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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Cobertura de Show: Sanctuary – 30/08/2026 – Burning House/SP

Quando uma banda de metal dos anos 80 pisa no Brasil pela primeira vez, o evento pode ser considerado um marco histórico para o público que conseguiu presenciar aquele acontecimento. Foi isso que aconteceu no Burning House com a colaboração da Dark Dimensions ao trazer pela primeira vez o Sanctuary, lotando a casa e proporcionou uma noite memorável para os fãs após 40 anos de espera.

Não teve banda de abertura, mas poderiam ter encaixado alguém do underground como aconteceu em outros; sendo assim, o foco ficou voltado totalmente para o quinteto e o vocalista Joseph Michael (primo de Ronnie James Dio) que assumiu a difícil missão de substituir Warrel Dane (vocalista fundador falecido em 2017), foi essencial para celebrar toda atenção na continuidade consagrada da banda para quase uma geração inteira que acompanhava os clipes na falecida MTV nos anos 90 entre os discos Refuge Denied (1987) e Into the Mirror Black (1989).

O show abre com problemas na sonorização do microfone em “Arise and Purify” e “Frozen” do terceiro e último disco com Warrel Dane, “The Year The Sun Died (2014), o que não interferiu na performance da banda no palco e logo foi resolvido durante a apresentação. De cara, já se percebia o entusiasmo do palco e público, o som estava excelente vindo dos PAs, as guitarras de Lenny Rutledge – da formação original – e Will Wallner estavam bem pesadas com aquele som cadenciado característico de Heavy/Thrash Metal que a banda executava no passado ficou ainda melhor ao vivo. O baixista e também veterano George Hernandez ficou bem à vontade e impôs o baixo palhetado latente fazendo uma cozinha perfeita com o baterista Dave Budbill. Canhoto, descia o braço com mão pesada, também da formação original e se mostrando em plena forma durante todo o show.

Seguindo com “Die for My Sins”, “Seasons of Destruction” e “Veil of Disguise”, o vocalista Joseph Michael mostrou que não há dúvidas de estar entre um dos melhores vocais da atualidade no compromisso e continuidade na vida sonora do Sanctuary, manteve o timbre e agudos bem difíceis de serem executados ao vivo na afinação original das músicas, distribui carisma, conversou e cumprimentou por várias vezes o público, tomou vinho no palco junto com os integrantes e manteve sua voz com timbre muito parecido com o saudoso Warrel Dane. A expectativa em ouvir os clássicos “Future Tense” e “Taste Revenge” (cantada pelo público do começo ao fim) e “Long Since Dark” conectou todos com algo que vivemos no passado quando escutamos essas músicas pela primeira vez a exaustão com os amigos e cds emprestados (obrigado Luiz por dias memoráveis).


E pra surpresa de todos, um cover de “Breathe”, do Pink Floyd, colocou outro astral na casa mostrando um lado da banda com maestria e olhos atentos a cada detalhe da música e digna de aplau-sos. Momento especial que leva a banda de um extremo ao outro sem perder o respeito com os fãs numa homenagem a um clássico da música global. É algo que falta nas bandas de hoje, tocarem pelo menos um cover de alguém que os representam, que fica na memória e que eleva a qualidade musical de todos os integrantes; ainda embalaram com “White Rabbit”, do Jefferson Airplane.

Fecharam com “Soldiers of Steel” de supressa, mas não estava mais no local pois as luzes e o som mecânico haviam sido ligados sinalizando que havia acabado o show e dezenas de pessoas perderam essa música ao sair.

O Sanctuary deixou um exemplo de várias situações boas ao saímos do show, abre uma nova etapa da sua carreira no Brasil de forma grandiosa e reconhecimento merecido ao logo de todas essas décadas. Parecia que já estiveram aqui por várias vezes da forma como o show foi acontecendo. O memorável Warrel Dane foi lembrado por todos, cantado por todos e com certeza nunca será esquecido, tanto no Sanctuary quanto na carreira grandiosa do Nevermore. Exemplos corajosos assim de levar a continuidade a um legado tão brilhante dão oportunidade para os fãs resgatarem algo que viveram em algum momento de suas vidas, por isso Metal é tão generoso nessa empreitada de continuar a história para novos seguidores, novos ouvintes e novos amantes da música pesada. Tentar continuar é uma lição que o palco mostra para as pessoas que seguir em frente independente das mudanças que aconteceram no caminho, é a decisão mais consciente quando temos. 


Texto: Roberto Bertz



Realização: Dark Dimensions

Press: JZ Press


Sanctuary – setlist:

Arise and Purify

Frozen

Die for My Sins

Seasons of Destruction

Veil of Disguise

Future Tense

Taste Revenge

Long Since Dark

Epitaph

The Mirror Black

Breathe (Pink Floyd cover)

White Rabbit (Jefferson Airplane cover)

Battle Angels

Not of the Living

The Year the Sun Died

Bis

Soldiers of Steel

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Anthrax: Quase Um Ponto Final (Also In English)

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Flavio Borges
 

Dez anos após For All Kings, o Anthrax retorna com Cursum Perficio, seu 12º álbum de estúdio e um trabalho que chega em um momento particularmente significativo para uma das bandas fundamentais do thrash metal. Gravado a partir de 2022 no Studio 606, de Dave Grohl, em Los Angeles, e produzido por Jay Ruston e pelo próprio Anthrax, o disco representa uma espécie de síntese de tudo o que o quinteto construiu ao longo de sua trajetória.

O título, uma expressão latina que pode ser traduzida como “Minha jornada chegou ao fim”, reflete tanto o longo processo de criação quanto as experiências vividas pela banda, especialmente durante a pandemia. Longe de sugerir uma despedida, Cursum Perficio funciona mais como a conclusão de um ciclo — uma oportunidade para revisitar diferentes momentos da carreira sem transformar o álbum em um exercício de nostalgia.

A introdução instrumental e sinfônica de “Persistence of Memory” prepara o terreno para “The Long Goodbye”, que mergulha imediatamente na sonoridade característica do Anthrax. A bateria agressiva de Charlie Benante, os riffs cortantes de Scott Ian e a segurança de Joey Belladonna nos vocais estabelecem as credenciais do disco, enquanto Jonathan Donais acrescenta solos que ajudam a atualizar uma fórmula que a banda domina há décadas.

Essa capacidade de olhar simultaneamente para passado e presente percorre todo o álbum. 

“It’s For The Kids”, primeiro single, é um thrash old school rápido, agressivo e extremamente melódico, daqueles que parecem ter sido concebidos para incendiar os palcos. Frank Bello também merece destaque pelo trabalho de baixo, particularmente evidente em uma faixa que representa o Anthrax em sua essência.

“Everybody’s Got A Plan”, terceiro single, desloca o eixo para a sonoridade mais moderna desenvolvida pela banda em Worship Music e For All Kings. O thrash visceral dá lugar a uma abordagem mais contemporânea, mas a identidade permanece intacta. É justamente essa alternância que torna Cursum Perficio interessante: cada faixa parece visitar um capítulo diferente da história do Anthrax, sem que o conjunto perca coerência.

O grande salto criativo acontece em “The Edge of Perfection”. Ambiciosa, sombria e surpreendentemente experimental, a faixa combina blast beats, atmosferas que flertam com o black metal e um refrão gigantesco e melódico. Scott Ian chegou a apontá-la como a melhor música já escrita pelo Anthrax — afirmação que pode parecer ousada diante de uma discografia que inclui Among the Living e Persistence of Time, mas que ganha força diante de uma composição que soa simultaneamente familiar e inédita. É o Anthrax fazendo aquilo que sabe fazer, mas de uma maneira que ainda não havia experimentado.

“‘Soa como Anthrax, mas também soa como algo que nunca tínhamos feito antes’”, resumiu Ian. É difícil encontrar definição melhor para a faixa.

“Infectious” mantém o peso, mas introduz uma dose generosa de groove. Belladonna entrega uma interpretação particularmente convincente, enquanto Donais volta a roubar a cena com um solo de tirar o fôlego. É também um dos momentos que melhor demonstram a variedade da primeira metade do álbum: as músicas podem ser diferentes entre si, mas todas carregam uma assinatura imediatamente reconhecível.

“NYC ’93” é outra viagem ao passado, embora de natureza diferente. A faixa funciona como uma cápsula do tempo, revisitando a Nova York de 1990 a 1993, justamente quando o Anthrax atravessava a transição entre Persistence of Time e Sound of White Noise. O crossover, a atitude punk e os vocais coletivos dão personalidade à composição, enquanto a letra assume um caráter quase autobiográfico. Talvez não seja uma das faixas mais impactantes do disco, mas certamente está entre as mais reveladoras.

Então chega a faixa-título, um dos grandes momentos de Cursum Perficio. Menos preocupada com velocidade do que com atmosfera, ela combina peso, melodia e um refrão épico para transformar o próprio título em uma reflexão sobre a trajetória da banda. Aqui, o Anthrax deixa de olhar apenas para sua história como grupo e passa a refletir sobre a jornada pessoal e artística de seus integrantes. É uma composição madura, carregada de significado e que funciona como o coração emocional do álbum.

A reta final é um pouco menos consistente.  “T.O.M.B. (Target On My Back)” é uma das faixas mais convencionais do disco, construída sobre riffs cadenciados e uma abordagem direta. A música demora um pouco para encontrar sua identidade, embora ganhe urgência à medida que avança. Composta originalmente em 2015, carrega ecos da fase Sound of White Noise/Stomp 442 e, nesse sentido, funciona como mais uma peça da retrospectiva sonora promovida pelo álbum. Não está entre os grandes momentos, mas ajuda a lembrar que a história do Anthrax vai muito além de seus primeiros anos de thrash.

“Watch It Go” é ainda mais peculiar. Com estrutura rítmica irregular, guitarras pesadas e uma abordagem que flerta com groove e nu metal, é uma faixa que não revela imediatamente todas as suas qualidades. Charlie Benante assume papel central, explorando uma bateria polirrítmica e uma influência de Dimebag Darrell que acrescenta uma dimensão diferente à composição. É provavelmente uma das experiências menos convencionais do álbum e, justamente por isso, uma que cresce com as audições.

E então chegamos a “My Victory”. A escolha não poderia ser mais adequada para fechar o disco. O thrash melódico, os riffs vigorosos e o caráter assumidamente voltado para os palcos devolvem uma última dose de energia, enquanto os vocais coletivos parecem feitos para serem entoados por milhares de fãs. Donais novamente deixa sua marca e, no golpe final, um riff thrash mais tradicional encerra a jornada com uma última lembrança do Anthrax clássico.

É uma conclusão particularmente simbólica. Se Cursum Perficio representa a conclusão da jornada, “My Victory” representa a celebração de ter chegado até aqui.

No fim das contas, Cursum Perficio não precisa competir com Among the Living, Persistence of Time ou qualquer outro clássico do passado — e talvez seu maior mérito esteja justamente em não tentar fazê-lo. O Anthrax revisita sua própria história, passeia pelo thrash dos anos 1980, reencontra a sonoridade mais pesada e alternativa dos anos 1990 e incorpora elementos que mostram uma banda ainda disposta a experimentar.

Aos 45 anos de carreira, o Anthrax não olha para trás para descobrir quem foi. Olha para trás para lembrar quem é — e, mais importante, para descobrir até onde ainda pode chegar. Cursum Perficio é, portanto, menos um ponto final do que a conclusão de um capítulo. Uma vitória, sim. Mas, para uma banda que continua tocando como se ainda tivesse algo a provar, certamente não a última.

***ENGLISH VERSION***

Ten years on from For All Kings, Anthrax return with Cursum Perficio, their 12th studio album and a record that finds one of thrash metal’s founding acts taking stock without getting trapped in its own past. Recorded between 2022 and 2025 at Dave Grohl’s Studio 606 in Los Angeles and produced by Jay Ruston alongside the band, it feels less like a trip down memory lane than a summation of everything Anthrax have become over the past four-and-a-half decades.

The title — Latin for “My journey has come to an end” — is an appropriately loaded choice. The album’s long gestation, shaped in part by the upheaval of the pandemic, gives the phrase added weight. Yet there is no sense of farewell here. Instead, Cursum Perficio feels like the closing of a chapter: a chance to look back across Anthrax’s history, revisit some of its defining sounds and still leave the door open to whatever comes next.

“Persistence of Memory”, a brief instrumental with a symphonic feel, provides the overture before “The Long Goodbye” kicks the album into gear. Charlie Benante’s ferocious drumming, Joey Belladonna’s commanding vocals and Scott Ian’s unmistakable riffing immediately put the Anthrax stamp on proceedings, while Jonathan Donais supplies the kind of sharp, melodic soloing that keeps the formula sounding contemporary rather than merely familiar.

That balance between past and present runs through the record. “It’s For The Kids”, the first single, is a full-throttle blast of old-school thrash, fast, aggressive and melodic in equal measure, with the sort of instant impact that should make it a natural live favourite. Frank Bello’s bass work is particularly prominent, adding extra muscle to a track that captures Anthrax in their most direct and recognisable form.

“Everybody’s Got A Plan” takes a different route, leaning towards the more contemporary approach the band developed on Worship Music and For All Kings. The attack is less rooted in classic thrash, but the identity remains unmistakably Anthrax. It is this ability to move between eras without sounding fragmented that gives Cursum Perficio much of its character.

The album’s most intriguing leap, however, comes with “The Edge of Perfection”. Dark, ambitious and genuinely adventurous, it combines blast-beat intensity with passages that flirt with black-metal atmospherics before exploding into a huge melodic chorus. Scott Ian has gone so far as to describe it as the greatest song Anthrax have ever written — quite a claim from a guitarist whose catalogue includes Among The Living and Persistence of Time. Yet the song goes some way towards justifying the boast.

It sounds unmistakably like Anthrax while simultaneously sounding like something they have never quite attempted before. That is a difficult trick for any veteran band to pull off, let alone one with 45 years of history behind it. Here, they manage it convincingly.

“Infectious” keeps the heaviness intact but introduces a stronger groove, with Belladonna delivering another assured vocal performance and Donais once again making his presence felt with a blistering solo. More importantly, it reinforces one of the album’s central strengths: the songs may explore very different territory, but they remain tied together by an unmistakable Anthrax identity.

“NYC ’93” heads back into the past, but not simply for nostalgia’s sake. The song functions as a musical time capsule, revisiting New York between 1990 and 1993, when Anthrax were moving from the Persistence of Time era towards the more experimental terrain of Sound of White Noise. Crossover energy, punk attitude and gang vocals give it a distinctly street-level feel, while the autobiographical edge makes it one of the album’s more personal moments. It may not be the biggest musical statement here, but it offers a revealing glimpse into the world that shaped the band.

The title track is where the album’s broader themes come fully into focus. Rather than relying on sheer speed, “Cursum Perficio” builds its impact through atmosphere, weight, melody and an expansive chorus. The title becomes a meditation on the road travelled by Anthrax and, more importantly, by the people inside the band. There is a maturity to the song that makes it the emotional centrepiece of the record. This is not Anthrax attempting to recreate the 1980s; it is Anthrax reflecting on what those years — and everything that followed — have meant.
The closing run is somewhat less consistent.

“T.O.M.B. (Target On My Back)” is one of the album’s more straightforward compositions, built around measured riffs and a direct, muscular approach. It takes a little while to gather momentum, but gradually develops a greater sense of urgency. Originally written in 2015, it carries clear echoes of the Sound of White Noise and Stomp 442 period, making it another piece of the retrospective puzzle. It may not rank among the record’s strongest cuts, but its inclusion makes sense within the album’s wider journey through Anthrax’s catalogue.

“Watch It Go” ventures further off the beaten track. Its irregular rhythmic structure, heavy guitar work and groove-driven attack occasionally stray towards nu-metal territory, making it one of the record’s less immediately accessible moments. Charlie Benante is the key figure here, employing polyrhythmic patterns and bringing an unmistakable Dimebag Darrell influence into the mix. It is an unusual direction for Anthrax, and one that takes a few spins to fully appreciate — but its strengths become increasingly apparent with repeated listens.

Then comes “My Victory”, an almost tailor-made finale. Melodic thrash, muscular riffs and a distinctly live-oriented feel provide one final surge of energy, while the gang vocals practically demand to be shouted back by a festival crowd. Donais delivers another strong solo, before the closing riff returns to more traditional thrash territory and brings the album full circle.
It is a fittingly symbolic ending. If Cursum Perficio represents the completion of a journey, “My Victory” is the celebration of having made it this far.

Ultimately, Cursum Perficio does not need to compete with Among The Living, Persistence of Time or any of Anthrax’s other acknowledged classics — and its greatest strength may be that it never attempts to. Instead, the band revisit their own history on their own terms, moving from the ferocity of 1980s thrash through the heavier, more alternative sounds of the 1990s and into the more adventurous territory of their later work.

After 45 years, Anthrax are not looking backwards to discover who they once were. They are looking back to remind themselves — and us — of who they are, while asking how much further they can still go.

Cursum Perficio is therefore less a full stop than the end of a chapter. It is a record about survival, identity and perspective. A victory, certainly. But for a band that still sounds as though it has something left to prove, it is most definitely not the end of the story.

Travis Shinn


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Heavens Edge: A Tempestade Continua (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Formado na Filadélfia no início dos anos 1980, o HEAVENS EDGE retorna com Philadelphia, seu novo álbum e uma celebração de quatro décadas de trajetória. Depois do elogiado Get It Right, a banda combina o DNA do hard rock americano clássico com uma abordagem mais contemporânea, explorando uma variedade musical maior sem abrir mão de grandes refrãos, melodias marcantes e atitude. Philadelphia soa como a afirmação de uma banda que reencontrou seu impulso criativo e ainda tem muito a dizer.

Após a introdução instrumental de The Tempest, que evoca literalmente uma tempestade antes de desembocar em um belo solo de Reggie Wu, chegam os primeiros acordes de LFG. A influência de Van Halen é perceptível no trabalho de guitarra, enquanto a entrada abrupta, sem uma transição convencional a partir da introdução, pode surpreender o ouvinte. É, contudo, uma escolha que rapidamente se justifica: o que temos aqui é hard rock clássico em sua forma mais eficiente, sustentado por um refrão imediato e daqueles feitos para ganhar força diante de uma plateia. Wu desfila pela música com precisão, deixando espaço para uma cozinha afiada, antes de encerrar com outro solo de grande qualidade.

You're Mine Tonight mantém o álbum firmemente ancorado no hard rock, mas adota uma abordagem mais direta. Os numerosos coros e backing vocals ampliam a dimensão melódica, enquanto Mark Evans entrega uma interpretação segura e perfeitamente integrada à composição. O instrumental é preciso, especialmente nas mudanças de ritmo, e ganha novas camadas à medida que a música avança. É um primeiro sinal de que Philadelphia não pretende simplesmente reproduzir o passado: há uma preocupação evidente em acrescentar textura e dinamismo às estruturas tradicionais.

O primeiro single, What's He Got, talvez seja a expressão mais imediata dessa filosofia. Com andamento cadenciado e absolutamente familiar ao gênero, a música coloca a voz de Evans no centro da melodia, enquanto os backing vocals criam a tensão necessária para conduzir o ouvinte ao refrão. Cativante sem ser excessivamente calculada, é fácil entender por que foi escolhida como cartão de visitas do álbum. Até o solo mantém essa abordagem essencialmente melódica, reforçando a sensação de que o HEAVENS EDGE sabe exatamente onde quer chegar.

Com claras referências ao Bon Jovi da era New Jersey, Definite Maybe surge como outra forte candidata a favorita dos fãs. As variações de guitarra, a linha vocal melódica de Evans e os coros cuidadosamente posicionados desembocam em mais um refrão feito para ser cantado em conjunto. A cadência favorece os arranjos vocais e reforça aquela combinação de acessibilidade e peso que definiu boa parte do hard rock oitentista. É o tipo de composição que os fãs do HEAVENS EDGE esperam — e provavelmente não reclamarão de receber.

Uma delicada introdução de piano e voz abre Wrong Or Right, antes que a música mergulhe no território clássico das power ballads. Baixo, bateria e guitarras limpas estabelecem a base, enquanto a guitarra solo e o piano percorrem a composição lado a lado. Mais uma vez, porém, são os vocais e os backing vocals que assumem o protagonismo. O solo, com suas dobras bem construídas, acrescenta personalidade a uma fórmula conhecida. Não há aqui qualquer tentativa de reinventar a power ballad, mas todos os elementos essenciais estão presentes — e funcionam.

Why Can't This Be Love introduz uma das facetas mais interessantes do álbum. A batida é tradicional, mas os timbres de bateria e os efeitos aplicados à voz conferem uma aparência contemporânea à produção. As guitarras, em grande parte sem distorção, também contribuem para essa sensação. O mérito está justamente em conseguir atualizar elementos familiares sem descaracterizar a identidade da banda. O refrão melódico e os backing vocals reforçam a vocação pop do HEAVENS EDGE, enquanto novas texturas impedem que a música soe como mera repetição de uma fórmula antiga.

De volta a uma abordagem mais clássica, Young Hearts começa com baixo e bateria em primeiro plano e acelera o ritmo do álbum. Continua sendo inequivocamente hard rock, mas os efeitos discretos sobre a voz principal acrescentam um toque moderno à produção. A composição é direta, sem excessos, e o baixo ganha espaço particularmente interessante durante os versos, construindo uma base sólida para os demais instrumentos. É mais um exemplo de como o HEAVENS EDGE consegue preservar sua linguagem tradicional enquanto adiciona pequenas doses de novidade.

Seguindo por uma linha mais próxima do Aerosmith — uma das influências evidentes da banda — I'll Be Just Fine (Without You) aposta em um groove envolvente. No refrão, a música se transforma em uma composição extremamente melódica e fácil de memorizar, com os backing vocals desempenhando papel fundamental. Como acontece em boa parte de Philadelphia, a música não existe isoladamente: ela acrescenta uma nova cor ao álbum e ajuda a ampliar sua variedade sem romper a unidade do conjunto.

A acústica I Wish You Would aprofunda ainda mais essa diversidade. A bela interpretação vocal de Mark Evans é acompanhada por backing vocals e arranjos de cordas que criam uma atmosfera inédita dentro do disco. Instrumentos acústicos de corda e percussão substituem a habitual parede de guitarras, permitindo que a composição respire de maneira diferente. O resultado acrescenta não apenas variedade, mas também uma camada adicional de textura e complexidade ao álbum.

Fechando o disco, No Way Out reúne boa parte dos elementos apresentados ao longo de Philadelphia. É uma combinação equilibrada entre o clássico e o moderno: timbres e escolhas de composição mais contemporâneos convivem com uma identidade que permanece inconfundivelmente ligada ao hard rock tradicional. Vocais e guitarras continuam no centro das atenções, enquanto o baixo ganha novamente destaque na base e os backing vocals ajudam a construir outro refrão de fácil assimilação.

No fim, Philadelphia entrega exatamente o tipo de álbum que se espera de uma banda com a história do HEAVENS EDGE, mas evita ficar preso ao passado. O equilíbrio entre estruturas clássicas e escolhas mais contemporâneas é provavelmente sua maior virtude. Cada composição acrescenta alguma coisa ao conjunto, seja através de novas texturas, diferentes abordagens vocais ou pequenas mudanças de dinâmica, fazendo com que o álbum soe mais variado e elaborado do que uma simples celebração de suas raízes.

É um trabalho que deve agradar especialmente aos fãs da banda, mas que também mostra um HEAVENS EDGE confortável o suficiente com sua própria identidade para experimentar sem perder o rumo. E há uma pequena ironia na maneira como tudo termina: depois de toda essa viagem por diferentes facetas do hard rock, Philadelphia retorna aos sons de chuva que abriram The Tempest. Um detalhe simples, mas que fecha o álbum como um círculo — e confirma que, quatro décadas depois, o HEAVENS EDGE ainda sabe onde começa e termina sua tempestade.


***ENGLISH VERSION***

Formed in Philadelphia in the early 1980s, HEAVENS EDGE return with Philadelphia, their new album and a celebration of four decades together. Following the acclaimed Get It Right, the band combines the DNA of classic American hard rock with a more contemporary approach, exploring a broader musical palette without sacrificing big choruses, memorable melodies and attitude. Philadelphia sounds like the statement of a band that has rediscovered its creative momentum and still has plenty to say.

Following the instrumental introduction of The Tempest, which literally evokes a storm before giving way to a beautiful Reggie Wu guitar solo, the opening chords of LFG arrive. The Van Halen influence is noticeable in the guitar work, while the abrupt entrance, with no conventional transition from the intro, may catch some listeners off guard. It is, however, a choice that quickly makes sense: this is classic hard rock at its most effective, driven by an immediate chorus that seems tailor-made to gain even more power in a live setting. Wu tears through the track with precision, leaving plenty of room for a razor-sharp rhythm section before closing with another excellent solo.

You're Mine Tonight keeps the album firmly rooted in hard rock but takes a more direct approach. The numerous harmonies and backing vocals broaden its melodic dimension, while Mark Evans delivers a confident performance that fits the composition perfectly. The instrumental work is precise, particularly in the rhythmic shifts, and gains new layers as the song progresses. It is an early indication that Philadelphia is not simply interested in recreating the past: there is a clear effort to add texture and dynamism to traditional structures.

The first single, What's He Got, may be the most immediate expression of this philosophy. With a steady, unmistakably genre-friendly groove, the song places Evans' voice at the heart of the melody, while the backing vocals create the tension needed to lead the listener into the chorus. Catchy without sounding overly calculated, it is easy to understand why it was chosen as the album's calling card. Even the guitar solo follows this essentially melodic approach, reinforcing the feeling that HEAVENS EDGE know exactly where they want to go.

With clear references to Bon Jovi's New Jersey era, Definite Maybe emerges as another strong candidate for fan favorite. The guitar variations, Evans' melodic vocal line and carefully placed harmonies lead into yet another chorus designed to be sung along to. The song's pace works perfectly with the vocal arrangements, reinforcing that combination of accessibility and weight that defined much of '80s hard rock. It is precisely the kind of song HEAVENS EDGE fans expect — and will probably be more than happy to get.

A delicate piano-and-vocal introduction opens Wrong Or Right before the song moves into the classic territory of the power ballad. Bass, drums and clean guitars establish the foundation, while the lead guitar and piano weave their way through the arrangement. Once again, however, the vocals and backing harmonies take center stage. The solo, with its carefully constructed layered parts, adds personality to a familiar formula. There is no attempt here to reinvent the power ballad, but all the essential ingredients are present — and they work.

Why Can't This Be Love introduces one of the album's most interesting facets. The beat is traditional, but the drum tones and vocal effects give the production a contemporary edge. The largely clean guitars contribute to the same feeling. The real achievement lies in the band's ability to update familiar elements without compromising its identity. The melodic chorus and backing vocals reinforce HEAVENS EDGE's pop sensibility, while the added textures prevent the song from sounding like a mere repetition of an old formula.

Returning to a more classic approach, Young Hearts begins with bass and drums front and center, picking up the pace after the preceding tracks. It remains unmistakably hard rock, but subtle effects on the lead vocal add a modern touch to the production. The composition is direct and free of unnecessary embellishment, while the bass takes on a particularly interesting role during the verses, providing a solid foundation for the other instruments. It is another example of how HEAVENS EDGE can preserve their traditional language while introducing small doses of something new.

Taking a more Aerosmith-influenced direction — one of the band's obvious touchstones — I'll Be Just Fine (Without You) is built around an engaging groove. In the chorus, the song becomes highly melodic and instantly memorable, with the backing vocals playing a key role. As is the case with much of Philadelphia, the track does not exist in isolation: it adds another color to the album and broadens its stylistic range without disrupting the overall cohesion.

The acoustic I Wish You Would deepens that diversity even further. Mark Evans delivers a beautiful vocal performance surrounded by backing vocals and string arrangements that create an atmosphere unlike anything else on the record. Acoustic stringed instruments and percussion replace the band's usual wall of guitars, allowing the composition to breathe in a different way. The result adds not only variety, but another layer of texture and complexity to the album.

Closing the record, No Way Out brings together many of the elements explored throughout Philadelphia. It is a balanced combination of classic and modern: more contemporary tones and songwriting choices coexist with an identity that remains unmistakably rooted in traditional hard rock. Vocals and guitars remain at the center, while the bass once again takes a prominent role in the foundation and the backing vocals help build another highly accessible chorus.

Ultimately, Philadelphia delivers exactly the kind of album one would expect from a band with HEAVENS EDGE's history, while refusing to remain trapped in the past. The balance between classic structures and more contemporary choices is arguably its greatest strength. Each composition adds something to the whole, whether through new textures, different vocal approaches or subtle shifts in dynamics, making the album feel more varied and sophisticated than a simple celebration of the band's roots.

It is a record that should particularly appeal to longtime fans, but it also shows a HEAVENS EDGE comfortable enough with their own identity to experiment without losing their way. And there is a small touch of irony in the way it all ends: after this journey through the different facets of hard rock, Philadelphia returns to the sound of rain that opened The Tempest. A simple detail, but one that brings the album full circle — and confirms that, four decades on, HEAVENS EDGE still know exactly where their storm begins and ends.

Alex Cihanowic

domingo, 16 de agosto de 2026

Forbidden: Dualidade e Continuidade na História do Thrash Bay Area (Also In English)

BLKIIBLK (Imp.)

Por Roberto Bertz

Após dois ótimos singles lançados em 2025, o Forbidden já sinalizava um disco completo, apontava que o álbum já estava pronto nesse período e começaram uma forte turnê 2025/2026 para apresentar essas músicas ao público algo novo até que pudessem lançar um full length neste ano. 

O disco é auto entitulado, são 11 faixas no total após de 16 anos do último álbum completo, “Omega Wave” de 2010, um distanciamento de 13 anos de seu antecessor  “Green” de 1997 . Talvez seja uma estratégia da banda demorar mais tempo para lançar algo e alcançar novas experiências, experimentações e colocar o público antigo com o atual nas composições, como é o caso novamente deste que está prestes a ser lançado. A começar pela ótima capa chamativa, sempre duas cores bem destacadas e logotipo clássico, trouxe aquela temática da referência na dualidade em forças opostas. 

Entrando no álbum, o Forbbiden faz jus ao DNA da banda que é começar bem o disco e abrir na pancada; “Single Point Failure” evoca a principal característica dos caras na execução do Thrash Metal no contratempo, ponto principal na composição nos anos oitenta marcado pela bateria de Paul Bostaph, hoje, assegurado por Chris Kontos aos 58 anos. O som se mantém até o final no modo “feito na escola” com riffs bem construídos, solos e técnica apurada do antológico Craig Locicero, juntamente ao novo guitarrista Jeremy Von Epp e o baixo do também veterano Matt Camacho dobrando tudo. Os vocais de Norman Skinner, já expondo o disco como todo, sobem o nível numa técnica do agressivo ao melódico, remetendo o passado quando necessário e explorando outras linhas mais agudas levando o som pra outros caminhos. Seguindo, “Burning The Lungs of Earth” continua no mesmo tom; os singles “Divided By Zero” e “Mutually Assured Dys-function” estão muito bem no disco intercaladas entre a sequência das músicas, bem posicionadas no álbum para o ouvinte ter a sensação sempre pulsante, escolhidas como carro-chefe da divulgação são pontos altos entre as melhores. Destaque também para “Psyclops” com clipe de divulgação, “Sycophantasy”, “The Burden” e fecham com a extensa  “Flower of Life (Chaos By Design)” de nove minutos.

A postura do Forbbiden de trazer novos elementos, talvez não agrade totalmente o fã das antigas, mesmo algumas músicas lembrando aquela fase espetacular dos primeiros discos. Por terem uma discografia com poucos álbuns na carreira e espaçamentos com mais de 10 anos entre eles é inquestionável a evolução por parte do processo dos músicos. A dualidade da capa justificam as músicas, fazer uma passagem do passado para o  presente e o que está por vir, sem perder a essência. Ter um disco novo em 2026 de uma banda clássica que atravessa dois séculos como Forbidden é uma vitória na história do Metal global; trazer novo público sem perder o antigo, formar novas bandas, continuarem tocando de forma hipnotizante pra darem continuidade nesse legado vem deixando ao longo dos anos. 


***ENGLISH VERSION***

After two great singles released in 2025, Forbidden had already signaled that a full-length album was on the way. The band indicated that the album was already completed by that time and embarked on a strong 2025/2026 tour to introduce these new songs to the audience, until they could finally release a full-length album this year.

The album is self-titled and features 11 tracks, arriving 16 years after the band's last full-length, Omega Wave (2010), and following a 13-year gap from its predecessor, Green (1997). Perhaps taking longer to release new material is the band's strategy for gaining new experiences, exploring different ideas, and bringing the old and current audiences together through the compositions, as is once again the case with this upcoming release. It starts with a striking cover, featuring two strongly contrasting colors and the classic logo, bringing back the theme of duality and the idea of opposing forces.

Moving into the album itself, Forbidden lives up to the band's DNA of starting strong and hitting hard from the very beginning. “Single Point Failure” evokes one of the band's main characteristics: their execution of Thrash Metal through off-beat rhythms, a key element of their songwriting in the eighties, marked by Paul Bostaph's drumming and now carried by 58-year-old Chris Kontos. The sound remains true to the end, following a classic “old-school” approach with well-crafted riffs, solos, and the refined technique of legendary guitarist Craig Locicero, alongside new guitarist Jeremy Von Epp and veteran bassist Matt Camacho, who doubles everything up. Norman Skinner's vocals, already standing out throughout the album, take things to another level, ranging from aggressive to melodic, recalling the band's past when necessary while exploring higher vocal lines and taking the sound in new directions.

Next, “Burning The Lungs of Earth” continues in the same vein. The singles “Divided By Zero” and “Mutually Assured Dysfunction” fit very well into the album, strategically placed throughout the tracklist to keep the listener's experience constantly pulsating. Chosen as the main tracks for the promotional campaign, they are among the album's highlights. Other standouts include “Psyclops”, which also received a promotional video, “Sycophantasy”, “The Burden” and the extended nine minute closer, “Flower of Life (Chaos By Design)”.

Forbidden willingness to introduce new elements may not fully satisfy longtime fans, even though some songs recall the spectacular early years of the band. Given their relatively small discography and the gaps of more than 10 years between albums, the band's musical evolution is undeniable. The duality represented on the cover reflects the music itself: a transition from the past to the present and what lies ahead, without losing its essence.

Having a new album from a classic band like Forbidden in 2026, a band whose history spans two centuries, is a victory for the global history of Metal. Bringing in a new audience without losing the old one, inspiring new bands, and continuing to perform in such a hypnotic way are all part of the legacy Forbidden has been building and carrying forward over the years.

Phil Emmerson

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Madball: Fiel Às Origens

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Quase quatro décadas depois de surgir nas ruas de Nova York, o Madball continua provando que autenticidade pesa mais do que reinvenção. Em Not Your Kingdom, seu décimo álbum de estúdio, a banda entrega um trabalho que honra a tradição do NYHC sem soar presa ao passado.

Por Guilmer Da Costa Silva - @guilmer_metal

Oito anos separaram For the Cause (2018) de Not Your Kingdom, o maior intervalo entre dois discos da carreira do Madball. Nesse período, muita coisa mudou: o hardcore ganhou novas tendências, o metalcore se aproximou ainda mais do metal extremo e a própria banda passou por mudanças importantes, principalmente com a saída do baixista Jorge "Hoya Roc" Guerra. Ainda assim, Freddy Cricien e seus companheiros optam por seguir um caminho diferente do de muitos veteranos: não tentam modernizar sua identidade, mas refiná-la.

O resultado é um disco de pouco mais de trinta minutos que equilibra agressividade, groove, melodias pontuais e uma produção robusta, sem perder a essência construída desde clássicos como Set It Off (1994) e Demonstrating My Style (1996).

A abertura com "Tethered" deixa isso evidente desde os primeiros segundos. Os riffs carregados de groove, a bateria pulsante e a interpretação sempre intensa de Freddy Cricien funcionam como uma declaração de intenções: o Madball continua sendo o Madball. Logo em seguida, "Flammable" reduz tudo à essência do hardcore, explodindo em menos de um minuto com velocidade, agressividade e um breakdown que certamente encontrará seu lugar nos shows.

O primeiro momento de respiro chega com "Rebelude". O breve interlúdio, de atmosfera quase dub, quebra a sequência de pancadas sem parecer deslocado e prepara o terreno para "Rebel Kids", provavelmente a música mais emblemática do disco. Lançada como primeiro single, ela sintetiza boa parte da proposta do álbum. O refrão foi claramente concebido para ser cantado em coro, enquanto a letra recupera o espírito inconformista que sempre definiu o hardcore. Em uma época em que parte da cena parece cada vez mais preocupada em seguir tendências, Freddy relembra que o gênero nasceu justamente da contestação. 

A partir daí, o disco alterna momentos de violência absoluta com pequenas variações que enriquecem a audição. "Don't Misstep" acelera novamente com riffs de forte influência metálica e uma bateria devastadora, mostrando que a produção moderna acrescenta peso sem diluir a essência da banda. Já "What Say You", cuja temática dialoga diretamente com o título do álbum, aposta em um andamento mais cadenciado, privilegiando o groove e a construção dos riffs. É uma das composições mais marcantes do trabalho e evidencia o quanto o Madball domina a dinâmica entre peso e controle.

Essa aproximação com o metal aparece de forma ainda mais evidente em "Stab Wounds", impulsionada pelas guitarras de Mike Gurnari e pela sólida estreia de Paul Delaney no baixo. A nova cozinha demonstra enorme entrosamento ao longo de todo o disco, oferecendo uma base consistente para que os riffs ganhem ainda mais impacto. Em seguida, "Sunrise" surge como mais um breve interlúdio atmosférico, reorganizando o ritmo do álbum antes de uma sequência em que o lado mais melódico do Madball ganha espaço.

"Life's a Mural" mostra que groove e refrões fortes podem conviver naturalmente dentro do hardcore nova-iorquino. A música preserva toda a energia característica da banda, mas abre espaço para linhas vocais mais acessíveis, algo que também acontece em "The Ride", uma das faixas mais cativantes do repertório. Sem abandonar a agressividade, ambas revelam um Madball confortável em explorar melodias sem comprometer sua credibilidade. 

No centro emocional do disco está "Family First". Mais do que uma música, ela funciona como uma reafirmação dos valores que moldaram toda a cena hardcore de Nova York. A alternância entre passagens cadenciadas e explosões de velocidade reforça a mensagem de união, lealdade e responsabilidade que acompanha o grupo desde seus primeiros trabalhos. É impossível ouvir a faixa sem lembrar da influência de nomes como Agnostic Front, Cro-Mags, Sick of It All e Biohazard na construção dessa filosofia.

A reta final mantém o nível elevado. "Clockwork" retoma a velocidade com riffs secos e breakdowns precisos, enquanto "IWI" surpreende ao iniciar com um breve violão antes de explodir em menos de meio minuto de pura violência, mostrando que até pequenas experimentações encontram espaço quando fazem sentido dentro da proposta do álbum.

O encerramento fica por conta de "Chase a Dream", que foge do formato explosivo predominante e aposta em uma construção gradual. Para os padrões do Madball, trata-se de uma composição quase épica, encerrando o disco com um sentimento de perseverança que dialoga perfeitamente com a trajetória da banda.

Embora Freddy Cricien tenha afirmado que este seja o álbum mais diverso da carreira do Madball, ninguém deve esperar mudanças radicais. A diversidade aparece em detalhes: interlúdios atmosféricos, maior presença de melodias, influências metálicas mais evidentes e uma dinâmica mais trabalhada entre velocidade e peso. Ainda assim, tudo permanece absolutamente reconhecível como Madball.

A produção moderna valoriza cada instrumento sem sacrificar a crueza característica do hardcore, enquanto Mike Gurnari entrega alguns dos riffs mais inspirados da fase recente da banda. A estreia de Paul Delaney e o trabalho de Mike Justian consolidam uma base rítmica poderosa, mostrando que a saída de Hoya Roc foi assimilada de maneira convincente.

No fim das contas, Not Your Kingdom não pretende revolucionar o hardcore nem reinventar o Madball. Seu maior mérito está justamente em compreender que poucas bandas carregam tanta autoridade para executar essa fórmula. Em pouco mais de trinta minutos, o grupo entrega um álbum consistente, pesado, repleto de refrões memoráveis e músicas que nasceram para ganhar vida nos palcos. Quase quarenta anos depois de sua formação, o Madball continua soando relevante, inspirado e, acima de tudo, fiel àquilo que sempre representou.

Dave Causa
 




segunda-feira, 20 de julho de 2026

Motionless In White: Vinte anos de evolução sem abrir mão da própria identidade (Also In English)

Roadrunner Records (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Celebrar duas décadas de carreira é um privilégio reservado a poucas bandas dentro do metal moderno. Desde sua formação em 2005, na Pensilvânia (EUA), o Motionless In White construiu uma identidade própria ao combinar metalcore, industrial, nu metal, metal alternativo e elementos eletrônicos sob uma estética inspirada no horror, no gótico e na cultura pop sombria. Ao longo dos anos, o grupo liderado por Chris Motionless refinou sua sonoridade sem abandonar a agressividade que conquistou sua base de fãs. Em Decades, lançado pela Roadrunner Records para celebrar os 20 anos da banda, o quinteto apresenta um trabalho que revisita sua trajetória enquanto aponta para o futuro, reunindo peso, melodias marcantes e participações especiais que ampliam ainda mais a experiência do álbum.

O conceito de Decades funciona como uma homenagem à própria história do Motionless In White. O encarte reforça esse caráter comemorativo com uma direção artística impecável, repleta de referências visuais à estética sombria que acompanha a banda desde seus primeiros lançamentos. É um material que dialoga diretamente com os fãs de longa data, mas que também serve como porta de entrada para quem está conhecendo o grupo.

Na parte técnica, a produção assinada por Drew Fulk e Justin DeBlieck é um dos grandes triunfos do álbum. Ambos encontram um equilíbrio admirável entre brutalidade e acessibilidade, entregando uma mixagem extremamente limpa, poderosa e moderna. Cada instrumento ocupa seu espaço sem comprometer a intensidade das composições, enquanto os elementos eletrônicos são incorporados de forma orgânica, enriquecendo as músicas sem jamais ofuscar o peso das guitarras.

Chris Motionless vive um dos melhores momentos de sua carreira. Sua interpretação é intensa e convincente, transitando naturalmente entre vocais limpos extremamente melódicos e guturais rasgados carregados de emoção e agressividade. A dinâmica vocal acrescenta dramaticidade às composições e reforça o caráter cinematográfico presente em boa parte do repertório.

As guitarras entregam riffs encorpados, grooves impressionantes e uma quantidade generosa de camadas que tornam cada faixa rica em detalhes. São aqueles grooves que fazem qualquer headbanger bater cabeça naturalmente. O baixo aparece firme, preenchendo a sonoridade com profundidade e sustentação, enquanto a bateria alterna precisão técnica, peso e criatividade, acompanhando perfeitamente as constantes mudanças de atmosfera do disco.

O grande mérito de Decades está justamente em sua capacidade de fundir diferentes estilos sem soar exagerado. Nu metal, industrial, metal alternativo, metalcore e música eletrônica convivem em perfeita harmonia, resultando em um álbum extremamente envolvente, energético e moderno. Os refrões são explosivos, memoráveis e fáceis de assimilar, tornando o trabalho acessível inclusive para quem normalmente não acompanha o metalcore. O Motionless In White demonstra maturidade artística ao refinar sua técnica sem sacrificar a essência que definiu sua carreira.

A faixa-título, "Decades", sintetiza perfeitamente a proposta do álbum. Combinando peso, melodias marcantes e uma atmosfera grandiosa, ela funciona como uma verdadeira declaração de identidade da banda e representa com competência o espírito comemorativo do trabalho.

Em "R.I.P.", a participação de Skylar Grey acrescenta uma dimensão emocional impressionante. A introdução conduzida por sua voz delicada cria um contraste marcante antes da explosão instrumental comandada pelo Motionless In White. O resultado é uma das músicas mais cinematográficas do álbum, alternando momentos de vulnerabilidade e intensidade com enorme eficiência.

"Fight Like Hell" aposta fortemente na influência do nu metal, trazendo grooves pesados, refrão explosivo e uma energia contagiante. Chris Motionless conduz a faixa com autoridade, transformando-a em um dos momentos mais empolgantes do disco.

"Playing God", com a participação especial de Corey Taylor, certamente figura entre os grandes destaques de Decades. A química entre os dois vocalistas é impressionante. As alternâncias entre vocais limpos e guturais elevam ainda mais a intensidade da composição, enquanto Corey entrega uma performance agressiva, raivosa e extremamente carismática, acrescentando ainda mais peso ao resultado final.

Em "Blood Rave", com participação de Anthony Martinez, a banda surpreende ao explorar uma atmosfera de balada gótica moderna. Hipnótica, envolvente e bastante diferente do restante do repertório, a música aposta em sintetizadores, batidas eletrônicas e um refrão dançante que permanece na memória após poucas audições. Aqui, os elementos eletrônicos assumem o protagonismo, demonstrando a versatilidade do grupo.

"Love At First Bite" mergulha de vez na temática vampiresca que sempre permeou parte da estética do Motionless In White. A composição incorpora influências da música dos anos 1980 sem abrir mão da produção moderna, criando uma atmosfera elegante, sedutora e divertida.

Em "Afraid Of The Dark", a banda entrega um dos momentos mais emocionantes do álbum. A abertura com guturais rasgados estabelece imediatamente um clima dramático que logo dá lugar a passagens melódicas extremamente marcantes. O refrão é envolvente, grandioso e reforça o equilíbrio entre agressividade e sensibilidade que caracteriza o disco.

A atmosfera retrô retorna em "Sunglasses At Night", que flerta com o AOR e o synth rock dos anos 1980 sem perder o peso contemporâneo. O resultado é uma faixa divertida, nostálgica e surpreendentemente dançante, capaz de agradar tanto aos fãs de metal quanto ao público que aprecia a estética das tradicionais baladas góticas.

Fechando a edição com uma energia extra, a bonus track "Fight Like Hell", desta vez com participação do Outlier, oferece uma nova leitura para uma das músicas mais fortes do álbum, encerrando Decades com a mesma intensidade que acompanha toda sua execução.

Decades não é apenas uma celebração dos 20 anos do Motionless In White, mas também uma demonstração clara de maturidade artística. A banda encontrou um equilíbrio raro entre agressividade, melodia, experimentação e apelo comercial, entregando um álbum que respeita sua identidade enquanto amplia seus horizontes musicais. Com produção impecável de Drew Fulk e Justin DeBlieck, performances inspiradas e composições repletas de refrões marcantes e grooves irresistíveis, o disco reafirma por que o Motionless In White continua sendo uma das principais forças do metal moderno.

Divulgação

***ENGLISH VERSION***

Celebrating two decades of a band's career is a privilege reserved for only a handful of acts in modern metal. Since forming in 2005 in Pennsylvania, USA, Motionless In White has forged a distinctive identity by blending metalcore, industrial, nu metal, alternative metal, and electronic elements under an aesthetic inspired by horror, gothic culture, and dark pop culture. Over the years, the band led by Chris Motionless has refined its sound without sacrificing the aggression that won over its loyal fanbase. With Decades, released through Roadrunner Records to commemorate the band's 20th anniversary, the quintet delivers a record that honors its past while looking firmly toward the future, combining crushing heaviness, memorable melodies, and high-profile guest appearances that elevate the listening experience.

The concept behind Decades serves as a tribute to Motionless In White's own legacy. The album booklet reinforces its commemorative nature through impeccable artistic direction, packed with visual references to the dark aesthetic that has accompanied the band since its earliest releases. It is a package that speaks directly to longtime fans while also serving as an inviting gateway for newcomers.

From a technical standpoint, the production by Drew Fulk and Justin DeBlieck stands as one of the album's greatest strengths. The duo achieves an admirable balance between brutality and accessibility, delivering a mix that is exceptionally clean, powerful, and modern. Every instrument occupies its own space without compromising the intensity of the compositions, while the electronic elements are seamlessly integrated, enhancing each track without ever overshadowing the crushing guitar work.

Chris Motionless delivers one of the finest vocal performances of his career. His interpretation is both powerful and convincing, moving effortlessly between soaring clean vocals and raw, emotionally charged screams. This dynamic vocal approach adds dramatic weight to the compositions and reinforces the cinematic atmosphere that defines much of the album.

The guitars unleash thick riffs, infectious grooves, and multiple layers that make every song feel rich and detailed. These are the kind of grooves that naturally make every headbanger bang their head with a smile. The bass provides a solid and commanding foundation, adding depth and fullness to the overall sound, while the drums combine technical precision, power, and creativity, perfectly complementing the album's constant shifts in mood and intensity.

Decades truly shines in its ability to merge different musical styles without ever sounding forced or excessive. Nu metal, industrial, alternative metal, metalcore, and electronic music coexist in remarkable harmony, resulting in an album that feels energetic, immersive, and refreshingly modern. The choruses are explosive, instantly memorable, and highly accessible, making the record appealing even to listeners who are not typically fans of metalcore. Motionless In White demonstrates remarkable artistic maturity by refining its craft without sacrificing the essence that has defined its career.

The title track, "Decades" perfectly encapsulates the album's overall vision. Combining crushing heaviness, memorable melodies, and a grand cinematic atmosphere, it serves as a powerful statement of identity while capturing the celebratory spirit of the record.

On "R.I.P." Skylar Grey brings an impressive emotional dimension to the song. Her angelic vocal introduction creates a striking contrast before Motionless In White unleashes its instrumental intensity. The result is one of the album's most cinematic moments, effortlessly balancing vulnerability and sheer power.

"Fight Like Hell" fully embraces its nu metal influences through heavy grooves, an explosive chorus, and infectious energy. Chris Motionless commands the song with confidence, turning it into one of the album's most adrenaline-fueled highlights.

"Playing God" featuring Corey Taylor, is undoubtedly among the standout tracks on Decades. The chemistry between both vocalists is undeniable. Their interplay between clean vocals and guttural screams elevates the song's intensity, while Corey delivers a fierce, aggressive, and emotionally charged performance that adds even more weight to the final result.

On "Blood Rave" featuring Anthony Martinez, the band surprises listeners by exploring the atmosphere of a modern gothic ballad. Hypnotic, immersive, and unlike anything else on the album, the song relies on lush synthesizers, electronic textures, and a danceable chorus that lingers long after it ends. Here, the electronic arrangements take center stage, highlighting the band's impressive versatility.

"Love At First Bite" fully embraces a vampiric atmosphere that has long been part of Motionless In White's artistic identity. The song incorporates clear influences from 1980s music while maintaining a thoroughly modern production, resulting in an elegant, seductive, and highly entertaining composition.

With "Afraid Of The Dark" the band delivers one of the album's most emotionally impactful moments. The opening guttural screams immediately establish a dramatic tone before giving way to soaring melodic passages. Its captivating chorus reinforces the balance between aggression and emotion that defines the record.

The retro influences return on "Sunglasses At Night" a track that flirts with AOR and 1980s synth rock without sacrificing contemporary heaviness. The result is an irresistibly fun, nostalgic, and danceable song that is likely to appeal not only to metal fans but also to listeners who appreciate the atmosphere of classic gothic club anthems.

Closing the special edition with an extra burst of energy, the bonus version of "Fight Like Hell" featuring Outlier, offers a fresh interpretation of one of the album's strongest tracks, bringing Decades to an intense and satisfying conclusion.

Decades is far more than a celebration of Motionless In White's twenty-year career; it is a compelling demonstration of artistic maturity. The band has achieved a rare balance between aggression, melody, experimentation, and mainstream appeal, delivering an album that remains faithful to its identity while confidently expanding its musical horizons. Backed by the outstanding production of Drew Fulk and Justin DeBlieck, inspired performances, unforgettable choruses, and irresistible grooves, Decades reaffirms why Motionless In White continues to stand among the leading forces in modern metal.



sexta-feira, 17 de julho de 2026

Seven Spires: Uma Obra Ainda Maior (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

A celebração definitiva de um dos grandes álbuns do metal moderno

Por Michelle F. Santana 

Desde sua formação em 2013, em Boston, Massachusetts (EUA), o Seven Spires consolidou uma identidade singular dentro do metal contemporâneo. Sem se prender às convenções de um único estilo, o quarteto construiu uma sonoridade que transita naturalmente entre o metal sinfônico, power metal, metal progressivo e metal extremo. Essa identidade musical é conduzida por composições grandiosas, mudanças dinâmicas constantes e uma escrita extremamente rica, capaz de equilibrar técnica, intensidade e emoção. Em A Fortress Called Home (Master Key Edition), a banda não apenas revisita um de seus trabalhos mais importantes, como oferece a forma mais completa de apreciá-lo.

Originalmente lançado em 2024, A Fortress Called Home já demonstrava uma banda em plena maturidade artística. O álbum aborda temas como pertencimento, identidade, perda, esperança e reconstrução, transformando a ideia de uma "fortaleza" em um refúgio emocional diante das adversidades. A Master Key Edition amplia essa experiência ao reunir três discos: o álbum original, incluindo a versão acústica de "House of Lies", lançada anteriormente na edição deluxe; um segundo disco inteiramente instrumental; e um terceiro dedicado a versões orquestradas e registros ao vivo gravados durante turnês recentes, incluindo apresentações em Tilburg e Montréal. Mais do que um relançamento, esta edição funciona como uma celebração do encerramento do ciclo de A Fortress Called Home e da evolução artística do Seven Spires.

Grande parte da força da banda está na impressionante performance de Adrienne Cowan. Poucas vocalistas transitam com tanta naturalidade entre vocais limpos, guturais extremos e técnicas oriundas do teatro musical. Sua impressionante extensão vocal e o controle absoluto da dinâmica permitem que percorra diferentes registros com absoluta fluidez, passando da delicadeza quase etérea à agressividade mais extrema sem perder precisão ou expressividade. Sua versatilidade impressiona, mas jamais soa como uma demonstração gratuita de virtuosismo. Cada escolha interpretativa serve à narrativa das músicas, carregando diferentes nuances emocionais conforme os arranjos evoluem. Adrienne entrega uma performance impecável, alternando delicadeza, dramaticidade e agressividade com naturalidade, consolidando-se como uma das vocalistas mais completas da atualidade.

Nas guitarras, Jack Kosto entrega riffs inspirados, harmonizações sofisticadas e solos tecnicamente brilhantes, sempre a serviço das composições. Sua execução amplia o caráter épico das músicas sem jamais soar excessiva. O baixo de Peter de Reyna acrescenta profundidade às harmonias e fortalece a base melódica do álbum, enquanto Chris Dovas demonstra enorme versatilidade na bateria, conduzindo com precisão as constantes mudanças de andamento e dinâmica que caracterizam o repertório.

Entre os destaques, "Songs Upon Wine-Stained Tongues" permanece como uma das faixas mais enérgicas do álbum. A intensidade dos riffs, a bateria pulsante e a constante sensação de movimento fazem dela um dos momentos mais explosivos do disco, equilibrando agressividade e melodias marcantes com impressionante naturalidade.

"Almosttown" evidencia uma das grandes virtudes composicionais do Seven Spires: a capacidade de construir melodias memoráveis sem abrir mão da complexidade dos arranjos. A faixa alterna momentos de introspecção e explosão de maneira orgânica, criando uma narrativa dinâmica que mantém o ouvinte completamente envolvido do início ao fim. É uma composição que sintetiza com precisão o equilíbrio entre peso, emoção e refinamento característico da banda.

"Love's Souvenir" apresenta uma das experimentações mais interessantes do álbum ao incorporar elementos de jazz à identidade musical do Seven Spires. A fusão entre harmonias sofisticadas e a intensidade do metal acontece de forma extremamente natural, conferindo personalidade única à faixa. O resultado é uma composição elegante, imprevisível e rica em nuances, reforçando a disposição da banda em expandir seus horizontes sem perder sua essência.

"Architect of Creation" representa um dos momentos mais pesados e grandiosos de A Fortress Called Home. Os riffs agressivos, a bateria intensa e a alternância entre vocais limpos e guturais transformam a faixa em uma demonstração da capacidade do Seven Spires de unir brutalidade e sofisticação em uma mesma composição.

Por sua vez, "Emerald Necklace" revela um lado mais contemplativo do álbum. Adrienne conduz a música com vocais limpos, emocionais e extremamente equilibrados, enquanto os arranjos crescem gradualmente até culminar em um solo de guitarra inspirado e emocionante. Trata-se de uma balada grandiosa, sensível e cuidadosamente construída, capaz de emocionar sem recorrer a excessos.

"Where Sorrows Bear My Name" inicia de forma atmosférica, envolta por elementos característicos do metal sinfônico. A interpretação de Adrienne começa delicada e melódica, mas evolui progressivamente para seus guturais característicos, intensificando a dramaticidade da composição e reforçando o contraste entre beleza e brutalidade que permeia toda a obra.

Entre todas as composições, "House of Lies" talvez seja a que melhor sintetize a essência emocional de A Fortress Called Home. Sua versão original já impressiona pela interpretação intensa e pela profundidade de sua construção melódica. Já a versão acústica, lançada anteriormente na edição deluxe e incorporada a esta edição, reduz os arranjos ao essencial e evidencia ainda mais a sensibilidade da composição e da interpretação de Adrienne, tornando sua carga emocional ainda mais impactante.

Um dos maiores méritos da Master Key Edition está justamente na maneira como ela convida o ouvinte a redescobrir A Fortress Called Home sob diferentes perspectivas. O segundo disco, composto integralmente por versões instrumentais, vai muito além de um material complementar. Ao retirar os vocais do centro da experiência, o Seven Spires permite que toda a arquitetura de suas composições seja apreciada em primeiro plano. Guitarras, baixo, bateria e teclados revelam camadas que muitas vezes passam despercebidas na audição tradicional, evidenciando não apenas o virtuosismo técnico do quarteto, mas também o cuidado na construção dos arranjos, na produção e na riqueza de detalhes que sustentam cada música.

É justamente nesse contexto que o trabalho de Jack Kosto, Peter de Reyna e Chris Dovas ganha ainda mais destaque. As harmonizações de guitarra, as linhas de baixo cuidadosamente elaboradas e a precisão da bateria demonstram que a força do Seven Spires não depende exclusivamente da impressionante performance vocal de Adrienne Cowan. Pelo contrário: cada integrante desempenha um papel fundamental na construção dessa identidade sonora sofisticada, em que cada elemento ocupa seu espaço sem comprometer a coesão do conjunto.

O terceiro disco amplia ainda mais essa experiência ao apresentar versões orquestradas e registros ao vivo. As releituras sinfônicas de "A Fortress Called Home", "Songs Upon Wine-Stained Tongues" e "Architect of Creation" reforçam a grandiosidade das composições, destacando melodias, contrapontos e texturas que dialogam naturalmente com a linguagem da música orquestral. Longe de parecerem meros exercícios de rearranjo, essas versões evidenciam o quanto as composições do Seven Spires já nasceram com uma estrutura profundamente cinematográfica e narrativa.

Os registros ao vivo funcionam como a celebração perfeita para o encerramento desse ciclo. As performances de "Succumb", clássico de Emerald Seas (2020), além de "Love's Souvenir", "Wanderer's Prayer" e "Gods of Debauchery", originalmente presentes em Gods of Debauchery (2021), capturam toda a intensidade que o grupo desenvolveu nos palcos durante as últimas turnês. Gravadas em apresentações realizadas em Tilburg e Montréal, essas versões acrescentam espontaneidade, energia e emoção, demonstrando como o repertório evoluiu naturalmente diante do público.

Mesmo dois anos após seu lançamento original, A Fortress Called Home permanece surpreendente. Poucos álbuns recentes conseguem oferecer uma experiência tão recompensadora a cada nova audição. Suas composições continuam revelando detalhes antes despercebidos, os arranjos apresentam uma riqueza impressionante de informações e a fusão entre metal sinfônico, power metal, metal progressivo e metal extremo permanece orgânica, equilibrada e extremamente sofisticada. O Seven Spires evita soluções fáceis, refrões excessivamente previsíveis e estruturas convencionais, preferindo investir em narrativas musicais densas, atmosferas cuidadosamente construídas e ganchos melódicos inteligentes que recompensam o ouvinte mais atento.

A Fortress Called Home já nasceu grandioso. A Master Key Edition busca reafirmar a força de uma obra que continua surpreendente a cada audição. Ao reunir o álbum original, versões instrumentais, releituras orquestrais e registros ao vivo, o Seven Spires demonstra que suas composições mantêm a mesma intensidade independentemente da roupagem que recebem. Mais do que uma edição expandida, este lançamento celebra o encerramento de um ciclo criativo brilhante e reafirma o quarteto como um dos nomes mais inventivos, ambiciosos e tecnicamente refinados do metal contemporâneo.

***ENGLISH VERSION***

The Definitive Celebration of One of Modern Metal's Finest Albums

Since their formation in 2013 in Boston, Massachusetts, Seven Spires have established a singular identity within contemporary metal. Refusing to be confined by the conventions of any single subgenre, the quartet has crafted a sound that seamlessly blends symphonic metal, power metal, progressive metal, and extreme metal. Their musical identity is driven by grandiose songwriting, constant dynamic shifts, and remarkably intricate compositions that balance technical prowess, intensity, and emotional depth. With A Fortress Called Home (Master Key Edition), the band not only revisits one of its most significant works but also offers the most comprehensive way to experience it.

Originally released in 2024, A Fortress Called Home already showcased a band operating at the height of its creative maturity. The album explores themes of belonging, identity, loss, hope, and renewal, transforming the concept of a "fortress" into an emotional sanctuary amid life's adversities. The Master Key Edition expands this experience by bringing together three discs: the original album, including the acoustic version of "House of Lies," previously available only on the deluxe edition; a second disc featuring entirely instrumental versions; and a third dedicated to orchestral arrangements and live recordings captured during recent tours, including performances in Tilburg and Montréal. Rather than a simple reissue, this edition serves as a celebration of the closing chapter of A Fortress Called Home and Seven Spires' remarkable artistic evolution.

Much of the band's strength lies in Adrienne Cowan's extraordinary performance. Few vocalists transition so effortlessly between pristine clean vocals, ferocious harsh vocals, and techniques drawn from musical theater. Her remarkable vocal range and exceptional dynamic control allow her to move seamlessly across vastly different registers, shifting from ethereal delicacy to uncompromising aggression without ever sacrificing precision or expressiveness. Her versatility is astonishing, yet it never feels like an exercise in virtuosity for its own sake. Every interpretative choice serves the songs' narrative, conveying a wide range of emotional nuances as the arrangements unfold. Adrienne delivers a flawless performance, effortlessly balancing tenderness, drama, and aggression while firmly establishing herself as one of the most complete vocalists in modern metal.

On guitar, Jack Kosto delivers inspired riffs, sophisticated harmonies, and technically dazzling solos, always in service of the compositions themselves. His playing enhances the music's epic character without ever becoming excessive. Peter de Reyna's bass adds depth to the harmonic foundation while reinforcing the album's melodic core, and Chris Dovas demonstrates remarkable versatility behind the drum kit, navigating the constant tempo changes and dynamic shifts that define the band's songwriting with absolute precision.

Among the album's highlights, "Songs Upon Wine-Stained Tongues" remains one of its most energetic moments. Driven by crushing riffs, relentless drumming, and an ever-present sense of momentum, the track stands as one of the record's most explosive offerings, balancing aggression and memorable melodies with impressive ease.

"Almosttown" showcases one of Seven Spires' greatest compositional strengths: the ability to craft unforgettable melodies without sacrificing the complexity of their arrangements. The song moves organically between introspective passages and explosive climaxes, creating a dynamic narrative that keeps the listener fully engaged from beginning to end. It perfectly encapsulates the band's signature balance between heaviness, emotion, and musical sophistication.

Meanwhile, "Love's Souvenir" presents one of the album's most intriguing experiments by incorporating elements of jazz into Seven Spires' musical identity. The fusion of sophisticated harmonies and metallic intensity feels entirely natural, giving the track a distinctive personality. The result is an elegant, unpredictable composition filled with subtle nuances, further demonstrating the band's willingness to expand its musical horizons without compromising its core identity.

"Architect of Creation" represents one of the heaviest and most monumental moments on A Fortress Called Home. Crushing riffs, relentless drumming, and the interplay between clean and harsh vocals turn the song into a powerful demonstration of Seven Spires' ability to merge brutality and sophistication within a single composition.

By contrast, "Emerald Necklace" reveals the album's more contemplative side. Adrienne guides the song with emotionally rich, impeccably controlled clean vocals, while the arrangements gradually build toward an inspired and deeply moving guitar solo. It is a majestic, heartfelt ballad, carefully constructed to evoke emotion without relying on excess.

"Where Sorrows Bear My Name" begins with an atmospheric introduction steeped in symphonic metal textures. Adrienne's performance initially unfolds with delicate, melodic vocals before gradually evolving into her signature harsh delivery, heightening the song's dramatic impact and reinforcing the constant interplay between beauty and brutality that permeates the album.

Among all the compositions, "House of Lies" perhaps best encapsulates the emotional essence of A Fortress Called Home. The original version already stands out through its powerful vocal performance and profound melodic development. The acoustic version, previously exclusive to the deluxe edition and now included here, strips the arrangement down to its essentials, further highlighting both the song's emotional depth and Adrienne's deeply affecting interpretation.

One of the greatest strengths of the Master Key Edition lies precisely in the way it invites listeners to rediscover A Fortress Called Home from entirely new perspectives. The second disc, consisting exclusively of instrumental versions, goes far beyond serving as bonus material. By removing the vocals from the forefront, Seven Spires allows the full architectural complexity of its compositions to shine. Guitars, bass, drums, and keyboards reveal countless layers that often remain hidden during a traditional listening experience, highlighting not only the quartet's remarkable musicianship but also the meticulous craftsmanship behind every arrangement, production choice, and musical detail.

Within this context, the contributions of Jack Kosto, Peter de Reyna, and Chris Dovas become even more evident. The intricate guitar harmonies, carefully constructed bass lines, and exceptionally precise drumming demonstrate that Seven Spires' strength extends well beyond Adrienne Cowan's astonishing vocal abilities. On the contrary, every member plays an indispensable role in shaping the band's sophisticated sonic identity, where each musical element occupies its own space while contributing to the cohesion of the whole.

The third disc further expands the experience by presenting orchestral reinterpretations alongside live recordings. The symphonic versions of "A Fortress Called Home", "Songs Upon Wine-Stained Tongues" and "Architect of Creation" reinforce the grandeur of the original compositions, emphasizing melodies, counterpoints, and textures that naturally lend themselves to orchestral language. Far from feeling like simple rearrangements, these versions reveal just how inherently cinematic and narrative-driven Seven Spires' songwriting has always been.

The live recordings provide the perfect conclusion to this celebration. Performances of "Succumb" the standout track from Emerald Seas (2020), alongside "Love's Souvenir" "Wanderer's Prayer" and "Gods of Debauchery" originally featured on Gods of Debauchery (2021), capture the intensity and confidence the band has developed on stage throughout its recent tours. Recorded during performances in Tilburg and Montréal, these versions bring an added sense of spontaneity, energy, and emotion while demonstrating how naturally the material has evolved in front of live audiences.

Even two years after its original release, A Fortress Called Home remains a remarkable achievement. Few recent albums offer such a consistently rewarding experience with every revisit. Each listen reveals previously unnoticed details, the arrangements continue to impress with their extraordinary depth, and the fusion of symphonic metal, power metal, progressive metal, and extreme metal remains organic, balanced, and exceptionally refined. Seven Spires avoids easy solutions, predictable choruses, and conventional song structures, instead embracing dense musical narratives, meticulously crafted atmospheres, and intelligent melodic hooks that richly reward attentive listeners.

A Fortress Called Home was already a monumental achievement upon its original release. The Master Key Edition reinforces the enduring strength of an album that continues to surprise with every listen. By bringing together the original record, instrumental versions, orchestral reinterpretations, and live performances, Seven Spires demonstrates that its compositions retain their emotional and artistic power regardless of the form they take. More than simply an expanded edition, this release celebrates the conclusion of a brilliant creative chapter while reaffirming the quartet as one of the most inventive, ambitious, and technically accomplished bands in contemporary metal.

Jeremy Saffer