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sábado, 12 de setembro de 2026

Válvera – Unleashed Fury | Peso, fúria e uma nova fase



Fotos: Divulgação 
Edição/Revisão: Caco Garcia 
 
Eu gosto quando uma banda consegue mudar sem deixar de ser reconhecível. Quando você coloca um disco novo para tocar e pensa: “é diferente, mas eu ainda sei quem está tocando”. Foi exatamente essa sensação que tive ouvindo "Unleashed Fury", novo álbum do Válvera, lançado depois de seis anos sem um disco de inéditas.

Formado em 2010, em Votuporanga, no interior de São Paulo, o Válvera chega ao seu quarto álbum de estúdio mostrando que esse tempo trouxe não apenas experiência, mas também vontade de experimentar.

O Thrash Metal continua sendo a base, mas agora divide espaço com Heavy Metal, Groove e uma sonoridade mais moderna. Não parece que a banda abandonou o que fazia antes. É mais como se tivesse aberto algumas portas novas.

E acho que essa é uma boa maneira de ouvir Unleashed Fury: sem esperar que o Válvera repita os trabalhos anteriores, mas também sem procurar uma banda completamente diferente.


A fúria vai além do título

Apesar do nome, "Unleashed Fury" não é simplesmente um disco sobre raiva. As letras passam por temas como perda, culpa, arrependimento, saúde mental, identidade e reconstrução. A fúria aparece mais como uma energia que precisa ser transformada do que como simples ódio.


Isso também aparece na música. O álbum alterna momentos rápidos e agressivos com riffs mais cadenciados, grooves pesados e atmosferas mais sombrias. E uma coisa que gostei é que o Válvera não tenta manter tudo no máximo o tempo inteiro.

Nas guitarras, Glauber Barreto e Rodrigo Torres são responsáveis por boa parte dessa identidade. Os dois alternam riffs rápidos, bases pesadas e momentos mais melódicos, mantendo as guitarras agressivas sem fazer todas as músicas soarem iguais.

No baixo, Gabriel Prado dá bastante corpo ao instrumental, principalmente nas partes mais cadenciadas.

Nos vocais, Glauber Barreto mantém a agressividade, mas também explora momentos mais contidos e melódicos, evitando que o álbum fique vocalmente uniforme.

Na bateria, vale uma correção importante: quem gravou o álbum foi Leandro Peixoto, antes de sua saída da banda. Vitor Bonati é o baterista da formação atual e representa essa nova etapa do Válvera.


Algumas faixas que merecem atenção:

“Necropolis” foi uma das que mais me chamou atenção pelo clima. É pesada, mas não precisa acelerar o tempo inteiro. As guitarras criam uma tensão constante e a atmosfera mais sombria combina muito bem com a música.

A faixa-título, “Unleashed Fury”, resume bem o conceito do álbum. Existe aquela sensação de algo que ficou preso por muito tempo e finalmente encontrou uma saída. Glauber coloca bastante força nos vocais, enquanto as guitarras acompanham com riffs agressivos.

“What I Left Behind” começa com uma pegada mais Heavy Metal, mas logo o Thrash assume o controle. Essa mudança funciona muito bem e mostra uma das características mais interessantes do disco: a banda mistura estilos sem perder a própria identidade.

Já “Reckoning Has Begun” representa o Válvera mais agressivo. Os riffs são fortes, os vocais têm bastante intensidade e a música tem aquela energia que parece feita para funcionar ainda melhor ao vivo. No álbum, ela aparece em uma versão remixada.

“Venomous Seed” segue uma linha mais pesada e tensa. Talvez não seja a faixa mais imediata do disco, mas funciona bem dentro do conjunto justamente por trazer outro clima.

E “Faceless” é uma das mais diferentes. A música mistura peso, breakdowns e uma atmosfera quase psicodélica, mudando de direção algumas vezes. Vitor Bonati também escolheu a faixa quando perguntado sobre qual música indicaria para alguém conhecer o álbum.

Para fechar, “Old World, Burn!” mantém a energia até o último momento. O título combina com a ideia central do disco: deixar algumas coisas para trás para conseguir seguir em frente.


Uma nova fase.

Eu não terminei "Unleashed Fury" pensando que o Válvera reinventou o Metal — e acho que essa nem era a intenção.
O que encontrei foi uma banda tentando descobrir até onde consegue levar aquilo que já sabe fazer. O Thrash continua sendo a base, mas agora tem Heavy Metal, Groove, elementos mais modernos e momentos em que o clima pesa tanto quanto os riffs.

Nem todas as músicas me pegaram da mesma maneira. Algumas entraram mais rápido, enquanto outras funcionaram melhor depois de algumas audições. Mas isso também faz parte do disco: ele não parece preocupado apenas em entregar uma sequência de músicas pesadas.

Tecnicamente, é um trabalho muito bem executado. Glauber Barreto segura os vocais com personalidade; Glauber Barreto e Rodrigo Torres fazem das guitarras o coração do álbum; Gabriel Prado dá corpo ao baixo; e Leandro Peixoto entrega uma bateria que acompanha muito bem as mudanças das músicas. Enquanto isso, a chegada de Vitor Bonati abre uma nova página para a banda.

Para mim, "Unleashed Fury" é um disco sobre mudança, mas não aquela que apaga o passado. É sobre olhar para o que ficou, entender o que ainda faz sentido e ter coragem de experimentar outra coisa.

E talvez aí esteja a verdadeira fúria do Válvera: não apenas na guitarra pesada ou no vocal rasgado, mas na vontade de não ficar parado no mesmo lugar.

Depois de seis anos, a banda voltou sem fingir que o tempo não passou. Trouxe as marcas da caminhada, mexeu em algumas peças e abriu espaço para uma nova história.

E eu terminei o álbum com uma curiosidade: se Unleashed Fury é o primeiro passo dessa nova fase, quero descobrir até onde o Válvera vai levar essa fúria.




====English Version Below===

Válvera – Unleashed Fury | Weight, Fury, and a New Chapter




I like it when a band manages to change without losing what makes them recognizable. When you put on a new album and think, “This is different, but I still know who I’m listening to.” That was exactly how I felt listening to "Unleashed Fury", Válvera’s new album, released after six years without a new full-length record.

Formed in 2010 in Votuporanga, in the countryside of São Paulo, Válvera arrives at its fourth studio album showing that those years brought not only experience, but also a desire to experiment.

Thrash Metal is still the foundation, but it now shares space with Heavy Metal, Groove, and a more modern sound. It doesn’t feel like the band abandoned what they had done before. It feels more like they opened a few new doors.

And I think that’s a good way to approach Unleashed Fury: without expecting Válvera to simply repeat their previous work, but also without looking for a completely different band.


The Fury Goes Beyond the Title

Despite its name, Unleashed Fury isn’t simply an album about anger. The lyrics touch on themes such as loss, guilt, regret, mental health, identity, and rebuilding. Fury appears more as an energy that needs to be transformed than as simple hatred.

That idea also comes through in the music. The album moves between fast, aggressive moments and slower riffs, heavy grooves, and darker atmospheres. One thing I really liked is that Válvera doesn’t try to stay at full speed all the time.

On guitars, Glauber Barreto and Rodrigo Torres are responsible for a big part of that identity. They move between fast riffs, heavy guitar lines, and more melodic moments, keeping the guitars aggressive without making every song sound the same.

On bass, Gabriel Prado gives the instrumental plenty of body, especially during the slower, more groove-driven sections.

On vocals, Glauber Barreto keeps things aggressive, but also explores more restrained and melodic moments, which helps prevent the album from becoming vocally repetitive.

On drums, there’s an important correction worth mentioning: the album was recorded by Leandro Peixoto, before his departure from the band. Vitor Bonati is the drummer in the current lineup and represents this new chapter for Válvera.



A Few Tracks Worth Highlighting

“Necropolis” was one of the songs that stood out to me because of its atmosphere. It’s heavy, but it doesn’t need to speed up constantly to prove it. The guitars create a constant sense of tension, and the darker mood fits the song really well.

The title track, “Unleashed Fury,” sums up the album’s concept pretty well. There’s a feeling of something that had been bottled up for a long time and finally found a way out. Glauber brings plenty of intensity to the vocals, while the guitars follow that energy with aggressive riffs.

“What I Left Behind” starts with a more Heavy Metal-oriented feel, but Thrash soon takes over. That change works really well and highlights one of the album’s most interesting qualities: the band mixes different styles without losing its own identity.

“Reckoning Has Begun” represents Válvera at its most aggressive. The riffs hit hard, the vocals have plenty of intensity, and the song has the kind of energy that feels like it was made to work even better live. On the album, it appears in a remixed version.

“Venomous Seed” follows a heavier and more tense path. It may not be the most immediate track on the album, but it works well within the bigger picture precisely because it brings a different mood.

And “Faceless” is one of the album’s most unusual tracks. It mixes heaviness, breakdowns, and an almost psychedelic atmosphere, changing direction a few times along the way. Vitor Bonati also picked the song when asked which track he would recommend to someone discovering the album.

To close things out, “Old World, Burn!” keeps the energy going until the very end. Its title fits the album’s central idea: leaving some things behind in order to move forward.


A New Chapter

I didn’t finish Unleashed Fury thinking Válvera had reinvented Metal — and I don’t think that was the point.

What I found was a band trying to discover how far they can take what they already know how to do. Thrash is still the foundation, but now there’s Heavy Metal, Groove, modern elements, and moments where the atmosphere feels just as heavy as the riffs.

Not every song grabbed me in the same way. Some clicked immediately, while others worked better after a few listens. But that’s part of the album too: it doesn’t seem interested only in delivering one heavy song after another.

Technically, it’s a very well-executed record. Glauber Barreto delivers the vocals with plenty of personality; Glauber Barreto and Rodrigo Torres make the guitars the heart of the album; Gabriel Prado gives the bass plenty of weight; and Leandro Peixoto delivers a drum performance that works very well with the songs’ changes in pace. Meanwhile, Vitor Bonati’s arrival opens a new page for the band.

To me, Unleashed Fury is an album about change, but not the kind that erases the past. It’s about looking at what’s behind you, figuring out what still matters, and having the courage to try something different.

And maybe that’s where Válvera’s true fury lies: not only in the heavy guitars or harsh vocals, but in the desire to refuse to stay in the same place.
After six years, the band is back without pretending that time hasn’t passed. They brought the marks of their journey with them, shifted a few pieces around, and made room for a new story.

And I finished the album with one question in my mind: if Unleashed Fury is the first step into this new chapter, I want to see just how far Válvera can take that fury.






quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Entrevista - Human Plague: Sem surpresas, é Metal Extremo na mesma linha do que fazemos desde sempre!




A Human Plague foi formada em 2011 em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, onde há uma cena prolifica dentro do Metal, revelando bandas de diversas vertentes e o quinteto entrega um Death Metal inspirado nos pilares do estilo.

Com um EP e um álbum no currículo, a banda prepara agora o lançamento do esperado segundo full-lenght, "Tombs of Thought", o qual já está em fase final e promete uma banda que traz uma evolução natural, mas fazendo o que se propôs desde o início: Metal Extremo!

Confira a seguir a entrevista com a banda, representada pelo vocalista Cássio Lemos.



RtM: Após um período de pausa, a Human Plague retornou às atividades, lançando single, fazendo shows e já com um novo disco, "Tombs of Thought", quase finalizado. Como foi o processo de composição e gravação desse trabalho de retorno?
Cássio Lemos: Não tivemos exatamente um período de pausa da banda, mas houve sim um momento confuso, com o início da pandemia juntamente com uma forte mudança na formação, em que ficamos sem guitarrista. 

Logo aconteceu a entrada do Léguas, mas estávamos todos afastados em isolamento. Começamos a compor material novo remotamente, cada um contribuindo com ideias. Com o retorno dos ensaios presenciais, passamos a fazer composições em estúdio. 

Também tivemos músicas que foram praticamente compostas inteiramente por algum dos integrantes e que fizemos o refinamento em ensaio. Com a volta do Portela, as composições ficaram ainda mais dinâmicas principalmente em relação ao trabalho de guitarras devido às possibilidades de arranjos com duas guitarras.



RtM: E são músicas compostas mais recentemente e com o atual line-up?
CL: Em geral, esse disco tem músicas de épocas bem variadas, desde o início da banda (uma das músicas foi a segunda composição feita, de 2011/12), da época da pandemia, até materiais mais recentes feitos totalmente pela formação atual. 

Isso vale também para as letras, que fora escritas por meio de processos distintos, seja por apenas um, seja passando por sugestões de outros.
A gravação, mix e master ficou à cargo do Fantom Group, estúdio aqui de Santa Maria.


RtM: E em qual etapa está o album? Vocês já tem uma previsão de lançamento, ou não querem apressar o processo, aguardam um momento oportuno? 
CL: O novo álbum, “Tombs of Thought”, está com a mix e master prontas. Estamos fazendo a finalização da arte da capa e encarte, preparando para o lançamento físico, e enquanto isso estamos com o planejamento de lançamentos de singles e clipes para divulgação do material. Temos uma ideia de data, mas ainda não está fechada 100%. 



RtM: Conte-nos um pouco sobre o conceito e letras por trás do novo álbum? Há alguma temática central que permeia as faixas?
CL: O disco não é conceitual no sentido de ter uma espécie de história sendo contada ao longo dele, mas segue as temáticas abordadas pela banda, como pessimismo, niilismo, misantropia, ceticismo, desesperança... A mente humana atormentada e sepultada perante sua insignificância.



RtM: E quanto à sonoridade: os fãs podem esperar algo mais próximo do material anterior da banda, ou houveram algumas mudanças novas sonoras nesse novo disco?
CL: Não tem nada forçadamente pensado em mudanças, mas acredito que há uma evolução natural. Como foi dito anteriormente, tem materiais de vários períodos diferentes, então há composições bem diferentes entre si, mas que se encaixam muito bem no todo do disco. 

É um álbum de Death Metal que apresenta passagens com influências do Black e do Thrash, algumas melodias bem marcantes e algumas partes bem extremas também.


RtM: Existe alguma surpresa ou elemento inesperado nesse novo trabalho que vocês gostariam de destacar? Participações especiais, mudanças de afinação, novos timbres?
CL: Sem surpresas, é Metal Extremo na mesma linha do que fazemos desde sempre!



RtM: Sobre os shows mais recentes, como foi dividir o palco com a banda Left to Die em Porto Alegre, ainda mais sabendo que ela conta com ex-integrantes da lendária banda Death, uma referência histórica para o estilo e também para vocês?
CL: Foi uma honra! Os caras foram (e são) influência pra todo um gênero, e a Human Plague faz parte desse legado. Além de ter a oportunidade de curtir o showzaço deles, apresentando os maiores clássicos do início da banda, ainda tivemos o prazer de trocar uma ideia com os caras, que são verdadeiras lendas do metal!


RtM: Na visão de vocês, como está o cenário atual do Death Metal, tanto no Brasil quanto fora? Vocês veem um renascimento, uma estagnação ou uma reinvenção do estilo?
CL: Tem muita coisa boa rolando. Uns anos atrás aconteceu uma espécie de nova onda de death metal old school, com uma porrada de banda surgindo com o som totalmente calcado no início do gênero, e várias delas seguem firmes com ótimos lançamentos. E temos também as bandas clássicas que seguem na ativa com materiais de extrema qualidade. 

Há uma continuidade, seja com bandas mais antigas ou com bandas novas, mas não necessariamente uma reinvenção ou renascimento, mas também não é algo que fica sempre na mesma, a ponto de estar estagnado. É como se fosse uma corrente de motosserra que nunca parou e segue arrebentando tudo que tiver no caminho, como sempre foi!

O Brasil sempre teve uma ótima cena do death metal, e nos últimos tempos isso não tem sido diferente. Várias bandas lançando materiais de muita qualidade, fazendo turnês, produzindo merch...


RtM:Quais bandas vocês consideram fundamentais na forja do Death Metal como o conhecemos hoje? Existe alguma influência que talvez os fãs não esperem ouvir em vocês?
CL: Desde o surgimento do gênero, temos várias vertentes com diferentes características e influências, e isso é normal em qualquer subgênero da música em geral. No death metal podemos ter bandas que focam seja em velocidade, técnica, peso, agressividade, atmosfera, entre outras possíveis abordagens. Entre as bandas que são pilares do gênero, podemos falar de Death, Cannibal Corpse, Deicide, Morbid Angel, Obituary, Bolt Thrower, Dismember, Hypocrisy, entre diversas outras. 

Também há as bandas que não são de death metal mas que ajudaram a criar o gênero, seja influenciando outras bandas ou com lançamentos que ficam em uma fronteira entre estilos, como Sodom, Slayer, Sepultura, entre outras. Bandas mais recentes também são de grande importância para o gênero, e como influência para a banda também. E é bem fácil de achar algumas referências a outras vertentes, como black e thrash metal, e até elementos vindos do heavy metal mais tradicional também.


RtM: Além do novo disco, a banda já tem algum plano para turnês e buscar atingir um público em nível nacional, e claro, também lá fora?
CL: Como ficamos focados no processo de gravação, ficamos um bom tempo sem ensaiar. Agora retomamos essa rotina nos preparando para os shows de divulgação do lançamento do "Tombs of Thought."

A ideia é sempre apresentar nosso trabalho pra novos públicos e espalhar a praga por aí. Temos algumas datas já marcadas dentro do estado mesmo, mas conforme for, sempre há a possibilidade de tocar em outros estados também. 


RtM: E vocês planejam também alguns videoclipes e lançamentos físicos como vinil ou cassete?
CL: O primeiro single, “Heretic”, foi lançado com um clipe, disponível no YouTube. Temos planos de lançar mais singles com clipes. Sobre o lançamento físico, a gente sempre prezou por fazer os CDs da melhor forma possível. 

No EP “Marching Through the Fields of Desolation” e no álbum “Harvest of Hate”, fizemos de forma independente. No “Tombs of Thought” estamos buscando parcerias de selos para o lançamento. Isso pode incluir outros formatos além do CD, como vinil ou cassete, mas ainda não temos nada certo sobre isso.


RtM: Para quem está conhecendo a Human Plague agora ou para os fãs antigos, que mensagem vocês gostariam de deixar nesse novo momento da banda e com o novo álbum em iminência de ser lançado?
CL:Estamos trabalhando intensamente para entregar um grande trabalho de death metal, e esperamos que o público fique tão satisfeito quanto nós em relação a esse novo álbum! Agradecemos o apoio de todos ao longo dessa caminhada. Nos encontramos pelo underground! 

Entrevista: Caco Garcia 
Fotos: Arquivos da Banda 

Human Plague é:
Cássio Lemos: Vocais
Rafael Léguas: Guitarras
Bruno Portela: Guitarras
Emiliano Cassol: Baixo 
Carlos Armani: Bateria





sexta-feira, 28 de junho de 2024

Entrevista - Overdose: 40 Anos de Histórias! Vem Mais Pela Frente?

 



Por: Renato Sanson/Carlos Garcia

Nas primeiras centelhas do Heavy Metal brasileiro o Overdose estava lá, acendendo as chamas e espalhando-se além do seu país de origem.  Um dos pioneiros, que buscou evolução e criou nuances bem próprias, servindo inclusive de base e inspiração para outras bandas, e isso é o que coloca alguns nomes em um patamar diferente. 

A palavra sucesso é algo bem subjetivo, e acreditamos que o músico inspirar ou influenciar pessoas, fazer arte a qual signifique algo para quem a consome, alcançou sim o sucesso e seu objetivo enquanto artista.

O Overdose sem dúvidas trilhou um caminho bem sucedido, e como uma singela homenagem aos 40 anos de história deste importante nome do Metal brasileiro, conversamos com seu fundador, Cláudio David, para falar um pouco dessa história e algumas novidades preparadas em comemoração a essa marca de quatro décadas dedicadas ao Metal. 

Confira a seguir:


RtM: O Overdose está completando 40 anos! Algo muito emblemático se tratando de Heavy Metal nacional. O que a banda está preparando para este momento além do lançamento do single “Século XXI”?

Cláudio David: O mais importante mesmo é o single de 40 anos, que foi lançado ano passado. Era para ter saído até antes, mas aí o pessoal da banda tinha outras prioridades, outros afazeres e acabou não dando certo. 

Até por isso, eu estou remontando a banda agora com a expectativa de fazer shows e tocar essas músicas novas, mas o mais importante é esse single, “Século XXI”, e EP com cinco músicas inéditas, que deve sair até o final do ano. A partir do momento que sair o EP, vamos fazer alguns shows de comemoração.


RtM: E falando sobre o single, trace para gente um paralelo com relação a “Século XX” e nos fale um pouco sobre a ideia dessa nova composição.

CD: A ideia do “Século XXI” foi remeter mesmo o “Século XX”, que foi o primeiro disco nosso, o Split com o Sepultura. A ideia foi tentar descrever a nossa situação atualmente, mudando um pouco a questão da tecnologia e as artimanhas do poder, que hoje são diferentes, mas os problemas continuam sendo os mesmos.

A ideia foi uma releitura do “Século XX”, mas com uma diferença. O pessoal costuma falar que o Overdose é niilista demais. Inclusive, as minhas letras são geralmente críticas, mas é o que eu sei fazer. No “Século XXI” tem uma esperança e uma proposta, que é das pessoas se juntarem e conseguirem o que elas querem, que é um mundo melhor.

Então, diferente do “Século XX”, o “Século XXI” tem esse lado otimista, de que a mudança é possível. Só não sei daqui quanto tempo, se vai ser daqui cinquenta, cem ou duzentos anos, mas as coisas mudam. Mas a ideia do pré refrão é essa, que é deixar uma mensagem para que as pessoas, através da união, possam mudar a realidade delas de vida.

RtM: Há dez anos atrás a Cogumelo Records relançou todo o catalogo do Overdose em versões belíssimas e com material bônus em DVD, possibilitando que muitos fãs enfim tivessem os materiais e com alguns bônus. Como surgiu essa ideia de recolocar os clássicos no mercado novamente?

CD: Sobre o relançamento do catálogo ainda está faltando um, “You’re Really Big!” (1989), que deve sair esse ano. Já finalizamos a remasterização dele, e estamos dependendo do João, dono da Cogumelo, para mandar ele para a fábrica. 

Na verdade, a gente fez uma reunião, há pouco menos de dez anos, e conversamos sobre esse material do Overdose, que estava parado. E nessa reunião, com o dono da Cogumelo, fizemos o acordo de relançar. A ideia surgiu meio que simultaneamente quando eles estavam com vontade de relançar também.

Eu gosto de todos os álbuns, só que eles estavam meio que esquecidos. Então, através dessa reunião, que a gente tentou acordar o relançamento desses discos, que foi um sucesso e teve uma vendagem muito boa. Com esse lance do Spotify, plataformas digitais e da internet, duas mil cópias para cada disco acabaram sendo surpreendentes para gente e para Cogumelo. Agora está faltando “You’re Really Big!”, que em breve deve sair.


RtM: Cláudio, em 2012 você foi convidado pela banda gaúcha Carniça a fazer uma participação no disco “Nations of Few”, gravando a ótima “Prayers Before the Death”. Neste período você já estava há algum tempo sem tocar, certo? Essa participação foi o que acendeu a chama para a volta do Overdose?

CD: A participação do “Nations of Few” do Carniça foi uma coisa muito prazerosa para mim, porque é um pessoal muito gente boa e uma banda muito legal. Esse disco, especificamente é muito legal, assim como todos os trabalhos do Carniça. Depois disso, eu fiz participação no show de lançamento em Novo Hamburgo, que foi muito legal. E eu fui muito bem tratado pelo pessoal, fiquei muito amigo deles.

De certa forma acabou me incentivando, sim, de voltar com o Overdose, apesar de envolver outras pessoas. Após eu ter tocado com o Carniça, deu uma chama sim de querer voltar a tocar com certeza.

RtM: Agora revisitando um pouco da história, conte-nos sobre o período de composição e gravação do clássico Split com o Sepultura, em que vocês ainda tinham as letras em português, enquanto muitas já seguiam a tendência de compor em inglês.

CD: A gente começou em português, nunca deixamos o português totalmente de lado: no “...Conscience...” tem “Última Estrela”, no “Scars” tem “Nu Dus Otro é Refresco” e “Postcard from Hell”, no “Progress of Decadense” tem “Rio, Samba e Porrada no Morro”. Sempre teve alguma coisa em português. No segundo single vai ter uma música em português também, que se chama “João Sem Terra”.

A gente acabou indo para o inglês, traduzimos algumas letras infelizmente, porque em português era muito legal. Eu acho até mais difícil de compor em português para te falar a verdade, porque a sonoridade do português é mais difícil do que a do inglês. Mas compor em inglês foi mais pela questão da falta de reconhecimento e pela falta de oportunidade de seguir uma carreira aqui no Brasil. 

Em outros países, bandas de Heavy Metal se tornaram famosas. Aqui no Brasil temos o Sepultura, mas eles foram reconhecidos por uma gravadora internacional. O Sepultura é mais reconhecido lá fora do que aqui no Brasil, assim como o Overdose. Por isso passamos para o inglês por essa questão e de ser outro mercado. No começo, a nossa proposta era mais voltada para o público brasileiro, para entender a letra mesmo.


RtM: E como era o processo de composição e a produção das músicas na banda?

CD: As músicas do Overdose são praticamente minhas. Tem um solo de baixo do Fernando, uma macumba do Bozó no “Scars” e tal, mas são minhas músicas. Eu compunha as músicas, ensaiava muito elas e apresentava para o resto da banda nos ensaios. 

Eu treinava muito em casa até a chegada do Bica, treinava umas 10 a 12 horas por dia, mas antes da entrada dele já praticava umas 5 horas. Desde que eu ganhei a guitarra, queria tocar bem. E para essa gravação, que foi num estúdio de 8 canais, usamos equipamentos bem limitado: guitarra Finch, captador Distortion, pedal Heavy Metal e amplificador Baginho da Gianinni, que cheguei a emprestar para o pessoal do Sepultura na época.

Antes do Split, havíamos lançado a demo “Última Estrela”, que rodou o Brasil inteiro. A gente tinha uma certa notoriedade antes do Split por conta de ter saído matéria sobre ela na revista Metal, por ter feito um show para seiscentas pessoas no Circo Deliris e da música ter sido tocada na rádio Fluminense, que era uma rádio muito importante no Rio Janeiro na época. Eu acho o “Século XX” um divisor de águas em termos de técnica, sonoridade e musicalidade do Metal brasileiro.

RtM: Aquela cena mineira da época revelou nomes que tiveram uma repercussão inclusive fora do Brasil. Como era a relação das bandas naquele período? Haviam alguns grupos? 

CD: No começo não tinha ramificações dentro do Metal. Eu, pessoalmente, curto Heavy Metal desde o Black Sabbath e o começo do Judas Priest, época que nem existia o nome Heavy Metal, Headbanger e Metaleiro. Quando o Overdose fazia show, ia todo mundo que gostava de Heavy Metal. Um pouco antes nem tinha público, depois do show Kiss que começou a ter mais, pois antes era só uma meia dúzia de amigos, que se encontravam nas lojas de discos. 

Depois do primeiro Rock In Rio, em 1985, que a coisa explodiu. No começo ia todo mundo, não tinha essa coisa ‘ah, eu gosto de um estilo, eu gosto de outro’, só depois do lançamento do Split que começou essas ramificações. 


RtM: Você sentia que havia algum tipo de “competição” entre algumas bandas?

CD: Principalmente, com o Slipt, começou também uma competição por parte do pessoal do Sepultura, que eu prefiro não comentar.

A gente sempre teve uma relação muito boa com as bandas daqui de BH, a grande maioria: Sarcófago, Multilator, Witchhammer, Chakal. Eu, inclusive, levava equipamento meu para gravação dessas bandas e fazia coprodução. É lógico que tinha os radicais, mais do lado do Sepultura. 

E a questão não era só as ramificações, alguns chegavam a ser agressivos também. 

Às vezes rolava agressividade até em shows dessa meia dúzia de radicais, que chegava a incomodar a gente por ser uma coisa desleal e sem sentido, porque são pessoas que a gente nunca fez nada de mal e ficaram com raiva da gente por causa da música que a gente fazia, que não era um Death Metal extremo. 

Em geral, a relação do Overdose com as bandas daqui sempre foi muito boa.

RtM: Depois do "Século XX" vocês começaram a compor em inglês. Que planos e ambições vocês tinham nessa fase já com letras em inglês, com o “...Conscience…” e “You’re Really Big!”?

CD: Nossa maior ambição, desde o começo, foi sempre aprimorar tecnicamente e musicalmente. Eu, especificamente, puxava o barco, dedicando-me intensamente durante a preparação do "You’re Really Big!", praticando guitarra 12 horas por dia. Era uma coisa inédita, pois não havia trabalho com tanto virtuosismo que nem o “You’re Really Big!” aqui no Brasil. Depois veio o Angra, uns quatro anos depois, e outras coisas. A nossa maior ambição era essa, ser uma banda muito técnica e original.

O “...Conscience…” é bem peculiar, pois o lado A e o lado B dele não tem refrão. Até hoje acho ele diferente, com músicas grandes e sem refrão. E no “You’re Really Big!” experimentamos elementos da música erudita, coisa que o Dream Theater veio fazer depois do Overdose. 

Mas era mais especificamente o erudito com o Heavy Metal, bem na ordem do progressivo, que era a influência que a gente tinha. Também tínhamos influência do Mercyful Fate e do Metallica, mas a ambição era muito musical e técnica. Desde o início queríamos nos aprimorar musicalmente e tecnicamente, sempre batalhamos por isso.


RtM: Nessa época a mentalidade já era de que, cantando em português, seria mais difícil alcançar um mercado fora do Brasil?

CD: Começamos a cantar em inglês devido à falta de apoio aqui no Brasil, então tivemos que procurar o mercado externo, que ainda continua sendo preconceituoso. Naquela época ninguém aceitava língua de outro país. Hoje até aceitam um Rammstein, uma outra banda daqui e dali, mas o inglês continua se destacando. 

A gente foi forçado a passar para o inglês para tentar esse mercado externo, já que no Brasil nunca teve apoio. É até estranho falar isso, porque hoje em dia a situação não mudou muito. Existe até um pouco mais de apoio hoje comparado os anos 80 e 90, só que bem pior (risos). 


RtM: Do “Conscience” (87) à “Addicted to Reality” (90) temos um Overdose mais progressivo, com influências do Power e até mesmo do Hard. Mas em “Circus of Death” (92) tivemos uma das maiores viradas de chave do Heavy Metal. Aquele lado melodioso ficou um pouco de lado e o Thrash old school entrou em cena, para depois, consolidar um estilo mais groovado e com influências tribais em “Progress of Decadence” (94) e “Scars” (95). O que levou a essa mudança de sonoridade?

CD: As razões de mudança de estilo foram diversas. Eu acho que a principal é que a gente sempre fez o que estava curtindo na época, e não que a gente não curtisse Thrash na época do “...Conscience...”, “You’re Really Big!” e o próprio “Addicted to Reality”.

Apesar de mais agressivo, o “Circus Of Death” tem melodia, mas não clássica e erudita puxada para o barroco e para o romântico como no "You're Really Big". O “Progress of Decadence” é um tanto menos melodioso em comparação aos outros discos. É um pouco mais rebuscado, mas ainda assim é todo com melodia, sem nada gritado.

No “Progress of Decadence”, época que eu morava em Los Angeles, estava preocupado em fazer uma coisa diferente de tudo, colocando elementos de escola de samba, que o Bozó fazia no surdo da bateria e o André acompanhava na guitarra meio que na brincadeira. Então a gente começou a explorar e pesquisar mais isso, colocando elementos meio nordestinos, brasileiros e percussivos.

E no “Scars”, a gente ousou mais ainda. O álbum tem tudo o que você pode imaginar, incluindo Candomblé e batidas mais africanas. A gente acabou indo muito além com essas misturas, que sempre foram marcantes na história do Overdose.


RtM: Com essa virada para o lado do Groove com influências vindas da percussão, que após se tornou tão famosa e muitas bandas aderiram. Seria o Overdose o precursor desse estilo?

CD: Eu acredito, sim, que o Overdose é um dos precursores do Groove Metal. A gente já estava começando a fazer isso em 92 e 93 quando já tinha o “Circus Of Death”. A gente já fazia essa levada mais groovada, com estilo brasileiro, meio que na brincadeira desde os anos 90 nos ensaios. Considero também que o Overdose é um dos precursores do prog metal, no “...Conscience…”, quando o Dream Theater ainda não existia. 

Tem gente que acha que a gente foi influenciado pelo Sepultura, mas nós começamos antes. Eles têm uma pegada mais tribal, não é essa coisa da bateria de escola de samba. O Sepultura usava alguns efeitos, já nós, usamos bateria de escola de samba no disco inteiro.


RtM: Com “Progress of Decadence”, que foi lançado por um selo do exterior, o Overdose teve a oportunidade d tocar nos EUA,  Canadá e Europa. Conte-nos como foi essa experiência e como foi trabalhar com esse selo.

CD: Nós fizemos umas cinco turnês americanas, chegando até ser headliner. Fizemos turnês com o Crowbrar, Screw e Mercyful Fate, principalmente, que é uma das minhas bandas preferidas. Eu vi uns trinta shows todas as noites, praticamente. Acabava o nosso show, eu ia correndo para ver o Mercyful. 

Tocamos com muita banda legal na Europa, como o L7, Biohazard, Type O Negative, Grip Inc., Machine Head e Nevermore. Foi maravilho para falar a verdade, um sonho realizado. Chegamos a ter uma estrutura boa, com ônibus específicos para turnê mesmo. Tocamos no CMJ, chegamos em segundo lugar e ficamos seis meses no Top Ten das rádios college americanas, competindo com o Korn na época.

Tivemos muito apoio de empresário também, o problema foi quando mudou a diretoria da gravadora, que era o Steve Sinclair, ele saiu e entrou o Paul Bibel. O Steve é o AIR que descobriu e contratou o Overdose, o mesmo AIR do Dream Theater e de outras bandas. E o novo que entrou contratou o My Dying Bridge, que é uma banda até que razoavelmente conhecida. 

Ele tirou todo investimento do Overdose e colocou no My Dying Bridge. Era para gente ter feito uma turnê na Scandinavia com o Mercyful Fate, só que foi cancelada porque não mandaram o dinheiro da passagem. O Scars é um disco muito injustiçado por causa disso, porque não teve apoio da gravadora, não teve divulgação e não teve turnê praticamente. 

Então no final, com a mudança da diretória, foi muito ruim para gente. Agora o pessoal da gravadora é muito amigo nosso, como Paul Mitchel, por exemplo. Era muito bacana até a mudança da diretoria.


RtM: Conte-nos mais do período com o “Scars”, também tendo shows no exterior e ao lado de grandes bandas, sendo suporte do Grip Inc, tocando em festivais tradicionais como o Dynamo Open Air.  

CD: Na verdade, o Dynamo e a turnê do Grip Inc. foi em 95, nessa época que eu falei que era muito boa, que a gravadora estava investindo, empresariamento cresceu e tivemos um ônibus bacana para fazer a turnê com o Grinp Inc. e outros festivais. Tocamos também na França (festival Mega Force), Áustria e Bruxelas.

O Dynamo foi monstruoso, foi um festival bacana demais, só com banda grande e com duzentas mil pessoas acampadas. Foi o auge da carreira do Overdose. Esse show, que tem até no Spotify, começou com uma galera com a bandeira do Brasil que estava na frente curtindo, mas depois da metade do show, não dava nem para ver aonde esse pessoal estava agitando. Fizemos um show e outro na Holanda também, conquistamos um público legal lá, mas o Dynamo foi sensacional. 

No "Scars" tínhamos uma turnê com o Mercyful Fate, que na verdade foi uma goela, porque pessoal da gravadora deu uma van para gente, a van quebrou com dois dias e depois fizemos a turnê toda dentro de um carro e um quarto de hotel para a banda, crew e tour manager, ou seja, todo mundo num quarto só. 

E eu acho que isso foi até um dos motivos do fim do Overdose, porque é muito estressante ficar espremido dentro de um carro e dentro de um quarto de hotel, além da gravadora ter começado a tirar o nosso apoio.

RtM: Conte-nos um pouco mais de como foi excursionar com a banda de Dave Lombardo.

CD: A turnê com o Grip Inc. foi legal demais, nós ficamos super amigos do pessoal. Eles ficavam mais no nosso ônibus do que no ônibus deles, porque o Dave Lombardo tinha levado a família dele (mulher e filho). 

O próprio Dave Lombardo é muito gente boa, foi muito agradável a convivência com ele. No primeiro momento a gente ficou meio assustado falando ‘olha, é o baterista do Slayer ’, mas depois da primeira conversa ele foi super humilde, tranquilo e ficamos super amigo dele e da banda toda.

RtM: E o que aconteceu que a banda depois disso? Que acabou caindo em um hiato, quando, acredito, muitos esperavam que o Overdose alcançasse patamares mais altos?

CD: Como eu já havia falado antes, um dos principais motivos da banda ter acabado foi a retirada de suporte da gravadora, porque ninguém estava ganhando dinheiro, especificamente o Bozó, que estava muito preocupado. Nessa época até o Jairo, que era do Sepultura, e o Gustavo Monsanto tocava com a gente. Era uma formação muito bacana, mas com essa furada da gravadora, o Bozó resolveu sair da banda, porque ele estava preocupado em ganhar dinheiro, estava com quase trinta anos e não ganhava nada.

Após a saída do Bozó, eu tentei achar um novo vocalista. É muito difícil substituir o Bozó, porque acho ele um excelente cantor, mais o carisma, presença de palco e tudo. Eu fiz alguns testes, achei que ninguém tinha nada a ver, mas eu achei um vocalista que cantava muito, apesar de ser totalmente diferente do Bozó. Aí resolvi montar uma banda nova, a Eletrika, que chegou até ter música em uma novela da Rede Globo, tocou no festival de música brasileira e chegou a ter um certo reconhecimento também. 

O Eletrika chegou a fazer turnê fora com o Slipknot, Testament e com muita banda legal na França. Em 2004 o vocalista saiu, continuei mais um pouco até 2007, o Eletrika acabou e parei de tocar até o Overdose voltar, em 2008, quando a gente fez um show em São Paulo.


RtM: E de planos a médio e longo prazo? O que podemos esperar do Overdose?

CD: A longo prazo, não tem planos, vamos ver o que vai acontecer com as coisas que estão acontecendo.  A prioridade é o lançamento do EP com cinco músicas inéditas, que é o que a gente está fazendo. Estamos indo para a segunda música, “João Sem Terra”, que é um Metal baião com paródia da música nordestina. Está praticamente pronta, mês que vem ela deve estar saindo em todas as plataformas digitais.

Depois do lançamento do EP, vamos ver se a gente volta a tocar. A sorte dessa vez é que eu achei um vocalista muito bom, que não é o Bozó, mas que é muito fera, o Vitor, que leva a onda do Bozó muito bem. A pretensão é remontar a banda, estou tentando arranjar um guitarrista para fazer os shows de comemoração dos quarenta anos e do lançamento do EP.

Não sei se vamos continuar fazendo músicas inéditas e continuar tocando, porque o retorno financeiro é muito pequeno. Para te falar a verdade é mais prejuízo, porque a maioria das bandas gasta para fazer Metal. Não dá para falar que é investimento, porque não tem retorno. Então vai depender do que estiver acontecendo.



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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Fenrir's Scar: Versatilidade Musical e de Emoções

 



Finalmente “Love | Hate | Hope | Despair” da banda Fenrir’s Scar foi lançado! E sinceramente, essa espera valeu a pena.

O duo formado por André Baida (Vocal, Baixo, Guitarra) e pela vocalista e letrista Desireé Rezende evolui muito desde seu primeiro álbum homônimo, lançado de forma independente em 2017.

Algumas músicas do novo álbum já são conhecidas pelo público, como por exemplo a pesada “Ruins of My Sanity” que abre o trabalho.

Desde que eu ouvi “Age of Arrogance”, quando foi lançada no começo de abril deste ano, eu senti que rotular a banda como Gothic Metal seria muito limitante. Nessa faixa eles ousaram trazer elementos eletrônicos dando uma roupagem bem moderna aos arranjos.

E talvez a graça deste álbum seja exatamente a experimentação da dupla, onde é perceptível todo o esforço que eles fizeram para evoluir musicalmente.

Em “Blinded” se destaca o solo de guitarra cativante, em seguida temos “All Your Tears”, que explora uma atmosfera mais sensível, através da combinação da letra da música com os expressivos vocais de Desireé.

A quinta faixa do álbum é a inédita “Final Requiem” que traz mais elementos de música eletrônica.

Gostaria de destacar a colaboração de Fabiano Negri, não só como o produtor do álbum, mas também sua participação nos teclados, principalmente em “The Harvest” e sua introdução marcante.

Finalmente, “Queen of the Seas”, uma canção sobre Iemanjá e que não esconde a brasilidade do Fernrir's Scar, o que de forma positiva só reforça a originalidade da banda.

A próxima faixa, “Breaking the Wheel”, tem um tema especial para mim, pois foi inspirada no livro “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, que deu origem a uma das minhas séries de TV favoritas.

É normal todo mundo escolher uma faixa favorita de um álbum e nesse caso eu acho que eu escolho “Reason to Believe”, que mais uma vez me pegou por sua letra mais profunda.

Embora eu goste da versatilidade do Fenrir’s Scar na escolha do tema de suas composições, o lado mais emocional e introspectivo da banda é o que mais me cativa. “The Enemy Inside” já havia sido lançada em 2020 e embora não seja nenhuma novidade, ela agrega muito ao álbum, quando se ouve o trabalho completo.

Em “Curse of Mankind”, eu gostaria de destacar os vocais de André Baida, é muito satisfatório ouvir durante todo o álbum sua versatilidade entre vocais agressivos e limpos, mas para mim essa faixa é um verdadeiro destaque para os vocais masculinos, embora vale destacar que o Fenrir’s Scar já desconstruiu há muito tempo o estereótipo de vocais “Bela e a Fera”.

E é claro que não poderia faltar “Heal You”, que eu tenho certeza de que deve ter um significado muito forte para o casal, não só por sua letra, mas também por ter entrado para a trilha sonora do filme independente produzido por Gê Filho e Wagner Kampynas, “Amanhã Você Vai Embora”.

E encerrando o álbum, uma versão acústica para a faixa “The Queen of The Seas”. “Love | Hate | Hope | Despair”, não há um título melhor para definir as emoções apresentadas nesse álbum, por um momento você se sente comovido, em outro você se sente no meio do caos e do desespero e de repente a suavidade de Desireé e André te fazem sentir esperança novamente.

Eu esperava já um trabalho muito bom, mas eles conseguiram superar minhas expectativas de verdade. 

Texto: Raquel de Avelar
Edição/revisão: Caco Garcia
Fotos: divulgação 
  1. Ruins of My Sanity

  2. Age of Arrogance

  3. Blinded

  4. All Your Tears

  5. Final Requiem

  6. The Harvest

  7. The Queen of the Seas

  8. Break the Wheel

  9. Reason to Believe

  10. The Enemy Inside

  11. Curse of Mankind

  12. Heal You

  13. The Queen of the Seas (versão acústica)