| Epitaph Records (Imp.) |
15 anos depois, Mike Ness ainda tem algo a dizer
Por Stephanie Ferreira - @instephanie
Existe uma armadilha particularmente perigosa quando uma banda passa 15 anos sem lançar um álbum de inéditas: a expectativa deixa de ser apenas musical e passa a ser histórica. O novo trabalho precisa responder pelo presente, mas também carregar o peso de tudo aquilo que veio antes. No caso do Social Distortion, essa cobrança é ainda maior. Afinal, estamos falando de uma banda que ajudou a estabelecer uma ponte definitiva entre o punk californiano, o rockabilly, o country e o rock 'n' roll, sem jamais precisar abandonar completamente nenhuma dessas referências.
Born to Kill, lançado em 8 de maio de 2026 pela Epitaph Records, chega exatamente nesse território. É o oitavo álbum de estúdio do Social Distortion e o primeiro desde Hard Times and Nursery Rhymes, de 2011. O intervalo de 15 anos é o maior entre dois discos da carreira e, inevitavelmente, transforma cada faixa em uma espécie de fotografia de uma banda que atravessou décadas, mudanças de formação, problemas pessoais e, no caso de Mike Ness, uma batalha contra o câncer.
Mas talvez o aspecto mais interessante de Born to Kill seja justamente o fato de o Social Distortion não tentar convencer ninguém de que ainda tem 25 anos.
O disco não é uma tentativa desesperada de recuperar a velocidade dos primeiros anos. Tampouco parece interessado em atualizar a banda para caber em alguma tendência contemporânea do punk. O que existe aqui é uma versão mais envelhecida, mais rouca e, em vários momentos, mais contemplativa do mesmo Social Distortion que aprendeu a transformar fracasso, vício, arrependimento, estrada e sobrevivência em canções que parecem simples até que alguma delas encontre o ouvinte no momento certo.
A produção de Mike Ness ao lado de Dave Sardy mantém as guitarras bastante presentes e deixa espaço para que o vocal envelhecido de Ness seja parte da própria narrativa. Há menos preocupação em esconder as marcas do tempo e mais interesse em incorporá-las. É justamente aí que Born to Kill encontra sua personalidade.
| Divulgação |
1. “Born to Kill”
A faixa-título não poderia ter outra função senão abrir o disco. O primeiro impacto vem da guitarra: suja, encorpada e imediatamente reconhecível, antes que a voz de Ness coloque o restante da identidade no lugar.
É uma abertura que funciona porque não tenta criar suspense. Eles entram em cena sabendo exatamente o que querem fazer. A música tem aquele tipo de riff que parece ter sido construído para funcionar ainda melhor em um palco do que em um fone de ouvido, com uma energia que remete ao rock de garagem e ao punk mais tradicional.
O que mais chama atenção, porém, é o contraste entre a agressividade instrumental e a voz de Ness. Ela está mais áspera, mais castigada, e isso faz diferença. Em um cantor mais jovem, determinadas frases poderiam soar como pose. Na voz dele, carregam uma espécie de histórico.
2. “No Way Out”
Se a primeira faixa apresenta o disco, “No Way Out” mostra que a banda ainda sabe construir uma música imediatamente identificável.
É provavelmente uma das faixas que mais poderiam ser encaixadas em um disco clássico do Social Distortion sem causar estranhamento. O andamento é direto, as guitarras trabalham para sustentar a melodia e existe aquele equilíbrio tão característico entre punk e rock 'n' roll que a banda aperfeiçoou ao longo de sua carreira.
O mérito está nos detalhes. As pausas ajudam a música a respirar e o refrão tem aquela qualidade de “grudar” sem precisar recorrer a qualquer artifício pop.
É uma música que parece simples na primeira passagem, mas ganha força quando se percebe como os instrumentos são organizados ao redor do vocal. Não há excesso. Tudo está ali para empurrar a canção para frente.
3. “The Way Things Were”
Aqui o disco diminui a velocidade e começa a mostrar sua verdadeira idade.
“The Way Things Were” é uma das músicas mais interessantes do álbum justamente porque não tenta esconder a nostalgia. Existe uma sensação de olhar para trás e perceber que algumas coisas não podem ser recuperadas, por mais que a memória insista em reconstruí-las.
A faixa evidencia uma característica importante do álbum: Mike Ness não precisa mais cantar sobre juventude para falar sobre rebeldia. Aos 60 anos, a própria permanência já é uma forma de resistência.
4. “Tonight”
“Tonight” recupera parte do balanço do rockabilly e do country rock que sempre esteve escondido na identidade do Social Distortion.
A música tem uma construção mais calorosa e um andamento que permite que a guitarra respire. O resultado é surpreendentemente acessível. Não há necessidade de acelerar tudo para produzir impacto. O refrão funciona justamente porque a banda deixa espaço para ele.
5. “Partners in Crime”
“Partners in Crime” é uma das faixas que mais facilmente conseguem traduzir a essência do álbum.
Ela começa com mais urgência e logo encontra um refrão que parece feito para ser cantado por uma plateia inteira. Existe uma sensação de camaradagem na composição, como se Ness estivesse retomando um dos elementos mais fundamentais de sua obra.
É também uma música que sintetiza bem a filosofia estética da banda. Poucos acordes, uma melodia forte e uma história suficientemente humana para não depender de grandes metáforas.
6. “Crazy Dreamer”
“Crazy Dreamer” talvez seja o momento em que o álbum mais claramente abandona o punk para mergulhar nas raízes country e blues do Social Distortion.
A participação de Lucinda Williams é fundamental. Sua presença soa como uma extensão natural daquele universo musical. O piano, o balanço mais lento e a guitarra com uma sonoridade quase de honky-tonk criam uma atmosfera completamente diferente das primeiras músicas.
É uma escolha que pode dividir opiniões. Para quem procura no Social Distortion a energia de “Story of My Life” ou “Ball and Chain”, “Crazy Dreamer” provavelmente parecerá lenta demais. Mas, dentro do álbum, ela cumpre uma função importante, e mostra que a banda nunca foi apenas punk.
7. “Wicked Game”
A escolha de “Wicked Game”, clássico de Chris Isaak lançado originalmente em 1989, é uma das decisões mais curiosas do álbum.
É difícil encarar uma música tão associada à interpretação original sem estabelecer algum tipo de comparação. A escolha faz sentido dentro da discografia da banda porque Ness sempre demonstrou interesse por músicas que vivem na fronteira entre rock, country, blues e melodrama.
Ainda assim, é provavelmente a faixa que mais divide o álbum. “Wicked Game” já é uma música extremamente definida em seu imaginário original. Transformá-la em algo definitivamente “Social Distortion” sem destruir aquilo que a tornou especial seria uma tarefa quase impossível. A banda chega perto.
E o mais interessante é perceber que, depois de algumas audições, a escolha parece menos estranha do que na primeira.
8. “Walk Away (Don’t Look Back)”
Se “Wicked Game” representa a pausa, “Walk Away (Don’t Look Back)” coloca o motor novamente em funcionamento.
A introdução da guitarra é um dos grandes momentos instrumentais do disco. O riff tem sujeira, peso e uma simplicidade quase insolente. É o tipo de construção que parece dizer que não existe necessidade de complicar quando três ou quatro movimentos bem colocados podem resolver tudo.
9. “Never Goin’ Back Again”
“Never Goin’ Back Again” chega com uma bateria que imediatamente muda a dinâmica do disco.
David Hidalgo Jr. ganha aqui um papel especialmente importante. A condução tem balanço, mas também força, e as guitarras trabalham sobre ela com uma espécie de groove que faz a música avançar sem parecer apressada. É uma faixa sobre ruptura, mas não tem exatamente o peso dramático de “The Way Things Were”. Existe mais movimento.
10. “Don’t Keep Me Hanging On”
“Don’t Keep Me Hanging On” traz novamente aquela mistura entre rock de estrada, boogie e punk que parece ser uma das zonas de conforto de Ness.
A música tem uma textura mais áspera e uma guitarra que trabalha muito bem com a bateria. É uma faixa que talvez não provoque o mesmo impacto imediato da abertura, mas cresce quando inserida no contexto do álbum.
Há também algo interessante no fato de algumas composições do disco carregarem uma sensação de familiaridade. “Don’t Keep Me Hanging On”, assim como “No Way Out”, poderia facilmente ser reconhecida como Social Distortion mesmo sem a voz de Ness.
Isso é simultaneamente a maior virtude e a principal limitação de Born to Kill. A banda sabe exatamente quem é, mas também não parece interessada em descobrir quem poderia ser.
11. “Over You”
Fechar um álbum como Born to Kill exige algum cuidado. Depois de 11 músicas atravessando punk, country, blues, rockabilly e rock 'n' roll, o Social Distortion escolhe terminar com uma faixa que retoma o lado mais clássico da banda.
“Over You” é um encerramento bastante natural. Os solos de guitarra ajudam a criar a sensação de despedida sem transformar a música em uma grande conclusão cinematográfica.
O disco não termina com a sensação de que Mike Ness resolveu todas as questões apresentadas ao longo dos 45 minutos. Ele termina simplesmente seguindo em frente, e isso combina perfeitamente com o álbum.
Confira a tracklist completa de Born to Kill:
Born to Kill
No Way Out
The Way Things Were
Tonight
Partners in Crime
Crazy Dreamer
Wicked Game
Walk Away (Don’t Look Back)
Never Goin’ Back Again
Don’t Keep Me Hanging On
Over You
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