quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Roy Khan transforma noite esvaziada pelas eleições em celebração histórica no Opinião

Por: Renato Sanson

Fotos: Gmaglia

Mesmo diante de um público menor do que o espetáculo merecia, Roy Khan mostrou em Porto Alegre por que permanece como uma das figuras mais magnéticas do metal melódico.

No domingo, 25 de outubro, o Bar Opinião recebeu a última apresentação brasileira da turnê The Black Halo and Beyond, de Roy Khan. A passagem por Porto Alegre aconteceu em uma data complicada: o segundo turno das eleições. Em meio ao clima político tenso do país, à possibilidade de tumultos e ao receio compreensível de circular pela cidade, parte do público preferiu permanecer em casa.

O impacto dessa conjuntura foi perceptível na lotação. Não porque faltasse interesse pelo retorno de uma das vozes mais importantes do metal melódico e sinfônico, mas porque o contexto externo interferiu diretamente na dinâmica do evento. Foi uma pena ver um espetáculo desse porte diante de uma plateia menor do que ele merecia. Por outro lado, quem enfrentou a tensão daquele domingo encontrou no Opinião um ambiente seguro e uma noite musical de altíssimo nível.

A programação ainda contou com a abertura da banda gaúcha Drahktar, antes da chegada do convidado especial Maestrick e da apresentação principal de Roy Khan. O cronograma oficial reuniu os três nomes, com Khan previsto para subir ao palco às 21h.

Maestrick: obscuro, dramático e absolutamente único

Dizer que o Maestrick dispensa apresentações pode soar como força de expressão, mas basta assistir à banda ao vivo para compreender. O grupo apresentou seu prog metal obscuro, teatral e dramático, construído com arranjos complexos, mudanças de atmosfera e uma execução técnica assustadoramente precisa.

Mais do que demonstrar virtuosismo, o Maestrick sabe transformar música em narrativa. Cada passagem parece ocupar um lugar específico dentro de uma obra maior, alternando peso, delicadeza, tensão e explosões emocionais sem perder a identidade. Não há exibicionismo vazio: a técnica está sempre a serviço da composição e do espetáculo.

A qualidade sonora foi surreal, assim como a segurança dos músicos no palco. Foi uma apresentação ímpar, daquelas que reforçam a sensação de estarmos diante de uma banda brasileira pronta para ocupar espaços muito maiores. O Maestrick merece o mundo.

A participação do grupo, porém, não terminou em seu próprio repertório. Além de convidado especial, o Maestrick assumiu a missão de acompanhar Roy Khan durante a turnê, ao lado do guitarrista Caio Kehyayan. A sintonia entre os músicos deixou claro que não se tratava apenas de uma banda de apoio, mas de uma formação totalmente envolvida com o repertório e com a identidade dramática das canções.

O homem que ainda domina qualquer palco

Quando Roy Khan apareceu, ficou evidente que o tempo pode alterar uma voz, mas não apaga o carisma de um verdadeiro frontman. Aos 56 anos, o cantor norueguês esbanjou boa forma, simpatia e uma presença de palco monstruosa. Bastaram poucos minutos para que tivesse a plateia completamente nas mãos.

Khan não precisa correr de um lado para o outro ou recorrer a excessos. Seu domínio está no olhar, nos gestos, na postura elegante e na maneira como interpreta cada verso. Há algo de teatral em sua presença, mas nunca artificial. Ele compreende o peso emocional das músicas e sabe exatamente quando conduzir o público, quando recuar e quando deixar a banda ampliar a atmosfera.

É preciso reconhecer que sua voz já não é exatamente a mesma dos anos de ouro do Kamelot. O desgaste natural do tempo aparece em algumas passagens mais exigentes, especialmente quando o repertório pede notas longas e regiões mais agudas. Entretanto, reduzir a apresentação a essa comparação seria ignorar tudo o que Roy Khan ainda entrega.

O cantor adaptou linhas, administrou os momentos mais difíceis e compensou qualquer limitação com interpretação, experiência e presença cênica. Mais importante: sua identidade vocal permanece intacta. O timbre grave, a elegância quase operística e a capacidade de transformar melodias em pequenas cenas dramáticas continuam imediatamente reconhecíveis.

Uma viagem pela era clássica do Kamelot

A turnê The Black Halo and Beyond foi concebida como uma celebração da passagem de Khan pelo Kamelot, especialmente da fase que consolidou a banda como referência mundial. O repertório da etapa brasileira abriu com "When the Lights Are Down" e "Soul Society", duas canções capazes de transportar imediatamente o público para o universo sombrio e grandioso de The Black Halo.

Na sequência, "Moonlight" ampliou a atmosfera melancólica antes de "Center of the Universe" provocar uma das reações mais intensas da noite. O clássico de Epica continua sendo uma síntese perfeita do que tornou aquela formação do Kamelot tão especial: peso, melodia, dramaticidade e um refrão feito para ser cantado coletivamente.

Um dos momentos mais emocionantes veio com "Abandoned", interpretada com a participação de Zoë Marie Federoff. A cantora acompanhou a etapa sul-americana da turnê e funcionou como contraponto perfeito para Khan, acrescentando beleza e intensidade às passagens vocais. O encontro dos dois transformou a canção em um dos pontos altos da apresentação em Porto Alegre.

"The Haunting (Somewhere in Time)" manteve Zoë em posição de destaque e reforçou o caráter teatral do espetáculo. Já "Rule the World" recuperou a força de uma fase posterior da discografia do Kamelot, mostrando que a proposta não estava limitada a um único álbum, mas contemplava diferentes capítulos da trajetória de Khan.

A sequência ainda passou pela densidade épica de "Memento Mori" e pela atmosfera oriental de "Nights of Arabia", outra composição recebida como um verdadeiro clássico. O repertório adotado na reta final brasileira também incluiu canções como "Forever", inevitável ponto de comunhão entre palco e plateia, em um encerramento marcado pela nostalgia e pela celebração.

Muito além da nostalgia

Seria fácil apresentar The Black Halo and Beyond apenas como um exercício nostálgico, especialmente porque boa parte do público mantém uma ligação afetiva profunda com a fase de Roy Khan no Kamelot. O que aconteceu no Opinião, porém, foi maior do que uma tentativa de reproduzir o passado.

Khan não procurou imitar o cantor que era duas décadas atrás. Em vez disso, apresentou as músicas a partir do artista que é hoje: mais maduro, consciente de seus recursos e ainda dono de uma capacidade rara de comunicação. Ao seu redor, músicos excepcionais deram novo fôlego às composições, preservando sua essência sem transformá-las em peças de museu.

O público reduzido acabou criando uma proximidade inesperada. Cada resposta da plateia parecia chegar diretamente ao palco, e cada gesto de Khan era recebido com atenção absoluta. O que poderia ter diminuído a força do show acabou tornando a experiência mais íntima, sem retirar sua grandiosidade.

A noite de 25 de outubro ficará marcada pela contradição. Do lado de fora, uma cidade atravessada por tensão política, receio e incerteza. Dentro do Bar Opinião, música de altíssimo nível, uma banda brasileira monumental e um vocalista que, mesmo sem possuir exatamente a mesma voz de outros tempos, continua sendo um showman gigantesco.

Roy Khan teve a plateia na mão porque carisma não se mede apenas por alcance vocal. Mede-se pela capacidade de fazer uma sala inteira acompanhar cada movimento, reconhecer cada melodia e esquecer, ainda que por algumas horas, tudo o que acontece do lado de fora. E nisso, poucas figuras do metal são tão eficientes quanto ele.

 

 Realização: Arena Produtora 

 

 

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