quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Entrevista - Anadom: Escrevendo uma Nova História


                                                   English Version
Figura experiente e conhecida na cena Metal, principalmente pela sua história com o Orquídea Negra - considerada a primeira banda de Heavy Metal do estado de Santa Catarina - Robson Anadom lançou recentemente seu primeiro voo solo: "....and a New Story Begins..."

Antigo sonho do baixista e multi-instrumentista, o trabalho solo começou a finalmente tomar forma no ano passado, contando inclusive com campanha de crowdfunding para amparar os custos.

O resultado já pode ser conferido nas plataformas digitais, e principalmente com o material físico, que foi lançado em uma caprichada edição digipack, contendo uma bela concepção gráfica, onde cada música, todas instrumentais, recebeu um texto e arte inspirados nelas.

Conversamos com Robson e praticamente dissecamos a obra, com o músico nos contando sobre a dedicação, as gravações, inspirações, citações e outros detalhes. Confira!
 


RtM: Antes de mais nada, parabéns pelo álbum, e creio que todo artista, em algum momento tem o desejo de mostrar suas influências, que de alguma maneira não encaixem em sua banda, e reflita seu lado mais pessoal.
AnadomIsso é uma grande realidade. O artista que diz não ter o sonho de lançar um trabalho só seu, mostrando todas  suas influências e principalmente, exteriorizando   seus sentimentos e o lado mais pessoal em  forma de música, não me parece ser muito sincero consigo mesmo, isso é inerente ao ser humano, querer mostrar o “algo a  mais” sem interferências externas, apenas o “eu interior”, ou então não tem  coragem para admitir essa vontade.


RtM: E como foi surgindo a ideia desse primeiro solo?
Anadom: Essa vontade que surgiu ainda na metade da  década de 90, quando comecei a criar minhas próprias músicas, sabendo que seriam só minhas. Cheguei a pintar até uma camiseta apenas com o nome “Anadom” e um desenho de gosto duvidoso, e dizia que aquela seria a capa do meu primeiro disco (ainda bem que não usei aquele desenho hahahahahaha) era muito tosco.
Com a chegada da pandemia, tudo veio a tona, um turbilhão de emoções, dúvidas, sentimentos e medos, ingredientes perfeitos para todo artista criar. Assim, as músicas foram nascendo, cada uma ao seu tempo.


RtM: E como foi esse início de produção e criação do repertório?
Anadom: Como já tinha algumas ideias feitas, foram sendo aperfeiçoadas, pois eram apenas riffs, mas a maioria das músicas foram criadas a partir de junho e em setembro quando tinha cerca de quatro ou cinco músicas prontas,  eu vi que poderia realizar este grande sonho e compus as demais músicas para completar o álbum.

Fiz todo o planejamento, para conciliar o trabalho com férias que eu pegaria para poder entrar em estúdio e em janeiro comecei as gravações oficiais, finalizando todo o trabalho de gravação, mixagem e masterização em maio.

 
RtM: E sobre título? "...and a New Story Begins..." , fale-nos sobre os significados e o conceito geral do álbum.
Anadom: O título já diz tudo, o início de uma nova história que estou escrevendo com este lançamento, pois certamente, será o primeiro de muitos. Não podemos ficar estagnados, temos que fazer algo a mais, mostrar que o mundo precisa de música.

Percebi com este álbum que demorei demais para fazer isso, mas acredito que tudo acontece quando tem realmente  que acontecer,  se foi agora era pra ser agora. E veio num momento delicado pelo qual o mundo está passando, é um reinício para todos nós. Quando essa pandemia acabar, tudo estará diferente, é uma nova história começando, não só para mim mas para todas as pessoas do mundo.

 

RtM: A capa também traz uma ideia desse conceito geral.
Anadom: O álbum traz esse conceito de reinício, reinvenção. Ao vermos a capa, a menina assustada, atrás da cortina vendo uma grande explosão, um grande reset mundial. Até mesmo os girassóis estão de costas para o sol, mostrando que “as coisas não estavam indo muito bem” estava tudo errado e algo precisava acontecer para tentar reverter essa situação.

Como a fala na abertura do álbum diz: o mundo não estava indo bem e as pessoas que viviam nele estavam perdidas e doentes, isso resume todo o sentimento do disco. Precisamos fazer algo, é o lugar onde vivemos, não pode ser ruim, tem que ser um lugar confortável e feliz, sem guerras, sem desavenças, sem maldades.


RtM: Uma qualidade muito  forte no álbum, é que, apesar de instrumental, não é música que agradará somente um nicho, pois elas praticamente "conversam" com o ouvinte, como se na sua mente, enquanto compunha as músicas você imaginava versos e refrãos.
Anadom: Você descreveu perfeitamente o que eu pensei quando estava fazendo as músicas. Em algumas delas, as melodias foram criadas primeiramente na minha cabeça, e depois passadas para os instrumentos. Já  outras, nasciam enquanto tocava e criava algo que me soava bem ao ouvido, e a partir dali criava o restante da música.

Conforme eu ia criando, já ia gravando para  ouvir e ver o que poderia fazer para enriquecer a música, montando o que seriam as estrofes, refrãos etc.
Algumas delas certamente eu criei imaginando uma linha vocal que depois foi substituída por frases de guitarra. 


RtM: E você chegou a cogitar ter algumasmúsicas com vocais no álbum?
Anadom: A ideia de ao menos 3 músicas era ter voz, mas depois eu percebi que seria interessante fazer algo assim, diferente, e gostei muito da ideia. Quem sabe no próximo eu decida usar as mesmas músicas, com voz para ver como ficará.

 

RtM: Uma ideia muito legal foram textos e ilustrações que cada música recebeu, de modo que o ouvinte, além da parte sonora, também terá esses outros detalhes para imaginar o sentimento que você quis passar. Conte-nos mais a respeito dessa ideia.
Anadom: Esse crédito é todo do grande amigo Neto Santos. Após acompanhar todo o processo de composição das músicas, sugerindo nomes, ideias para elas, ele resolveu fazer uma arte para cada música, e depois escrever as histórias, chamando também alguns amigos para participarem, de forma que tudo fosse lincado, música, arte e história.

Assim, a pessoa ao pegar o CD em mãos, poderá ouvir as músicas, ver as artes criadas por ele e ler as histórias, entendendo do que se trata. Pois acredito que tudo ficará muito claro, a minha intenção colocada em cada uma das composições seja entendida pelo ouvinte.

Neto conseguiu captar isso durante o processo de composição, pois íamos conversando sobre a música e dessa  forma ficou mais fácil para ele criar a arte.

 

RtM: Falando um pouco mais sobre a parte gráfica, temos que destacar o belo trabalho desenvolvido, onde você, conforme já destacou antes, teve o Neto Santos na direção geral das artes. Nos fale um pouco a respeito da arte geral e da bela capa.
Anadom: Exatamente. Essa parte merece um destaque muito especial, pois expressar através da arte o que tenta se passar com uma música, não é algo muito fácil, e o Neto foi certeiro em todas as artes criadas. Conseguiu com maestria demonstrar isso, fechando com chave de ouro a arte da capa do disco, que é a cereja do bolo. Uma das mais belas capas que eu já vi nos últimos tempos, que nos mostra de forma inocente (uma criança) assustada com a realidade do mundo, retratada ali com uma grande explosão, mal sabendo ela que o que está por vir não será nada agradável.
 

RtM: Agora especificamente sobre as músicas, temos temas suaves e melodiosos mesclados a momentos bem Heavy Metal e Power Metal.  
Anadom: Eu quis colocar nas músicas todas as minhas influências, todo o tipo de música que eu gosto de ouvir, por isso existe toda essa mescla de estilos. Esse é o lado bom de fazer um trabalho solo, pois certamente numa banda isso não seria possível.



RtM: "Wake Up to the World", por exemplo, tem guitarras dobradas e linhas de baixo que remetem ao Heavy Metal clássico, lembrando muito o Maiden.
Anadom: Wake up to the World, é uma música pra cima, empolgante, e como o título diz: Acorde para o mundo! Reaja, faça algo para mudar essa realidade. Essa foi a primeira música que mostrei ao Neto e ele já nos primeiros segundos  viu que ali tinha potencial. Ela era um pouco diferente, mas o principal que é o riff inicial e a frase de guitarra já estavam presentes ali. Acrescentei apenas uma segunda parte que é como se fosse um refrão, parte essa criada enquanto tomava banho e veio essa melodia na minha cabeça.

Já o baixo dela era completamente diferente. Na versão demo ele é bem simples. Essa versão final foi criada um dia antes de gravar, o que me deixou muito satisfeito, pois essa música pedia uma linha melhor de baixo, mais empolgante.


 
RtM: E com nuances mais suaves e melódicas, temos "Águas de Inverno", que traz um clima de balada, calmaria e belas melodias.
Anadom: Águas de Inverno já é uma música mais instrospectiva, melodiosa. Enquanto o Neto e eu  conversávamos sobre peixes, aquarismo, lagos, eu disse que tinha feito um laguinho em frente a casa da minha mãe, que era frequentemente visitado por   um sapinho que gostava muito de ficar ali, curtindo a água aquecida, principalmente no inverno. Então ele sugeriu que fizesse uma música sobre isso, algo diferente do que eu vinha fazendo, e numa tarde compus e já gravei, colocando nela todo o sentimento de amor pelos seres vivos.

 

RtM: Um título bem curioso é "The Amazing Jango's Death", que tem uma levada Power Metal 80's, com andamento veloz, algo meio Helloween. Fale-nos sobre a inspiração e sobre esse título dela.
Anadom: Esse é sem dúvidas um dos meus estilos favoritos. A inspiração dessa música veio de alguns anos já. Após tocar num festival com a Orquídea Negra, o Neto disse: "Cara 'Jango Live´s' (música instrumental presente no nosso segundo trabalho) precisa ter uma continuação, uma parte dois". E isso eu já pensava também, mas tinha ficado no esquecimento, pois o tempo vai passando e  outras coisas vão sendo feitas.

Durante o processo de composição do ...and a New Story Begins, esse assunto veio à tona e foi o momento perfeito. Por isso, que a música traz também algumas referências à original, para lembrar da primeira e fazer com quem não conhece, possa vir a conhecê-la.



RtM: Nossa! Eu não tinha lembrado dela. Legal a ideia da continuação, e referências a primeira parte.
Anadom: Como na primeira é celebrada a vida do Jango, agora é a despedida dele deste plano, por isso o nome A incrível morte de Jango.

O duelo é interpretado pelo solo de teclado (executado pelo Daniel Dante Finardi)  e a morte vem a seguir, com o solo de guitarra, que tenta passar toda a emoção e sofrimento do Jango após ser atingido pelo seu algoz. Mas em seguida volta a ser uma música alegre, demostrando a satisfação dos que ficaram.
 

RtM: "Dreams Are Not Untouchable", além do título inspirador e positivo, tem uma pegada bem Progressiva.
Anadom: "Dreams..." é sem dúvidas uma das minhas músicas preferidas, foi a penúltima a ser composta. A frase inicial dela teria sido usada no meio da  música "People Call me Insane" (presente no álbum Blood of the Gods da Orquídea Negra), mas acabou ficando de fora. Então resolvi usá-la agora criando o restante da música a partir dela.

Contando com a participação do Deny Bonfante (excelente guitarrista catarinense) em dois solos, essa música tenta expressar o sentimento de que os sonhos realmente podem ser tocados, nada é impossível quando se tem vontade.
Uma clara referência à música "Touch Your Dream" (presente no segundo disco da Orquídea Negra), pode ser encontrada no decorrer da música, por isso a confirmação através do nome.



RtM: A "Da Costa ao Oeste" traz várias mudanças de andamentos, destacando os trechos acústicos, com uma pegada folk, e os sons da natureza.
Anadom: Da Costa ao Oeste é uma grande representação da amizade. Laços criados entre pessoas, estejam elas no norte, sul, leste ou oeste, mas que têm algo em comum, principalmente o amor pela música. Como diz o Neto: “artes da costa e canções do oeste”.

A parte acústica no início da música represente a costa catarinense, com um lance um pouco lusitano, sons do mar e gaivotas. A viagem no decorrer é o caminho  até chegar aqui na serra onde o cenário muda, representado pelas nossas aves (Quero Quero e Curucacas), e a parte acústica  foi uma participação especial do excelente grupo Quarteto Coração de Potro. Com os arranjos feitos pelo Kiko Goulart, acentuando bem a característica serrana.

 
RtM: Não poderia deixar de pedir pra você comentar uma das minhas favoritas, a "Living on a Fairy Tale". Além das belas melodias, identifiquei-me com o título.
Anadom: Mais uma das minhas preferidas (na verdade, todas elas são) pois eu gosto de todas, mas sou suspeito para dar minha opinião.
Essa música nasceu no auge do inverno e pandemia no ano passado, mais precisamente em junho no dia 13, eu mandei um áudio para o Neto mostrando um trecho do que viria a ser a música.

Era apenas aquela introdução, mas dali tinha certeza que nasceria uma grande canção. Comecei a trabalhar nela então, até finalizar e o nome foi dado por último.
Após a finalização percebi que ela tinha um lance de conto de fadas, o que fica ainda mais claro com a parte do piano ao meio, que foi criada separadamente para ser outra música, mas percebi que encaixaria muito bem ali, e funcionou. Essa música traz uma grande paz cada vez que a ouço.

 

RtM: Outra que me chamou logo a atenção na primeira audição foi "The Myth Behind the Waterfall Cave", que traz várias mudanças de climas, iniciando de forma suave, alternando trechos mais pesados e "misteriosos" com outros melodiosos e "pra frente", tendo também arranjos de sax. Conte-nos mais sobre ela.
Anadom: Essa música trata sobre a Alegoria da Caverna,  de Platão, por isso no início ela vem com aquele peso, demonstrando a existência de uma caverna onde prisioneiros vivem desde a infância. Com as mãos amarradas em uma parede, eles podem avistar somente as sombras que são projetadas na parede situada à frente.

As sombras são ocasionadas por uma fogueira, em cima de um tapume, situada na parte traseira da parede em que os homens estão presos. Homens passam ante a fogueira, fazem gestos e passam objetos, formando sombras que, de maneira distorcida, são todo o conhecimento que os prisioneiros têm do mundo. Aquela parede da caverna, aquelas sobras e os ecos dos sons que as pessoas de cima produziam era o mundo restrito dos prisioneiros.


Repentinamente, um dos prisioneiros foi liberto. Andando pela caverna, ele percebe que havia pessoas e uma fogueira projetando as sombras que ele julgava ser a totalidade do mundo.

Ao encontrar a saída da caverna, ele tem um susto ao deparar-se com o mundo exterior (parte mais animada da música). A luz solar ofusca a sua visão e ele sente-se desamparado, desconfortável, deslocado.

Aos poucos, sua visão acostuma-se com a luz e ele começa a perceber a infinidade do mundo e da natureza que existe fora da caverna. Ele percebe que aquelas sombras, que ele julgava ser a realidade, na verdade são cópias imperfeitas de uma pequena parcela da realidade.

O prisioneiro liberto poderia fazer duas coisas: retornar para a caverna e libertar os seus companheiros ou viver a sua liberdade. Uma possível consequência da primeira possibilidade seria os ataques que sofreria de seus companheiros, que o julgariam como louco, mas poderia ser uma atitude necessária, por ser a coisa mais justa a se fazer.

E foi o que ele fez. Por isso a música retorna ao início, com o solo de sax. Desde o começo quando gravei a versão demo desta música, já imaginava um sax na parte final.

 

RtM: E sobre "People From the Otherside", que traz bastante peso, e tem na intro vozes sussurando "Help me...Help me..."?
Anadom: Essa traz o início de uma sequência: People From the Otherside, Emancipation of the Soul e Returning to Myself. É o momento mais pesado de todo o trabalho. Tentei transmitir com ela a existência de um outro mundo, onde pessoas podem estar presas após a morte e pedindo por ajuda. Almas perdidas que não estão entendendo o que está acontecendo sentindo-se perturbadas.

 

RtM: Poderíamos comentar uma a uma, mas acho que deu pra darmos uma ideia geral e alguns detalhes do trabalho, mas pra fechar, comente o encerramento com "Requiém",  com seu ar melancólico e tocante, e ao final tem uma frase, que certamente é uma homenagem.
Anadom: Essa foi composta num momento de extrema tristeza. A ideia da homenagem veio no dia da passagem de um grande amigo, com quem toquei por um bom tempo e era um dos meus ídolos na música catarinense, o saudoso poeta Daniel Lucena do grupo Expresso Rural. 

Pensei em acrescentar uma frase de guitarra, referente à música “Certos Amigos” em alguma das minhas composições, como uma breve homenagem, foi aí que o Neto sugeriu fazer uma faixa só pra ela. Resolvi usar as mesmas notas da Prelude e I Saw the Future, e acrescentar essa guitarra. A frase acrescentada ao final foi ideia do Daniel Dante Finardi, que fez um lindo arranjo  para fechar com chave de ouro esse disco.
 

RtM: E as novidades sobre o Orquídea Negra? Vocês estão preparando novas músicas? E o documentário sobre a banda?
Anadom: Com a banda estamos no momento trabalhando em mais uma música que estará presente no tributo aos anos 80, da Secret Service Records que lançou nosso último trabalho na Europa,  e também participamos nos tributos ao Motorhead com "I ain’t a Nice Guy", Black Sabbath com "Heaven and Hell" e Iron Mainden com "Prodigal Son". 

Temos ainda as duas últimas gravadas mais recentemente, "Fly Away" que já está nas plataformas digitais e "Sacrifice" que ainda não entrou, mas em breve será divulgada (essa contando com as vozes do André Graebin e Felipe Holmack). E o documentário sobre a história do Orquídea está sendo finalizado e deverá ir ao ar até fim do ano.

 

RtM: Robson, obrigado pela entrevista, fica os espaço para sua mensagem final.
Anadom: Gostaria de agradecer a você Caco e ao Road to Metal pela oportunidade que me foi dada de poder falar um pouco mais sobre esse trabalho, falando sobre alguns detalhes que muitas vezes as pessoas não ficam sabendo como acontecem e que vêm a engradecer toda obra. Aproveito também para pedir a todos que acompanham o site para conhecerem esse trabalho que foi feito com muito amor e carinho.


Entrevista: Caco Garcia








 

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