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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Wednesday 13: Uma História Ainda em Movimento (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Há algo particularmente apropriado em registrar uma carreira como a de Wednesday 13 diante de uma das maiores multidões da história do rock europeu. Em 2025, o Pol’and’Rock Festival reuniu centenas de milhares de pessoas no Czaplinek-Broczyno Airfield, na Polônia, e foi nesse cenário gigantesco que Joseph Michael Poole levou ao palco uma versão concentrada de mais de duas décadas de horror rock, punk, metal e sleaze.

O resultado chega agora em Un-Alive from Pol’and’Rock 2025, um registro ao vivo que, mais do que revisitar o passado, funciona como uma fotografia bastante precisa do momento atual de Wednesday 13.

A primeira impressão é a de uma banda que não tem qualquer interesse em esconder sua natureza atrás de uma produção excessivamente polida. Captado diretamente da mesa de som, o álbum preserva uma aspereza que joga a favor da proposta. As guitarras soam pesadas, a bateria mantém tudo em movimento e os vocais naturalmente roucos de Wednesday 13 carregam aquele desgaste que, longe de ser um problema, tornou-se parte fundamental de sua identidade. Há pouco verniz aqui — e ainda bem.

É justamente essa característica que faz Un-Alive soar como um show, e não como uma gravação de estúdio disfarçada de álbum ao vivo. O público está presente, a banda está solta e existe uma sensação permanente de que tudo pode descambar para o caos a qualquer momento. Para um artista cuja carreira sempre esteve associada a personagens, horror e teatralidade, é uma combinação que funciona.

Mas o verdadeiro interesse do álbum está na maneira como seu setlist organiza uma trajetória que já atravessa mais de vinte anos. São quinze músicas e aproximadamente uma hora de apresentação — tempo insuficiente para transformar o disco em uma retrospectiva definitiva. Ainda assim, a seleção consegue atravessar diferentes capítulos da carreira sem cair na armadilha de simplesmente empilhar maiores sucessos.

A viagem começa com “Blood Fades To Black”, de Calling All Corpses, de 2011, antes de recuar para os primeiros anos da carreira solo com “Look What The Bats Dragged In” e “I Want You Dead”, de Transylvania 90210: Songs of Death, Dying and the Dead. O álbum de estreia solo de Wednesday 13, lançado em 2005, é um dos pilares do repertório e ainda retorna mais adiante com “I Walked With A Zombie” e, no encerramento, “Bad Things”.

“I Walked With A Zombie”, em particular, é um daqueles temas que parecem ter sido feitos para sobreviver ao tempo. No contexto do Pol’and’Rock, ganha ainda mais força graças à resposta da plateia, deixando claro que a conexão entre Wednesday 13 e seu público não depende apenas da nostalgia.

O repertório avança então por diferentes momentos da carreira. The Dixie Dead aparece representado por “Too Fast For Blood”, enquanto Horrifier, de 2022, contribui com “Good Day To Be A Bad Guy”. O passado, portanto, está devidamente representado, mas Wednesday 13 não está interessado em transformar a apresentação em um museu.

Mid Death Crisis, seu álbum de estúdio mais recente, recebe quatro representantes: “There’s No Such Thing As Monsters”, “Rotting Away”, “When The Devil Commands” e “In Misery”. É uma presença significativa — exatamente o mesmo número de músicas dedicado a Transylvania 90210 — e revela uma escolha importante: as novas composições não estão ali apenas para cumprir tabela. Elas precisam dividir o palco com músicas que há muito tempo fazem parte do imaginário do público, e conseguem fazê-lo sem parecer intrusas. E então existe o Murderdolls.

“Summertime Suicide”, “197666” e “Nowhere” recuperam uma das fases mais cultuadas da trajetória de Poole e estabelecem uma ponte direta com o período em que dividiu o projeto com Joey Jordison. São músicas que carregam uma identidade própria e que, décadas depois, continuam perfeitamente integradas ao universo de Wednesday 13.

“Nowhere” ganha ainda uma dimensão especial quando Wednesday 13 presta homenagem a Ozzy Osbourne antes de executá-la. É um daqueles momentos que fazem um registro ao vivo ultrapassar a simples documentação de um concerto e adquirir valor como retrato de uma época.

O encerramento com “I Love To Say Fuck” também não é uma escolha aleatória. Originalmente pertencente aos Frankenstein Drag Queens From Planet 13, projeto que antecedeu Murderdolls e a carreira solo, a faixa funciona quase como uma assinatura do personagem Wednesday 13. Sua presença fecha um círculo que conecta Frankenstein Drag Queens, Murderdolls e sua carreira solo — três capítulos diferentes de uma mesma identidade artística.

É justamente aí que a setlist revela sua maior qualidade e, ao mesmo tempo, sua principal limitação.

Para apenas quinze músicas, a seleção é surpreendentemente abrangente. Há espaço para os Frankenstein Drag Queens, Murderdolls, diferentes momentos da carreira solo e, sobretudo, para o material mais recente. O problema é que o catálogo de Wednesday 13 é grande demais para caber em uma hora.

Fang Bang, Skeletons, Condolences e Necrophaze ficam sem representação direta, enquanto boa parte de Calling All Corpses também permanece de fora, apesar de “Blood Fades To Black” funcionar como seu representante. E há uma longa fila de músicas que poderiam perfeitamente reivindicar um lugar: “I Wanna Be Cremated”, “Ghoul of My Dreams”, “Candle for the Devil”, “From Here To The Hearse” e “Decompose”, entre outras.

Por isso, chamar Un-Alive de um “best of” seria forçar a barra. É um bom setlist, certamente, mas não uma retrospectiva definitiva. E talvez nem devesse ser.

Afinal, este não é um álbum concebido para resumir toda a carreira de Wednesday 13. É o registro de um show específico, em um momento específico, quando Mid Death Crisis estava apresentando uma nova etapa da carreira. Nesse contexto, a presença expressiva do álbum mais recente faz todo sentido. O passado está representado, mas não domina o presente.

Essa talvez seja a melhor maneira de ouvir Un-Alive from Pol’and’Rock 2025: não como um Greatest Hits Live, mas como uma fotografia de uma carreira que continua em movimento.

Murderdolls está ali. Frankenstein Drag Queens está ali. Os primeiros discos solo estão ali. Mas Mid Death Crisis também reivindica seu espaço — e a banda parece determinada a provar que suas músicas mais recentes não precisam se esconder atrás dos clássicos.

Musicalmente, o álbum entende perfeitamente o que um grande festival exige de Wednesday 13. Músicas diretas, refrãos para serem berrados por uma multidão, peso suficiente para manter a adrenalina elevada e uma dose generosa de teatralidade. A banda soa coesa, os vocais mantêm a personalidade e o público é incorporado à gravação de maneira natural.

É nesse ponto que Un-Alive ganha força. Não há a preocupação de transformar o show em uma peça de museu, nem de apresentar uma versão excessivamente comportada de Wednesday 13. O disco quer transmitir energia — e consegue.

A principal ressalva, portanto, está menos na execução do que naquilo que ficou de fora. Quinze músicas inevitavelmente significam escolhas e sacrifícios quando o artista possui uma discografia tão extensa. Alguns fãs certamente sentirão falta de determinados clássicos, mas essa mesma ausência serve para dimensionar o tamanho do repertório acumulado por Wednesday 13.

Talvez o verdadeiro problema de Un-Alive seja justamente esse: quando o artista possui material suficiente para preencher vários discos ao vivo, qualquer seleção de uma hora estará inevitavelmente incompleta.

No fim, porém, é difícil ignorar a imagem que permanece. Wednesday 13 conseguiu transformar horror, punk, metal, hard rock e uma boa dose de teatralidade em uma identidade que é imediatamente reconhecível. Mais de duas décadas depois de I Walked With A Zombie, ele ainda consegue colocar uma multidão gigantesca para cantar suas músicas em uníssono.

Un-Alive from Pol’and’Rock 2025 não é a palavra final sobre a carreira de Wednesday 13 — e nem pretende ser. É algo mais interessante: um instantâneo vivo, barulhento e genuinamente espontâneo de uma história que ainda está sendo escrita.

***ENGLISH VERSION***

There is something particularly fitting about documenting a career like Wednesday 13’s in front of one of the biggest crowds in European rock. In 2025, Poland’s Pol’and’Rock Festival drew hundreds of thousands of people to the Czaplinek-Broczyno Airfield, and it was against this colossal backdrop that Joseph Michael Poole took the stage with a condensed dose of more than two decades of horror rock, punk, metal and sleaze.

The result is Un-Alive from Pol’and’Rock 2025, a live album that, rather than simply looking back, offers a remarkably accurate snapshot of where Wednesday 13 stands today.

The first impression is of a band with no interest in hiding behind an overly polished production. Captured straight from the soundboard, the album retains a raw edge that works entirely in its favour. The guitars hit hard, the drums keep everything moving and Wednesday 13’s naturally ragged vocals carry the kind of wear and tear that, far from being a weakness, has become an essential part of his identity. There is very little gloss here — and that is precisely the point.

It is this quality that makes Un-Alive sound like a live show rather than a studio recording dressed up as one. The crowd is present, the band sounds loose and there is a constant sense that things could tip into chaos at any moment. For an artist whose career has always been built around characters, horror and theatricality, it is a combination that works remarkably well.

But the real fascination of the album lies in the way its setlist maps out a career that now spans more than two decades. Fifteen songs and roughly an hour of music are nowhere near enough to turn this into a definitive career retrospective. Even so, the selection manages to move through several chapters of Wednesday 13’s history without falling into the trap of simply assembling a greatest-hits package.

The journey begins with “Blood Fades To Black”, from 2011’s Calling All Corpses, before moving back to the early days of his solo career with “Look What The Bats Dragged In” and “I Want You Dead”, from Transylvania 90210: Songs of Death, Dying and the Dead. His 2005 solo debut is one of the pillars of the set, returning later with “I Walked With A Zombie” and, in the closing stretch, “Bad Things”.

“I Walked With A Zombie”, in particular, is one of those songs that seems built to outlive its era. At Pol’and’Rock, it gains even more impact from the response of the crowd, making it clear that Wednesday 13’s connection with his audience is about more than nostalgia.

The set then moves through other stages of his career. The Dixie Dead is represented by    “Too Fast For Blood”, while 2022’s Horrifier contributes “Good Day To Be A Bad Guy”. The past is certainly represented, but Wednesday 13 has no intention of turning the show into a museum piece.

His most recent studio album, Mid Death Crisis, gets four songs — “There’s No Such Thing As Monsters”, “Rotting Away”, “When The Devil Commands” and “In Misery”. That is a significant presence, and exactly the same number of tracks given to Transylvania 90210. It also says something important about the set: the new material isn’t there simply to fill space. These songs have to share the stage with tracks that have been part of the audience’s musical vocabulary for years, and they manage to hold their own. And then there’s Murderdolls.

“Summertime Suicide”, “197666” and “Nowhere” revisit one of the most revered chapters of Poole’s career, establishing a direct link to the period when he shared the project with Joey Jordison. These songs have a character all of their own and, decades later, still fit naturally into the Wednesday 13 universe.

“Nowhere” takes on an added dimension when Wednesday 13 pays tribute to Ozzy Osbourne before performing it. It is one of those moments that allows a live recording to become more than a simple document of a concert and instead capture something of its particular moment in time.

The closing “I Love To Say Fuck” is equally telling. Originally recorded by Frankenstein Drag Queens From Planet 13, the project that preceded Murderdolls and his solo career, the song works almost like a signature for the Wednesday 13 persona. Its inclusion closes a circle connecting Frankenstein Drag Queens, Murderdolls and his solo work — three different chapters of essentially the same artistic identity.

And that is where the setlist reveals both its greatest strength and its most obvious limitation.

For just fifteen songs, the selection is impressively broad. Frankenstein Drag Queens, Murderdolls, various stages of the solo career and, most importantly, the current material all get their moment. The problem is that Wednesday 13’s catalogue has simply grown too large to fit comfortably into an hour.

Fang Bang, Skeletons, Condolences and Necrophaze receive no direct representation, while much of Calling All Corpses is also left untouched despite “Blood Fades To Black” serving as its representative. And there is a long list of songs that could easily have made a case for inclusion: “I Wanna Be Cremated”, “Ghoul of My Dreams”, “Candle for the Devil”, “From Here To The Hearse” and “Decompose”, among others.

So calling Un-Alive a “best of” would be stretching the point. It is a strong setlist, certainly, but not a definitive retrospective. And perhaps it was never meant to be one.

After all, this is not an album designed to summarize Wednesday 13’s entire career. It captures one particular show at one particular point in time, when Mid Death Crisis was introducing the next chapter of his story. In that context, the significant presence of the latest album makes perfect sense. The past is represented, but it does not overshadow the present.

Perhaps that is the best way to approach Un-Alive from Pol’and’Rock 2025: not as a Greatest Hits Live, but as a snapshot of a career that is still moving forward.

Murderdolls is here. Frankenstein Drag Queens is here. The early solo albums are here. But Mid Death Crisis also demands its share of the spotlight — and the band seems determined to prove that the newer material has no need to hide behind the classics.

Musically, the album understands exactly what a major festival demands from Wednesday 13. Direct songs, choruses designed to be screamed back by a massive crowd, enough weight to keep the adrenaline pumping and a generous dose of theatricality. The band sounds tight, the vocals retain their unmistakable character and the audience becomes a natural part of the recording.

That is where Un-Alive really hits its mark. There is no attempt to turn the performance into a museum piece, nor to present an overly sanitized version of Wednesday 13. The album wants to convey energy — and it does.

The main caveat, then, lies less in the execution than in what has been left out. Fifteen songs inevitably mean choices and sacrifices when an artist has accumulated such an extensive catalogue. Some fans will undoubtedly miss certain favourites, but those omissions also serve to underline just how much material Wednesday 13 now has behind him.

Perhaps the real problem with Un-Alive is precisely that: when an artist has enough material to fill several live albums, any one-hour selection is inevitably going to feel incomplete.

In the end, though, the lasting impression is of an artist who has turned horror, punk, metal, hard rock and a generous dose of theatricality into an instantly recognisable identity. More than two decades after I Walked With A Zombie, he can still make a gigantic crowd sing his songs back at him as one.

Un-Alive from Pol’and’Rock 2025 is not the final word on Wednesday 13’s career — nor does it try to be. It is something more interesting: a living, noisy and genuinely spontaneous snapshot of a story that is still being written.

Anna D Flux

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Cobertura de Show: Michale Graves – 31/10/2025 – Basement/CWB

Michale Graves em noite de Halloween!

Nesta sexta-feira, dia 31 de Outubro, noite de Halloween, Curitiba recebeu Michale Graves, lendário ex-vocalista do Misfits. O show faz parte da turnê “Something Wicked Tour 2025”, e chegou ao Brasil pela Caveira Velha Produções.

A expectativa para este show era grande, a notícia do “Sold Out” alguns dias antes do evento, aumentaram a curiosidade. Afinal, o local é um pouco mais intimista, sem espaço para área de pit, ou seguranças, deixando público e artista cara a cara. A noite prometia ser longa, afinal era esperado a execução na íntegra de “American Psycho” e "Famous Monsters”, clássicos álbuns do Misfits, da década de 90.

Ao chegar ao local, por volta das 19:50, que convém dizer, tem como referência o Cemitério Municipal da cidade. Coincidência? Para os mais empolgados, é apenas questão de localização mesmo, por tratar-se do Centro Histórico, reduto underground de bares e casas de show de pequeno porte. 

O evento não contou com banda de abertura, e seu início estava marcado para às 20:30. Por volta das 20 horas o interior do Basement já estava cheio, e ainda iria aumentar, visto que muitos estavam na área descoberta da casa, pois o calor estava complicado de aguentar. Ali já era visto que realmente haveria a lotação máxima esperada. 

Após um pequeno atraso, sobe ao palco o carismático Michale Graves e banda. A presença de palco do vocalista é impressionante, ocupa muito bem o espaço total do espaço. Inclusive ao verificar a quantidade de pessoas e o calor no local, fez questão de avisar para todos se respeitarem, e que, caso precisassem de ajuda era só pedir. 

Também solicitou à casa, para verificar se o público da frente precisava de água durante todo o show. Enfim, precauções importantes para a situação, e vindas da própria atração principal torna mais fácil o entendimento de alguns fãs mais rebeldes. Mas afinal, o que seria de um show de punk horror sem a rebeldia? 

Logo no início, já haviam todas punk e fãs sendo carregados até palco, para pularem novamente na sequência, Uma animação nunca vista no local. Inclusive o próprio Michael comentou que o público superou suas expectativas na empolgação. O calor humano era tanto que a maquiagem do vocalista quase derreteu por inteira, e também o fez abrir mão de seu famoso chapéu.

A apresentação inteira estava cheia de euforia, que se intensificava cada vez mais, só respirando entre as músicas, uma conversa ou outra com a platéia e uma sessão de autógrafos improvisada. A clássica “Dig up Her Bones” logo nos primeiros minutos foi fora de série, e na sequência somente loucura entre o público, tudo voava, cerveja, bonés e até os próprios fãs. 

O frenesi não tinha fim, “Punk Rock Is Dead”, todos cantando a plenos pulmões a maravilhosa “Scream!”, uma pausa para o romantismo com “Saturday Night”. E quando todos achavam que não podia melhorar, quase fechando a noite, os acordes de “War Pigs” surgiram para animação dos presentes. 

Por fim, pode-se dizer que foi uma noite insana na capital paranaense, com público fiel, enérgico, mas respeitoso. Michale Graves surpreendeu pela simpatia e carinho com os fãs, mas com muito profissionalismo. Merecendo assim, um lugar dentre os shows mais excepcionais do ano em Curitiba.


Texto: Paula Butter 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda  





Michale Graves – setlist:

Abominable Dr. Phibes

American Psycho

Speak of the Devil

Walk Among Us

From Hell They Came

Dig Up Her Bones

Last Caress

Lost in Space

Shining

Crimson Ghost

Dust to Dust

Punk Rock Is Dead

Where Eagles Dare

Forbidden Zone

Scream!

Saturday Night

Descending Angel

Hunting Humans

Resurrection

Pumpkin Head

Skulls

Fiend Club

When We Were Angels

Don't Open 'Til Doomsday

Bis 

Halloween

Hybrid Moments

Helena

War Pigs (Black Sabbath cover)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Cobertura de Show – Michale Graves + Furia Ic. – 03/12/2022 – Carioca Club/SP


Depois de 3 anos da sua última vinda, Michale Graves, ex-vocalista da banda de horror/punk Misfits, retornou (no último sábado, 03/12), ao Carioca Club, em SP, para mais uma perna da sua bem-sucedida turnê American Monster II, que faz referência aos discos “American Psycho” (1997) e “Famous Monsters” (1999) – discos que, até hoje, são verdadeiras obras-primas do Punk Rock e da história dos americanos de Nova Jersei. 

Não é de se surpreender que São Paulo é a principal rota de shows internacionais aqui no Brasil por ter as melhores casas e a maior gama de público do Brasil, porém, justo nesse dia, fomos surpreendidos com 3 shows de grandes bandas: The Exploited (Hangar 110), Lucifer (Fabrique Club) e, claro, Michale Graves. E com contatos com colegas de imprensa, todos eles tiveram ótima média de público, mas foi difícil ter que escolher somente um pra ir. 

Sem muita espera, os paulistanos do Furia Inc. se encarregaram de esquentar os motores com o seu Heavy Metal moderno conforme horário combinado, 17h40. Com bastante rodagem e realizações nos 12 anos de atividade, a banda – liderada pelos irmãos Neto (bateria) e Gustavo Romão (guitarra) – ganhou sangue novo com o novo vocalista, Ber Aghazarm, que tinha na titularidade Victor Cutrale – completa a formação o baixista Fish Nothing. 
Não abalados com, até então, baixa presença de público (que merecia muito mais pelo ótimo trabalho que fazem), o quarteto surpreendeu todos com músicas dos dois últimos álbuns, que começou o show com a intrínseca “The Endless Void” e da Thrash/Death Metal, “Crash”, do ‘debut’ álbum “Murder Nature”.

Felizes por estar abrindo para o Michale Graves, logo mandaram o novo single Reborn (até então única faixa que tem Aghazarm nos vocais) para evidenciar o novo momento da banda. Já que a noite seria de muito Punk Rock, a banda mandou um medley matador de clássicos do gênero que levantou o astral de todos com “American Jesus” (Bad Religion), “God Save The Queen” (Sex Pistols) e “Poison Heart” (Ramones), que teve a participação do guitarrista do Laboratori, Rogerio Wecko. 

O restante do set abrangeu mais momentos da curta discografia da banda, trazendo ainda mais ardência com as pesadas “Pitchblack Downfall” e “The Cage”, donas de riffs grudentos de pura impetuosidade. A última citada teve um apagão sonoro no seu decorrer, mas que não demorou para restabelecer tudo e retomar de onde parou. “Light The Fire” (outra que possui riffs fortes) e a derradeira “Slaves to the Blood” carregou a vitalidade de todos para o que viria a seguir.

Este foi meu terceiro show do Furia Inc. e, mais uma vez, tenho que tirar o chapéu para esses caras, pois ao vivo eles sempre entregam uma apresentação animalesca.

A banda acertou na escolha de Aghazarm, que a todo momento mostrou energia e forte interação com o público, além de possuir (olhando de longe) uma certa semelhança com Björn Strid (vocalista do Soilwork, The Night Flight Orchestra). Sem querer puxar saco, não posso deixar de elogiar a linda camiseta do time que o Neto Romão estava usando. Quem me conhece vai saber do que estou falando... 

Previsto para as 19hrs, a entrada do Michale Graves ocasionou um atraso de quase uma hora. O acontecimento de 2019, que não vale a pena ficar relembrando, pairou na cabeça de muita gente nessa hora... Pra amenizar a espera e a ansiedade, o grande DJ das noites paulistanas, Edu Rox (Lokaos Rock Show, Skulls Talk Show), embalou a festa com grandes hits do Punk, Heavy Metal e até do Hard Rock, indo de Turbonegro, The Stooges e Dead Kennedys à Pantera, Hatebreed e Guns N’ Roses (que novidade da parte dele, não é mesmo?). 

A Hora da Festa do Horror Punk

Cortinas abertas, Justin Parks (guitarra), Ricardo “Ritchie” Vazquez (baixo) e Tito Rojas (bateria) logo executaram as primeiras notas da medonha intro, Abominable Dr. Phibes, para que o dono da festa – trajado de uma camisa de força e estilizado com sua amedrontante maquiagem – entrasse em cena para que a roda descomunal e o caos sonoro estabelecessem a noite com uma trinca pra lá de infernal com “American Psycho”, “Speak Of The Devil” e “Walk Among Us”. 


Nesse primeiro ato, com “American Psycho” tocado na integra, mostrou o quão brutal as músicas desta pérola se portam ao vivo. O vigor e o alento emanado das músicas (substantivos que se alastraram ainda mais em “The Hunger”) também culminaram na fauce do público, que não parava de cantar um segundo a cada música que vinha, principalmente aquelas que tem o tradicional ‘oh, oh, oh’. “Dig Up Her Bones”, maior sucesso da carreira da banda, é a melhor definição e clareza desse argumento.


Outro ponto forte da apresentação são os notáveis ‘stage diving’ e a ida dos fãs ao palco para poder tentar cumprimentar, dar um abraço e até mesmo tirar uma rápida foto com o Graves tendo os seguranças sempre por perto para que nenhum imprevisto acontecesse com o vocalista. Afinal, toda segurança é importante nessa hora – momentos esses que foram bem representados em “Resurrection” e “This Island Earth”. 


Que o carisma do Graves é de uma tremenda castiça todo mundo sabe, mas ele também gosta de contar histórias, relembrar de momentos difíceis que passou na vida, vigiar as maldades que andam acontecendo no mundo e de sempre estar caindo e se levantando (que nem acontece nos ‘moshs’) para não desistir e seguir em frente. O mais engraçado foi ele permitindo os seguranças a encher o tanque dos que estavam comprimidos no palco com diversos tipos de bebida.


Muitas garotas também estavam espremidas na frente do palco. Preocupado ele quis saber se todas estavam bem, oferecendo água e entre outras coisas; e quem estava acompanhada de um cara, namorado ou marido, pediu para cuidar bem delas igual ele cuida da Lindsey, que deve ser namorada ou esposa dele. Esse carinho pelas meninas foi mostrado em “Day Of The Dead”, onde ele fez questão de estar abraçado com uma garota na parte final e mais climática da música. 


O arrepiante ‘oh, oh, oh’ tomou conta novamente quando chegou a vez de “The Hauting”, que daí em diante, até encerrar o ciclo de “American Psycho” com “Don’t Open ‘Till Doomsday”, a galera (com presença significativa na pista) não se reprimia em vocalizar cada verso e de estar envolta na temida roda, que cada vez mais se alargava conforme ia passando o show.
Acho que se estivesse na pista, até arriscaria em adentrar nela, porém acabei assistindo ao show no camarote e o meu físico não está em dia para eu cometer esse risco. Quem sabem numa próxima... 


Era chegada a hora de despojar as pérolas contidas em “Famous Monster”. O calor, que já foi estrondoso no set anterior, fervilhou quando começou a sequência com as emblemáticas “Kong at the Gates”, “Forbidden Zero”, “Lost in Space” e “Dust To Dust”. O agito e a recepção dela foi tão surpreendente que parecia que o show estava só começando.

Assim como foi no primeiro ato, Graves não deixava de interagir e conversar com todo mundo. Não muito contente de assumir todo seu poder sozinho, ele fez questão de compartilhar sua força com todos antes de tanger a vibrante “Scream”, que proporcionou o momento mais lindo (como ele mesmo disse) e emocionante da noite ao ver todos antecipando o começo dela com o costumeiro ‘oh, oh, oh’. 


O amor pairou no ar quando chegou a vez de “Saturday Night”, e segundo fontes, vários casais começaram a namorar ao som dessa música. Não restam dúvidas que alguns deles estavam no show para testemunhar isso. A pancadaria logo voltou à tona com “Pumpkin Head” até “Helena” – essa última encerrando a noite de forma apoteótica. O show, que bateu 2h30, e teve que ser encerrado meio que as predsas para não atrasar a programação normal do Carioca Club, tanto que o Graves saiu sem se despedir de todo mundo.

Indescritível em poder apreciar todos esses clássicos, que com certeza não só eu (como outras pessoas) fizeram a escolha certa em estar presentes neste verdadeiro caos enquanto outros shows estavam acontecendo ao mesmo tempo. Mesmo quem não é muito familiarizado com as músicas do Misfits, vale a pena a experiência de sentir a energia matadora que Michael Graves coloca nos seus shows. 

Texto: Gabriel Arruda | Instagram @gabrielarruda07

Edição/Revisão: Carlos Garcia | Instagram @cacogarciaroadtometal 

Fotos: André Tedim | Instagram @andretedimphotography

Produção: Dark Dimensions

Assessoria de Imprensa: JZ Press 

Agradecimentos: Johnny Z (Metal na Lata, por ceder as fotos) e Luana Beco (Lu Beco Artes, pelas traduções) 

Furia Inc. 


Raw / The Endless Void

Crash

Reborn

American Jesus (Bad Relegion) / God Save The Queen (Sex Pistols) / Poison Heart (Ramones)

Pitchblack Fall

The Cage 

Light The Fire

Slaves To The Blood



Michale Graves


American Psycho

Abominable Dr. Phibes (instrumental)
American Psycho
Speak of the Devil
Walk Among Us
The Hunger
From Hell They Came
Dig Up Her Bones
Blacklight
Resurrection
This Island Earth
Crimson Ghost
Day of the Dead
The Haunting
Mars Attacks
Hate The Living, Love The Dead
Shining
Don’t Open ‘Til Doomsday
Hell Night


Famous Monster

Kong at the Gates (instrumental)
The Forbidden Zone
Lost in Space
Dust to Dust
Crawling Eye
Witch Hunt
Scream!
Saturday Night
Pumpkin Head
Scarecrow Man
Die Monster Die
Living Hell
Descending Angel
Them!
Fiend Club
Hunting Humans
Helena
Kong Unleashed (instrumental)