quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Entrevista - Epitaph: "Tínhamos um Material Forte, que Lapidamos Dentro do Estilo que a Banda é...Puro Heavy Metal!"

 


Por: Caco Garcia 
Fotos: Divulgação/Arquivo da banda e Vinny Vanoni

Formada em Porto Alegre RS, e com quase três décadas de história a Epitaph passa por um momento especial, lançando no final de junho seu segundo full-lenght, "Digital Screams", o qual vem sendo muito bem recebido por critica e público.

O álbum traz uma banda muito mais coesa, adicionando mais peso e novos elementos ao seu Heavy/Trash Metal.

Conversamos com um dos seus fundadores, o baterista César "Five", que nos contou mais detalhes do álbum e planos e expectativas para levar o nome da Epitaph cada vez mais longe.


RtM:"Digital Screams" chegou 17 anos depois de "Gettin' Down to Business". O que fez esse processo levar tanto tempo? Claro, há sempre as dificuldades enfrentadas por uma banda independente.

César Five: O "Digital Screams" teve seu processo de lançamento atrasado devido aos problemas que todas as bandas têm, como troca de integrantes, falta de recursos financeiros, de como o mercado do heavy metal estava e como as pessoas consomem música, além da pandemia e a enchentes aqui no RS, mas nunca pensamos em não lançar o álbum físico. 


RtM: Realmente, mesmo com os custos e também com crescimento do streaming, sempre há público que prefere e gosta de ter o material físico.

César Five: Eu já estaria fora da música se não existisse meios de lançar o CD físico, pois é a realização material da tua obra, da tua música. As pessoas diziam que não existiriam mais livros e filmes, mas eles estão aí assim como LPs ,CDs e outras mídias físicas, pois sempre haverá quem prefira esse material. Esse atraso acabou por ajudar na qualidade final do trabalho, pois acertamos todos os detalhes que acabaram por tornar esse álbum como queríamos.

RtM: O álbum impressiona pela qualidade sonora, produção, arte gráfica e edição física. Em tempos de streaming, é louvável aa bandas independentes investirem em um CD físico, sabendo dos altos custos envolvidos, e o retorno geralmente mais lento. 

César Five: Embora as despesas de fazer um álbum físico sejam grandes, decidimos fazer 200 cópias(comprem, pois vai virar raridade) que felizmente estão sendo vendidas rapidamente. Era fundamental para nós lançarmos o álbum físico, mesmo pressionados pelo tempo entre o primeiro álbum e esse, queríamos que essas músicas chegassem às pessoas como uma obra completa, e não aos pedaços, como singles espalhados pelas plataformas. 


RtM: Que ótimo, recentemente vimos artigos falando sobre o aumento das vendas de CDs, então isso é satisfatório para quem seguiu acreditando no material físico.

César Five: Sim, isso é ótimo. E a espera e o esforço valeram a pena. Ter o material físico te coloca em outro patamar, até para negociar shows, e o fã pode ir no show e levar na hora a lembrança. Nesse momento você encontra as pessoas que gostam da tua música.


RtM: E complementando o que comentamos antes, muitas bandas independentes acabam lançando apenas singles por questões financeiras, mas a Epitaph  apostou em um álbum completo, concebido como uma obra única, mesmo diante de tantos desafios.

César Five: Não haveria sentido para nós lançarmos singles nas plataformas digitais, que embora fundamentais hoje em dia, não te trazem nada além de contatos e curtidas, e que não demonstram se o material é forte e se chegou ao público. 

E depois de ver o trabalho pronto, acharia uma grande injustiça não tornar um material físico o esforço de todos que compuseram, gravaram, produziram, escreveram as letras, conceberam e fizeram a capa, todo o trabalho gráfico, enfim a alma de tudo virar um simples arquivo, sem vida que pode ser deletado com apenas um toque após ser escutado. 


RtM: Sim, a materialização da obra. Como colecionador e defensor da mídia física, eu aplaudo a iniciativa de todos que seguem lançando CDs e LPs.

César Five: Gostaria que fosse lançado em LP mas os altos custos impossibilitaram, mas esse CD tem encarte, letras, fotos, capa que faz a experiência da audição muito mais interessante.

RtM: Ao ouvir o álbum, fica evidente uma evolução em direção a um Heavy Metal mais pesado, com influências de Thrash,  e ainda elementos de Hard, Southern e Classic Rock. Gostaria que você comentasse a respeito desses novos elementos e detalhes que você comentou antes, e evolução sonora da Epitaph.

César Five: As músicas desse álbum são as influências de todos os músicos que estiveram na banda nesses longos anos. Todos de alguma forma colaboraram e são devidamente creditados no encarte e são parte importante da história da banda. A entrada do André “Canhoto”Carvalho e o Fábio Figueiredo, como guitarrista e baixista respectivamente, foram as peças que faltavam para seguirmos em frente. 



RtM: Eles chegaram somando e contribuindo para essa nova fase 

César Five: Exato. O Canhoto e o Fábio não entraram apenas para gravar o que estava pronto, mas sim colocar as suas personalidades e estilos nas músicas e alteraram o que foi preciso. Assim funciona uma banda que quer chegar a algum lugar. Tínhamos um material forte, que lapidamos dentro do estilo que a banda é...puro Heavy Metal.


RtM: A faixa-título aborda temas extremamente atuais, como polarização nas redes sociais e Inteligência Artificial, com a tecnologia aproximando as pessoas, mas também gera conflitos e desumanizando as relações. Gostaria que vocês comentassem a respeito dessa faixa, onde novamente vocês contaram com a colaboração de Gustavo Demarchi (Apocalypse).

César Five: O Gustavo Demarchi é um amigo de longa data, que hoje mora em Portugal, pedimos a ele na época para escrever a letra do que virou a "Digital Screams", pois ele sempre foi ótimo letrista, tanto na The Wise, Apocalypse e outros projetos dele. A música foi feita pelo Marlon Steindorff e eu, e ele gostou muito, e já escreveu as partes dele e as do Joe. 

No dia da gravação foi muito divertido, pois ambos estavam preparados e deram um show de profissionalismo. Acho essa música sensacional, e o Canhoto colaborou com mais riffs depois. Acho que ela uma música de alto nível, temos muito orgulho dela.


RtM: “Loser’s Life” abre o álbum, e também se destaca, sendo uma excelente apresentação para quem vai ouvir a banda pela primeira vez, tendo uma pegada pesadíssima. Comentem também um pouco mais sobre essa faixa.

César Five: Na hora que estávamos construindo o tracklist do CD, colocamos a Loser´s Life como faixa de abertura pois ali resume o que é o Digital Screams: muitos riffs, paradinhas de bateria, thrash, e um refrão maravilhoso, tem várias levadas de bateria e solos sensacionais, e o Joe canta a letra com muita força.


RtM: E temos a “The Girl Who Loved the Dead”, que foi o primeiro single e vídeo do álbum, com uma temática bem interessante, e mostrando já alguns desses novos elementos do som da banda, provavelmente sendo esse um dos motivos que foi escolhida para a primeira amostra do trabalho. O que vocês podem nos falar mais a respeito dessa faixa e suas inspirações?

César Five: A "The Girl" é uma letra do Dênis, a música tem partes minhas, do antigo guitarrista Marcelo Fernandez, o baixista André Soares e do Marlon. Ela tem partes diversas, e chama atenção pelo tema acústico no meio, que deu um ar de Mercyful Fate e King Diamond. Todos sabíamos que seria essa a música single e do vídeo, é forte, cheia de passagens diferenciadas e foi filmada pelo Renato da Chama Video em 4 horas apenas. Ficou com cara daqueles filmes da Hammer de terror dos anos 60. 

Cena do vídeo "The Girl Who Loved the Dead"

RtM: As letras de Denis Winston Brum voltam a trazer críticas sociais, políticas e religiosas bastante contundentes. Como funciona essa parceria entre compositor e letrista? As músicas nascem primeiro ou a temática das letras acaba influenciando os arranjos?

César Five: O Dênis Winston, além de escritor com vários livros editados, roteirista, é uma verdadeiro máquina de produzir cultura, é amigo pessoal meu desde 1991, padrinho do meu filho e fã de heavy metal, ficção científica e filmes de terror antigos. A Epitaph já estava compondo material e mostramos a música e ele logo compôs a letra da clássica Remote Control que foi feita lá em 2000 e se mantém atual até hoje. 

A parceria naturalmente cresceu onde mandávamos a música na sua estrutura básica e ele desenvolvia com ideias suas ou sugestão de letras nossas. Às vezes mudávamos os arranjos para melhor adaptar as letras aos vocais do Joe.



RtM: E é notório o cuidado que vocês tiveram com as letras.

César Five: A Epitaph sempre se preocupou com as letras. No primeiro álbum ele escreveu oito letras, eu a "Wrong Choice" e o Gustavo Demarchi a "Metal Wings". A música "Red White and Blue" é tão atual que só mudou o Bush e sua guerra do Afeganistão pelo Trump e o Irã, é atemporal pois o mundo infelizmente vive de guerras.

E para o "Digital Screams" mantivemos a equipe de compositores, com o Dênis com 5 letras, eu com a "Road of Fire" (adaptada pelo Dênis), Gustavo Demarchi com a faixa título e o Joe com a "Blue Cave". Os temas são ótimos e mantém a qualidade e fortalecem a parte musical.


RtM"Blue Cave" encerra o álbum com uma narrativa bastante humana, inspirada em uma realidade conhecida dos gaúchos. Como surgiu essa história e por que vocês escolheram fechar o disco justamente com essa música?

César Five: A Blue Cave, ou Gruta Azul, é o nome de uma famosa boate aqui de Porto Alegre, e o Joe F. Louder, fazia os trabalhos da parte gráfica da casa e das moças que trabalhavam lá, inclusive da hoje famosa Andressa Urach. A inspiração veio daí e ele transformou numa ótima letra, que seria interessante se chegasse a Andressa. 

A parte instrumental que finalizou a música foi do Canhoto, pois achamos que deveria ter algo que fechasse o CD de forma diferente e ele trouxe aquele momento acústico que deu uma classe incrível ao álbum.


RtM: A produção de Lucas Santorum conseguiu preservar um som orgânico e pesado, algo que muitos fãs sentem falta em produções excessivamente digitais. Qual era a proposta sonora que vocês tinham em mente antes de entrar em estúdio?

César Five: O Lucas foi aquele que chegou no momento certo. Já tínhamos as músicas prontas, as baterias já todas gravadas , a pré produção pronta, mas não encontrávamos o som que queríamos. Felizmente ele entendeu o que buscávamos: um som estilo as produções do Andy Sneap, pesado, moderno e contemporâneo, mas sem ser “modernoso”, afinal somos uma banda de heavy Metal Tradicional. 

Gravamos no seu estúdio o LST, guitarras, baixo e parte dos vocais, e não só trabalhou como técnico de som, mas como produtor, opinando, cobrando esforços para aquele take a mais. Como presente, ele gravou o solo de guitarra inicial da música "National Guard" e não vemos a hora de gravar com ele novamente.

RtM: O personagem da capa do primeiro álbum retorna em "Digital Screams", e o encarte traz diversas referências à cultura pop, Rock e Metal. Existe uma intenção de criar uma identidade visual contínua para a Epitaph, conectando passado e presente da banda?

César Five: O personagem da capa, é o mesmo que está no Getting Down To Business, ele é enigmático, e ainda vamos descobrir o que ele guarda na sua maleta. Mantivemos a ideia de ser ele o cara digitalizado no novo álbum, assim como um personagem relacionado a banda. 

O encarte tem referências ao primeiro álbum como a gárgula e o relógio, e o trabalho gráfico da Juliana Louis foi incrível, pois eu ia pedindo referências que me marcaram e ela ia adaptando na foto do encarte...ali tem coisas de séries de TV, bandas, personagens históricos, frases clássicas enfim é um bom passatempo escutar o CD e ir procurando tais referências.

A foto do encarte traz várias referências marcantes para César e a banda.

RtM: Finalizando, depois de um disco tão forte e de uma resposta que vem sendo bastante positiva da imprensa e do público, quais são os próximos passos da Epitaph? A ideia é intensificar os shows e diminuir o intervalo até o próximo álbum?

César Five: O momento é de divulgar o CD seja por shows ou através de contatos que impulsionem que ele chegue a mais pessoas. Estamos muito satisfeitos com a repercussão do álbum, pois sabíamos que o material é forte, pois mostra nosso crescimento como músicos e compositores. 

Montar uma agenda de shows não é simples, pois todos temos empregos regulares e famílias e conciliar datas e logística é complicado, mas temos objetivos que é de tocar novamente em outros estados, abrir shows internacionais se possível. 

Algumas músicas ficaram de fora desse álbum serão gravadas com o Lucas e serão lançadas como singles de tempos em tempos com vídeo clipe. Mas se depender de mim ainda haverá outro full lenght da Epitaph.


RtM: Muito obrigado, César, sucesso à vocês nesses próximos passos, e mais uma vez parabéns pelo trabalho! Pessoal, ouçam! 
César Five: agradeço ao Road To Metal pelo espaço muito importante para a banda. Obrigado a todos que tem comprado o álbum físico, ido aos shows e que de alguma forma estão ajudando a Epitaph a crescer.


Epitaph é:
Joe F. Louder nos vocais, Marlon Steindorff e André Carvalho "Canhoto" nas guitarras, Fabio Figueiredo no baixo e César "Five" Louis na bateria


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