonada por moda, por cinema e por arte gráfica. Adoro frequentar museus. Eu acho que, se a gente pode proporcionar uma experiência completa para o público, por que não? Por que não entregar o melhor? Por que não entregar um universo? A gente faz isso com esse propósito.

Hoje eu até trouxe aqui o disco da Soulwitch, que a Paula comentou. Se você for analisar, tem toda essa questão através da arte gráfica, das cores e do videoclipe também. Inclusive, tem uma foto no encarte que foi feita com o figurino de "Teufelsbuhlschaft". A gente quis trazer esse link para que o público tivesse uma imersão completa nessa experiência.

Divulgação

Michelle: Eu acho que vocês conseguem exprimir bastante essa estética, que é muito marcante. E, você falando desse processo criativo, Maria, qual foi a primeira imagem ou ideia que surgiu antes mesmo das filmagens começarem?

Maria: Você diz quando a gente já tinha as músicas prontas ou no início de tudo mesmo?

Michelle: Eu acredito que quando vocês já tinham a música pronta. Como vocês imaginavam esse clipe, que ficou muito bonito? Parabéns!

Maria: Ai, obrigada! "Teufelsbuhlschaft" foi escolhida como o primeiro single por ser a raiz da banda. Foi a primeira música que lançamos para anunciar o álbum, mas também a primeira a ser composta. O Jack já tinha esse instrumental há muitos anos e, quando ele me mostrou, foi a primeira letra que eu escrevi.

Foi algo muito intuitivo, porque, quando escutei toda aquela sonoridade que ele trouxe, ela me remeteu a uma época, a um cenário e a um sentimento também. Era como se ela contasse uma história: uma perseguição, mas que não termina com um final triste.

A questão da integração das sombras, da cura e de trazer a história de uma bruxa no século XVI não representa um fim, e sim um novo começo, porque a morte não representa um fim; ela é uma transmutação.

E a gente também pode morrer diversas vezes em vida. Quantas vezes a gente chega e fala: "Cara, é hora de mudar. É hora de fazer algo diferente." A gente se renova constantemente. Sempre foi essa a ideia: a transmutação e a integração das sombras.

O preto e o branco vêm com isso. O preto como a integração da sombra, enquanto o branco representa a nossa essência, que nunca se perde, apesar de tudo o que a gente passa, dos altos e baixos da nossa vida.

Eu acredito que essa é a principal lição, a principal mensagem que a gente gostaria de trazer.

Paula: E, tocando nesse assunto, você acabou de falar que vocês conseguem unir temas como amor, morte, transformação, renascimento e os princípios herméticos. O que eu acho muito interessante é que isso chega muito facilmente ao ouvinte, porque, se você for analisar as letras, é uma música que te toca imediatamente. A primeira vez que eu ouvi o álbum, eu me apaixonei pelas letras, porque é aquilo que você falou: tem a parte das sombras, tem a parte do renascimento e da própria vida. Parece que é uma história sendo contada, e ela ficou acessível para vários ouvintes. Tem bandas que fazem obras extremamente boas, mas que, às vezes, ficam um pouco complicadas para todo mundo. Com vocês, eu tenho a impressão de que muita gente que nem escutava esse tipo de música passou a escutar. Já fazem dois anos desde o lançamento do álbum, e ele continua muito atual. Tem muita gente descobrindo ou redescobrindo esse trabalho. A gente mesmo fala: "Olha, você já ouviu?" E todo mundo que ouve acaba gostando. Como vocês se sentem vendo essa repercussão?

Maria: Primeiro, Paula, muito obrigada pelas palavras. Eu vou guardar muito isso para mim, porque é esse feedback que a gente ama receber. É por isso que eu gosto tanto de manter contato com o público, porque eu tenho muito interesse em saber o que a Soulwitch desperta em vocês. E ouvir isso de você é muito lindo, porque é um desafio tanto em questão técnica quanto conceitual.

Ontem (22/07) eu estava conversando com a Maria Correia, do Heavy Metal Online, e eu falei sobre isso para ela. A magia se divide em duas polaridades. A primeira é a questão do conhecimento racional, ligada aos estudos. E a outra é a parte intuitiva, do inconsciente e do sentimento, que também está ligada ao ritual.

Eu pensava: ‘como é que a gente vai conseguir trazer a magia de uma forma humanizada e de um jeito que as pessoas não apenas compreendam, mas sintam?’

Eu acredito que a música tem que ser sentida antes de ser compreendida, porque cada pessoa vai ter a sua interpretação. Eu posso trazer essa temática, mas cada um de vocês vai ouvir e vai ter um sentimento, uma memória e algo que desperta em vocês de forma única. Esse é o verdadeiro poder da arte.

É muito gratificante ter esse feedback e saber que você realmente mergulhou nesse universo que a gente tenta trazer, porque essa sempre foi a ideia.

Paula: E vocês já estão pensando em um novo projeto? Alguma coisa já está sendo trabalhada ou vocês vão focar mesmo nos shows, que vai ter agora no dia 27/06 (N.T.: a entrevista foi realizada no dia 23/06, quatro dias antes do show), e para os quais estamos todos ansiosos?

Maria: Fico feliz que você vá, Paula. Gostaria que a Michelle também fosse.

Michelle: Ah, eu queria muito! Estou em São Paulo, esperando vocês por aqui.

Maria: Pois é! São Paulo está nos encantando, porque a gente quer muito tocar aí. A Soulwitch está louca para fazer um show em São Paulo. Quem sabe no próximo ano? Seria maravilhoso.

Sobre os planos da banda, a gente nunca para. Claro que a gente não pode falar sobre as novas composições, mas é que nem eu digo: se a gente deixa de compor, parece que para de respirar, porque é o que a gente ama fazer.

Então, a Soulwitch está sempre em atividade, sempre compondo. O Jack está sempre lá, que nem uma maquininha, fazendo as músicas, passando para mim, e a gente vai trabalhando.

Enquanto isso, a banda precisa acontecer. O ao vivo é muito importante para nós. Esse show no teatro é uma experiência muito legal, muito diferente. O teatro permite que você tenha uma proximidade muito grande com o público. Durante a apresentação, às vezes a gente faz uma pausa, conversa com o pessoal e explica um pouquinho sobre o que fala cada música. E, no final do show, ter esse feedback, conseguir dar um abraço no pessoal, conversar e conhecer quem é o nosso público... O teatro permite muito isso.

Então, estamos muito ansiosos para esse sábado e, claro, seguimos com os shows.

Michelle: Você estava falando da expectativa para essa comemoração dos dois anos do álbum. Existe alguma faixa que ganhou um significado completamente diferente para você depois desses dois anos?

Maria: Eu acho que cada faixa é como um filho. Você vai amar todas. Cada uma tem a sua peculiaridade, porque tem dias em que uma música vai fazer mais sentido pelo que você está vivendo.

Tem dias em que você está mais introspectiva e vai estar mais "Aura Spectrum". Você teve um sonho, um desdobramento astral, uma revelação, e pensa: "Cara, isso faz total sentido para mim."

Em outros dias, você está com sangue nos olhos, cheia de revolta, e vem "Pandemonium". É aquela coisa: "Eu preciso falar, preciso ouvir, preciso cantar essa música hoje."

Então, cada música é vivida de uma forma diferente. Dependendo do momento, elas acabam falando por si só.

Eu amo todas as músicas e espero que o público também goste. Claro que cada um vai se conectar de uma forma mais especial com uma em específico. A gente sempre brinca que é como uma caixa de bombons: você sempre vai ter um preferido. (risos)

Voice Music (Nac.)

Paula: Como você definiria a Soulwitch para uma pessoa que vai ao show pela primeira vez e está ouvindo a banda pela primeira vez?

Maria: Eu sempre digo que a Soulwitch é uma ponte entre os limiares. Ela é uma conexão do nosso lado humano com o divino. E, na minha visão, o divino é o nosso eu superior. É a emancipação da consciência do ser. É essa questão do equilíbrio, em que a gente encontra as nossas forças interiores. E é uma oportunidade de dar voz a pessoas que não puderam falar em sua época e também aos registros que carregamos na nossa alma.

Eu acredito muito que vivi outras vidas e que consigo resgatar essas memórias através dos meus sentimentos. Quando a gente compõe as músicas, deixamos que esse sentimento nos transporte. É um momento de cura, um momento de resgate.

A Soulwitch não é apenas uma banda. Ela é uma filosofia de vida, uma ferramenta de cura. Ela consegue resgatar vozes silenciadas, tanto do passado quanto do presente, e também trazer energias futuras. É um universo.

Michelle: E quando você começou nesse universo, Maria? Nesse universo mágico e ritualístico que vocês trazem e exprimem tão bem na arte de vocês. Quando foi o seu primeiro contato com esse universo?

Maria: Eu acho que isso é algo que a gente carrega desde o nascimento. Mas sempre existe um momento de despertar, algum momento específico da sua vida em que isso vem com tudo. É como uma serpente que está adormecida e desperta. É como se fosse a kundalini: a nossa serpente, o nosso instinto, o nosso lado humano despertando para se conectar com esse eu superior, com esse divino, com essa consciência cósmica, essa consciência maior que nós temos.

Não tem um momento específico. Foi um despertar que foi acontecendo e que continua acontecendo. Acho que, a cada dia, a gente acaba se conhecendo mais. Eu vivo uma jornada de autoconhecimento e expresso muito isso nas letras da Soulwitch. Eu posso estar bem velhinha e, com certeza, ainda vou estar descobrindo coisas novas e vivendo novas experiências.

Paula: A tua postura e o teu figurino transmitem feminilidade, mas, ao mesmo tempo, muito poder. Você acaba sendo uma inspiração para muitas cantoras, principalmente daqui de Curitiba e também de outros estados. Só que esse mundo da música, às vezes, é um pouco cruel. O que você diria para essas cantoras que ainda não encontraram esse poder dentro delas? Que conselho você daria para aquelas que, de repente, pensam em desistir?

Maria: Eu acho que o autoconhecimento é a chave de tudo. Eu sempre digo que a verdadeira magia está nisso. Você tem que ter controle sobre você mesma, controle sobre a sua sombra, primeiramente, e reconhecer aquilo que te machuca, que te limita, que te afeta.

Então, em vez de ignorar isso, eu acho que você tem que encarar como se fosse um espelho, aceitar, integrar e ir resolvendo tudo dentro de você. É um processo de respeito ao seu próprio tempo.

Cara, todos nós passamos por muita coisa. Todo mundo tem uma história, todo mundo tem uma ferida. Então, eu acho que nunca é uma questão de desistir. É uma questão de integrar tudo isso. E, quando você integra a sua sombra, ela vira poder.

Até em "Teufelsbuhlschaft", se você for analisar essa jornada da bruxa que eu trago, é quando a igreja toma dela essa liberdade. As mãos, que são um instrumento de trabalho e, para mim, algo sagrado, ficam manchadas pelo preto, que representa a sombra. Só que ela não se desfaz disso. Até o final, ela permanece com essas marcas, e aquilo se transforma em algo poderoso, em uma ferramenta de poder para ela.

Então, acho que as mulheres têm que ter isso em mente, porque a mulher já é uma maga por natureza. Existe essa energia lunar que a mulher carrega, porque a gente tem o poder da geração. Só a mulher pode gerar a vida. E a magia é isso: criação. É criar a sua própria realidade.

Então, como você falou, Paula, existe a nossa feminilidade, mas também existe o nosso poder. E o feminino é isso. Também é encontrar o seu masculino, o seu sol, a hora de brilhar, a hora de trazer isso para o mundo, para o público.

Para conseguir se conectar com outras pessoas, você primeiro precisa se resolver consigo mesma. O feminino, a lua, tudo isso representa essa imersão interior. É um momento de recolhimento para integrar essas sombras e, só então, brilhar com o seu sol.

É esse o conselho que eu deixaria para as meninas. Espero que elas encontrem esse equilíbrio entre o feminino e o masculino dentro delas.

Paula: Muito obrigada pelo conselho.

Maria: Eu adorei essa pergunta. Achei muito massa, porque é uma oportunidade de compartilhar essas ideias. Eu queria estar em uma roda de meninas, conversando e conhecendo também as experiências delas. Quem sabe a gente não tenha essa oportunidade algum dia?

Paula: Só um adendo: aqui em Curitiba a gente tem um grupo, não sei se você já ouviu falar, chamado FeMetal. É uma iniciativa muito legal. A gente tenta reunir as mulheres da cena independente, sejam elas musicistas, empresárias ou de outras profissões. Tudo gira em torno do heavy metal. Por isso o nome FeMetal. A gente tenta fortalecer esse lado feminino de todas elas, mas ainda é difícil.

Maria: É difícil, Paula? Como assim? O que acaba acontecendo?

Paula: Porque, às vezes, existe muita desunião nesse meio musical. Falta um pouquinho mais de união.

Maria: Eu acho que muitas feridas acabam vindo à tona. Então é isso que a gente fala: quando a gente não está bem resolvido com a gente mesma, acaba ferindo os outros também, porque a gente está ferida.

O cenário tem muito essa questão do ego. Então, eu acho que a união deveria acontecer por um propósito maior. Essa disputa para tentar fazer uma brilhar mais do que a outra não pode existir, porque eu acredito que há espaço para todo mundo.

Paula: Mas, graças a Deus, está perseverando. A união está ficando cada vez maior. Eu considero isso uma vitória, por enquanto.

Maria: Também acho que pode começar por grupos menores. Por exemplo, três bandas unidas ou algo assim. Porque eu acho que, quanto mais gente envolvida, às vezes pode surgir algum desentendimento. Mas o importante é as coisas fluírem.

Paula: É por isso que eu te perguntei sobre as meninas, as novas cantoras, que acabam desistindo. Elas precisam encontrar esse poder, essa magia, essa força natural que existe dentro delas. Precisam amar mais. O teu álbum, o teu conceito... O conceito da Soulwitch ajuda muito nisso. Muitas meninas gostam muito e admiram esse trabalho. Então é bem legal.

Maria: Nossa, eu fico lisonjeada de saber que tantas mulheres se conectam com isso. Quer dizer que realmente o nosso propósito está funcionando, que a gente está tocando pessoas, fazendo com que elas despertem para também investir esse tempo nelas, investir essa energia.

A gente sabe que não é fácil. Todo mundo tem a sua rotina, às vezes falta tempo. Você pensa: 'ah, eu vou investir em arte', mas a gente sabe que o retorno é complicado. Mesmo assim, a gente não pode desistir. Tem que encontrar uma força, um propósito nisso.

Então, eu fico feliz de estar inspirando essas mulheres, porque acredito que cada uma tem algo único para trazer através da própria arte. Eu apoio muito a questão do autoral, porque ele permite criar algo realmente único.

Claro que existem as bandas cover, que fazem parte de um cenário muito movimentado, mas o autoral é o novo. Toda banda deveria buscar criar suas próprias músicas. A gente precisa de novas bandas. Precisa dar continuidade a essa história.

Paula: Sim, com certeza. Eu concordo plenamente com você. Precisamos de autoral, precisamos de identidade, de arte. Não apenas de coisas feitas por inteligência artificial. Lógico que ela ajuda em algumas tarefas do dia a dia, mas não na arte. Não na criação. A gente ainda precisa da música, do ser humano, do artista, do fotógrafo e de tudo aquilo que nos permite ser quem somos. E essa questão do autoral também... Eu sempre faço essa reflexão. Tem tanto artista maravilhoso que, meu Deus, eu fico impressionada! E, às vezes, as pessoas preferem recorrer ao computador para fazer alguma coisa, em vez de chamar um artista, até mesmo o próprio vizinho. Tem muita gente boa.

Maria: Eu não consigo nem imaginar como alguém consegue fazer uma música através da inteligência artificial. A tecnologia vem para ajudar, mas também pode acabar destruindo muita coisa.

A inteligência artificial pode ser uma ferramenta, mas ela nunca vai ter a alma do artista. Então é uma situação bem complicada. Eu não vejo isso com muitos bons olhos.

Paula: É por isso que a gente tem que exaltar aqueles que realmente contratam artistas, que fazem tudo do jeito que vocês fizeram. Graças a Deus, ainda tem bastante banda fazendo isso.

Maria: Sim, com certeza.

Michelle: Qual é o maior obstáculo que você enxerga hoje em dia em ser independente e também ser uma mulher à frente de uma banda?

Maria: Eu acho que passa muito pela questão que a Paula trouxe: as oportunidades. Mas a gente sempre encontra, na dificuldade, um novo caminho.

Eu nunca me dou por derrotada. A gente realmente não desiste de nada. Sabemos que, às vezes, os passos para uma banda como a nossa conseguir tocar são muito complicados, quando não deveriam ser.

Eu acho que ainda faltam muitas oportunidades para bandas autorais no ao vivo. Tanto que a gente faz a produção dos nossos próprios eventos por causa disso. Mas acabou sendo algo muito positivo, porque conseguimos oferecer uma estrutura de teatro que proporciona uma imersão maravilhosa.

Além da conexão com o público, existe toda a qualidade sonora que um teatro oferece quando você escolhe um espaço com boa estrutura.

Mas, claro, toda essa correria fica por conta da banda. Tem a locação do teatro, técnico de som, técnico de luz, venda de ingressos, divulgação... Tudo é responsabilidade nossa. Não é apenas fazer um cartaz; é divulgar o evento, organizar toda a campanha e cuidar de toda a parte burocrática.

Para o público, normalmente a divulgação começa cerca de dois meses antes, mas o trabalho de organização começa muito antes disso.

A gente está aí para isso e sempre vai procurar novas oportunidades. Mas eu acredito que um dos maiores desafios continua sendo encontrar os parceiros certos para conseguir realizar esses shows.

Paula: E, para encerrar, deixa uma mensagem para os fãs.

Maria: Eu só tenho a agradecer ao nosso público, que é maravilhoso. Sem vocês, a gente não seria nada. A música vive por causa do público.

Eu amo ter essa conexão com vocês. Espero que algo do que eu tenha dito aqui hoje fique com vocês, que desperte alguma coisa aí dentro e possa ajudá-los de alguma forma.

Hoje a gente falou muito sobre integração das sombras. Espero, de coração, que vocês encontrem o próprio caminho.

E eu também estou sempre disponível para conversar. Então podem me mandar mensagem no direct do Instagram. Qualquer dúvida, qualquer conselho... Estou aqui para isso também. Sou superaberta. Podem mandar mensagem que a gente conversa.

Black Label Society: O Peso da Despedida (Also In English)

MNRK Heavy (Imp.)

Por Michelle F. Santana (@mii.santanna)

Raras são as bandas que conseguem cruzar quase trinta anos de estrada, preservando uma assinatura musical tão autêntica quanto o Black Label Society. Criado em 1998 pelo guitarrista, cantor e compositor Zakk Wylde, o projeto moldou sua discografia ao redor de acordes gigantescos, groove metal, nuances de doom, southern rock, blues e, prioritariamente, a herança do Black Sabbath. Ladeado por Dario Lorina, John DeServio e Jeff Fabb, Wylde apresenta em Engines of Demolition um registro que resume perfeitamente os elementos que transformaram o conjunto em um pilar do heavy metal moderno, mas injeta um teor sentimental incomum em seu histórico. Editado em março de 2026, o álbum surge também como o trabalho inaugural de estúdio após a partida de Ozzy Osbourne, mentor e parceiro de longa data do líder da banda, um acontecimento que molda profundamente o clima da obra.

Logo nos primeiros instantes, fica claro que a produção técnica prioriza o impacto sonoro sem sacrificar a definição do áudio. As guitarras se apresentam encorpadas, as frequências baixas ganham enorme destaque e cada componente encontra seu devido posicionamento na mixagem. O produto final é um disco vigoroso, natural e dotado de grande vivacidade, hábil em mesclar momentos avassaladores a trechos melancólicos sem romper a unidade do projeto. O trabalho de estúdio exalta os traços estilísticos do Black Label Society, retendo o aspecto rústico tradicional do quarteto ao mesmo tempo em que joga luz sobre sutilezas instrumentais que ornamentam cada composição.

A faixa de abertura, "Name in Blood", dita o rumo do trabalho sem rodeios. Funciona como uma verdadeira declaração de princípios do Black Label Society: riffs demolidores, cadência envolvente e um refrão marcante que a consolida como um dos pontos altos do catálogo. A fusão de groove, agressividade e linhas melódicas potentes qualifica a música como uma forte candidata a integrar a lista de hinos atemporais da banda.

Em seguida, "The Hand of Tomorrows Grave" adota uma perspectiva mais obscura e reflexiva. As guitarras transitam entre o peso bruto e harmonias nostálgicas, enquanto Wylde exibe um canto carregado de sentimento, acentuando o ambiente denso que domina boa parte das canções.

A faceta mais terna desabrocha em "Better Days & Wiser Times", uma das composições lentas mais inspiradas da produção recente do conjunto. Bebendo das fontes do blues e do rock sulista, a canção atesta o talento de Wylde para edificar melodias comoventes sem apelar para o sentimentalismo barato. Trata-se de uma pausa necessária que enriquece a dinâmica do álbum.

Por sua vez, "Broken and Blind" resgata a rispidez habitual do grupo. Acordes cortantes, percussão massiva e uma rítmica contagiante fazem desta faixa um prato cheio para os entusiastas do lado mais extremo do Black Label Society. Novamente, a virtuosidade de Wylde surge sob medida: suas intervenções individuais impressionam pelo senso musical, evitando o exibicionismo técnico vazio.

Contudo, qualquer análise sobre Engines of Demolition seria incompleta sem focar em "Ozzy's Song", o encerramento da jornada. Estruturada no início apenas sob piano e violão, a peça ganha corpo gradualmente até desaguar em um solo tocante, servindo como uma despedida poética para Ozzy Osbourne. A entrega vocal de Wylde expõe uma fragilidade real, tornando a música um dos tributos mais honestos já feitos ao eterno Príncipe das Trevas. Longe de ser apenas uma homenagem, a faixa discute a perda de forma ampla, permitindo a conexão imediata de qualquer ouvinte com seu tema.

No aspecto técnico, Engines of Demolition comprova os motivos que mantêm Zakk Wylde no topo do escalão dos guitarristas mais admirados do metal. Suas criações seguem inconfundíveis, os solos fundem precisão e paixão, enquanto a seção rítmica capitaneada por John DeServio e Jeff Fabb entrega um alicerce robusto e massivo. A atuação de Dario Lorina agrega novas camadas harmônicas, sofisticando os arranjos sem desvirtuar o espírito da banda.

À frente do microfone, Wylde exibe o que talvez seja uma de suas marcas vocais mais expressivas em anos. Seu timbre permanece áspero e potente, mas ganha um amadurecimento cênico perceptível, em especial nos momentos mais intimistas.

Frente a registros como Order of the Black, Catacombs of the Black Vatican e Doom Crew Inc., Engines of Demolition funciona como uma antologia refinada de todas as eras do Black Label Society. O disco mescla a agressividade dos primeiros tempos, o polimento das criações recentes e uma carga afetiva sem precedentes. O objetivo não é reconstruir os pilares do grupo, mas lapidá-los de forma formidável, provando que ainda existe muito vigor em sua conhecida fórmula. Parte expressiva da crítica especializada e dos entusiastas já o classifica como o principal petardo do grupo em muito tempo, motivado exatamente pelo equilíbrio entre solidez, peso e sensibilidade.

Engines of Demolition entrega com precisão tudo o que se busca em um grande registro do Black Label Society: guitarras colossais, solos marcantes, refrões que colam na mente e um vigor emocional raramente visto na história do conjunto. É uma obra que honra o próprio passado ao mesmo tempo em que extrai novos propósitos por meio da saudade, do companheirismo e da exaltação ao legado de Ozzy Osbourne. Para os seguidores de Zakk Wylde, configura-se como um item obrigatório; para o cenário do heavy metal atual, firma-se como um dos grandes marcos de 2026.

Divulgação

***ENGLISH VERSION***

Few bands have managed to endure for nearly three decades while preserving such a distinctive musical identity as Black Label Society. Founded in 1998 by guitarist, vocalist, and songwriter Zakk Wylde, the band has built its discography around colossal riffs, groove metal, touches of doom, southern rock, blues, and, above all, the enduring legacy of Black Sabbath. Joined by Dario Lorina, John DeServio, and Jeff Fabb, Wylde delivers Engines of Demolition, an album that perfectly encapsulates everything that has made Black Label Society a cornerstone of modern heavy metal while introducing an uncommon emotional depth to the band's catalog. Released in March 2026, it also stands as the group first studio album following the passing of Ozzy Osbourne, Wylde longtime mentor and musical brother—an event that profoundly shapes the album's atmosphere.

From the opening moments, it becomes evident that the production prioritizes sheer sonic impact without sacrificing clarity. The guitars are massive and full-bodied, the low end is thunderous, and every instrument occupies its own space in the mix. The result is a powerful yet organic record that seamlessly balances crushing heaviness with moments of heartfelt melancholy without ever losing its cohesion. The production embraces Black Label Society's trademark sound, preserving the band's raw edge while highlighting subtle instrumental nuances that enrich every composition.

The opening track, "Name in Blood" immediately sets the tone. It serves as a bold statement of intent: crushing riffs, an irresistible groove, and a memorable chorus that firmly establishes it as one of the album's standout moments. Its blend of groove, aggression, and soaring melodies makes it a strong contender to join the band's timeless anthems.

Next comes "The Hand of Tomorrows Grave" which embraces a darker and more introspective approach. The guitars shift effortlessly between crushing heaviness and mournful harmonies, while Wylde delivers one of his most emotionally charged vocal performances, reinforcing the somber atmosphere that permeates much of the record.

The album's softer side emerges with "Better Days & Wiser Times" one of the finest ballads Black Label Society has written in recent years. Rooted in blues and southern rock influences, the song showcases Wylde's remarkable ability to craft deeply moving melodies without slipping into sentimentality. It offers a welcome moment of reflection while enhancing the album's dynamic flow.

Meanwhile, "Broken and Blind" brings back the band's signature intensity. Razor-sharp riffs, thunderous drumming, and an irresistible groove make it a highlight for fans of Black Label Society's heavier side. Once again, Wylde's guitar work strikes the perfect balance between virtuosity and musicality, delivering technically brilliant solos that always serve the song rather than becoming mere displays of skill.

However, no discussion of Engines of Demolition would be complete without "Ozzy's Song" the album's deeply emotional closing track. Beginning with little more than piano and acoustic guitar, the composition gradually builds into an unforgettable guitar solo, serving as a heartfelt farewell to Ozzy Osbourne. Wylde vocal performance is remarkably vulnerable, making this one of the most sincere tributes ever dedicated to the Prince of Darkness. More than just a tribute, the song explores grief in a universal way, allowing listeners to connect with its message on a profoundly personal level.

From a technical standpoint, Engines of Demolition reaffirms why Zakk Wylde remains one of heavy metal's most respected guitarists. His unmistakable riffs remain as powerful as ever, while his solos combine technical precision with genuine emotion. The rhythm section, anchored by John DeServio and Jeff Fabb, provides a massive and unwavering foundation, while Dario Lorina adds fresh harmonic textures that enrich the arrangements without compromising the band's unmistakable identity.

Behind the microphone, Wylde delivers what may well be his most expressive vocal performance in years. His signature gritty voice retains all of its power but reveals a newfound emotional maturity, particularly during the album's more intimate moments.

Compared to albums such as Order of the Black, Catacombs of the Black Vatican, and Doom Crew Inc., Engines of Demolition feels like the definitive culmination of every era of Black Label Society. It combines the raw aggression of the band's early years, the refined songwriting of its more recent releases, and an unprecedented emotional resonance. Rather than reinventing the band's formula, the album perfects it, proving that there is still plenty of creative fire left within Black Label Society's signature sound. It stands as one of the band's strongest and most emotionally compelling releases in years.

Engines of Demolition delivers everything one could hope for from a great Black Label Society album: colossal riffs, unforgettable guitar solos, instantly memorable choruses, and an emotional weight rarely heard in the band's history. It is a record that honors its own legacy while discovering new meaning through loss, brotherhood, and the enduring spirit of Ozzy Osbourne. For longtime fans of Zakk Wylde, it is an essential listen; for the modern heavy metal landscape, it firmly establishes itself as one of 2026's defining releases.

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Deep Purple: Peso e evolução sem nostalgia (Also In English)

Valhall Music (Nac.) / ear-MUSIC (Imp.)

Por Michelle F. Santana (@mii.santanna)

Falar de Deep Purple é falar de uma das bandas mais importantes da história do hard rock. Formada em 1968, a banda ajudou a moldar o gênero ao lado de gigantes como Led Zeppelin e Black Sabbath, construindo uma carreira que atravessa gerações. Mesmo depois de tantas mudanças na formação, o grupo continua encontrando formas de se reinventar. Em Splat!, o Deep Purple mostra que não vive do passado. Em vez de apostar na nostalgia, a banda refina sua identidade e entrega um álbum pesado, criativo e cheio de energia.

Muito desse resultado passa pelas mãos do experiente produtor Bob Ezrin, que mais uma vez entende perfeitamente o que faz o Deep Purple soar tão especial. A produção é moderna, com algumas influências progressivas espalhadas pelo disco, mas sem perder o som orgânico que sempre marcou a banda. A mixagem é impecável: todos os instrumentos aparecem com clareza, as guitarras soam pesadas, o baixo tem bastante presença e os teclados brilham o tempo todo. O resultado é, sem dúvida, um dos álbuns mais pesados da carreira do Deep Purple.

O grande mérito de Splat! é mostrar que experiência e criatividade podem andar juntas. O álbum não tenta repetir clássicos como Machine Head ou Perfect Strangers. Pelo contrário, usa toda a bagagem da banda para criar algo novo sem perder sua essência. As letras acompanham essa proposta, trazendo críticas sociais, reflexões pessoais e o bom humor irônico que sempre fez parte da identidade do Deep Purple.

Musicalmente, o disco impressiona do começo ao fim. Os riffs de Simon McBride estão entre os mais pesados já gravados pela banda, mas sem abrir mão da melodia. Um dos grandes destaques são os duelos entre a guitarra de McBride e os teclados e órgãos de Don Airey. Os dois parecem desafiar um ao outro o tempo inteiro, criando alguns dos momentos mais empolgantes e eletrizantes do álbum.

A abertura com "Arrogant Boy" já mostra que a banda veio com tudo. A música traz riffs fortes, muita energia e um refrão que gruda na cabeça logo na primeira audição.

Em "Diablo", o Deep Purple surpreende com a participação especial do astro country Keith Urban. A parceria pode parecer inesperada, mas funciona muito bem. A troca de guitarras dá uma nova cara à música sem tirar a personalidade da banda.

"Sacred Land" é uma das grandes surpresas do disco. A música é uma verdadeira pancada sonora, mas chama atenção por trazer discretas influências da música celta em meio ao hard rock tradicional. Essa mistura funciona muito bem e deixa a faixa ainda mais interessante.

O clima muda em "The Beating of Wings", uma linda balada com fortes influências do blues. A música cresce aos poucos e ganha ainda mais força graças às linhas de baixo elegantes e cheias de personalidade de Roger Glover, um dos grandes destaques da faixa.

"Guilt Trippin" mantém o nível lá em cima com muito peso, um groove contagiante e uma banda totalmente à vontade explorando seu lado mais pesado.

Em "Third Call", é a vez de Ian Paice mostrar que continua em excelente forma. Aos 78 anos, o lendário baterista entrega uma performance cheia de energia, sustentando um groove rápido, preciso e extremamente envolvente.

O álbum termina em alta com a faixa-título, "Splat!". A introdução de baixo e bateria já chama a atenção logo de cara, preparando o terreno para um dos momentos mais criativos do disco: o solo de teclado de Don Airey, inspirado no timbre clássico do clavinet, antes da banda fechar o álbum com muita intensidade.

Comparado aos trabalhos mais recentes, Splat! soa mais consistente e inspirado. Não vejo o álbum como um exercício de nostalgia. Pelo contrário, acredito que o Deep Purple apenas refinou sua essência, mostrando que ainda é capaz de criar músicas relevantes sem precisar repetir o passado. É um disco que respeita sua história, mas olha para frente.

Splat! mostra um Deep Purple inspirado, pesado e com muita vontade de criar. A banda não tenta provar que ainda consegue fazer grandes discos — ela simplesmente faz. Com riffs marcantes, produção impecável, excelentes performances de todos os músicos e composições que equilibram peso, melodia e criatividade, o álbum confirma que o Deep Purple continua sendo uma das grandes referências do hard rock. Talvez não esteja entre os maiores clássicos da carreira, mas certamente é um dos melhores trabalhos desta fase da banda.

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***ENGLISH VERSION***

Talking about Deep Purple means talking about one of the most important bands in the history of hard rock. Formed in 1968, the band helped shape the genre alongside giants like Led Zeppelin and Black Sabbath, building a career that has spanned generations. Even after so many lineup changes, the group continues to find new ways to reinvent itself. With Splat!, Deep Purple proves it has no interest in living in the past. Instead of relying on nostalgia, the band refines its identity and delivers a heavy, creative, and energetic album.

Much of that success comes from the experienced hands of producer Bob Ezrin, who once again understands exactly what makes Deep Purple sound so special. The production is modern, with subtle progressive influences woven throughout the album, yet it never loses the organic feel that has always been one of the band's trademarks. The mix is impeccable: every instrument has its own space, the guitars sound massive, the bass is full and prominent, and the keyboards shine throughout the record. The result is, without a doubt, one of the heaviest albums in Deep Purple's career.

The greatest strength of Splat! is how it shows that experience and creativity can go hand in hand. Rather than trying to recreate classics like Machine Head or Perfect Strangers, the album builds on everything the band has learned over the years to create something fresh without losing its identity. The lyrics follow the same path, blending social commentary, personal reflections, and the sharp sense of irony that has always been part of Deep Purple DNA.

Musically, the album is impressive from beginning to end. Simon McBride riffs are among the heaviest the band has ever recorded, yet they never sacrifice melody. One of the album's biggest highlights is the intense musical dialogue between McBride's guitar and Don Airey's keyboards and Hammond organ. The two constantly challenge each other, creating some of the most exciting and electrifying moments on the record.

The opening track, "Arrogant Boy" immediately shows that the band means business. Driven by powerful riffs, infectious energy, and a chorus that sticks after the very first listen, it's a fantastic way to kick off the album.

On "Diablo" Deep Purple surprises listeners with a guest appearance from country superstar Keith Urban. It may seem like an unlikely collaboration, but it works remarkably well. The guitar interplay adds a fresh dimension to the song without taking away from the band's unmistakable identity.

"Sacred Land" is one of the album's biggest surprises. It's a true hard-hitting track, but what really stands out is its subtle incorporation of Celtic musical influences into Deep Purple's classic hard rock souThend. The combination feels natural and gives the song a unique character.

The mood shifts with "Beating of Wings" a beautiful blues-inspired ballad. The song gradually builds in intensity, lifted by Roger Glover's elegant and expressive bass lines, making it one of the album's most memorable moments.

"Guilt Trippin" keeps the energy high with crushing riffs, an irresistible groove, and a band that sounds completely at home embracing its heavier side.

On "Third Call" it's Ian Paice who steals the spotlight. At 78 years old, the legendary drummer proves he's still in outstanding form, delivering a fast, precise, and energetic groove that drives the song with remarkable power.

The album closes on a high note with the title track, "Splat!". The striking bass-and-drums introduction immediately grabs the listener's attention before leading into one of the album's most creative moments: Don Airey's keyboard solo, inspired by the classic clavinet sound, setting the stage for a powerful and explosive finale.

Compared to the band's most recent releases, Splat! feels more cohesive and inspired. I don't see it as a nostalgic record. Instead, I believe Deep Purple has simply refined its essence, proving that it can still create exciting and relevant music without repeating the past. It's an album that honors the band's legacy while continuing to move forward.

Splat! finds Deep Purple sounding inspired, heavy, and full of creative energy. The band doesn't try to prove it can still make great albums— it simply does. With memorable riffs, flawless production, outstanding performances from every musician, and songs that perfectly balance heaviness, melody, and creativity, the album confirms that Deep Purple remains one of hard rock's greatest institutions. It may not stand among the absolute classics of the band's career, but it is undoubtedly one of the strongest releases of this chapter in its remarkable journey.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Khemmis: O Prazer de Soar Pesado

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Khemmis Lança Álbum Homônimo e Consolida Lugar no Doom Metal Contemporâneo

Por Paula Butter

Khemmis, banda formada em 2012 em Denver, Colorado, chega ao seu quinto álbum de estúdio carregando o peso de uma trajetória sólida e uma reputação construída tijolo a tijolo dentro do doom metal contemporâneo. Lançado em 12 de junho de 2026 pela Nuclear Blast Records, o disco homônimo representa um momento de virada: após o introspectivo e denso Deceiver, lançado em 2021, o grupo formado por Ben Hutcherson, Phil Pendergast, Zach Coleman e o novo baixista David Small aposta em uma sonoridade mais direta, urgente e celebratória. Entretanto não abrem mão da escuridão lírica e da profundidade emocional que sempre foram sua marca. 

A obra é composta por oito faixas, que surpreendem à medida em que o ouvinte progride, pois mostram uma sonoridade mais enérgica, com nuances variadas, muitos riffs, melodia, peso, e tudo se conecta como uma teia bem construída. É o tipo de álbum que não requer esforço para ser apreciado, você simplesmente aperta o play e segue até o fim, e tranquilamente, volta ao início para mais um pouco. 

O ponto de partida é a empolgante “Invocation of the Dreamer” que além de abrir o álbum, também foi o primeiro single com direito a videoclipe. Na sequência, a bela “Corpsebloom Garden”, que já aponta uma direção mais dinâmica de grupo, com riffs marcantes, solos melódicos, bateria forte e vocal alternado do gutural para o lírico. E sem tempo para respirar, chega a pesada e com a identidade da banda bem presente “Grief’s Reverie”.  A quarta faixa  “Beneath the Scythe” levanta qualquer um da zona de conforto, e com um videoclipe bem peculiar que vale a pena conferir.  

Destacam-se também “Tomb of Roses” com variações de tons, entre balada e peso, e a bem trabalhada “Carrion King” com solos de guitarra em destaque, e que também surpreende pela dinamicidade. Para fechar a obra, “Benediction Tones” com um tom bem épico, que vai caminhando para o doom metal, uma música que também carrega muito a identidade da banda. 

Além de ser uma álbum para os apreciadores do gênero, também agrada facilmente os ecléticos, pois possui todos os elementos instrumentais para agradar aos ouvidos de todos aqueles que simplesmente gostam de música pesada. 

Outro destaque fica para a arte da capa, por Christopher Remmers, bem como dos encartes especiais, belíssimos e ao mesmo tempo bucólicos, para lembrar que ainda existem artistas de carne e osso para transmitir a mensagem dos músicos ao mundo. 

Parafraseando um trecho da entrevista que fiz com o guitarrista da banda: “As oito faixas do disco, entre elas os singles "Invocation of the Dreamer" e "Beneath the Scythe", celebram, nas palavras do próprio Ben Hutcherson, "a alegria de criar, experienciar e amar o Heavy Metal". A entrevista está disponível na íntegra no site da Road To Metal clicando aqui.

Por fim, quando a música vem regada de entusiasmo, e é feita por músicos apaixonados pelo que fazem, o resultado nunca desaponta. É a análise de um disco que pode muito bem ser um marco na carreira do Khemmis.

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Ben Hutcherson (Khemmis): "Reconectamos com a alegria de fazer Heavy Metal”

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Por Paula Butter

No começo do mês de junho, a Road to Metal teve o prazer de conversar com o simpático guitarrista Ben Hutcherson, da banda Khemmis. O papo foi a respeito do novo lançamento, processo de criação, expectativas para o futuro e também sobre questões atuais como Inteligência Artificial.

A banda Khemmis, formada em 2012 em Denver, Colorado, retorna em grande estilo com seu quinto álbum de estúdio homônimo, lançado no dia 12 de junho de 2026, pela Nuclear Blast Records. Referência do Doom Metal contemporâneo, o grupo, formado por Ben Hutcherson, Phil Pendergast e Zach Coleman, e ainda com a recente adição de David Small no baixo, construiu ao longo de mais de uma década uma discografia marcada pela fusão de peso sonoro, profundidade melódica e letras de forte teor emocional. Com Khemmis, a banda opta por uma sonoridade mais direta e energética, abraçando a força dos riffs sem abrir mão da escuridão lírica que sempre os definiu. 

As oito faixas do disco, entre elas os singles "Invocation of the Dreamer" e "Beneath the Scythe", celebram, nas palavras do próprio Ben Hutcherson, "a alegria de criar, experienciar e amar o Heavy Metal", reconectando a banda com o entusiasmo visceral de seus primeiros anos e apresentando o que pode ser, até hoje, a versão mais completa e definidora do Khemmis. 

Portanto, sem mais delongas, confira a seguir a entrevista na íntegra: 


Sobre o título do álbum homônimo

Batizar o álbum com o nome da própria banda é uma decisão bastante imponente. O que motivou essa escolha?

Ben Hutcherson: É engraçado, porque muita gente enquadra isso como uma decisão ousada, e entendo completamente. Mas a forma como chegamos a essa decisão foi bem mundana. Tínhamos um documento no Google com umas 20 ou 30 possíveis títulos de músicas ou do álbum, e nenhum estava funcionando de verdade. Pensamos: talvez seja neste álbum que nos afastemos dos títulos de uma palavra e tentamos algo diferente. Tentamos duas palavras, três palavras, uma frase inteira e nunca fechou.

Em algum momento, acho que mencionei por mensagem de texto em grupo: 'E se fosse homônimo?' Conversamos sobre isso numa ligação mais tarde e todo mundo teve a mesma reação: 'Hum...' Não foi um 'Meu Deus, era isso que estávamos esperando!', foi só 'hum?' Porque nenhum de nós tinha pensado nisso de verdade.

Quanto mais pensávamos, mais percebemos que tinha de ser homônimo. Se queríamos apresentar, hesito em dizer 'álbum conceitual', porque isso evoca uma pretensão prog dos anos 1970 que definitivamente não era nosso objetivo,  mas contar histórias ficcionais pela primeira vez, já que todos os nossos outros álbuns sempre foram muito autobiográficos; ter mais músicas do que nunca; e ainda ser nosso primeiro disco com David Small no baixo... Tudo isso junto: se acreditamos nele tanto quanto acreditamos, então tem de ser homônimo. Tem de ser um reconhecimento nosso de que esta é a versão mais completa desta banda até hoje.

E, bem... funcionou para o Metallica no quinto álbum deles. Então funciona para nós também.

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Energia e concisão: a virada em relação a Deceiver

Este álbum parece mais energético. Foi uma decisão consciente ou algo que surgiu naturalmente durante a composição?

Ben: Foi tudo isso ao mesmo tempo. O último álbum era muito introspectivo e pessoal, e honestamente todas as nossas músicas sempre foram bastante lentas. Mesmo uma música como 'Avernal Gate' tem partes rápidas, mas no geral não é uma música super veloz. E simplesmente nos vimos gravitando muito mais para músicas mais aceleradas que estávamos ouvindo, e também, revisitando os clássicos.

Estou usando uma camiseta do Metallica aqui. Não estamos tocando na velocidade de 'Damage Inc.', mas para nós isso é rápido. O Zach disse de forma muito concisa que queríamos um álbum cheio de, como ele colocou, 'bangers',  músicas que pudéssemos tocar em palcos de pequenos clubes a grandes festivais, e que, se você nunca tivesse nos ouvido antes, qualquer uma das faixas pudesse te alcançar e te puxar para dentro.

Não é que não haja profundidade emocional, mas há uma imediaticidade nele. E queríamos colocar isso em primeiro plano, abraçar essa imediaticidade em vez de perguntar 'quantas camadas conseguimos trabalhar aqui?'. No fim do dia: 'Esse riff te agarra pela garganta e se recusa a soltar? Então provavelmente é o riff certo para essa música.' E terminamos com um álbum cheio de músicas bem rápidas para os nossos padrões.

"Invocation of the Dreamer": o single e o vídeo de abertura

"Invocation of the Dreamer" abre o álbum e foi o primeiro vídeo lançado. Por que essa música? Ela representa todo o disco ou foi escolhida por se destacar?

Ben: Acho que é tudo isso. Definitivamente sabíamos que ela se destacava. E quando a estávamos escrevendo, sabíamos que era a faixa de abertura. Na minha cabeça, a faixa de abertura de qualquer bom álbum de metal te dá uma noção do que o álbum vai ser, mas não te conta tudo o que esperar de todas as músicas. Porque se eu ouço aquela única música e depois não me surpreendo no resto do álbum, sinto que a banda perdeu uma oportunidade.

Então temos elementos de muitas coisas nessa música, mas quando você chega ao final do álbum, pensa: 'Nossa, tinham tantos outros elementos ali também.' Sabíamos que ela chamaria a atenção do ouvinte. Sabíamos que seria uma declaração com o primeiro single. Ela começa com Blast beats, nunca tínhamos aberto uma música utilizando Blast beats, nunca tivemos uma sessão tão abertamente black metal. Mas pareceu muito natural. Não foi 'ok, precisamos de uma parte black metal no começo.' O Phil e eu escrevemos esse riff, estávamos tentando descobrir o que fazer com ele, e o Zach disse: 'E se eu “blastear” por baixo?' A gente falou: 'Com certeza.' E eu disse: 'E se eu tiver um grito bem agudo e longo no começo?' Com certeza.

Da mesma forma que vamos batizar o álbum com nosso nome porque estamos fazendo uma declaração, deveríamos abrir com a música que mais desavergonhadamente declara: 'É aqui que estamos. É quem somos. Pode entrar, a água está boa.'

"Beneath the Scythe": colaboração e o baixo solo de Dave

O vídeo de "Beneath the Scythe" foi muito bem recebido. Há uma faixa que você considera o coração do álbum?

Ben: O Dave, nosso baixista, montou aquele vídeo usando imagens de arquivo de alguns dos primeiros filmes da história do cinema , coisas do início dos anos 1900, e elevando essa narrativa ficcional com essas imagens surreais. De muitas formas, contrastando com a imagética do primeiro vídeo, onde há elementos mágicos e ocultos, mas que parecem muito concretos. Aqui, ter esse material de arquivo junto com a música dá um feel surreal e muito clássico, o que combina bem, porque é em muitos aspectos uma música muito clássica. Mas também mostramos nossas influências: o amor pelo Iron Maiden, pelo Judas Priest, pelo At the Gates, pelo Mercyful Fate, e  tudo isso passando pela máquina do Khemmis.

"Beneath the Scythe" é um ótimo exemplo do processo colaborativo. A presença do Dave no álbum se sente em todo o disco, mas ele tem um solo de baixo na música, algo que nunca fizemos antes. Ele estava um pouco hesitante a princípio quando jogamos a ideia: 'E um solo de baixo?' Eu disse: 'Tenho essa ideia de uma seção limpa, sombria mas bonita.' O Dave estuda jazz há muito tempo e trabalha com um professor de baixo jazz há alguns anos, então isso lhe deu a chance de trazer um solo de baixo para o Khemmis de um jeito que, se eu tivesse tocado, não teria soado assim. Se o Phil tivesse tocado, também não. É esse nível completamente novo da banda que vem de dizer: 'Aqui está a música. Agora é a sua vez. Traga o que você tem.'

A reação dos fãs e o impacto da música

Inclusive, ainda a respeito da faixa “Beneath the Scythe”, os fãs estão enlouquecendo nos comentários do YouTube, todo mundo diz que é a melhor música da banda. O que você sente sobre essa reação?

Ben: Não é algo que tomamos por garantido. Antes de tudo, fazemos a música que fazemos porque... precisamos. Não sei como escrever música diferente. A única forma que conheço de criar é fazer a música que, se outra pessoa tivesse escrito e gravado, eu ouviria e pensaria: 'Isso é incrível. Adoro.' Se sentimos isso, nossa esperança é que chegue até os fãs.

Não leio resenhas de nenhum lançamento meu. Os outros leem, e peço para não me contarem. Não quero saber a nota. O que me importa é quando pessoas comuns dizem que algo que colocamos no mundo ressoa com elas e as faz sentir algo. Se gostam um pouco ou amam ou acham que é a melhor coisa do mundo, isso vale muito mais para mim do que qualquer prêmio ou nota perfeita numa revista. Música é uma extensão da experiência humana, e não é algo que pode ser adequadamente reduzido a uma nota de 0 a 10.

Há um festival no qual tocamos no Cidade do México, anos atrás. Tocamos no mesmo palco em que Alice Cooper tocou algumas horas depois. Fizemos sessão de autógrafos e as pessoas vieram compartilhar momentos muito profundos conosco. Um homem mais velho e uma moça mais jovem chegaram, era o pai dela. Eles tinham se afastado por algum motivo, e algo na nossa música os ajudou a se reconectar, e eles foram juntos ao show. Um pouco depois, outro cara veio e disse: 'Tenho que te mostrar um vídeo.' Era o filho dele, uns três anos de idade, fazendo o primeiro headbang ao som de uma música do Khemmis. Mesmo que essas pessoas nunca mais nos ouvissem, impactamos a vida delas,  e elas impactaram a minha. Aquilo foi há oito anos e ainda penso nisso.


A importância da arte na era digital

Olhando para a arte do álbum e todas as edições especiais, com letras, peças elaboradas de RPG.  Qual a importância que você dá para a arte nos dias atuais?

Ben: Extremamente importante. Qualquer músico que se preze e usa inteligência artificial para qualquer coisa deveria ter vergonha,  e todos nós deveríamos zoar e dar um pontapé neles. Simplesmente não faça isso. Quando ouço, sem citar nomes, mas certas bandas antigas de death metal que todos sabemos quem são,  dizerem 'os adiantamentos de álbum já não são o que eram, não podemos pagar um artista'... Calem a boca. Claro que podem. Há artistas em todo lugar que adorariam ter sua arte na capa de qualquer coisa, muito menos no novo lançamento de uma banda lendária.

A arte foi tão desvalorizada, especialmente na sociedade americana, mas também globalmente. Música, arte visual, fotografia, qualquer coisa que não seja vista como uma forma de ganhar muito dinheiro é chamada de hobby, algo que você deve superar. Apesar de a arte preceder o capitalismo ocidental, precede a industrialização. A arte faz parte da existência humana há tanto tempo,  muito mais tempo do que o conceito de dinheiro.

Olha, eu adoraria ter muito dinheiro. Mas nunca tive. Cresci pobre, ainda sou pobre, vou morrer pobre. Mas faço parte de uma comunidade de pessoas que compartilham a si mesmas através da arte. Colaborar com Christopher Remmers, que fez a arte do nosso disco, um artista incrível que nunca tinha feito uma capa de álbum de metal antes. O Phil literalmente foi com ele para as matas do estado de Washington, coletaram cogumelos, troncos e flores para criar as fotos de referência que ele usou para pintar. A esposa dele foi a modelo para a rainha guerreira na capa.

Quanto às coisas como o encarte com letras manuscritas, Knox Frager Artworks fez aquela caligrafia incrível à mão. Claro, poderíamos ter baixado uma fonte. Mas não: vamos contratar um artista, vamos dar dinheiro a ele, porque ele está colocando seu tempo, seu coração e amor neste projeto. O resultado final tem de ser algo que pareça humano e que evoque emoção na pessoa quando ela abrir o disco. Quando abri este gatefold pela primeira vez, chorei. Ver tudo isso junto... É emocionante.

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

A música que mais vai surpreender

Quando o álbum finalmente for lançado, qual faixa você acha que vai surpreender as pessoas?

Ben: Depende do que as pessoas esperam, mas acho que "Carrion King" vai surpreender muita gente, porque é a música mais pesada que já fizemos. Se as pessoas achavam que "Maw of Time" era pesada, esperem até ouvirem "Carrion King". Estou animado para tocar todas essas músicas ao vivo, mas essa em especial vai fazer as pessoas se moverem. Vai ter muito mosh, muito headbang.

E também "Tomb of Roses", acho que é talvez a música mais dinâmica do disco. Ela tem o meu destaque: é onde eu faço o solo de guitarra mais longo do álbum. Trabalhei muito naquele solo, passei meses escrevendo, e o Dave Otero, nosso produtor, se certificou de que eu o acertasse. Não sei quantas vezes toquei aquele solo, mas ele me fez acertar. E estou muito animado para as pessoas ouvirem.

Parabéns. Todas as músicas são incríveis. Obrigada pela entrevista, foi um prazer para nós da Road to Metal.

Ben: Paula, foi uma alegria conversar com você. Muito bom te conhecer. Você se saiu muito bem, tinha ótimas perguntas. E espero que a gente se veja quando formos ao Brasil. Não sei quando vamos ao Brasil, mas precisamos ir!

Scheff Tolle Adriaens: Elegância Melódica (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Movido por uma paixão genuína pela sonoridade do rock e do pop dos anos 1980, o trio Scheff Tolle Adriaens estreia com Let's Stop The World, um álbum que celebra a elegância melódica da era de ouro do AOR e do West Coast Rock. Reunindo o experiente compositor e produtor Darin Scheff, o multi-instrumentista Christian Tolle e o talentoso músico holandês Morris Adriaens, o projeto combina refinamento instrumental, composições cuidadosamente elaboradas e uma produção moderna que preserva o charme clássico do gênero. As referências a Toto, Chicago, Bryan Adams e Mr. Mister são evidentes, mas jamais soam como mera reprodução; servem como ponto de partida para uma identidade própria e convincente.

O disco abre com Headstone On The Highway, primeiro single do projeto e uma excelente carta de apresentação. A combinação entre guitarras e teclados é construída com precisão cirúrgica, sustentada por uma produção cristalina que valoriza cada detalhe do arranjo. Os backing vocals, cuidadosamente distribuídos, e as sutis mudanças melódicas revelam um nível de sofisticação que estabelece imediatamente o padrão de qualidade do álbum.

Na sequência surge a faixa-título, Let's Stop The World, que traz as participações de Jason Scheff no baixo e Roger Schaffrath na guitarra slide. O resultado é um AOR ainda mais melódico, apoiado em timbres elegantes e uma execução impecável. A composição amplia o alcance emocional do trabalho sem comprometer sua coesão, demonstrando que o trio sabe equilibrar acessibilidade e requinte musical.

Com uma delicada introdução de piano e guitarra, How Do I Get Over You apresenta uma das baladas mais inspiradas do álbum. A construção gradual da música, sustentada por uma base rítmica discreta e extremamente eficiente, permite que a interpretação vocal ocupe o centro das atenções. Embora remeta diretamente às grandes power ballads dos anos 1980, sua produção contemporânea impede qualquer sensação de datada, oferecendo um equilíbrio elegante entre nostalgia e modernidade.

A energia aumenta com Walk Through The Fire, faixa que aproxima o trio do hard rock melódico. Guiada por riffs sólidos e teclados discretos, mas essenciais para enriquecer a textura sonora, a música apresenta um refrão mais direto e uma pegada mais intensa. Ainda assim, mantém intactas as características que definem o álbum: melodias fortes, produção refinada e arranjos cuidadosamente planejados.

Sem perder intensidade, What Love's Done To Us mantém o clima mais pesado e coloca a guitarra em posição de destaque. Os backing vocals remetem imediatamente à escola de Def Leppard, criando camadas vocais que enriquecem o refrão sem sobrecarregar a mixagem. O solo surge de maneira orgânica, funcionando como extensão natural da composição em vez de mero exercício técnico — uma escolha que evidencia a maturidade dos músicos envolvidos.

Introduzida por texturas atmosféricas de teclado, Let's Rise rapidamente evolui para um hard rock clássico, contando com a participação de Lauren Scheff no baixo. A faixa explora uma cadência tipicamente oitentista, enriquecida por guitarras limpas e intervenções de órgão Hammond que adicionam profundidade e personalidade ao arranjo. São detalhes como esses que impedem o álbum de cair na previsibilidade.

Com forte apelo cinematográfico, Rain, também com Lauren Scheff no baixo, soa como trilha sonora ideal para um blockbuster dos anos 1980. A introdução grandiosa conduz naturalmente a um refrão explosivo e extremamente memorável, enquanto o solo mantém o padrão de elegância presente em todo o disco. É uma composição construída para permanecer na memória do ouvinte muito depois de seu término.

A surpreendente introdução de Fly, baseada em piano e bateria antes da entrada gradual dos demais instrumentos, demonstra mais uma vez o cuidado do trio com a dinâmica das composições. A melodia vocal conduz a faixa com segurança, enquanto baixo, teclados e guitarras criam uma atmosfera épica que transita com naturalidade entre o AOR e o hard rock melódico. O solo final funciona como desfecho perfeito para uma das músicas mais completas do álbum.

Encerrando o trabalho, Standing On The Edge Of The World sintetiza todos os elementos apresentados anteriormente. Hard rock, AOR, pop sofisticado e influências da Costa Oeste norte-americana convivem em perfeita harmonia, resultando em uma conclusão elegante e emocionalmente satisfatória. Os teclados, guitarras e harmonias vocais dividem protagonismo de forma equilibrada, reforçando a consistência artística do projeto.

Let's Stop The World não busca reinventar o AOR nem o hard rock melódico. Sua grande virtude está justamente em compreender profundamente a essência desses estilos e reinterpretá-los com competência, sensibilidade e qualidade técnica. Scheff Tolle Adriaens demonstra que ainda há espaço para produzir música inspirada no passado sem abrir mão de personalidade e relevância. Para os admiradores do rock melódico sofisticado, este é um trabalho que merece ser descoberto — e revisitado.

***ENGLISH VERSION***

Driven by a genuine passion for the sound of 1980s rock and pop, Scheff Tolle Adriaens make an impressive debut with Let's Stop The World, an album that celebrates the melodic elegance of the golden age of AOR and West Coast Rock. Bringing together accomplished songwriter and producer Darin Scheff, multi-instrumentalist Christian Tolle, and talented Dutch musician Morris Adriaens, the trio delivers a record that combines instrumental sophistication, meticulously crafted songwriting, and modern production while preserving the timeless appeal of the genre. Influences ranging from Toto and Chicago to Bryan Adams and Mr. Mister are unmistakable, yet they never feel derivative, serving instead as the foundation for a distinctive musical identity.

The album opens with Headstone On The Highway, the band's debut single and an outstanding introduction to what follows. The interplay between guitars and keyboards is executed with remarkable precision, supported by crystal-clear production that allows every musical detail to breathe. Carefully layered backing vocals and subtle melodic shifts immediately establish the album's refined character and impressive level of craftsmanship.

The title track, Let's Stop The World, follows with guest appearances from Jason Scheff on bass and Roger Schaffrath on slide guitar. The result is an even more melodic slice of AOR, built upon elegant tones and flawless performances. The song broadens the album's emotional scope without disrupting its cohesion, demonstrating the trio's ability to balance accessibility with sophisticated songwriting.

Opening with delicate piano and guitar, How Do I Get Over You stands as one of the album's finest ballads. Its gradual development, supported by a restrained yet highly effective rhythm section, allows the vocal performance to take center stage. While clearly inspired by the great power ballads of the 1980s, its polished contemporary production prevents it from sounding dated, striking an elegant balance between nostalgia and modernity.

The pace picks up with Walk Through The Fire, a track that leans more heavily into melodic hard rock. Built around solid guitar riffs and tastefully integrated keyboards, it delivers one of the album's most direct and energetic choruses. Even so, it retains the defining characteristics that run throughout the record: memorable melodies, polished production, and thoughtfully constructed arrangements.

Without losing momentum, What Love's Done To Us continues the heavier approach while placing the guitar firmly in the spotlight. The layered backing vocals immediately evoke the classic Def Leppard sound, adding richness and depth without overwhelming the mix. The guitar solo emerges naturally from the arrangement, functioning as a genuine extension of the composition rather than simply showcasing technical ability—an approach that highlights the maturity of the musicians involved.

Introduced by atmospheric keyboard textures, Let's Rise quickly evolves into classic melodic hard rock and features Lauren Scheff on bass. The song embraces a distinctly '80s rhythmic feel, enhanced by clean guitar passages and tasteful Hammond organ accents that provide additional warmth and personality. It's these subtle production choices that prevent the album from ever becoming predictable.

With unmistakable cinematic appeal, Rain, also featuring Lauren Scheff on bass, feels tailor-made for the soundtrack of an '80s blockbuster. Its grandiose opening naturally gives way to an explosive and instantly memorable chorus, while the restrained yet expressive guitar solo perfectly complements the song's emotional impact. It is one of the album's most immediate and memorable highlights.

The unexpected piano-and-drums introduction of Fly, followed by the gradual entrance of the remaining instruments, once again showcases the trio's attention to musical dynamics. The vocal melody confidently leads the composition while bass, keyboards, and guitars create an epic atmosphere that effortlessly bridges AOR and melodic hard rock. The closing guitar solo provides the perfect conclusion to one of the album's strongest and most fully realized performances.

Closing the record, Standing On The Edge Of The World brings together every element introduced throughout the album. Melodic hard rock, AOR, sophisticated pop, and West Coast influences coexist seamlessly, resulting in a finale that feels both elegant and emotionally rewarding. Keyboards, guitars, and layered vocal harmonies share the spotlight with remarkable balance, reinforcing the artistic consistency of the entire project.

Let's Stop The World does not attempt to reinvent AOR or melodic hard rock. Instead, its greatest strength lies in its deep understanding of what made those genres timeless, reinterpreting their essence with confidence, technical excellence, and genuine musical sensitivity. Scheff Tolle Adriaens prove that it is still possible to honor the past while creating music that feels fresh, authentic, and relevant. For fans of sophisticated melodic rock, this is an album well worth discovering—and revisiting.

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