sexta-feira, 27 de março de 2026

Abstracted: Peso, Sofisticação e Identidade (Also In English)

M-Theory Audio (Imp.)

Por Flavio Borges 

Após conquistar reconhecimento dentro e fora do Brasil com Atma Conflux (2022), o Abstracted retorna em 2026 com Hiraeth, um álbum que não apenas apresenta, mas solidifica uma nova fase em sua trajetória. Mais do que um simples sucessor, o disco funciona como um manifesto artístico que evidencia maturidade composicional, identidade sonora e ambição internacional.

A atual formação — Rosano Pedro Matiussi (vocais), Leonardo Brito e José Consani (guitarras), Riverton Vilela Alves (baixo), Carol Lynn (teclados) e Fernando Pollon (bateria) — demonstra entrosamento e segurança ao longo de toda a obra, posicionando o grupo como um dos nomes mais promissores do metal progressivo brasileiro contemporâneo.

Logo na abertura, “Axis” estabelece as bases do que está por vir. Com texturas de teclado que remetem à fase clássica do Dream Theater, a faixa alterna com naturalidade entre passagens limpas e momentos de alta densidade rítmica. A combinação entre vocais guturais — evocando influências como Opeth — e linhas melódicas limpas cria um contraste dinâmico que se tornará recorrente ao longo do álbum.

“Languish” intensifica essa proposta ao mergulhar em territórios mais agressivos, com estrutura complexa e abordagem mais extrema. A participação de Chaney Crabb acrescenta ainda mais peso e versatilidade à composição, que equilibra técnica e brutalidade sem abrir mão da sofisticação progressiva.

Em “Sirens”, o Abstracted amplia seu espectro sonoro ao incorporar elementos que transitam entre o jazz e o fusion, sem perder a coesão. A riqueza de arranjos e a alternância de climas demonstram uma banda confortável em explorar múltiplas influências, conectando o legado do progressivo clássico às tendências mais contemporâneas do gênero.

A virtuose instrumental ganha protagonismo em “To Quench This Insatiable Thirst”, que conta com a participação de Igor Bollos. A faixa se destaca pelo refinamento técnico e pela sobreposição de camadas sonoras, exigindo escutas atentas para que todos os detalhes sejam plenamente absorvidos.

Já “Requiem” oferece um respiro estratégico dentro da narrativa do álbum. Com forte carga atmosférica, a composição alterna momentos contemplativos com explosões de intensidade, incluindo passagens de blast beat e experimentações eletrônicas nos teclados. A versatilidade vocal, especialmente nas linhas limpas com abordagem moderna, reforça a identidade plural da banda.

A complexidade atinge um de seus ápices em “The Barren Grave of God”, onde mudanças abruptas de dinâmica e texturas inesperadas conduzem a audição. Elementos que flertam com o doom metal surgem em contraste com trechos altamente técnicos, culminando em uma construção rica em nuances — incluindo a inserção inusitada de tamborim, que adiciona uma assinatura brasileira ao arranjo.

Encerrando o trabalho, “The Utter End” sintetiza os principais elementos de Hiraeth. Em seus quase nove minutos, a faixa percorre diferentes atmosferas e reafirma a proposta do álbum: unir complexidade estrutural, agressividade e sensibilidade melódica em uma linguagem coesa e contemporânea.

Hiraeth é, acima de tudo, uma obra que demanda atenção. Distante de qualquer proposta casual, o álbum se revela aos poucos, recompensando o ouvinte disposto a mergulhar em suas múltiplas camadas. Ao equilibrar técnica apurada, identidade artística e visão de mercado, o Abstracted entrega um trabalho sólido, capaz de dialogar com o cenário internacional ao fundir o metal progressivo clássico com abordagens mais extremas e modernas.

***ENGLISH VERSION***

Following the critical momentum of Atma Conflux (2022), Brazil’s Abstracted return with Hiraeth — a bold and meticulously crafted record that not only introduces a refreshed lineup, but firmly establishes a new chapter in the band’s artistic evolution. More than a mere follow-up, Hiraeth stands as a statement of intent, showcasing a band operating with heightened confidence, compositional depth, and clear international ambition.

The current lineup — Rosano Pedro Matiussi (vocals), Leonardo Brito and José Consani (guitars), Riverton Vilela Alves (bass), Carol Lynn (keyboards), and Fernando Pollon (drums) — delivers a performance defined by precision and cohesion, reinforcing Abstracted’s position as one of the most compelling emerging forces in modern progressive metal.

Opening track “Axis” immediately sets the tone. Lush keyboard textures evoke the early era of Dream Theater, while intricate rhythmic shifts and dynamic transitions establish a sophisticated sonic framework. The interplay between guttural vocals — nodding towards Opeth — and clean melodic lines creates a striking contrast that becomes a defining characteristic of the album.

“Languish” pushes further into aggressive territory, balancing technical complexity with visceral intensity. A standout moment comes with the guest appearance of Chaney Crabb, whose commanding performance adds both weight and texture to an already multifaceted composition.

With “Sirens”, the band broadens its sonic palette, weaving in elements of jazz and fusion without compromising cohesion. The result is a richly layered track that bridges classic progressive influences with a modern, genre-fluid approach — a testament to the band’s compositional maturity.

“To Quench This Insatiable Thirst” serves as a showcase of instrumental prowess. Featuring guest guitarist Igor Bollos, the track unfolds as a technically demanding piece, filled with intricate arrangements and dense layering that reward repeated listens.

“Requiem” provides a carefully placed moment of atmospheric contrast. While maintaining the band’s progressive identity, the track introduces a more introspective dimension, later erupting into bursts of intensity, including blast beat passages and subtle electronic textures. The modern approach to clean vocals further enhances its dynamic range.

Arguably one of the album’s most ambitious compositions, “The Barren Grave of God” thrives on contrast and unpredictability. Rapid-fire technical passages collide with slower, doom-tinged sections, creating a constantly shifting landscape. The unexpected inclusion of Brazilian percussion elements adds a distinctive cultural nuance, enriching the track’s already complex structure.

Closing track “The Utter End” functions as a microcosm of the album itself. Spanning nearly nine minutes, it encapsulates the core elements of Hiraeth — technical precision, emotional depth, and stylistic diversity — delivering a cohesive and impactful finale.

Ultimately, Hiraeth is not an album designed for passive listening. It demands engagement, rewarding those willing to immerse themselves in its intricacies. By seamlessly blending the sophistication of classic progressive metal with the intensity of more extreme subgenres, Abstracted deliver a work that is both ambitious and fully realized — a release that confidently positions the band on the global stage.


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