Realizado no Allianz Parque, em São Paulo, no dia 04 de abril, o Monsters of Rock chegou à sua nona edição reafirmando seu status como um dos principais festivais do gênero no país. Com um line-up diverso que mesclou nomes clássicos e novas promessas, incluindo Guns N' Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme, Halestorm, Yngwie Malmsteen, Dirty Honey e Jayler, o evento foi conduzido com carisma pelos mestres de cerimônia Eddie Trunk e Walcir Chalas, que ajudaram a manter a energia do público entre as apresentações. Em um dia marcado por grandes performances, estrutura de alto nível e uma verdadeira celebração do rock em suas diferentes vertentes, o festival mais uma vez transformou a capital paulista em ponto de encontro obrigatório para fãs de música pesada.
Abrir um festival do porte do Monsters of Rock nunca é uma tarefa simples, ainda mais quando o público chega aos poucos, sem necessariamente conhecer quem está no palco. Foi nesse cenário que a jovem banda britânica Jayler assumiu a responsabilidade de dar início ao dia e fez isso com segurança e personalidade, transformando um horário ingrato em uma oportunidade de converter curiosos em fãs. A banda, liderada pelo carismático James Bartholomew, deu início com “Down Below” e seguiu com “The Getaway” e “No Woman”. A faixa “Riverboat Queen” explodiu com um solo de gaita visceral, que Bartholomew executou enquanto corria pelo palco. Rolou também uma versão blues de “I Believe to My Soul”, de Ray Charles. O encerramento com “Over The Mountain” e “The Rinsk” manteve a aura setentista do som deles e agradou aos presentes. Ao final, uma coisa fica evidente: a semelhança com o Led Zeppelin, tanto no som quanto no visual. Para quem gosta de algo no estilo dos veteranos do Led Zeppelin, é um prato cheio e bem-feito, mas longe de superar seus mestres.
A segunda atração foi a banda Dirty Honey, entregando uma performance robusta e cheia de atitude. Abrindo com a energia de “Won’t Take Me Alive”, a banda rapidamente cativou o público, seguindo com “California Dreamin’” e “Heartbreaker”, que demonstraram a coesão do quarteto. Um dos momentos mais marcantes da apresentação foi durante “Don’t Put Out the Fire”, quando o carismático vocalista Marc LaBelle desceu ao pit, interagindo diretamente com os fãs e elevando a conexão entre banda e público. A performance continuou com a intensidade de “Another Last Time” e “Lights Out”, que prepararam o terreno para o solo de guitarra de John Notto. Encerrando o show com “When I’m Gone” e “Rolling 7s”, o Dirty Honey deixou uma boa impressão, provando que seu hard rock clássico e sem frescuras é adequado para qualquer público.
A apresentação de Yngwie Malmsteen foi uma verdadeira aula de virtuosismo, desmontando qualquer narrativa de que o guitarrista estaria em baixa. Muito pelo contrário: Malmsteen mostrou-se em ótima forma física e técnica, esbanjando precisão e velocidade. Acompanhado por Nick Marino (teclados e vocal), Emi Martinez (baixo) e o excelente baterista Kevin Klingeschmid, o guitarrista sueco abriu a apresentação com a explosiva “Rising Force”, seguiu com “Top Down, Foot Down” e “No Rest for the Wicked”, não dando trégua: passou por “Soldier”, “Into Valhalla”, “Baroque & Roll”, “Relentless Fury” e a sequência épica “Now Your Ships Are Burned / Caprice no. 24”. O público, em sua maioria fãs de Guns N’ Roses, reagiu de forma um pouco morna no início, mas quem foi para ver shredding puro saiu impressionado com a entrega total do mestre.
O set ainda reservou momentos de puro fogo com “Wolves at Your Door”, o medley sensacional “Paganini 4th / Adagio / Far Beyond the Sun / Bohemian Rhapsody”, “Fire and Ice”, “Evil Eye” e uma versão de “Smoke on the Water”, do Deep Purple, cantada pelo próprio guitarrista. Passando por “Trilogy Suite Op. 5”, “Overture” e “Badinerie”, reforçou suas influências clássicas enquanto parecia brincar com seu instrumento. A reta final com “Black Star” e “I’ll See the Light Tonight” encerrou a apresentação com chave de ouro, deixando claro que, apesar de qualquer percepção externa, Malmsteen continua sendo uma lenda no mundo do metal neoclássico, entregando tudo o que se espera de um verdadeiro virtuose.
Na sequência, o Halestorm subiu ao palco e rapidamente mudou o clima do festival. Liderado pela vocalista e guitarrista Lzzy Hale, o que se viu foi uma força da natureza em ação. Lzzy se entrega de corpo e alma a cada nota, correndo pelo palco, interagindo com o público e usando sua voz, que simplesmente beira o absurdo: potente, versátil e cheia de atitude. Para quem não conhecia a banda, saiu do show absolutamente maravilhado. O set começou forte com “Fallen Star”, “Mz. Hyde”, “I Miss the Misery”, “Love Bites (So Do I)” e “Watch Out!”. No entanto, o ponto alto veio com a sequência de “Like a Woman Can”, “I Get Off” e “Familiar Taste of Poison”. A diversidade das músicas proporcionou uma dinâmica envolvente, na qual Lzzy pôde mostrar todo seu talento com seu potente vocal, ora agressivo, ora delicado, em meio a belas melodias que colocaram o Allianz Parque literalmente aos seus pés. Com o jogo ganho, tocaram a pesada “Rain Your Blood on Me”, culminando em um solo de bateria de Arejay Hale, que arriscou ritmos brasileiros e depois usou baquetas gigantes que mais pareciam cabos de vassoura, chegando até a arrancar algumas risadas do público. Encerraram com “Wicked Ways” e “I Gave You Everything”, não deixando pedra sobre pedra e o público sedento por mais.
É engraçado que, antes do show, algumas pessoas da mídia especializada comentavam que Lzzy era exagerada ou que sua voz poderia irritar; depois da apresentação, todos mudaram completamente de ideia. O Halestorm não apenas conquistou novos fãs, mas também solidificou sua reputação como uma das bandas mais empolgantes e autênticas da atualidade, com Lzzy Hale roubando a cena, incendiando o público e transformando a apresentação em um dos momentos mais marcantes do festival.
Com tudo isso, o Extreme subiu ao palco com uma difícil tarefa e, para ajudar, sob uma forte chuva que fez muita gente correr para se abrigar no estádio. Mas, felizmente, o temporal durou poucos minutos e o show continuou com tudo. Arrisco dizer que o Extreme foi a banda que tocou mais pesado no festival, desmistificando a ideia de que sua carreira se resume à balada “More Than Words”. O vocalista Gary Cherone demonstrou ser um performer nato, enquanto o guitarrista Nuno Bettencourt provou que seu virtuosismo está no mesmo patamar de Malmsteen.
Abriram com “It ('s a Monster)” e “Decadence Dance”, já mostrando que o peso viria forte, e logo entraram em “#Rebel” e “Play With Me” (com a intro de “We Will Rock You”, do Queen). Apesar de o som do P.A. ter caído por alguns segundos, ficou evidente que o grupo vai muito além do rótulo de banda de baladas. O ritmo seguiu intenso com “Am I Ever Gonna Change” e “Thicker Than Blood”, revelando composições pesadas e virtuosas que colocam o Extreme no lugar de destaque que merece.
Mesmo as instrumentais “Flight of the Wounded Bumblebee” e “Midnight Express” empolgaram e serviram para mostrar a técnica de Nuno. E, como não poderia faltar, a balada e hit “More Than Words” fez o estádio vir abaixo, com todos cantando. Despediram-se com o groove contagiante de “Get the Funk Out” e o peso de “Rise”, acabando com qualquer estigma que a banda pudesse ter. Com uma performance intensa, técnica e cheia de personalidade, a banda conseguiu equilibrar peso, groove e virtuosismo, deixando claro que não apenas honra seu legado, mas também segue renovada e pronta para conquistar novas gerações.
Era hora do Lynyrd Skynyrd, e o clima já anunciava que não seria um show qualquer. Havia um consenso claro entre o público: a banda é uma verdadeira instituição do southern rock americano e merecia todo o respeito. E foi exatamente isso que aconteceu. Quando iniciaram com “Workin’ for MCA” e “What’s Your Name”, os fãs deram uma recepção calorosa. A sequência seguiu com clássicos como “That Smell”, “I Need You”, “Gimme Back My Bullets”, “Saturday Night Special” e “Down South Jukin’”, mostrando a banda em ótima forma, entregando o som característico de guitarras gêmeas, groove pesado e atitude que define o Lynyrd Skynyrd há décadas.
O clima ficou ainda mais emocionante quando tocaram “Tuesday’s Gone”, dedicada a Gary Rossington, trazendo um momento de homenagem e respeito, preparando o terreno para um dos pontos mais marcantes da noite: “Simple Man”. Com a bandeira do Brasil projetada no telão e o céu iluminado por um mar de celulares, a canção provocou uma reação intensa do público, com muitos fãs visivelmente emocionados, alguns às lágrimas enquanto cantavam esse hino. A banda seguiu com “Gimme Three Steps” e o cover de J.J. Cale, “Call Me the Breeze”, mantendo o público totalmente envolvido. O ápice chegou com o mega hit “Sweet Home Alabama”, que teve uma breve introdução de “Red, White & Blue”. Nessa hora, ninguém ficou parado. Cheguei até a ver um segurança dançando e curtindo o momento, em uma cena que sintetiza perfeitamente o poder da música, e tudo fez sentido.
Para encerrar, a banda voltou para o encore com a épica “Free Bird”, dedicada aos integrantes que já se foram. A homenagem foi especialmente comovente: imagens de Ronnie Van Zant foram projetadas no telão enquanto a banda tocava, permitindo que o público ouvisse mais uma vez a voz do lendário vocalista junto com a formação atual. Foi uma despedida emocionante, respeitosa e grandiosa, deixando claro porque o Lynyrd Skynyrd continua sendo reverenciado como uma das maiores bandas da história do rock.
O Guns N’ Roses encerrou com autoridade a edição de 2026 do Monsters of Rock no Allianz Parque. Apenas seis meses após um show histórico no mesmo palco, que registrou o maior público da arena, a banda voltou como headliner do festival e entregou uma apresentação energética, dinâmica e cheia de surpresas. O setlist sofreu mudanças em relação à passagem anterior, tornando a apresentação mais especial para os fãs brasileiros que lotaram o festival. Axl Rose, Slash e Duff McKagan mostraram que o fogo do Guns ainda queima forte no palco.
A abertura com a explosiva “Welcome to the Jungle” já incendiou o público, seguida por “Slither” (do Velvet Revolver) e os clássicos “It’s So Easy”, “Live and Let Die” e “Mr. Brownstone”. A menos óbvia “Bad Obsession” agradou os fãs mais atentos, e então veio “Rocket Queen”, resgatando os bons momentos de Appetite for Destruction. Músicas como “Perhaps”, “Dead Horse”, “Double Talkin’ Jive”, “Nothin’”, “You Could Be Mine” e “Civil War” mostraram como a banda estava soando coesa e pesada. Como todos sabem, a voz do Axl hoje não é mais a mesma, mas é interessante como a percepção no show é bem diferente. Você não tem a sensação de que é a voz do Mickey, como muitos dizem por aí.
Um dos momentos mais marcantes foi a homenagem ao saudoso Ozzy Osbourne, com a faixa “Junior’s Eyes”, do Black Sabbath. Foi uma grata surpresa, e Axl comentou sobre a importância da música no início de sua carreira. Já “Knockin’ on Heaven’s Door”, de Bob Dylan, veio com uma introdução de “Only Women Bleed”, do Alice Cooper, e teve seu refrão cantado em dueto pelo estádio todo. Outro destaque foi “New Rose”, do The Damned, com Duff assumindo os vocais e trazendo uma pegada mais punk para o show.
Do material mais recente, tocaram “Atlas”, que deixou o clima morno, mas logo veio o solo do homem da cartola, que, como sempre, foi um espetáculo à parte, levantando o público e reafirmando seu status de ícone. O clímax veio com “Sweet Child o’ Mine”, aquele mega hit que até quem não gosta de Guns conhece. O estádio veio abaixo, mas não parou por aí. A sequência com “Estranged” e “Bad Apples”, tocada pela primeira vez desde 1991, foi um presente para fãs de longa data, e a monumental “November Rain” levou os fãs à loucura.
O encerramento com a eletrizante “Nightrain” e a apoteótica “Paradise City” foi incrível, com o Allianz Parque cantando junto e pulando. O retorno em poucos meses mostrou que a banda não se apresenta para cumprir tabela e reforçou seu status como uma das maiores bandas de rock da história. Para os fãs paulistanos, foi mais uma prova de que, mesmo com o tempo passando, Axl, Slash e companhia ainda sabem como transformar uma apresentação em uma experiência inesquecível.
A nona edição do Monsters of Rock mostrou mais uma vez sua força ao reunir nomes de diferentes vertentes e gerações, entregando uma experiência rica e dinâmica para o público. De apresentações tecnicamente impecáveis, como a de Yngwie Malmsteen, passando pela energia avassaladora do Halestorm, até a afirmação pesada e virtuosa do Extreme, o festival evidenciou que o rock segue vivo. Os veteranos do Lynyrd Skynyrd e Guns N Roses são mais do que nostalgia e ainda despertam a paixão que dos fãs. O sangue novo do Jayler e Dirty Honey mantiveram a chama viva do estilo em um dia que certamente ficará marcado na memória de quem esteve presente.


















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