segunda-feira, 13 de abril de 2026

Entrevista - Volúpia: "Seguimos Fazendo a Música que Gostamos"

 

Entrevista por: Caco Garcia 

Criada em 1984, a Volúpia fazia parte daquele movimento aguerrido da primeira fase do Rock Pesado brasileiro, onde tudo era feito na raça, o acesso a instrumentos e boas condições de shows e gravações era caro e difícil. 

As bandas contavam com a divulgação boca a boca, com os fanzines, programas de rádio e o material de divulgação era artesanal. 

Assim como várias bandas desse movimento na época, a Volúpia fazia suas letras em português, e ajudaram na pavimentação do Heavy e Hard aqui no RS, mas assim como muitas outras, por motivos diversos, chegou a encerrar as atividades no início dos anos 90, retornado em 2016, e recentemente lançando seu debut "DéJà Vu".

Conversamos com o baterista e fundador César Five (também baterista da Epitaph) para falar um pouco dessa história, sobre o debut, o cenário do Hard e Heavy atual, e mais! Confira a seguir.


RtM: A Volúpia surgiu em 1984, em plena efervescência do Rock e do Metal brasileiro. Como foi formar uma banda de som pesado em Porto Alegre naquela época?

César Five: Faz tanto tempo... 42 anos... (risos). O mundo era completamente diferente, não tinha redes sociais, não tinha instrumentos importados, a comunicação e divulgação de uma banda era por carta, boca a boca em cartazes na rua e as poucas revistas que tinham não eram muito precisas nas informações.

Montar uma banda de rock e, ainda por cima, de heavy metal e hard rock era no "tato" e muito influenciada pelas bandas que escutávamos na época e até hoje.

E foi uma época muito divertida e muito espontânea, pois se criava aquilo que muitas vezes nunca tinhamos visto, era raro passar shows na tv e lançamentos em vídeo.

O lado bom da época é que existiam os programas de rádio.


RtM: Nos anos 80 a Volúpia já apostava em Heavy/Hard autoral com letras em português. Naquele período isso era uma escolha natural ou também um desafio dentro da cena?

César Five: Na sua primeira fase a Volúpia era mais heavy metal, usávamos braceletes com metal e calças de malha, tipo Iron Maiden nos anos 80, mas aos poucos fomos descobrindo o nosso som e começamos a usar o visual mais hard rock, pois gostávamos de Dokken, Ratt, Scorpions, etc.

Acredito que a Volúpia, desde lá, já era uma banda de hard rock. Eu sempre digo para os caras hoje em dia que vamos manter a linha hard rock, pois já tenho uma banda de heavy Metal, a Epitaph, não preciso de duas (risos).

Escolhemos ter letras em português, pois as bandas que gostávamos como Astaroth, Spartacus, Overdose, etc, faziam isso. Além disso, o nosso público está aqui no Brasil e não lá fora.

RtM: Uma curiosidade da história da banda é que vocês chegaram a ensaiar no porão da Igreja Nossa Senhora da Glória, com autorização do padre. Como surgiu essa situação inusitada e quais lembranças ficaram dessa fase?

César Five: Sim, foi no período final da primeira fase da banda entre 1989 e 1990. 

O Ricardo e o Marco já não estavam mais na banda e tentamos uma formação nova, mas não aconteceu de tocarmos ao vivo, pois me acidentei de carro, com tudo isso, a banda acabou em 1990 e ficou parada até 2016, quando resolvemos voltar.

Eu voltei a tocar em 1998 e em 2000 montei a Epitaph que está na ativa até hoje. 

E sobre tocar no porão da Igreja, era muito divertido. Tinha baterias montadas, amplificadores e lá ensaiavam várias bandas de estilos diferentes de metal, principalmente thrash.


RtM: A banda participou da coletânea do IV Festival de Rock Viamonense, algo raro para bandas pesadas naquele momento. O que esse registro representou para a Volúpia naquela época?

César Five: A Volúpia ensaiava no bairro Santa Isabel em Viamão, na casa do Gustavo, nosso baixista à época. Aí surgiu a possibilidade de se inscrever no IV FEMUVI. Isso abriu espaço para tocarmos para um grande público, e a recompensa veio com a gravação de uma faixa na coletânea em LP da música “Princípio de Uma Nova Era”.

Em 1985 gravar algo em vinil era impensável.

Tenho muito orgulho disso. Inclusive fizemos uma nova versão mais moderna dessa música,  que apresentamos na festa de 40 anos do FEMUVI ocorrida no ano passado em Viamão.

RtM: Comparando o cenário do Metal brasileiro dos anos 80 com o atual, o que vocês sentem que mudou mais, seja em termos de público quanto de estrutura para as bandas? Ou seguem muitos dos velhos problemas?

César Five: As coisas eram mais orgânicas naquela época. Você construía a banda, colava cartazes, fazia flyers e conseguia fazer a música rodar na Ipanema FM.

E, com sorte, tinha alguma “notinha” nas revistas de metal como a Rock Brigade.

E como heavy metal era algo novo, os shows enchiam, mas não tínhamos os contatos que poderiam ter feito a banda crescer na época.

Eu não sou saudosista, mas hoje temos as ferramentas que facilitam como redes sociais e plataformas para colocar seu trabalho. O problema é que a música e a arte em geral viraram produtos descartáveis.


RtM: Hoje temos um mundo "imediatista" e da dopamina barata.

César Five: Gosto de dizer que todo mundo escuta de tudo e não ouve nada, fica tudo perdido naquelas playlists, onde a maioria nem sabe o que está ouvindo, quem fez a capa, etc.

Eu não tenho Spotify, compro CDs, LPS e DVDs, então para mim não mudou nada.

A música está perdida em algum lugar nesse mundo de plástico de hoje em dia, mas como não ligo para isso, sigo fazendo a música que eu gosto.

RtM: Em contrapartida com o lado "superficial" da atualidade, vemos um movimento interessante: novas bandas cantando em português e também vários grupos veteranos voltando à ativa. Como você enxerga essa nova fase do metal nacional?

César Five: É muito bom vermos os mais jovens derrubando o preconceito de cantar em Português.

É óbvio que a língua do metal é o Inglês, mas isso não impede de fazer isso na língua do teu país.

Já vivemos encaixotados em tantas regras, felizmente isso mudou e não existe censura para a arte.


RtM: Em 2025 vocês lançaram o álbum “Déjà Vu”, pela Insanity Records. Como foi o processo de composição e gravação desse trabalho? Ele traz mais nostalgia ou uma visão atual da banda? 

César Five: O álbum foi lançado de forma independente. A Insanity Records apenas nos ajudou na divulgação. Todas as músicas, exceto a “Déjà Vu” e a "Adrenalina", foram regravações de material da primeira fase da banda na década de 80. Era um material que modernizamos com pequenas alterações, mantendo a essência das músicas.

A gravação teve atrasos devido a pandemia, mas após termos as guias definidas, gravei minhas partes de bateria. As cordas e os vocais foram gravadas no estúdio Casa dos Gatos, em São Leopoldo, pertencente ao nosso guitarrista Luciano Reis.

Eu gravei uma bateria lá também, inclusive.

A mixagem ficou a cargo do Lucas Santorum da LST Records.


RtM: A capa e título creio que trazem algumas pistas dos sentimentos que permeiam o trabalho.

César Five: A capa foi feita pelo artista gráfico Rômulo Dias, que produz capas de muitas bandas e ao escutar nossos singles trouxe essa ótima ideia da capa que traduz o que somos: caras velhos que sempre se veem como jovens (risos).

RtM: Os singles “Poderes e Forças” e “Rolando no Asfalto” anteciparam o disco. Como foi o retorno do público em relação a essas músicas?

César Five: “Poderes e Forças” é uma música forte, por sinal escrevi essa letra, e acho ela ótima para tocar ao vivo.

Com relação à "Rolando no Asfalto”, ela foi composta pelo Claus Steiner Campos, guitarrista que tocou com o Marco Canto em uma outra banda que não me lembro o nome. Essa música foi incorporada ao nosso repertório por ter tudo a ver com a banda.


RtM: E como vocês estão se sentindo agora, depois dos anos de hiato, e o retorno e na sequência, o lançamento do álbum? A chama voltou a arder mais forte e trouxe motivação para seguir por mais anos e continuar criando e tocando Heavy Metal?

Estamos bem felizes com esse álbum. Vendemos quase todas as cópias em CDs que fizemos. Fizemos alguns shows no ano passado, mas, nesse ano, a ideia é divulgar bastante ao vivo e já começar a compor o novo material, que terá ainda algumas músicas do passado, mas com muitas músicas novas que vão mostrar a nova fase da banda. Posso dizer que são ótimas, pois evoluímos como músicos e compositores.


RtM: As letras da Volúpia sempre tiveram identidade própria em português. De onde costumam surgir as inspirações: experiências pessoais, histórias de estrada, observação do cotidiano ou aquele clima clássico do rock dos anos 80?

César Five: As letras da banda são um caso à parte. Eu escrevi a “Poderes e Forças” e “Lembranças” quando tinha 20 anos e são músicas que ainda funcionam, pois falam do mundo apocalíptico e do amor envelhecido. Elas são atuais, assim como as demais.

Temos a “Adrenalina”, que foi composta depois do retorno da banda em 2016. A letra foi escrita pelo Adriano Lampert, filho do baixista Ricardo Lampert. Ela fala sobre o encontro do seu pai com os amigos do passado. 

Eu contribuí com a outra metade da letra, pois havia ficado insuficiente para a música que eu e Ricardo fizemos. Tem a “Rebelião”, cuja letra é do saudoso Gérson Leal, que foi nosso vocalista anterior ao Marco Canto. 

A Último Entardecer foi escrita pelo guitarrista Victor Hugo Rosa, um dos fundadores da banda. As demais letras são de autoria do Marco Canto e falam sobre aventuras e desejos juvenis.

RtM: Toda banda com tempo de estrada tem histórias curiosas ou engraçadas. Existe algum episódio marcante ou inusitado em show, ensaio ou viagem que vocês possam compartilhar com a gente?

César Five: Em 1985, fizemos a abertura do festival de música do IPA, em Porto Alegre. Iniciamos o show com uma música instrumental. Na segunda música, o nosso então vocalista Alexandre Torres apareceu no palco fantasiado de vampiro, sem nos comunicar absolutamente nada sobre isso (risos). 

Foi uma tremenda surpresa pra nós e para o público, que não entendeu nada sobre o que isso tinha a ver com a banda. O Alexandre fez performances que nunca havia feito antes. Nos deixou bastante incomodados, porém, seguimos tocando o nosso setlist normalmente, afinal o show tinha que continuar. 

No final da apresentação, o Alexandre simplesmente foi embora sem nos avisar. Acho que ele sentiu que nós não havíamos gostado nada do que ele havia feito. Enfim, o resultado foi a demissão dele da banda.


RtM: Muito boa! Tipo "rimos muito, e depois o demitimos" (risos). Bom, para encerrar, os tempos são diferentes, mas que mensagem ou conselho vocês dariam hoje para quem está montando sua primeira banda de Heavy Metal, seja recém ensaiando, ou já buscando espaço para tocar, assim como vocês fizeram nos anos 80, qual seria esse recado?

César Five: O recado que eu dou para quem se aventura na música é que faça o que gosta, não espere sucesso, mulheres e etc, pois hoje em dia isso é impossível. O rock infelizmente está fora da mídia há uns 20 anos aqui no Brasil.

Você vai gastar dinheiro, tempo, e se não for para fazer o que gosta vai ser mais complicado.

Eu sempre encarei a música como um hobby levado a sério, então nunca tive decepções.

O retorno que a música te dá é aquilo que você dedica a ela.


Fotos: Arquivos do artista 

Links Relacionados: Resenha do álbum 

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