MASTER OF VOICES TRANSFORMA O TOKIO MARINE HALL EM UMA VERDADEIRA CELEBRAÇÃO DO HARD ROCK E DO HEAVY METAL
Mais uma noite histórica para os amantes do hard rock e do heavy metal, desta vez em São Paulo. O Tokio Marine Hall recebeu o espetáculo Master of Voices, reunindo quatro grandes vozes do gênero em um verdadeiro desfile de clássicos. No palco, Tim "Ripper" Owens, Eric Martin, Jeff Scott Soto e o brasileiro Edu Falaschi revisitaram sucessos de bandas como Judas Priest, Mr. Big, Journey, Angra e muitos outros projetos que marcaram gerações de fãs.
A responsabilidade de abrir a noite ficou com a banda norte-americana Velvet Chains, de Los Angeles, que subiu ao palco pontualmente às 20h50, exatamente no horário prometido. Divulgando seu terceiro EP, Last Rites, o grupo apresentou um som que mistura heavy metal moderno, hard rock e influências de nu metal. Mesmo diante de um público que praticamente desconhecia seu repertório, a banda conseguiu conquistar a plateia com muita energia. O momento de maior interação aconteceu durante o cover de "Suspicious Minds", clássico eternizado por Elvis Presley, apresentado em uma roupagem moderna, pesada e com aquela característica pegada do rock de Los Angeles. O público rapidamente embarcou no refrão conhecido.
Liderado pelo vocalista Chaz Terra, o quinteto mostrou um set direto, sem enrolação, deixando claro o potencial que possui para se tornar uma das próximas revelações da cena mundial do metal. Singles recentes como "Hurt Me" e "Dead In The Head" evidenciam bem esse momento da banda. Vale destacar também a performance extremamente energética da dupla de guitarristas Von Boldt e Philip Paulsen, que dominaram o palco durante toda a apresentação. Antes de deixar o palco, o Velvet Chains prometeu voltar em breve ao Brasil e pediu que o público comparecesse novamente aos próximos shows.
Pontualmente às 22h, subiu ao palco o primeiro dos Masters of Voices: Eric Martin, eterno vocalista do Mr. Big. Sempre muito bem-humorado, iniciou sua apresentação com a incrível "Daddy, Brother, Lover, Little Boy", emendada com a maravilhosa "Take Cover", colocando o público imediatamente no clima da festa. Na sequência veio "Green-Tinted Sixties Mind", transformando o Tokio Marine Hall em um grande coro. Com o violão em mãos, Eric fez um divertido passeio por clássicos do rock, tocando trechos de "Stairway to Heaven" (Led Zeppelin) e "Sweet Home Alabama" (Lynyrd Skynyrd), preparando o terreno para outro grande clássico: "Wild World", de Cat Stevens, eternizada na sua voz no Mr. Big. Durante todo o show, Eric fez questão de rasgar elogios à banda brasileira que o acompanhava: Felipe Andreoli (Angra), Marcelo Barbosa (Angra), Edu Cominato (Mr. Big/Spektra) e Leo Mancini (Elektra e ex-Shaman). E não foi exagero. Nenhum deles deixa absolutamente nada a desejar aos músicos originais que gravaram aqueles clássicos. A prova veio logo depois com "Colorado Bulldog", uma das músicas mais técnicas do repertório do Mr. Big, executada de forma impecável.
Voltando ao violão, Eric comentou sobre sua frequente presença no Brasil e declarou o carinho que sente pelo público brasileiro. Então soltou a frase: "I am the one who wants to be with you..." Era a deixa para "To Be With You". O resultado foi emocionante: praticamente todo o Tokio Marine Hall cantou junto. Inclusive seguranças, bombeiros e funcionários do bar pareciam acompanhar a música. Eric encerrou seu set com "Addicted to That Rush" e chamou ao palco o ex-vocalista do Judas Priest, Tim "Ripper" Owens.
A entrada de Ripper aconteceu ao som da introdução "The Hellion", executada ao vivo pela banda — diferentemente da versão original do Judas Priest, que utiliza playback. Logo em seguida veio "Electric Eye", fazendo o Tokio Marine Hall literalmente explodir. Com um som pesado, extremamente coeso e muito bem regulado, Tim apresentou uma performance impecável. Seus agudos continuam impressionantes e sua voz permanece poderosa. Não por acaso, foi uma das apresentações mais aplaudidas da noite.
Na sequência veio "Burn in Hell", representante de sua fase no Judas Priest durante o álbum Jugulator (1997). Sempre muito simpático e humilde, Ripper agradeceu a Eric Martin por estar abrindo um show dele, dizendo que jamais imaginou viver algo assim. Demonstrando ainda mais humildade, apresentou todos os músicos dizendo que eram excelentes instrumentistas e brincou afirmando que provavelmente todos eram mais famosos do que ele.
Após apresentar o baterista Edu Cominato, veio a introdução de "Painkiller", talvez um dos maiores hinos da história do heavy metal. Falando em hinos, "Breaking the Law" fez o público cantar como se não houvesse amanhã. Para fechar seu set, Ripper resolveu ampliar ainda mais a festa com dois clássicos absolutos do rock: "Highway to Hell" (AC/DC) e "Heaven and Hell" (Black Sabbath). Mesmo não fazendo parte de seu repertório tradicional, ambas incendiaram a plateia, principalmente quem não conhecia tão bem sua trajetória no Judas Priest. Na despedida, chamou ao palco o único brasileiro do quarteto: Edu Falaschi.
Edu iniciou sua apresentação com "Acid Rain", do álbum Rebirth (2001). As músicas seguintes também vieram de seu disco de estreia com o Angra: "Millennium Sun" e "Bleeding Heart". Esta última ganhou uma curiosa participação do público. Afinal, a música foi regravada pela banda de forró Calcinha Preta, tornando-se um enorme sucesso na música popular brasileira. Não foram poucas as pessoas que cantavam junto com Edu... mas usando a letra da versão nordestina.
Na sequência veio "Waiting Silence", do clássico Temple of Shadows (2004). Talvez não seja uma das mais conhecidas do público em geral, mas certamente é uma das preferidas deste que vos escreve. Durante sua apresentação, Edu comentou estar extremamente feliz por dividir o palco com três vocalistas que sempre admirou e ouviu desde jovem. Também aproveitou para convidar todos os presentes para seu show no próprio Tokio Marine Hall, marcado para agosto, dizendo que gostaria de reencontrar aquele público novamente. Seu set terminou em clima emocionante com "Rebirth" e "Heroes of Sand", duas das baladas mais marcantes de sua passagem pelo Angra.
A introdução de "One Love", do supergrupo W.E.T., já anunciava que era hora de Jeff Scott Soto assumir o comando. Era perceptível que parte do público não conhecia aquela música, mas isso não fez diferença. A energia de Jeff rapidamente conquistou todos, e bastaram alguns refrões para muita gente já tentar acompanhar a letra. Sem deixar a peteca cair, anunciou um clássico lançado nos anos 80 por uma banda muito conhecida: o Journey. Assim começou "Separate Ways". Nesse momento já não era mais apenas um show. Era uma verdadeira festa. Todo mundo pulando, cantando e comemorando junto com Soto e a excelente banda de apoio. Em uma pausa, Jeff brincou dizendo que ama tanto o Brasil que já está providenciando seu CPF para se tornar oficialmente brasileiro.
A resposta veio imediatamente com o tradicional coro: "Vira, vira, vira... virou!". Uma brincadeira que acompanha suas passagens pelo país e faz referência às lendárias caipiroskas consumidas durante antigas turnês brasileiras. Soto contou que, em sua última visita, ouviu muitas reclamações sobre seu peso e decidiu procurar um médico nos Estados Unidos. O resultado? Adeus às caipiroskas, pão de queijo, brigadeiro e feijoada. Agora, segundo ele, apenas Sprite Zero.
Entre risadas, anunciou um momento muito especial. Disse que iria cantar uma música inédita em sua carreira para prestar homenagem a um dos maiores nomes da história do rock: Ozzy Osbourne, que completaria um ano de seu falecimento em 22 de julho. Após fazer o sinal da cruz, começou "Mama, I'm Coming Home". Foi um dos momentos mais emocionantes da noite. Jeff interpretou a música com enorme sensibilidade e arrancou aplausos calorosos. Obrigado por esse presente, Jeff. Logo depois, a bateria anunciou outro clássico de sua carreira: "I'll Be Waiting".
Durante a execução, Soto simplesmente desceu para o meio da plateia e cantou cercado pelos fãs. Todos unidos em um único refrão: "If you need somebody, call out my name... I'll Be Waiting, right by your side." Foi um daqueles momentos que ficam para sempre na memória. O tradicional medley de sua fase com Yngwie Malmsteen também marcou presença: "I Am a Viking / I'll See the Light Tonight". Para encerrar seu set, vieram "Coming Home", do Sons of Apollo — ocasião em que relembrou a participação de Felipe Andreoli nos shows brasileiros da banda substituindo Billy Sheehan — e "Stand Up", música da banda fictícia Steel Dragon, do filme Rock Star, na qual Jeff gravou os vocais.
Já passando da meia-noite, os quatro vocalistas voltaram ao palco para um grandioso encerramento com "Living After Midnight", clássico absoluto do Judas Priest. Convenhamos... Não poderia existir música mais apropriada para fechar uma noite como essa.
O Master of Voices não foi apenas uma sequência de apresentações individuais. Foi uma verdadeira celebração da história do hard rock e do heavy metal, reunindo quatro vocalistas consagrados, músicos impecáveis e um público que cantou cada refrão como se estivesse reencontrando velhos amigos. Uma festa daquelas que atravessam gerações. Daquelas noites que quem esteve presente jamais esquecerá.
Quatro vozes históricas do rock dividem o mesmo palco em noite memorável no Santo Rock Bar
Em meio ao frio intenso que tomou conta de Santo André na noite de 11 de julho e à disputa das quartas de final da Copa do Mundo entre Suíça e Argentina, o público do Santo Rock Bar mostrou que havia espaço para duas paixões simultâneas: o futebol e o rock. Enquanto os televisores da casa exibiam a partida, fãs lotavam o tradicional palco do ABC Paulista para testemunhar um encontro praticamente impossível de acontecer há alguns anos.
Idealizado pela Top Link Music, o Masters of Voices reúne quatro vocalistas que ajudaram a escrever capítulos importantes da história do hard rock e do heavy metal mundial: Eric Martin (Mr. Big), Tim "Ripper" Owens (ex-Judas Priest, Iced Earth e atual KK's Priest), Jeff Scott Soto (Talisman, Journey, Yngwie Malmsteen, Sons of Apollo e W.E.T.) e Edu Falaschi (ex-Angra e Almah). O projeto percorre repertórios que marcaram diferentes gerações do rock, acompanhado por uma verdadeira seleção de músicos brasileiros formada por Felipe Andreoli (baixo), Marcelo Barbosa e Leo Mancini (guitarras) e Edu Cominato (bateria).
Mesmo com um evento esportivo de enorme apelo acontecendo simultaneamente, a casa recebeu um excelente público. Durante boa parte da noite era comum ver fãs alternando olhares entre o palco e as televisões espalhadas pelo ambiente. Como diz o velho ditado, era literalmente "um olho no peixe e outro no gato".
ERIC MARTIN
Pontualmente por volta das 22h30, a banda subiu ao palco e recebeu o primeiro dos quatro convidados da noite. Eric Martin foi o responsável por abrir os trabalhos e apostou em uma decisão certeira: apresentar um repertório formado exclusivamente por sucessos do Mr. Big.
A abertura aconteceu em alta velocidade com "Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song)", cartão de visitas perfeito para mostrar o nível técnico da banda brasileira. Os famosos duetos originalmente executados por Billy Sheehan e Paul Gilbert foram reproduzidos com extrema precisão por Felipe Andreoli e Leo Mancini, arrancando os primeiros aplausos mais entusiasmados da noite.
Na sequência veio uma das grandes joias escondidas da discografia do Mr. Big. Na opinião deste que vos escreve, "Take Cover", do excelente álbum Hey Man (1996), continua sendo uma das melhores composições da banda. Outro destaque foi o trabalho de Edu Cominato, que reproduziu com absoluta fidelidade a levada criada pelo saudoso Pat Torpey. Não por acaso, o baterista atualmente integra a própria formação do Mr. Big nas turnês da banda, mostrando que a escolha para substituir Torpey foi mais do que acertada.
Enquanto isso, o público seguia dividido entre o espetáculo musical e a partida da Copa. A cada movimentação perigosa da Argentina, alguns olhares rapidamente migravam para as telas, mas bastava Eric voltar a interagir com a plateia para que a atenção retornasse imediatamente ao palco.
Naturalmente, não poderiam faltar as baladas responsáveis por transformar o Mr. Big em um fenômeno comercial durante os anos 1990. A primeira delas foi "Wild World", releitura do clássico de Cat Stevens que muitos ainda acreditam ser uma composição da própria banda — ou, como brincam alguns brasileiros, até mesmo da dupla Pepe & Neném. O refrão foi cantado praticamente em uníssono, com Martin deixando diversas vezes que a plateia assumisse os vocais.
A energia voltou a subir com "Colorado Bulldog", mais uma demonstração do impressionante nível técnico dos músicos brasileiros. A execução não deixou absolutamente nada a dever às versões originais do quarteto americano.
Quando um violão foi entregue a Eric Martin, praticamente ninguém teve dúvidas sobre o que viria a seguir. Bastaram os primeiros acordes de "To Be With You" para transformar o Santo Rock Bar em um enorme coral. É impossível imaginar quantas milhares de vezes Eric já interpretou esse hit ao longo de sua carreira, mas o mais impressionante é perceber que ele continua cantando a música com o mesmo entusiasmo de quem a está apresentando pela primeira vez. Não havia uma única pessoa na casa que não conhecesse aquele que talvez seja um dos maiores clássicos do hard rock dos anos 1990.
O encerramento veio com "Addicted to That Rush" e "Green-Tinted Sixties Mind", concluindo um set impecável para qualquer fã do Mr. Big. Em pouco mais de meia hora, Eric Martin entregou exatamente o que o público esperava: uma coleção de clássicos interpretados por uma voz que, mesmo após décadas de estrada, continua surpreendentemente preservada.
Antes de deixar o palco, Martin apresentou o próximo convidado da noite: Tim "Ripper" Owens. A temperatura já era baixa do lado de fora, mas dali em diante o clima dentro do Santo Rock Bar mudaria completamente.
TIM "RIPPER" OWENS
Se Eric Martin ficou responsável por aquecer o público com uma sequência impecável de clássicos do hard rock, Tim "Ripper" Owens assumiu o palco disposto a elevar a temperatura de vez. E conseguiu.
Sem qualquer introdução mais longa, o ex-vocalista do Judas Priest entrou "com os dois pés no peito", abrindo sua apresentação com "The Hellion" seguida da clássica "Electric Eye". Embora ambas pertençam à era Rob Halford, são músicas que Ripper incorporou ao seu repertório durante os anos em que esteve à frente do Judas Priest, entre 1996 e 2003, período em que gravou os álbuns Jugulator (1997) e Demolition (2001). Desde então, sua interpretação dessas canções tornou-se uma marca registrada de seus shows.
A reação da plateia foi imediata. Se durante o set de Eric Martin ainda havia parte do público alternando a atenção entre o palco e a partida da Copa do Mundo, bastaram os primeiros gritos de Owens para que praticamente todos voltassem seus olhos para o espetáculo.
Na sequência, Ripper fez uma escolha que certamente agradou aos fãs mais dedicados da sua passagem pelo Priest. "Burn in Hell", do excelente Jugulator, apareceu no repertório e representou um dos grandes acertos da noite. Muitos dos presentes jamais tiveram a oportunidade de ouvir essa música ao vivo durante a passagem da banda pelo Brasil em 2001, tornando sua inclusão um presente para aqueles que acompanham a carreira do vocalista desde aquela época.
A apresentação prosseguiu com dois dos maiores clássicos da história do heavy metal: "Painkiller" e "Breaking the Law". Além da performance vocal impressionante de Owens — que continua alcançando os agudos característicos da fase Priest com notável segurança —, chamou novamente a atenção o desempenho da banda brasileira.
Edu Cominato merece um destaque especial. Quem acompanha sua trajetória sabe que o hard rock é muito mais frequente em sua carreira do que o heavy metal tradicional. Ainda assim, sua execução em "Painkiller", considerada uma das músicas mais desafiadoras para qualquer baterista, foi praticamente irretocável. Técnica, velocidade, resistência e precisão apareceram em abundância durante toda a música, comprovando mais uma vez o nível dos músicos escolhidos para acompanhar o projeto.
Felipe Andreoli, Marcelo Barbosa e Leo Mancini também demonstraram enorme entrosamento ao reproduzir arranjos que fazem parte da história do metal mundial. Em nenhum momento houve a sensação de estarmos diante de uma banda de apoio. Pelo contrário: o quarteto brasileiro tocou com personalidade, mas sempre respeitando as versões originais.
O encerramento do set, entretanto, foi o único momento em que, particularmente, acredito que o repertório poderia ter sido melhor aproveitado.
Ripper optou por interpretar dois grandes clássicos do rock: "Highway To Hell", do AC/DC, e "Heaven and Hell", do Black Sabbath. São músicas irretocáveis e que, obviamente, funcionam em qualquer show de rock. A resposta da plateia foi positiva, com o público cantando e vibrando durante ambas as execuções.
Ainda assim, considerando o curto tempo disponível para cada vocalista, penso que essa era uma oportunidade perfeita para explorar um pouco mais da própria carreira de Tim Owens. Durante vários momentos era possível ouvir pessoas na plateia pedindo músicas de sua passagem pelo Iced Earth, fase extremamente respeitada pelos fãs do power e do heavy metal, ou até mesmo outro clássico do Judas Priest como "The Ripper", faixa que, inclusive, acabou se tornando responsável pelo apelido que acompanha o cantor há mais de quatro décadas.
É uma observação que não diminui em nada a qualidade da apresentação, mas fica aquela sensação de que havia material suficiente para tornar um set excelente em algo ainda mais memorável.
Seja como for, o saldo foi amplamente positivo. Para muitos presentes, Tim "Ripper" Owens entregou a performance mais intensa da noite até aquele momento. Sua presença de palco continua impressionante, a voz permanece extremamente potente e, sobretudo, ele demonstra o mesmo entusiasmo de quando assumiu uma das missões mais difíceis da história do heavy metal: substituir Rob Halford no Judas Priest.
Depois de uma verdadeira aula de heavy metal, o palco estava preparado para receber um artista de perfil completamente diferente, mas dono de uma das vozes mais versáteis do rock melódico: Jeff Scott Soto.
JEFF SCOTT SOTO
Se Tim "Ripper" Owens foi responsável pela descarga de adrenalina da noite, Jeff Scott Soto assumiu o palco representando o lado mais melódico do hard rock. Dono de uma das carreiras mais versáteis do gênero — com passagens por Yngwie Malmsteen, Talisman, Journey, W.E.T., Sons of Apollo, Trans-Siberian Orchestra e inúmeros projetos paralelos —, Soto talvez fosse o artista cujo repertório oferecia mais possibilidades para um set curto. E sua escolha para abrir a apresentação mostrou exatamente isso.
Quando os teclados de "One Love" começaram a soar, boa parte do público pareceu não reconhecer imediatamente a música. Se você que está lendo este review também não sabe de qual canção estou falando, vale a recomendação: trata-se de uma das mais belas composições do hard rock melódico moderno. Lançada no álbum de estreia do W.E.T., em 2009, ela reúne tudo aquilo que consagrou o estilo AOR: um refrão gigantesco, melodias marcantes e uma interpretação vocal impecável de Soto. Se ela ainda não faz parte da sua playlist, pare tudo quando terminar esta leitura e vá ouvi-la.
A entrada tinha tudo para ser apoteótica. Infelizmente, um problema técnico no microfone do vocalista interrompeu completamente o impacto daquele início. Durante os primeiros versos, simplesmente não havia voz alguma saindo no sistema de som. A banda precisou interromper a execução e reiniciar a música poucos instantes depois.
Foi um contratempo daqueles que acontecem em apresentações ao vivo e que, inevitavelmente, quebram o clima cuidadosamente construído para uma abertura de show. O momento perdeu parte da força que certamente teria se tudo funcionasse desde o primeiro acorde.
Mas Jeff Scott Soto é um veterano de estrada. Longe de se deixar abalar pelo problema técnico, retomou a apresentação com o bom humor e a energia que sempre marcaram sua relação com o público brasileiro. Frequentador assíduo do país há mais de três décadas, Soto parece sentir-se em casa sempre que toca por aqui. Seu carisma continua sendo um diferencial, assim como a descontração no palco — incluindo as já tradicionais caipiroscas que frequentemente aparecem durante suas apresentações em terras brasileiras.
Na sequência veio um clássico absoluto do Journey: "Separate Ways (Worlds Apart)". Embora sua passagem pela banda tenha sido relativamente curta, entre 2006 e 2007, Soto sempre interpretou a música com enorme propriedade. A execução ganhou um ingrediente especial com a participação do excelente vocalista brasileiro BJ, integrante da banda de apoio de Jeff, responsável pelos teclados e backing vocals. A combinação das duas vozes funcionou perfeitamente e foi um dos pontos altos do set.
Em seguida, Soto revisitou sua banda mais emblemática, o Talisman, com "I'll Be Waiting". Curiosamente, uma das maiores composições de sua carreira acabou não encontrando a resposta esperada do público. Em praticamente todos os shows, Jeff costuma transformar o refrão em um enorme coro coletivo, conduzindo a plateia no tradicional trecho: "If you need somebody... call out my name... I'll be waiting... right by your side..."
Desta vez, porém, a interação simplesmente não aconteceu. Ficou evidente que boa parte dos presentes não conhecia a música, fazendo com que Soto rapidamente desistisse da tentativa de dividir os vocais e seguisse normalmente com a apresentação.
Foi um daqueles momentos que evidenciam um desafio inerente a um festival como o Masters of Voices. Reunindo artistas de carreiras tão distintas, é natural que parte do público conheça profundamente alguns repertórios e tenha menos familiaridade com outros.
A viagem pela carreira do cantor prosseguiu com uma homenagem aos tempos em que dividiu os palcos com o virtuoso guitarrista sueco Yngwie Malmsteen. O medley formado por "I Am a Viking" e "I'll See the Light Tonight" trouxe novamente à tona toda a capacidade técnica da banda brasileira, que executou duas das composições mais exigentes do neoclássico com enorme competência.
Até aquele momento, tudo funcionava muito bem. A única escolha de repertório que, na minha opinião, não encontrou espaço dentro do contexto do show foi "Coming Home", do Sons of Apollo.
É importante deixar claro: trata-se de uma excelente música. O problema não está na qualidade da composição, mas sim na ocasião. Em um set relativamente curto, voltado principalmente para grandes clássicos e canções capazes de estabelecer conexão imediata com um público bastante heterogêneo, a faixa acabou esfriando um pouco o andamento da apresentação. Ficou evidente que poucas pessoas conheciam a música, e isso diminuiu consideravelmente a resposta da plateia.
Talvez esse espaço pudesse ter sido ocupado por outro clássico do Talisman, alguma faixa do próprio Journey ou até mesmo por uma música da fase com Yngwie Malmsteen. São escolhas que provavelmente teriam provocado um impacto maior no público presente.
O encerramento, por outro lado, recolocou a apresentação nos trilhos. Jeff fechou seu set com "Stand Up", música eternizada no filme Rock Star (2001). A faixa, atribuída à banda fictícia Steel Dragon e interpretada no longa pelo personagem Chris Cole, vivido por Mark Wahlberg, tornou-se um verdadeiro hino entre os fãs de hard rock desde o lançamento do filme. Era impossível escolher uma despedida mais apropriada.
Mais uma vez, Jeff Scott Soto demonstrou por que é considerado um dos vocalistas mais completos de sua geração. Sua voz permanece extremamente consistente, o carisma continua intacto e sua presença de palco faz parecer que ele está se divertindo tanto quanto o público.
Era a deixa perfeita para a entrada do último vocalista da noite. E, para os fãs brasileiros de metal melódico, talvez aquele fosse o momento mais aguardado do espetáculo.
Edu Falaschi estava prestes a assumir o comando do palco.
EDU FALASCHI
Depois de uma viagem pelo hard rock norte-americano e pelo heavy metal britânico, coube ao único representante brasileiro do evento encerrar a sequência individual de apresentações. E Edu Falaschi fez exatamente aquilo que a maioria dos presentes esperava.
Sempre extremamente comunicativo e bem-humorado, o vocalista entrou no palco saudando o público antes de abrir sua participação com "Acid Rain", primeiro grande sucesso de sua trajetória no Angra e também o cartão de visitas de sua estreia na banda após a difícil missão de substituir o saudoso André Matos.
Passados mais de vinte anos desde o lançamento de Rebirth (2001), impressiona como essas músicas continuam funcionando ao vivo. Não apenas pela qualidade das composições, mas pela identificação que uma geração inteira de fãs criou com esse repertório.
Na sequência vieram "Heroes of Sand", "Millennium Sun" e "Bleeding Heart", formando um verdadeiro desfile de clássicos daquele álbum que, para muitos fãs — entre os quais este que vos escreve —, representa o ponto mais alto da fase de Edu Falaschi no Angra. Entre todas elas, "Bleeding Heart" acabou proporcionando um momento curioso e bastante divertido.
No Brasil, a música ganhou uma vida completamente diferente quando foi regravada em ritmo de forró sob o título "Agora Estou Sofrendo", tornando-se um sucesso muito além do universo do heavy metal. Não foram poucos os presentes que, em tom de brincadeira, cantaram trechos da versão em português durante a execução da música, arrancando sorrisos do próprio Edu e mostrando o tamanho que sua composição alcançou ao longo dos anos.
Naturalmente, Temple of Shadows também não poderia ficar de fora. Representando aquele que é considerado por muitos um dos maiores álbuns da história do metal brasileiro, Edu escolheu "Waiting Silence", mais uma interpretação segura de uma música que permanece entre as favoritas dos fãs.
Um detalhe bastante interessante dessa apresentação era observar quem dividia o palco com Falaschi. No baixo estava Felipe Andreoli, músico que participou das gravações originais de todas essas canções nos álbuns Rebirth e Temple of Shadows. Na guitarra, Marcelo Barbosa, atual integrante do Angra, completava essa curiosa conexão entre passado e presente da banda.
Em tom de brincadeira, pode-se dizer que o "Angraverso" estava “ON” naquela noite. O encerramento veio com chave de ouro através da emocionante "Rebirth".
Enquanto os últimos acordes ecoavam pelo Santo Rock Bar, a Argentina confirmava sua classificação sobre a Suíça e avançava para as semifinais da Copa do Mundo. Mais uma vez, futebol e rock dividiram espaço na mesma noite, mas naquele momento era difícil encontrar alguém prestando mais atenção às televisões do que ao palco.
Edu encerrou sua participação sob fortes aplausos, concluindo uma apresentação que reafirmou por que continua sendo uma das vozes mais respeitadas do heavy metal brasileiro.
O GRANDE ENCONTRO
Se a proposta do Masters of Voices era reunir quatro grandes cantores da história do rock em um mesmo palco, ainda faltava um último capítulo. E ele veio da melhor forma possível.
Com os quatro vocalistas reunidos diante do público, Eric Martin, Tim "Ripper" Owens, Jeff Scott Soto e Edu Falaschi dividiram os vocais em "Living After Midnight", clássico absoluto do Judas Priest. Mais do que uma simples jam de encerramento, aquele momento simbolizava exatamente o espírito da turnê.
Ver artistas que construíram carreiras tão diferentes compartilhando o mesmo palco, trocando sorrisos entre si e demonstrando um respeito mútuo evidente foi um privilégio para quem esteve presente. São encontros raros, daqueles que dificilmente se repetem com a mesma formação.
O tempo frio, nublado e chuvoso de sábado, dia 10 de maio, não deixou as pessoas sossegadas em casa. Muito pelo contrário: as ruas e os comércios estavam tomados por gente comprando, de última hora, o presente das mães para o dia seguinte. Mas, além disso, muitos rumaram ao bairro da Barra Funda para assistir a dois shows. Não, não fui ver o System of a Down, que foi a escolha da maioria. Sendo diferente de todos, optei, é claro, pelo show do Foreigner.
Formada em 1976, com nove álbuns de estúdio e cerca de 80 milhões de discos vendidos, a banda é uma das mais bem-sucedidas da história do rock. Além disso, ajudou a definir o estilo AOR ao lado de nomes como Journey e Toto. Quer mais? Eles também são responsáveis por uma das músicas mais famosas do mundo, “I Want to Know What Love Is”, que, tenho certeza, você já ouviu em algum lugar – numa festa, na rádio ou até no ambiente de uma loja.
A última vez que o Foreigner veio ao Brasil foi em 2013, ou seja, quase 12 anos sem a presença deles por aqui. O Espaço Unimed, local escolhido para essa tão esperada volta, não atingiu sua lotação máxima, mas recebeu um público bem expressivo. Como se trata de uma banda de outra época, arrisco dizer que a maioria das pessoas ali tinha entre 50 e 60 anos. Poucos eram menores de 30 ou estavam por volta dessa idade. Ainda assim, havia gente de todas as gerações na plateia, mostrando que o grupo conseguiu conquistar novos fãs ao longo do tempo. E a grande surpresa da noite foi a participação de Lou Gramm, vocalista original da banda, que se afastou dos palcos por motivos de saúde.
Os vocalistas Eric Martin e Jeff Scott Soto, muito queridos pelos brasileiros, trouxeram o melhor de suas carreiras como uma forma rápida de recarregar as energias antes do grande momento da noite.
Acompanhados por BJ (que fez backing vocal, guitarra e teclado), Leo Mancini (guitarra), Henrique Canale (baixo) e Edu Cominato (bateria) – integrantes do Spektra –, Eric foi o primeiro a reviver alguns dos momentos mais marcantes ao lado do Mr. Big. Começou com a animada “Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song)”, seguida por “Take Cover”, uma faixa mais calma. Esse clima mais introspectivo permaneceu até o final do show, com baladas como “Wild World”, “Shine” e “Green-Tinted Sixties Mind”.
Comparando com a última vez em que vi Eric com o Mr. Big – no último show da banda no Brasil durante o Summer Breeze – ele se saiu melhor desta vez. Naquele momento, achei sua voz abaixo do esperado. Agora, com o apoio do Spektra (como mencionado), ele conseguiu dar um gás extra às músicas. Para Edu Cominato, foi como estar em casa: ele teve a oportunidade de tocar com o Mr. Big nos últimos shows da banda. No geral, foi uma participação agradável e bastante proveitosa.
Se Eric trouxe uma atmosfera mais calma, Jeff Scott Soto foi o oposto. Sua entrada com “This House Is on Fire”, faixa do novo álbum do W.E.T., APEX – lançado em março – deixou todo mundo empolgado. Depois veio “I’ll Be Waiting”, do Talisman, um dos maiores hits dele, que fez todo mundo cantar junto na hora do refrão. Ainda rolou um medley incrível com “Warrior” e “Fool, Fool”, relembrando os tempos em que Jeff fazia parte da banda do guitarrista Axel Rudi Pell.
É impressionante pensar que, quase chegando aos 60 anos, Jeff ainda mantém uma voz impecável. Prova disso foi a clássica “Crazy”, cover de Seal, que mostrou toda sua versatilidade e como consegue encaixar seu talento em diferentes estilos musicais. Depois veio “Alive”, do Sons of Apollo; no entanto, por algum motivo – talvez uma brincadeira – Jeff e seus parceiros do Spektra não conseguiram executá-la após três tentativas frustradas. No lugar dela entrou “Separate Ways”, do Journey.
O encerramento ficou por conta de dois duetos entre Jeff e Eric, cada um cantando uma música marcante de suas carreiras. “Livin' the Life”, que fez parte da trilha sonora do filme Rock Star, chegou a levantar suspeitas de uma participação de Jeff Pilson no palco antes de finalizar com “To Be with You”, sucesso nas rádios e um verdadeiro clássico.
Exatamente às 22h em ponto, sob uma iluminação pulsante, o Foreigner entrou no palco com força total. Começaram com hits dos anos 70: “Double Vision” e “Head Games”, que receberam uma recepção calorosa graças à performance impecável dos músicos, dando para perceber como seria a noite.
Atualmente, ninguém na banda faz parte da formação original. A dupla de guitarristas, contendo Bruce Watson e mais um que não consegui identificar o nome, está entre os pontos altos dessa fase atual, entregando riffs e solos incríveis – até mais pesados e impactantes do que nas versões originais.
E o baixista Jeff Pilson? Conhecido pelos trabalhos com Dokken e Dio, ele foi praticamente o maestro da noite: circulava pelo palco interagindo com os colegas e mostrou ser muito mais do que um excelente baixista, mas também um ótimo pianista. Sua participação em “Cold as Ice”, um dos maiores sucessos da banda nessa noite, foi um bom exemplo disso, fazendo que muitas vozes começassem a se levantar.
Mas quem realmente roubou a cena foi Luis Maldonado, responsável pelos vocais principais nesta turnê devido à impossibilidade de Kelly Hansen sair dos EUA por problemas com visto. E esse cara cantou demais! Foi algo fora do comum.
O setlist seguiu com a famosa “Waiting for a Girl Like You”, trazendo um clima mais romântico e aconchegante naquela noite fria. Depois veio “That Was Yesterday”, com seus teclados marcantes que deixaram todo mundo em transe, preparando o terreno para as divertidas “Dirty White Boy” e “Feels Like the First Time”, que fizeram muita gente dançar.
Em “Urgent”, o palco foi tomado por um espetáculo de luzes vibrantes e explosões de fumaça. Logo em seguida, o tecladista Michael Bluestein e o baterista Chris Frazier assumiram o centro das atenções com seus respectivos solos.
Com a banda completa novamente no palco, “Juke Box Hero” foi a deixa não só para os momentos finais do show, mas também para a entrada do grande convidado da noite. Bastou Lucas pegar mais um microfone e posicionar um pedestal ao seu lado para que o público começasse a chamar por Lou Gramm, e ele apareceu para cantar os versos finais da música.
Ao adentrar no palco, já deu para notar sua dificuldade de locomoção. Sua voz até soou bem, embora distante dos tempos áureos, o que já era de se esperar. Mas só o fato de vê-lo ali, mesmo que por alguns instantes, já fez tudo valer a pena.
“Long, Long Way From Home” foi o pedágio para o grande momento da noite, com a nada menos que “I Want to Know What Love Is”. Vê-la cantada ao vivo pela voz original arrancou prantos da maioria dos presentes. “Hot Blooded” encerrou a apresentação de forma animada.
O show foi uma parte importante da turnê de despedida da banda. É uma decisão compreensível, embora também cause uma certa tristeza, já que foi a última oportunidade de assistir ao vivo aos clássicos que fizeram parte desse espetáculo e que marcaram época. Daqui por diante, só nos resta guardar com carinho essa noite inesquecível na memória e continuar celebrando o legado deles através das músicas que nos conquistaram ao longo do tempo.
Jeff Scott Soto é um dos cantores mais reconhecidos na história do rock nos últimos quarenta anos, número que ilustra sua longa e intensa jornada musical. Embora alguns ainda não consigam identificar seu nome imediatamente, é bem provável que já tenham ouvido sua voz em algum momento, já que ele trabalhou com várias bandas e artistas influentes neste cenário.
Antes de começar sua turnê pelo Brasil ao lado de Eric Martin (Mr. Big), que teve início no último dia 02/05, Jeff bateu um papo com a equipe da Road To Metal sobre diferentes momentos e aspectos de sua trajetória. Prepare-se para uma leitura fascinante e agradável com esse verdadeiro ícone, que consideramos uma lenda viva e um autêntico trabalhador incansável.
Gabriel: Em março, foi lançado o novo álbum do W.E.T., intitulado APEX. Cada lançamento desse projeto é como uma longa espera, mas sempre compensa. Você acha que isso é verdade ou é apenas porque você e os outros estão ocupados com seus trabalhos principais?
JSS: É sempre impressionante perceber o quanto as pessoas realmente gostam do W.E.T. Acho que isso acontece, em parte, por causa do certo mistério que cerca o projeto. Como não fazemos turnês e quase nunca aparecemos juntos em público, fica essa aura de enigma. Isso lembra um pouco os tempos antigos, lá dos anos 70 e 80, quando a música se espalhava sem internet, sem redes sociais e sem essa troca instantânea que temos hoje. Naquela época, as coisas levavam tempo para se divulgar; as pessoas conversavam, comentavam e aquilo ia crescendo aos poucos, de forma natural.
Por essa razão, é surpreendente notar o impacto e o interesse que conquistamos atualmente, mesmo em um ambiente onde a tecnologia predomina e a forma como consumimos música transformou-se de maneira radical. Nós somos um exemplo claro de que ainda é viável desenvolver algo genuíno e espontâneo, sem depender dos métodos de marketing e visibilidade do passado - sem revistas, promoções em larga escala, e assim por diante. No final das contas, somos unicamente nós, artistas que se reúnem para produzir o estilo musical que acreditamos que os ouvintes que realmente adquirem nossos álbuns desejam escutar.
Gabriel: Gostaríamos de saber um pouco sobre como foi o processo de criação deste novo álbum. Como você é o único membro que não mora na Europa, imagino que tudo seja feito de forma remota, ao contrário de estarem todos juntos em um estúdio tocando.
JSS: O procedimento geralmente segue um padrão, começando sempre com Erik Martensson, que é a força criativa e o motor do W.E.T. Parte dessa dinâmica se deve ao fato de que ele é tão ocupado quanto eu, ao passo que Robert (Säll) possui uma rotina um pouco mais leve. Devido a estarmos sempre atarefados em horários diferentes, frequentemente precisamos esperar até que Erik consiga encontrar um espaço em sua agenda para que possamos iniciar o trabalho em um novo álbum do W.E.T.
De certa forma, ele é o organizador principal. Nós costumamos brincar que ele é o "mestre de cerimônias", como aquele indivíduo no picadeiro do circo que dirige toda a apresentação, e é exatamente isso que Erik realiza. Ele é o responsável pela composição, cria as melodias, grava as demos e me envia as faixas antes de eu iniciar a gravação vocal. Além disso, ele produz os álbuns e decide com quem vai colaborar na composição - especialmente nas músicas que não escreve com Robert -, supervisionando absolutamente todos os aspectos. Ele é o ponto inicial e final em todo o processo.
Quando ele me envia uma seleção de faixas, algumas das quais ainda precisam de letras, ele sempre grava uma demo, mesmo que esteja improvisando durante a gravação. Às vezes, ele toca uma música e acaba soltando palavras aleatórias que não fazem sentido, porque essa é a sua maneira de criar melodias. Ele não consegue simplesmente cantar “lá lá lá”, precisa usar palavras reais para moldar o som.
Por isso, frequentemente ele me manda algo como, por exemplo, em uma ocasião, o refrão da demo era "rock me Caroline". E eu pensei: “Como vou escrever uma letra a partir de ‘rock me Caroline’?” Acabei mudando totalmente o tema da canção, mas mantive os mesmos sons vocálicos, transformando em “my heart is on the line”, que possui uma sonoridade semelhante. Utilizo o mesmo ritmo e cadência da melodia que ele enviou, aproveitando alguns elementos, como os sons das vogais. Se ele não me tivesse mandado “rock me Caroline”, talvez eu tivesse escrito, por exemplo, “take it all the way”.
Assim, mesmo quando ele me manda letras improvisadas um tanto descartáveis, muitas vezes encontro inspiração nessas ideias para completar as minhas próprias letras. Isso acontece com várias das faixas que ele já me envia com uma base mais elaborada.
Jessica: Você tem títulos provisórios e engraçados para as músicas também?
JSS: Desde o início da minha trajetória. Recordo, até no estúdio ao lado do Yngwie Malmsteen, que utilizávamos as fitas originais, as conhecidas como "reel to reel". Naqueles tempos, gravávamos em estúdios de verdade, ao contrário de hoje em dia, quando tudo é feito em casa.
Lembro que as caixas das fitas traziam nomes bem peculiares, e às vezes eles colocavam esses títulos estranhos exatamente para que, se alguém encontrasse aquilo depois, não soubesse do que se tratava. Por exemplo, se alguém achasse uma fita e visse "Ah, esses são os rolos originais de Stairway to Heaven", isso poderia causar problemas, então eles usavam esses nomes engraçados para que ninguém prestasse atenção. As pessoas viam e pensavam "Ah, isso não significa nada", e deixavam passar.
Isso sempre ocorreu em todas as bandas em que estive envolvido. Sempre houveram títulos engraçados para as demos ou gravações. Com o Talisman, por exemplo, o Marcel costumava me enviar fitas cassete com demos que vinham com títulos estranhos e divertidos. Com o Sons of Apollo foi a mesma situação. É impressionante como todos acabam adotando essa abordagem similar.
Gabriel: O W.E.T, como muitos já sabem, é um projeto que reúne membros do Work Of Art, Eclipse e do Talisman. Cada uma dessas bandas tem sua própria identidade. É complicado conciliar as particularidades de cada uma durante o processo de composição?
JSS: Primeiramente, essa ideia surgiu pela gravadora. O W.E.T é, essencialmente, um projeto que foi criado e gerido pela gravadora. Quando fomos reunidos, ficou a nosso cargo desenvolver o estilo musical e compor as faixas, mas a criação do W.E.T foi uma escolha da gravadora, que foi responsável por montar o projeto.
Conforme começamos, muitas pessoas começaram a ouvir e comprar nossas músicas, e naturalmente fomos formando nosso próprio público. Portanto, é lógico que queremos fornecer exatamente o que eles esperam de nós. Não temos intenção de fazer mudanças radicais; não pretendemos lançar um álbum de disco music na próxima vez, ou um de jazz. Temos consciência do estilo musical que os fãs do W.E.T aguardam e desejam ouvir, por isso tentamos não nos desviar muito da fórmula original que seguimos desde o início.
Entretanto, é compreensível que queiramos demonstrar desenvolvimento, sem nos repetir. Como não somos uma banda que está constantemente em turnê ou convivendo uns com os outros diariamente, também desejamos apresentar que há outras vertentes que podemos explorar dentro do que já estabelecemos, sem fazer mudanças drásticas, mas trazendo algo inovador.
Gabriel: O baterista Jamie Borger, que já trabalhou com você no Talisman e na sua carreira solo, além de ter feito parte do Treat, é novidade deste quinto trabalho. Como foi o processo para convidá-lo a se juntar a vocês?
JSS: Eu não estive envolvido de jeito nenhum, o que foi bastante peculiar. Descobri apenas na última hora. Quando Erik me manda as faixas para eu iniciar a gravação dos meus vocais, sempre são as versões demo dele. Ele registra todas as canções em seu estúdio, utilizando bateria programada. Não é como era antes; atualmente, temos tecnologia avançada, com bateristas reais gravando em estúdios, permitindo que você capture partes da performance deles e monte uma canção, depois podendo substituir por batidas reais.
Dessa forma, todas as faixas que gravei contavam com essas baterias de estúdio. Após isso, fiquei um bom tempo sem receber notícias do Erik. Eu tinha conhecimento de que ele estava fazendo a mixagem do álbum e trabalhando em videoclipes... até que, subitamente, recebo uma mensagem: "Quero que você ouça o álbum, já foi mixado. Me avise se quiser fazer alguma alteração ou ajustar algo."
Na segunda faixa, enquanto escutava, pensei: "Espera... esse não é o Robban. Não é o nosso baterista habitual no W.E.T." Imediatamente escrevi para o Erik: "Cara, essa não é a bateria do Robban." E ele respondeu: "Você está certo. Dou duas chances para você adivinhar." Mas eu precisei de apenas uma: "É o Jamie Borger." Reconheci na hora.
Tenho uma relação com o Jamie há muitos anos. Durante meus projetos solo, já compusemos juntos. Conheço bem seu estilo, sei como ele toca, como ele bate na bateria. Há algo muito particular na maneira como o Jamie toca; não consigo explicar exatamente, mas sabia que era ele. E então veio a surpresa: Jamie gravou todas as baterias do álbum. Eles não quiseram me informar até que tudo estivesse completo.
Jessica: Quero falar um pouco sobre a sua carreira como um todo. Muitos fãs ainda comentam sobre o álbum Eyes, de 1990. Aquele disco tinha um som cru, de hard rock. Por que só foi lançado um único álbum com esse projeto? Sempre foi pensado para ser algo pontual ou houve oportunidades perdidas no caminho?
JSS: Lamentavelmente, meu percurso profissional tem seguido um padrão similar. Vários projetos resultaram em apenas um ou dois álbuns, e então eu partia para novas jornadas. Isso se aplicou a quase todas as bandas com as quais colaborei — Eyes, Talisman, Soto, Sons of Apollo. Sempre que me uno a um grupo, me dedico por completo como vocalista, acreditando que essa será a minha banda final. Minha aspiração sempre foi levar o projeto adiante.
Contudo, ao longo dos anos, as coisas nem sempre ocorreram dessa maneira. Por exemplo, durante meu tempo com o Eyes, surgiram desavenças internas, não entre os membros da banda, mas relacionadas a negócios. Havia dificuldades com a gravadora e com a administração. Começamos a perceber que talvez aquilo não funcionasse. Você grava um álbum, sente que fez um bom trabalho, e acredita que será um sucesso, que o público vai recebê-lo bem. E quando isso não ocorre, você se questiona: 'Deveríamos fazer outro? Ou devemos seguir adiante?' Então, a gravadora aparece e diz: 'Não estamos mais interessados'. Aí você precisa buscar um novo contrato, persuadir outros a investir... há muitos desafios nesse caminho.
Há diversos elementos que afetam a permanência de uma banda. E naquele período, as coisas eram ainda mais complicadas, pois havia um modelo bastante rígido sobre como as operações deveriam ocorrer - do ponto A ao ponto Z. Muitas bandas, incluindo aquelas em que estive, nem chegavam aos pontos C ou D.
Em relação ao álbum do Eyes, a intenção era, sim, continuar e produzir mais. Contudo, logo depois gravei meu primeiro disco com o Talisman, e esse projeto me parecia mais estável, algo que realmente queria investir. Se o Eyes tivesse alcançado o sucesso, provavelmente eu teria permanecido com eles. Mas, como isso não aconteceu, optei por seguir em frente com o Talisman.
Jessica: Creio que agora seria um grande sucesso, pois é um disco bastante subestimado e há pessoas que apreciam ele.
JSS: Estou de acordo com você, eu também sou fã desse álbum. Dedicamos muito esforço e energia àquela produção. Nós mesmos cuidamos da produção do disco, mesmo que os créditos indiquem outra pessoa como responsável. Tudo que está nele foi feito por nós. Todos os vocais de apoio... eu contratei pessoas para ajudar a sobrepor as vozes, e a própria banda também contribuiu. Foi um processo espetacular, repleto de empenho e amor.
Infelizmente, não recebemos o suporte adequado da gravadora, nem contávamos com as pessoas certas para promover o álbum. Ele poderia ter sido comparado a outras bandas da época que estavam se destacando, mas isso não aconteceu. Não conseguimos realizar turnês devido à falta de apoio suficiente. Muitos pequenos fatores, quando somados, acabaram pesando bastante. E isso é uma das razões pelas quais não conseguimos continuar juntos da maneira que desejávamos, dadas as condições que tínhamos naquela época.
Jessica: E como você organiza seu processo de composição entre os diferentes projetos? O que te faz decidir se uma canção será destinada à sua carreira solo, ao W.E.T. ou ao Sons of Apollo? E como você mantém a identidade distinta de cada projeto, evitando que eles soem muito semelhantes entre si?
JSS: Para começar, eu normalmente não compus só por compor. Não sou o tipo de pessoa que se senta no quarto, entediado, para tocar violão ou teclado apenas para ver o que surge. Nunca escrevo músicas sem um motivo, sempre há uma finalidade clara para o que estou criando. Se estou trabalhando em uma canção, é porque ela possui um propósito específico, seja para um disco, um projeto, ou algo que estamos desenvolvendo no momento. Essa é, inclusive, a maneira mais simples de saber para onde aquela canção será direcionada: "estamos criando para este disco".
A única exceção a essa regra foi o primeiro álbum do Ellefson-Soto (anteriormente conhecido como E.E.S.). Naquela situação, foi o David que iniciou o processo. Ele estava colaborando com vários músicos ao redor do mundo e criando demos com diversos vocalistas, apenas para ter um repertório de músicas. Algo como: "Ah, essa faixa combina com esta banda, essa outra poderia funcionar com uma diferente, e essa aqui talvez eu reserve para um álbum solo meu." Esse era o seu modo de trabalhar.
Durante o período da pandemia, ele me contratou para interpretar uma dessas canções. Ele ficou tão satisfeito com o resultado que me convidou para gravar uma segunda. Daí, passou a ser três, quatro... até sete canções. Foi nesse momento que eu comentei: 'Ei, economize seu dinheiro. Para mim, é um privilégio e uma alegria compor e criar músicas com você. Continue me enviando as faixas, estou contente em participar'. Afinal, estávamos todos confinados em casa, sem expectativa de sair em breve. Assim surgiu o primeiro álbum, quando percebemos que já tínhamos a quantidade necessária para um disco inteiro.
Ele começou a ouvir as faixas e afirmou: 'Não quero que mais ninguém grave isso. Acredito que deveríamos lançar essas músicas como nossas'. Sentimos que havia algo especial ali, algo que merecia ser escutado com a nossa própria identidade, e não apenas como um material para outros artistas regravarem.
Agora, ao trabalhar no novo álbum, a abordagem mudou. Já sabemos como é colaborar juntos, então estamos focando em criar algo com a intenção clara de ser nosso, e não apenas músicas aleatórias que poderiam se encaixar em qualquer projeto.
Jessica: E você costuma ouvir música no seu tempo livre em casa? O que você gosta de ouvir e o que mais te inspira na hora de criar suas próprias músicas?
JSS: Muito, muito, muito raramente eu consigo encontrar tempo para escutar outras músicas. Geralmente acontece por acaso, quando estou dirigindo ou se escuto algo novo enquanto algum amigo me apresenta uma canção. No entanto, em casa, sozinho, fica bastante complicado. Estou sempre tão envolvido trabalhando em meu próximo projeto, e em seguida em outro, e em mais um... Se não estou no estúdio gravando algo, é porque terminei de gravar e já me preparo para a próxima gravação.
Portanto, de fato, não consigo ouvir outras músicas, sejam lançamentos recentes ou clássicos. Estou sempre com agenda cheia. É um “problema” interessante, sem dúvida, mas às vezes reflito se estou deixando de descobrir novas músicas e inspirações. Por outro lado, não sinto que estou perdendo tanto, pois continuo criando e trabalhando constantemente.
Jessica: Isso é fantástico! Você teve a oportunidade de colaborar com muitos músicos icônicos ao longo dos anos. Existe alguém com quem ainda não trabalhou, mas que gostaria de trabalhar?
JSS: Tenho uma lista grande de artistas com quem adoraria colaborar. Já mencionei isso em várias entrevistas, e tenho certeza de que ele já ouviu falar a respeito, mas não sei o que está impedindo. O Nuno Bittencourt é um dos meus guitarristas e compositores preferidos. Admiro o estilo dele, a energia que ele traz para suas canções. Gosto daquele ritmo, daquele toque funk e meio soul que ele insere em suas músicas. Imaginar nós dois escrevendo uma canção juntos seria algo que eu adoraria ver realizar-se. O Nuno é definitivamente um artista com quem eu quero fazer algo. Brian May também está nesta lista. Existem vários outros artistas com quem eu também gostaria de ter a chance de colaborar.
Jessica: Apoio totalmente essa ideia de trabalhar com o Nuno, seria realmente extraordinário. E com a popularização das plataformas de streaming, de que maneira você vê isso alterando sua relação com os fãs? Você sente que está mais próximo deles ou que houve uma mudança na sua interação de alguma forma?
JSS: É curioso que, antes de toda essa situação, eu me sentia mais próximo dos fãs. Eu costumava responder cartas que recebia, mantinha trocas de mensagens com muitos fãs ao longo do tempo. Hoje, com tudo se tornando tão acessível, eu acabaria passando o dia todo apenas respondendo mensagens, o que tornou isso inviável. Não é possível estar conectado com todos a cada hora, todo o dia, toda semana.
Portanto, eu seleciono meus momentos. Ocasionalmente, eu entro, interajo um pouco e depois me retiro. Percebi que, ao responder uma ou duas pessoas, as demais podem se sentir deixadas de lado. Então, surge aquele pensamento: "Que bobo, ele não me respondeu, por que respondeu àquela pessoa?" Não desejo que ninguém tenha a impressão de que estou favorecendo alguns em detrimento de outros.
Assim, atualmente, busco adotar uma postura mais reservada. Faço minhas publicações e deixo as coisas seguirem seu curso.
Jessica: Sim, considero que isso é uma decisão sábia.
JSS: Existe uma quantidade significativa de negatividade por aí, então é fundamental cuidar do que você expressa. Qualquer coisa que você diz pode se transformar em um título chamativo, algo que atrai cliques. A experiência de dar entrevistas atualmente é complicada, pois, como mencionei, você pode encerrar esse diálogo e, em cinco minutos, já pode haver uma manchete circulando, transformando uma simples afirmação em uma controvérsia ou escândalo.
É desgastante ter que considerar a maneira de comunicar o que você deseja, evitando comentários que possam comprometer você futuramente (risos).
Jessica: Exato, e é vital que você esteja equilibrado mentalmente, pois, se você se expõe a muitos comentários negativos, isso pode influenciar seu bem-estar. Então, no final das contas, muitas vezes não compensa.
JSS: Estou de acordo!
E como você se prepara para uma turnê? Você segue algum tipo de rotina vocal ou treinamento específico que ajude a manter sua voz em boas condições? Eu soube que você fará três apresentações no cruzeiro Monsters of Rock Cruise no ano que vem, em três dias consecutivos com três bandas distintas!
JSS: Três bandas diferentes farão duas apresentações cada, e como o cruzeiro terá uma duração de cinco dias, eu vou tocar em seis shows durante esse período. Sim, isso vai ser cansativo (risos), mas foi uma escolha minha. Neste ano, estou completando 60 anos, e quando eu estiver no navio, planejo celebrar meu aniversário com uma festa prolongada à bordo. Para mim, a única maneira de fazer isso é no palco, junto aos meus amigos. Então, eu avisei a eles: coloquem-me em quantos shows quiserem, porque quero transformar isso em minha festa pessoal.
Jessica: Isso é incrível. Será uma grande celebração (risos)
JSS: E será espetacular, pois os integrantes da banda Soto serão os músicos de apoio para o Ellefson e o Ellefson-Soto. Assim, eu sinto que estou tendo o melhor dos dois mundos, usando minha própria banda para tocar as músicas com o David, e ainda faremos o show do Soto, que é independente de tudo mais. Portanto, isso está fantástico. Estou realmente ansioso por isso!
Jessica: E como você cuida de si mesmo em uma situação como essa?
JSS: Descansando o máximo possível. É necessário reconhecer quando é hora de se calar, sabendo que, após o show, toda aquela conversa pode impactar negativamente o dia seguinte. Obviamente, é melhor evitar álcool, cigarro e drogas... Manter distância de tudo isso, especialmente durante a turnê e com várias noites de performances consecutivas. Não uso drogas e não fumo, mas, em geral, faço um esforço para beber menos, dormir cedo, me manter hidratado e falar o mínimo possível. E, claro, realizo meus exercícios vocais antes e depois do show. Muitas pessoas não percebem, mas, além de aquecer a voz previamente, é necessário também deixá-la descansar depois.
JSS: Não consigo acreditar que você está prestes a completar 60 anos, já que sua voz é tão boa que nem parece que você tem essa idade.
JSS: Estou me aguentando, realmente me segurando (risos).
Percebo que já não tenho a mesma energia no palco como nos meus vinte, trinta e até quarenta anos, mas continuo firme, segurando firme! E sim, minha voz já não é a mesma, não consigo fazer todas aquelas performances radicais. O Sons of Apollo, por exemplo, foi uma das primeiras tentativas concretas de demonstrar essa transformação, indicando que estou ajustando onde estou cantando.
Procuro evitar iniciar uma canção em um tom muito alto, pois, se você começa lá no topo, só tem como descer. Agora, se você começa em um tom mais baixo, ainda consegue elevar quando necessário, e isso ainda é possível. Contudo, você não precisa permanecer sempre no máximo, pode fazer variações, o que contribui para uma maior durabilidade em turnês e para cantar essas músicas ao vivo.
Certamente, tenho isso em mente enquanto envelheço. Seria insensato gravar faixas que não conseguiria apresentar ao vivo, apenas porque sou capaz de gravá-las no estúdio.
Gabriel: Em maio, você estará em diversas localidades no Brasil acompanhando Eric Martin (N.T.: a turnê começou no dia 02/05). Ao contrário das ocasiões passadas, você realizará um espetáculo que se concentrará totalmente na sua trajetória, que celebra quatro décadas. O que podemos prever desses shows?
JSS: Na verdade, eu já passei por isso no ano anterior. Realizei apresentações em algumas cidades brasileiras, mas não em São Paulo. Este foi, na verdade, o único lugar onde não consegui apresentar o espetáculo de 40 anos de carreira, porque fui escalado para o festival Summer Breeze, que exigia um repertório bem distinto do que eu estava tocando no restante da turnê. Por isso, preparei um setlist especial apenas para aquele evento.
Além disso, fiz uma apresentação em São Paulo, mas foi um tributo ao Queen, ou uma performance acústica, sempre trazendo algo diferente do que eu costumava apresentar por toda a América do Sul. Assim, este ano, ao conversar com Eric sobre a possibilidade de fazermos esse show juntos, a ideia foi realmente essa: já que seria uma celebração de nossas carreiras, escolhemos as faixas mais impactantes, aquelas que sabemos que o público anseia escutar. E foi exatamente isso que fiz: selecionei várias canções do repertório do ano passado e adicionei uma nova, aquela que você estava quase cantando antes, Gabriel, mas ainda não quero revelar qual é.
Quando anunciamos os shows com Eric, ficou evidente que em algumas dessas apresentações, especialmente as que realizaremos juntos, haverá uma quantidade menor de músicas do JSS e do Eric em comparação a um show solo completo de cada um. Foi nessa ocasião que recebi o convite para realizar meu próprio espetáculo de 40 anos do JSS no Manifesto.
Recebi a confirmação hoje, e quero dividir essa novidade com você em primeira mão: será o último espetáculo do atual Manifesto em São Paulo. Esse local possui uma rica história, muitos artistas notáveis já se apresentaram lá. E eu serei o último a subir ao palco antes da mudança para um novo espaço. Estou extremamente animado por finalmente levar o show de 40 anos para São Paulo, assim como para as outras cidades onde estaremos com Eric Martin.
Gabriel: Um dos momentos altos desta próxima turnê será o show que vocês dois realizarão com o Foreigner, uma banda icônica e pioneira do Melodic Rock e AOR. Esta será mais uma grande realização na sua carreira de sucesso, especialmente pelo fato de que você deve ter crescido ouvindo suas músicas. Quais são suas expectativas para essa ocasião tão especial?
JSS: Eu não carrego nenhuma expectativa, pois estarei ao lado do palco, cantando cada uma das músicas e simplesmente desfrutando. Estarei tão próximo de Lou Gramm, que é um verdadeiro ícone para mim tanto como vocalista quanto compositor. Tudo o que ele produziu em sua carreira e repertório ressoa em mim desde a minha infância.
No início do meu interesse pelo Hard Rock, esse gênero não me atraía. Eu não apreciava Heavy Metal. Durante minha juventude, meu foco musical era em R&B, Earth, Wind & Fire, Motown, Sam Cooke… Mas então surgiram artistas como Bobby Kimball, do Toto, Lou Gramm, do Foreigner, e Steve Perry, do Journey. É possível notar que eles também foram influenciados pelas mesmas músicas que eu ouvia, mas conseguiram colocar suas vozes em uma nova dimensão dentro do Hard Rock.
Faixas como Double Vision, Hot Blooded representavam o verdadeiro rock, algo que eu não costumava ouvir. No entanto, ao ouvir esses cantores, com seu “soul branco”, sua essência ao cantar rock, isso me abriu portas para Judas Priest, Iron Maiden e muitas outras bandas que vieram depois. Bandas como Toto, Journey e Queen me mostraram que é possível incorporar um estilo de canto diferente no Rock e criar algo inovador.
Estou super animado, porque de todas as maneiras possíveis, é realmente uma forma maravilhosa de fazer esse show. Estar ao lado desses caras, tocar com Eric e Spektra, que são meus irmãos há mais de duas décadas, vai ser um verdadeiro sonho realizado. Junto de meus irmãos, vendo um dos cantores mais icônicos que já conheci, cantando todas essas músicas e observando o público brasileiro, que é incrível. Tenho certeza de que será uma noite memorável; eu já sinto isso agora.
Gabriel: Sua ligação com o Brasil, reforçada pela colaboração com Carlos Chiaroni e a Animal Records, remonta a mais de vinte anos. Os fãs brasileiros sempre o acolheram com muito amor. Você acreditaria que essa relação teve um efeito profundo em sua vida pessoal ou profissional?
JSS: Com certeza, mil por cento sim. E lembrando do Carlos Chiaroni em 2002, ele foi o primeiro a me contatar e queria que eu fosse atuar no Brasil. Me lembro que eram duas apresentações, e eu pensava: ‘Bem, isso pode ser muito divertido, já que nunca estive no Brasil e não sei nada sobre o país ou sua cultura...’ Ouvi muitas coisas negativas. Naquela época, haviam tantas histórias ruins que me diziam: ‘sempre peça o pagamento adiantado’, ‘não ande sozinho’, ‘tenha alguém do seu lado’. Muitas preocupações começaram a me atormentar em relação à minha primeira viagem ao Brasil. Isso me causou um certo receio.
Na segunda parte, vinha o pensamento: ‘e se forem me enganar?’, ‘e se eu chegar lá e disserem: ‘ah, não podemos te pagar agora, vamos pagar quando você chegar’, ‘pagaremos após o show’, ‘pagaremos no caminho para o aeroporto’...’ Esses pensamentos ficavam me rondando, pois era isso que me diziam. Então, fui com um certo receio, sempre com um pé atrás, até perceber quem era Carlos, até conhecer BJ, Edu e todos aqueles que se tornaram minha família para a vida toda.
Minha primeira experiência no Brasil foi de um estado de ansiedade e receio, sempre olhando por trás, para então se transformar na sensação de ‘me sinto em casa’. Definitivamente, meus sentimentos e minha relação com o Brasil e com o povo brasileiro começaram naquele momento, e desde então só cresceram, como uma vasta floresta amazônica.
Jessica: As pessoas por aqui comentam que você deveria ter uma espécie de identidade brasileira (risos).
JSS: Estou me esforçando para isso (risos).
Jessica: Você deverá receber uma em breve. E eu gostaria de fazer uma pergunta, você mencionou o setlist, mas não sei se pode divulgar isso. Você vai tocar algo do Lost in the Translation?
JSS: É interessante que você pergunte isso, pois do lado do Eric Martin, a cada ano desde que este álbum foi lançado - e sempre que vou ao Brasil - eu executo a canção Soul Divine, porque realmente a aprecio muito. Eu costumava tocar Eyes of Love com frequência. Também tocávamos bastante Drowning.
Atualmente, como preciso eliminar algumas faixas, uma vez que meu setlist será reduzido, eu reflito: 'Ah, preciso tocar essa, e também essa, essa eu toco todos os anos... talvez devêssemos variar um pouco'. Mas estou considerando que talvez ela (Soul Divine) precise retornar ao set. Ainda não decidi, vou definir isso apenas quando chegarmos aos ensaios e perceber a vibe do setlist.
Jessica: Bom, eu sou fã desse álbum e também gosto muito do Prism, então qualquer canção dele seria incrível!
JSS: É uma escolha complicada, porque se você explorar demais o catálogo, pode acabar deixando de fora algumas faixas que são essenciais. Muitos esperam ouvir Look Inside Your Heart ou Believe in Me, mas não consigo incluir todas essas e ainda tocar Yngwie Malmsteen, Talisman, W.E.T. e Sons of Apollo. Se eu começo a pensar 'vou adicionar essa', então preciso remover outra. Portanto, é necessário ser muito cuidadoso ao formular um setlist. No entanto, ao mesmo tempo, é preciso assegurar que você está oferecendo ao público o que eles desejam ouvir.
Jessica: Você acha que "Believe In Me" é uma daquelas faixas que pode estar um pouco desafiadora para você no momento, ou você se sente tranquilo em relação a isso?
JSS: Durante uma apresentação ao vivo, há ocasiões em que, se eu não tiver descansado o suficiente ou se minha voz estiver um pouco comprometida... Porque, no palco, você só tem uma oportunidade para se apresentar corretamente, e se não fizer isso, seu erro ficará registrado na internet para sempre. Portanto, sou cauteloso ao interpretar essa e outras faixas semelhantes, caso não me sinta seguro e à vontade para isso. Se eu estivesse cantando para você agora, não teria dificuldades.
Contudo, durante as turnês, enfrentamos a falta de sono, as viagens, o cansaço, e tudo isso pode afetar o desempenho. Então, acabo adotando uma abordagem parecida com a de Freddie Mercury: se estiver em uma performance e perceber que não atingirei a nota desejada, procuro outras alternativas que se encaixem na música e sigo em frente.
Jessica: Por que você não entrega o microfone ao público e deixa que a gente cante 'Believe In Me' (risos)?
JSS: Só gosto de fazer isso quando tenho certeza de que eles realmente estão cantando (risos). Quando tocamos "I'll Be Waiting", deixo que eles assumam o vocal. É mais simples para mim cantar, mas o que eu quero mesmo é ouvir a audiência participando, pois é uma daquelas experiências que todos os artistas sonham quando são jovens: esperar pelo momento em que o público canta suas letras. É claro que valorizo esses momentos.
Jessica: Bom, estarei presente no show em São Paulo e vou tentar ficar na primeira fila, então pode contar comigo.
JSS: Incrível!
Jessica: Após tantos anos na estrada, o que você descobriu sobre si mesmo que te surpreendeu?
JSS: O que me choca é que ainda consigo cantar após todos esses anos (risos). Isso realmente é uma verdade, mas estou fazendo uma brincadeira. A vida na estrada pode ser desgastante, e a idade realmente vai afetando as coisas, tornando um pouco mais desafiador realizar algumas atividades. Quando há um peso constante que está te puxando para baixo e você tenta levantá-lo, eventualmente começa a ficar difícil. Portanto, como você sabe, estou quase completando 60 anos e ainda consigo fazer tudo o que quero. Isso é fantástico.
Jessica: E você já mencionou que raramente consegue encontrar tempo livre porque está sempre ocupado, mas além da música, o que mais te apaixonam ou quais são seus passatempos? Eu sei que temos algo em comum, pois sou fã dos Lakers, mas não sei se você consegue acompanhar os jogos ou se tem ido às partidas.
JSS: Eu realmente não disponho de tempo para assistir aos jogos e, sendo honesto, quando o Kobe ainda estava vivo e atuando, eu me esforçava mais para vê-lo ao vivo. Desde então, os Lakers têm estado um pouco irregular e, embora eu continue sendo um torcedor de coração, não vou me forçar a pagar preços exorbitantes para vê-los perder. Então, eu confio bastante no meu time e na minha cidade, mas, em certas situações, essa confiança não é suficiente para me motivar a gastar meu dinheiro arduamente ganho (risos).
Jessica: Com certeza, é bastante caro, especialmente agora que temos o LeBron e o Luka, e eu percebi que os ingressos estão com preços altíssimos.
JSS: E o mesmo pensamento se aplica para os shows. Acho uma loucura como estão cobrando das pessoas. Isso é apenas um ingresso normal, e ainda existe a opção VIP. Acaba-se gastando tanto dinheiro apenas para tirar uma foto com o artista favorito. Para ser sincero, isso é algo que nunca me deixou à vontade. Sempre estive muito próximo do meu público e das pessoas que acompanham minha carreira. Para mim, é estranho pedir que elas paguem para me dizer "oi". Isso parece um pouco esquisito.
Jessica: Tem algo que a Lady Gaga disse antes que é engraçado, que a gente paga pelos ingressos antes de você cantar. Então, como você vai fazer isso valer a pena? Ela disse que é tão estranho que a gente pague antes de você cantar.
JSS: Tenho sentimentos mistos sobre isso e entendo o ponto de vista, porque, claro, cada um tem seu tempo pessoal. Quando estamos em turnê, aquele espaço de tempo só para a gente é muito valioso. Às vezes, só quero relaxar, ficar tranquilo, sem precisar conversar. Mas aí vem o som, os encontros com fãs, os convidados, o show, depois o meet and greet...
É muita coisa, especialmente para um cantor. Como mencionei antes, há o aquecimento e o desaquecimento, além de todas essas atividades acontecendo ao mesmo tempo. É difícil conseguir um tempinho para si nesse ritmo todo. Então, entendo que, se os fãs querem ter a chance de te conhecer, tirar fotos, conversar e tudo mais, eles precisam pagar por isso, porque estão ocupando esse pouco tempo que você tem. Acho que é assim que os artistas veem a situação: ao oferecer esse momento aos fãs, eles estão usando parte do tempo limitado deles e, por isso, cobram por isso. Essa é a percepção comum.
Jessica: Então, por último, mas não menos importante, quais são seus três álbuns favoritos do Queen?"
JSS: Essa é a pergunta mais fácil que você pode me fazer! Não em nenhuma ordem, não está em ordem, porque são os três principais. O primeiro ou o terceiro poderia facilmente ser o primeiro. Innuendo, Queen II e A Night at the Opera.
Jessica: Uau! Innuendo? Isso é incrível!
JSS: Não vejo Made in Heaven como um álbum do Queen. Para mim, foi mais uma forma de homenagear o Freddie depois que ele faleceu. As músicas que eles fizeram ali parecem mais coisas que estavam sendo feitas só por fazer, como conversamos antes, tipo: Me entreguem as músicas que eu vou continuar cantando, vou seguir fazendo meu trabalho até o fim. Para mim, aquilo não teve a mesma essência. Já em Innuendo, dava pra perceber em cada faixa que eles estavam voltando às raízes, fazendo uma espécie de retorno ao que fizeram no passado. Era tudo o que amávamos no Queen: uma mistura do começo, do meio e do final com um toque moderno. Foi isso que me encantou naquele álbum. Pra mim, foi uma espécie de encerramento perfeito. E "The Show Must Go On" é, na minha opinião, a maneira ideal de dizer adeus.