quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Black Pantera: O Mundo Tem Pele Preta

Deckdisc (Nac.)

Por Lais Rüdiger (@lais.rudiger) e Eduardo Okubo Jr. (@eduardookubojunior)

Continental, o quinto álbum do trio formado por Charles Gama (guitarra e vocais), Chaene da Gama (baixo e vocais) e Rodrigo Pancho (bateria e percussão) tem a missão de seguir o sucesso de crítica e público do Perpétuo (2024), que foi o passo mais importante da banda para furar a bolha do underground e de expandir seu público.

As letras continuam versando sobre representatividade, sobre racismo, desigualdade social, política e igualdade de gênero. Dessa vez a mistura agrega geopolítica, globalização, viagens no tempo e até samurais.

Continental, ao mesmo tempo que mantém a identidade da banda (tem peso, velocidade e a agressividade do Hardcore Punk, Trash Metal e Hardcore), também flerta com novos estilos: temos aceno ao Punk Rock-Pop em "Velho Jeans Rasgado" e "Sic Mundus", MPB com "Quando Canto" com a voz poderosa de Sandrá Sá e a belíssima "Banzo" com a companhia de Chico César e até trilhas sonoras.


Continental 

"Nós somos a América do Sul" 

"Nós não somos seus inquilinos" 

"Eles não são o mundo"

E assim começa a faixa "Continental" com uma muralha sonora, crua, rápida e pesada mostrando que o Black Pantera segue sendo a mesma banda que não tem medo de tocar o dedo na ferida das mazelas da sociedade. E aqui temos a participação especial mais inusitada e importante do álbum: "porque eu tenho que acreditar que a história vai ser sempre feita por eles?" Milton Santos aponta que podemos ser uma força criativa e transformadora que pode ditar os destinos do mundo.

O Mundo somos todos nós e o mundo tem pele preta!



Serotonina 

"Você pode ser fã de RDP, BTS, Negra Li, Jorge Be...Rock , Funk, Rap..." O baixo do Chaene da Gama comanda essa faixa cheia de groove e com a bela voz da Duquesa dando um toque feminino e feminista para a faixa. 

"Não vou gastar meu alfabeto com vacilão" já escuto as plateias cantando junto esse refrão marcante.

Hórus

Com foco na religiosidade, “Hórus” traz explicitamente em sua letra elementos que transitam entre o catolicismo e religiões de matriz africana, assim como a simbologia da divindade egípcia que dá título a música. Uma crítica social ao corpo negro, que na grande maioria das vezes é apontado sob os holofotes de maneira pejorativa ou como ameaça, tendo que limitar seus movimentos e tomar cuidado na hora de se vestir para não ser confundido com o estereótipo pré conceituado de ladrão. E esse julgamento acontece até mesmo entre os próprios negros, quando colocados em posições de vigiar e punir para monitorarem cada passo daqueles que possuem a sua cor de pele. 

Dentre os versos da canção, a cidade natal da banda, Uberaba, recebe também a sua homenagem, lembrando sempre a importância que o Black Pantera carrega por destacar suas raízes.    

Quando Canto (com Sandra Sá)

No batuque do tambor de “Quando Canto”, faixa em parceria e iniciada com a voz de Sandra Sá, ocorre a exaltação do povo preto pelo povo preto. A fusão do singular com o plural. O destaque da coletividade, da reunião das vozes que perduram sua luta através das gerações. A morte ganha protagonismo, para dimensionar o empenho dos que foram até o fim buscando por melhores condições de vida e que agora finalmente chegaram num lugar aonde a dor não os alcança. E apesar da passagem física dos que já foram, a herança da voz permanece.  

Gostaria de destacar a bela união sonora gerada pelo metálico da guitarra e os instrumentos de percussão, que vão ganhando intensidade ao longo da música e explodem na bateria de Rodrigo Pancho.

Velho Jeans Rasgado

Uma bela faixa que começa com o baixo marcante do Chaene e um "Hey, Hey, Hey" que já entrega a influência do Punk Rock, me lembrou Ramones, melódica e dançante.

"Quantas vezes o horizonte foi a minha casa"

Uma faixa que narra as dificuldades de quem faz o corre, que vive na estrada; temos o sofrimento, superação, resiliência; a saudade de quem amamos; e quem sabe as conquistas merecidas no final da jornada. É uma bela homenagem para todos que vivem de música, se apresentando para 10, 20, 100 ou uma arena cheia. 

E que bom que o corre de vocês valeu a pena, Charles! 

Negusa Nagast 

Bateria, baixo, riffs poderosos e a marcante voz de Chaena da Gama (cantando cada vez melhor) comandam a faixa. "Deixa a Gira girar, que ela vai te guiar..." uma belíssima faixa que mostra a evolução do trio como músicos. O título da música significa na língua ge'ez Rei dos Reis, e era uma referência ao último imperador etíope, que é uma figura sagrada para o movimento rastafári.

Start The Game

A ferocidade de “Start The Game” está mergulhada no universo dos jogos de vídeo game, numa narrativa que destaca a individualidade de cada jogador em busca de chegar ao final de uma fase para avançar para a seguinte, sem pensar no coletivo. Cada um por si, mentes manipuladas para estarem em combate umas com as outras a todo momento e a ponderação do quanto custou chegar até o fim da linha para alguns poucos jogadores. Mal sabem eles que essas cartas já são marcadas e, na verdade, o jogo nunca chega num término real, porque depois da última fase, tudo recomeça. 

Uma reflexão sobre as questões sociais de manipulação e poder.

Obsoleto 

"Preciso de atualização, me sinto obsoleto", verdade que as vezes todos nos sentimos assim com essa loucura que é o mundo moderno. A faixa vai direto ao ponto, com essa letra que aparenta ser simples, mas que traz uma reflexão atual e universal. Aqui temos outra aguardada participação mais do que especial: Derrick Green (vocalista do Sepultura), cuja performance vocal encaixa perfeitamente com o som do Black Pantera. Derrick mostra que envelheceu bem, como um bom vinho e a dobradinha com Charles Gama é maravilhosa.  

O vocalista da maior e mais influente banda de Metal do Brasil bem que poderia dar uma canja em algum show do trio de Uberaba.

Meu sonho é ouvir “é Black Pantera do Brasil, um, dois, três, quatro".

P.S.: Temos uma inesperada homenagem ao Metallica na faixa Black Pantera, é isso mesmo?

W.P.P.

Começando pelo refrão, a visceral “W.P.P.” descreve como pessoas brancas e com poder aquisitivo reclamam a todo o momento de fatos rotineiramente banais, o que ironicamente ficou conhecido na Internet como White People Problem. A letra também destaca o privilégio branco, as regras que não são aplicadas e a justiça da impunidade, de uma Lei que não é válida para todos. 

Aborda ainda uma temática muito polarizada, que é remetente as questões das ações de políticas públicas, que buscam minimizar as discrepâncias de direitos na fenda criada no período da escravidão e que perdura até os dias atuais.

Banzo (com Chico César)

Black Pantera é uma banda que sempre vai tocar nas feridas deixadas nos negros. A temática de “Banzo” – palavra existente e de origem banto – é envolta numa malemolência sonora diferenciada do habitual e com versos na voz de Chico César, retratando a questão da saúde mental e física que a negritude carrega desde a época da escravidão. 

Remetendo a uma comparação entre brancos e negros, entre quem tem recursos e quem não tem, essa letra destaca o fato de que somente quem passa por uma determinada situação tem o real entendimento das dores provocadas por ela. Afinal de contas, é muito fácil falar de meritocracia quando se tem recursos financeiros. Na prática, uma barriga vazia não significa somente fome, mas também uma limitação orgânica para obtenção e desfrute de um melhor aprendizado teórico. Sem combustível para um corpo, são a mente consequentemente também não consegue ficar sã. E vice-versa. 

Uma criança que perde o brilho da infância trabalhando cresce sendo um adulto amargurado muitas das vezes, o que pode se transformar numa raiva não compreendida pelos chefes que só vivem para manter as aparências. O rico não sobreviveria um dia sendo pobre.


Yasuke

‘Temos trilha sonora de abertura de anime? Temos sim! Mais uma piscadela da banda para a Cultura Geek. Yasuke, personagem do anime de mesmo nome, e que por sua vez é baseado na história real do primeiro Samurai negro do Japão. E a temática do personagem cabe perfeitamente no discurso da banda. 

Agora resta um desejo: Chaene tem que aparecer vestido de Samurai algum dia desses nas apresentações ao vivo da banda, empunhando sua katana e seu baixo como um verdadeiro Samurai que ele é.

Sic Mundus

Ouvir os dois irmãos cantando junto a letra da música é absurdamente bom, uma letra esperta, cheia de referências. "O Passado se faz presente, ninguém veio do futuro para nos salvar" o nosso destino está em nossas próprias mãos, não podemos continuar passivos diante das injustiças, da máquina de moer gente e dos devoradores de mente. Mais uma bela música com refrão delicioso de se cantar ao vivo junto com a banda e balançando a cabeça junto, e, fazendo a gente refletir sobre o mundo no qual vivemos. 

"Sic mundus creatus est" - "Assim o mundo foi criado" piscou e perdeu mais uma referência Geek, desta vez à série da Netflix Dark.

Punhos Cerrados

Descrevendo um posicionamento corporal de encorajamento, “Punhos Cerrados” é uma exaltação ao partido revolucionário socialista norte americano dos Panteras Negras, criado em 1966. O grupo foi formado com o intuito de proteger a população negra, através de patrulhas armadas e combatendo a violência policial. Mais uma vez um ato de autoproteção do povo preto. 

Além da defesa armada, o grupo urbano também desenvolvia projetos sociais comunitários. E é justamente por conta desse movimento que ganhou notória visibilidade na questão dos direitos civis e na luta antirracista que esse trio fundou uma banda e a nomeou de Black Pantera. Mas que fique bem claro: estude sobre os movimentos revolucionários e não confunda o oprimido com o opressor!


Divulgação

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