SEPULTURA: o peso de uma despedida e a grandeza de uma história que também é nossa
Em penúltimo capítulo nos palcos, Sepultura transforma o Cine Joia em uma celebração de sua trajetória, revisita diferentes fases da carreira e mostra que seu legado ultrapassa qualquer despedida.
Existe uma diferença entre assistir a um show e compreender a dimensão do que está acontecendo diante dos seus olhos. Na noite de quinta-feira (5), no Cine Joia, em São Paulo, o Sepultura proporcionou um daqueles encontros em que a música parece carregar muito mais do que os próprios acordes. Batizada de The Last Ceremony, a apresentação foi o penúltimo capítulo de uma trajetória de 42 anos e uma oportunidade de testemunhar, em um formato intimista, parte da história de uma das bandas mais importantes que o metal já produziu.
Fazia muito tempo que eu não via o Sepultura ao vivo. E talvez essa distância tenha contribuído para tornar a experiência ainda mais intensa. Foi particularmente emocionante reencontrar uma banda que atravessou tantas fases da nossa vida, especialmente quando sabemos que estamos diante de uma das últimas oportunidades de fazer isso. Antes mesmo de a apresentação começar, já havia uma espécie de filme passando pela cabeça. Lembranças de discos, de músicas que acompanharam diferentes momentos, de descobertas musicais, de amizades e de períodos em que o Sepultura foi muito mais do que uma escolha na playlist.
Afinal, é praticamente impossível contar a história do metal brasileiro sem passar pelo Sepultura. E também é difícil contar a história de quem cresceu dentro desse universo sem reconhecer a influência que a banda exerceu sobre sua formação musical e cultural. Desde a maneira como ajudou a projetar o metal brasileiro internacionalmente até a liberdade de experimentar sonoridades, incorporar elementos da música brasileira e romper fronteiras estéticas, o grupo construiu uma identidade que ultrapassou os limites do gênero. Seus discos influenciaram músicos, movimentaram cenas, estabeleceram referências e ajudaram a moldar comportamentos e estilos de diferentes gerações.
É por isso que a despedida tem um peso que não se limita ao encerramento das atividades de uma banda. Quando o Sepultura anuncia o fim, também somos confrontados com o encerramento simbólico de muitas fases da nossa própria história. Algumas músicas nos devolvem a pessoas que já não estão por perto, outras nos transportam para versões de nós mesmos que ficaram no passado. E, de repente, percebemos que uma parte considerável da nossa relação com o metal foi construída tendo o Sepultura como referência.
Mas, antes de qualquer reflexão sobre despedidas, havia uma banda para tocar. E o quarteto formado por Andreas Kisser, Derrick Green, Paulo Jr. e Greyson Nekrutman não economizou na entrega.
O repertório foi um dos grandes acertos da noite. Com mais de 20 músicas e uma seleção que percorreu diferentes períodos da discografia, o Sepultura construiu uma apresentação que privilegiou a agressividade, a diversidade de sua trajetória e a conexão com os fãs. A sequência de “Arise”, “Dead Embryonic Cells” e “Desperate Cry”, seguida por “Beneath the Remains”, “Inner Self” e “Mass Hypnosis”, estabeleceu rapidamente o tom da apresentação. Era uma sucessão de clássicos de uma fase fundamental para a consolidação internacional da banda, executados com intensidade e sem perder a precisão que essas composições exigem.
O resgate de “Mass Hypnosis”, ausente dos palcos desde 2019, foi um dos momentos de destaque desse primeiro bloco. A composição de Beneath the Remains (1989) exige domínio de velocidade, articulação e mudanças rítmicas, características que ajudaram a definir a sonoridade do Sepultura em sua fase mais extrema. Sua execução reafirmou a capacidade da formação atual de revisitar um material tão exigente sem transformar o repertório clássico em uma simples reprodução nostálgica. A resposta da plateia veio na mesma intensidade, com rodas de pogo que já davam uma dimensão bastante clara da disposição do público para aproveitar cada minuto daquela noite.
Musicalmente, a formação atual demonstrou um entrosamento importante para sustentar um repertório tão diverso. A guitarra de Andreas Kisser apareceu encorpada e distorcida, conduzindo riffs que alternavam velocidade, peso e construções mais cadenciadas. O baixo de Paulo Jr. manteve a sustentação das bases, enquanto Greyson Nekrutman imprimiu precisão e intensidade à bateria, transitando entre passagens rápidas, viradas e variações de dinâmica. Em uma casa menor, sem a dimensão de uma grande produção de arena, os instrumentos ganharam uma presença física bastante particular. A sonoridade era crua, direta e contundente, mas sem comprometer a definição dos arranjos.
A contribuição de Derrick Green também merece atenção. Além de sua presença vocal, o músico assumiu a segunda guitarra em “Mindwar”, ampliando as possibilidades das bases e acrescentando outra camada à construção sonora. Andreas, que durante tantos anos sustentou praticamente sozinho a condução das guitarras no palco, ganhou um reforço que fez diferença na densidade do arranjo. Foi um detalhe musical importante, mas também simbólico, considerando a homenagem feita pelo guitarrista ao companheiro antes da execução da música.
A relação entre os dois músicos ajuda a compreender uma parte fundamental da história do Sepultura. A saída de Max Cavalera, em 1996, poderia ter representado o encerramento de um ciclo sem continuidade. No entanto, a chegada de Derrick abriu caminho para uma nova identidade, que precisou conquistar seu próprio espaço diante de uma base de fãs naturalmente dividida naquele momento. Ao agradecer ao vocalista pela parceria e relembrar sua importância para a continuidade da banda, Andreas trouxe para o palco uma dimensão que vai além da relação profissional entre músicos. A lembrança de Against (1998), primeiro álbum de estúdio com Derrick, reforçou o reconhecimento de uma fase que ajudou o grupo a seguir em frente quando o futuro parecia incerto.
E é importante reconhecer a dimensão dessa trajetória. Derrick não ocupou simplesmente o lugar deixado por outro vocalista. Ao longo de quase três décadas, ajudou a construir uma fase própria, com características musicais, performances e composições que também se tornaram parte indispensável da identidade do Sepultura. “Against”, “Mindwar” e “Kairos” evidenciaram essa contribuição, enquanto “The Place” e “Means to an End” ampliaram o recorte da fase mais recente. Nesta última, inclusive, a participação de uma garotinha no palco trouxe uma imagem bastante particular para uma noite tão carregada de significado.
Outro aspecto interessante foi a maneira como o repertório apresentou diferentes possibilidades da linguagem musical construída pelo Sepultura. A passagem por Roots (1996), com “Breed Apart”, “Attitude” e “Dusted”, evidenciou como a banda conseguiu expandir sua identidade sem abandonar a agressividade que a projetou internacionalmente. A experimentação rítmica, a aproximação com elementos da música brasileira e a incorporação de outras referências ajudaram a fazer daquele álbum um marco na discografia do grupo. No palco, essas características apareceram em composições com dinâmicas bastante distintas. “Attitude” trouxe uma resposta explosiva da plateia, enquanto “Dusted” explorou outra movimentação, mostrando como o público também se relaciona de maneiras diferentes com as diversas fases da banda.
A apresentação também reservou espaço para o material mais recente. “All Souls Rising” e “Beyond the Dream”, do EP The Cloud of Unknowing (2026), mostraram que a despedida não estava restrita à celebração do passado. Em “All Souls Rising”, o Sepultura apresentou uma de suas facetas mais elaboradas da produção recente. A combinação entre a base extrema, as mudanças de intensidade e os elementos orquestrais cria uma composição de diferentes camadas, que amplia o campo sonoro da banda sem diluir sua agressividade. Já “Beyond the Dream” ofereceu um contraste interessante ao repertório predominantemente pesado. Com uma atmosfera mais melódica e uma letra que dialoga com as conquistas da banda, a música funcionou como uma pausa para respirar, sem perder a conexão com o significado daquele encontro.
A reta final recuperou a força política e a contundência de Chaos A.D. (1993), com “Territory” e “Biotech Is Godzilla”. Mais do que músicas reconhecidas pelo peso de seus riffs, são composições que demonstram como o Sepultura sempre encontrou na realidade social e política matéria-prima para sua expressão artística. A capacidade de transformar inquietações em música, sem abrir mão da agressividade e da identidade sonora, continua sendo uma das características mais relevantes da banda. Décadas depois, essas letras permanecem atuais e encontram uma plateia que não apenas reconhece os refrões, mas também responde à força de suas mensagens.
Outra escolha que chamou a atenção foi “Orgasmatron”, clássico do Motörhead, que entrou no lugar de “Slave New World”. A presença da composição no repertório acrescentou uma homenagem a uma das grandes referências do metal e foi recebida com entusiasmo pelo público. Já “Refuse/Resist” conduziu a apresentação para sua reta final com a energia que uma música dessa dimensão exige. Depois, o solo de bateria abriu caminho para um trecho de “Ratamahatta” e a inevitável “Roots Bloody Roots”, que encerrou a noite com um dos maiores hinos da história da banda.
Mas talvez a característica mais marcante daquela apresentação não estivesse somente no que acontecia no palco. O Cine Joia estava tomado por uma plateia que parecia compreender perfeitamente a importância daquele encontro. As rodas de pogo não deram trégua, o público cantava em volume impressionante e fãs subiam ao palco para se jogar nos braços de quem estava na pista. Havia uma energia espontânea, intensa e genuína, daquelas que não precisam de grandes efeitos para acontecer. A proximidade entre músicos e espectadores transformou a apresentação em uma experiência quase coletiva, como se todos estivessem participando de uma celebração particular.
E esse é um dos grandes méritos do formato escolhido para o The Last Ceremony. Em vez de apostar exclusivamente na grandiosidade de uma despedida, o Sepultura se apresentou em uma casa que permitiu uma relação mais próxima com seus fãs. O resultado foi uma experiência crua, sem a distância que muitas vezes existe entre um palco de grandes dimensões e a plateia. Era possível sentir o peso dos instrumentos, observar a interação entre os músicos e perceber o quanto aquelas músicas ainda movimentam as pessoas.
O formato intimista também tornou mais evidente uma sensação difícil de ignorar: a ausência que o Sepultura deixará quando essa história chegar ao fim. Quanto mais próxima a banda parecia estar do público, mais concreta se tornava a percepção de que não teremos muitos outros encontros como aquele. Foi bonito ver tanta gente celebrando, mas também havia uma tristeza inevitável em saber que estávamos nos aproximando do encerramento de uma trajetória tão importante.
Talvez seja esse o paradoxo de uma despedida como essa. Ao mesmo tempo em que celebramos tudo o que foi construído, começamos a compreender a dimensão daquilo que deixará de existir. E não estou falando apenas de uma banda que deixará de fazer shows. Estou falando de uma referência que ajudou a construir a própria história do metal, que influenciou gerações e que também esteve presente em momentos importantes da vida de tantas pessoas.
Saí do Cine Joia com o coração apertado, mas com a felicidade de ter presenciado uma noite tão especial. Foi uma apresentação musicalmente consistente, diversa e conduzida por uma plateia que não economizou na entrega. Mais do que uma prévia da despedida, foi um reconhecimento coletivo de tudo o que o Sepultura representa.
E, se antes já existia uma expectativa enorme para o último show, agora ela vem acompanhada de uma ansiedade ainda maior. Porque depois de uma noite como essa, fica difícil imaginar que o próximo encontro será o último. Que venha sábado. Que a história seja celebrada como merece. E que a gente consiga aproveitar cada segundo. O último deles.
Texto: Stephanie Ferreira
Fotos: Lucas Garcia
Sepultura – setlist:
Arise
Dead Embryonic Cells
Desperate Cry
Beneath the Remains
Inner Self
Mass Hypnosis
All Souls Rising
Kairos
Mind War
Against
The Place
Means to an End
Breed Apart
Attitude
Dusted
Beyond the Dream
Territory
Biotech Is Godzilla
Orgasmatron (Motörhead cover)
Refuse/Resist
Bis
Ratamahatta
Roots Bloody Roots










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