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| RMB Records (Imp.) |
Por Flavio Borges
Formado a partir da trajetória de Michael Bormann à frente do Jaded Heart, o Michael Bormann’s Jaded Hard chega a South West reafirmando uma identidade que o vocalista ajudou a consolidar no hard rock melódico europeu: guitarras marcantes, grandes melodias, refrãos imediatos e uma produção contemporânea, mas sem abrir mão do peso e da atitude que sempre acompanharam sua carreira.
Este projeto funciona como uma ponte entre o presente e a fase mais celebrada da trajetória de Bormann. Ao longo de seus trabalhos solo, o músico explorou diferentes possibilidades dentro do rock, mas foi no Jaded Heart que sua assinatura se tornou particularmente reconhecível. South West recupera justamente essa essência, embora esteja longe de ser uma tentativa de reproduzir o passado.
A abertura com “Country Boy” estabelece rapidamente as regras do jogo. O hard rock cadenciado, de forte inspiração americana, serve de plataforma perfeita para a voz rouca de Bormann, enquanto o refrão assume uma dimensão quase hínica. “Love, Touch and Trouble” segue pela mesma estrada, com guitarras de timbres clássicos, baixo e bateria formando uma base sólida e backing vocals cuidadosamente posicionados para ampliar o impacto dos refrãos. É uma fórmula conhecida, mas executada com segurança e, principalmente, com consciência de suas próprias virtudes.
A grande qualidade de South West, entretanto, está na maneira como o álbum trabalha as diferentes velocidades e atmosferas sem perder sua identidade. Há espaço para o hard rock mais direto, para momentos AOR, para faixas cadenciadas e para baladas, criando uma dinâmica que impede que as 11 músicas pareçam variações de uma mesma ideia.
“Stop Those Rainy Days (30 Years Later)” exemplifica bem esse equilíbrio. A faixa parte de uma estrutura que poderia facilmente conduzir a uma power ballad convencional, mas ganha corpo com guitarras acústicas, mudanças de intensidade e um refrão que amplia progressivamente a composição. A influência de gigantes como o Whitesnake é perceptível, mas o resultado não soa como mera reprodução de um modelo consagrado. Já “That’s the Only Truth” assume de maneira mais explícita os códigos da power ballad clássica, com guitarras limpas que cedem espaço à distorção no momento certo, coros e backing vocals criando a atmosfera esperada — e uma interpretação particularmente inspirada de Bormann.
Os teclados também desempenham papel importante na construção do álbum. Em “In the Shadows of the Night”, eles aproximam a banda do AOR oitentista e ajudam a criar um contraste interessante com as guitarras e a aceleração da faixa. Em outros momentos, aparecem de maneira mais discreta ou assumem uma função quase atmosférica, como em “Kissed by You”, que começa flertando com uma estética synthwave antes de ganhar contornos mais definidos de hard rock. Essa utilização dos teclados adiciona textura e variedade ao disco sem deslocá-lo de seu eixo principal.
É justamente nessa combinação entre tradição e atualização que South West encontra seu maior mérito. “I’ll Always Remember You” transita por uma zona intermediária entre balada e faixa cadenciada, enquanto “There’s No Living Without You” recupera aquele hard rock clássico de refrão imediatamente assimilável, com guitarras e teclados muito bem integrados à seção rítmica. São músicas que demonstram que Bormann conhece profundamente os mecanismos do gênero e sabe exatamente quando deixar a voz assumir o protagonismo.
E a voz continua sendo um dos grandes trunfos. Mesmo quando opta por uma interpretação mais limpa, Bormann permanece imediatamente reconhecível. Sua rouquidão característica acrescenta personalidade às composições mais pesadas, enquanto os momentos mais contidos revelam um intérprete capaz de trabalhar emoção sem recorrer ao excesso.
“I’m a Liar (That’s No Fantasy)” talvez seja o melhor exemplo disso. Construída inicialmente sobre piano e voz, a faixa cresce gradualmente até adquirir contornos quase épicos, com a entrada dos demais instrumentos, melodias marcantes e um solo que complementa a atmosfera. O momento em que a voz permanece praticamente sozinha antes da retomada instrumental é particularmente eficiente e mostra um Bormann confortável também quando o arranjo exige contenção.
No outro extremo, “One Step Back” devolve ao álbum a energia mais festiva do hard rock, reunindo guitarras, teclados, backing vocals e outro refrão feito para ser cantado em coro. O mérito está novamente nos detalhes: os timbres foram escolhidos para dialogar entre si e, sobretudo, para valorizar a voz de Bormann.
A faixa de encerramento, “Cheers To”, adiciona uma dimensão mais pessoal ao disco. Dedicada ao guitarrista Holger Bussler, a composição aposta em uma abordagem semiacústica e funciona como uma despedida menos convencional, acrescentando uma nova nuance ao álbum sem quebrar sua unidade.
No fim das contas, South West não tenta reinventar o hard rock melódico — e não precisa fazê-lo. Sua força está justamente em compreender o que tornou essa linguagem tão duradoura e reapresentá-la com uma produção atual, bons arranjos e uma banda que sabe explorar suas possibilidades. O álbum alterna momentos mais pesados e diretos com passagens atmosféricas, AOR e baladas, mantendo sempre uma preocupação evidente com melodias e refrãos.
É também por isso que o Michael Bormann’s Jaded Hard merece ser visto para além da simples nostalgia. Se a carreira solo permitiu ao músico explorar diferentes territórios, este projeto recupera deliberadamente a identidade que marcou sua passagem pelo Jaded Heart — não como uma tentativa de voltar no tempo, mas como uma evolução natural daquela fórmula. South West soa como um músico revisitando uma parte importante de sua própria história com a experiência acumulada ao longo de décadas.
Para quem acompanha Bormann desde os tempos do Jaded Heart, há aqui elementos familiares suficientes para despertar a memória afetiva. Para quem chega agora, porém, o álbum funciona perfeitamente por seus próprios méritos: é hard rock melódico, acessível e vigoroso, produzido para o presente, mas com pleno conhecimento de onde veio.
***ENGLISH VERSION***
Built around Michael Bormann’s legacy with Jaded Heart, Michael Bormann’s Jaded Hard arrives with South West reaffirming an identity the vocalist helped establish within European melodic hard rock: strong guitars, memorable melodies, immediate choruses and contemporary production, without sacrificing the weight and attitude that have always defined his career.
This project serves as a bridge between the present and the most celebrated period of Bormann’s career. Throughout his solo work, the musician has explored different possibilities within rock, but it was with Jaded Heart that his signature became particularly recognizable. South West recaptures that essence, although it is far from an attempt to simply recreate the past.
“Country Boy” sets the tone immediately. Its laid-back, distinctly American-flavored hard rock provides the perfect platform for Bormann’s raspy voice, while the chorus takes on an almost anthemic quality. “Love, Touch and Trouble” follows a similar path, with classic hard rock guitar tones, bass and drums forming a solid foundation and carefully placed backing vocals adding impact to the choruses. It is a familiar formula, but one executed with confidence and, more importantly, with a clear understanding of its own strengths.
The greatest quality of South West, however, lies in the way the album moves between different tempos and atmospheres without losing its identity. There is room for more direct hard rock, AOR touches, mid-tempo tracks and ballads, creating enough dynamics to prevent the 11 songs from feeling like variations on the same idea.
“Stop Those Rainy Days (30 Years Later)” is a good example of this balance. The song begins with a structure that could easily develop into a conventional power ballad, but gains substance through acoustic guitars, shifts in intensity and a chorus that gradually expands the arrangement. The influence of giants such as Whitesnake is noticeable, yet the result never feels like a mere reproduction of an established template. “That’s the Only Truth”, meanwhile, embraces the classic power-ballad formula more directly, with clean guitars giving way to distortion at precisely the right moment, layered vocals and backing harmonies creating the expected atmosphere — along with a particularly inspired performance from Bormann.
Keyboards also play an important role in shaping the album. On “In the Shadows of the Night”, they bring the band closer to ’80s AOR while creating an interesting contrast with the guitars and the song’s increased pace. Elsewhere, they appear more discreetly or take on an almost atmospheric role, as on “Kissed by You”, which initially flirts with a synthwave aesthetic before developing into a more defined hard rock track. This use of keyboards adds texture and variety without pulling the album away from its central direction.
It is precisely this combination of tradition and modernization that becomes South West’s greatest strength. “I’ll Always Remember You” occupies the territory between a ballad and a mid-tempo rocker, while “There’s No Living Without You” brings back the kind of classic hard rock built around an instantly memorable chorus, with guitars and keyboards seamlessly integrated into the rhythm section. These songs demonstrate that Bormann understands the mechanics of the genre inside out and knows exactly when to put his voice at center stage.
And that voice remains one of the album’s greatest assets. Even when he opts for a cleaner delivery, Bormann remains instantly recognizable. His characteristic rasp adds personality to the heavier compositions, while the more restrained moments reveal a singer capable of conveying emotion without resorting to excess.
“I’m a Liar (That’s No Fantasy)” may be the clearest example. Initially built around piano and vocals, the song gradually expands into something almost epic as the other instruments enter, supported by strong melodies and a tasteful solo that complements the atmosphere. The moment when Bormann’s voice is left almost completely alone before the instrumental arrangement returns is particularly effective, demonstrating that he is equally comfortable when the music calls for restraint.
At the other end of the spectrum, “One Step Back” restores the album’s more celebratory hard rock energy, bringing together guitars, keyboards, backing vocals and another chorus seemingly designed for a crowd to sing along with. Once again, the details make the difference: the tones have been carefully chosen to complement one another and, above all, to enhance Bormann’s voice.
The closing track, “Cheers To”, adds a more personal dimension to the album. Dedicated to guitarist Holger Bussler, the song takes a semi-acoustic approach and serves as a less conventional farewell, introducing another shade to the record without disrupting its overall unity.
Ultimately, South West does not attempt to reinvent melodic hard rock — and it does not need to. Its strength lies in understanding what has made this musical language so enduring and presenting it through modern production, strong arrangements and a band capable of exploring its possibilities. The album moves between heavier, more direct moments, atmospheric passages, AOR and ballads, while maintaining a clear focus on melodies and memorable choruses.
This is also why Michael Bormann’s Jaded Hard deserves to be viewed as more than a nostalgia project. If Bormann’s solo career allowed him to explore different territories, this band deliberately reconnects with the identity that defined his time with Jaded Heart — not as an attempt to turn back the clock, but as a natural evolution of that formula. South West sounds like a musician revisiting an important chapter of his own history with the experience accumulated over decades.
For those who have followed Bormann since his Jaded Heart days, there are enough familiar elements here to trigger a strong sense of nostalgia. For newcomers, however, the album stands perfectly well on its own merits: accessible, energetic melodic hard rock made for the present, but created by musicians who have a clear understanding of where it all came from.


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