No último domingo, 8 de fevereiro de 2026, o Carioca Club, em São Paulo, viveu uma noite de forte carga emocional e musical com a apresentação do Weather Systems, projeto liderado por Daniel “Danny” Cavanagh — figura seminal do rock progressivo e ex-membro fundador do Anathema. O nome do projeto, inclusive, remete a um dos álbuns mais celebrados da agora extinta banda inglesa.
A expectativa era grande em torno do que Danny apresentaria. Ainda que prometesse revisitar clássicos do Anathema, tratava-se de um novo capítulo artístico sob outra identidade.
O show funcionou essencialmente como uma revisitação sensível à trajetória do Anathema, cuja sonoridade melancólica, atmosférica e emocional marcou gerações ao longo das últimas décadas. Cavanagh conduziu a noite com um repertório que mesclou clássicos da antiga banda com faixas do álbum de estreia do Weather Systems, ainda pouco conhecido pela maioria do público presente.
Apesar de o Carioca Club não ter atingido lotação máxima, a plateia era formada majoritariamente por fãs dedicados, criando um clima íntimo e atento. O silêncio respeitoso nos momentos contemplativos e a força dos coros nas passagens emotivas tornaram-se marcas evidentes da apresentação.
Com um pequeno atraso, Daniel subiu ao palco sozinho, empunhando apenas o celular, ao som de “All Eyes on Me”, de Bo Burnham. Cantando o refrão, pegou a guitarra e iniciou o espetáculo com a poderosa “Deep”, do Anathema — imediatamente entoada em coro, com alguns fãs visivelmente emocionados.
Cavanagh estava acompanhado por músicos competentes que em nada ficaram a dever à antiga banda: os portugueses André Marinho (baixo) e Soraia Silva (vocais), além do ex-companheiro de Anathema Daniel Cardoso (bateria). Ao fim da primeira música, Danny comentou, com bom humor, que a comunicação com o público seria feita principalmente pelos colegas portugueses, já que seu português era “péssimo”. Coube à simpática Soraia abrir oficialmente a noite com um caloroso “Boa noite, São Paulo!”.
Na sequência, Daniel explicou que revisitaria diversos momentos da carreira do Anathema — músicas que ele próprio compôs —, mas antes apresentaria canções do novo projeto. Vieram então “Still Lake”, “Synaesthesia” e “Do Angels Sing Like Rain?”, confirmando que o show não seria apenas um retrato nostálgico, mas uma continuação viva de seu legado artístico.
A partir daí, a nostalgia tomou conta. Clássicos aguardados como “Springfield” e “One Last Goodbye” emocionaram profundamente. Esta última foi dedicada à mãe do músico e a todos que sentem falta de alguém, momento em que Daniel, visivelmente comovido, encerrou com um tocante “I love you, Mom”.
Com formação enxuta e apoio pontual de bases pré-gravadas, a banda demonstrou grande sintonia. Soraia Silva destacou-se especialmente nos duetos e nas passagens mais delicadas. “A Simple Mistake” e “Closer” ampliaram a comoção coletiva, enquanto “Ocean Without a Shore”, do Weather Systems, trouxe breve respiro antes de um dos ápices da noite.
Em “Flying”, um dos maiores clássicos do Anathema, o público cantou em uníssono, reforçando a intensa conexão emocional entre palco e plateia. Não houve a tradicional pausa para bis — desnecessária diante da comunhão já estabelecida.
Daniel então anunciou a execução da trilogia “Untouchable” (Partes 1, 2 e 3), sendo a terceira oriunda do novo projeto. Era um dos momentos mais aguardados da noite. A delicadeza das canções tomou conta do ambiente: abraços, lágrimas e vozes unidas traduziram o impacto emocional. Em gesto espontâneo, Soraia desceu do palco e cantou no meio do público, abraçando fãs — um instante raro, daqueles que apenas a música é capaz de proporcionar.
Na sequência, veio a surpresa: um cover de “Wherever I May Roam”, do Metallica, com André Marinho assumindo os vocais e incorporando com precisão a postura de James Hetfield. O timbre de guitarra de Danny, próximo ao do Black Album, evidenciou a versatilidade do grupo.
O encerramento trouxe “A Natural Disaster” e “Fragile Dreams”, talvez o maior hino do Anathema, fechando a apresentação com intensidade máxima.
Após agradecer ao público e prometer retorno a São Paulo no próximo ano, Daniel sentou-se à beira do palco para autografar discos e cumprimentar fãs que estavam próximos à grade.
Em síntese, a noite de 8 de fevereiro de 2026 transcendeu o formato convencional de show. Foi um encontro emocional entre artista e público devoto, além de uma celebração de legado. A passagem do Weather Systems por São Paulo reafirmou a força da música que ajudou a moldar o rock atmosférico moderno — não apenas como memória nostálgica, mas como continuidade viva, capaz de dialogar tanto com quem cresceu ao som do Anathema quanto com novas gerações que descobrem essas canções sob novas formas.
Texto: Anderson Bellini
Fotos: Pri Secco
Edição/Revisão: Gabriel Arruda
Realização: Caveira Velha Produções
Weather Systems – setlist:
Deep
Still Lake
Synaesthesia
Do Angels Sing Like Rain?
Springfield
One Last Goodbye
Closer
A Simple Mistake
Ocean Without a Shore
Flying
Untouchable, Part 1
Untouchable, Part 2
Untouchable Part 3
Wherever I May Roam (Metallica cover)
A Natural Disaster
Fragile Dreams

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