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domingo, 1 de março de 2026

Cobertura de Show: Torture Squad – 13/02/2026 – Sesc Bom Retiro/SP

Um período emblemático do calendário brasileiro é o feriado prolongado do carnaval, uma comemoração tão marcante que, por consciência coletiva, foi considerada como o marco do início de um período: todo e qualquer ano só se inicia, de fato, após findar tal comemoração.

Para além disto, ele é um feriado produzido para agradar todos os tipos de públicos, de gregos a troianos: seja quem gosta de sentir o Sol escaldante atrás dos blocos, seja para quem prefere estar presente nos retiros religiosos, ou até mesmo para quem prefere curtir aquele video-game ou um Netflix no conforto dos seus lares.

Felizmente, os amantes de uma música extrema estavam bem-servidos no marco zero do Rock e do Metal no Brasil: a capital paulista. Logo no primeiro dia oficial das celebrações carnavalescas, o SESC Bom Retiro hospedou uma celebração ao Metal extremo com uma autêntica instituição do Thrash Metal nacional: o TORTURE SQUAD.

O primeiro show do ano da banda foi arquitetado de maneira diferenciada: um Teatro, ao invés do palco convencional que uma barricada de riffs agressivos e bateria avassaladora que percorrem o seu caminho, já que “diferenciada” foi a palavra de ordem para esta apresentação.


“CARNAVAL” POSSUI MAIS DE UM SIGNIFICADO NO DICIONÁRIO

Para uma parcela, o último dia 13 de fevereiro foi o primeiro show do ano, o que era causa suficiente para uma animação acima do convencional. Animação esta que pôde ser vista com o público dispersado dentro do teatro do SESC Bom Retiro, mesmo após dar o horário marcado de 20h, socializando com os seus pares. Acontece que esta sensação teria vida curta, pois apesar de ser com atraso, na exata minutagem de 20:11, as luzes se apagaram para dar início à construção de uma atmosfera apropriada.

Proferindo as primeiras notas, HELL IS COMING tem sido uma tradição quase religiosa no uso do começo dos shows do TORTURE SQUAD desde que “Devilish” foi lançado, e assim como o próprio título implica, a avalanche sonora que ela carrega é um convite para quem escuta a adentrarem os portões do Inferno, tal como ocorre no Rio Aqueronte, ponto inicial dos domínios de Hades, o Imperador dos Mortos da mitologia grega.

Sem espaço para sequer a duração de uma batida cardíaca entre uma canção e outra, FLUKEMAN é emendada logo no final da anterior, seguindo o hábito do repertório estar mais centrado no lançamento mais recente, “Devilish” (2023), cujo trabalho teve o ponto de reforçar ainda mais a mescla de duas das vertentes mais extremas do Metal desde o advento de Mayara Puertas e Rene Simionato, há mais de dez anos atrás (em 2015), respectivamente nas tarefas vocais e de guitarra.

E foi justamente Mayara, após o fim da faixa anterior, carregando o dever de manter a maior comunicação entre a banda e o público que realizou uma louvável atitude: uma quebra do protocolo formal do SESC de ver o show sentado numa cadeira. Assim que BURIED ALIVE estava para começar, a mesma tratou de convocar todos a ficarem mais próximos do palco e a curtirem a apresentação da forma como Deus (ou Satanás?) planejou. E uma nota precisa ser feita para esta aqui: a terceira faixa do último álbum carrega uma agressividade tão bem-vinda e infectante que mesmo o ser mais puro e calmo presente é altamente capaz de sentir uma fervura em seu sangue e renunciar a sua capacidade de comportamento formal e estar em linha com o seu modus operandi selvagem, já que é da selva onde nós viemos.


O QUE É CHAMADO DE “TORTURA”, PARA ALGUNS É UM LAR

Como se essa transmissão vigorosa de energia não fosse suficiente, a dupla HELLBOUND e MURDER OF A GOD veio com uma declaração de intenção. Com a alteração de posição da plateia, o quarteto capitalizou a continuação do ritual com os supramencionados petardos, lançados na forma de uma hecatombe auditiva e com o surgimento de moshes (ainda que tímidos, mas presentes) na área situada entre as cadeiras e o palco.

Assim que a total e completa escuridão governou o ambiente, um observador poderia acreditar que o clima pintado era o de um show de Black Metal, para que todos os mortais atualmente preenchendo aquele espaço do SESC Bom Retiro se tornassem um com o meio-ambiente, tal como quando o Cavaleiro de Ouro Régulus de Leão realizou tal façanha ao ascender ao Oitavo Sentido, em CAVALEIROS DO ZODÍACO. Metatextualmente, HELLBOUND serve a este propósito ambiental, mas um dos seus deveres é o de antecipar um certo show à parte que se torna tradicional nas apresentações do “Esquadrão da Tortura”.

A iluminação do palco fica superconcentrada “na cozinha” do grupo. A bateria de Amílcar Cristófaro recebe um tratamento como se ela tivesse feito bullying com ele na infância, dado o nível da “marretagem” recebida, a qual é condição sine qua non para o domínio do kit, e não é à toa que Amílcar é constantemente lembrado ser um dos melhores bateristas que nasceu em solo brasileiro nas opiniões do público em geral. Vê-lo executar um solo em seu instrumento é a pura definição de uma poesia em movimento, e se o ouvinte não sente um fogo pulsando em seu corpo ao testemunhar tal privilégio, o ouvinte em questão está vivendo a vida do jeito errado.

Ato contínuo, o paulistano tomou a frente e discursou para a plateia, prestando homenagem à cena nacional e destacando a produção acústica de nível Lamborguini, além de lamentar a ausência de Jão, membro do RATOS DE PORÃO, que infelizmente não pôde estar presente devido a um acidente de moto que o vitimou dias antes do show.


OLÁ, MI CASA ES SU CASA

Esta foi a brecha para dar as boas-vindas para outra convidada que também merece a alcunha de “especial”. Jéssica Falchi entrou no palco assim que o seu nome foi invocado. Conhecida pela sua passagem na CRYPTA, a paulista vem construindo uma reputação como uma das maiores revelações no cenário nacional, aonde quer que ela vá.

Carregando um carisma tão poderoso, ensinando aos pretendentes que tentam imitar como é que se exala entusiasmo genuíno, a sua aparição inicial veio na forma de WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS, um cover do BEATLES. Apesar da quebra quase radical de ritmo, perfazendo uma guinada de 180⁰ de um lado ao outro, reza uma das regras não escritas do universo que “a calmaria precede a tempestade”.

Provando que essa valia se mantém verdadeira com o teste do tempo, a canção do BEATLES e a sua tranquilidade foram um prelúdio para que uma das principais inspirações da monte-altense fosse lembrada na apresentação. Não é nenhuma surpresa que MARTY FRIEDMAN é um dos motivos que a fez praticar guitarra, demonstrando a honra a um dos seus antepassados, a escolha foi DRAGON MISTRESS, do seu álbum de estreia de 1988.

Ao contrário da balada (que fez com que Mayara trocasse para o vocal limpo), aqui vemos a convidada demonstrar o porquê de estar categorizada como uma revelação, não precisando utilizar palavra nenhuma para deixar isso bem claro, mas sim deixando exalar o seu talento fazer todo o falatório.

Em sequência, HORROR AND TORTURE, PULL THE TRIGGER e THE UNHOLY SPELL são uma trindade que marcam presença da mesma forma que o banho diário faz parte da cultura tupiniquim, servindo como combustível para que o Bloco do Esquadrão continuasse testando a resistência do poderio vindo dos equipamentos do SESC.

Antes delas darem o ar da graça, no entanto, é importante frisar que a vocalista aproveitou o momento para desmentir os rumores do momento, que seria a possibilidade dela integrar a banda sueca de Death Metal Melódico ARCH ENEMY, considerando os mistérios rondando a nova vocalista, deixando claro que a própria integra o TORTURE SQUAD e que o ano atual será marcado por muito trabalho por parte da banda.

EM RETROALIMENTAÇÃO, A VIDA IMITA A ARTE

Uma frase tão comum quando o pôr do Sol acontecendo ao redor das 18h é que todas as coisas boas infelizmente estão fadadas a terem um fim. Em uma realização de um autêntico gran finale, todos fomos agraciados com o retorno da presença contagiante de Jéssica para o ato final: um medley do METALLICA. Não é surpresa nenhuma que a natural de Monte Alto possui a banda dos estadunidenses como uma de suas maiores predileções em vida (ao ponto de realizar diversos covers dela nas suas contas das redes sociais), então não foi nada algo "fora de lugar" um encerramento deste calibre. Olhando em retrospecto, isso acaba sendo uma "homenagem dentro de uma homenagem" (do TORTURE SQUAD à Jéssica, de Jéssica ao METALLICA), no maior clima do filme A ORIGEM, de 2010 encontrando um paralelo à vida real.

E assim foi finalizado o "bloquinho" de Carnaval calmo e tranquilo do Esquadrão da Tortura, perfeito para os que precisam acalmar os ânimos e alcançar um estado zen que o corpo humano consegue atingir.

Assim como a NERVOSA antes deles, é comum achar estranha a performance de um dos atos do Thrash/Death ocorrer dentro de um teatro. Porém, a mensagem aqui fica clara de que esta não é uma apresentação ordinária, mas sim uma dedicatória na forma de show.

Dedicar um show aos seus antepassados que, de certa forma, detém o mesmo sangue brasileiro, é uma das atitudes mais nobres possíveis enquanto na posição não só de musicista, mas de profissional também. Isto por si só reforça o fato de que, mesmo quem tem o – este redator ousa dizer - péssimo gosto de não apreciar música extrema -, faz com que o TORTURE SQUAD mereça o respeito até mesmo por quem curte o lado oposto do espectro musical.

O TORTURE SQUAD é: Mayara Puertas (voz), Castor (baixo), Rene Simionato (guitarra) e Amílcar Cristófaro (bateria).




Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Torture Squad – setlist:

Hell Is Coming

Flukeman

Buried Alive

Hellbound

Murder of A God

Pandemonium

Raise Your Horns

While My Guitar Gently Weeps (Beatles cover; ft. Jéssica Falchi)

Dragon Mistress (Marty Friedman cover; ft. Jéssica Falchi)

Horror And Torture

Pull The Trigger

The Unholy Spell

Metallica medley (ft. Jéssica Falchi)

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Cobertura de Show: Coroner – 30/03/2025 – Santo Rock Bar/SP

Domingo memorável para o ABC paulista, receber o Coroner em Santo André na turnê de 40 anos do trio suíço, numa noite muito agradável no Santo Rock Bar — lugar que vem se destacando por trazer alguns nomes que jamais imaginaria ver pelo ABC, como Accept e Tim "Ripper" Owens. Desta vez, de forma muito assertiva, escalaram Genocídio e Torture Squad para abrirem o show, algo que sempre frizamos aqui: a importância das bandas de abertura. Ambas fizeram uma excelente apresentação, com aparelhagem de primeira, mostraram sons novos, trouxeram merchandising, conversaram com o público, autografaram discos — tudo que aproxima o público da banda e do palco.

O Genocídio começou pontualmente às 18h00, com o público ainda chegando ao local. Completando 40 anos de Death Metal, sendo um patrimônio cultural da nossa cena, divulgaram o álbum mais recente, “Fort Conviction”, de 2024, já abrindo o set. Em seguida, tocaram “Aside” e, mais à frente, “The Sole Kingdom Of My Own”. Passando por fases do começo da carreira, fizeram uma apresentação com 10 sons muito honesto e com uma sólida formação, que conta com W. Perna (lenda do underground), Murillo Leite, Wellington Simões e o recém-chegado baterista Herbert Loureiro. Destaque para “Uproar” e “Countess Bathory”, do Venom, que estão no disco “Hoctaedrom”, de 1993, gravado e produzido pelo técnico de som do Sepultura no disco “Schizophrenia”.

O Torture Squad veio na sequência, após ser anunciado no Wacken Open Air 2025, na Alemanha. A banda não deixou a desejar e soltou um repertório totalmente focado na influência sobre o Coroner dos anos oitenta. Com uma formação muito bem estabilizada, com Castor (baixo) e Amílcar (bateria) - que dispensam comentários -, May Puertas nos vocais e Rene Simionato na guitarra, a banda iniciou os trabalhos com as pedradas “Murder of a God” e “Area 51”, seguida de “Buried Alive”, do último álbum “Devilish” (2023). Em seguida veio “Horror and Torture” e “The Unholy Spell”, fechando com “Chaos Corporation”. 

O baterista Amílcar aproveitou o momento e agradeceu, com muita felicidade, a oportunidade de estarem todos ali celebrando aquele encontro. May Puertas fez uma menção ao guitarrista Cristiano Fusco, falecido em janeiro deste ano, que foi um dos fundadores e gravou os três primeiros discos. Uma pena que os sidedrops de palco tiraram a visão da bateria, quem estava na pista assistindo pelas laterais não conseguiu ver absolutamente nada do que o Amílcar executava. No geral, a banda entregou tudo nesse show e está pronta para representar o Brasil na Europa.

Foi a vez do Coroner subir ao palco e aproveitar ao máximo a qualidade sonora. Nesta segunda visita ao Brasil, o trio suíço, composto por Ron Royce (vocal e baixo), Tommy Vetterli (também conhecido como Tommy T. Baron, ex-Kreator na guitarra) e Diego Rapacchietti (bateria), trouxe um repertório que se concentrou, em grande parte, nos álbuns mais recentes da banda. As músicas apresentadas eram mais cadenciadas, arrastadas e com afinações mais baixas, mas sem perder a técnica ou se distanciando do Thrash Metal mais visceral que os consagrou nos anos oitenta com álbuns como R.I.P. (1987), Punishment for Decadence (1988) e Mental Vortex (1991). Para encerrar a apresentação, tocaram “Masked Jackal”, “Reborn Through Hate” e “Die by My Hand”, além de “Purple Haze” (cover de Jimi Hendrix), tudo executado com maestria, destacando as linhas de baixo com vocais em contratempo e solos de guitarra muito bem posicionados.

Na minha opinião, se as músicas tivessem sido distribuídas de maneira mais equilibrada ao longo do repertório, isso poderia ter trazido mais harmonia para a discografia apresentada na noite, que contou com 14 faixas. Mas isso não diminui a classe e a energia da banda, que se manteve intensa do início ao fim. Foi um privilégio poder ver tudo aquilo ao vivo. É emocionante estar tão perto e perceber que eles ainda têm muita disposição para continuar levando seu legado após mais de quarenta anos.

Por último, gostaria de destacar a Dark Dimensions, que trouxe o único show do Coroner no Brasil este ano. Também quero parabenizar a casa pelo excelente atendimento ao público e às bandas, além da qualidade do som e da iluminação do palco, que foram perfeitas para as apresentações, sempre respeitando os horários.


Texto: Roberto "Bertz"

Fotos: Johnny Z (Metal na Lata, JZ Press)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Dark Dimensions

Press: JZ Press


Torture Squad - setlist: 

Murder of a God

Area 51

Buried Alive

Horror and Torture

The Unholy Spell

Pull the Trigger

Raise Your Horns

Chaos Corporation


Coroner - setlist:

Golden Cashmere Sleeper, Part 1

Internal Conflicts

Divine Step (Conspectu Mortis)

Serpent Moves

Sacrificial Lamb

Semtex Revolution

Tunnel of Pain

Status: Still Thinking

Metamorphosis

Masked Jackal

Grin (Nails Hurt)

Bis

Purple Haze (The Jimi Hendrix Experience cover)

Reborn Through Hate

Die by My Hand

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Cobertura de Show: Dark Dimensions Fest – 25/01/2025 – Carioca Club/SP

DARK DIMENSIONS FEST: UMA AMOSTRA DO QUE O ANO CORRENTE ESTÁ PARA TRAZER A TODOS NÓS

No ano de 2025, a produtora Dark Dimensions celebra os seus 25 anos de existência. Um marco desses poderia ser comemorado de maneira "ordinária", mas diante dos períodos constantes de testes e de tribulações que estamos submissos quando se fala em ficar vivo não só no ramo da música, e considerando o nicho do Metal em um país com as dificuldades como o Brasil possui neste segmento, este definitivamente não é um feito qualquer.

E obviamente, o Rock como um todo sempre teve uma característica basilar de inclusão. Bem antes dessa pauta tomar as discussões acaloradas no dia-a-dia, seja de maneira presencial, seja no ambiente de campo de batalha que são as redes sociais, reforçando a sua característica como CONTRACULTURA, o âmbito do Metal historicamente acolheu aqueles enquadrados como "minorias".

Tempos atrás, o mais esperado era apenas citar os nomes mais comuns quando se trata de representação feminina dentro desta subcultura, como Ângela Gossow e Simone Simmons. Os mais experientes soltariam uma Sabina Classen ou as pioneiras da GIRLSCHOOL. Nos dias de hoje, porém, a realidade tem sido mudada como uma presença consideravelmente maior do que víamos num passado parcialmente recente. 

Em grande parte, um dos agentes responsáveis para esta mudança de paradigma é a poderosa NERVOSA, banda que começou o seu trajeto no ano de 2010 com um Thrash Metal bem "na sua cara", e hoje em dia pode ser categorizada como uma das principais expoentes internacionais do gênero.

Em luz de eventos recentes, a Dark Dimensions aproveitou o momentum frontal para uma celebração específica em pleno dia de aniversário da cidade de São Paulo, culminando com o 1º Dark Dimensions Fest. Reunindo o estabelecido TORTURE SQUAD, as em crescimento ESKRÖTA, THE DAMNNATION e THROW ME TO THE WOLVES, o festival contou com a 1ª aparição em terra tupiniquim dos australianos do ELM STREET. A headliner foi a supramencionada NERVOSA, celebrando o seu aniversário de 15 anos, o que só enfatiza o fato deste ser um legítimo zeitgeist.


THE DAMNNATION

Os portões do Carioca Club foram abertos para todos precisamente às 14:11, pouco após do horário estabelecido, com um calor digno da estação do Verão castigando a fila que se encontrava preenchendo a esquina para o rolê do dia.

Nos perímetros de consumação da casa, os itens esperados à venda estavam disponíveis: camisas, patches, CD, discos de vinil... as opções eram numerosas.

Tais atrações serviram para ajudar a passar o tempo até a marca pontual das 14:30, ocorrendo a 1ª abertura das correntes na tarde escaldante de Sábado para o ato inicial do festival: a THE DAMNNATION.

Mesmo com o horário cedo, havia um pessoal já presente na famosa casa de shows do Pinheiros, por mais tímido que fosse. O trio formado em 2019 por Renata Petrelli (vocais/guitarra), Fernanda Lessa (baixo) e Leonora Mölka (bateria) começou os trabalhos com uma abordagem mais direta, sem muitas cerimônias, com PARASITE. Um ponto diferencial é que, ao contrário da maioria das oferendas do tipo, é possível ouvir claramente a nitidez de cada instrumento da mescla de Thrash/Death entregue por elas.

Por mais que a presença do público estivesse ainda acontecendo, isso não impediu que Renata prestasse consideração por aqueles que já se encontravam no recinto, trajando uma respeitável camisa do KING DIAMOND.

Assim como em ABSU (porém de maneira atenuada, pois o baterista é o vocal principal), outro diferencial do THE DAMNNATION é ouvir segmentos vocais vindos da bateria de Leonora, e WAY OF PERDITION serviu para soltar um ritmo que gradualmente se elevava, o que iria pintar um clima que estava marcado no horizonte para as horas que o Dark Dimensions Fest duraria.

APOCALYPSE foi a última entrega do trio, um puro suco de Thrash Metal que toma proveito de uma clareza mais moderna, sem ignorar a forte influência vista dos primórdios do SEPULTURA.

Como em uma apresentação de teatro, as cortinas se fecharam para provocar a multidão com uma sensação de curiosidade com que acontecera nos bastidores, até a chegada da próxima atração. Este modus operandi seria uma constante por toda a duração deste evento, para que também fosse possível mirar as atenções com certas necessidades sociais e biológicas que vem com o território de um festival.


The Damnation – setlist:

Parasite

World's Curse

Grief of Death

This Pain Won't Last

Way of Perdition

Unholy Soldiers

Slaves of Society

Apocalypse


THROW ME TO THE WOLVES

O que foi visto aqui seria a última vez que veríamos o início ser dado no horário pristinamente estabelecido, já que certos imprevistos começariam a participar durante o desenrolar do festival, o que não chega a ser algo fora do habitual. Exatamente às 15:30, o palco estava povoado com os membros do 2º ato programado do Dark Dimensions Fest: o THROW ME TO THE WOLVES, a mais nova do elenco.

A abertura instrumental serviu para gerar uma continuação com CHAOS, e com o tocar das primeiras notas, os mais iniciados no Death Metal Melódico podem sacar que a inspiração que reina o quinteto vem da cena de Gotemburgo dos anos 90 lá da Suécia, personalizadas por nomes como DARK TRANQUILITY e IN FLAMES.

Por conta disto, não só por ser formada há pouco tempo, mas eles são o que menos fazem parte da predominância do Thrash, o que coloca um destaque a parte para a banda que tem apenas pouco menos de 2 anos de idade. Levando em conta como as canções são estruturadas, ponto bastante positivo por deixar que cada membro consiga ter seus momentos de destaque, em linhas gerais.

Seja em TARTARUS ou em GATES OF OBLIVION, não faltou demonstração técnica e movimentação constante entre todos os instrumentistas de cordas e do vocalista Diogo Nunes com um ótimo alcance vocal.

Gui Calegari e Lucas Oliveira formam os chamados "gêmeos das guitarras", alternando ocasionalmente entre melodias e solos, colocando seus nomes para se prestar atenção num futuro próximo pelo que fora apresentado aqui. Rodrigo Gagliardi complementa apresentando uma performance de presença, e com Maycon Avelino na posição de baterista, eles certamente vieram para ficar.

É de se lembrar que GAIA conta com a participação especial do vocalista Bjorn "Speed" Strid (conhecido pelo SOILWORK e pelo THE NIGHT FLIGHT ORCHESTRA).

Tendo já feito entusiastas no meio da vastidão, THROW ME TO THE WOLVES é um nome que ainda será pronunciado aos ouvidos dos participadores da cena, em especial quando seu álbum de estreia for lançado ainda em 2025, entitulado Days of Retribution.


Throw Me To The Wolves – setlist:

Intro

Chaos

Tartarus

Days of Retribution

Gates of Oblivion

Fragments

An Hour of Wolves

Gaia


ESKRÖTA

Com o fim iminente da apresentação anterior, era possível observar um aumento na movimentação num dos locais mais famosos do bairro Pinheiros. Em uma reprise, as cortinas se mantinham fechadas para a construção de suspense entre o que acontecia nos bastidores.

No horário exato das 16:28, a abertura das cortinas tornou a acontecer, revelando os dizeres E.S.K.R.Ö.T.A., cujo trio experiencia uma ascensão considerável, tendo tocado recentemente no ROCK IN RIO e no KNOTFEST BRASIL, e feito uma turnê com o NAPALM DEATH pela América Latina no fim do ano que se passou.

Vindo do interior paulista, o trio conta com Yasmin Amaral (vocais e guitarra), Tamyris Leopoldo (baixo e backing vocal) e Jhon França (bateria), entregando um som como se fosse um "Megazord" de Crossover, Thrash Metal e Hardcore, sendo talvez a mais diferente das 6 bandas.

A abertura com GRITA já mostra algumas características que se tornaram marga registrada da ESKRÖTA: letras ácidas, críticas e políticas, casadas com um som bem cru e direto. Em uma tentativa de promover atitudes contra platitudes, desde o show no KNOTFEST se tornou tradição ver uma leva de bolas infláveis que contam com o logotipo do super trio voando pela plateia.

E neste meio tempo, a vocalista e guitarrista Yasmin aproveita a oportunidade para comentar sobre o quão importante é o serviço promovido pelo Dark Dimensions Fest, por trazer uma participação feminina maior diante de um cenário que ainda se mantém desproporcional no caso em tela.

Reais hinos como ÉTICAMENTE QUESTIONÁVEL e CENA TÓXICA evidenciam as supramencionadas características do que se pode esperar de uma entrega da ESKRÖTA, e PLAYBOSTA já alcançou a condição de um clássico do conjunto de São Carlos e Rio Claro.

Porém, nem só de letras com cunho político compõem o seu arsenal. Com inspiração em filmes de terror, NÃO ENTRE EM PÂNICO é uma das armas vistas em seus shows, com a participação de Vicki fazendo o papel do personagem Ghostface, tanto no palco como nas rodas de mosh.

FILHA DO SATANÁS, como de costume, mostrou ser o epicentro da apresentação, com uma descarregada magnificada de energia, sem perdoar qualquer ser vivo que estivesse em seu trajeto de ataque. O encerramento ficou por conta de MULHERES, culminando com uma passada de mensagem executada com sucesso, sem contar um wall of death similar a um arrastão elevado à décima primeira potência.

Seja pelo acaso ou por design, o uso do personagem Ghostface acabou criando um tipo de gancho para o que estava por vir em seguida, deixando a partir deste ponto com que o festival chegasse à metade das atrações.


Eskröta – setlist:

Grita

Playbosta

Cena Tóxica

Episiotomia

Não Entre Em Pânico / Exorcist in the Pit (com participação de Vicki, como Ghostface)

Homem É Assim Mesmo

Mosh Feminista

Éticamente Questionável

Instagramável

Filha do Satanás

Massacre

Mulheres


ELM STREET

Pelo nome da desconhecida ELM STREET, um pode adivinhar que faz referência ao famoso filme do Freddy Krueger, "A Hora do Pesadelo" (Nightmare On Elm Street), e esse palpite estaria correto. Vinda da Austrália, ela possui algo em comum com a ESKRÖTA: foco em filmes de terror. E tem algo em comum com a NERVOSA também: eles as acompanham abrindo para a banda brasileira na turnê de 15 anos na América Latina.

Na marca exata das 17:26, se iniciou a 1ª aparição dos australianos aqui no Brasil, iniciando com A STATE OF FEAR através de um Heavy tradicional com toque moderno. Pode-se perceber aqui que a predileção por filmes de terror fica cravada nas temáticas das composições, não na estética em si. E sem demorar muito, Aaron Adie (guitarra) puxou as atenções para si com uma quantidade impressionante de solos cativantes.

Pairava um certo ar de incerteza e curiosidade entre o público presente, o que fez com que Nick Ivkovic (baixo) ficasse se "movendo nos 220v" para agitar o recinto, por várias vezes se colocando no ponto de limite que separa o palco da pista central, interagindo freneticamente, sem perder uma batida.

Ben Batres (vocal/guitarra) se prontificou em deixar claro que, apesar do nome fazer alusão a um pesadelo, não seria onde estaríamos dentro, mas sim o de um sonho de Heavy Metal tradicional com pitadas de Speed, como ocorre em HEART RACER.

Para deixar todos mais familiarizados com os membros, eles inteligentemente possuíam em seu repertório um cover do IRON MAIDEN na forma de RUNNING FREE, tudo enquanto entregavam um instrumental muito bem elaborado, o que pode fazer muitos se perguntarem o que os levaram a não terem vindo ao Brasil antes.

O mencionado instrumental era complementado por Tomislav Perkovic, que esmurrava a sua bateria com a força proporcional do seu tamanho físico.

Por fim, com uma menção honrosa a DIO, a finalização ficou por conta de METAL IS THE WAY, se consolidando como uma opção acertada e que provará surpreender aqueles que dedicarem seus tempos para conhecerem algo novo e de qualidade aprovável.

Talvez não tão nova assim porque eles já possuem um pouco mais de 15 anos de idade, o que não elimina a possibilidade de ser uma boa descoberta para quem se dispor a conhecê-los.


Elm Street – setlist:

A State of Fear

Face The Reaper

Heart Racer

Elm St's Children

Take The Night

The Last Judgement

Behind The Eyes of Evil

Running Free (Iron Maiden Cover)

Barbed Wire Metal

Heavy Metal Power

Metal Is The Way


TORTURE SQUAD

O TORTURE SQUAD não ser o headliner do evento não muda o fato de ser uma atração que sempre chama a atenção onde irá realizar uma apresentação. Afinal, quando estamos falando de veteranos com décadas de experiência que dignificam o nome do Brasil mundo afora no cenário da música extrema, é natural a criação de uma receita que tem um ingrediente básico como o seu alicerce: ouvintes que praticam a tática da fidelidade como se fosse uma necessidade natural do corpo humano, como dormir ou se alimentar.

Isso é evidenciado pelo fato de que ao redor deste momento, o Carioca Club se aproximou da lotação máxima para que todos possam ver melhor o que pode ser aprendido por esta instituição nacional do Thrash Metal. Algo que já foi aprendido, no entanto, é testemunhar um show com um ritmo bem energético, com headbangings acelerados e um teste à capacidade dos equipamentos de som, caso aguentem o tranco.

Desde o lançamento do trabalho mais recente, DEVILISH, se tornou um padrão a abertura ficar por conta de HELL IS COMING, oportunidade para a vocalista Mayara Puertas demonstrar a ampliação do seu escopo como musicista ao não ficar apenas na tarefa vocal, e sim ao ser acompanhada pelo elemento do violão. Para além dela exalar uma voz limpa, assim que ela solta a sua gutural necromântica, você entende o motivo dela ser professora nesta modalidade de canto, personificando aquela valia da vida de que ações valem mais do que palavras.

Antes do anúncio de ABDUCTION WAS THE CASE, houve a menção respeitosa sobre o falecimento recente de Cristiano Fusco, por motivo de câncer. Em sinal cortês, este foi o momento de prestar a devida homenagem pelo fundador da banda com uma de suas favoritas.

Outro ponto de foco antes que RAISE YOUR HORNS fosse tocada é a contemplação do que acontece quando alguém alcança um nível de excelência por dedicação contínua. Em um solo destruidor e de gerar admiração, não é à toa que Amílcar Christófaro é visto como um dos melhores bateristas em seu ramo em solo brasileiro, com uma habilidade quase descomunal por trás do seu kit.

WARRIOR possui um propósito triplo: não só foi o momento para elogiarmos o técnico de som, que permitiu com que as sólidas linhas de baixo de Castor fossem claramente audíveis, tornando a sua possível ausência notada, como também alterou o ar da apresentação com uma vibe mais Hard Rock. 

Foi aqui que a icônica Leather Leone (mais conhecida pela sua estada na CHASTAIN) foi convidada ao palco para dar ainda mais vigor com a sua presença exótica, ao passo de que Mayara mostrava uma vez mais seu vocal limpo e a multidão vibrava consideravelmente enquanto Leather tentava arrancar um Português.

Em HORROR AND TORTURE, além de MURDER OF A GOD antes dela, vimos oportunidades para René Simionato performar riffs frenéticos e impactantes enquanto se agita constantemente entre as dimensões do palco e nos pontos limítrofes do mesmo, ligando-se com a multidão ao redor.

Foi através de muito suor, trabalho e esforço que o TORTURE SQUAD chegou ao patamar que hoje possui erguido, e assistir um show com um nível assustadoramente exemplar de profissionalismo e de produção é razão para se ter gosto em ser um headbanger. Com a mesma certeza de que o Sol iria nascer após algumas horas, muitos chifres foram erguidos não como um procedimento qualquer, mas por um senso de orgulho.

Em atmosfera explosiva, assim foi finalizado o último ato com a clássica THE UNHOLY SPELL antes da chegada do último motivo para o rolê do dia, o que fez com que surgisse a dificuldade comum em se movimentar aos arredores da casa de shows, pois o limite de pessoas foi atingido.


Torture Squad – setlist:

Hell Is Coming

Flukeman

Buried Alive

Abduction Was The Case

Raise Your Horns

Murder of a God

Warrior (com a participação de Leather Leone)

Pull The Trigger

Horror And Torture

The Unholy Spell


NERVOSA

...E assim chegamos ao chamativo central da noite. Uma vez mais, as cortinas se mantinham fechadas para a produção de ânimo e animação generalizada entre todos ali presentes.

Desde a abertura dos portões até chegarmos aqui, mais de 6 horas haviam se passado do festival, e era fácil observar que a casa estava lotada para presenciar algo que logo provou ser um autêntico evento.

Ainda que com um atraso considerável, na marca precisa das 20:25, a escuridão completa tomou conta do local e o começo em playback da memorável SEED OF DEATH era a audição dominante, com a abertura das cortinas ocorrendo em ato contínuo. Tal abertura aconteceu com um barulho quase ensurdecedor por parte dos expectadores, ansiosos por verem a headliner desta comunhão do Metal.


- A PAZ ENVOLVENTE NUNCA FOI UMA OPÇÃO

A introdução sozinha de SEED OF DEATH pode significar uma miríade de coisas. Como o meme de internet da franquia Street Fighter "O Tema de Guile Combina Com Tudo", ela pode suplicar por um senso de empoderamento o qual as palavras falhariam em traduzir. Ou uma manifestação sonora de um renascimento das cinzas, como a ave mitológica Fênix, talvez? Este é um dos vários efeitos que a música causa no corpo humano, já que dificilmente é a mesma sensação em indivíduos diferentes.

Uma regra não escrita do universo é que a tranquilidade é sempre ameaçada pela tempestade. Com a abertura das cortinas pela última vez no dia, era possível ver Gabriela Abud lá atrás, recém-completando o seu 1º ano na NERVOSA e exalando o seu carisma quase imensurável, observando a todos por trás do seu kit. A grega Helena Kotina entrou no palco logo na sequência saudando a todos, e simultaneamente para a surpresa do povo, a holandesa Emmelie Herwegh surgiu para realizar as tarefas do baixo, substituindo Hel Pyre já no passado e aqui novamente.

Completando o quarteto, a guitarrista e fundadora Prika Amaral surge para elevar a euforia da multidão com um cumprimento que já se tornou a sua marca registrada.

Se lembra da tranquilidade ameaçada, dita agora há pouco? É exatamente o que acontece com o final da introdução da música mencionada acima, já que o Carioca Club estava na iminência de ser tomado de assalto.


- CUIDADO! OUVIR NERVOSA PEDALANDO O(A) FARÁ ULTRAPASSAR CARROS!

O esforço multinacional composto pela trindade Brasil, Grécia e Holanda se prontificou em estabelecer a tonalidade do que iria ser desvendado com a promessa do maior repertório até então executado pela NERVOSA; promessa esta que foi cumprida. Uma duração apropriada para o 1º show de celebração dos 15 anos de aniversário de um autêntico quarteto fantástico.

Para uma apresentação diferenciada, o repertório fez um passeio por todo o histórico da NERVOSA. Victim of Yourself, Agony, Downfall of Mankind, Perpetual Chaos, e naturalmente, o álbum mais recente: Jailbreak. Todos os álbuns da discografia estiveram presentes na incrível quantidade de 19 músicas apresentadas no total.

Por ser o mais recente, o alvo dos holofotes foi justamente Jailbreak (que inclusive, consta no nome da turnê de 15 anos), álbum composto durante um período muito peculiar em seu trajeto, cujo título pode ser descrito como um grito primal de liberdade.

Merece ser lembrado que, em entrevistas e coletivas de imprensa nos dias que antecederam o início dos shows em solo latino, o show de São Paulo em específico contaria com algumas surpresas únicas, o que desenhou um clima de especial logo para a 1ª data brasileira. Previamente revelado foi que o show da capital paulista seria filmado para a posteridade.

Quando BEHIND THE WALL sucedeu a abertura, certas características se tornaram um padrão: o senso de realização e alegria ao estarem ali presentes no solo do Carioca Club, porque a história não só da NERVOSA, mas do Metal nacional estava sendo feita naqueles minutos.


- AS HERDEIRAS DIRETAS DO LEGADO DO SEPULTURA

Lá no fundo, sempre animando a multidão com um alto astral capaz de rivalizar com o de um grupo de pessoas, Gabriela Abud (tendo substituído a búlgara Michaela Naydenova há pouco tempo) demonstra que a idade é um mero número, já que mesmo sendo muito nova, descarrega uma barricada de uma pessoa só ao "marretar" impiedosamente o seu kit com as linhas de bateria compostas pelas suas antecessoras (e com adicionais da própria em certas passagens, como na introdução do encerramento), comprovando que não deixa a desejar em afirmar domínio em seu instrumento.

Inicialmente introduzida como baixista em 2022 com os primeiros shows da NERVOSA após o período da pandemia que assolou os arredores do planeta, a grega Helena Kotina se mantinha em constante movimentação do palco nos intervalos de seus riffs e solos que puxavam a atenção a si devido ao vigor dos próprios, como um pré-requisito essencial, sempre no ponto de limite do palco e a pista central para agitar o local.

Uma face não desconhecida, só que pela 1ª vez em turnê no Brasil foi corporificada pela holandesa Emmelie Herwegh nas tarefas do baixo, que substituiu a grega Hel Pyre pela passagem na América Latina por questões de deveres maternais. Sua presença entra em sinergia com as demais pelo grande sorriso contínuo que não escondia ao estar compartilhando este ocorrido, trazendo a combustão emocional necessária aos presentes na casa.

Com mudanças na formação em rápida sucessão entre os dois últimos lançamentos, um chamativo para aqueles que não puderam acompanhar o SUMMER BREEZE BRASIL 2024 era o fato de presenciar os vocais apresentados pela líder Prika Amaral, quem tomou mais uma responsabilidade em suas mãos ao realizar esta tarefa enquanto performa riffs violentos no front, assim como as ocasionais tarefas de solo, como puderam ser vistas em KILL THE SILENCE e em VENOMOUS. 

Adicionalmente, em sinal de respeito, a própria mencionou a ausência de Hel Pyre e voluntariamente explicou que é pelo fato de ter que cuidar da sua filha em casa, como consideração pela membra ausente e praticando empatia por aqueles que colocam a família em primeiro lugar.

E felizmente, a aceitação de Emmelie pela nação headbanger brasileira como um todo foi, na prática, unânime.


- KINDER OVOS VÊM EM FORMATOS DIFERENTES

O repertório teve espaço para canções que já são "figurinhas carimbadas" e que definem o que a banda veio a ser. Um dos propósitos de DEATH! era deixar as pessoas mais tranquilas com as suas mudanças de tempo e para quem já acompanha a NERVOSA há anos. MASKED BETRAYER era esperada para aparecer em alguma hora, por se tornar tradição em suas apresentações, e com uma cantoria fácil de ser gravada.

A ótima PERPETUAL CHAOS (faixa-título do penúltimo álbum) traz um paradoxo: apesar de ter um ritmo menos rápido do que a maioria das que foram tocadas, ela serve como um testamento para quem tinha dúvidas quanto à qualidade com a mudança vocal. Por análise empírica, havia gente que não esperava o quão potente seria a gutural de Prika in loco, que dispensa o uso de qualquer modificação para alterar o seu efeito imponente.

Reza uma das leis da vida de que, por definição, surpresas são inesperadas. Pois bem: a 1ª delas foi a participação de Alex Camargo em UNGRATEFUL, que foi merecidamente recebido por uma recepção calorosa. Afinal, estamos falando de um veterano de um dos maiores expoentes da música extrema nacional: o grande KRISIUN. 

Era notável um certo desconforto do próprio: natural, pois ele geralmente performa com um instrumento em mãos, então vê-lo fora da sua zona de conforto foi, no mínimo, curioso. Isso não pareceu ser um problema para aqueles que estavam lá, que extraiam mais energia de seus corpos, os quais pareciam não ter.

URÂNIO EM NÓS possui um fato curioso: foi a escolha de Prika como um teste para ver se ela conseguiria tocar guitarra e realizar os deveres de canto simultaneamente. Num saldo geral, pudemos observar que sim, e a descrição desta, assim como a de outras como HOSTAGES, deu a impressão de que um flashback desde o nascimento até a chegada dos 15 anos estava sendo transmitido, contando o progresso da NERVOSA.

Eventualmente, era a hora da próxima surpresa: CULTURA DO ESTUPRO foi tocada pela 1ª vez ao vivo, contando com as presenças de Yasmin Amaral (ESKRÖTA) e de Mayara Puertas (TORTURE SQUAD) participando nos vocais, fazendo com que Prika tirasse por um tempo a sua guitarra e as acompanhassem com mais liberdade de movimentação. A presença delas não foi sem um propósito, já que as vocalistas usaram aquele instante como protesto de uma realidade que infelizmente assola todo o mundo, usando as suas vozes para demonstrarem indignação com este fenômeno.

Ver as três bangeando circularmente de forma uníssona foi um significado de arte pura.

Se aproximando do fim, o último "kinder ovo" da performance veio na forma de WAYFARER, que assim como a canção antecessora, também fora tocada pela 1ª vez nos palcos. O adendo veio com o fato dela ser cantada com a voz limpa de Prika, o que invocou muitos rostos maravilhados com esta diferença.

Apesar da fundadora ter lançado um teste à plateia ao realizar uma piada autodepreciativa questionando a sua capacidade em fazer isso em específico mais vezes, a onda sonora de entusiasmo recebida como resposta diz que sim, é uma boa ideia tal tentativa ser repetida mais vezes.

Uma apresentação de todas as membras veio na sequência, anunciando a aparição do final, embora o público não tenha demonstrado em nenhum instante que estava com as energias gastas, mesmo após mais de 7 horas de festival.


- LÁGRIMAS DE ALEGRIA NÃO SÃO SINAIS DE FRAQUEZA; SÃO UM TESTEMUNHO DE GRATIDÃO POR ESTAR VIVO

Quando se trata de violência sonora, a canção que iria encerrar esta verdadeira festa carrega esta característica desde a sua concepção. Fazendo uma ode ao gênero ao qual faz parte, e seguindo a tradição desde o lançamento mais recente, o final ficou por conta da majestosa ENDLESS AMBITION.

Sendo a última oportunidade de aproveitar o que provou ser mais do que um show comum, não foi nada incomum presenciar uma aglomeração maior no mosh no meio do Carioca Club e um headbanging mais visceral pelo grau de pancada que a canção detém. Por mais que a raça humana tenha o deleite em se autointitular como "evoluída", ENDLESS AMBITION é um lembrete amigável de que não estamos acima da agressão física (ainda que organizada).

Em oposição a um sussurro, o 1º Dark Dimensions Fest foi terminado com um imenso estouro, deixando a audiência animada o suficiente para um ovacionamento mais forte do que todos os que vieram antes deste, em êxtase por um concerto digno vindo de uma das principais embaixadoras da expressão cultural extrema brasileira que é a NERVOSA.

Ainda que mal pudessem sair do palco, e com um voo para a cidade de Recife num prazo apertado, deve ser mencionada a consideração pela audiência presente (que são os responsáveis pelo plateau que o conjunto se encontra no atual cenário) por parte de todas, mesmo que fosse um atendimento bem breve para parabenizar pela performance, uma foto de recordação ou a assinatura de algum item. Isso se manteve até o momento de fechamento da casa, até que a leva de pessoas fosse dissipada.

Desta forma, o aniversário da maior cidade da América Latina deu um recado de que o Metal Extremo está vivo e bem, e o Dark Dimensions Fest tem o potencial de se consolidar como um dos principais festivais de Metal de reconhecimento nacional, nutrindo o desejo de que o próximo tenha uma entrega de, pelo menos, no mesmo nível do que o da 1ª edição.


Texto: Bruno França

Fotos: Amanda Vasconcelos

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Dark Dimensions

Mídia Press: JZ Press


Nervosa – setlist:

Seed of Death

Behind The Wall

Death!

Nail The Coffin

Kill The Silence

Perpetual Chaos

Venomous

Ungrateful (com Alex Camargo, do Krisiun)

Masked Betrayer

Under Ruins

Hostages

Urânio Em Nós

Kill Or Die

Cultura do Estupro (com Yasmin Amaral e Mayara Puertas, da Eskröta e do Torture Squad, respectivamente)

Into Moshpit

Jailbreak

Wayfarer

Guided By Evil

Endless Ambition

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Cobertura de Show: Garganta do Diabo Festival VIII - 30/11/24

 


Um dos mais tradicionais Fests do interior do RS, o Garganta do  Diabo, fechou o mês de novembro trazendo shows de ótimo nível.  O nome do festival é em alusão ao antigo nome do extenso e altissimo vale, hoje denominado Vale do Menino Deus, na região de Santa Maria.

A oitava edição do Fest, realizado no Gárgula Bar - hoje a mais tradicional casa de eventos direcionada ao público alternativo e Rock/Metal no interior do RS - teve como Headliner o grande Torture Squad, com suas mais de três décadas de estrada, e como bandas convidadas as bandas gaúchas Soulless e Phornax.


Da nova geração do Death gaúcho, o Soulless abre a festa


Abrindo a noite no palco do primeiro piso, a Soulless de Passo Fundo (RS), mostrou seu Death Metal tradicional ao bom público já presente. 

Com uma apresentação consistente e mostrando bom entrosamento, o grupo apresentou suas composições próprias as quais estão no álbum "War and Destruction" (2024), como "Embrace The Death", que abre o play e também foi a abertura do set no Garganta do Diabo Festival, já dando o recado do que vinha pela frente, Death Metal tradicional, mesclando trechos cadenciados e marcantes a intervenções velozes.  Destacaram-se também a faixa título e a nova "Innocence Killer".  

Mostraram a que vier e deixaram uma boa impressão.


Phornax mostra ainda mais entrosamento desde o retorno ano passado.

Formada em 2009 em Porto Alegre, a Phornax surgiu como nome promissor e vinha se firmando no cenário, lançando em 2011 o EP "Silent War", porém, devido à várias questões de cunho pessoal,  a banda entrou em um hiato, retornando em 2023 para, felizmente, prosseguir a história inacabada. 

Os fundadores Cristiano Poschi (vocais) e Maurício Dariva (bateria), se uniram a Deivid Moraes (guitarra) e Uésti Papee (baixo), e já vem se apresentando em shows pelo estado e trabalhando no primeiro full-lenght da Phornax.

Mostrando segurança e um line-up já bem entrosado o quarteto mostrou técnica e peso, com seu Metal com nuances de Thrash e até Prog, desfilando com competência o set composto por músicas do EP e também mostrando novidades.

A abertura ficou por conta da intro "Smell of Death", seguida por "Silent War", faixas que também abrem o EP. Veloz e carregada de riffs marcantes, já chamou a atenção do público, inclusive pelos trechos mais intrincados, mostrando a qualidade dos músicos.

Além das demais faixas do EP, como a marcante "Final Beat" e seu forte refrão, o Phornax também mostrou algumas novas composições que estarão no vindouro full-lenght, como "A Matter of Time" e "Between Fear and Hope" e "Hells Paradise", nos dando uma amostra do que é o Phornax 2024 e deixando uma expectativa muito boa para o que vem pela frente. 

Fica o registro também para a equipe do Phornax, que auxiliou em muito no evento, e para a presença do grande Eduardo Martinez, guitarrista que passou por bandas como Panic, Hangar, Leviaethan e Lápide, e está acompanhando o Phornax, agora atuando nos bastidores.


Torture Squad encerra a noite em alto nível e com promessa de retorno 


São quase 35 anos de carreira, e a atual formação já soma 10 anos junta, e essa década serviu para transformar o quarteto em uma das mais coesas e competentes máquinas de Thrash/Death do Metal brasileiro. 

A cozinha curtida pelos anos de experiência formada pela dupla de fundadores, Castor e Amílcar, traz uma mistura de peso e técnica invejáveis, somados a qualidade de Renê Simionato na guitarra e o carisma e poder vocal de Mayara Puertas - que hoje é uma das melhores e mais seguras frontwomans do Metal brasileiro - impressionam pela qualidade de nível internacional. 

Conforme prometido, o grupo apresentou um set mesclando músicas de todos os àlbuns, fazendo um show bem especial, lembrando que o evento foi adiado devido às tragedias das chuvas no RS, então já vinha sendo muito esperado pelos fãs.

O show do Torture Squad foi no segundo piso da casa, onde há um espaço e palco maiores, e reuniu um bom público, não lotando o local, apesar da expectativa de um show sold-out.

O quarteto entrou em cena já ovacionado pelos presentes quando iniciou-se a intro que anunciava "Hell is Coming", a pedrada que abre o mais recente álbum, "Devillish" (2023), e em seguida, após outras breve intro,  emendam com mais uma desse álbum, "Flukeman". 

Mayara interagia a todo momento com o público, que até certo ponto assistia mais atento e batia cabeça moderadamente, mas foi só a vocalista começar a fazer gestos em círculos com a mão, intimando a galera a partir para o mosh, que foi prontamente atendida. 

E conforme prometido, a banda foi mandando sons de várias fases, intercalados com mais algumas do "Devillish". "Hellbound" foi uma das mais festejadas, assim como "Horror and Torture" e "Unholy Spell".

Público e banda curtiram muito o show inteiro, com a galera a todo momento indo para o Mosh ou batendo cabeça e assistindo um pouco afastado da área do mosh. As rodas eram uma festa, inclusive várias mulheres participaram, com a galera respeitando. 


Pudemos ver inclusive integrantes de bandas da cena local e das que abriram o Fest se divertindo e curtindo. Realmente,  uma grande performance do Torture.

Ao final, a banda agradeceu ao público pela noite memorável, e deixou o recado de que quer logo voltar a Santa Maria.

O quarteto ainda ficou tirando fotos e conversando com os presentes, até praticamente todos se dispensarem, mostrando muita simplicidade e simpatia, coisa que falta a muitas bandas por aí.

Fica também o registro para o local do show, o Gárgula Bar, hoje com certeza o ponto do underground e do público "alternativo". O bar tem uma decoração muito legal, mesclando temas de horror, Metal e Rock. Tem uma máquina de fliperama e pebolim, que dá aquele ar nostálgico. Local organizado, banheiros limpos, bebida gelada e preços justos. 

Que venham mais eventos com nomes de nível nacional e internacional (lembrando que na semana anterior, tivemos Eskröta e Ratos de Porão no Gárgula), e que o público compareça e apoie, a fim de viabilizar esses fests e shows no interior do estado.

Texto: Carlos Garcia 

Realização: MAD prod, com apoio do Gárgula Bar e Road to Metal

😸🐶Também foram arrecadadas rações para animais, doadas para ONGS locais, e o Road doou um saco de 10kg.






segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Cobertura de Show: Torture Squad – 29/11/2024 – Gravador Pub/RS

Cobertura: Renato Sanson

Fotos: Glauco Malta

Após 10 anos de sua última passagem pela capital gaúcha, o “Esquadrão da Tortura” retorna a Porto Alegre, desta vez para um show mais que especial, pois, se reconstruir após uma enchente não é nada fácil. Porém, aos poucos vamos recolocando a casa em ordem e a vida segue.

Originalmente o Torture Squad tocaria somente em Santa Maria, mas o show acabou sendo adiado para o dia 30/11 devido ao nosso problema climático e em contra partida a data do dia 29/11 foi adicionada para a capital gaúcha.

O local escolhido foi o excelente Gravador Pub, que também foi assolado pelas águas, mas ressurgiu das cinzas em um novo endereço, mas com a mesma proposta.

Disponibilizando uma estrutura muito boa, tendo acessibilidade e uma qualidade de som acima de muitas casas consagradas. Um local de médio porte que se torna um caldeirão com a presença dos fãs.

E na noite do dia 29/11 não foi diferente, pois o que presenciamos foi uma aula de Thrash/Death Metal e com o público presente inflamado!

Com a formação estabilizada desde 2015 com May “Undead” nos vocais, Rene Simionato nas guitarras e os incansáveis Castor (baixo) e Amilcar (bateria), o TS trazia a tour do seu mais novo álbum, “Devilish”, aclamado pela critica e fãs.

Iniciamos a noite (passado um pouco das 19h) com a banda porto-alegrense Phornax. Comemorando seus 15 anos de estrada e apresentando também sua nova formação.

Capitaneada pelo vocalista Cristiano Poschi, a banda apresentou as musicas do seu primeiro EP “Silent War” lançado em 2012, mas trouxe as novidades que teremos em 2025, as músicas novas que estarão em seu vindouro debut.

Uma apresentação sólida e um time de músicos invejáveis e muito bem entrosados. Com destaque ao poder da voz grave e potente de Cristiano. Um Heavy Metal cru, técnico e cheio de feeling. O Phornax tem tudo para conquistar o público se manter essa pegada.

Vale destacar também a qualidade de som que estava impecável, outro ponto positivo do Gravador Pub, se você é a banda de abertura ou não, isso não importa. Você tocará com uma qualidade de som decente.

O palco do Torture Squad já estava montado e com uma estrutura linda e em volta do mais recente lançamento, com um pano de fundo incrível e painéis as suas laterais que só engrandeciam ainda mais.

Então era hora do “Esquadrão” entrar em cena e aos poucos os músicos foram tomando seus lugares para iniciarem com “Hell Is Coming” e toda a sua expansão sonora que o Torture construiu nesses últimos anos e mostra o poder dessa formação já consolidada. 

Não é preciso dizer que levou os presentes a loucura e a presença de Mayara é insana, fazendo você sentir vergonha de estar curtindo o show sem bater cabeça.

Sem tempo para respirar: “Flukeman” e “Buried Alive” chegam como arrasa quarteirões e as primeiras rodas já se formam! É incrível como estas composições novas soam ainda melhores ao vivo, além de mostrar um leque de influencias em sua sonoridade já característica.

Mas foram 10 anos longe, então o set transitou por boa parte da discografia da banda e o primeiro clássico a tomar forma foi a poderosa “Hellbound” levando a casa abaixo!

Para após o excelente single “The Fallen Ones” com um show a parte de May e Rene, outro clássico entra em cena: “Abduction Was The Case” e sua destruição sonora.

Podemos dizer sem medo de errar que a dupla Castor e Amilcar formam uma das melhores “cozinhas” do meio Heavy Metal mundial é um entrosamento e técnica absurdas! Com essa reformulação da banda em 2015, podemos também afirmar que o Torture vive o seu melhor momento desde então, pois se em estúdio já provaram a sua capacidade é ao vivo que temos o teste de fogo e tanto May quanto Rene não devem em nada a seus antecessores.

Soando como se estivessem no Torture Squad desde sempre.

Ao meio do show tivemos um fato inusitado, pois o bairro em que o Gravador Pub é localizado (bairro São Geraldo) teve uma falta de luz inesperada com a banda em palco e com Amilcar tocando mesmo no escuro devido à adrenalina que estava sentindo (fato dito pós show em mais um bate-papo com o mesmo).

O que parecia que estragaria uma noite durou apenas alguns minutos,  e felizmente a luz foi reestabelecida para o massacre sonoro que teríamos em sequência com: “Storms”, “Horror And Torture”, “Chaos Corporation” e finalizando com “The Unholy Spell”.

Um show sensacional e lavando a alma dos fãs que aguardavam seu retorno a terras gaúchas.

Fica aqui o meu agradecimento a M.A.D Produtora pela ótima produção, ao Gravador Pub por ter se reconstruído e continuar com a qualidade de sempre e a todos que compareceram e brindaram juntos ao Torture Squad. Uma banda mais que consolidada e que merece muito mais holofotes e reconhecimento.