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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Bloodhunter: Melodeath em Estado Máximo (Also In English)

ROAR (Imp.)

Bloodhunter une peso e maturidade em Sons of the Abandoned

Por Michelle F. Santana 

O Bloodhunter, banda espanhola de death metal melódico formada em 2008, chega ao seu quarto álbum de estúdio, Sons of the Abandoned, sucessor de Knowledge Was the Price (2022). Embora mantenha a identidade sonora consolidada no trabalho anterior, o novo disco surge mais agressivo, energético e dinâmico, evidenciando um amadurecimento notável na composição e na execução da banda. 

As temáticas também evoluem, afastando-se parcialmente dos elementos mitológicos que marcaram trabalhos anteriores para explorar questões mais psicológicas, abordando vulnerabilidades humanas, conflitos internos e dilemas existenciais de maneira mais profunda e introspectiva.

Musicalmente, o álbum apresenta menos espaço para solos extensos quando comparado aos dois primeiros trabalhos do grupo, priorizando a construção de atmosferas, riffs marcantes e uma dinâmica mais fluida entre agressividade e melodia.

A abertura com "The Devil's Own" deixa claro, desde os primeiros segundos, qual é a proposta do álbum. A faixa é explosiva, intensa e demonstra imediatamente a maturidade alcançada pela banda. Os riffs de Dani Arcos são agressivos, trabalhados e memoráveis, enquanto Diva Satánica entrega uma das performances vocais mais técnicas e brutais de sua carreira. 

A bateria de Adrián Perales é rápida e pesada, impulsionando a música com precisão e reforçando a agressividade das guitarras, evidenciando a forte influência do death metal melódico sueco presente em toda a composição.

Em "Threshold of Hell", o Bloodhunter conta com a participação especial de Fernando Ribeiro, vocalista do Moonspell. A música aborda temas como depressão e luta interna — conflitos inerentes à condição humana —, trazendo riffs mais cadenciados e melódicos. A voz grave, sombria e soturna de Fernando cria um contraste fascinante com os guturais rasgados de Diva Satánica. 

A faixa finaliza com uma sirene como recurso sonoro, ampliando a sensação de angústia e desespero transmitida pela composição, resultando em uma das músicas mais interessantes e atmosféricas do álbum.

A faixa-título, "Sons of the Abandoned", sintetiza grande parte da proposta do disco. Mantendo a forte influência da escola sueca de death metal melódico, a música acrescenta uma energia contagiante e um senso de grandiosidade. 

O refrão é explosivo e triunfante, sustentado por linhas melódicas marcantes que fazem da faixa uma forte candidata a se tornar um dos pontos altos das apresentações ao vivo da banda. O solo é envolvente e reforça o caráter épico da composição, remetendo aos grandes encerramentos de show.

Já "The Path That Never Ends" conta com a participação de Laura Guldemond e se destaca como uma das composições mais dinâmicas do disco. Embora comece de forma agressiva, a música transita com naturalidade entre o death metal melódico e elementos progressivos. 

A interpretação de Diva Satánica é impecável, mas é a combinação entre seus vocais extremos e a voz limpa, poderosa e melódica de Laura que eleva a faixa a outro nível, criando momentos verdadeiramente hipnóticos.

O encerramento fica por conta de "Human Insecticide", cover da clássica música do Annihilator. Aqui, a influência do thrash metal é evidente, mas o Bloodhunter consegue incorporar sua identidade melodeath sem descaracterizar a essência da composição original. 

O resultado é uma releitura pesada, intensa e extremamente eficiente, impulsionada por vocais mais agressivos e carregados de revolta, exatamente como a música exige.

Ao revisitar a trajetória da banda, torna-se evidente o crescimento gradual do Bloodhunter em todos os aspectos musicais. Sons of the Abandoned marca um novo patamar nessa evolução, reunindo peso, técnica, precisão e composições cada vez mais maduras. É um álbum envolvente do início ao fim, que revela novas nuances a cada audição e confirma o Bloodhunter como uma banda cada vez mais segura de sua identidade artística e de seu potencial criativo.




***ENGLISH VERSION***

Bloodhunter Reaches a New Level of Maturity with Sons of the Abandoned

Bloodhunter, the Spanish melodic death metal band formed in 2008, returns with its fourth studio album, Sons of the Abandoned, the successor to Knowledge Was the Price (2022). While retaining the sonic identity established on its predecessor, the new record emerges as a more aggressive, energetic, and dynamic effort, showcasing a remarkable evolution in both songwriting and performance. 

The lyrical themes have also matured, moving partially away from the mythological elements that characterized previous releases to explore more psychological territory, addressing human vulnerabilities, inner conflicts, and existential dilemmas in a deeper and more introspective manner.

Musically, the album places less emphasis on extended guitar solos compared to the band's first two records, favoring atmosphere-building, memorable riffs, and a more fluid balance between aggression and melody.

Opening track "The Devil's Own" makes the album's intentions clear from the very first seconds. Explosive and intense, the song immediately demonstrates the band's growth and maturity. Dani Arcos delivers aggressive, carefully crafted, and memorable riffs, while Diva Satánica turns in one of the most technical and brutal vocal performances of her career. Adrián Perales' drumming is fast and powerful, driving the song forward with precision and reinforcing the aggression of the guitars, while highlighting the strong influence of Swedish melodic death metal throughout the composition.

On "Threshold of Hell", Bloodhunter is joined by special guest Fernando Ribeiro, vocalist of Moonspell. The song tackles themes such as depression and internal struggle—conflicts inherent to the human condition—through more restrained and melodic riffing. Fernando's deep, dark, and somber voice creates a fascinating contrast with Diva Satánica's harsh growls. The track concludes with a siren effect that amplifies the sense of anguish and despair conveyed by the composition, resulting in one of the album's most compelling and atmospheric moments.

The title track, "Sons of the Abandoned", encapsulates much of the album's overall vision. Maintaining a strong influence from the Swedish melodic death metal school, the song adds an infectious energy and a sense of grandeur. Its explosive and triumphant chorus is supported by memorable melodic lines that make it a strong contender to become a live favorite. The guitar solo is captivating and reinforces the song's epic character, evoking the feeling of a grand concert finale.

Meanwhile, "The Path That Never Ends" features guest vocals from Laura Guldemond and stands out as one of the album's most dynamic compositions. Although it begins with pure aggression, the track naturally shifts between melodic death metal and progressive elements. Diva Satánica's performance is flawless, but it is the combination of her extreme vocals with Laura's powerful and melodic clean singing that elevates the song to another level, creating truly hypnotic moments.

The album closes with "Human Insecticide", a cover of the classic Annihilator track. Thrash metal influences are unmistakable here, yet Bloodhunter successfully injects its melodic death metal identity without compromising the essence of the original composition. The result is a heavy, intense, and highly effective reinterpretation, driven by more aggressive vocals that perfectly capture the anger and rebellion the song demands.

Looking back at the band's trajectory, Bloodhunter's gradual growth becomes evident in every aspect of its musicianship. Sons of the Abandoned marks a new milestone in that evolution, bringing together heaviness, technique, precision, and increasingly mature songwriting. It is an engaging album from beginning to end, one that reveals new layers with each listen and confirms Bloodhunter as a band growing ever more confident in its artistic identity and creative potential.

Beatriz Mariano

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Headhunter D.C.: A Ascensão dos Amaldiçoados em Rise of the Dammed... (Also In English)

Mutilation Records (Nac.)

Por Roberto "Bertz"

Sérgio Baloff escolheu uma data muito propícia para o lançamento do novo álbum: 6/6/26, bem em um feriado cristão, para mandar um grande foda-se a todas as religiões do globo terrestre, a começar pela espetacular capa do disco. É por isso e por tantas outras conquistas e audácias que o Headhunter D.C. é o maior representante do Death Metal no Nordeste.

Desde 1987, a banda é reverenciada em um alto pilar ao lado de Sarcófago, Vulcano, Dorsal Atlântica, Sepultura, Mutilator, Overdose, Chakal e The Mist, entre outros nomes que compõem esse patrimônio histórico do underground nacional e internacional. O novo álbum, “Rise of the Damned...”, celebra 40 anos de sangue e luta em uma cena que resiste fortemente no país. Trata-se do sexto álbum da carreira, sucedendo ...In Unholy Mourning... (2012), encerrando uma espera de 14 anos por material inédito.

O disco carrega tudo o que foi construído nessas últimas quatro décadas: Death Metal Old School. Lançado pela Mutilation Records, o trabalho apresenta uma produção acima da média, com gravação sólida e cada composição dedicada a cultuar a agressividade sem abrir mão da técnica. 

Há também uma clara preocupação em agradar os ouvintes mais saudosistas: riffs marcantes, peso constante e passagens bem construídas que mantêm a identidade da banda do início ao fim.

Algo que sempre diferenciou o Headhunter D.C. é justamente essa capacidade de criar álbuns que os próprios integrantes, como cultuadores do estilo, gostariam de ouvir. Sem contar os vocais de Sérgio Baloff, extremamente entregues à maldade, à desgraça e à calamidade, elevando ainda mais o nível do disco aos seus 54 anos de idade.

Entre os destaques está “Unblessed by the Unsacred”, que entrega mais de seis minutos de hostilidade sem soar saturada, com solos muito bem encaixados, especialmente na parte final. Em “No Salvation from Above”, surge uma fusão que remete a Vader, Monstrosity e Deicide — influências perceptíveis ao longo de todo o álbum.

Na sequência, “Burn the Book of Lies” figura entre as melhores faixas do trabalho, com um refrão certeiro e memorável. Depois vêm “Gospel of Doom”, “The Dysangelist”, “One Thousand Apocalypses”, “Praeludium ad Ascensionem Haereticorum” — excelente instrumental que faz a transição para “Rise of the Damned” —, “Possessed, Obsessed” (totalmente Deicide) e, para fechar, “In Death Metal We Trust”, uma verdadeira aula de Death Metal.

É um encerramento digno, honesto e brutal para celebrar os 40 anos do Headhunter D.C., deixando um legado tanto para os veteranos quanto para as futuras gerações do underground e do metal da morte.



***ENGLISH VERSION***

Sérgio Baloff chose a very fitting date for the release of the new album: 06/06/26, right during a cristian holiday , to send a massive “fuck you” to every religion on the planet, starting with the album’s spectacular cover artwork. It is for this and so many other achievements and audacious moves that Headhunter D.C. stands as the greatest representative of Death Metal in Northeastern Brazil.

Since 1987, the band has been revered on a lofty pedestal alongside Sarcófago, Vulcano, Dorsal Atlântica, Sepultura, Mutilator, Overdose, Chakal, and The Mist, among other names that make up the historical heritage of both the Brazilian and international underground scenes. The new album, *Rise of the Damned...*, celebrates 40 years of blood and struggle within a scene that continues to resist and thrive in the country. It is the sixth full-length album of the band's career, following *...In Unholy Mourning...* (2012) and bringing an end to a 14-year wait for new material.

The record carries everything that has been built over the last four decades: pure Old School Death Metal. Released by Mutilation Records, the album features production that rises above the average, with a solid recording quality and compositions dedicated to worshipping aggression without sacrificing technical proficiency. There is also a clear concern for pleasing longtime fans: memorable riffs, relentless heaviness, and well-crafted passages that preserve the band's identity from beginning to end.

What has always set Headhunter D.C. apart is precisely this ability to create albums that the members themselves, as devoted followers of the genre, would want to listen to. Not to mention Sérgio Baloff’s vocals, utterly committed to evil, misery, and calamity, elevating the album even further at 54 years of age.

Among the highlights is “Unblessed by the Unsacred,” which delivers more than six minutes of hostility without ever feeling excessive, featuring exceptionally well-placed guitar solos, especially in its closing section. On “No Salvation from Above,” listeners will find a fusion reminiscent of Vader, Monstrosity, and Deicide— influences that can be felt throughout the entire album.

Next comes “Burn the Book of Lies,” one of the album’s finest tracks, driven by a sharp and memorable chorus. It is followed by “Gospel of Doom,” “The Dysangelist,” “One Thousand Apocalypses,” “Praeludium ad Ascensionem Haereticorum”—an excellent instrumental piece that transitions into “Rise of the Damned”—“Possessed, Obsessed” (completely Deicide-inspired), and finally “In Death Metal We Trust,” a true masterclass in Death Metal.

It is a worthy, honest, and brutal conclusion to celebrate Headhunter D.C.’s 40-year journey, leaving behind a legacy for both veteran fans and future generations of the underground and death metal scenes.

Instagram 



sábado, 2 de maio de 2026

Cobertura de Show: In Flames – 23/04/2026 – Audio/SP

Após três anos sem pisar em solo brasileiro, o In Flames retorna como um dos headliners do Bangers Open Air. A fim de aproveitar a passagem, os suecos agendaram igualmente uma série de apresentações solo para divulgar seu último álbum, Foregone, de 2023, com duas datas em São Paulo e uma em Curitiba. 

Com uma carreira plenamente consolidada, o grupo é considerado um dos pilares que definiram os tropos do Gothenburg Sound, a icônica mescla de Death Metal com elementos melódicos. Diferentemente de outros conterrâneos, eles jamais tiveram medo de arriscar; ao longo dos anos, adotaram um caminho artístico mais alternativo, optando por uma produção límpida e moderna, somando vocais limpos a batidas eletrônicas, sem jamais negligenciar o peso e a melodia. Talvez seja por essa razão que o último trabalho funcione tão bem, buscando um retorno às raízes sem renegar toda a sua trajetória de experimentações.

A abertura ficou sob a responsabilidade do Throw To The Wolves, banda paulista que busca espaço para difundir também seu death metal melódico. Pontualmente no palco às 20h, os "lobinhos" (como se autodenominam) tinham a árdua tarefa de animar o público paulista em uma noite de quinta-feira. 

Com a casa ainda recepcionando os espectadores, o show ocorreu para uma pequena e mansa alcateia, termo utilizado por eles para designar os fãs. Apesar disso, entregaram uma performance muito profissional e consistente para os presentes. 

Cerca de meia hora depois, foi o momento de a atração principal subir ao palco. Devido à semana repleta de eventos em São Paulo, os entusiastas do metal precisaram realizar escolhas. Compareceu um público relativamente moderado, o qual, entretanto, agitou e se fez ouvir desde o início da apresentação com a clássica Pinball Map, fazendo os admiradores da fase inicial sorrirem de orelha a orelha. 

No decorrer da noite, foram apresentadas composições pesadas de várias épocas, focando sobretudo nas mais recentes. Tal foco não representou um problema, visto que, em Deliver Us, a plateia cantou como se fosse a última oportunidade de vê-los ao vivo; já em State of Slow Decay, faixa do disco mais atual, o coro e os mosh pits confirmaram seu status de clássica. O ápice foi a trinca composta por Cloud Connected, Trigger (ambas do Reroute to Remain, obra que dividiu opiniões por trazer elementos novos) e Only for the Weak, da fase mais tradicional. O bloco tirou o fôlego de todos, levando ao bate cabeça enquanto entoaram a silaba de cada canção.

Vale ressaltar que a performance foi impecável; os veteranos Anders Fridén (vocais) e Björn Gelotte (guitarra) esbanjam presença e carisma. Eles brincam e dialogam com os fãs durante todo o set. Além disso, elogiaram muito o Brasil e agradeceram pelo imenso carinho dos brasileiros. Com o espetáculo se aproximando do fim, a energia diminuiu levemente, apenas para explodir novamente na derradeira canção, Take This Life, encerrando com chave de ouro uma excelente passagem dos suecos.



Fotos: Pri Secco

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 





Throw Me to the Wolves – setlist: 

Chaos

Tartarus

Days of Retribution

Fragments

Awakening My Demons

Gates of Oblivion

Gaia


In Flames – setlist: 

Pinball Map

The Great Deceiver

Deliver Us

The Quiet Place

In the Dark

Voices

Cloud Connected

Trigger

Only for the Weak

Meet Your Maker

State of Slow Decay

Alias

The Mirror's Truth

I Am Above

Take This Life

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Cobertura de Show: Nile – 22/03/2026 – Burning House/SP

Escrever sobre o Nile é uma honra e também um desafio, a música deles é tão densa e técnica quanto os hieróglifos egípcios. O show na Burning House rolou no último dia 22 e foi uma verdadeira aula de como o Death Metal técnico deveria ser executado: direto, com precisão cirúrgica e um peso ancestral digno das pirâmides do Egito.

Na noite de domingo, 22 de março, a capital paulista testemunhou uma das apresentações mais viscerais do ano. O Nile, titã do Technical Death Metal, transformou o palco do Burning House em um ritual sonoro, provando que, após décadas de estrada, Karl Sanders e companhia ainda detém a coroa da brutalidade.

A banda abriu o set com a devastadora "Stelae of Vultures", seguida imediatamente por "To Strike With Secret Fang". O som da casa estava afiado — o que é essencial para uma banda onde cada nota de guitarra e cada batida de pedal duplo precisam ser ouvidos com clareza.

A sequência com "Sacrifice Unto Sebek" e "The Black Flame" trouxe aquele clima egípcio sufocante que só eles sabem criar. É impressionante observar a técnica de Sanders e Brian Kingsland; as guitarras parecem são rápidas, cortantes e precisas dando uma sensação de que estamos presenciando em uma batalha ancestral com milhões de anos.

O ponto alto do show veio com a aclamada Kafir!" que foi certamente um dos momentos mais intensos da noite. Em coro o público aclamou "There is no God!" que ecoou pela Burning House com uma fúria impressionante, unindo banda e público em um só transe.

Como Nile não é feito só de velocidade em Sarcophagus" eles desaceleraram o tempo indo para o território do Doom/Death, com um peso quase físico que praticamente arrastou as estruturas. Um turbilhão técnico que deixou a roda de mosh em chamas com a Chapter for Not Being Hung Upside Down on a Stake in the Underworld and Made to Eat Feces by the Four Apes.

O encerramento do set principal foi com "Black Seeds of Vengeance", um clássico do death moderno e esse foi o hino de vingança preparou o terreno para o que viria no bis.

Ao retornarem para o palco, o Nile entregou o que muitos consideram sua obra-prima: "Annihilation of the Wicked". Ver George Kollias manter aquela velocidade constante é hipnotizante. Finalizaram a noite com "Khetti Satha Shemsu", deixando os fãs em estado de êxtase metálico.

Os shows de metal pesado na Burning House em parceria com o Caveira Velha produções e a Vênus Concert vem se tornando uma das melhores referências para shows de metal extremo em São Paulo. Trazer o Nile foi certamente um presente para os fãs de Death Metal, a banda muito admirada por todos que curtem o estilo  é uma experiência sonora vinda diretamente das catacumbas das pirâmides do Egito.

Os shows de metal pesado na Burning House, em parceria com a Caveira Velha Produções e a Vênus Concert, estão se consolidando como uma das principais referências para o metal extremo em São Paulo. A vinda do Nile foi, sem dúvida, um presente para os fãs de Death Metal. Admirada por todos que apreciam o estilo, a banda proporciona uma experiência sonora intensa, transportando o público diretamente para as catacumbas das pirâmides do Egito.

A banda carioca Ereboros iniciou os trabalhos nesta noite memorável, representando o melhor do Blackened Death Metal, o grupo entregou uma performance técnica, veloz e obscura que serviu como o aquecimento ideal para o death metal técnico dos americanos.

O repertório foi focado em temas autorais de atmosfera densa e agressividade rítmica, com destaque para faixas como "Salute to Disorder" e a homônima "Ereboros". A execução impecável de som encorpado,levantou a energia do público paulista, entregando uma das aberturas mais elogiadas da turnê The Underworld Awaits Us All em solo brasileiro.



Fotos: Pri Secco 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 





Nile – setlist:

Stelae of Vultures

To Strike With Secret Fang

Sacrifice Unto Sebek

The Black Flame

Smashing the Antiu

Kafir!

Hittite Dung Incantation

In the Name of Amun

Sarcophagus

Long Shadows of Dread

Chapter for Not Being Hung Upside Down on a Stake in the Underworld and Made to Eat Feces by the Four Apes

Naqada II Enter the Golden Age

Black Seeds of Vengeance

Bis

Annihilation of the Wicked

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Entrevista - Homeless: Ex- Ratos de Porão Desafia o Mercado Fonográfico com Novo Projeto

 


A banda Homeless foi formada no Brasil por Spaghetti, conhecido por sua passagem como baixista do Ratos de Porão nos anos 1980, período importante para a consolidação do punk/hardcore nacional.

Após sair do Ratos, Spaghetti buscou explorar sonoridades mais extremas e pesadas, o que levou à criação da Homeless em 2010, já com uma proposta voltada ao crossover, e evoluindo para um direcionamento mais Death Metal.

O grupo está em plena divulgação do seu mais recente trabalho, "Obscuro Lado da Alma", e conversou conosco sobre esse álbum e muito mais. 


- Olá Spaghetti. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo álbum “Obscuro Lado da Alma”.

Obrigado! 


- Como você pode descrever o trabalho na composição deste tipo de sonoridade?

Desde que voltamos a ativa com força total a ideia era fazer um disco mais sério, tanto em sonoridade quanto nas letras. E esse disco é só o começo dessa fase mais Metal, vem mais coisa logo mais.


- Vejo que vocês incorporaram novos elementos, como os fãs tem "digerido" essas mudanças?

Como a gente tenta sempre fugir do óbvio, as vezes demora um pouco pra ser digerido, e a ideia é essa mesmo, não vamos nunca entregar o famoso “mais do mesmo”.

- Existem planos para o lançamento de “Obscuro Lado da Alma” no Brasil, no formato físico? Tivemos contato até agora, apenas o formato digital.

O vinil já está na fábrica, deve sair no máximo até o meio do ano.É uma parceria de vários selos, estamos empolgados com isso. E estamos fazendo contatos fora do Brasil também, em breve deve ter novidades.


- Vocês compõem em português, mas isso não pode vir a atrapalhar vocês no mercado exterior?

Eu acho que quem ouve metal brasileiro fora do Brasil também quer nossa originalidade, e cantar em português faz parte disso. Mas no próximo trabalho temos vontade de fazer pelo menos um som em inglês, mas tem que ser natural pra gente.


- Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A aceitação está sendo positiva?

A aceitação está sendo ótima, e estamos armando uma mini tour para o lançamento do disco em vinil.


- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela se conecta com o título?

Quem fez todas as artes foi o Vinícius Vai, que é vocal 3 guitarra também, então tá tudo em casa. O que ajuda também a transmitir as ideias também de forma visual, já que essa identidade visual atrelada ao som é uma coisa muito importante pra gente.

- “Obscuro Lado da Alma” foi todo produzido pela banda, confere? Foi satisfatório seguirem por este caminho?

Foi produzido pela banda e com uns toques super importantes do Niko Teixeira do Extreme Lab Estudios onde gravamos.


- Imagino que já estejam trabalhando em novas composições. Se sim, como está se dando o processo e como estão soando?

A gente nunca para, e já estamos compondo material pra um EP que queremos gravar e soltar ainda esse ano. Tá bem mais pesado, isso eu posso garantir.


- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao HOMELESS!

Valeu! 

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

StormSorrow: Obra-Prima do Death Metal Brasileiro

Independente (Nac.)

Por Paula Butter 

"Quando a música consegue apunhalar a alma, a missão está cumprida. The Blood Red Horizon cumpriu."

A banda Stormsorrow nos contempla com um álbum bem surpreendente, The Blood Red Horizon, título forte e imponente com pacote completo: peso, pedais duplos, melodia e personalidade. É satisfatório perceber que a música nacional está alcançando níveis de tecnicidade tão altos, e com grande reconhecimento mundial.

As letras, fortemente embasadas e densas, são envoltas nas teias do Death Metal, resultando em composições complexas para serem ouvidas mais de uma vez e sentidas na alma. No decorrer das faixas, o volume precisa ser elevado; o espírito do ouvinte, antes calmo, se envolve em energia e revolta, ou talvez em questionamentos. O emocionante no metal é exatamente isto: provocar, gerar movimento. As bandas que conseguem este feito podem considerar que a missão foi cumprida.

As primeiras faixas já surpreendem. A faixa-título, "The Blood Red Horizon", traz muitos elementos clássicos do Death Metal, destacando-se a bateria incessante de Arthur Albuquerque em harmonia com os vocais de Kahlil Souto. Já "Burning Skies" destaca as guitarras com solos competentes e melodiosos de Vicente Luiz, sem perder o peso e a identidade. Esta última conta com a participação de Alexandre Grunheidt (ex-Ancesttral).

Em todas as canções já se pode perceber a competência dos músicos, mostrando-se alinhados entre si a fim de dar vida e contexto às letras. O baixista Yuri Passos esbanja maestria e técnica para fazer a ponte perfeita entre as alternâncias de ritmo.

A pesadíssima "Face the Obliteration" inicia os momentos de explosão sonora que virão a seguir. Importa dizer que se torna impossível destacar uma canção, pois todas são partes de um todo: a obra musical. Mas a dicotomia musical de "Hellgate Assembly" é digna de figurar entre as melhores canções de Death Metal de 2025, e conta ainda com a participação especial de Lord Vlad (Malefactor), que também participa da excelente e impactante "The Storm Will Remember My Name", música que flerta com o Heavy Metal na medida certa e prova ser possível a junção de gêneros sem perder a identidade original.

Em "Post-Truth Warfare", temos mais uma participação: desta vez para apimentar os vocais, trata-se de Mario Pastore. Resultado final mais que aprovado. Seguimos com "Rebellion Burns Within", não deixando a poeira baixar, para dar lugar à "Darkest December", que já pela introdução entrega a pegada que vem pela frente: Death Metal puro e pronto para ser trilha sonora de muitos futuros moshes.

Bom, a julgar pela ótima aceitação dos principais veículos musicais de 2025 e após a audição atenta desta obra-prima, podemos entender o motivo: música pesada de qualidade!

Nada mais justo do que finalizar com uma confissão: após a primeira audição,  vieram uma segunda, uma terceira e muitas outras de The Blood Red Horizon por esta pessoa que vos escreve. O álbum realmente conseguiu apunhalar em cheio o coração dos apreciadores de música pesada e de conteúdo lírico profundo.


Divulgação 





segunda-feira, 2 de março de 2026

Cobertura de Show: Obituary – 22/02/2026 – Tork N' Roll/CWB

O death metal afiado de Obituary aquece Curitiba

Num domingo ameno e chuvoso, a banda estadunidense de death metal Obituary tirou os curitibanos de casa para mostrar o motivo pelo qual estão há 40 anos na estrada sendo referência no gênero. No último domingo (22) no Tork N Roll, a produtora Caveira Velha, junto a Xaninho Discos, trouxeram uma trinca pesada para encerrar de vez esse mês de folia: Enslaver (Maringá), Rotborn (Bauru) e o headliner, Obituary (EUA). 

Como sempre gosto de ressaltar, os eventos de ambas produtoras nunca decepcionam. Seja pela pontualidade assídua, quanto pela qualidade sonora e da produção de todo o evento. Soa um pouco brega dizer isso, mas o comprometimento com horários dentro do underground nem sempre é levado muito à sério, maa mesmo assim eles nos mostram que a cena não é bagunça da melhor forma possível, com o público entrando na casa exatamente 19h e com a banda de abertura à postos com seus instrumentos às 19h30. 

Formada em 2015 e representando o Paraná, os meninos da Enslaver honraram seu lugar no evento, com músicas do seu álbum, “Side Evil”, e demais EPs. Com riffs rápidos e material muito interessante, eles conseguiram conquistar um público surpreendente para um show de abertura em Curitiba, com direito a mosh na quarta música, Death Curse, em diante. O thrash metal formado por letras sobre resistência trouxe um suspiro de alívio para os fãs do gênero ao mostrar qualidade e humildade, agradecimentos por parte da banda em meio as pausas do set.

Um pouco adiantados, Rotborn entrou ao palco com três minutos antes do previsto com uma presença de palco e energia contagiante. Um vocal visceral de grindcore misturado ao som pesado de death nos instrumentos, os jovens da platéia se deixaram levar e formaram um mosh logo na segunda música, que se estendeu até o final da apresentação, com direito a manejo de classe do vocalista num “Abram a roda, por favor” quando o público começou a se amontoar. Mesmo quem não estava na “baguncinha gostosa”, como apelidei carinhosamente, estava curtindo o show batendo a cabeça em Ungraved, o que gerou um momento curioso: todos batendo a cabeça no mesmo ritmo.

Vale ressaltar que foi minha primeira vez presenciando um show de metal pesado. Já tinha uma certa noção de como seria, pois já fui a eventos punk no passado, mas foi muito interessante perceber como a plateia era uma perfeita mistura entre gêneros e idades, onde quase metade eram mulheres, além de umas crianças aqui e ali. Todas as gerações do death metal estavam presentes para prestigiar os ídolos do Obituary.

Às 21h30, a primeira nota de “Redneck Stomp” soou nos alto-falantes do Tork N Roll, fazendo a multidão sacar os celulares para o alto a fim de recordar o momento. Muitos ali pareciam estar esperando há muito tempo para ver a banda ao vivo. 

O setlist, diferente do que imaginei, não tocou o álbum “Cause of Death” na íntegra, mas misturou alguns de seus sons bem conhecidos, assim como do último trabalho, “Dying of Everything”. As primeiras músicas, “Sentence Day”, “A Lesson in Vengeance” e “The Wrong Time”, aproveitaram o ânimo do público para mostrar que os veteranos continuam mantendo um alto padrão de composições nos últimos discos. 

As músicas tocadas do Cause of Death me surpreenderam ao vivo, pois achei muito melhor do que a performance do disco. Com as sete músicas tocadas desse álbum, a voz de John Tardy é espacial e cativante no palco, ecoando nos ouvidos assim como os acordes da banda, mesmo após 35 anos. Foi admirável ver todos no mesmo ritmo, numa performance digna de respeito. 

Trazendo “I’m In Pain” e fechando com a mais esperada “Slowly We Rot”, foi interessante como o Obituary trouxe o espetáculo também na montagem do set, sem deixar que o show se tornasse cansativo para ninguém da plateia, que a todo momento se mostrava frenética desde o primeiro segundo da apresentação, assim como abordou títulos importantes de toda sua carreira, deixando o público satisfeito com o que viu.


Texto: Silvia Kucek

Fotos: Vladimir Silvério 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Caveira Velha Produções / Xaninho Discos

Press: Tedesco Comunicação & Mídia / Acesso Music


Obituary – setlist:

Redneck Stomp

Sentence Day

A Lesson in Vengeance

The Wrong Time

Infected

Body Bag

Dying

Cause of Death

Circle of the Tyrants (Celtic Frost cover)

Chopped in Half

Turned Inside Out

Bis

I'm in Pain

Slowly We Rot

domingo, 1 de março de 2026

Cobertura de Show: Torture Squad – 13/02/2026 – Sesc Bom Retiro/SP

Um período emblemático do calendário brasileiro é o feriado prolongado do carnaval, uma comemoração tão marcante que, por consciência coletiva, foi considerada como o marco do início de um período: todo e qualquer ano só se inicia, de fato, após findar tal comemoração.

Para além disto, ele é um feriado produzido para agradar todos os tipos de públicos, de gregos a troianos: seja quem gosta de sentir o Sol escaldante atrás dos blocos, seja para quem prefere estar presente nos retiros religiosos, ou até mesmo para quem prefere curtir aquele video-game ou um Netflix no conforto dos seus lares.

Felizmente, os amantes de uma música extrema estavam bem-servidos no marco zero do Rock e do Metal no Brasil: a capital paulista. Logo no primeiro dia oficial das celebrações carnavalescas, o SESC Bom Retiro hospedou uma celebração ao Metal extremo com uma autêntica instituição do Thrash Metal nacional: o TORTURE SQUAD.

O primeiro show do ano da banda foi arquitetado de maneira diferenciada: um Teatro, ao invés do palco convencional que uma barricada de riffs agressivos e bateria avassaladora que percorrem o seu caminho, já que “diferenciada” foi a palavra de ordem para esta apresentação.


“CARNAVAL” POSSUI MAIS DE UM SIGNIFICADO NO DICIONÁRIO

Para uma parcela, o último dia 13 de fevereiro foi o primeiro show do ano, o que era causa suficiente para uma animação acima do convencional. Animação esta que pôde ser vista com o público dispersado dentro do teatro do SESC Bom Retiro, mesmo após dar o horário marcado de 20h, socializando com os seus pares. Acontece que esta sensação teria vida curta, pois apesar de ser com atraso, na exata minutagem de 20:11, as luzes se apagaram para dar início à construção de uma atmosfera apropriada.

Proferindo as primeiras notas, HELL IS COMING tem sido uma tradição quase religiosa no uso do começo dos shows do TORTURE SQUAD desde que “Devilish” foi lançado, e assim como o próprio título implica, a avalanche sonora que ela carrega é um convite para quem escuta a adentrarem os portões do Inferno, tal como ocorre no Rio Aqueronte, ponto inicial dos domínios de Hades, o Imperador dos Mortos da mitologia grega.

Sem espaço para sequer a duração de uma batida cardíaca entre uma canção e outra, FLUKEMAN é emendada logo no final da anterior, seguindo o hábito do repertório estar mais centrado no lançamento mais recente, “Devilish” (2023), cujo trabalho teve o ponto de reforçar ainda mais a mescla de duas das vertentes mais extremas do Metal desde o advento de Mayara Puertas e Rene Simionato, há mais de dez anos atrás (em 2015), respectivamente nas tarefas vocais e de guitarra.

E foi justamente Mayara, após o fim da faixa anterior, carregando o dever de manter a maior comunicação entre a banda e o público que realizou uma louvável atitude: uma quebra do protocolo formal do SESC de ver o show sentado numa cadeira. Assim que BURIED ALIVE estava para começar, a mesma tratou de convocar todos a ficarem mais próximos do palco e a curtirem a apresentação da forma como Deus (ou Satanás?) planejou. E uma nota precisa ser feita para esta aqui: a terceira faixa do último álbum carrega uma agressividade tão bem-vinda e infectante que mesmo o ser mais puro e calmo presente é altamente capaz de sentir uma fervura em seu sangue e renunciar a sua capacidade de comportamento formal e estar em linha com o seu modus operandi selvagem, já que é da selva onde nós viemos.


O QUE É CHAMADO DE “TORTURA”, PARA ALGUNS É UM LAR

Como se essa transmissão vigorosa de energia não fosse suficiente, a dupla HELLBOUND e MURDER OF A GOD veio com uma declaração de intenção. Com a alteração de posição da plateia, o quarteto capitalizou a continuação do ritual com os supramencionados petardos, lançados na forma de uma hecatombe auditiva e com o surgimento de moshes (ainda que tímidos, mas presentes) na área situada entre as cadeiras e o palco.

Assim que a total e completa escuridão governou o ambiente, um observador poderia acreditar que o clima pintado era o de um show de Black Metal, para que todos os mortais atualmente preenchendo aquele espaço do SESC Bom Retiro se tornassem um com o meio-ambiente, tal como quando o Cavaleiro de Ouro Régulus de Leão realizou tal façanha ao ascender ao Oitavo Sentido, em CAVALEIROS DO ZODÍACO. Metatextualmente, HELLBOUND serve a este propósito ambiental, mas um dos seus deveres é o de antecipar um certo show à parte que se torna tradicional nas apresentações do “Esquadrão da Tortura”.

A iluminação do palco fica superconcentrada “na cozinha” do grupo. A bateria de Amílcar Cristófaro recebe um tratamento como se ela tivesse feito bullying com ele na infância, dado o nível da “marretagem” recebida, a qual é condição sine qua non para o domínio do kit, e não é à toa que Amílcar é constantemente lembrado ser um dos melhores bateristas que nasceu em solo brasileiro nas opiniões do público em geral. Vê-lo executar um solo em seu instrumento é a pura definição de uma poesia em movimento, e se o ouvinte não sente um fogo pulsando em seu corpo ao testemunhar tal privilégio, o ouvinte em questão está vivendo a vida do jeito errado.

Ato contínuo, o paulistano tomou a frente e discursou para a plateia, prestando homenagem à cena nacional e destacando a produção acústica de nível Lamborguini, além de lamentar a ausência de Jão, membro do RATOS DE PORÃO, que infelizmente não pôde estar presente devido a um acidente de moto que o vitimou dias antes do show.


OLÁ, MI CASA ES SU CASA

Esta foi a brecha para dar as boas-vindas para outra convidada que também merece a alcunha de “especial”. Jéssica Falchi entrou no palco assim que o seu nome foi invocado. Conhecida pela sua passagem na CRYPTA, a paulista vem construindo uma reputação como uma das maiores revelações no cenário nacional, aonde quer que ela vá.

Carregando um carisma tão poderoso, ensinando aos pretendentes que tentam imitar como é que se exala entusiasmo genuíno, a sua aparição inicial veio na forma de WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS, um cover do BEATLES. Apesar da quebra quase radical de ritmo, perfazendo uma guinada de 180⁰ de um lado ao outro, reza uma das regras não escritas do universo que “a calmaria precede a tempestade”.

Provando que essa valia se mantém verdadeira com o teste do tempo, a canção do BEATLES e a sua tranquilidade foram um prelúdio para que uma das principais inspirações da monte-altense fosse lembrada na apresentação. Não é nenhuma surpresa que MARTY FRIEDMAN é um dos motivos que a fez praticar guitarra, demonstrando a honra a um dos seus antepassados, a escolha foi DRAGON MISTRESS, do seu álbum de estreia de 1988.

Ao contrário da balada (que fez com que Mayara trocasse para o vocal limpo), aqui vemos a convidada demonstrar o porquê de estar categorizada como uma revelação, não precisando utilizar palavra nenhuma para deixar isso bem claro, mas sim deixando exalar o seu talento fazer todo o falatório.

Em sequência, HORROR AND TORTURE, PULL THE TRIGGER e THE UNHOLY SPELL são uma trindade que marcam presença da mesma forma que o banho diário faz parte da cultura tupiniquim, servindo como combustível para que o Bloco do Esquadrão continuasse testando a resistência do poderio vindo dos equipamentos do SESC.

Antes delas darem o ar da graça, no entanto, é importante frisar que a vocalista aproveitou o momento para desmentir os rumores do momento, que seria a possibilidade dela integrar a banda sueca de Death Metal Melódico ARCH ENEMY, considerando os mistérios rondando a nova vocalista, deixando claro que a própria integra o TORTURE SQUAD e que o ano atual será marcado por muito trabalho por parte da banda.

EM RETROALIMENTAÇÃO, A VIDA IMITA A ARTE

Uma frase tão comum quando o pôr do Sol acontecendo ao redor das 18h é que todas as coisas boas infelizmente estão fadadas a terem um fim. Em uma realização de um autêntico gran finale, todos fomos agraciados com o retorno da presença contagiante de Jéssica para o ato final: um medley do METALLICA. Não é surpresa nenhuma que a natural de Monte Alto possui a banda dos estadunidenses como uma de suas maiores predileções em vida (ao ponto de realizar diversos covers dela nas suas contas das redes sociais), então não foi nada algo "fora de lugar" um encerramento deste calibre. Olhando em retrospecto, isso acaba sendo uma "homenagem dentro de uma homenagem" (do TORTURE SQUAD à Jéssica, de Jéssica ao METALLICA), no maior clima do filme A ORIGEM, de 2010 encontrando um paralelo à vida real.

E assim foi finalizado o "bloquinho" de Carnaval calmo e tranquilo do Esquadrão da Tortura, perfeito para os que precisam acalmar os ânimos e alcançar um estado zen que o corpo humano consegue atingir.

Assim como a NERVOSA antes deles, é comum achar estranha a performance de um dos atos do Thrash/Death ocorrer dentro de um teatro. Porém, a mensagem aqui fica clara de que esta não é uma apresentação ordinária, mas sim uma dedicatória na forma de show.

Dedicar um show aos seus antepassados que, de certa forma, detém o mesmo sangue brasileiro, é uma das atitudes mais nobres possíveis enquanto na posição não só de musicista, mas de profissional também. Isto por si só reforça o fato de que, mesmo quem tem o – este redator ousa dizer - péssimo gosto de não apreciar música extrema -, faz com que o TORTURE SQUAD mereça o respeito até mesmo por quem curte o lado oposto do espectro musical.

O TORTURE SQUAD é: Mayara Puertas (voz), Castor (baixo), Rene Simionato (guitarra) e Amílcar Cristófaro (bateria).




Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Torture Squad – setlist:

Hell Is Coming

Flukeman

Buried Alive

Hellbound

Murder of A God

Pandemonium

Raise Your Horns

While My Guitar Gently Weeps (Beatles cover; ft. Jéssica Falchi)

Dragon Mistress (Marty Friedman cover; ft. Jéssica Falchi)

Horror And Torture

Pull The Trigger

The Unholy Spell

Metallica medley (ft. Jéssica Falchi)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Cobertura de Show: Tribulation – 14/02/2026 – Burning House/SP

Com uma aura instigante e uma sonoridade que transcende os rótulos convencionais do metal, a banda sueca Tribulation retornou ao Brasil para sua segunda passagem, prometendo uma noite gótica com peso e músicas marcantes. A expectativa era grande para ver o grupo, conhecido por sua fusão única de black, death e gothic metal, entregar mais uma performance memorável. E, apesar de um pequeno atraso no início do show e de uma mudança inesperada na formação, o público presente não demonstrou sinais de desânimo, apenas uma crescente ansiedade pela experiência que estava por vir. A apresentação, realizada na Burning House, no último dia 14, provou mais uma vez por que o grupo é reverenciado: uma performance imersiva que transforma o palco em um portal para outra dimensão.

No entanto, o maior ponto de interrogação da noite pairava sobre a bateria. Devido a problemas pessoais, o baterista Oscar Leander não pôde acompanhar a banda nesta jornada sul-americana. Para a surpresa e o deleite de muitos, a solução veio em grande estilo: Luana Dametto, baterista da banda Crypta, foi convocada para assumir as baquetas. Tratou-se de uma substituição de última hora que carregava o peso de replicar a complexidade rítmica do Tribulation, mas que, como se verificou, foi conduzida com competência, garantindo que a espinha dorsal sonora da banda permanecesse intacta e poderosa.

Logo no início, a banda demonstrou confiança e entrosamento. A qualidade do som estava impecável, permitindo que cada nuance das guitarras de Adam Zaars e Joseph Tholl, o baixo e vocal gutural de Johannes Andersson e a bateria de Luana Dametto ressoassem com clareza. A performance na bateria mostrou energia e precisão, adaptando-se ao estilo da banda e contribuindo para a solidez da apresentação.

O setlist constituiu uma viagem pela discografia do grupo, equilibrando faixas mais recentes com clássicos. A noite começou com a intensidade de “The Unrelenting Choir”, seguida pela atmosfera sombria de “Tainted Skies” e pela melancolia envolvente de “Nightbound”. A sequência continuou com “Hamartia” e “Suspiria de Profundis”, composição que se estendeu por mais de dez minutos, apresentando momentos criativos que envolveram o público de forma marcante. Não foi diferente com “In Remembrance”, na qual cada compasso construía uma atmosfera capaz de transportar a audiência a outras dimensões. A presença de palco, os movimentos teatrais e as maquiagens características complementaram a experiência auditiva, transformando o show em um verdadeiro ritual.

A segunda parte do set principal manteve a energia e a imersão. “Hungry Waters” e “Saturn Coming Down” evidenciaram a versatilidade da banda, enquanto “Murder in Red” reforçou a atmosfera gótica com vocais profundos. O clímax do set principal foi atingido com “The Lament”, faixa que sintetiza a essência dramática e melódica do Tribulation. Ao final da música, o guitarrista Joseph Tholl protagonizou um momento memorável ao entregar sua guitarra a um fã no meio da plateia, gesto de confiança que permitiu ao admirador tocar alguns acordes até a intervenção da equipe técnica.

O público clamava por mais, e a banda retornou para o aguardado bis. Com “Melancholia”, o Tribulation retomou suas raízes mais sombrias e introspectivas, preparando o encerramento com “Strange Gateways Beckon”. A apresentação deixou a certeza de que a segunda passagem da banda pelo Brasil foi exitosa, superando desafios e oferecendo uma performance que permanecerá na memória dos presentes.


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 





Tribulation – setlist:

The Unrelenting Choir

Tainted Skies

Nightbound

Hamartia

Suspiria de profundis

In Remembrance

Hungry Waters

Saturn Coming Down

Murder in Red

The Lament

Melancholia

Strange Gateways Beckon 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Cobertura de Show: Death To All – 21/01/2026 – Tork N' Roll/CWB

Death To All transforma Curitiba em Altar do Death Metal e emociona fãs em noite histórica.

Em plena noite de quarta-feira, dia 21 de janeiro de 2026, o Death To All inicia com competência e emoção, o primeiro grande show do ano em Curitiba. Foram meses de expectativa para apreciar de perto este projeto, que tem por finalidade manter a obra do Death viva e também homenagear nosso grande Chuck Schuldiner. E é claro, fazer a alegria dos fãs mais uma vez. A vinda da banda ao Brasil, ficou a cargo da produtora Overload. 

O local escolhido foi o Tork N’ Roll, casa de shows que atualmente recebe a maioria dos eventos de médio porte, nacionais e internacionais. Por tratar-se de um dia de semana, acredito eu, não houve banda de abertura, sendo que a casa abriu as portas ao público às 19:30 e o show da banda Death to All estava marcado para às 21:00hs.

Entretanto, o local já começou a ficar movimentado por volta das 20 hs, pois haviam fãs de outras cidades do Brasil e também aqueles que preferiram fazer o happy hour no próprio Tork. Inclusive, a casa dispõe de uma variedade de comidas e bebidas, na realidade, uma praça de alimentação completa, além de camarote com sofás e área de jogos. Sendo assim a espera pelos músicos foi um momento de confraternização entre todos que estavam no local. É impressionante a capacidade do público de metal mais extremo em fazer amizades e curtir a emoção em coletividade.

Mas vamos ao que importa, pontualmente às 21:00hs, sobem ao palco: Max Phelps, responsável pelos vocais e guitarras, o grande Gene Hoglan na bateria, o carismático Steve DiGiorgio no baixo e o feroz Bobby Koelble na guitarra. Lembrando que Max Phelps é o único membro que não teve passagem pelo Death, mas em compensação possui um talento digno de executar os clássicos da época de Chuck. Diria que os músicos deste projeto/banda estão em uma sintonia digna do mainstream.

Vale a pena também, ovacionar o público presente no local, eram sangue, suor e lágrimas. Inclusive podia se ouvir de tempos em tempos os gritos “Death” “Meu Deus, do c*”, ”Não acredito nisso, é demais!!”, era emoção demais, desconhecidos se abraçando. Para logo na sequência, se colidirem nas rodas de mosh, mas não era violência, e sim, alegria, exaltação. De certo, a bebida alcoólica, consumida um pouco além da conta, também teve seu papel para as exacerbadas demonstrações de afeição.

Agora, falando dos momentos iniciais do show, os primeiros acordes já soaram extremos, com “Infernal Death”, do primeiro álbum do Death, seguido por “Living Monstrosity” e “Defensive Personalities” e “Altering the Future” do álbum Spiritual Healing, do qual o nome da turnê faz referência. Contudo, a resposta enérgica do público, veio com “Zombie Ritual” também do álbum de 1987, Scream Bloody Gore, e também na execução apaixonada de “Spiritual Healing”. Em resumo, não tinham músicas mornas, todas eram executadas à perfeição e em alto volume. 

Quanto à disposição de palco, a proximidade entre os músicos era pequena, o que contribuiu para uma boa visão do público, bem como para a alegria dos fotógrafos presentes no local. Que convém mencionar, tiveram as cinco primeiras músicas disponibilizadas pela produção, para fotos do pit (local entre o público e o palco, onde geralmente tem uma grade de proteção e os seguranças).

Dentre as vezes em que o baixista Steve DiGiorgio (que inclusive encontrava-se com os pés descalços) conversa com o público, uma em especial tocou o coração de todos os fãs, por volta do meio da apresentação ele lembrou a camaradagem e a importância daquelas músicas que estavam sendo executadas para homenagear o legado do lendário Chuck Schuldiner. E a resposta da platéia não poderia ser diferente, vozes em uníssono proferindo o nome “Chuck” sem parar. Definitivamente um dos momentos mais emocionantes da apresentação. 

A segunda parte do show foi dedicada aos principais petardos do álbum Symbolic de 1995, com muitos moshs, pessoas tirando as camisetas, em partes por conta do calor que fazia no local, mas também para acenarem com elas em movimentos circulares no ar. A partir daí, rolaram vários clássicos como a própria “Symbolic”, “Empty Words” “Sacred Serenity” e ainda a peculiar “Zero Tolerance”, uma surpresa para muitos.

Tiveram ainda fatos marcantes, como uma pessoa vestida com um traje de banana no meio do mosh, captando a atenção de todos. Inclusive da própria banda, que não poupou elogios aos esforços e a criatividade do público brasileiro. Haviam homens e mulheres de todas as idades, e também desde aquele fã raiz até os recém iniciados no culto ao Death. E a noite foi realmente uma adoração ao Death Metal, com um final bem emocionante, trazendo as canções “Spirit Crusher” e “Pull the Plug”. 

Um pouco antes do final, como já é de costume, alguns já se adiantaram para garantir seu carro de aplicativo a tempo, pois invariavelmente depois de um evento concorrido, as ruas estreitas em torno do Tork lotam fácil. Por outro lado, tiveram aqueles que continuaram no local até os últimos instantes para apreciar aquela sensação de felicidade plena, que nos toma por completo após um espetáculo desse nível. 

Nossos agradecimentos a todos que tornaram possível esta inesquecível experiência.




Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Overload Brasil



Death to All – setlist:
 
Infernal Death

Living Monstrosity

Defensive Personalities

Lack of Comprehension

Altering the Future

Zombie Ritual

Within the Mind

The Philosopher

Spiritual Healing

Symbolic

Zero Tolerance

Empty Words

Sacred Serenity

1,000 Eyes

Without Judgement

Crystal Mountain

Misanthrope

Perennial Quest

Spirit Crusher

Pull the Plug