Mostrando postagens com marcador Groove Metal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Groove Metal. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de julho de 2026

Black Label Society: O Peso da Despedida (Also In English)

MNRK Heavy (Imp.)

Por Michelle F. Santana (@mii.santanna)

Raras são as bandas que conseguem cruzar quase trinta anos de estrada, preservando uma assinatura musical tão autêntica quanto o Black Label Society. Criado em 1998 pelo guitarrista, cantor e compositor Zakk Wylde, o projeto moldou sua discografia ao redor de acordes gigantescos, groove metal, nuances de doom, southern rock, blues e, prioritariamente, a herança do Black Sabbath. Ladeado por Dario Lorina, John DeServio e Jeff Fabb, Wylde apresenta em Engines of Demolition um registro que resume perfeitamente os elementos que transformaram o conjunto em um pilar do heavy metal moderno, mas injeta um teor sentimental incomum em seu histórico. Editado em março de 2026, o álbum surge também como o trabalho inaugural de estúdio após a partida de Ozzy Osbourne, mentor e parceiro de longa data do líder da banda, um acontecimento que molda profundamente o clima da obra.

Logo nos primeiros instantes, fica claro que a produção técnica prioriza o impacto sonoro sem sacrificar a definição do áudio. As guitarras se apresentam encorpadas, as frequências baixas ganham enorme destaque e cada componente encontra seu devido posicionamento na mixagem. O produto final é um disco vigoroso, natural e dotado de grande vivacidade, hábil em mesclar momentos avassaladores a trechos melancólicos sem romper a unidade do projeto. O trabalho de estúdio exalta os traços estilísticos do Black Label Society, retendo o aspecto rústico tradicional do quarteto ao mesmo tempo em que joga luz sobre sutilezas instrumentais que ornamentam cada composição.

A faixa de abertura, "Name in Blood", dita o rumo do trabalho sem rodeios. Funciona como uma verdadeira declaração de princípios do Black Label Society: riffs demolidores, cadência envolvente e um refrão marcante que a consolida como um dos pontos altos do catálogo. A fusão de groove, agressividade e linhas melódicas potentes qualifica a música como uma forte candidata a integrar a lista de hinos atemporais da banda.

Em seguida, "The Hand of Tomorrows Grave" adota uma perspectiva mais obscura e reflexiva. As guitarras transitam entre o peso bruto e harmonias nostálgicas, enquanto Wylde exibe um canto carregado de sentimento, acentuando o ambiente denso que domina boa parte das canções.

A faceta mais terna desabrocha em "Better Days & Wiser Times", uma das composições lentas mais inspiradas da produção recente do conjunto. Bebendo das fontes do blues e do rock sulista, a canção atesta o talento de Wylde para edificar melodias comoventes sem apelar para o sentimentalismo barato. Trata-se de uma pausa necessária que enriquece a dinâmica do álbum.

Por sua vez, "Broken and Blind" resgata a rispidez habitual do grupo. Acordes cortantes, percussão massiva e uma rítmica contagiante fazem desta faixa um prato cheio para os entusiastas do lado mais extremo do Black Label Society. Novamente, a virtuosidade de Wylde surge sob medida: suas intervenções individuais impressionam pelo senso musical, evitando o exibicionismo técnico vazio.

Contudo, qualquer análise sobre Engines of Demolition seria incompleta sem focar em "Ozzy's Song", o encerramento da jornada. Estruturada no início apenas sob piano e violão, a peça ganha corpo gradualmente até desaguar em um solo tocante, servindo como uma despedida poética para Ozzy Osbourne. A entrega vocal de Wylde expõe uma fragilidade real, tornando a música um dos tributos mais honestos já feitos ao eterno Príncipe das Trevas. Longe de ser apenas uma homenagem, a faixa discute a perda de forma ampla, permitindo a conexão imediata de qualquer ouvinte com seu tema.

No aspecto técnico, Engines of Demolition comprova os motivos que mantêm Zakk Wylde no topo do escalão dos guitarristas mais admirados do metal. Suas criações seguem inconfundíveis, os solos fundem precisão e paixão, enquanto a seção rítmica capitaneada por John DeServio e Jeff Fabb entrega um alicerce robusto e massivo. A atuação de Dario Lorina agrega novas camadas harmônicas, sofisticando os arranjos sem desvirtuar o espírito da banda.

À frente do microfone, Wylde exibe o que talvez seja uma de suas marcas vocais mais expressivas em anos. Seu timbre permanece áspero e potente, mas ganha um amadurecimento cênico perceptível, em especial nos momentos mais intimistas.

Frente a registros como Order of the Black, Catacombs of the Black Vatican e Doom Crew Inc., Engines of Demolition funciona como uma antologia refinada de todas as eras do Black Label Society. O disco mescla a agressividade dos primeiros tempos, o polimento das criações recentes e uma carga afetiva sem precedentes. O objetivo não é reconstruir os pilares do grupo, mas lapidá-los de forma formidável, provando que ainda existe muito vigor em sua conhecida fórmula. Parte expressiva da crítica especializada e dos entusiastas já o classifica como o principal petardo do grupo em muito tempo, motivado exatamente pelo equilíbrio entre solidez, peso e sensibilidade.

Engines of Demolition entrega com precisão tudo o que se busca em um grande registro do Black Label Society: guitarras colossais, solos marcantes, refrões que colam na mente e um vigor emocional raramente visto na história do conjunto. É uma obra que honra o próprio passado ao mesmo tempo em que extrai novos propósitos por meio da saudade, do companheirismo e da exaltação ao legado de Ozzy Osbourne. Para os seguidores de Zakk Wylde, configura-se como um item obrigatório; para o cenário do heavy metal atual, firma-se como um dos grandes marcos de 2026.

Divulgação

***ENGLISH VERSION***

Few bands have managed to endure for nearly three decades while preserving such a distinctive musical identity as Black Label Society. Founded in 1998 by guitarist, vocalist, and songwriter Zakk Wylde, the band has built its discography around colossal riffs, groove metal, touches of doom, southern rock, blues, and, above all, the enduring legacy of Black Sabbath. Joined by Dario Lorina, John DeServio, and Jeff Fabb, Wylde delivers Engines of Demolition, an album that perfectly encapsulates everything that has made Black Label Society a cornerstone of modern heavy metal while introducing an uncommon emotional depth to the band's catalog. Released in March 2026, it also stands as the group first studio album following the passing of Ozzy Osbourne, Wylde longtime mentor and musical brother—an event that profoundly shapes the album's atmosphere.

From the opening moments, it becomes evident that the production prioritizes sheer sonic impact without sacrificing clarity. The guitars are massive and full-bodied, the low end is thunderous, and every instrument occupies its own space in the mix. The result is a powerful yet organic record that seamlessly balances crushing heaviness with moments of heartfelt melancholy without ever losing its cohesion. The production embraces Black Label Society's trademark sound, preserving the band's raw edge while highlighting subtle instrumental nuances that enrich every composition.

The opening track, "Name in Blood" immediately sets the tone. It serves as a bold statement of intent: crushing riffs, an irresistible groove, and a memorable chorus that firmly establishes it as one of the album's standout moments. Its blend of groove, aggression, and soaring melodies makes it a strong contender to join the band's timeless anthems.

Next comes "The Hand of Tomorrows Grave" which embraces a darker and more introspective approach. The guitars shift effortlessly between crushing heaviness and mournful harmonies, while Wylde delivers one of his most emotionally charged vocal performances, reinforcing the somber atmosphere that permeates much of the record.

The album's softer side emerges with "Better Days & Wiser Times" one of the finest ballads Black Label Society has written in recent years. Rooted in blues and southern rock influences, the song showcases Wylde's remarkable ability to craft deeply moving melodies without slipping into sentimentality. It offers a welcome moment of reflection while enhancing the album's dynamic flow.

Meanwhile, "Broken and Blind" brings back the band's signature intensity. Razor-sharp riffs, thunderous drumming, and an irresistible groove make it a highlight for fans of Black Label Society's heavier side. Once again, Wylde's guitar work strikes the perfect balance between virtuosity and musicality, delivering technically brilliant solos that always serve the song rather than becoming mere displays of skill.

However, no discussion of Engines of Demolition would be complete without "Ozzy's Song" the album's deeply emotional closing track. Beginning with little more than piano and acoustic guitar, the composition gradually builds into an unforgettable guitar solo, serving as a heartfelt farewell to Ozzy Osbourne. Wylde vocal performance is remarkably vulnerable, making this one of the most sincere tributes ever dedicated to the Prince of Darkness. More than just a tribute, the song explores grief in a universal way, allowing listeners to connect with its message on a profoundly personal level.

From a technical standpoint, Engines of Demolition reaffirms why Zakk Wylde remains one of heavy metal's most respected guitarists. His unmistakable riffs remain as powerful as ever, while his solos combine technical precision with genuine emotion. The rhythm section, anchored by John DeServio and Jeff Fabb, provides a massive and unwavering foundation, while Dario Lorina adds fresh harmonic textures that enrich the arrangements without compromising the band's unmistakable identity.

Behind the microphone, Wylde delivers what may well be his most expressive vocal performance in years. His signature gritty voice retains all of its power but reveals a newfound emotional maturity, particularly during the album's more intimate moments.

Compared to albums such as Order of the Black, Catacombs of the Black Vatican, and Doom Crew Inc., Engines of Demolition feels like the definitive culmination of every era of Black Label Society. It combines the raw aggression of the band's early years, the refined songwriting of its more recent releases, and an unprecedented emotional resonance. Rather than reinventing the band's formula, the album perfects it, proving that there is still plenty of creative fire left within Black Label Society's signature sound. It stands as one of the band's strongest and most emotionally compelling releases in years.

Engines of Demolition delivers everything one could hope for from a great Black Label Society album: colossal riffs, unforgettable guitar solos, instantly memorable choruses, and an emotional weight rarely heard in the band's history. It is a record that honors its own legacy while discovering new meaning through loss, brotherhood, and the enduring spirit of Ozzy Osbourne. For longtime fans of Zakk Wylde, it is an essential listen; for the modern heavy metal landscape, it firmly establishes itself as one of 2026's defining releases.

Divulgação 


sábado, 9 de maio de 2026

Cyhra: O metal melódico abraçando o futuro (Also In English)

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Flavio Borges

À medida que se aproximam de uma década de existência, os suecos do Cyhra parecem cada vez mais confortáveis em ocupar um território próprio dentro do metal moderno europeu. Nascida da união de músicos oriundos de gigantes como Amaranthe, In Flames e Kamelot, a banda sempre caminhou na delicada linha entre acessibilidade melódica e agressividade contemporânea. Em Requiem For A Pipe Dream, porém, essa identidade finalmente parece atingir seu ponto mais sólido e maduro.

Longe de simplesmente repetir a fórmula apresentada em Letters to Myself, No Halos in Hell e The Vertigo Trigger, o grupo amplia sua paleta sonora sem perder coesão. O resultado é um disco que alterna entre o metal melódico escandinavo clássico, o metal moderno carregado de elementos eletrônicos e até incursões em territórios próximos do alternative metal e do nu metal — tudo embalado por uma produção grandiosa, limpa e extremamente contemporânea.

A abertura com “Bleed With Pride” deixa claro, desde os primeiros segundos, que o álbum não pretende soar nostálgico. A base eletrônica conduz a música enquanto guitarras densas e refrões monumentais constroem uma atmosfera cinematográfica. O peso está ali, mas sempre acompanhado por melodias cuidadosamente calculadas. O solo aparece quase soterrado pela parede sonora da mixagem — escolha estética que privilegia o impacto coletivo da faixa em vez do virtuosismo individual.

Escolhida como single de divulgação, “Superman” sintetiza perfeitamente a proposta do álbum. A construção minimalista dos versos, sustentada por elementos eletrônicos e pulsação quase dançante, desemboca em um refrão enorme e imediatamente memorável. Há momentos em que a faixa flerta descaradamente com a dance music moderna, mas sem jamais abandonar a agressividade característica do grupo.

Sombria e atmosférica, “Miss Me When I’m Gone” mergulha ainda mais fundo na faceta contemporânea da banda. Os elementos eletrônicos dominam boa parte da composição, enquanto o baixo ganha protagonismo raro dentro do gênero, funcionando como eixo central entre peso e ambiência. A ausência quase total de exibicionismo instrumental revela uma banda muito mais preocupada em construir atmosfera do que em impressionar tecnicamente.

Aqui o disco muda drasticamente de direção e abraça o DNA do metal melódico escandinavo. “Ghostbound” é rápida, épica e carregada de energia, a faixa poderia facilmente dialogar com a escola clássica de Gotemburgo, ainda que os vocais mantenham uma abordagem claramente moderna. O trabalho de bateria, especialmente nos momentos de bumbo duplo, injeta intensidade quase power metal à composição. Uma das faixas mais explosivas do álbum.

A inevitável power ballad  “In The Center Of A Miracle” surge com elegância e sem excessos. Piano, voz e uma condução mais orgânica permitem que a banda explore emoção sem cair no sentimentalismo barato. O grande mérito da música está justamente na contenção: em vez de recorrer a explosões exageradas ou solos intermináveis, o Cyhra aposta em dinâmica, nuances e construção melódica. O resultado é uma das faixas mais maduras do disco.

O álbum retorna ao território moderno com agressividade renovada em “Skin From Bones”. Há influências claras de nu metal, industrial e até hip hop espalhadas pela estrutura da faixa, enquanto os teclados assumem papel central na condução rítmica. Ainda assim, o grupo jamais sacrifica o senso melódico — algo que diferencia o Cyhra de tantas bandas contemporâneas que confundem peso com excesso de ruído.

Se fosse necessário escolher uma faixa para definir o álbum, provavelmente seria  “Ghost I’m Meant To Be”. O equilíbrio entre peso moderno, ambiência eletrônica, melodias grandiosas e instrumental técnico aparece aqui de forma quase perfeita. As transições entre os versos e o refrão são particularmente eficientes, enquanto os efeitos orgânicos — incluindo batidas cardíacas — ajudam a ampliar a sensação cinematográfica da composição. O encerramento épico reforça ainda mais essa impressão.

Sem abandonar a fluidez do álbum, em  “Mark Of My Sins” a banda mergulha novamente em uma estética fortemente contemporânea. Os vocais abusam de texturas e efeitos sem comprometer a força melódica, enquanto as guitarras alternam entre riffs secos e intervenções mais atmosféricas. Talvez seja uma das faixas que mais divide opiniões entre ouvintes tradicionais e fãs do metal moderno atual.

“Venom In Me” é uma das músicas mais equilibradas do disco. As harmonias de guitarra remetem diretamente ao metal melódico clássico, mas convivem naturalmente com timbres modernos e produção atualizada. O trabalho de baixo e bateria merece atenção especial pela riqueza de detalhes e dinâmica. Existe um cuidado evidente na construção dos arranjos, evitando que a faixa se transforme apenas em mais um exercício de fórmula escandinava.

Fortemente influenciada pela fase mais moderna do In Flames, “Box With Spirits” praticamente abandona qualquer traço mais tradicional em favor de uma abordagem totalmente contemporânea. Os vocais carregados de efeitos e as guitarras densas criam uma atmosfera pesada e urbana. Curiosamente, é justamente aqui que surge um dos solos mais inspirados do álbum — breve, mas extremamente eficiente.

“Hold Your Fire” com participação de Samy Elbanna, do Lost Society, o encerramento mergulha sem medo no território do melodic death metal finlandês. As referências a Children of Bodom são inevitáveis e aparecem tanto nas linhas de guitarra quanto na agressividade dos vocais e da cozinha rítmica. É uma faixa intensa, veloz e extremamente melódica — encerramento forte para um álbum que entende perfeitamente sua proposta.

Requiem For A Pipe Dream talvez não seja um disco pensado para puristas do metal tradicional, mas dificilmente esse foi o objetivo do Cyhra. O que a banda entrega aqui é um trabalho moderno, ambicioso e cuidadosamente produzido, capaz de dialogar tanto com a nova geração do metal europeu quanto com fãs da clássica escola melódica escandinava. Mais importante: soa como uma banda plenamente consciente de sua identidade — algo que muitos grupos veteranos ainda passam a carreira inteira tentando encontrar.

***ENGLISH VERSION***

As they approach their tenth anniversary, Sweden’s Cyhra seem increasingly comfortable occupying a territory of their own within modern European metal. Born from the union of musicians connected to giants such as Amaranthe, In Flames and Kamelot, the band has always walked the delicate line between melodic accessibility and contemporary aggression. On Requiem For A Pipe Dream, however, that identity finally reaches its most confident and mature form.

Far from simply recycling the formula presented on Letters to Myself, No Halos in Hell and The Vertigo Trigger, the group expands its sonic palette without sacrificing cohesion. The result is an album that moves effortlessly between classic Scandinavian melodic metal, modern electronic-infused heaviness, and even excursions into alternative metal and nu metal territory — all wrapped in a massive, polished and unapologetically contemporary production.

Opening track “Bleed With Pride” makes it immediately clear that nostalgia is not on the agenda here. Electronic textures drive the song forward while dense guitars and towering choruses build a cinematic atmosphere. The heaviness is undeniable, but always balanced by meticulously crafted melodies. Even the solo feels almost buried beneath the wall of sound — an aesthetic choice that favors the collective impact of the track over individual virtuosity.

Chosen as the album’s lead single, “Superman” perfectly encapsulates the record’s overall vision. The minimalist verse structure, supported by electronic elements and an almost dancefloor-ready pulse, explodes into a huge and instantly memorable chorus. At times, the song openly flirts with modern dance music, yet never abandons the band’s inherent aggression.

Dark and atmospheric, “Miss Me When I’m Gone” dives even deeper into the band’s contemporary side. Electronic elements dominate much of the composition, while the bass takes on an unusually prominent role, serving as the central axis between weight and atmosphere. The near-total absence of instrumental showmanship reveals a band far more interested in mood and texture than technical exhibitionism.

Here the album takes a sharp turn and fully embraces the DNA of Scandinavian melodic metal. Fast, epic and packed with energy, “Ghostbound” could easily sit alongside the classic Gothenburg school, even as the vocals maintain a distinctly modern approach. The drumming — especially during the relentless double-kick sections — injects a near power metal intensity into the composition. One of the album’s most explosive moments.

The inevitable power ballad, “In The Center Of A Miracle”, arrives with elegance and restraint. Piano, vocals and a more organic arrangement allow the band to explore emotion without slipping into cheap sentimentality. The song’s greatest strength lies precisely in its subtlety: instead of relying on exaggerated crescendos or endless solos, Cyhra invest in dynamics, nuance and melodic construction. The result is one of the album’s most mature compositions.

The record returns to modern territory with renewed aggression on “Skin From Bones”. Clear influences from nu metal, industrial and even hip hop are woven throughout the song’s structure, while keyboards take center stage in the rhythmic framework. Even so, the group never sacrifices melody — something that separates Cyhra from many contemporary acts that mistake heaviness for sheer noise.

If one track had to define the album, it would probably be “Ghost I’m Meant To Be”. The balance between modern heaviness, electronic ambience, massive melodies and technical musicianship is executed here almost flawlessly. The transitions between verses and chorus are particularly effective, while organic sound effects — including heartbeat pulses — amplify the song’s cinematic scope. The epic finale only reinforces that impression.

Without disrupting the album’s flow, “Mark Of My Sins” once again dives headfirst into a strongly contemporary aesthetic. The vocals lean heavily on textures and effects without losing melodic strength, while the guitars alternate between sharp-edged riffs and atmospheric passages. It may well be one of the tracks most likely to divide traditional metal listeners and fans of today’s modern metal scene.

“Venom In Me” stands as one of the album’s most balanced songs. The guitar harmonies draw directly from classic melodic metal traditions, yet coexist naturally with modern tones and updated production. The bass and drum work deserve particular praise for their richness in detail and dynamic interplay. There is an obvious level of care in the arrangement, preventing the track from becoming just another Scandinavian formula exercise.

Strongly influenced by the more modern era of In Flames, “Box With Spirits” almost entirely abandons traditional elements in favor of a fully contemporary approach. The heavily processed vocals and dense guitar layers create a dark, urban atmosphere. Ironically, it is here that one of the album’s most inspired guitar solos unexpectedly appears — brief, but highly effective.

Closing track “Hold Your Fire”, featuring Samy Elbanna of Lost Society, dives fearlessly into Finnish melodic death metal territory. The references to Children of Bodom are unmistakable, surfacing both in the guitar work and in the aggressive vocal and rhythm section performance. It is intense, fast and highly melodic — a powerful conclusion to an album that understands exactly what it wants to be.

Requiem For A Pipe Dream may not be an album designed for traditional metal purists, but that was likely never Cyhra’s intention. What the band delivers here is a modern, ambitious and carefully crafted record capable of connecting equally with the new wave of European metal listeners and fans of the classic Scandinavian melodic school. More importantly, it sounds like a band fully aware of its own identity — something many veteran acts spend entire careers trying to achieve.

Linda Florin


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Soulfly: Entre o Fogo e o Espírito

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Paula Butter

Enfim a oportunidade de apreciar o novo lançamento do Soufly, banda de longa data, fundada por Max Cavalera, após sua saída do Sepultura. É sempre uma expectativa boa, perceber os elementos característicos da banda, como parte da composição, bem como das letras, sempre muito bem trabalhadas e que refletem muito bem os ardores da humanidade. Max é sempre genial no que faz, talvez por isso o Soufly está na ativa a tanto tempo, sem contar alguns hiatos, claro, mas mesmo assim entrega, faz o dever de casa com maestria. 

Segundo o próprio vocalista, o álbum “Chama” é uma espécie de continuação do conceito apresentado em “Totem” de 2022. Inclusive já na música que dá nome ao álbum pode se perceber uma mistura de peso característico da banda, mas com riffs melódicos, seguindo uma linha mais instrumental do meio para o fim da canção. 

Destacam-se os elementos instrumentais, com solos de guitarras mais ao fundo, e objetos de percussão bem definidos e em destaque, contrastando com o peso dos vocais e o característico som Thrash e Groove Metal da banda. 

Com a finalidade de deixar as dicotomias mais claras dentre as dez faixas, destaco “No Pain = No Power”, quase um grito de guerra, “Favela/Dystopia” e a excelente “Nihilist”, dedicada a Lars Göran Petrov (ex-vocalista do Entombed, que nos deixou em 2021), como sendo as mais poderosas e pesadas do álbum, tanto nas letras quanto na música. Apesar da voz ter ficado um pouco em segundo plano, talvez propositalmente. Mas mesmo assim, dignas de serem cantadas em plenos pulmões ao vivo. 

Por outro lado, destaque para a mistura de ritmos e melodias em “Chama”, o single muito bem escolhido “Storm the Gates” digna do mainstream. Também convém citar os vocais em portugues, muito bem ritmados, na faixa “Always Was, Always Will Be”, esta última minha favorita do álbum. 

Para finalizar, as últimas canções fecham muito bem a obra, dando maior destaque ao instrumental e elementos ritualísticos culturais, com solos melodiosos de guitarra e diversidade de sons. A última canção, propriamente dita, lembra literalmente algo espiritual e complexo, deixando o ouvinte com um silêncio que lembra a noite, e nada mais. Uma obra impossível de ouvir apenas uma vez, e que vai agradar a todos os públicos do Heavy Metal. Para aqueles que não prestavam muita atenção a banda, chegou a hora de acordar!

Jim Louvau


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Cobertura de Show: Static-X – 07/11/2024 – Terra/SP

Na último dia 07/11 (quinta-feira), São Paulo foi por algumas horas tomada de assalto por duas bandas estreantes, mas com longas carreiras e que inexplicavelmente nunca estiveram em terras brasileiras, que trouxeram o Metal Industrial/Nu Metal para os fãs presentes no Terra SP.

A honra de iniciar a festa coube ao Dope, formada no final dos anos 90 na cidade de Nova Iorque. A apresentação foi curta, mas foi intensa e explosiva, um desfile de vários sucessos da banda, destacando-se as enérgicas "Blood Money", "Die Motherfucker Die" e "Debonaire" com o vocalista Edsel Dope comandando a plateia como poucos frontman e aquecendo a todos para a atração principal da noite.

O "jogo" já estava ganho antes mesmo do Static-X subir ao palco, isso é certo, tal a vibração e ansiedade presente no público. A banda formada pelos membros originais, Koichi Fukuda na guitarra, a cozinha formada por Tony Campos e Ken Jay, baixo e bateria respectivamente, e liderada pelo guitarrista e vocalista Xer0, uma reencarnação robótica/fantasma do falecido Wayne Static, subiu ao palco ovacionada.

A entrada do Static-X foi uma apoteose, e a apresentação correspondeu inteiramente ao que todos os fãs da banda esperavam, primeiro com uma sequência de hits mais recentes, vibrantes e poderosos, como "Hollow" e "Terminator Oscillator", e músicas do inicio arrasador da carreira como "Love Dump","Wisconsim Dead Trip", "Fix" e "Bled for Days", todas acompanhadas em coro pelos fãs. Para muitos ali foi a realização de um sonho, afinal por vários motivos a banda nunca veio ao Brasil, e, depois da morte do líder da banda em 2014, muitos acreditavam que nunca os veriam tocando ao vivo.

Como toda banda que conhece a força da sua discografia, a melhor parte, e a mais emocionante, ficou para o fim da apresentação: "Cold" foi uma linda e tocante homenagem ao fundador da banda, o lendário Wayne Static, cuja morte completa 10 anos em 2024; e fechando a apresentação vieram na sequência a pedrada "I'm With a Stupid e por último seu maior sucesso,"Push It". A banda ganhou a partida de goleada.


Texto: Eduardo Okubo Junior

Fotos: Rogério Talarico 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Rider2

Mídia Press: Catto Comunicação


Dope – setlist: 

Blood Money

Bring it On

Bitch

Debonair

Die Motherfucker Die, Boom, Bang, Burn

You Spin Me Round


Static X – setlist: 

Intro / Evil Disco

Hollow

Terminator Oscillator

Love Dump

Sweat of the Bud

Wisconsim Death Trip

Fix

Bled for Days

Black and White

Z0mbie

Get to the Gone

I am

Cold

I'm With Stupid

Push It

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Choque: Lendas urbanas com um toque de Thrash/Groove

Por: Renato Sanson

Músico entrevistado: Mazera (guitarra)

São apenas dois anos de existência, mas com músicos experientes. Como foi formar o Choque?

Formar bandas nos anos 2000 era muito mais fácil, bastava abrir uma cerveja em um boteco, escolher uns covers e os ensaios começavam em uma semana, mas um trampo deste, autoral e com idéias concretas de riffs e musicalidade definida, é muito difícil, mas o começo foi em Dezembro de 2022 após o Knotfest em SP, eu (Mazera) e Alex Cole nos desafiamos em fazer um som. 

Então, em Janeiro de 2023 fiz 9 músicas, com riffs, bateria e baixo, entre elas “Terra do não”, “Funcionários da noite” e “Dr. Cuzão” que estarão no primeiro álbum, Alex gravou 8 demos (vocais) em 2023, devido a problemas pessoais ele deixou o vocal, mas aqui vai meu agradecimento ao Alex, pois foi ele que me apresentou “apenas” Black Sabbath, Stevie Ray Vaughan e Pantera, minhas maiores influencias. Seguindo em frente, ano é 2024 faço contato com o Rafael, acompanhava os trabalhos dele na 100Dogmas e Fractal, pensei, este vocal vai “fechar” com este som, e esta sendo “do caralho” , talentoso e brother daqueles! 


Houve uma coesão imediata. Isso sempre rende frutos.

Sim, parece que nos conhecemos há décadas, já mandou ver no vocal! E no baixo, tentei uns 5 “cabras”, por vários motivos ninguém queria, até que, surge o Adriano, baita guitarra aqui da cidade, e tatuador renomado no Brasil, topou assumir os graves do projeto, bateria temos alguns contatos, mas não temos baterista oficialmente, quem revisa a bateria nas músicas é Erik Corrêa.


A ideia lírica de trazer lendas urbanas, mesclada com temas ásperos em volta de protestos, casa muito bem a sonoridade. Como é buscar essas influencias?

Então, a resposta disso estava do meu lado, no meu passado e estará no futuro nosso, falar da cultura local, de coisas peculiares, às vezes engraçadas, outras obscuras fechou com a musicalidade do nosso som, e sinto muito orgulho em falar disso em português bem claro, letras com palavrões de desabafo, extravasar a raiva em letras é bom “pra caralho”, quem nunca mandou um “foda se”? 

E mandar isso cantando é 1000 vezes mais gostoso! Teremos muito disso nas próximas.

Musicalmente, temos a vertente do Thrash/Groove. Podendo dizer sem medo, uma mistura entre Pantera e Raimundos. Essa era a ideia mesmo?

Incluiria Black Sabbath junto, foi minha primeira banda tributo, Raimundos me despertou as letras em PT com riffs viscerais e o Pantera foi aquele terremoto de magnitude 10 na meu play, Dimebag foi um absurdo na história do metal!


Até o momento, a banda lançou alguns singles para o publico ir se familiarizando. Conte-nos um pouco de cada faixa.

“Terra do não” fala da nossa jornada terrena, recebendo muito mais “não” do que sim em nossas vidas, iguais andarilhos, sem lar e portas fechadas em uma sociedade hipócrita.

“Cobrador de contas”, essa daria um livro, mas basicamente é dedicada aos “maus pagadores”, onde acham que se deram bem dando calote no seu compromisso, mas o cobrador de contas irá atrás de você, onde aproveitando o ensejo, entra na história um cobrador de contas famoso aqui da região nos aos 70 e 80.

“Nego da beira”, dedicada à comunidade da “Beira” que margeava o Rio Itajai-açu, na cidade de Rio do Sul nos anos 1940 até a década de 1980, mistura de realidade e ficção, onde uma criança negra cresce em um ambiente de extrema opressão racial e social.

“Revolução” fala de um mundo atual (outubro 2024), esta letra foi escrita em 2023.

O Debut está em fase de gravação. Já é possível esmerar uma possível data de lançamento?

Se tudo conspirar a favor, lançaremos em dezembro o Álbum com 8 ou 9 músicas.

O mesmo saíra em formato físico ou somente digital? Pergunto, pois sabemos das dificuldades do lançamento físico atualmente, mas é inegável uma crescente pela procura dos materiais físicos. Parece que o digital vem perdendo a graça e falta algo mais sério para consumir música. O que vocês pensam a respeito?

Já tirei música do vinil no final dos anos 90, seria muito “da hora” fazer um vinil, mas, o compact disc esta nos meus planos, com encarte e fotos (nostalgia total)!

Finalizando, gostaria que nos listassem os cinco álbuns que mais influenciaram a criação do Choque. Nos vemos em algum show por aí!

Agradecemos o espaço e interesse! Segue a lista de influências do CHOQUE:

1.       Pantera - Cowboys From Hell

2.       Pantera – Vulgar Display...

3.       Black Sabbath – Paranoid

4.       Raimundos – Lapadas do Povo

5.       Dio – Holy Diver

 

 Choque Instagram 




domingo, 29 de setembro de 2024

Cobertura de Show: TesseracT – 14/09/2024 – Carioca Club/SP

 TesseracT imerge fãs em show de repertório vasto e “escalada” de energia do público em São Paulo

Apresentação no Carioca Club foi a primeira de duas marcadas para a capital paulista e focou tanto na divulgação do mais recente disco, “War of Being”, quanto em passagens por outros discos do repertório do quinteto

O retorno da banda britânica de Metal Progressivo e djent TesseracT ao Brasil não somente encerrou uma expectativa mútua para fãs que viram a banda na última passagem e para quem viu pela primeira vez, como marcou uma verdadeira escalada de ânimos e energia da plateia em pleno Carioca Club, em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, no último dia 14 de setembro. Esta foi a primeira de duas apresentações previstas na capital paulista - sendo a segunda no Fabrique Club, na região da Barra Funda - que encerrou a turnê latinoamericana. O evento em questão foi organizado pela Liberation Music e também contou com a banda de Metalcore There’s No Face na abertura.

O TesseracT, formado em 2003 na cidade de Milton Keynes, no sudeste inglês, fez de sua primeira apresentação um show baseado na divulgação de seu mais recente álbum, “War of Being” (2023), lançado pouco mais de seis meses após a primeira passagem da banda em solo brasileiro - com apresentação no mesmo Carioca Club -, e com o incremento de músicas de boa parte do repertório de EPs e álbuns lançados desde 2010. Tal situação se diferenciou do show do dia seguinte, que teve foco no EP “Concealing Fate”, o primeiro lançamento da banda.

Com um Carioca Club praticamente lotado e com uma boa quantidade de pessoas presentes desde a abertura dos portões, o público, muito por conta de uma pequena diferença de estilos musicais e focado na apresentação principal, não se mostrou muito agitado com a abertura e, durante o show principal, teve uma verdadeira escalada de ânimos, iniciada nos coros vocais, passada por momentos de pulos e cantos e que atingiu seu ápice durante o bis, com as faixas do primeiro EP da banda que levaram o público ao delírio, garantindo até mesmo rodas intensas na pista.


There’s No Face

O quarteto paulista de Metalcore, composto por Rafael Morales (vocal), Matheus Silvério (guitarra), Thiago Silva (baixo e backing vocal) e Rodrigo Kusayama (bateria), iniciou a apresentação pontualmente no Carioca Club às 19h. O setlist, composto por seis faixas, trouxe o melhor do repertório dos 15 anos de banda, baseado no EP “Escolhas” (2012), o álbum de estreia, “Contra/Senso” (2024) e em demais singles. 

O vocalista foi o último a entrar, após a introdução da banda, feita com os membros à espera. O quarteto começou com tudo, com a faixa “Hamurabi”, em meio a ótimas notas distorcidas da guitarra, os cantos de Rafael Morales e o refrão melódico muito bem executado por Thiago. No entanto, a ótima energia da banda entrou em contraste com o resguardo do público que, aparentemente mais pautado ao Metal Progressivo e o djent (carros-chefe do TesseracT), não entrou no mesmo ânimo durante a faixa - situação que acabou por prosseguir na maior parte da apresentação de abertura.

Uma das tentativas de animar o público, por parte do There’s No Face, ocorreu na faixa seguinte, o single “Quebre o Silêncio”, quando o frontman da banda chamou o público para pular e sugeriu: “Não precisa guardar energia para o TesseracT”. Os pulos dos membros não foram cativados, o que não mudou a energia dos mesmos e o peso da faixa, que contou com um ótimo riff inicial e boa transição entre guturais e trechos mais líricos de voz.

A banda puxou o setlis para o EP “Escolhas”, representado pela faixa de abertura do lançamento de 2012, “Enquanto Você Espera o Bem” que, além de mais uma iniciação animada, contou com um poderoso breakdown ainda no primeiro minuto da faixa. Já em “Imensidão”, single lançado em 2019 e com um ótimo refrão com teor sentimental e reflexivo, Rafael Morales fez outra tentativa de animar a pista com um pedido sem sucesso de abertura de uma roda na pista. Apesar disso, houve agradecimentos por parte dele e da banda pela presença do público, que ocupou pouco mais da metade da pista, durante o show de abertura.

A reta final da apresentação veio com as faixas “Contra/Senso” e “Motivo”. Na primeira, mais um ótimo misto de vozes de Rafael e Thiago, somados a um forte peso de todos os instrumentos; já na segunda faixa (a última do setlist da banda na noite), vieram as melhores interações com um público mais solto em meio a ótima condução da banda e um refrão resiliente: o acender dos flashes, em um belo mar de luzes ao meio da faixa, e um ótimo breakdown no final da faixa, antecedido de um único grito de uma fã do mezanino da letra em questão: “Contei as Horas pra voltar aqui”. Uma apresentação que mostrou que o There’s No Face segue em ótima qualidade - e digo isso por já tê-los visto em um show recente, da banda Alesana, no mesmo local - e que só não se tornou mais animado por conta de um “conflito” de gostos, envolvendo um público mais centrado ao estilo do TesseracT e, claro, em uma espera contida, mas ansiosa, pela banda principal.


Momentos antes de TesseracT

Durante a montagem do palco para a próxima apresentação, a expectativa ficou voltada aos leds instalados em volta do kit de bateria e nas extremidades frontais e traseiras do palco. Um dos roadies do TesseracT, inclusive, roubou a cena por conta da multifuncionalidade no palco, desde os testes de luzes até os de instrumentos de cordas - a guitarra, principalmente. Tudo isso enquanto, em momentos esporádicos, o público gritava em nome da banda.

Nos minutos finais antecedentes ao show principal, o ambiente se converteu nas luzes azuis e em muita fumaça de gelo seco no palco. Nas caixas de som, músicas de grupos e artistas renomados da Europa, como The Prodigy e Björk fizeram uma ambientação agradável para todos. Tudo isso até dar 19h59 e, pontualmente, o show começar no minuto seguinte.


TesseracT: uma viagem equilibrada ao repertório da banda 

Às 20h, uma pequena introdução foi tocada enquanto os primeiros grandes gritos em nome da banda ecoavam pela pista e mezanino do Carioca Club. Aos poucos, os membros do quinteto entraram: Acle Kahney (guitarra), James Monteith (guitarra), Jay Postones (bateria), Amos Williams (baixo e backing vocal) e, por fim, Daniel Tompkins (vocal). Deles, Amos foi o único a entrar com capuz, enquanto Tompkins pintou sua face de vermelho, na altura dos olhos, fator que demorou a ser identificado devido a um sistema de iluminação que, aparentemente, foi feito para favorecer os leds e, assim, dificultou a visão dos membros da banda para quem estava mais ao meio ou fundo da pista e mezanino da casa, durante praticamente todo o show.

Após a introdução, o TesseracT abriu o setlist de 13 faixas com as ovações do público e a faixa “Natural Disaster”, que também inicia o mais recente trabalho da banda, o álbum “War of Being” (2023). Mesmo que nem todos pulassem, os gritos eram uníssonos e acompanharam Daniel Tompkins no início da faixa, prosseguidos das partes cantadas liricamente e em meio a belas linhas de Metal Progressivo poucos e movimentações “plasmáticas” dos LEDs instalados. 

“Echoes” deu sequência à apresentação, formando a mesma dobradinha que ocorre no álbum anteriormente mencionado. O público fez seu papel de fã ao acompanhar a faixa com palmas e coros quando eram propícios, além de momentos de pulo coletivo no meio da faixa. Tompkins usou de muitas gesticulações com o braço que não segurou o microfone, o que incrementou sua performance à bela voz e junto a um instrumental impecável do restante da banda. Em seguida, a comemorada “Of Mind - Nocturne”, única faixa da noite a representar o álbum “Altered State” (2013), trouxe mais da versatilidade dos LEDs, com alternâncias entre o verde, azul e rosa, que acompanharam o show vocal e do instrumental ainda mais prog da banda. A finalização da terceira faixa veio com o frontman do TesseracT subindo na plataforma central montada para gritar os versos finais, gritados: “Wake me up!”, seguida de linhas seguidas (e poderosas) do baixo de Amos Williams, seguidas do acompanhamento das guitarras e bateria.

Daniel Tompkins fez seu primeiro discurso após as ovações pertinentes do público, reafirmando que a banda voltou como foi prometido em 2023, ano em que debutaram em solo brasileiro com shows em Curitiba e em São Paulo, no próprio Carioca Club. A faixa “Tourniquet”, com um ritmo mais calmo, veio na sequência, em um ode à força do amor que não somente foi representado na carga sentimental da letra, como no ambiente em luzes vermelhas que predominou o início da faixa - com direito á ótimas e destacadas linhas de baixo no final da faixa, novamente acompanhadas pelas guitarras de Acle Kahney e James Monteith e as fortes batidas nos pratos da bateria de Jay Postones.

O retorno ao repertório do álbum de estúdio mais recente, “War of Being”, veio com “Sacrifice”, música que encerra a tracklist da produção em questão. O início lento e em teor eletrônico acompanhou a carga questionadora da letra e a iluminação mesclada entre o rosa dos LEDs e o amarelo dos refletores. Logo, a faixa levou uma condução mais animada e pautada na progressividade proposta pela banda, inclusive com mais um momento de destaque para Amos Williams e um ótimo (e ovacionado) falsete por parte de Daniel Tompkins.

A sexta faixa do TesseracT na noite, “King”, abriu as portas para o disco “Sonder” (2018). Seu início às escuras, acompanhado da primeira voz com efeito grave por parte de Daniel Tompkins - como se anunciasse algo -, logo deu caminho para o riff poderoso da faixa, com distorções mais evidentes na guitarra, porém ainda presas a uma linha lírica. Fãs de todos os lados acompanharam o refrão e foram assim ao longo da música. Foi nesta faixa, também, que uma das primeiras interações mais diretas aconteceu, quando o frontman da banda acendeu uma mini-lanterna e pediu os flashes da galera, algo que foi amplamente respondido (assim como no show de abertura) e retomou um ambiente bonito e iluminado no Carioca Club.


Dando sequência ao “momento Sonder”, a banda selecionou a dupla de faixas “Smile” e “Arrow”, que contou com muito balanço de cabelos dos membros da banda, no riff, um refrão que misturou a linha inicial com a bela voz de Daniel Tompkins e, principalmente, um breakdown poderoso, com linhas de guitarra mais propícias às características do djent e batidas fortes do baterista do TesseracT, que também ditou um ritmo interessante ao final da primeira faixa, uma vez que a segunda trouxe uma pegada mais lírica por parte da voz.


Tompkins fez questão de comparar a passagem anterior com a atual, justificando estar doente e, por isso, não ter performado da mesma forma que naquele momento. Esse foi o prenúncio para uma mudança mais evidente no peso musical, estilo e até na animação (para mais do que já estavam, claro), uma vez que a banda tocou “War of Being”, faixa mais longa do disco de mesmo nome. As linhas de guitarra, agora predominadas ao djent, conduziam junto ao baixo de Amos Williams, que “rouba a cena” ao subir na plataforma da área do vocalista para mostrar suas linhas mais pesadas. Todos os membros, exceto o baterista, chegaram a se posicionar em linha em um momento de repetição de linhas musicais, algo que fugiu do escopo de posicionamento tão comum em diversos shows. Uma faixa longa (11 minutos), porém interessante pelas diversas nuances apresentadas no palco.

A faixa seguinte, “Legion”, firmou outra dobradinha do disco mais recente da banda. As nuances de Metal Progressivo e djent, praticamente alternadas ao longo da faixa, mostraram uma certa originalidade da banda e se tornaram melhores com o acompanhamento vocal por parte dos fieis fãs presentes. Depois, a pesada “Juno”, muito comemorada em seu início, fechou o primeiro grande bloco do show com tudo de melhor que os dois lados poderiam apresentar: linhas combinadas e poderosas dos músicos, grooves de baixo combinados com a voz de Tompkins, interações entre o frontman e o baixista, refrão mutuamente cantado, distorções de guitarra cativantes e muitas gesticulações ao final da faixa.

Chega o Encore e, para o público, ainda faltava uma peça de extrema importância para o repertório da noite e que, muito provavelmente, ninguém sairia dali sem tê-la em sua essência. Os gritos em nome da banda fizeram o padrão de shows de rock e Metal, com velocidade e a demonstração clara de admiração ao grupo. 

E quando o quinteto voltou (rapidamente), não só uma, como duas peças essenciais vieram junto.

Trata-se, claro, de faixas do primeiro EP do TesseracT, intitulado “Concealing Fate” (2010) e que também aparecem no álbum de estreia da banda, “One” (2011). Ambas apresentaram o melhor - e finalmente, em total predomínio nas faixas - do djent, para a alegria massiva daqueles que pularam e cantaram na parte frontal da pista e mezanino, e daqueles que, entre o meio e o fundo do local, fizeram moshes mais que inéditos para a noite.

Das seis partes do EP, a 2 e a 1, respectivamente, foram tocadas: “Concealing Fate, pt. 2 - Deception” foi amplamente comemorada a partir da percepção do início gravado da introdução e atenuada com o riff e distorções, seguida de um verdadeiro coro no verso “So my demons, your time has come”. Durante e após isso, o que se via na pista eram fãs extasiados, sendo o auge disso a formação de uma grande roda do meio para o final da pista, com diversos fãs entrando nela e batendo cabeça ferozmente durante as linhas distorcidas dos guitarristas - verdadeiros “maestros” daquele momento, junto ao baixista da banda. Tais detalhes, claro, levaram aos olhares de admiração pura por parte da banda, principalmente de Daniel Tompkins, que se viu em corpo estático por segundos e com os únicos movimentos vindos de uma cabeça que observava todos os cantos do Carioca Club.

Já “Concealing Fate, pt. 1 - Acceptance” foi o gran finale e o melhor momento para os fãs. Isso começou pautado na escuridão do palco e o último levantar de Daniel Tompkins para o também último uso do efeito grave da voz, repetindo (e pedindo, claro) para que todos levantassem as suas mãos, uma referência direta ao primeiro verso da música, “Now show your hands”. Novamente, a roda de bate-cabeças explodiu com o riff e após ele, na entrada mais pesada que abriu a letra da música com o verso anteriormente dito. Nisso, o decorrer da faixa veio com linhas de djent poderosas, momentos mais pautados na essência do Metal Progressivo e misturados com a liricidade absurda da voz de Daniel Tompkins, algo que ajudou na parte do canto da plateia e que logo de “resetou” para que a situação se repetisse com a repetição da primeira estrofe da música. Claramente, foram os oito minutos mais intensos da noite e que mostraram o melhor da banda e de um público que, como um vulcão, erupcionou aos poucos, soltando a “fumaça” primeiro - ou seja, cantando e muito ao longo do show - e, depois, a “lava” - pulos, moshes e cantos ao mesmo tempo - na reta final. 

A saída da banda, apesar de seguir o rito de agradecer e reverenciar o público, jogar palhetas e baquetas e até cumprimentar alguns fãs, não foi o suficiente para a maior parte do público presente que, baseado na continuidade do som ambiente e com o palco ainda aceso, pediu por mais um som e esperou um bom tempo por isso. Infelizmente, não ocorreu e, aos poucos, todos saíram do local. Era um sinal de que queriam mais e que aguentariam mais tempo de show e, claro, que mesmo com pouco de mais de um ano de diferença entre as passagens do TesseracT no Brasil e com o show do dia seguinte - pautado no primeiro EP do grupo -, a ansiedade e expectativa por mais uma vinda do quinteto para a capital paulista começou logo após o encerramento daquele show.




Texto: Tiago Pereira 

Fotos: Tamires Lopes (Headbangers News)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Liberation MC



There’s No Face

Hamurabi

Quebre o Silêncio

Enquanto Você Espera o Bem

Imensidão

Contra/Senso

Motivo


TesseracT

Natural Disaster

Echoes

Of Mind - Nocturne

Tourniquet

Sacrifice

King

Smile

The Arrow

War of Being

Legion

Juno

***Encore***

Concealing Fate, Part 2: Deception

Concealing Fate, Part 1: Acceptance

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Entrevista - Overdose: 40 Anos de Histórias! Vem Mais Pela Frente?

 



Por: Renato Sanson/Carlos Garcia

Nas primeiras centelhas do Heavy Metal brasileiro o Overdose estava lá, acendendo as chamas e espalhando-se além do seu país de origem.  Um dos pioneiros, que buscou evolução e criou nuances bem próprias, servindo inclusive de base e inspiração para outras bandas, e isso é o que coloca alguns nomes em um patamar diferente. 

A palavra sucesso é algo bem subjetivo, e acreditamos que o músico inspirar ou influenciar pessoas, fazer arte a qual signifique algo para quem a consome, alcançou sim o sucesso e seu objetivo enquanto artista.

O Overdose sem dúvidas trilhou um caminho bem sucedido, e como uma singela homenagem aos 40 anos de história deste importante nome do Metal brasileiro, conversamos com seu fundador, Cláudio David, para falar um pouco dessa história e algumas novidades preparadas em comemoração a essa marca de quatro décadas dedicadas ao Metal. 

Confira a seguir:


RtM: O Overdose está completando 40 anos! Algo muito emblemático se tratando de Heavy Metal nacional. O que a banda está preparando para este momento além do lançamento do single “Século XXI”?

Cláudio David: O mais importante mesmo é o single de 40 anos, que foi lançado ano passado. Era para ter saído até antes, mas aí o pessoal da banda tinha outras prioridades, outros afazeres e acabou não dando certo. 

Até por isso, eu estou remontando a banda agora com a expectativa de fazer shows e tocar essas músicas novas, mas o mais importante é esse single, “Século XXI”, e EP com cinco músicas inéditas, que deve sair até o final do ano. A partir do momento que sair o EP, vamos fazer alguns shows de comemoração.


RtM: E falando sobre o single, trace para gente um paralelo com relação a “Século XX” e nos fale um pouco sobre a ideia dessa nova composição.

CD: A ideia do “Século XXI” foi remeter mesmo o “Século XX”, que foi o primeiro disco nosso, o Split com o Sepultura. A ideia foi tentar descrever a nossa situação atualmente, mudando um pouco a questão da tecnologia e as artimanhas do poder, que hoje são diferentes, mas os problemas continuam sendo os mesmos.

A ideia foi uma releitura do “Século XX”, mas com uma diferença. O pessoal costuma falar que o Overdose é niilista demais. Inclusive, as minhas letras são geralmente críticas, mas é o que eu sei fazer. No “Século XXI” tem uma esperança e uma proposta, que é das pessoas se juntarem e conseguirem o que elas querem, que é um mundo melhor.

Então, diferente do “Século XX”, o “Século XXI” tem esse lado otimista, de que a mudança é possível. Só não sei daqui quanto tempo, se vai ser daqui cinquenta, cem ou duzentos anos, mas as coisas mudam. Mas a ideia do pré refrão é essa, que é deixar uma mensagem para que as pessoas, através da união, possam mudar a realidade delas de vida.

RtM: Há dez anos atrás a Cogumelo Records relançou todo o catalogo do Overdose em versões belíssimas e com material bônus em DVD, possibilitando que muitos fãs enfim tivessem os materiais e com alguns bônus. Como surgiu essa ideia de recolocar os clássicos no mercado novamente?

CD: Sobre o relançamento do catálogo ainda está faltando um, “You’re Really Big!” (1989), que deve sair esse ano. Já finalizamos a remasterização dele, e estamos dependendo do João, dono da Cogumelo, para mandar ele para a fábrica. 

Na verdade, a gente fez uma reunião, há pouco menos de dez anos, e conversamos sobre esse material do Overdose, que estava parado. E nessa reunião, com o dono da Cogumelo, fizemos o acordo de relançar. A ideia surgiu meio que simultaneamente quando eles estavam com vontade de relançar também.

Eu gosto de todos os álbuns, só que eles estavam meio que esquecidos. Então, através dessa reunião, que a gente tentou acordar o relançamento desses discos, que foi um sucesso e teve uma vendagem muito boa. Com esse lance do Spotify, plataformas digitais e da internet, duas mil cópias para cada disco acabaram sendo surpreendentes para gente e para Cogumelo. Agora está faltando “You’re Really Big!”, que em breve deve sair.


RtM: Cláudio, em 2012 você foi convidado pela banda gaúcha Carniça a fazer uma participação no disco “Nations of Few”, gravando a ótima “Prayers Before the Death”. Neste período você já estava há algum tempo sem tocar, certo? Essa participação foi o que acendeu a chama para a volta do Overdose?

CD: A participação do “Nations of Few” do Carniça foi uma coisa muito prazerosa para mim, porque é um pessoal muito gente boa e uma banda muito legal. Esse disco, especificamente é muito legal, assim como todos os trabalhos do Carniça. Depois disso, eu fiz participação no show de lançamento em Novo Hamburgo, que foi muito legal. E eu fui muito bem tratado pelo pessoal, fiquei muito amigo deles.

De certa forma acabou me incentivando, sim, de voltar com o Overdose, apesar de envolver outras pessoas. Após eu ter tocado com o Carniça, deu uma chama sim de querer voltar a tocar com certeza.

RtM: Agora revisitando um pouco da história, conte-nos sobre o período de composição e gravação do clássico Split com o Sepultura, em que vocês ainda tinham as letras em português, enquanto muitas já seguiam a tendência de compor em inglês.

CD: A gente começou em português, nunca deixamos o português totalmente de lado: no “...Conscience...” tem “Última Estrela”, no “Scars” tem “Nu Dus Otro é Refresco” e “Postcard from Hell”, no “Progress of Decadense” tem “Rio, Samba e Porrada no Morro”. Sempre teve alguma coisa em português. No segundo single vai ter uma música em português também, que se chama “João Sem Terra”.

A gente acabou indo para o inglês, traduzimos algumas letras infelizmente, porque em português era muito legal. Eu acho até mais difícil de compor em português para te falar a verdade, porque a sonoridade do português é mais difícil do que a do inglês. Mas compor em inglês foi mais pela questão da falta de reconhecimento e pela falta de oportunidade de seguir uma carreira aqui no Brasil. 

Em outros países, bandas de Heavy Metal se tornaram famosas. Aqui no Brasil temos o Sepultura, mas eles foram reconhecidos por uma gravadora internacional. O Sepultura é mais reconhecido lá fora do que aqui no Brasil, assim como o Overdose. Por isso passamos para o inglês por essa questão e de ser outro mercado. No começo, a nossa proposta era mais voltada para o público brasileiro, para entender a letra mesmo.


RtM: E como era o processo de composição e a produção das músicas na banda?

CD: As músicas do Overdose são praticamente minhas. Tem um solo de baixo do Fernando, uma macumba do Bozó no “Scars” e tal, mas são minhas músicas. Eu compunha as músicas, ensaiava muito elas e apresentava para o resto da banda nos ensaios. 

Eu treinava muito em casa até a chegada do Bica, treinava umas 10 a 12 horas por dia, mas antes da entrada dele já praticava umas 5 horas. Desde que eu ganhei a guitarra, queria tocar bem. E para essa gravação, que foi num estúdio de 8 canais, usamos equipamentos bem limitado: guitarra Finch, captador Distortion, pedal Heavy Metal e amplificador Baginho da Gianinni, que cheguei a emprestar para o pessoal do Sepultura na época.

Antes do Split, havíamos lançado a demo “Última Estrela”, que rodou o Brasil inteiro. A gente tinha uma certa notoriedade antes do Split por conta de ter saído matéria sobre ela na revista Metal, por ter feito um show para seiscentas pessoas no Circo Deliris e da música ter sido tocada na rádio Fluminense, que era uma rádio muito importante no Rio Janeiro na época. Eu acho o “Século XX” um divisor de águas em termos de técnica, sonoridade e musicalidade do Metal brasileiro.

RtM: Aquela cena mineira da época revelou nomes que tiveram uma repercussão inclusive fora do Brasil. Como era a relação das bandas naquele período? Haviam alguns grupos? 

CD: No começo não tinha ramificações dentro do Metal. Eu, pessoalmente, curto Heavy Metal desde o Black Sabbath e o começo do Judas Priest, época que nem existia o nome Heavy Metal, Headbanger e Metaleiro. Quando o Overdose fazia show, ia todo mundo que gostava de Heavy Metal. Um pouco antes nem tinha público, depois do show Kiss que começou a ter mais, pois antes era só uma meia dúzia de amigos, que se encontravam nas lojas de discos. 

Depois do primeiro Rock In Rio, em 1985, que a coisa explodiu. No começo ia todo mundo, não tinha essa coisa ‘ah, eu gosto de um estilo, eu gosto de outro’, só depois do lançamento do Split que começou essas ramificações. 


RtM: Você sentia que havia algum tipo de “competição” entre algumas bandas?

CD: Principalmente, com o Slipt, começou também uma competição por parte do pessoal do Sepultura, que eu prefiro não comentar.

A gente sempre teve uma relação muito boa com as bandas daqui de BH, a grande maioria: Sarcófago, Multilator, Witchhammer, Chakal. Eu, inclusive, levava equipamento meu para gravação dessas bandas e fazia coprodução. É lógico que tinha os radicais, mais do lado do Sepultura. 

E a questão não era só as ramificações, alguns chegavam a ser agressivos também. 

Às vezes rolava agressividade até em shows dessa meia dúzia de radicais, que chegava a incomodar a gente por ser uma coisa desleal e sem sentido, porque são pessoas que a gente nunca fez nada de mal e ficaram com raiva da gente por causa da música que a gente fazia, que não era um Death Metal extremo. 

Em geral, a relação do Overdose com as bandas daqui sempre foi muito boa.

RtM: Depois do "Século XX" vocês começaram a compor em inglês. Que planos e ambições vocês tinham nessa fase já com letras em inglês, com o “...Conscience…” e “You’re Really Big!”?

CD: Nossa maior ambição, desde o começo, foi sempre aprimorar tecnicamente e musicalmente. Eu, especificamente, puxava o barco, dedicando-me intensamente durante a preparação do "You’re Really Big!", praticando guitarra 12 horas por dia. Era uma coisa inédita, pois não havia trabalho com tanto virtuosismo que nem o “You’re Really Big!” aqui no Brasil. Depois veio o Angra, uns quatro anos depois, e outras coisas. A nossa maior ambição era essa, ser uma banda muito técnica e original.

O “...Conscience…” é bem peculiar, pois o lado A e o lado B dele não tem refrão. Até hoje acho ele diferente, com músicas grandes e sem refrão. E no “You’re Really Big!” experimentamos elementos da música erudita, coisa que o Dream Theater veio fazer depois do Overdose. 

Mas era mais especificamente o erudito com o Heavy Metal, bem na ordem do progressivo, que era a influência que a gente tinha. Também tínhamos influência do Mercyful Fate e do Metallica, mas a ambição era muito musical e técnica. Desde o início queríamos nos aprimorar musicalmente e tecnicamente, sempre batalhamos por isso.


RtM: Nessa época a mentalidade já era de que, cantando em português, seria mais difícil alcançar um mercado fora do Brasil?

CD: Começamos a cantar em inglês devido à falta de apoio aqui no Brasil, então tivemos que procurar o mercado externo, que ainda continua sendo preconceituoso. Naquela época ninguém aceitava língua de outro país. Hoje até aceitam um Rammstein, uma outra banda daqui e dali, mas o inglês continua se destacando. 

A gente foi forçado a passar para o inglês para tentar esse mercado externo, já que no Brasil nunca teve apoio. É até estranho falar isso, porque hoje em dia a situação não mudou muito. Existe até um pouco mais de apoio hoje comparado os anos 80 e 90, só que bem pior (risos). 


RtM: Do “Conscience” (87) à “Addicted to Reality” (90) temos um Overdose mais progressivo, com influências do Power e até mesmo do Hard. Mas em “Circus of Death” (92) tivemos uma das maiores viradas de chave do Heavy Metal. Aquele lado melodioso ficou um pouco de lado e o Thrash old school entrou em cena, para depois, consolidar um estilo mais groovado e com influências tribais em “Progress of Decadence” (94) e “Scars” (95). O que levou a essa mudança de sonoridade?

CD: As razões de mudança de estilo foram diversas. Eu acho que a principal é que a gente sempre fez o que estava curtindo na época, e não que a gente não curtisse Thrash na época do “...Conscience...”, “You’re Really Big!” e o próprio “Addicted to Reality”.

Apesar de mais agressivo, o “Circus Of Death” tem melodia, mas não clássica e erudita puxada para o barroco e para o romântico como no "You're Really Big". O “Progress of Decadence” é um tanto menos melodioso em comparação aos outros discos. É um pouco mais rebuscado, mas ainda assim é todo com melodia, sem nada gritado.

No “Progress of Decadence”, época que eu morava em Los Angeles, estava preocupado em fazer uma coisa diferente de tudo, colocando elementos de escola de samba, que o Bozó fazia no surdo da bateria e o André acompanhava na guitarra meio que na brincadeira. Então a gente começou a explorar e pesquisar mais isso, colocando elementos meio nordestinos, brasileiros e percussivos.

E no “Scars”, a gente ousou mais ainda. O álbum tem tudo o que você pode imaginar, incluindo Candomblé e batidas mais africanas. A gente acabou indo muito além com essas misturas, que sempre foram marcantes na história do Overdose.


RtM: Com essa virada para o lado do Groove com influências vindas da percussão, que após se tornou tão famosa e muitas bandas aderiram. Seria o Overdose o precursor desse estilo?

CD: Eu acredito, sim, que o Overdose é um dos precursores do Groove Metal. A gente já estava começando a fazer isso em 92 e 93 quando já tinha o “Circus Of Death”. A gente já fazia essa levada mais groovada, com estilo brasileiro, meio que na brincadeira desde os anos 90 nos ensaios. Considero também que o Overdose é um dos precursores do prog metal, no “...Conscience…”, quando o Dream Theater ainda não existia. 

Tem gente que acha que a gente foi influenciado pelo Sepultura, mas nós começamos antes. Eles têm uma pegada mais tribal, não é essa coisa da bateria de escola de samba. O Sepultura usava alguns efeitos, já nós, usamos bateria de escola de samba no disco inteiro.


RtM: Com “Progress of Decadence”, que foi lançado por um selo do exterior, o Overdose teve a oportunidade d tocar nos EUA,  Canadá e Europa. Conte-nos como foi essa experiência e como foi trabalhar com esse selo.

CD: Nós fizemos umas cinco turnês americanas, chegando até ser headliner. Fizemos turnês com o Crowbrar, Screw e Mercyful Fate, principalmente, que é uma das minhas bandas preferidas. Eu vi uns trinta shows todas as noites, praticamente. Acabava o nosso show, eu ia correndo para ver o Mercyful. 

Tocamos com muita banda legal na Europa, como o L7, Biohazard, Type O Negative, Grip Inc., Machine Head e Nevermore. Foi maravilho para falar a verdade, um sonho realizado. Chegamos a ter uma estrutura boa, com ônibus específicos para turnê mesmo. Tocamos no CMJ, chegamos em segundo lugar e ficamos seis meses no Top Ten das rádios college americanas, competindo com o Korn na época.

Tivemos muito apoio de empresário também, o problema foi quando mudou a diretoria da gravadora, que era o Steve Sinclair, ele saiu e entrou o Paul Bibel. O Steve é o AIR que descobriu e contratou o Overdose, o mesmo AIR do Dream Theater e de outras bandas. E o novo que entrou contratou o My Dying Bridge, que é uma banda até que razoavelmente conhecida. 

Ele tirou todo investimento do Overdose e colocou no My Dying Bridge. Era para gente ter feito uma turnê na Scandinavia com o Mercyful Fate, só que foi cancelada porque não mandaram o dinheiro da passagem. O Scars é um disco muito injustiçado por causa disso, porque não teve apoio da gravadora, não teve divulgação e não teve turnê praticamente. 

Então no final, com a mudança da diretória, foi muito ruim para gente. Agora o pessoal da gravadora é muito amigo nosso, como Paul Mitchel, por exemplo. Era muito bacana até a mudança da diretoria.


RtM: Conte-nos mais do período com o “Scars”, também tendo shows no exterior e ao lado de grandes bandas, sendo suporte do Grip Inc, tocando em festivais tradicionais como o Dynamo Open Air.  

CD: Na verdade, o Dynamo e a turnê do Grip Inc. foi em 95, nessa época que eu falei que era muito boa, que a gravadora estava investindo, empresariamento cresceu e tivemos um ônibus bacana para fazer a turnê com o Grinp Inc. e outros festivais. Tocamos também na França (festival Mega Force), Áustria e Bruxelas.

O Dynamo foi monstruoso, foi um festival bacana demais, só com banda grande e com duzentas mil pessoas acampadas. Foi o auge da carreira do Overdose. Esse show, que tem até no Spotify, começou com uma galera com a bandeira do Brasil que estava na frente curtindo, mas depois da metade do show, não dava nem para ver aonde esse pessoal estava agitando. Fizemos um show e outro na Holanda também, conquistamos um público legal lá, mas o Dynamo foi sensacional. 

No "Scars" tínhamos uma turnê com o Mercyful Fate, que na verdade foi uma goela, porque pessoal da gravadora deu uma van para gente, a van quebrou com dois dias e depois fizemos a turnê toda dentro de um carro e um quarto de hotel para a banda, crew e tour manager, ou seja, todo mundo num quarto só. 

E eu acho que isso foi até um dos motivos do fim do Overdose, porque é muito estressante ficar espremido dentro de um carro e dentro de um quarto de hotel, além da gravadora ter começado a tirar o nosso apoio.

RtM: Conte-nos um pouco mais de como foi excursionar com a banda de Dave Lombardo.

CD: A turnê com o Grip Inc. foi legal demais, nós ficamos super amigos do pessoal. Eles ficavam mais no nosso ônibus do que no ônibus deles, porque o Dave Lombardo tinha levado a família dele (mulher e filho). 

O próprio Dave Lombardo é muito gente boa, foi muito agradável a convivência com ele. No primeiro momento a gente ficou meio assustado falando ‘olha, é o baterista do Slayer ’, mas depois da primeira conversa ele foi super humilde, tranquilo e ficamos super amigo dele e da banda toda.

RtM: E o que aconteceu que a banda depois disso? Que acabou caindo em um hiato, quando, acredito, muitos esperavam que o Overdose alcançasse patamares mais altos?

CD: Como eu já havia falado antes, um dos principais motivos da banda ter acabado foi a retirada de suporte da gravadora, porque ninguém estava ganhando dinheiro, especificamente o Bozó, que estava muito preocupado. Nessa época até o Jairo, que era do Sepultura, e o Gustavo Monsanto tocava com a gente. Era uma formação muito bacana, mas com essa furada da gravadora, o Bozó resolveu sair da banda, porque ele estava preocupado em ganhar dinheiro, estava com quase trinta anos e não ganhava nada.

Após a saída do Bozó, eu tentei achar um novo vocalista. É muito difícil substituir o Bozó, porque acho ele um excelente cantor, mais o carisma, presença de palco e tudo. Eu fiz alguns testes, achei que ninguém tinha nada a ver, mas eu achei um vocalista que cantava muito, apesar de ser totalmente diferente do Bozó. Aí resolvi montar uma banda nova, a Eletrika, que chegou até ter música em uma novela da Rede Globo, tocou no festival de música brasileira e chegou a ter um certo reconhecimento também. 

O Eletrika chegou a fazer turnê fora com o Slipknot, Testament e com muita banda legal na França. Em 2004 o vocalista saiu, continuei mais um pouco até 2007, o Eletrika acabou e parei de tocar até o Overdose voltar, em 2008, quando a gente fez um show em São Paulo.


RtM: E de planos a médio e longo prazo? O que podemos esperar do Overdose?

CD: A longo prazo, não tem planos, vamos ver o que vai acontecer com as coisas que estão acontecendo.  A prioridade é o lançamento do EP com cinco músicas inéditas, que é o que a gente está fazendo. Estamos indo para a segunda música, “João Sem Terra”, que é um Metal baião com paródia da música nordestina. Está praticamente pronta, mês que vem ela deve estar saindo em todas as plataformas digitais.

Depois do lançamento do EP, vamos ver se a gente volta a tocar. A sorte dessa vez é que eu achei um vocalista muito bom, que não é o Bozó, mas que é muito fera, o Vitor, que leva a onda do Bozó muito bem. A pretensão é remontar a banda, estou tentando arranjar um guitarrista para fazer os shows de comemoração dos quarenta anos e do lançamento do EP.

Não sei se vamos continuar fazendo músicas inéditas e continuar tocando, porque o retorno financeiro é muito pequeno. Para te falar a verdade é mais prejuízo, porque a maioria das bandas gasta para fazer Metal. Não dá para falar que é investimento, porque não tem retorno. Então vai depender do que estiver acontecendo.



Overdose Instagram

Spotify