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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Cobertura de Show: Vltimas & Hate – 02/10/2025 – Burning House/SP

A Burning House, um dos redutos mais fiéis do metal underground em São Paulo, serviu um verdadeiro banquete para os fãs de metal extremo. No cardápio estavam os poloneses do Hate e o supergrupo Vltimas, que fez sua aguardada estreia em solo brasileiro. O evento reuniu admiradores sedentos por brutalidade em plena quarta-feira (02/10), para uma noite de peso e intensidade.

O Hate abriu a noite com uma apresentação que evidenciou por que é um dos nomes mais consistentes do death/black metal atual. Com o line-up formado por Adam “ATF Sinner” Buszko (vocal e guitarra), Dominik “Domin” Prykiel (guitarra), Tomasz “Tiermes” Sadlak (baixo) e Daniel “Nar-Sil” Rutkowski (bateria), os poloneses transformaram o palco em um altar de fúria e destruição. O som se manteve consistente e denso, sem espaço para distrações — tudo soava como uma máquina perfeitamente sincronizada.

O setlist percorreu diversas fases da banda, abrindo com “Sovereign Sanctity” e “Erebos”, que incendiaram o público logo nos primeiros acordes. Entre destaques como “Bellum Regiis”, “Rugia” e “Iphigenia”, o grupo alternou brutalidade e atmosfera, mantendo a plateia hipnotizada. Não à toa, foram ovacionados diversas vezes. O momento de respiro veio com “Interludium”, antes de encerrar com o peso absoluto de “Resurrection Machine” e “Hex”. Mesmo sendo a banda de abertura, o Hate dominou o palco com postura de headliner. Foi um show direto, intenso e sem artifícios — o tipo de performance que não apenas aquece o público, mas também conquista e deixa satisfeito.

Após a abertura do Hate, o Vltimas emergiu das sombras para encerrar a noite com uma performance devastadora. Essa foi a primeira vez que a banda, formada por grandes nomes do gênero, pisou em solo brasileiro, e não poupou esforços para transformar o evento em um verdadeiro ritual apocalíptico. Com energia visceral e execução impecável, o Vltimas não apenas fechou o show, como o elevou a um nível épico, conectando-se instantaneamente com o público ávido por doses brutais de metal extremo.

Formado por David Vincent (ex-Morbid Angel) nos vocais, Rune “Blasphemer” Eriksen (ex-Mayhem) na guitarra, Ype TWS no baixo, João Ribeiro na guitarra e Pawell na bateria, o supergrupo entregou um espetáculo intenso e técnico, transformando o palco em um verdadeiro inferno sonoro. A apresentação começou com “EPIC”, faixa avassaladora que explodiu como um vulcão em erupção, com os vocais guturais e ameaçadores de Vincent ecoando pela casa, reforçados por seu figurino à la Van Helsing.

“Praevalidus” e “Invictus” seguiram injetando riffs rápidos e peso, fazendo o mosh pit se transformar em um turbilhão, enquanto “Mephisto Manifesto”, mais cadenciada, evocava o melhor do black metal com solos gélidos de Blasphemer.

A intensidade não diminuiu. “Exercitus Irae” trouxe uma fúria mortal, como se a banda estivesse convocando um exército das trevas, e “Last Ones Alive Win Nothing” destacou a precisão cirúrgica de Pawell na bateria, com os bumbos soando como metralhadoras. A música é repleta de climas densos, e quem acha que David ficou deslocado apenas como vocalista engana-se, pois ele se mostra um grande frontman, que incorpora suas letras com intensidade e teatralidade.

Parecendo um terremoto, “Scorcher” e “Nature’s Fangs” chegaram misturando agressividade com momentos melódicos e perversos. O mesmo ocorreu em “Total Destroy!”, que serviu como um hino de destruição total, incitando o público a gritar e vibrar junto com a banda. Contudo, por volta das 23 horas, parte da plateia começou a deixar o local. Sem demonstrar qualquer abalo, o grupo seguiu com “Monolilith”, faixa que explorou texturas mais intensas, seguida por “Miserere” e pelo encerramento épico com “Diabolus Est Sanguis”, que finalizou o show como um verdadeiro ritual, com Vincent comandando o público como um sacerdote do apocalipse.

A banda deixou o palco rapidamente. Os fãs que permaneceram até o fim aguardaram um possível bis. Até mesmo o técnico de som manteve-se na mesa, já que o setlist indicava mais duas músicas, porém a apresentação havia sido oficialmente encerrada.

No encerramento da noite, ficou a certeza de ter presenciado um evento histórico para o metal extremo em São Paulo. O Hate reafirmou seu posto como um dos nomes mais sólidos do gênero, entregando precisão, densidade e carisma. O Vltimas, por sua vez, carregando o peso de um supergrupo e a responsabilidade de transformar expectativa em satisfação, selou sua primeira visita ao Brasil com um show devastador, que uniu grandiosidade e técnica sem perder a conexão visceral com os fãs. As performances potentes, diante de uma recepção calorosa e rodas intensas, coroaram a noite, lavando a alma do público que ansiava por esse momento. 


Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Sandra Rosato

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Vênus Concerts / Caveira Velha Produções / Xaninho Discos 

Press: LP Metal World 


Hate – setlist:

Sovereign Sanctity

Erebos

The Wolf Queen

Bellum Regiis

Valley of Darkness

Luminous Horizon

Interludium

Rugia

Iphigenia

Wrists

Resurrection Machine

Hex


Vltimas – setlist:

EPIC

Praevalidus

Invictus

Mephisto Manifesto

Exercitus Irae

Last Ones Alive Win Nothing

Scorcher

Nature's Fangs

Total Destroy!

Monolilith

Miserere

Diabolus Est Sanguis


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Behemoth: Entre a Revolta e a Reinvenção

Por Pedro Delgado (Rato de Show)

O mês de maio deste ano foi marcado por diversos lançamentos aguardados no mundo do metal, entre Ghost Bath, Rivers of Nihil, …And Oceans, The Callous Daoboys, Bury Tomorrow, dentre outros. Mas talvez nenhum tenha sido tão aguardado dentro do veio do metal extremo quanto The Shit Ov God, simbólico 13º álbum de estúdio dos pecaminosos do Behemoth.

Mestres do blackened death metal, os poloneses vêm há mais de três décadas causando todo tipo de incômodo e polêmica, seja entre a comunidade cristã e as pessoas em geral, seja dentro da própria comunidade do metal, entre críticos, haters e uma legião de fãs que acompanha fielmente o incansável trabalho liderado por Adam “Nergal” Darski e sua trupe: Orion (baixo), Inferno (bateria) e Seth (guitarra) nas apresentações ao vivo.

Sobre “ao vivo”, vale lembrar que a banda chega a São Paulo neste próximo dia 28 de setembro trazendo a turnê The Unholy Trinity, junto aos mestres do death metal, o Deicide, e o projeto solo do polonês, Nidhogg. A passagem ocorre no Terra SP, e os ingressos podem ser adquiridos clicando aqui.

O sucessor de Opvs Cvntra Naturem (2022) veio com um desafio estético, uma vez que a banda é possivelmente a que mais consegue aplicar um senso comercial à sua identidade visual, tornando cada trabalho do Behemoth algo perturbadoramente belo e apelativo. No entanto, para muitos olhos (e ouvidos), havia uma expectativa sonora, vindo de um álbum que dividiu opiniões e que, para muitos, não trouxe nada de impactante em contrapartida a um acervo passado de renome.

Um mal que, invariavelmente, as grandes bandas acabam por sofrer ao longo de sua carreira, recorrentemente sendo aprisionadas em suas próprias obras de outrora, especialmente quando estas são consideradas o magnus opus, como é o caso, por exemplo, de The Satanist (2014). Neste ponto, The Shit Ov God já chegou enfrentando, num primeiro olhar, as críticas ao seu conceito, que, sendo o bom e velho antagonismo aos dogmas cristãos, parecia vir na forma de uma revolta juvenil pela maneira com que o título se encarrega.

Escolhas artísticas à parte, vale o destaque para a arte da capa que logo de cara surpreende (em não surpreender) pela mistura entre uma crueza e uma beleza que, até mesmo através de sua tipografia, consegue tornar harmônico um nome tão desarmônico. A segunda surpresa ao olhar para a obra se dá em sua duração: oito músicas que mal totalizam 40 minutos, algo que imediatamente faz pensar sobre os direcionamentos e sentidos sonoros que serão tocados a cada faixa.

Iniciando com The Shadow Elite, a primeira impressão é de algo afiado, agressivo e direto, quintessencialmente Behemoth, com aquele refrão chiclete que é praticamente possível visualizar um ensandecido público berrando a todo pulmão: “We are the shadow elite / Nós somos a elite das sombras”.

Aqui, vale o destaque para o trabalho de bateria de Inferno, trazendo todo o peso e ritmo com um toque etéreo e dissonante puxado pelas guitarras. Um começo forte, um começo marcante e um já conhecido, uma vez que a faixa representa um dos três singles lançados previamente. Na sequência, Sowing Salt é revelada, dando um leve gosto de que talvez a banda tenha algumas surpresas prontas: um som mais visceral, com guitarras rápidas dando agilidade e dinamismo, despontando ainda em gritos infernais de Nergal junto a um belo solo. Menos comercial, especialmente quando comparada à anterior e às duas seguintes: The Shit Ov God e Lvciferaeon.

Para quem dificilmente não teve um primeiro contato com The Shit Ov God antes do lançamento do álbum, seus primeiros segundos podem soar perturbadoramente hipnotizantes. Isso porque, diferentemente das duas primeiras músicas, os primeiros 8 segundos, contendo apenas a voz de Nergal em plena agoniante fúria, constroem perfeitamente toda a tensão do grande autointitulado que certamente é o hino do disco. Curiosamente, a música mais acessível, simplesmente tudo nela parece grudar: do refrão aos riffs e batidas, é aquela música feita para você se pegar cantarolando aleatoriamente, sendo também a soma do que os críticos mais ferrenhos da banda exatamente expressam seu incômodo sobre.

Neste mesmo eixo, Lvciferaeon, terceiro e último single lançado, acaba por desempenhar um papel levemente semelhante, talvez uma mescla entre os outros dois singles. Você tem novamente essa fórmula chiclete e da tensão, somadas a uma agressividade e melodia em um crescente solo. Com isso, tão rápido chegamos à metade do álbum e à sensação de um trabalho que parece repetir as fórmulas daquilo que dá certo e que vem dando destaque e alcance para o Behemoth a nível global, mas que justamente parece ser o que deixa um fã mais exigente insatisfeito. Mas é precisamente em seu lado B que o álbum realmente se revela e onde as coisas começam a ficar verdadeiramente interessantes.

Novamente deixando sua marca, as batidas frenéticas de Inferno, somadas à dissonância das guitarras de Seth e Nergal, trazem To Drown the Sun in Wine. A música é puramente uma pauleira do começo ao fim, com pouco espaço para respiro, e, nestes poucos momentos, ainda somos levados a toda uma tensão construída, que finaliza em um coro abafado pela voz agonizante de Androniki Skoula, mezzo-soprano no que parece ser o início de uma colaboração que não surpreenderia se ocorresse novamente.

Nomen Barbarvm, sexta faixa, chega então de forma rústica e cavernosa, com direito a coros em hebraico e uma música cheia de melodia, com um eu-lírico poético, contestador e dual. Destaque também para as linhas graves de baixo de Orion e talvez o solo mais marcante do álbum, refletindo o quanto neste segmento o Behemoth parece fazer um aceno ao passado, brincando e adicionando camadas e texturas para além daquilo que sabe dar certo.

Elementos estes que persistem em O Venvs, Come!, música que já inicia em uma doce e metalizada melodia, sendo também a maior do álbum. Mais contida, cadenciada, porém crescendo com o tempo, um som quase ritualístico que a cada estrofe ganha espaço, com elementos de corais que certamente fazem desta a música mais maquiavelicamente “tranquila”, porém longe de ser menos impactante.

E tão rapidamente chegamos a Avgvr (The Dread Vvltvre), faixa de encerramento, música mais recente até a data desta resenha a ganhar seu videoclipe e também a música com mais “v”’s em seu título. Fantasmagórica e atmosférica, parece trazer diferentes elementos de outras faixas, fazendo de si quase que uma ópera infernal. Destaque mais uma vez para a participação de Androniki, que, em sua sutileza, eleva a música, assim como as linhas de baixo. Temos várias camadas ao longo da faixa, que aos poucos se silenciam até restarem as vozes agonizantes junto a acordes limpos, quebrados pelo derradeiro momento da última crescente que finaliza o álbum ao som de um violão que, junto ao fade out e à chegada de seu silêncio, parece colocar a obra em perspectiva e convidar o ouvinte à reflexão.

Um álbum que certamente tem seu lado comercial, mas que ao mesmo tempo parece buscar fazer um aceno a uma era passada. O Behemoth mostra que ainda há algumas cartas em sua manga e que é possível, sim, explorar e revisitar elementos, deixando o indagamento sobre qual poderia ser o caminho a seguir. Sim, o álbum não é um The Satanist, mas certamente se mostra marcante, de uma banda que continua a pregar seu evangelho macabro e a tentar assumir a difícil missão de se reinventar e soar fresca dentro de uma temática explorada há mais de três décadas. Dificilmente a parte que mais salta aos olhos deverá ser vista em palco, mas com certeza será uma ótima adição aos próximos setlists.

E, aproveitando, é válida a lembrança novamente de que o Behemoth desembarca no Brasil ainda neste mês de setembro com sua turnê The Unholy Trinity, junto aos convidados Deicide (EUA) e Nidhogg (POL), preparando-se para trazer toda a fúria aos palcos brasileiros, que concentram uma grande legião de fãs por todo o país, em promoção ao seu novo álbum, The Shit Ov God.

Confira abaixo mais informações sobre as datas e locais.


SERVIÇO – BEHEMOTH

Behemoth/Deicide/Nidhogg em Curitiba/PR

Data: 19/09/2025 (sexta-feira)

Abertura da casa: 18h00

Local: Tork ‘n Roll – Av. Mal. Floriano Peixoto, 1695 – Rebouças, Curitiba

Ingressos: https://fastix.com.br/events/behemoth-e-deicide-curitiba


Behemoth/Deicide/Nidhogg em Brasília/DF

Data: 21/09/2025 (domingo)

Abertura da casa: 18h

Local: Toinha Brasil Show – SOF Sul Q.09 Conj. A Lote 05/08, 71215-246 Guará, Brasília-DF

Ingressos: https://fastix.com.br/events/behemoth-e-deicide-brasilia


Behemoth/Deicide/Nidhogg em Belo Horizonte/MG

Data: 23/09/2025 (terça-feira)

Abertura da casa: 18h

Local: Mister Rock – Av. Tereza Cristina, 295 – Prado, Belo Horizonte – MG

Ingressos: https://fastix.com.br/events/behemoth-e-deicide-belo-horizonte


Behemoth/Deicide/Nidhogg no Rio de Janeiro/RJ

Data: 26/09/2025 (sexta-feira)

Abertura da casa: 18h

Local: Sacadura 154 – R. Sacadura Cabral, 154 – Rio de Janeiro – RJ

Ingressos: https://fastix.com.br/events/behemoth-e-deicide-rio-de-janeiro


Behemoth/Deicide/Nidhogg em São Paulo/SP

Data: 28/09/2025 (domingo)

Abertura da casa: 18h

Local: Terra SP – Av. Salim Antônio Curiati, 160 – São Paulo

Ingressos: https://fastix.com.br/events/behemoth-e-deicide-sao-paulo