sábado, 1 de abril de 2023

Entrevista - Fernando Ribeiro (Moonspell)

 


O maior expoente do Metal de Portugal, o Moonspell, completa 30 anos de carreira. A banda desde seu início mostrou que iria surpreender a cada álbum, buscando sempre novos desafios, e passo a passo foi conquistando fãs pelos continentes. (English Version Clic Here)

A banda está já em uma tour para comemorar esses 30 anos, passando pela América Latina, inclusive Brasil, tendo uma data em terras gaúchas no dia 07/04, onde apresentará músicas de destaque de sua carreira, e dos dois últimos e elogiados álbuns, "1755" e "Hermitage". 

Aproveitamos a ocasião para conversar com o icônico vocalista Fernando Ribeiro, que com seu habitual cavalheirismo nos concedeu a entrevista que vocês conferem a seguir.



RtM: "Hermitage" já pode ser considerado um marco para a carreira da banda, e creio que vocês também acreditam nisso, pois realizaram essa ousada Ideia de tocar o álbum na íntegra, e ainda na gruta Mira D'aire.
Fernando Ribeiro: Obrigado! Acima de tudo, o Hermitage será sempre um disco especial, devido ao contexto em que foi gravado e lançado, e a uma certa “confirmação” de várias coisas que constituem o conceito literário do disco.


RtM: Fale um pouco mais sobre como surgiu essa incrível ideia de fazer esse concerto e a escolha do local.
FR: Como sabíamos que este disco, devido à pandemia, não iria ser apoiado por uma turnê de promoção, decidimos, desde logo, documentá-lo ao vivo, completo e na íntegra para que assim se fizesse alguma justiça ao disco.

As Grutas de Mira D’Aire, são um “monumento” natural que faz parte do imaginário dos Portugueses. Durante a pandemia, tornei a visitar o sítio com o meu filho e sobrinha e, como que juntei os pontos.

O cenário natural e a iluminação, parecia uma obra geológica de Bosch ou Caravaggio e achei uma ótima ideia levar ali música sobre eremitas... Primeiro, fizemos sessão de fotos, depois o vídeo para o Common Prayers e finalmente o evento ao vivo.


 
RtM: E como foi a preparação na questão de, primeiramente conseguir autorização para realizar o show na Mira D'aire? pois acredito que devem haver vários cuidados e restrições. E, claro, teve a preparação e cuidados para captação de som, a acústica, a captação  de imagens, tudo deve ter sido uma experiência bem diferente.
FR: Sim. Teve de ser um silent event, isto é, as pessoas escutavam os Moonspell através de headphones, com uma mistura sonora especialmente preparada para os fãs.

Depois, havia as questões das autorizações (Portugal é muito burocrático), eletricidade, problemas de claustrofobia do público, testes de covid, máscaras sociais, e todo o aparato de luzes e som que teve de ser pensado ao menor detalhe porque era um espaço pequeno, diferente e limitado.  
 

RtM: O Moonspell jamais se permitiu estagnar ou se limitar musicalmente, e "Hermitage" surpreende depois do maravilhoso e complexo  "1755", trazendo uma sonoridade mais progressiva, por vezes mais limpa e soturna. Comente a respeito do que inspirou a temática das letras e a sonoridade de "Hermitage".
FR: Não sei se é inquietude ou simplesmente o fato de que nunca estamos verdadeiramente satisfeitos com o que fazemos, pelo menos eu, nunca estou. No caso do Hermitage, a sonoridade foi inspirada pelo progressivo que tem sido uma influência muita clara ao Metal e ao Moonspell, especialmente, desde discos como o "Wildhoney" do Tiamat.

No meu caso eu recebi uma sacola do meu tio com TODA a discografia do Pink Floyd dos anos 70 e isso acabou por me influenciar também.

O conceito literário prende-se com a solidão à qual o mundo está voltado, a falta de comunicação e empatia entre as pessoas, que leva muita gente a isolar-se do mundo por razões diversas dos santos clássicos eremitas, e nesse contraponto se fez o disco.
Falava-se de distanciamento social, mas sem ser decretado por lei ou por emergência sanitária.
Somos como que eremitas de nós mesmos e uns dos outros.



RtM: Ainda sobre a sonoridade de "Hermitage", eu senti bastante influência do progressivo dos anos 70, inclusive depois com o lançamento do "From Down Below",  lembrei também que o Pink Floyd fez um show em Wembley no ano seguinte ao lançamento do "Dark Side of The Moon", tocando o disco na íntegra. Gostaria que você comentasse a respeito da influência desses clássicos e citasse alguns de seus favoritos. 
FR: Bem, como me referi antes, herdei toda a discografia do Pink Floyd em vinil! Escutei muito coisas como Relics, adoro o tema Set the Control to the Heart of the Sun, mas também Piper at the Gates of Dawn e claro o "Dark Side of the Moon" que é uma obra-mestra.

Também gosto muito de Emerson Lake e Palmer, por exemplo, ou post rock como Apse, A Perfect Circle ou coisas mais metaleiras como Katatonia que fazem grande música.

 
RtM: "Hermitage" também apresenta o novo baterista Hugo Ribeiro.  E referente a Hugo, como foi o contato e adaptação dele até o momento, e o que ele trouxe de novo para acrescentar à sonoridade da banda?
FR: O Hugo é o baterista mais talentoso e completo que já tocou na banda e podemos evoluir muito na complexidade das partes rítmicas e essa segurança nos permitiu ter mais imaginação e ir mais longe. Penso que o Hugo ainda tem muito para dar ao Moonspell e apenas está começando! E creio que começou com o pé direito, já que a sua performance no Hermitage é excelente.
 

RtM: Mike Gaspar acabou deixando a banda depois de todos esses anos. Como foi lidar com esse processo de mudança? Claro, entendemos que mudanças fazem parte, mas quando envolve um membro original, pode ser um pouco mais difícil. 
FR: Muito difícil. Pessoalmente, o Mike era não só o baterista de Moonspell, mas também o meu melhor amigo e cheguei a equacionar não continuar sem ele. Foi das decisões mais duras da minha vida, mas tínhamos, de fato, chegado a um ponto que não podíamos resolver. Desejo toda a sorte ao Mike e aos Seventh Storm, a sua nova banda, criada à sua imagem.

RtM: Sobre o "1755", considero não só um marco para o Metal mundial, mas um trabalho complexo, rico em história e com um clima único. Cheio de nuances épicas e instigantes. Levando a emoção a picos altíssimos. Gostaria que se possível comentassem sobre a importância e ideia criativa para um álbum tão poderoso e instigante.
FR: Foi uma coisa do momento, embora as ideias radiquem no meu passado de estudante. O disco nasce também da ausência de uma obra musical que contemplasse esse evento e todas as suas consequências sociais, políticas, artísticas e filosóficas.

Expliquei o conceito aos meus parceiros e eles entenderam logo que o som teria de ser grande e épico, quase sinfónico, e que teria de ser cantado integralmente em Português. (N. do R.: O disco conta a história do terremoto, seguido por um tsunami, que devastou Lisboa no primeiro dia de novembro do ano de 1755.)

Para nós foi muito importante, pois juntou duas paixões do Moonspell: História de Portugal e Heavy Metal. E queremos muito fazer outro disco em Português, assim que se encontre um tema.
 

RtM: Como artistas e banda consolidada, creio que desde o início vocês buscaram trazer algo inovador, se desafiar e ainda sentirem o compromisso de trazer mensagens e ideias para fazerem o seu público refletir, interpretar, instigando a curiosidade. Gostaria que vocês comentassem a respeito, e se vocês entendem que todo artista, tem que ter esse dever e também o cuidado de levar uma mensagem aos seus fãs, pois é um potencial formador de opinião. 
FR: Cada artista faz o que quer e não há que haver julgamento. Existem diversos caminhos que se podem percorrer e para mim, não vejo porque um caminho deva ser mais legítimo que outro. Se quiser citar Feuerbach ou apresentar um pato de borracha gigante no palco, a nossa missão é entreter.

Hoje em dia com toda cisão, crise e depressão que existe, um músico que consiga com que a pessoa esteja a pensar noutra coisa e focada no show e não nos problemas que tem, é um ato de imensa generosidade e empatia.

Pessoalmente, gosto da parte poética, filosófica e intelectual do Metal. Gosto de saber que o tema de Maiden "The Evil that men Do" é uma citação shakespeariana. E sigo esse caminho. Mas se outro músico quiser colocar o público fingir que está num barco viking, remando, quem sou eu para dizer que deve ser do meu modo e não do dele? Há espaço para tudo e para todos.

 

RtM: A discografia do Moonspell se mostra muito forte e diversificada. Pois a cada lançamento temos os elementos característicos, porém, com sínteses diferentes. Você escuta, sabe que é o Moonspell, mas de uma maneira renovada e diferente. Como é o processo criativo de um modo geral da banda?
FR: Somos uma banda de zeitgeist, i.e., o que está acontecendo no mundo, nas nossa vidas, o que entra ou é recuperado nas nossas biblioteca e discotecas e pela insatisfação com o que fazemos e o entusiasmo em descobrir novas melodias e, quem sabe, adicionar novos temas do Moonspell ao quotidiano das pessoas. Se tivéssemos parado nos primeiros discos, ou repetido as fórmulas, não teríamos dado ao mundo temas como Nocturna, Scorpion Flower, Breathe ou todo o 1755.
 

RtM: Vocês recentemente tiveram que cancelar a turnê europeia pela crise financeira que alguns países vêm passando. No Brasil e América do Sul em geral, não seria tão diferente, pois as crises chegam, os governantes negligenciam e o povo paga o preço infelizmente. Na visão de vocês que já rodaram o mundo, o que poderia ser feito para conter essas crises em massa que acontecem?

FR: A turnê Europeia foi realizada. A turnê dos EUA foi cancelada por falta de transporte e a do Reino Unido não vendeu bilhetes suficientes em Londres, o que foi bizarro, pois Londres sempre foi uma das cidades mais importantes para Moonspell. O que pode ser feito? Absolutamente nada. 


Temos apenas de contar com a generosidade dos fãs e depender da profundidade do seu amor pela música, e, no nosso caso para que decidam gastar o seu duramente ganho dinheiro e viver uma experiência com o Moonspell. O mundo escolheu o capitalismo e o liberalismo, sem regras, não há equilíbrio, nem base para que se experimente regular, por isso a carga será sempre em cima dos fãs e das bandas e de quem ainda investe neste tipo de negócio com pessoas, em vez de números ou algoritmos.


No nosso caso, os Moonspell optaram por baixar condições, cachês/pagamentos à banda,produção, preços de merch, para que consigamos ainda tocar para os nossos fãs. Estamos sempre a trabalhar para lhes dar o melhor.


RtM: Obrigado pelo seu tempo e por nos responder esta entrevista, que a tour pela América Latina seja muito bem sucedida, estaremos lá no Opinião em Porto Alegre, se assim o universo quiser. E para finalizar poderia nos adiantar alguma coisa do que os fãs podem esperar do próximo álbum?

FR: Muito grato pela oportunidade. E pelos votos! Vemos-nos em Porto Alegre para uma grande noite, sob o feitiço.


Iremos trabalhar num novo disco, sem pressas, algo mais simples, menos prog, regresso às canções mais emblemáticas, algo mais inteligível à primeira escuta e com o conceito à volta do poder dos livros e das palavras. Sairá em 2024, ou, no pior dos casos, em 2025.


Entrevista por: Carlos Garcia e Renato Sanson

Agradecimentos: Erick Tedesco - Tedesco Mídia

IDL Entertainment


Moonspell.com











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