quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Entrevista – Degreed: Entre a Tradição e o Futuro do Rock Melódico

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Por Flavio Borges

Há algo particularmente interessante no modo como o Degreed construiu sua identidade ao longo dos anos. Vindos da Suécia — um dos grandes celeiros mundiais de melodias, do hard rock e do pop de alcance global —, os músicos nunca se limitaram a reproduzir a fórmula clássica do rock melódico. Ao contrário, desde os primeiros trabalhos, a banda vem combinando guitarras pesadas, vocais agressivos, elementos modernos e uma forte preocupação com melodias, criando uma sonoridade que transita com naturalidade entre o hard rock tradicional e uma abordagem mais contemporânea.

Em conversa com Road To Metal, o vocalista Robin Eriksson falou sobre o processo de criação de Curtain Calls, a liberdade de trabalhar separadamente dos demais integrantes e a busca constante por novas possibilidades dentro do universo do rock melódico. 

Entre planos para novos shows, material inédito e até uma nova versão cover que Robin preferiu manter em segredo durante a entrevista, o futuro do Degreed parece apontar para a mesma direção de sua música: preservar aquilo que funciona, mas nunca ficar parado. Pesado e intenso, mas também suave, bonito e melódico — como o próprio Robin define —, o Degreed continua buscando seu espaço entre a tradição do hard rock e o futuro do rock melódico.


Acredito que podemos começar falando sobre o álbum mais recente, Curtain Calls. É o trabalho mais recente de vocês e, não apenas para mim, mas para a maioria das pessoas, ele representa exatamente a proposta que a banda nos apresenta: uma mistura entre o hard rock tradicional e o moderno, ou o melodic rock, como você preferir chamar. O que você pode nos contar sobre isso? Sobre o processo? Como começou a composição desse álbum? Houve alguma coisa diferente em relação aos outros?

Robin: Hoje em dia, nós dois moramos em uma cidade pequena, ou melhor, em uma vila chamada Koppa Bay. Foi onde eu cresci, então fica mais ou menos no centro da Suécia. Eu e meu irmão, o baterista Mats, moramos em Copperberg. Já o Mike, tecladista, e o Daniel, guitarrista, moram em Estocolmo.

Nós quatro costumávamos morar em Estocolmo, mas agora estamos separados, e com trabalho, filhos e tudo mais, acabamos fazendo a maior parte das composições, das gravações e de todo o resto separadamente. É assim que tem sido nos últimos cinco, seis, sete anos.

Mas tudo bem. Na verdade, eu gosto de gravar sozinho, sem ninguém apontando o dedo e dizendo o que fazer.

Frontiers Records (Imp.)

Eu entendo (risos).

Robin: É, e acho que os outros também gostam disso. Você sabe, existem aspectos positivos e também negativos, é claro. Às vezes é bom ter alguém dizendo: “Você pode fazer isso melhor”. Mas, de qualquer forma, esse foi mais ou menos o processo.

E nós tentamos manter os elementos que já são característicos da banda, como você mencionou. O que normalmente temos com o Degreed: um som um pouco pesado, mas também muito melódico, e isso é importante para nós. Tudo isso continua presente, mas, ao mesmo tempo, tentamos sempre seguir em frente.

Sempre. E ter uma versão atualizada, algo assim...

Robin: E isso pode acontecer em pequenas coisas. Por exemplo, eu não estou mixando o álbum, mas falei para o Mats, que está mixando, que queria que a bateria tivesse um som um pouco mais sujo. E acho que conseguimos isso. Fiquei feliz com o resultado.

Então, podem ser pequenas coisas que acabam mostrando: “Ah, esse é o som desse álbum em particular”. Nesse caso, de Curtain Calls.


E você acredita que esse tipo de coisa é o que faz o Degreed ser diferente das outras bandas do mesmo gênero? Vocês têm um som um pouco mais pesado, um pouco mais sujo, mas, como você disse, sempre mantendo a melodia, certo?

Robin: Sim, eu acho que sim. E acho que somos um pouco diferentes porque temos um som bem variado. Não sei se essa é a palavra certa, “variado”, mas, temos um pouco disso, um pouco daquilo. Às vezes, o som é um pouco sinfônico, podemos ter uma balada de piano e também podemos ter coisas realmente pesadas. Às vezes eu grito, e em outras canto de forma bem suave.

Em relação à sua voz, como você comentou, você usa vários tipos diferentes de vocais no álbum. É você quem escolhe os efeitos, ou deixa isso por conta do produtor?

Eu diria que, na maioria das vezes, sou eu. Acho que tenho uma ideia de como quero que soe, mas não sei exatamente como fazer isso acontecer. Seja qual for o programa que você usa, como o Pro Tools ou o Logic. Não sei se você conhece esses diferentes programas.

Apenas decisões técnicas.

Robin: No meu caso, eu só consigo dizer como quero que soe, tipo: 'ok, você pode colocar um pouco daquele som? Quero que minha voz soe como a do Ozzy Osbourne. Faça acontecer, por favor.' Mas eu não sei como fazer isso (risos). 

E, como você estava falando sobre todos esses tipos diferentes de vocais e todos esses tipos diferentes de sonoridades — um som mais pesado, um som mais sujo —, eu tinha uma pergunta para fazer mais tarde, mas vou fazê-la agora, porque também sou um grande fã do Children of Bodom. E, para mim, foi uma grande surpresa ver uma banda de hard rock, de metal rock, fazendo um tributo ao Alexi. Foi muito legal, cara. Eu gostaria que você falasse um pouco sobre isso, porque foi realmente uma surpresa ver vocês fazendo um tributo a uma banda completamente diferente da de vocês.

Robin: Na verdade, o nosso tecladista, o Mike, é muito, muito influenciado pelo Children of Bodom e pelo tecladista Janne Wirman, se você o conhece. Então, ele sempre foi um grande fã da banda. O Mike é meu primo, na verdade, então nos conhecemos a vida inteira.

Basicamente é uma banda de família: seu irmão, seu primo...

Robin: Sim, exatamente. Enfim, nós também temos a mesma idade. Então, ele escuta essa banda desde que nós éramos adolescentes, basicamente. E ele foi vê-los várias vezes em Estocolmo. Eu sei que existe um show ao vivo gravado em Estocolmo, de 2003 ou algo assim, não é?

Algo desse tipo.

Robin: Sim, você já ouviu falar sobre isso, e ele estava lá. Então, ele vem acompanhando a banda há bastante tempo. A inspiração vem dele, ou melhor, ele é como uma ponte entre nós e a banda. Então, eu também comecei a ouvir Children of Bodom, e o Alexi era uma verdadeira estrela do rock. Ele realmente era.

Sim, só para você saber, eu trabalhei com eles aqui na América Latina.

Robin: Você trabalhou com eles?

Sim. Eu trabalhei com eles quando estavam em turnê com o Amorphis, em 2009, se não estou enganado.

Robin: Ah, então você conheceu eles, passou um tempo com a banda e tudo mais?

Sim, por alguns dias no Brasil, na Argentina e no Chile.

Robin: Uau, que legal!

Eles eram realmente estrelas do rock (risos).

Robin: Sim, esse é o tipo de cara que você admira, por assim dizer. Ele era como alguém intocável para algumas pessoas, se é que você me entende. Provavelmente, ele era a pessoa mais gente boa do mundo e um cara supernormal, apesar de provavelmente conseguir beber mais do que todo mundo na mesa.

Exatamente. Ele era esse tipo de cara.

Robin: É, basicamente todos os caras daquela banda naquela época, porque alguns deles eram finlandeses.

Sim. Posso imaginar (risos).

Robin: É, mas enfim... Nós, na verdade, temos alguns elementos nos nossos álbuns que, se você prestar mais atenção, mostram bastante essa influência do Children of Bodom, mesmo antes daquela música em tributo. Posso citar uma música chamada “War”, do nosso álbum autointitulado. Escute essa. Basicamente, é uma música do Children of Bodom.

Eu sei, eu tenho todos os álbuns de você (risos).

Robin: Fico feliz em ouvir isso. Então, principalmente as partes de teclado, são muito inspiradas no Children of Bodom. É algo bem legal que provavelmente muitas pessoas não tinham percebido antes (risos).

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Outra pergunta que eu tenho, e que realmente me interessa, é sobre você. Você vem de um país, a Suécia, que tem uma enorme tradição no rock melódico e, especialmente, em bandas de pop rock, com produções gigantescas. Isso inclui, por exemplo, uma série de...

Robin: Max Martin?

Sim, tem uma série na internet, na Netflix, sobre isso. Como isso influenciou você e os outros integrantes da banda? Vocês também foram muito influenciados por esse cenário musical que existe no próprio país de vocês?

Robin: Nós somos realmente muito inspirados quando o assunto são melodias, pela música pop. Tenho que admitir isso. Talvez venha da tradição que temos, talvez seja algo natural, por assim dizer. Não sei. Mas temos todas essas bandas e artistas gigantes da Suécia quando se trata de melodias. Temos o Europe, por exemplo, e o Max Martin, que hoje é o maior compositor de todos os tempos.

Sim, com certeza.

Robin: E temos o Roxette, além de muitos outros artistas e bandas gigantes. Também temos todas essas bandas de rock melódico, maiores e menores, como H.E.A.T, Eclipse e todas essas outras. Não sei o que é. Não sei se é o ar fresco do norte ou...

Sim. Aqui no Brasil, costumamos dizer que é a água.

Robin: Sim, exatamente. É a água. Deve ser alguma coisa.

Sim. E durante toda essa trajetória que vocês já construíram, qual foi o maior desafio que vocês enfrentaram no dia a dia? Foi a divulgação, os shows, as turnês? O que é mais difícil? Qual é o desafio para vocês?

Robin: Acho que foi quando a Covid chegou. Tenho que dizer que esse foi o maior desafio. E todas aquelas festas acabaram cobrando seu preço de mim (risos).

Durante aquele período, foi realmente muito difícil voltar. Na verdade, foi muito difícil retomar depois da pandemia. Antes disso, estávamos prestes a fazer nossa primeira turnê como atração principal e tudo estava acontecendo. Então, com a pandemia e tudo o que veio junto com ela, meio que desacelerou tudo, e tivemos que começar do zero. Essa foi a parte mais difícil. E, além disso, queremos sair mais em turnê. E é realmente difícil fazer isso acontecer. É muito caro e tem toda essa questão de custos e coisas do tipo. Então, eu diria que esse é o maior desafio.

Você tem alguma ideia sobre os fãs da América Latina?

Robin: Um pouco, mas eu adoraria conhecer mais e ver isso de perto. Espero que tenhamos a oportunidade de ir para aí algum dia e que possamos conhecer vocês.

No Spotify, existe uma ferramenta chamada Spotify for Artists, não sei se você já ouviu falar, e conseguimos acompanhar estatísticas e coisas do tipo. E podemos ver que o Brasil está sempre entre os países com mais ouvintes, na verdade.

Sim, nós também temos uma tradição de estar entre os cinco primeiros quando se trata de bandas de hard rock e rock melódico no mundo todo. 

Robin: Seria muito legal descer do avião no Brasil.

Sim, esperamos que isso aconteça (risos).

Robin: E os fãs estão esperando por nós.

Sim. E, como você já comentou que vocês têm a intenção de vir para cá, existe alguma música em especial que vocês gostariam muito de tocar na América Latina?

Robin: Sim, estou pensando no cover de “Spending My Time”, do Roxette.

Ah, isso vai ser muito legal (risos).

Robin: Porque percebemos que o maior número de ouvintes dessa música vem justamente do Brasil. Não sei por quê.

Bom, o Roxette é realmente muito grande aqui. Eu fiz uma turnê com eles por aqui em 2011.

Robin: Ah, que legal!

Ela ainda estava viva. Foi a última turnê deles. E eles acabaram de tocar aqui, fizeram uns cinco ou seis shows com ingressos esgotados em alguns lugares.

Robin: Só no Brasil?

Sim. Não sei se eles foram para outros países da América Latina, mas sei que vieram para o Brasil e fizeram alguns shows aqui, para cinco ou seis mil pessoas. Eles eram realmente muito grandes no Brasil, assim como outras bandas suecas, como o Europe. Eu já fiz turnês com eles por aqui. E até com o Yngwie Malmsteen, fizemos um show com ele há alguns meses. Todas essas pessoas fazem parte da sua vida desde que você é fã de rock, certo?

Robin: Sim, fazem.

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Então, também gostaria de saber: você acredita que o próprio rock melódico vai evoluir ainda mais do que já está evoluindo atualmente? Não sei se você concorda comigo, mas há muitas bandas novas surgindo com novas propostas, e acredito que vocês estejam um passo à frente. Acho que o Degreed é a banda que lidera essa nova abordagem, misturando elementos da música moderna com o hard rock tradicional. Você acredita que esse é o caminho pelo qual o rock melódico vai evoluir?

Robin: Espero que sim (risos). Acho que fomos uma das primeiras bandas a misturar um pouco de batidas e coisas do tipo na nossa música. E depois começamos a ouvir outras bandas surgindo com essa proposta alguns anos mais tarde. Eu espero que sim. E gosto que você diga que somos os líderes desse tipo de abordagem (risos).

Sim, porque posso estar errado, mas acredito que, quando ouvimos até mesmo os seus discos mais antigos, percebemos que existe uma abordagem moderna, mas sem nunca deixar de lado o tradicional, certo?

Robin: Exatamente.

Sabe, é uma mistura perfeita. E é por isso que estou perguntando: você acredita que vocês já estejam influenciando outras bandas, de uma forma que você nunca sente?

Robin: Não, nunca pensei dessa forma, na verdade. Mas talvez esteja acontecendo, e isso seria muito legal. Quer dizer...

Porque, para mim, acredito que seja muito mais fácil perceber isso de fora.

Robin: Sim, acho que sim.

Eu teria que ouvir muitas bandas para perceber isso, mas é algo que tenho em mente há algum tempo, porque, para ser sincero, vocês foram uma das primeiras bandas que ouvi usando guitarras com vocais agressivos. Isso não era tão comum no rock melódico.

Robin: Não, não, não. É verdade. Nós ousamos misturar um pouco as coisas (risos). Mas talvez, um dia a gente se torne algum tipo de lenda (risos).

Por que não? Nunca se sabe.

Robin: Agora, com o Rush fazendo uma nova turnê, eles são a banda mais legal do mundo.

Você acha?

Robin:  Sim, no momento eu acho que eles são muito legais. Quinze anos atrás eu não pensava assim. E aposto que as pessoas também não pensavam assim quando eles surgiram. Eles estavam um pouco à frente do seu tempo. Você entende o que quero dizer?

Sim, eu sei do que você está falando. E, falando nisso, quais são os planos para o futuro?

Robin: Temos três shows em agosto, então essa é a primeira coisa que vamos fazer. E acho que estamos prestes a lançar um novo single, na verdade, uma nova música cover (N.T.: Robin se refere ao cover de "Still In Love with You", do Thin Lizzy. A entrevista foi realizada em junho). Eu nunca contei isso para ninguém, mas vai acontecer muito em breve (risos). Depois disso, é continuar trabalhando e fazendo mais shows. Acho que essa é a coisa mais importante agora. E, quando se trata de lançar músicas novas, nós sempre temos novas canções e material novo, então provavelmente teremos novidades mais cedo ou mais tarde, como sempre.

Então vocês já estão trabalhando em material novo?

Robin: Um pouco. E também temos algumas coisas guardadas. Então, vamos ver. Nós lançamos The Leftovers, e existe uma razão para termos chamado de Vol. I.

Imagino (risos).

Robin: É, então vamos ver.

Eu sei que todos esses shows são na Suécia. 

Robin:Não. Um deles é na Espanha, na verdade.

Ah, legal!

Robin: Acho que é um lugar nos arredores de Madri. Ou era Barcelona? Na verdade, não consigo lembrar. É sempre assim: se não é uma cidade grande, eu simplesmente vou e penso: 'ok.'

Prepare-se, porque vai estar quente lá.

Robin: Eu sei, já ouvi falar.

É igual aqui.

Robin: É mesmo? Quanto está fazendo de temperatura aí agora?

Não, não, estou perguntando porque, no Brasil, normalmente faz calor, mas hoje, para os padrões brasileiros, está muito frio. Está fazendo 13 graus. Está muito frio.

Robin: 13? 

Sim. No Brasil, 13 graus é muito frio. Se você for para a Suécia, eu sei que é pleno verão (risos).

Robin:Sim, exatamente. Isso é algo normal por aqui.

Mas, para os brasileiros, 13 graus é meio estranho. Eu só tenho uma última pergunta para você. Se você tivesse que descrever o Degreed para os fãs brasileiros que ainda não conhecem vocês, que frase usaria para descrevê-los?

Robin: É pesado e intenso, mas também suave, bonito e melódico. Você pode bater cabeça, pode relaxar, pode fazer de tudo com a nossa música.

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