1. Olá, Marcos. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do álbum “Gate of Gaiabeta”, pois o material ficou de primeira…
Marcos: Eu que agradeço. Sempre um prazer falar com vocês.
2. Como você pode descrever o trabalho na composição desse tipo de sonoridade?
Marcos: Ah, foi suave (risos). Primeiro porque eu componho e escrevo com relativa facilidade. Segundo porque as coisas que eu faço estão dentro do meu conhecimento musical. Não tento fazer coisas complexas que eu não domino, porque sei que, no final, acabam saindo esdrúxulas.
Finalmente, correu tudo tranquilo porque, enquanto rolavam as famosas, inevitáveis e irritantes trocas de integrantes, eu ia compondo. Não houve também as famosas discussões sobre como tem que ser isso ou aquilo. Então, o que se ouve em Gate of GaiaBeta é um som honesto, feito com muita alma.
Sobre a sonoridade, minhas canções são uma celebração aos artistas que me influenciaram. Eu apenas fiz um mix com elementos que, na minha visão, deixariam as canções com uma sonoridade melhor e mais moderna. Um review feito na Polônia disse: “Eu sempre quis saber como seria o som do Maiden com dois bumbos”. Eu também (risos). Ele realmente captou a ideia.
Você percebe que, em uma mesma canção, há elementos com influências do Sabbath e do Helloween, por exemplo. Quando achei o pessoal certo, o álbum já estava bem adiantado. Aí tudo ficou mais fácil.
3. Eu escutei o material diversas vezes e só após várias tentativas consegui captar parte das suas ideias. Os fãs têm sentido esse tipo de dificuldade também?
Marcos: Muitas pessoas falam que gostaram do álbum justamente porque ele não é monótono. Modéstia à parte, eu também acho isso. Cada canção é um passeio sonoro diferente. Alguns acham interessante ouvir o “Maiden com dois bumbos”, e outros dizem que é bom ouvir uma banda de Power Metal com passagens cadenciadas à la Sabbath.
Em geral, parece que o público tem gostado bastante da sonoridade.
4. Existem planos para o lançamento de “Gate of Gaiabeta” no Brasil, no formato físico?
Marcos: A Pitch Black nos enviou uma quantidade significativa lá da gringa. É um álbum de luxo, muito bacana, mas estamos abertos a lançar o material por algum selo aqui do Brasil. Acho que os custos seriam mais acessíveis.
5. Trabalhar com letras em inglês pode atrapalhar a banda no mercado nacional?
Marcos: Com certeza não. O público do mundo todo já está perfeitamente adaptado ao “casamento” do som do Heavy Metal com a língua inglesa, e no Brasil isso não é diferente.
Percebo que o ouvinte brasileiro está se adaptando bem ao metal cantado em português, mas com o inglês não há problema algum.
6. Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A aceitação tem sido positiva?
Marcos: 2025 foi o ano mais produtivo para o GaiaBeta em termos de shows, e a aceitação do álbum está incrível. Até em eventos onde há público de metal extremo, a galera tem demonstrado respeito, porque percebe a seriedade do trabalho.
7. Quem assinou a capa do CD e qual a intenção por trás da arte?
Marcos: A belíssima e misteriosa capa foi obra do talentoso artista cearense Renato Ferreira. O nome da banda foi algo pensado.
Creio que os modelos religiosos, políticos, econômicos e sociais estão falidos, e é preciso criar novos modelos para garantir a sobrevivência da humanidade. Então o GaiaBeta (Gaia = Terra + Beta = segunda letra do alfabeto grego, simbolizando algo novo) representa um novo estado de espírito, uma nova forma de enxergar as coisas — talvez até um novo planeta.
O portal que conduz a esse “lugar” místico e o indígena como guardião são formas de valorizar nossa cultura e dar um descanso para os vikings e dragões (risos).
8. O álbum foi totalmente produzido pela banda. Foi satisfatório seguir por esse caminho?
Marcos: Sim. Orgulhosamente digo que eu e Kitaro produzimos tudo. Economizamos uma boa grana e, ao mesmo tempo, aprendemos muito.
Esse álbum prova que a atitude nascida do movimento punk nos anos 1970 — o “do it yourself” — é totalmente viável. Colocamos um álbum no mundo com qualidade sonora suficiente para agradar até os ouvintes mais exigentes.
9. Já existem novas composições em andamento?
Marcos: Eu não paro de compor. É uma espécie de compulsão (risos). Já tenho quatro canções esperando finalização, mas não temos pressa em lançar um novo álbum.
Primeiro queremos divulgar Gate of GaiaBeta ao vivo pelo país e também fora dele. Temos três anos de contrato, então a ideia é rodar bastante, aprender mais e fazer um segundo álbum ainda melhor.
10. Para encerrar: parabéns pelo trabalho e vida longa ao GaiaBeta.
Marcos: Agradeço, em nome de toda a banda, pela oportunidade e pelo espaço nesse meio de comunicação tão gigante.
Janeiro chega com mais um ótimo lançamento, agora na seara do Thrash Metal, com os alemães do Kreator, trazendo sua maestria musical em Krushers Of The World, o aguardado 16º álbum de estúdio. Inclusive, com um título que impõe respeito, um reflexo da consciência histórica, orgulho e da confiança conquistada pela banda ao longo de décadas de estrada.
Musicalmente, Krushers Of The World comprova que o grupo mantém intacta sua essência, porém se aventura em mares mais melódicos e disruptivos, sem perder a brutalidade e energia. Um exemplo dessa pegada aparece na faixa de abertura “Seven Serpents”, que estabelece o tom agressivo, mas também apresenta uma instrumentalidade mais trabalhada na introdução e pinceladas de gótico/mitológico nas letras, escapando um pouco do tradicional. Entretanto as pedaleiras duplas ensurdecedoras aparecem com tudo em “Satanic Anarchy”, bem como os famosos riff compassados, e a voz poderosa de Mille Petrozza, puro Thrash Metal. Inclusive com uma referência que acalentou o coração dos fãs de horror, o clássico Hellraiser, do diretor Clive Baker, lançado em 1987.
Destaque para o tom épico e envolvente da música “Krushers Of The World”, não esperava nada menos, em se tratando de Kreator. Temos também “Deathscream”, cujo nome já entrega tudo, energia gritante para ouvidos treinados, uma ótima música para voltar às origens. Em contrapartida, chega “Blood Of Our Blood”, bem trabalhada nas linhas de baixo e guitarra, com refrões bem acessíveis, com muita melodia, outra prova da versatilidade destes alemães em se tratando de inovar.
Agora, temos um lado mais tradicional da banda, mas com a qualidade e agressividade extrema de outrora, com “Barbarian” e “Psychotic Imperator”, duas pérolas que ao vivo podem ser perfeitos convites aos famosos mosh pits. E a propósito, quem ainda não teve o prazer de estar no calor humano em um show do Kreator, já coloque a façanha em sua Bucket list.
Na sequência da audição, temos a faixa “Tränenpalast”, com atmosferas sombrias e mais referências ao terror cult sobrenatural, no caso, ao filme Suspiria, original de Dario Argento, lançado em 1977, e que também possui uma releitura mais moderna, do diretor Luca Guadagnino, lançada em 2018. A canção também conta com a participação vocal de Britta Görtz, que casou perfeitamente com o contexto da obra. Inclusive, podemos apreciar a participação da cantora e elementos do filme, que apesar dos flashes impactantes, ficou belíssimo no videoclipe disponibilizado anteriormente ao lançamento do álbum.
Visualmente, o álbum também se destaca. Inclusive, em um momento onde tudo é criado e porque não, recriado por meio da Inteligência Artificial, a arte de Zbigniew Bielak revisita elementos icônicos da estética clássica do Kreator e os reorganiza em uma composição densa, simbólica e contemporânea.
Por fim, temos “Loyal To The Grave”, décima e última música do disco, em tom grandioso e sensação de batalhas épicas por vir, que se inicia com vozes de coral ao fundo, para na sequência, dar andamento ao peso ritmado do baixo, bateria em riste, riffs a postos e vocais nervosos. Merece destaque para a audácia criativa, que inclui traços de Metal tradicional e Thrash.
Mais uma vez, o Kreator conseguiu um resultado de qualidade acima da média, tornando Krushers Of The World um trabalho feroz, sólido e criativo, sustentado por uma excelente produção e por composições maduras, que revelam uma banda plenamente consciente de seu legado, sem receio para avançar sem concessões. O Kreator segue implacável, reafirmando seu lugar entre os gigantes do metal extremo enquanto continua a expandir seus próprios limites.
Se tem uma banda que me surpreendeu (e continua surpreendendo) nos últimos anos é o Nite Stinger. Fundada em 2019 pelo baixista Bento Mello ao lado do vocalista Jack Fahrer, o grupo prova que o hard rock continua mais vivo do que nunca. Isso ficou evidente com o lançamento de seu homônimo álbum de estreia, em 2021, que já figura no panteão dos melhores discos do estilo no país. Desde então, a banda vem abrindo shows para vários nomes importantes dessa esfera musical, o que deixa clara sua ascensão como um dos principais expoentes do hard rock nacional.
"What The Nite Is All About", segundo e aguardado novo álbum, mantém a marcha engatada na quinta, ou seja, no mais alto pico. Se o debut já havia sido muito bem recebido, este novo trabalho tende a repetir — ou até superar — o feito. O hard rock oitentista, fortemente influenciado pela cena americana da Sunset Strip, permanece intacto, mas agora ganha uma dose extra de efervescência, diversão e empolgação. Tudo isso é regado a boa música, atitude e a atmosfera noturna que o próprio título do álbum sugere.
A produção, assinada pelo competente Henrique Baboom, extrai de cada membro o que eles têm de melhor. Jack Fahrer entrega dinamismo aos vocais, alternando entre interpretações mais envolventes e agressivas, conforme cada música pede. As guitarras, comandadas por Bruno Marx e pelo estreante Ivan Landgraf, são a cereja do álbum, trazendo riffs e solos de arrancar aplausos. O timbre alcançado pela dupla é realmente assombroso, já que são poucas as bandas hoje no planeta que conseguem resgatar com tanta propriedade o revival oitentista nas guitarras.
A cozinha, formada pelo baixista Bento Mello e pelo baterista Leandro Araújo (outro estreante), é responsável por manter o coração do álbum pulsando. Dito tudo isso, não há por que não querer ouvir What The Nite Is All About.
Em seus 40 minutos, What The Nite Is All About traz composições que exalam vigor e intensidade, algo que já fica evidente na explosiva “You Know Why”. Mas o melhor vem na sequência com “Your Own Way To Be” (trazendo um riff que remete a “Miracle Man”, de Ozzy Osbourne) e “The Night Is Never Over”, cujos refrões, por sinal memoráveis, são daqueles feitos para cantar junto e que dificilmente saem da cabeça de quem ouve pela primeira vez. O mesmo vale para “Love Freedom”, uma das melhores desse início, mostrando que é possível unir peso e partes melódicas em uma única música.
Já “Only You”, primeiro single, segue a mesma proposta, porém de maneira mais lúgubre, mas nada aflitivo; pelo contrário, soa mais bucólica, algo que casa muito bem com o título da faixa. Só por essas músicas, o álbum já valeria a audição, mas calma que há mais destaques pela frente.
A Dokkenana "Fantasy", a pesada faixa-título que conta com a participação do lendário vocalista Stevie Rachelle (Tüff, Tales From The Porn), a brilhante "High Above" e a hardzante "Highway Bound" conseguem atingir o fulgor criativo da banda e definir perfeitamente como é o álbum: pesado, coeso e incalculavelmente formidável. Dando uma acalmada nos ânimos, ainda temos a linda balada "All The Love That You Need", antes de encerrar com a cadenciada "Reach the Sky".
Se fosse definir em palavras, What The Nite Is All About é um álbum dinamite, perigoso e peçonhento, pois, uma vez que você o escuta, a vontade de ouvir novamente surge de imediato, de tão bom que é. Sim, 2026 já tem um forte candidato a melhor disco do ano.
THEMALEFIK, da cidade de São Paulo, Brasil, se consolidou como uma das mais importantes bandas de Death/Black Metal do Brasil desde 1994.
Após alguns lançamentos durante os anos, e já radicada no Japão, finalmente chegou, em 2024, ao tão aguardado momento de disponibilizar o seu segundo full-lenght, “My Inner Demons”, que marca um novo capítulo em extensão artística.
Agora, a banda já segue os próximos passos, trabalha na divulgação do terceiro álbum, "Covenant of Chaos" e já tem mais um petardo engatilhado para 2026.
Confira o que o fundador Cláudio Monteiro tem a dizer sobre esse novo trabalho e os planos futuros
Olá Cláudio, obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do CD “Covenant of Chaos”, pois o material está excelente.
Cláudio Monteiro: Nós é que agradecemos o espaço e a atenção da ROAD TO METAL. Muito obrigado pelas palavras. Covenant of Chaos é um trabalho construído com muito cuidado e convicção ao longo de anos de estrada.
Ele não foi pensado para fórmulas ou concessões, mas como uma expressão honesta das reflexões que carregamos desde o início da banda, ainda em 1993. É resultado de uma longa observação das transformações — e dos colapsos — morais, sociais e espirituais que seguimos presenciando, e que continuam nos impulsionando criativamente.
Como você descreve o trabalho de composição dessa sonoridade?
Cláudio Monteiro: A composição no ThemalefiK começa na ruptura. Trabalhamos com dissonância, repetição opressiva, variações rítmicas instáveis e camadas que criam tensão constante. Não há compromisso com gêneros ou fórmulas, apenas com intenção. A música precisa soar como falha estrutural, como algo prestes a ruir, porque é exatamente assim que o mundo se apresenta. Se o som incomoda, é porque reflete algo real.
O disco exige várias audições para ser compreendido. Isso tem sido percebido pelos fãs?
Cláudio Monteiro: Sim, e isso é natural. Covenant of Chaos não se revela apenas pelo ouvido, mas pelo que cada um carrega por dentro. O disco não entrega respostas prontas — ele provoca dúvidas, silêncios e confrontos internos.
A cada audição, o ouvinte encontra camadas que dialogam diretamente com suas próprias contradições, crenças e fragilidades. O caos ali não é apenas externo; ele reflete aquilo que cada um sabe que sente, mas muitas vezes evita encarar. Não acreditamos em música que passa sem deixar marcas.
Existem planos para o lançamento físico do álbum no Brasil?
Cláudio Monteiro: Sim. O formato físico continua sendo essencial no underground. O digital espalha, mas o físico consolida. Quando Covenant of Chaos sair nesse formato, não será apenas um CD, mas um objeto conceitual, pensado como extensão do álbum. Nada será feito de forma vazia ou apressada.
O uso do inglês pode afastar o público brasileiro?
Cláudio Monteiro: Não. O ThemalefiK nunca se limitou a idioma. Muito antes disso, já expúnhamos a realidade brasileira de forma direta em português. “Vergonha”, gravada em 1998, já escancarava uma nação construída sobre humilhação, miséria moral e silenciamento. A letra questiona diretamente do que deveríamos nos orgulhar — ou se o único sentimento honesto possível seria a vergonha. O mais perturbador é constatar que, décadas depois, essa pergunta continua válida porque nada mudou no Brasil.
“Cadáveres nos Jornais” aprofunda essa denúncia ao mostrar a morte transformada em rotina e manchete descartável, enquanto a corrupção se esconde atrás do discurso da falta de recursos. A mídia não informa — anestesia. As pessoas veem, se calam e seguem vivendo uma vida anormal. Já “Vida”, gravada em 1998 e regravada no álbum Your Belief, vai além da crítica social e atinge o núcleo da crença humana.
A música desmonta a ideia de transcendência, questiona a vida pós-vida e reduz a existência àquilo que ela realmente é: barro, carne, água e sangue. Não há promessa futura, apenas o instante. Essa música antecipa de forma clara a filosofia de Your Belief, que questiona a fé, a obediência e a necessidade humana de criar ilusões para suportar a finitude religiosa.
Como estão rolando os shows em suporte ao disco?
Cláudio Monteiro: O palco não é entretenimento, é exposição. Ao vivo, o ThemalefiK funciona como um rito de confronto. Não suavizamos nada. Quem se conecta entende que não se trata de conforto, mas de presença e intensidade; quem já presenciou o ThemalefiK ao vivo sabe disso muito bem. Se alguém se sente desconfortável, talvez seja exatamente aí que deveria prestar mais atenção. Estamos preparando o terreno e fazendo o nosso papel na divulgação do álbum e, consequentemente, dos shows.
Quem assinou a capa do CD e qual a intenção dela?
Cláudio Monteiro: A capa foi concebida junto à banda, a partir de um conceito muito claro: o pacto com o caos. Ela representa a ruptura definitiva com crenças impostas, a falência da ordem e a aceitação do colapso como força transformadora. Não explica — provoca, assim como a música. A arte nasceu de um esboço criado pelo baterista; a partir daí, buscamos a essência da banda de 1993, resgatamos isso e trouxemos o passado para o presente. Assim nasceu o disco.
“Covenant of Chaos” foi totalmente produzido pela banda?
Cláudio Monteiro: Sim. Produzir o próprio material é uma escolha ideológica. Desde Your Belief, seguimos uma linha clara: controle total da mensagem. Questionamos a fé, a obediência e as estruturas que moldam o comportamento humano. Covenant of Chaos é a consequência direta disso — quando a crença cai, o caos assume.
Já existem novas composições em andamento?
Cláudio Monteiro: Sim. O processo continua, mas não como ruptura, e sim como aprofundamento. Seguimos explorando crença, colapso, repetição histórica e decadência humana. O ThemalefiK não reage ao mundo — ele o reflete de forma crua. No fim, tudo isso é sobre lucidez, mesmo quando ela dói.
Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao THEMALEFIK…
Cláudio Monteiro: Agradecemos o espaço e o respeito. O metal não sobrevive pela aceitação, mas pela resistência. Enquanto houver silêncio imposto, o ThemalefiK continuará fazendo barulho.
Beyond The Black, a banda de Metal Sinfônico alemã que tem agitado os palcos ao redor do mundo nos últimos anos, está na expectativa do lançamento de seu novo álbum, intitulado “Break the Silence”. Então, começamos 2026 com um grande presente para os headbangers, uma entrevista com Jennifer Haben, onde a simpática vocalista esclarece alguns pontos sobre o conceito desta obra, que já está disponível, pela gravadora Nuclear Blast, no dia de hoje (09/01/26).
Paula: É um prazer ter você aqui conosco para esta entrevista. Como você está hoje?
Jennifer: Estou bem. Tive uma semana muito corrida na semana passada. Fizemos algumas coisas ótimas com muitas das músicas captadas do Wacken e também outros projetos, e isso foi muito bom para poder contar um pouco mais sobre o álbum.
Paula: Ah, sim, estou muito animada. O lançamento é no dia 9 de janeiro, eu acho. É logo no começo do Ano Novo, então acredito que todo mundo esteja bastante ansioso pelo álbum.
Gostaria de começar com algumas perguntas sobre as três primeiras músicas, que foram lançadas como singles antes do álbum. Esses singles contam com várias participações, incluindo o Lord of the Lost e também com a cantora japonesa Asami. Acho isso muito interessante, adorei o álbum!
Essas três músicas parecem representar capítulos diferentes do disco, cada uma com uma identidade própria. Elas representam a variedade de Break the Silence?
Jennifer: Até agora, ainda não contamos a história completa. Ainda falta um single que, sim, vai apresentar o final deste capítulo.
Como eu já disse antes, todos esses videoclipes, do começo ao fim, funcionam quase como um pequeno filme, porque pensamos em um conceito completo para explicar às pessoas sobre o que estamos falando. Indo além, Break the Silence é um álbum sobre comunicação.
Desde o início, quando começamos a pensar no que escrever, percebemos que todos estávamos mais ou menos na mesma sintonia: as pessoas não estão mais conectadas — ou pelo menos não o suficiente. Elas estão mais divididas do que nunca, pelo menos é assim que sentimos.
Ao mesmo tempo, temos a internet, que nos deixa hiperconectados, mas sem conversas realmente profundas. Parece que as pessoas apenas expressam suas opiniões, sem ouvir o outro lado. Elas não querem entender de verdade o que o outro tem a dizer, apenas expor seu próprio ponto de vista. Acho isso muito perigoso. Acredito que poderíamos nos reconectar se tentássemos compreender o que o outro quer dizer com o coração, e não apenas pelas palavras.
Paula: Sim, concordo totalmente com você. Break the Silence é um álbum muito forte, e o título também é muito impactante. A capa do álbum é linda e chama muita atenção logo de primeira.
O que tudo isso significa para você e para a banda neste momento? Vocês estão tocando em muitos festivais e já estiveram no Brasil este ano, no Bangers Open Air (obs.: entrevista realizada em dezembro de 2025). O que esse álbum representa para você pessoalmente e para a trajetória da banda?
Jennifer: Acho que todo álbum revela um pouco mais sobre a personalidade da banda e sobre a fase em que estamos vivendo. Desde Beyond the Black, o álbum anterior, tudo estava mais relacionado à confiança. Já era possível sentir que estávamos mais seguros do que antes, que sabíamos melhor o que estávamos fazendo e o que queríamos.
Desta vez, foi um desenvolvimento em direção a algo mais profundo, no qual realmente quisemos expor nossas preocupações sobre como o mundo está evoluindo. Queríamos mostrar às pessoas o que sentimos. É empolgante ver isso finalmente se concretizando. Agora faltam alguns meses… não, na verdade, só um mês.
Paula: Nem isso, na verdade.
Jennifer: Exatamente, está muito perto. Há outras músicas no álbum das quais eu realmente me orgulho, então mal posso esperar para que as pessoas as escutem.
Paula: Preciso dizer que já ouvi o álbum. Agradeço à Nuclear Blast pela oportunidade. Acho que ele reúne muitos sons e culturas diferentes. É um disco muito diverso: cada música é diferente, cada uma conta uma história. Há elementos culturais de várias partes do mundo, de diferentes países e tradições. É como se muitas culturas estivessem reunidas em um único álbum.
Esse equilíbrio entre melodia, emoção e intensidade sempre esteve presente no Beyond the Black. Essa visão já existia desde o início ou foi se desenvolvendo ao longo do tempo?
Jennifer: Você diz de modo geral ou especificamente para este álbum?
Paula: Para este álbum.
Jennifer: Certo. A visão surgiu já no início do processo criativo, quando começamos a pensar no novo álbum. Desde o começo sabíamos qual seria o tema central: comunicação. Acho que foi a primeira vez que isso ficou definido antes mesmo de começarmos a compor as músicas.
Ter isso em mente ajudou muito no conceito geral, inclusive no que você mencionou sobre idiomas e culturas diferentes. Comunicação não é apenas alemão ou inglês, é algo global. Queríamos nos conectar com pessoas do mundo inteiro, por isso escolhemos diferentes idiomas e exploramos essas ideias.
Por exemplo, em “Rising High”, tivemos aquela voz africana antes mesmo de pensarmos em criar uma música do Beyond the Black ao redor dela. Foi quase um recomeço para nós. O mesmo aconteceu com os vocais búlgaros, japoneses e outros.
A ideia era nos inspirar nesses elementos e criar algo a partir deles, sem forçar a música a ser algo que ela não é. Queríamos criar algo harmônico a partir do que já existia na identidade do Beyond the Black.
Paula: Este álbum é muito verdadeiro. Tenho uma pergunta: se você tivesse que apresentar o Beyond the Black e Break the Silence para alguém que não conhece a banda, como descreveria?
Jennifer: Eu diria que é possível encontrar muitas emoções diferentes, elementos bem metal, mas também partes orquestrais, eletrônicas e com uma pegada de rock. No conjunto, há muitas dinâmicas diferentes.
Paula: Ótimo! E como foi trabalhar com outras bandas, como o Lord of the Lost e a cantora Asami (obs:. vocalista da banda de Metal japonesa Lovebites)? São duas vertentes muito fortes. Como foi essa colaboração?
Jennifer: Foi incrível. Eu sou apaixonada pelo Japão, então para mim estava claro que eu queria ter um vocal japonês neste álbum, além de letras em japonês. No início, pensei em cantar eu mesma (risos), mas percebi que talvez não fosse a melhor escolha, então precisávamos de outra pessoa. Fiquei muito feliz que a Asami tenha aceitado participar.
A ideia de “Can You Hear Me” é mostrar que sentimos as mesmas coisas, mesmo estando tão distantes no mundo: solidão, a tentativa de alcançar o outro, de ter conversas e emoções profundas.
Já com o Chris Harms, do Lord of the Lost, foi algo muito especial. Ele é um cantor incrível. Não conversamos muito antes de gravar juntos, mas senti que encontrei um novo amigo nele, porque compartilhamos um nível emocional parecido. Quando ele gravou e me enviou as partes vocais, foi como se tivesse acrescentado uma dimensão totalmente nova à música. Isso não acontece com frequência em colaborações, então foi realmente especial.
Paula: É muito emocionante e tocante. Em “Can You Hear Me”, há um contraste muito forte entre os vocais. Como foi, para você, essa experiência de contrastar a sua voz com a dela?
Jennifer: Para mim, é sempre importante trabalhar com uma voz diferente da minha. Esse contraste permite alcançar diferentes níveis emocionais e torna a música mais interessante para quem ouve. Acho que essa faixa é um ótimo exemplo disso.
Paula: Tenho muitas perguntas, estou até um pouco nervosa (risos). Como fundadora do Beyond the Black, hoje é mais fácil separar seus papéis como líder da banda, compositora e cantora?
Jennifer: Você pode repetir a pergunta? Desculpe.
Paula: Claro. Existe uma divisão clara de responsabilidades dentro da banda? Como funciona o processo quando vocês estão compondo e gravando, considerando que você também é compositora e líder?
Jennifer: Obrigada por esclarecer. A composição no Beyond the Black é feita principalmente por mim e pelo nosso guitarrista, Chris. Fazemos grande parte do trabalho juntos. Quando se trata de decisões gerais, nós quatro decidimos em conjunto, mas cada um tem responsabilidades específicas, como merchandising ou outros aspectos. Ninguém faz tudo sozinho, e eu também não faço tudo sozinha. Cada um tem suas funções.
Paula: Hoje em dia, vemos muitas bandas na mídia por conflitos internos, e isso não é bom para o heavy metal (risos).
Jennifer: Estou tentando manter meus caras unidos.
Paula: E você consegue, isso é incrível.
Jennifer: Para mim, é muito importante que o tempo que passamos juntos seja bom. Se você não estiver se divertindo, não faz sentido ser músico. Na turnê, ter a equipe certa e boas pessoas por perto também é fundamental.
Paula: Eu vi vocês em São Paulo e senti uma energia muito positiva. Dá para perceber que vocês são uma banda de verdade. Foi incrível assistir ao show.
Jennifer: Muito obrigada.
Paula: Posso fazer mais uma pergunta? Como está o seu tempo?
Jennifer: Acho que ainda tenho uns cinco minutos antes da próxima entrevista.
Paula: Após o lançamento do álbum, vocês pretendem fazer uma turnê específica para Break the Silence?
Jennifer: Sim, teremos uma turnê pela Europa em janeiro e fevereiro. Vamos tocar algumas das músicas novas, claro. A turnê começa por volta de 15 de janeiro, logo após o lançamento do álbum, então estaremos bem ocupados.
Paula: E vocês pretendem voltar ao Brasil em 2026 ou 2027?
Jennifer: Ainda não sabemos, mas quando estivemos aí e vimos o público incrível, dissemos: “Precisamos voltar”. A energia foi maravilhosa, e tocar para pessoas assim é algo que amamos. Com certeza voltaremos, só não sabemos quando.
Paula: No Brasil, a banda é muito querida. Eu sou uma grande fã — adoro sua voz, seu estilo e o som moderno da banda. Posso fazer uma pergunta pessoal?
Jennifer: Claro!
Paula: O que você gosta de fazer quando não está no palco?
Jennifer: Boa pergunta (risos). Gosto de assistir a séries. Mas, sinceramente, minha vida gira muito em torno da música. Também gosto de estar com minha família. Tenho uma afilhada, e passar tempo com ela realmente ilumina meu coração.
Paula: Que bonito. Eu também sou mãe, e a família é muito importante para mim.
Jennifer: Eu não sou mãe, sou “apenas” a tia.
Paula: Mas hoje em dia é quase como ser mãe.
Jennifer: De certa forma, sim.
Paula: Muito obrigada pelo seu tempo.
Jennifer: Muito obrigada pelo seu tempo e pelo seu interesse. Espero voltar ao Brasil muito em breve.
E atenção aos amantes do Metal Sinfônico: Não deixe de conferir a obra de arte musical “Break the Silence”! Em tempo, ainda no mês de janeiro de 2026, o Beyond The Black dará início à sua próxima turnê europeia como atração principal, Rising High, coincidindo com o lançamento de seu aguardado sexto álbum de estúdio, lançado hoje, dia 9 de janeiro.
Mais um lançamento de peso para este início de ano. Estamos falando da banda alemã Beyond The Black, que chega em 2026 com seu sexto álbum de estúdio, Break The Silence.
Inicialmente, convém dizer que se trata de uma obra bastante conceitual, com várias nuances ao longo das faixas. Conforme a própria banda divulgou, Break The Silence possui raízes no metal melódico e influências étnicas, explorando temas como comunicação, força interior, resiliência e a necessidade urgente de reconexão em um mundo dividido. Novamente vemos o caos mundial como parte de uma obra musical, mas esta, em particular, foge do óbvio, pois nos apresenta o caos apenas como uma peça de um quebra-cabeça, em que cada parte vai se encaixando ao longo da audição.
A primeira faixa, “Rising High”, já mostra uma mistura de sons e riffs enérgicos, com pausas características na melodia, para um retorno dos vocais em força total, trazendo uma mensagem clara de superação e renascimento. Logo na sequência, chega a faixa-título, “Break The Silence”, que entrega exatamente o que promete: elementos bem característicos do metal sinfônico, com os vocais poderosos de Jennifer Haben, que reforçam a identidade da banda e comprovam tratar-se de uma canção atemporal.
Com “The Art Of Being Alone”, que conta com a participação do grupo Lord Of The Lost, também em ascensão no mainstream, o tom se torna mais sério. O início é belíssimo, quase onírico, porém carregado de melancolia. A junção musical das duas bandas alcança um alto nível, agradando tanto aos fãs quanto àqueles que ainda não conheciam o trabalho do Beyond The Black. Inclusive, esta foi uma das faixas escolhidas como single e ganhou videoclipe de divulgação do novo álbum.
Após essa pancada espiritual, chega “Let There Be Rain”, com a belíssima participação do grupo vocal feminino The Mystery of the Bulgarian Voices. O folk tradicional da Bulgária torna a música bastante peculiar, sem que ela perca peso ou melodia. A faixa funciona como um respiro para o ouvinte, deixando o disco ainda mais interessante e adicionando um novo elemento cultural à construção de Break The Silence. Além disso, evidencia como a música pode quebrar barreiras ao unir estilos distintos de forma assertiva.
Até este ponto, já é possível perceber que o disco representa um marco na carreira da banda. Apesar do ótimo antecessor, que ampliou significativamente o público do Beyond The Black e levou o nome do grupo a grandes festivais mundiais, este novo lançamento consegue superá-lo. Em tempo, dentre tantas diversidades, surge “Raven”, uma das minhas faixas favoritas do álbum. Além das participações especiais de diversos artistas, nesta música em particular, a banda resgata momentaneamente suas raízes, lembrando-nos de que, apesar das mudanças, o conforto ainda habita o âmago de sua essência.
Na sequência, temos mais uma peça importante: “The Flood”, que incorpora elementos industriais ao som da banda, transmitindo uma sensação de imperfeição e indiferença. Para equilibrar as forças, surge “Can You Hear Me”, um pedido carregado de emoção e um nó na garganta, com a excelente participação vocal da cantora Asami, da banda japonesa Lovebites. A união de sua voz com a de Haben resulta em uma faixa intensa, repleta de sentimentos à flor da pele, reforçando mais uma vez o contraponto cultural presente no álbum.
Quase ao final do disco, vale uma licença poética para comentar a oitava faixa, “(La vie est un) Cinéma”, que em português significa “(A vida é um) cinema”. Trata-se de uma verdadeira pérola, tanto na letra quanto no instrumental. Não é de hoje que o francês exerce forte apelo quando bem inserido na música pesada, e aqui o resultado é um deleite para os ouvidos. A canção carrega uma mensagem poderosa de união e entrega pessoal, que se manifesta em momentos cruciais, tanto na vida quanto nos filmes. A penúltima faixa, “Hologram”, é muito boa, embora não se destaque tanto quanto as demais.
Por fim, o álbum se encerra com “Weltschmerz”, termo alemão que, segundo o Dicionário Cambridge, expressa uma tristeza profunda e um desalento em relação ao mundo, sendo frequentemente citado como exemplo de sentimentos complexos sem tradução direta para o inglês. A proposta musical aqui se aproxima do metal sinfônico, mas incorpora elementos sonoros e instrumentais que remetem a uma atmosfera digna de “Senhor dos Anéis”, fazendo o ouvinte sentir parte da melancolia à qual o termo se refere. Um encerramento bastante assertivo.
Assim, vale sair da zona de conforto e apreciar Break The Silence, novo álbum do Beyond The Black, com lançamento marcado para o dia 9 de janeiro de 2026. Tudo indica que este trabalho tem grande potencial para figurar entre os melhores lançamentos do ano.