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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: T.S.O.L. & Adolescents – 29/11/2025 – Cine Joia/SP

T.S.O.L. e Adolescents fazem “noite californiana” com shows explosivos em São Paulo

Evento, que se tornou um show único por conta dos cancelamentos em outras cidades brasileiras, contou com público incansável nos bate cabeças e fileiras de clássicos das bandas estadunidenses

O dia 29 de novembro de 2025 não foi somente memorável para os flamenguistas, que se sagraram tetracampeões da Copa Libertadores da América com uma vitória em cima do Palmeiras. Em São Paulo, no Cine Jóia, localizado no Centro de São Paulo, fãs de Punk Rock presenciaram e fizeram parte, na mesma faixa de horário do jogo e pós-jogo, de uma “noite verdadeiramente californiana” com os shows das pioneiras bandas T.S.O.L. e Adolescents, no que se tornou um show único das bandas nesta passagem em solo brasileiro, contando também com a abertura dos brasileiros do Treva.

O evento, promovido pela New Direction Productions (NDP), ocorreu justamente no ano em que os álbuns de estreia das duas bandas, “Adolescents” e “Dance With Me”, lançados em 1981, completam 44 anos. E todo esse tempo de carreira foi amplamente celebrado com setlists de mais de 20 faixas, com boa parte delas focando nos álbuns de estreia e, ainda assim, sem deixar de passar por clássicos e outras músicas importantes de todas as fases e décadas das bandas.

O Cine Joia teve casa cheia a partir do segundo show e o público tornou o local um pedacinho da Califórnia por algumas horas. Se no show do T.S.O.L. os ânimos já foram altos na pista, com moshes, pogo e bate cabeças intensos, a situação se tornou ainda mais caótica (positivamente, claro) no show do Adolescents, com as mesmas características ampliadas e com o incremento de stage dives com participação feminina e até mesmo de um garoto que se tornou destaque tanto pelos pulos seguidos e seguros, quanto a de sua presença no degrau mais baixo do palco do meio para o fim do show, observando e sendo notado pelos membros da banda, no que pareceu uma verdadeira introdução ao Punk Rock

O clima amplamente animado foi suficiente para fazer com que Jack Grisham, vocalista do T.S.O.L., e Tony Reflex, do Adolescents, expressassem sua impressão positiva com o público através dos gestos no palco, parados ou não, e pela faceta impressionada do início ao fim, encarando o mar de fãs em um Cine Joia lotado

Confira mais detalhes dos shows abaixo:


Treva

A banda paulistana Treva teve a responsabilidade de abrir o evento, que começou às 18h45 com as entradas de Felipe Ribeiro (guitarra e vocal), Gian Coppola (bateria), Felipe Skid (guitarra) e Eduardo Moratori (baixo). Eles iniciaram o show em meio a uma introdução, com punhos para o alto e os instrumentistas de frente de costas para o público, virando rapidamente para a galera na primeira faixa.

Havia quantidade pequena de fãs no Cine Joia, que chegavam aos poucos ou chegaram mais cedo para ver tudo, o que não foi empecilho para que, nas sete faixas tocadas, os membros do Treva entregassem tudo de si em uma sonoridade e repertório que incrementaram elementos do Rock, do Punk Rock e do Blues Rock.

A banda trouxe músicas como “Novo Amanhã”, “Meu Sofrer”, “O Passado que Se Tem” e “Onde Morre o Sol”, em performances enérgicas ao longo do show. Um dos grandes destaques ocorreu já na reta final, com “Renasce em Dor”, com boa cadência e letra pautada em superação, além de uma pausa no meio da faixa para que levantassem os punhos para o alto por segundos. 

Junto a isso, discursos de grande impacto vieram em doses, com destaque para as falas de Felipe antes da última música, indicando que “Onde o Treva estiver, sempre haverá um acolhimento para todos”, agradecendo os funcionários e produtores do local e evento e terminando com uma reflexão positiva e motivacional em contexto político-social: “(...) As coisas mudam. As coisas mudaram pra pior em 2013, pioraram muito em 2018 e começaram a melhorar a partir de 2022 (...)”. 

Por um todo, o Treva fez uma abertura impactante, que agradou os que vieram mais cedo e que bota a banda com um grande potencial para a cena nacional dos próximos anos.

T.S.O.L.

O tempo entre a preparação do palco e teste dos instrumentos do T.S.O.L. e o início de seu show foi o suficiente para que o Cine Joia ficasse muito bem ocupado por fãs, principalmente próximos ao palco. Foi o suficiente para criar, de uma vez, o clima californiano de um sábado à noite.

A situação ficou mais evidente com a subida dos membros da banda de Long Beach, Califórnia, cinco minutos mais cedo que o previsto. Mike Roche (baixo), Ron Emory (guitarra, vocal) e Antonio Val Hernandez (bateria) entraram primeiro, muito ovacionados. Porém, nada como na subida do icônico Jack Grisham (vocal) que, de smoking e calça social, desde o primeiro passo já no palco, se mostrou imponente com seu olhar fixo ao público e, principalmente, pelo caminhar de um lado para o outro na área central, à espera de soltar as mensagens mais diretas e poderosas das letras da banda.

“Sounds of Laughter” foi a primeira música das 21 selecionadas para aquela noite - sete delas, incluindo esta, sendo do clássico álbum de estreia “Dance With Me” (1981) -. Foi um aquecimento perfeito para a banda e para o público, que logo acendeu a chama do bate cabeça com uma roda ainda tímida, mas que cresceria (e muito) ao longo da noite.

A progressão dos ânimos veio com músicas como as bem cadenciadas “Give Me More”, do álbum “The Trigger Complex” (2017) e, sem pausas, “Terrible People”, do álbum “Disappear” (2001). O microfone de Jack Grisham chegou a falhar mais a partir da segunda faixa citada, porém foi rapidamente substituído por um roadie ainda no meio da faixa, o que alegrou ainda mais os fãs presentes.

Público e banda intensificaram as energias com o primeiro clássico do EP “T.S.O.L” (1981), a rápida e potente “Superficial Love”, que fez a parte frontal da pista “explodir” com um mosh mais intenso, em meio a uma letra altamente irônica e com críticas ao militarismo e às altas cúpulas militares dos EUA e seus privilégios. O clima ficou um pouco mais calmo com o Punk Rock mais leve de “Satellites”, que incluiu um bom solo de guitarra de Ron Emory.

O descanso rítmico foi necessário, uma vez que a chegada de “In My Head” e seu Hardcore Punk potente intensificaram a roda principal com direito a circle pit seguido de bate cabeça e um refrão amplamente cantado. “I’m Tired” veio com Ron Emory cantando trechos alternados com Jack, o que melhorou a dinâmica no palco e preparou o retorno de um público animado para “Love Story”, com uma linha forte de baixo, letra direta e poderosa e até mesmo outro pequeno solo de guitarra acompanhados do coro do público.

“Die For Me” deu sequência à onda de clássicos do T.S.O.L., desta vez encabeçada totalmente por Ron, que toca guitarra e canta enquanto Jack dá uma pausa no canto do palco, observando banda e público de forma altamente positiva. O guitarrista também cantou “80 Times” e inflamou a roda punk da frente da pista, que cresceu com a entrada de mais fãs a todo momento. O resultado foi a conversão completa do Cine Joia para uma casa de shows californiana, com direito a aclamações da galera ao final da faixa.

O auge total do show veio quando Jack Grisham voltou ao posto de vocalista, com os movimentos de um lado para outro, acompanhado das palhetadas iniciais de Mike Roche para “World War III”, que inflamaram ainda mais os adeptos ao bate cabeça do local e gerando um clima absurdo para a noite. A situação se manteve com “Abolish Government / Silent Majority”, medley que tanto fez Grisham cantar com mais intensidade, quanto fez o público cantar, a plenos pulmões, os versos imperativos da faixa.

“Property Is Theft” e “The Triangle” foram tocadas e mantiveram o poderio do Punk Rock do T.S.O.L. e deram mais destaque para as linhas de baixo de Mike, que também brilhou no início da poderosa “Fuck You Tough Guy”, a ponto de ser alvo dos pedidos de agradecimento e aplausos poderosos por parte do frontman da banda, amplamente respondidos pelo público. Ainda houve tempo para o show retomar com “Wash Away”.

Outro grande ponto do show veio na clássica “Dance With Me”, música que praticamente marcou a adesão do pogo na roda de bate cabeça, quando a faixa caiu para um ritmo um pouco mais lento. Tudo isso em meio a uma letra amplamente melancólica.

“Low Low Low”, apesar de ser uma faixa do recente álbum “A-Side Grafitti” (2024), foi bem recebida e cantada pelo público, dentro do ritmo e sonoridade mais “alegres”. Em seguida, veio “I Wanted to See You”, com acordes lentos, porém impactantes.

Jack Grisham fez questão de discursar e agradecer pelos 36 anos de banda e pelo acompanhamento dos fãs nessa caminhada. Um setlist foi entregue para um fã da frente antes de o clima, por uma última vez no show do T.S.O.L., elevar ao máximo com a chegada de “Code Blue”, com mosh poderoso, stage dives pela primeira vez na noite e coros dos que não estavam na parte caótica da pista. “Red Shadows” encerrou a noite, consolidando um clima alegre e poderoso que ainda teria uma continuidade mais absurda, mas que deu ao T.S.O.L. a garantia de que o público brasileiro ama a banda e valoriza o pioneirismo deles na cena californiana.

Adolescents

Um ponto interessante da pausa antes do show final da noite foi o “esvaziamento repentino” da pista, com grande parte das pessoas ou indo aos banheiros, ou para os bares do local. Isso deixou a parte baixa fácil para chegar mais próximo do palco. A situação durou alguns minutos e, aos poucos, o ambiente voltou a ficar cheio, assim como o restante da pista do Cine Joia. 

Certo foi que o tempo de descanso foi suficiente para um “caos organizado” ainda maior para encerrar o evento. E esse clima começou logo às 20h59, com o fim da playlist que foi reproduzida e a subida dos integrantes do Adolescents.

Mike Cambra (bateria), Brad Logan (baixo), Ian Taylor (guitarra rítmica), Dan Root (guitarra principal) e o lendário Tony Reflex (vocal) subiram pontualmente ao palco. E ficou a curiosidade: assim como Jack Grisham, Tony estava bem diferente do que anos atrás - no caso dele, muito magro -. Mas a aparência virou um detalhe ínfimo a partir do momento em que o show começou e ele, junto à banda, soltou 23 faixas poderosas - com direito a um medley 2 em 1 - para inflamar o público.

E assim como o T.S.O.L., os membros do Adolescents trouxeram muitas faixas do álbum de estreia que, no caso da banda de Fullerton, Califórnia, é o autointitulado de 1981. E “L.A. Girl” foi a grande abertura que, logo de cara, inflamou completamente a parte frontal da pista com um mosh imediato e até mesmo os primeiros stage dives na parte baixa do palco.

A impressão positiva de Tony Reflex veio na frase gritada ao final da primeira faixa: “São Paulo, What The F*ck???”. O público retribuiu a reação positiva com mais energia a partir de faixas como “Monolith at the Mountlake Terrace”, do álbum “La Vendetta…” (2014), e “Escape From Planet Fuck”, do disco “Manifest Density” (2016), que intensificaram ainda mais a roda e a expandiu da esquerda para a direita, na visão do público, na parte frontal.

O Medley “Who Is Who / Self Destruct” tornou o ambiente ainda mais caótico no Cine Joia, dobrando a quantidade de stage dives que levaram pessoas do palco até o fundo da pista, em certos momentos. A situação seguiu em “Brats in Battalions”, outro clássico da banda do segundo álbum, de mesmo nome, de 1987.

“Forever Summer” e “5150 or Fight” trouxeram um pouco do Hardcore Punk da banda com sonoridade moderna e rápida. Tudo o que o público ama para bater cabeça intensamente. Houve, ainda, uma volta ao repertório dos anos 2000 com “Lockdown America”.

O retorno do setlist aos clássicos veio com “Word Attack”, mantendo o clima intenso e agradável para os fãs presentes mesmo em uma velocidade maior no ritmo da faixa. Já em “Lockdown America”, até mesmo fãs mulheres arriscaram stage dives que, vendo do elevado da pista, foram totalmente respeitosos por parte de quem ajudou, tornando a situação ainda mais universal no show.

“Rip It Up” provou que a galera estava incansável na noite, assim como a banda, que seguia enérgica. No caso desta faixa, o baixista Brad Logan se destacou tanto pelo ritmo alto e potente de suas notas, quanto pela finalização por meio de tapas nas cordas. Em seguida, veio mais um clássico do primeiro álbum, “Things Start Moving”, que teve um começo escalado e que foi fator proveitoso para que a roda se abrisse e, quando a faixa chegasse ao ponto instrumental completo, todos pulassem como um verdadeiro tsunami de pessoas, convertendo a energia em outro mosh imparável na parte frontal da pista.

Mas apesar de todos os momentos caóticos citados, talvez nada tenha sido melhor do que na poderosa, aclamada e amplamente cantada “Amoeba”. Desde as primeiras notas, a pista do Cine Joia se tornou ainda mais um pandemônio com a expansão de seu tamanho e, principalmente, a presença de uma criança, que estava na área reservada, no stage dive, sendo carregada por várias vezes de forma respeitosa. Foi o ponto máximo da noite, ainda mais com a garantia de que o responsável (pai ou mãe) estava atento, pois ele rapidamente voltava para o ponto inicial e voltava a pular do palco, contando também com a segurança de quem o carregava. A faixa em si, claro, foi alegria pura e ainda contou com bom solo de guitarra na parte final.

Músicas também clássicas do Adolescents, como “OC Confidential”, “Losing Battle” e “Let It Go”, vieram para manter a energia da banda e do público no alto. Houve, também, a reprodução de “Class War”, cover do D.O.A., com riff poderoso e prova do conhecimento do público ao cantar a faixa. Tony ainda teve um momento para reforçar sua felicidade em se apresentar novamente em São Paulo.

Mais faixas dos anos 80 vieram para descansar um pouco a galera incansável da pista, como “No Way” e “Welcome to Reality”. Na segunda faixa citada, já era possível ver o garoto do stage dive sentado no degrau inferior do palco, quieto e prestando atenção na apresentação da banda, principalmente de Tony Reflex, que volta e meia fez questão de interagir com ele. 

“Just Because” trouxe os ânimos de volta, ainda mais pela dedicatória negativa da faixa, por Tony, para Donald Trump, o chamando de “Puto” em Espanhol - o álbum desta faixa, “Cropduster” (2018), tem muitas faixas e até a capa em críticas ao presidente dos EUA que, após perder o pleito de 2020, voltou a comandar o país a partir de 2024.

“Kids of the Black Hole”, “Cropduster”, “Wrecking Crew” vieram como pavimento para a reta final do show, mas sem deixar que a peteca do ânimo do público caísse, uma vez que a roda se manteve intensa. O gran finale veio com “Do the Eddie”, que virou praticamente um chamado para vários stage dives, incluindo um fã que subiu até o palco e arriscou pular dali (com sucesso). A loucura generalizada fez até mesmo com que alguns fãs tentassem interações e cantassem com Tony. Na parte baixa, o bate cabeça foi intenso pela última vez. Tudo isso com um frontman amplamente impressionado com o poderio brasileiro.

Todos os fãs que presenciaram dois dos panteões do Punk Rock californiano se lembrarão muitas vezes dessa noite. Mas ninguém lembrará mais que o garoto da frente do palco que, além de participar dos stage dives e waves de forma introdutória ao Punk e ao Rock em geral, ainda se lembrará dos presentes que recebeu dos fãs do Adolescents: baquetas, setlist, palheta e aplausos.

A noite memorável muito provavelmente faz com que o público espere por mais uma vinda de T.S.O.L. e Adolescents, juntos ou não, para o Brasil, torcendo para que a noite em questão não tenha sido a última de um deles no nosso país. De todo modo, será memorável para as bandas que, mesmo com os cancelamentos em outras cidades antes da turnê, têm a segurança de que São Paulo é uma cidade perfeita para mais noites californianas como essa.

Texto: Tiago Pereira 

Fotos: Raíssa Correa para o RaroZine 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: NDP Live

Press: Tedesco Comunicação & Mídia


T.S.O.L. – setlist:

Sounds of Laughter

Give Me More

Terrible People

Superficial Love

Satellites

In My Head

I’m Tired

Love Story

Die For Me

80 Times

World War III

Abolish Government / Silent Majority

Property Is Theft

The Triangle

Fuck You Tough Guy

Wash Away

Dance With Me

Low Low Low

I Wanted to See You

Code Blue

Red Shadows


Adolescents – setlist:

L.A. Girl

Monolith at the Mountlake Terrace

Escape From Planet Fuck

Who Is Who / Self Destruct

Brats in Battalions

Forever Summer

Word Attack

Lockdown America

Rip It Up

Things Start Moving

Amoeba

OC Confidential

Losing Battle

Let It Go

Class War (cover de D.O.A.)

No Way

Welcome to Reality

Just Because

Kids of the Black Hole

Cropduster

Wrecking Crew

Do the Eddie

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Nervosa – 05/12/2025 – Sesc Bom Retiro/SP

PRÓLOGO

O outrora longo ano de 2025 está chegando ao seu derradeiro fim, só que ele não passou despercebido, e se prontificou em cravar a sua permanência na história. O famoso meme de internet "Come to Brazil" deixou de ser um mero meme em si ao chegar aos olhos e ouvidos de vários musicistas ao redor do globo, que atendereram o chamado de inúmeros internautas tupiniquins: alguns o fizeram genuinamente, outros apenas para entrar na onda no famigerado engajamento. Enquanto 2024 saiu de cena com a tarefa de deixar o ano atual com um grau generalizado de excitação por quem tem como símbolo de paixão o universo da música, independente do gênero de preferência, invadindo o bolso dos entusiasmados sem perdão devido a avalanche de anúncios, há outra razão do porquê dele prometer ser tão especial desde a sua espera.

Justamente em 2025 que a potência conhecida como NERVOSA chega a uma década e meia de existência, e em um mundo de competição selvagem o qual todos os da chamada "indústria" querem o seu lugar no Sol, este não é um feito trivial. Apesar do seu QG estar localizado na Grécia e ter integrantes do Velho Continente, a outra metade da sua formação, e mais do que isso, o seu gênese, possuem DNA brasileiro, o que só tornou mais necessário atender o chamado do infame "Come to Brazil".

Após uma turnê pela América Latina no começo do ano comemorando este aniversário, fomos vítimas de uma atitude similar com o BLACK SABBATH meses atrás: o final de um ciclo deve ser onde tudo começou.

Só que ao contrário da banda britânica, acabar é algo atualmente impossível de entrar na cabeça da NERVOSA: na verdade, o oposto é verdadeiro, já que um novo capítulo se inicia em 2026.


ATO I: QUANDO DOIS FILHOS DA ARTE SE TORNAM UM

Dado o horário exato de 20:10 (N. do R = olhando em retrospecto, este leve atraso soa como intencional, pois forma o ano 2010 ao juntar os algarismos), a fundadora Prika Amaral surge no palco sozinha sob a égide de uma luz solitária para contar os anos de formação, como ela estava numa banda chamada INNER VOICES e na necessidade de arrumar um baterista, apareceu em cena um profissional chamado "Trash" da banda ARMAGEDDON recomendando de olhos fechados uma moça chamada Fernanda Terra, sinalizando que ela dá conta do recado. Se juntando ao time, durante um brainstorm, ambas discutiram a ideia de montar uma banda só feminina de Metal. Curiosidade revelada: a primeira vocalista foi uma indivídua chamada Rose.


Após um ano e meio de várias entradas e saídas de baixistas e vocalistas, e por indicação do então namorado Amílcar Christófaro (conhecido pelo poderoso TORTURE SQUAD), Fernanda Lira se juntou ao front após sair do HELL ARISE, possibilitando a gravação da famosa demo "2012":

"E aí logo depois, a gente começou a produzir o primeiro disco da NERVOSA - que foi o "Victim of Yourself" - e lembro que a gente se enfiava em tudo que era evento aqui em São Paulo. Gostaria de agradecer a todos vocês aqui, porque se não fossem por vocês, a gente não teria saído daqui de São Paulo, não teria saído do Brasil, e a nossa história começou aqui. Eu estou muito feliz por a gente ter começado a nossa turnê comemorativa em São Paulo e estar terminando aqui. Este é o último show da nossa turnê, e tem muitas coisas aqui para eu revelar aqui hoje. E foi assim que começou a história da NERVOSA". [aplauso da plateia] - pontuou


A aparição de uma fraca luz azulada dá o ar de sua graça, juntamente com a companhia das integrantes restantes: Gabriela Abud (bateria), Emmelie Herwegh (baixo) e Helena Kotina (guitarra) surgiram com uma visão em que pela iluminação, podia ser vista a silhueta das suas imagens, caracterizando uma introdução com um toque de suspense através de um hype crescente, um comportamento adequado que pintou o cenário que fora anteriormente planejado.

Apelando para as suas origens, MASKED BETRAYER ficou responsável por abrir o espetáculo no SESC Bom Retiro, sendo a primeira música composta pelo então trio paulista. Logo de cara, a animação das integrantes ficou desenhada em seus rostos, que apesar do aspecto formal trago por um teatro, isso não foi causa para que elas passeassem pelo palco.

Ato contínuo, foi a vez de URÂNIO EM NÓS tomar de assalto os ouvidos da multidão, e tomar de assalto o fez com sucesso, porque a porrada auditiva era condição sine qua non para deixar todos preparados para a famosa DEATH!, comumente tocada no repertório como uma das primeiras atrações para acalmar os ânimos da plateia (ou seria elevar?) em deixá-los mais familiarizados com os petardos que as acompanham, em especial com o poderio vocal envolvendo o seu refrão que desafia a sua capacidade vocal e nasal em união.


ATO II: A INCONFORMIDADE É O MEU SOFTPOWER PARA IR ALÉM

Concluído o primeiro ato, agora todas as integrantes continuaram no palco para a próxima narração conduzida pela natural de Bragança Paulista, bem como o apontar de luzes em cada uma delas. Sendo assim, a narração pela líder é continuada.

Após um sucesso maior do que o esperado pelo primeiro álbum (importante apontar que na época em que o Facebook era a rede social de escolha da maioria da população do planeta em plena era digital, o começo da NERVOSA recebeu um empurrão do próprio Schmier, do DESTRUCTION, na divulgação), o acordo com a  renomada gravadora austríaca Napalm Records foi solidificado, pavimentando o caminho para que o próximo lançamento fosse parido ao mundo. "Agony" foi concebido em 2016 momentos após a NERVOSA conseguir engatinhar a sua primeira saída ao país em 2015, culminando com a memorável aparição no famoso festival europeu da República Tcheca: o OBSCENE EXTREME.


Este segmento da retrospectiva emendou também a fase seguinte, sendo descrito por Prika como o instante em que a NERVOSA consolidou o seu som característico doravante e "se encontrou de vez" (em verbatim), abraçando o casamento do Thrash com o Death quando "Downfall of Mankind" nasceu, que foi quando a agora renomada baterista gaúcha Luana Dametto (CRYPTA, CHAOS RISING, NEPHASTO) fez parte do time, no lugar de Pitchu Ferraz (AS MERCENÁRIAS, CHAOS RISING), adicionando o ingrediente composto por linhas de bateria mais agressivas. Adicionalmente, vemos a vocalista Fernanda Lira mergulhar mais profundamente na técnica vocal do fry scream, característica compartilhada pelo lendário Chuck Schuldiner em seu álbum final do DEATH (N. do R = The Sound of Perseverance).

E agressividade é o sobrenome não registrado no cartório de HOSTAGES, cuja chuva dos pratos de ataque conduzidos por Gabriela em seu kit de bateria atacam deselegantemente à mais de 80km/h, sem se importar se o ouvinte aguenta o tranco ou não. Quem duvidava da sua capacidade ao entrar para a NERVOSA no começo do ano passado deve ter torcido o nariz múltiplas vezes, já que a sua competência é a corporificação da crença de que a idade, em inúmeros cenários, é só um mero número.


Dando sequência ao repertório, e tão esperada quanto arroz de festa, KILL THE SILENCE se tornou um dos carros-chefe da sua discografia, sempre descrita pela vocalista como direcionada às mulheres que estão passando por algum tipo de repressão abusiva, seja física ou mental. Por causa do seu ritmo elevado, nota-se aqui uma característica que já foi estabelecida desde a abertura por MASKED BETRAYER: a euforia que tomava conta das integrantes era manifestada em grande parte por Helena e Emmelie: "viradas no 220v", ambas ficavam se movimentando constantemente, e não era incomum vê-las trocando de lado. Outros sim, com as devidas oportunidades, Prika se aproximava do palco e estimulava a multidão a fazer um barulho que desafiasse a acústica exalada por seus instrumentos. Destaque que naquele instante que precede a repetição de toda a letra, as três membras com instrumentos de cordas realizaram uma dança ao estilo Hard Rock, perfazendo uma movimentação de 90º da esquerda para a direita seguindo o fluxo audível, exatamente como têm acontecido "naquela parte" de "Bestial Invasion", do DESTRUCTION.

Para deixar uma representação mais fidedigna de CULTURA DO ESTUPRO, a vocalista/guitarrista/líder deixou as suas mãos livres e confiou as atividades de guitarra apenas para Helena. A execução desta faixa em pleno dezembro ganha uma característica simbólica, pois é exatamente no período de final de ano que ocorre um aumento nos casos de violência física contra o gênero feminino (muitas das vezes arbitrariamente). Seja pelo acaso ou por design, dois dias depois a icônica Avenida Paulista tinha um encontro marcado com um protesto em massa em desfavor da escalada do feminicídio.


Assim como o Superman possui uma inibição em seus poderes graças aos bloqueios mentais que foram estabelecidos desde criança (em boa parte, pela criação dos seus pais adotivos), a impressão que fica é que ao ficar livre da tarefa de guitarra, tivemos o imenso prazer de testemunhar a gloriosa gutural de Prika alcançando o seu esplendor, devida a sua liberdade em se dedicar exclusivamente ao canto aqui.


ATO III: SUPERAÇÃO DIANTE DA FACE DA ADVERSIDADE

E então chegamos ao instante mais delicado da história da NERVOSA. Meses após a histórica apresentação no ROCK IN RIO 2019, a primeira grande ruptura na formação aconteceu. No mencionado ano, a CRYPTA foi formada como um projeto paralelo, mas que em 2020, passou a se tornar o principal norte das agora ex-integrantes Fernanda Lira e Luana Dametto. Por um truque do destino, Prika Amaral ficou total e completamente sozinha entre as membras:

"E aí lá fui eu, com este desafio. Na verdade, quando teve esta ruptura, recebi milhares de mensagens do mundo inteiro de meninas implorando pra mim: 'não deixa a NERVOSA morrer'. Isso não passava pela minha cabeça, mas foi muito importante receber essa mensagem, porque aí eu me dei conta o quanto era importante. E me ajudou a me manter firme e forte em não desistir e ter certeza de que eu estava fazendo a coisa certa.

(...) E a gente tinha todo o tempo do mundo. Não era habilidade, mas era disponibilidade, profissionalismo, experiência... vários aspectos (N. do R. = sobre encontrar outras integrantes no Brasil para substituir as que partiram). E aí lá fui eu, encontrei as meninas da Europa (N. do R = Diva Satânica, Mia Wallace e Eleni Nota), remontei a banda, e aí começou a era do PERPETUAL CHAOS." - concluiu Prika


A faixa-título do quarto lançamento da discografia possui uma característica incomum: apesar de ter um tempo mais lento do que se espera de uma canção de Thrash Metal, o peso dos instrumentos é magnificado, estimulando a produção de um headbanging um pouco mais sofisticado (ou o mais próximo disso). VENOMOUS entrou na sequência, reforçando a presença fortificada da mescla com o Death Metal adquirida desde o álbum anterior. Enquanto a líder executava o solo desta, a holandesa Emmelie aproveitava para mudar de posições com mais frequência do que o normal. É a segunda vinda dela ao Brasil, e foi até uma surpresa vê-la mais agitada do que na sua performance anterior no Carioca Club: seria a magia do ambiente brasileiro ou do quão especial foi esta apresentação como um todo? Quem sabe...?


A ordem cronológica dos acontecimentos era religiosamente seguida, tendo UNDER RUINS como sucessor natural de VENOMOUS. Um lembrete, porém, que ela antecede a elegante e devastadora GUIDED BY EVIL, uma das principais do "Perpetual Chaos". O título é proposital, em consequência do fato da sua introdução soletrar magistralmente M.A.L.I.G.N.O., cortesia do riff memorável executado através de uma sinergia entre as duas detentoras de guitarras. Esta canção é um conflito constante com a natureza ambiental, já que a sua intensidade e violência sonora fazem com que os ali presentes pudessem apreciar num ambiente como uma arena, por causa da produção de moshes que está embutida em sua concepção.

ATO IV: RAIOS CAEM DUAS VEZES NO MESMO LUGAR

Chegamos ao período contemporâneo: a fase do "Jailbreak". Conduzindo a narrativa da história da banda, Prika continua a elaborar:

"Uma das coisas mais complicadas é você gerenciar o sonho dos outros. Expectativas... muitas vezes, a maior parte das meninas não tem experiência, e quando encontram a estrada... E o fato de você estar muito tempo longe de casa, você não ter tempo de fazer nenhum hobby seu, nada... absolutamente nada. De não saber quanto que vai ganhar, de ter surpresas aí na estrada, de ter um parente doente e você estar longe... é muito difícil. E aí as meninas se dão conta: 'é o que quero, é o meu sonho, mas não nessa intensidade'. E eu aqui, mais uma vez, na missão em encontrar mais meninas fodas.

(...) Mas, antes disso acontecer, antes delas saírem, já havia um segredo que eu vinha aí guardando a sete chaves. Eu já tinha planos, quando a Fernanda e a Luana saíram da banda, já tinha planos de termos duas guitarristas na banda. Mas a banda iria passar de três para quatro meninas, a logística iria ficar muito complicada dessa maneira, então eu pensei: 'Uma nova guitarrista fica para o próximo álbum'. Mas a gente já estava trabalhando por trás de tudo.

Quando a gente lançou o PERPETUAL CHAOS, meses depois, já entrei em contato com a Helena, e a gente começou a se falar. Eu vi que ela se encaixava bem com as ideias da Nervosa, e ela estava disposta" - Prika, ao descrever sobre o processo que se passou entre o PERPETUAL CHAOS e o JAILBREAK


Após um passeio pela penúltima parte da peça, a tocante abertura na guitarra semi-acústica de SEED OF DEATH invadiu todo o local do teatro do SESC Bom Retiro sem pedir permissão para entrar nos ouvidos de quem estava presente. A frase em sua letra "Will Never Die" reflete o período mais difícil que a NERVOSA passou, e é uma declaração de intenção de que a mesma continuará viva de geração em geração, desde que passemos os seus ensinamentos adiante. E de maneira inusitada, estando próxima de acabar, a líder saiu do palco para trafegar na escadaria central entre os espectadores, estando mais próxima deles. A plateia ao redor vibrou com mais vigor enquanto Prika e Helena performavam os riffs finais.

A execução de BEHIND THE WALL foi a materialização da sensação de orgulho em todas as conquistas realizadas até agora. Não só isso, mas pelo semblante de alegria e satisfação que tudo aconteceu para chegar neste momento.


A dobradinha composta por NAIL THE COFFIN com UNGRATEFUL serviu para mostrar que a conexão entre Prika e Helena é tão evoluída que pode acontecer até via sinal wi-fi: à distância, e definitivamente não pode ser subestimada. Ligadas a um nível quase celular, uma complementa a outra da mesma forma que goiabada combina com queijo minas, sobremesa tradicional do cardápio do brasileiro.

O arco de "Jailbreak" vai dando passagem ao futuro com KILL OR DIE, uma das faixas mais "cruas" do supramencionado álbum, com um espírito Thrash bem "na sua cara" e direta, ao passo de ser um desafio indireto se o ouvinte aguenta o massacre audível que testa a capacidade de resistência das orelhas.


ATO V: UM AMANHÃ MAIS BRILHANTE

A apresentação que passou de leve a marca de 1:30h, uma das mais longas de sua história, chegou agora ao ato final. Prika deu continuidade para a última parte da narração da estrada até agora:

"Temos o privilégio de ter duas baixistas. Elas não tocam juntas, elas vão revezando entre as turnês e tudo mais. Tem um tema importante para a gente falar aqui: nossa outra baixista tem uma filhinha pequena, e nem sempre ela pode ir a todas as turnês. Ela tem que cuidar da filha dela, muito pequenininha, não tem com quem deixar, toda a situação e tudo mais. E a gente entende. E essa foi a maneira que a gente encontrou".

Continuou: "A gente se sentiu bastante perdida nesse momento. Eu não vou tirar ninguém da banda porque ficou grávida, ou porque tem um filho. Isso não é motivo para tirar ninguém da banda [N. do R. = momento em que a líder é ovacionada pela plateia]. A gente sempre pode encontrar um jeito de fazer todo mundo viver um sonho, e também dar a oportunidade para outras pessoas. Não é só a questão de colocar alguém para cobrir a nossa baixista oficial. E essa menina aqui está dando o sangue tanto quanto a outra [N. do R = aponta para Emmelie], e é por isso que nós temos duas baixistas oficiais: EMMELIE HERWEGH [N. do R = anuncia o seu nome em tom gutural, arrancando uma salva de palmas da plateia], e uma salva de palmas para a nossa baixista que não pôde estar aqui: HEL PYRE" [N. do R. = o mesmo acima] - concluiu a fundadora


Assim como Emmelie, Gabriela também é peça-chave para o futuro da NERVOSA, anunciando a chegada de SMASHING HEADS, a primeira canção com a participação de ambas. O single, lançado em comemoração do aniversário dos quinze anos, foi tocado pela primeira vez no Brasil, e não estará presente no próximo disco, sendo uma celebração das origens da banda paulistana. Graças à qualidade acústica que um SESC habitualmente oferece, aliada com a experiência na estrada do quarteto, a faixa foi executada com alta fidelidade quando comparada à sua contraparte do estúdio.

Após as devidas apresentações de cada integrante, era a sinalização de que o final estava próximo. JAILBREAK é anunciada pela guitarrista e vocalista como uma dedicação a todos aqueles que não se contentam em fazer parte de um padrão em específico, para que todos esses tenham orgulho de ser quem são, e que carreguem a bandeira mais confortável para cada um.


Como tradição desde o lançamento do álbum, o encerramento é responsabilidade da fantástica ENDLESS AMBITION. Através de ginásticas cerebrais, o ser humano como um todo tem o deleite em se achar superior aos outros, por enganações da mente ou por problemas anteriores não-resolvidos. A "brutalidade com finésse" que envolve os decibéis de ENDLESS AMBITION é um aviso de que, ainda que sejamos a raça prevalente no planeta, em determinadas situações, ainda recorremos aos nossos instintos bestiais para nos manifestarmos de maneira mais precisa e natural, resgatando o fato de que o ser humano veio da selva.

EPÍLOGO

Chegando perto de 1:40h, a apresentação mais ousada da NERVOSA até agora é um marco da música extrema brasileira dos anos atuais. Sendo o completar de um ciclo, o horizonte aparenta ser próspero para que o novo capítulo se dê início em 2026, e acontecerá logo em Janeiro, pois o primeiro single do novo lançamento verá a luz do dia.

O nível de profissionalismo que foi observado como um autêntico presente antecipado de Natal é um testamento nada silencioso de que, assim como ANGRA e SEPULTURA antes delas, é perfeitamente seguro admitir que a NERVOSA encontrou o seu merecido lugar como uma das principais embaixadores do Metal extremo do nosso país mundo afora.


É de bom grado registrar esta nota de redator: este redator, assim como grande parte do público em geral, ficou confuso do porquê que uma apresentação da NERVOSA iria acontecer no teatro de um SESC, considerando que a própria possui um público para lotar uma casa com a capacidade tranquilamente acima do limite permitido de 291 pessoas. Um Cine Jóia com as suas 1000 pessoas seria um local mais apropriado, ou talvez uma reprise do Carioca Club no começo do ano.


Porém, no exato instante em que deu 20:10, com o apagar quase total das luzes e a música de fundo parando de tocar, tudo ficou cristalmente claro. O pensamento envolvendo a ação de "contar a história da NERVOSA" não foi uma frase bonita para se fazer média. O processo mental que envolveu este desejo significava utilizar um teatro como um local apropriado para unir dois filhos das Sete Formas da Arte de uma vez só para entregar uma experiência não apenas diferenciada, mas ainda mais completa, com o exato modus operandi em um ambiente da supramencionada integrante das Artes Cênicas, combinada com uma apresentação devastadora que se tornou o padrão da potência brasileira internacional que virou a banda em questão.

...E então a ficha caiu.

Quando há um cuidado em entregar um trabalho pensando mais na sua qualidade, ao invés de apenas um número maior de vendas, este redator passa a concordar que o termo "artista" não se categoriza mais como "pretencioso" e o considera como parte do reino da realidade. Não nos foi revelado de qual cabeça veio esta ideia, mas uma coisa é certa: essa pessoa merece um aumento para ontem.


Texto: Bruno França 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Nervosa – setlist: 

Masked Betrayer

Urânio Em Nós

Death!

Hostages

Kill The Silence

Cultura do Estupro

Perpetual Chaos

Venomous

Under Ruins

Guided By Evil

Seed of Death

Behind The Wall

Nail The Coffin

Ungrateful

Kill Or Die

Smashing Heads

Jailbreak

Endless Ambition


Agradecimentos à Roberto Bisca por ceder gentilmente o repertório

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Cobertura de Show: Primal Scream – 11/11/2025 – Audio/SP

Primal Scream entrega show histórico na Audio em São Paulo

Na noite de 11 de novembro de 2025, o Primal Scream fez da Audio, em São Paulo, o cenário de uma celebração inesquecível. A banda escocesa, liderada por Bobby Gillespie, trouxe ao público uma apresentação arrebatadora, repleta de energia, carisma e clássicos que marcaram gerações.

Logo nas primeiras músicas, a plateia foi tomada por uma vibração contagiante. Gillespie, visivelmente feliz e à vontade, mostrou por que é um dos grandes frontmen do rock britânico. Com carisma de sobra, interagiu o tempo todo com o público, estendeu as mãos, sorriu, dançou e se conectou de forma genuína com cada pessoa à sua frente.

O repertório passeou por diferentes fases da carreira da banda, misturando psicodelia, rock, soul e eletrônica com a assinatura inconfundível do Primal Scream. Clássicos como Movin’ on Up, Jailbird, Country Girl e Loaded transformaram o espaço em uma grande festa coletiva. Em Come Together, a emoção tomou conta, o público cantou em coro, braços erguidos, como se o tempo tivesse parado ali.

A banda, em sintonia perfeita, entregou uma performance sólida e envolvente. Cada integrante parecia se divertir tanto quanto quem assistia, o que tornou o clima ainda mais especial. O som, equilibrado e potente, valorizou cada detalhe dos arranjos e deixou claro o nível de excelência da apresentação.

No bis, o grupo ainda apresentou uma versão explosiva de No Fun, dos Stooges, encerrando a noite em clima de celebração e pura energia rock’n’roll.

Com mais de três décadas de estrada, o Primal Scream mostrou que continua relevante, inspirador e cheio de vida. O show em São Paulo foi uma celebração da música, da liberdade e da energia que só o rock britânico consegue transmitir.


Texto: Monise Bianchi

Fotos: Gustavo Diakov

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Balaclava Records / Music On Events


Primal Scream – setlist:

Don't Fight It, Feel It

Love Insurrection

Jailbird

Ready to Go Home

Deep Dark Waters

Medication

Innocent Money

Heal Yourself

I'm Losing More Than I'll Ever Have

Love Ain't Enough

The Centre Cannot Hold

Loaded

Swastika Eyes

Movin' on Up

Country Girl

Bis 1

Damaged

Come Together

Rocks

Bis 2

No Fun (The Stooges cover)

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Cobertura de Show: Stoned Jesus – 25/10/2025 – Jai Club/SP

Stoned Jesus celebra 15 anos de banda com show impecável em São Paulo

Evento, que contou com abertura dos brasileiros do Pesta, fez parte da turnê latino-americana e marcou o retorno da banda ucraniana à capital paulista após oito anos

Oito anos se passaram desde a última vinda do Stoned Jesus, banda ucraniana de Stoner Metal e Doom Metal, ao Brasil. Desta vez, a apresentação em São Paulo, realizada no último dia 25 de outubro na Jai Club, localizada na Zona Sul, fez parte da “Latin American Tour 2025”, turnê que celebra os 15 anos de banda e, ao mesmo tempo, divulga o mais recente álbum do trio, “Songs to Sun”, lançado em 19 de setembro deste ano. A apresentação contou com a abertura da banda belo-horizontina Pesta e foi produzida pela Solid Music Entertainment e a Caveira Velha Produções.

A turnê em questão abrangeu, além de São Paulo, outras cinco cidades brasileiras: Rio de Janeiro (21), Porto Alegre (22), Florianópolis (23), Curitiba (24) e Belo Horizonte (26). A extensão se deu com Buenos Aires, na Argentina (28), Santiago, no Chile (29), e Cidade do México, no México (31). São Paulo, que foi a quinta da turnê, contou com uma Jai Club cheia desde a banda de abertura e que, no show principal, lotou a pista praticamente por um todo, deixando pouquíssimos espaços de circulação.

O Pesta, também em ritmo de divulgação de lançamento recente, o álbum “The Craft of Pain” (outubro de 2025), fez uma apresentação impactante, com quatro faixas consolidadas de seu repertório geral e duas do disco novo, sendo uma delas a estreante ao vivo. O quarteto foi amplamente elogiado pelo público, que viu um show impactante e muito bem executado pelos músicos por um todo.

Já o Stoned Jesus, que desta vez veio como atração principal, fez uma terceira passagem pela capital paulista digna de headliner, com um repertório de 11 músicas com todas as fases dos 15 anos de carreira da banda. Yurii Kononov, baterista que entrou no lugar de Dmitry Zinchenko em 2024, foi a novidade e teve impacto positivo ao vivo, dominando as faixas tanto nos ritmos mais lentos quanto nos mais intensos, parecendo um baterista de Heavy Metal e de Jazz ao mesmo tempo e em momentos distintos por conta da forma que toca no palco. Da mesma forma, o peso do baixo de Andrew, que também entrou para o Stoned Jesus em 2024, no lugar de Sid, foi notável em diversas faixas e ambientações 

Por último e não menos importante, o frontman Igor Sidorenko foi impecável em todos os momentos e funções possíveis: do vocal aos riffs e solos de guitarra, dos alertas engraçados para ajustes instrumentais às interações com os fãs na pista. Foi por conta dele que a galera ecoou coros líricos e das letras das músicas e, no melhor dos momentos, gerou um mosh pit no meio de uma Jai Club lotada, garantindo a diversão ainda maior de boa parte dos que participaram da roda. O susto que tomou na última música, “Electric Mistress”, ou certas exigências de som, iluminação e do pedido contra fumaças em geral, de nada mudou seu comportamento no palco, que garantiu, junto com os demais, uma noite memorável na capital paulista.


Pesta

A banda mineira de Stoner Metal e Doom Metal Pesta fez seu retorno a São Paulo após sete meses, quando abriram para o Pentagram junto com o Weedevil. O grupo, que se apresentou em quarteto, teve como fator novo o lançamento do terceiro álbum de estúdio, “The Craft of Pain” (2025), contando com duas das faixas - uma delas tocada ao vivo pela primeira vez - entre as seis tocadas na noite. 

Thiago Cruz (vocal), Marcos Resende (guitarra), Anderson Vaca (baixo) e Flávio Freitas (bateria) começaram pontualmente e, com uma Jai bem ocupada, começaram o show com “Moloch’s Children”, do álbum “Faith Bathed in Blood” (2019), e a estreia de “Mirror Maze”, do novo álbum - e que conta com participação do guitarrista Scott "Wino" Weinrich na versão de estúdio -, ao vivo. Enquanto a primeira teve um ritmo mais lento e sombrio, a segunda puxou um Stoned Metal mais agitado.

“Black Death”, do disco de estreia “Bring Out Your Dead” (2016), veio na sequência e agitou o público, seja pelo início marcado pela sequência de repetições do riff com três fortes batidas da bateria (que aumentaram na terceira vez), seja pelo ritmo envolvente no restante da faixa, com Thiago Cruz focando em um bom vocal lírico ao longo da faixa. A dobradinha do primeiro álbum se formou com “Words of a madman”, marcado por um bom refrão e a cadência suave e impactante dos músicos que foi o suficiente para puxar não só a atenção do público, como os primeiros balanços de cabeça da noite. 

O show prosseguiu após um pequeno discurso de agradecimento de Thiago, que reforçou o prazer que ele e a banda têm ao tocar em São Paulo. “Shadows of a Desire”, single do álbum mais recente do Pesta, veio com a mesma pegada sombria da sonoridade, com ritmo calmo ao longo da faixa e com uma aceleração de ritmo nos minutos finais, contando com bom solo de Marcos Resende. 

O guitarrista do Pesta também trouxe ótimas distorções da guitarra após o riff da última faixa da noite, “Witches’ Sabbath”, assim como outro bom solo dentro da faixa que apresentou um exemplo primordial da inspiração vocal e sonora em bandas de Doom Metal dos anos 1970 e 80. Foi com o poderio desta música, na reta final, que uma espécie de Jam aconteceu para finalizar o show e sacramentar uma abertura que trouxe os sinceros aplausos de um público que, seja pela primeira vez ou além da segunda, apreciou e se impactou positivamente com um grande nome do Doom  e do Stoner Metal nacional atual.

Stoned Jesus

A rápida configuração dos instrumentos do trio ucraniano deu a eles um tempo maior para a passagem de som no palco. Isso se deu principalmente pela adaptação que, aparentemente, foi feita no kit de bateria de Flávio Freitas, trazendo algumas adições de pratos que se adaptassem à sonoridade do Stoned Jesus.

Cada acorde testado era comemorado por um fã diferente na pista da Jai Club que, cada vez mais cheia, tinha poucos espaços de circulação que não fossem no corredor que direcionava aos banheiros. Fãs arriscaram alguma interação com a banda, com gritos esporádicos de “Jesus Chapado” ou elogios com palavrões (“f*da pra c*ralho!”, “Do c*ralho” e afins) aos testes da banda. A situação resultou em uma resposta mais que engraçada do vocalista Igor Sidorenko, que respondeu um deles: “Don't use that kind of language, or i’m gona ‘kick your c*zinho’” - “Não use esse tipo de linguagem, ou eu vou chutar o seu c*zinho”, em tradução livre.

Os testes seguiram até 20h30, contando até mesmo com trechos de músicas da banda mais extensos. Às 20h32, o show começou de fato, com os acordes calmos e simples de “Bright Like the Morning”, faixa do disco “Seven Thunders Roar”, que abriu o setlist de 11 faixas da turnê. Junto a Igor Sidorenko (vocal, guitarra), também estavam Andrew Rodin (vocal, baixo) e Yurii Kononov (bateria), que começaram a tocar aos poucos dentro da faixa e, numa questão de 2 minutos, entrelaçaram com o vocalista e guitarrista o ritmo introdutório da faixa, após pedidos de aumento do volume do microfone. E quando a música em questão foi para seu ritmo mais intenso, o público acompanhou fortemente com coros que ecoaram principalmente nos refrões da faixa.

O tom brincalhão de Igor reapareceu na música seguinte, "Porcelain”, que começou sob linhas de baixo de Andrew. No caso, um fã mais exaltado da parte da frente comemorou por mais tempo que os demais e o frontman do Stoned Jesus fingiu uma irritação e gesticulou tanto para que ele ficasse quieto, quanto apontando para o companheiro de banda para que o fã escutasse os acordes que ecoaram a Jai Club. A graça, claro, se converteu em risos rápidos das pessoas na pista, que francamente admiraram a progressão instrumental do trio. Yurii Kononov, como em diversos outros momentos do show, mostrou calma e precisão em suas linhas, principalmente com os pratos, o que ajudava no ambiente misterioso da primeira parte da música. Da mesma forma, nos momentos mais intensos, soube dosar pratos e caixas de forma primorosa.

“Shadowland” foi a primeira das duas faixas do mais recente álbum do Stoned Jesus, “Songs to Sun”, a tocar no setlist. Parte dos presentes na Jai Club começaram a balançar as cabeças desde o início da faixa e se envolveram no misto envolvente entre os riffs de Igor e o ritmo de Yurii, ora acompanhando a guitarra, ora com viradas poderosas e porradas nos pratos para a faixa. 

Em seguida, “Thessalia”, única faixa do álbum “Pilgrims” (2018), veio em seguida com uma proposta semelhante de início calmo, baseado na condução de Yurii e Andrew, porém rapidamente transitado para um ritmo mais agitado após o grito de “São Paulo, are You ready?”, ao estilo Korn, puxado por Igor e incrementado com a guitarra potente. Foi o suficiente para tirar alguns fãs do chão, que arriscaram pulos no mínimo espaço que tinham, assim como fez com que outros voltassem a balançar a cabeça com intensidade ao longo da faixa. Já “Thoughts and Prayers” veio na sequência, antecedida de um discurso de Igor em relação à guerra entre a Ucrânia, país de origem do trio, e a Rússia, e sobre como buscam arrecadações para os afetados no país do Leste Europeu. A faixa, referente ao álbum de 2023 “Father Light”, é justamente um clamor por esperança e resolução, ao mesmo tempo que uma crítica ao contexto de guerra, com ritmo que tem uma pequena pegada Blues Rock sem comprometer com a base Stoner e Doom da banda e que, na Jai Club, contou com coros líricos do público em determinados momentos e um ótimo solo por parte do guitarrista e vocalista do Stoned Jesus.

Igor também fez alguns alertas sobre a fumaça na Jai, por conta de possíveis pessoas que estavam fumando no local e quanto a como aquilo poderia prejudicá-lo. O pedido foi atendido e, aparentemente, foi um ponto que ajudou o vocalista e guitarrista a ficar mais à vontade durante o restante da apresentação, que prosseguiu com “Silkworm Confessions”, do álbum “The Harvest” (2015), numa das performances mais enérgicas da noite, encabeçada por um riff e ritmos potentes ao longo da faixa, mudanças de ritmo periódicas e uma tonalidade vocal “à la Ozzy” de Igor, que também colocou um chapéu de um fã pela primeira vez na noite. Ele também protagonizou uma regência lírica com as vozes do público, assim como teve, perto da reta final da música, um solo rápido e bem “palhetado” durante sua execução.

“Black Woods” foi amplamente comemorada após as primeiras notas tocadas por Igor Sidorenko. O músico chegou a tirar seus óculos - e não os colocou mais - para a faixa em questão. Quando o instrumental completo veio, múltiplas cabeças balançaram por toda a pista da Jai Club por todos os minutos do riff inicial e além dele. O líder do Stoned Jesus fez um solo poderoso no meio da faixa e conduziu muito bem a faixa, que só mudou de ambientação e ritmo nos três minutos finais, contando com os gritos de hey do público a pedido de Igor e, no final, com o poderio do pedal duplo e dos pratos de Yurii para um encerramento apoteótico. Ou o início do caos na Jai Club.

E este caos se deu justamente porque a faixa seguinte foi “Here Come the Robots”, outra do disco “The Harvest”, com ritmo agitado e contagiante o suficiente para diversas camadas de agitação da banda e do público presente no show: a comemoração generalizada a partir do riff, os pulos na sequência, o coro que ocorreu durante toda a letra e, principalmente, o mosh pit pedido por Sidorenko no meio para o final da faixa, executado por boa parte do público que estava entre a frente e o meio, além dos que também se deslocaram do fundo para o bate-cabeça. Teve espaço para isso? Teve, porém, comprometendo o corredor do canto da pista e, talvez, as leis da impenetrabilidade. De todo modo, o momento foi único e marcou o grande ápice da noite.

Os ânimos do público e da banda logo deram espaço para o silêncio pedido pelo frontman do Stoned Jesus e a calmaria dos acordes iniciais da também comemorada “I’m the Mountain”. Além destas linhas e do instrumental pesado ao longo da parte inicial, houve outro coro do público em cima da letra da música, com os primeiros versos ecoados sem o suporte do vocalista e com a ênfase nos versos que tinham o nome da música em destaque. Junto a isso, as variações de ritmo ao longo dos pouco mais de 13 minutos de música, contaram muito com a condução de Yurii Kononov e Andrew que, seja nos momentos mais calmos, seja nos mais intensos, foram grandes destaques junto aos solos e acordes gerais de Igor, de modo que a banda foi amplamente ovacionada ao final.

A pequena pausa que a banda deu, em direção ao camarim, foi rápida a ponto de os três integrantes voltarem após dois minutos, rumo ao bis. Os gritos do público ecoavam na Jai Club, com tentativas de puxar um coro em nome da banda e outros elogios. De todo modo, Igor, Yurii e Andrew logo iniciaram “Low” que, apesar de ter uma temática sensível e melancólica na letra, trouxe um ritmo de Stoner Metal poderoso e conciso o suficiente para levantar o público novamente. A faixa também teve um “momento Black Metal”, onde toda a sonoridade do trecho lembrava músicas do subgênero do Heavy Metal, com blast beats, e palhetadas rápidas, somadas a um grito estridente de Igor. O retorno para o ritmo Stoner se deu com uma boa condução de pedais de Yurii, nem muito rápidos, nem muito lentos, até os momentos finais da faixa.

“Electric Mistress” fechou a noite com mais um riff impactante, somado com um último “Are You ready?” conjunto de Igor e Andrew, desaguando em uma sonoridade contagiante da banda. Os versos do refrão, todos iniciados com o nome da faixa em questão, foram gritados pelo público. E essa dinâmica foi ainda mais explorada por Igor Sidorenko em dois momentos distintos da faixa, mais “parados”, em que ele contou até cinco antes de o público, em coro conjunto e intenso, gritar “Electric Mistress” e ele complementar com o restante dos versos. Tudo foi muito bem dinamizado e, quando voltou para o instrumental geral da banda na segunda vez, Sudorenko ainda tomou um susto por algo que aconteceu na parte da frente do palco - e que não deu para ver, precisamente, se envolveu apenas o equipamento e os pedais, ou se pode ter sido algo em relação a um fã das primeiras fileiras -, todavia se recompôs para um final com sonoridade explosiva e digna de um encerramento apoteótico.

As quase uma hora e 20 minutos de show do Stoned Jesus passaram muito rápido, mesmo com músicas que tinham mais de dez minutos. E isso tudo graças a um conjunto de fatores já citados que tornaram a apresentação memorável para os que esperaram tanto tempo pela volta da banda ao solo brasileiro: sonoridade impecável - mesmo com os mínimos problemas rapidamente corrigidos, sob a condução de Igor Sudorenko -, uma banda que executou todas as músicas de forma primorosa, o cuidado com os detalhes de cada membro e um público que, seja para cantar, aplaudir ou para moshar, entreteu e foi entretido da melhor forma junto ao trio. Foi uma apresentação digna de headliner de evento e que, com certeza, deixou o desejo por mais do Stoned Jesus em breve.


Texto: Tiago Pereira 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 



Pesta – setlist:

Moloch’s Children

Mirror Maze

Black Death

Words of a Madman

Shadows of a Desire

Witches’ Sabbath


Stoned Jesus – setlist:

Bright Like the Morning

Porcelain

Shadowland

Thessalia

Thoughts and Prayers

Silkworm Confessions

Black Woods

Here Comes the Robots

I'm the Mountain

Bis

Low

Electric Mistress