segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Siena Root – 02/12/2025 – La Iglesia/SP

O cenário underground da música psicodélica e stoner rock ganhou mais um capítulo inesquecível quando o La Iglesia, em São Paulo, recebeu a banda sueca Siena Root. Dois dias após sua apresentação como abertura para a banda japonesa Boris, eles fizeram sua estreia como atração principal na capital paulista. 

Antes de os nórdicos subirem ao palco, o protagonismo ficou por conta da banda brasileira Hammerhead Blues, um trio que tem se destacado no cenário nacional por sua mistura pesada de riffs psicodélicos e grooves marcantes. 

Formado por Otavio Cintra no baixo e nos vocais, Luiz Cardim na guitarra e William Paiva na bateria, o Hammerhead Blues entregou uma performance que serviu não só como aquecimento para o show principal, mas como um resgate de uma era especial da música. 

No setlist de oito faixas, o grupo mergulhou o público em uma viagem desde os primeiros acordes de “Hero / Roger's Cannabis Confusion”, uma abertura dupla que misturou riffs pesados e linhas de baixo groovy, com Otavio Cintra demonstrando um vocal expressivo e envolvente que comandou a noite. 

As canções “Age of Void” e “Traveller” seguiram em uma progressão crescente, destacando o trabalho preciso de Luiz Cardim na guitarra, cujos solos psicodélicos evocaram viagens, enquanto William Paiva mantinha o ritmo firme na bateria, criando uma base sólida que reverberou pelas paredes do La Iglesia. 


Destaques como “Windmill's Kiss” e “Moontale” trouxeram momentos alucinantes e jams que destacaram sua química no palco. Já “Around The Sun”, “Drifter” e o encerramento com “Thrill of The Moonrise” elevaram a intensidade, transformando o show em um momento inesquecível que deixou o público eufórico e ansioso pelo que viria a seguir com Siena Root.

Foi uma apresentação cheia de energia e impactante; a banda entregou tudo e ficou clara sua fome de palco, o que reforçou a qualidade do Hammerhead Blues.

Na sequência, o Siena Root entrou no palco já em clima de festa. A atual formação, com Zubaida Solid (vocais e teclados), Johan Borgström (guitarra), Sam Riffer (baixo) e Love Forsberg (bateria), entregou o melhor rock psicodélico e stoner, contagiando o público e estabelecendo uma conexão imediata com os fãs. 

Desde a abertura com “We (Over the Mountains)”, já ficava claro que a banda sueca estava em plena forma, trazendo seu rock vintage carregado de groove e feeling. Não foi diferente em faixas como “Tales of Independence”, “Organic Intelligence” e “There and Back Again”, que ganharam versões cheias de nuances, mostrando tanto a força instrumental quanto o entrosamento impecável entre os integrantes.

Passeando pelo seu catálogo, foi a vez de “Dusty Roads”, uma bela balada que trouxe paz e contemplação em meio à viagem quase lisérgica que os suecos proporcionavam. Durou pouco.

“Into The Woods” chegou com muita psicodelia e improvisos, fazendo a cabeça da galera. E tinha para todos os gostos: “Keeper of the Flame” e “Above the Trees” carregavam aquela vibe mais bluesy, criando uma dinâmica perfeita para a apresentação.

E o que dizer da trinca que veio a seguir? “Wishing for More”, “Time Will Tell” e “Coming Home” não deixaram pedra sobre pedra na parte mais pesada do show, trazendo à tona toda a sua influência do hard rock setentista e não deixando ninguém parado. 

O clímax veio com “Imaginary Borders” e “Root Rock Pioneers”. Esta última contou com a apresentação dos integrantes e encerrou de maneira apoteótica o show, com um duelo de teclado e guitarra ao estilo de “Lazy”, do Deep Purple.

A reação fervorosa do público, que pedia mais e mais, foi a prova do sucesso da apresentação, demonstrando o quanto a música do Siena Root ressoa com o público brasileiro. A retribuição da banda à recepção calorosa foi um dos pontos altos da noite. 

Visivelmente emocionados com o carinho e a energia trocada, os suecos decidiram estender a apresentação, presenteando os fãs com duas músicas extras que não estavam no setlist. A primeira foi “Outlander”, já conhecida pelos fãs mais dedicados e recebida com euforia. Contudo, foi a surpresa final, “Waiting for the Sun”, tocada sem aviso prévio, que selou a apresentação como lendária. 

São momentos assim que fazem uma apresentação deixar de ser apenas excelente para se tornar de fato espetacular, tudo acontecendo ali, em tempo real, diante de seus olhos. 

Em suma, o show do Siena Root foi uma aula de performance ao vivo, em que a excelência musical se uniu a uma entrega genuína com a audiência. A banda sueca mostrou ser uma força vital no cenário do rock contemporâneo, proporcionando um espetáculo que equilibra virtuosismo e alma. 

A felicidade evidente dos músicos, que se traduziu em um bis estendido, deixou claro o agradecimento sincero pela noite memorável proporcionada pelos fãs brasileiros.



Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 

Realização: Abraxas



Hammerhead Blues – setlist:

Hero / Roger's Cannabis Confusion
Age of Void
Traveller
Windmill´s Kiss
Moontale
Around Th Sun
Drifter
Thrill of The Moonrise

Siena Root – setlist: 

We (Over the Mountains)
Tales of Independence
Organic Intelligence
There and Back Again
Dusty Roads
Into the Woods
Keeper of the Flame
Above the Trees
Wishing for More
Time Will Tell
Coming Home
Imaginary Borders
Root Rock Pioneers

Bis

Outlander
Waiting for the Sun 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Avantasia – 29/11/2025 – Vibra SP/SP

Os fãs de metal viveram uma noite épica no último sábado, 29 de novembro, quando o Avantasia transformou o Vibra São Paulo em um verdadeiro universo de fantasia, emoção e riffs poderosos.  Em sua nova turnê mundial, Here Be Dragons World Tour 2025, o projeto liderado por Tobias Sammet mostrou por que é considerado um dos maiores fenômenos do metal contemporâneo.

Um pouco antes da apresentação, o grande telão de LED que seria usado no show foi gentilmente cedido pela produção para transmitir a final da Libertadores da América entre Palmeiras e Flamengo. Assim que o jogo terminou, as cortinas foram fechadas para que o palco fosse preparado para o espetáculo que estava prestes a acontecer.

Quando as luzes se apagaram e os primeiros acordes de “Creepshow” ecoaram, as cortinas se abriram novamente e ficou claro que a noite seria especial. Com luzes cinematográficas e uma banda extremamente afiada, o Avantasia entregou um espetáculo de quase três horas que prendeu o público do começo ao fim. A casa lotada respondeu com intensidade: coros, pulos, braços erguidos e muita emoção a cada refrão.

O setlist trouxe um equilíbrio perfeito entre faixas do novo álbum e clássicos queridos pelos fãs que acompanham o projeto desde os tempos de The Metal Opera. A sensação era de reencontro com uma história viva.

Em “Reach Out for the Light” — originalmente gravada pelo inigualável Michael Kiske, que infelizmente não estava nesta turnê — a excelente vocalista Adrienne Cowan assumiu os vocais e mostrou por que é considerada uma das grandes revelações da música pesada nos últimos anos. Na sequência, o vocalista do Kamelot, Tommy Karevik, interpretou com Tobias a “sombria” e enérgica “The Witch”.

Herbie Langhans, que até então estava no coral juntamente com Adrienne Cowan e Chiara Tricarico, assumiu o centro do palco para comandar “Devil in the Belfry”. Em “Phantasmagoria”, foi a vez do veterano Ronnie Atkins (Pretty Maids) mostrar a que veio, com vocais poderosos e a experiência de quem domina o gênero há décadas. Já em “Against the Wind”, Kenny Leckremo (H.E.A.T.) incendiou o local com sua energia e seu vocal impressionante. Na humilde opinião deste que vos escreve, esses dois últimos foram os grandes destaques da noite — roubaram a cena.


Tobias Sammet, sempre carismático, fez questão de conversar com o público, brincar, agradecer e reforçar o carinho que sente pelo Brasil — um dos países onde o Avantasia possui uma das bases de fãs mais leais e apaixonadas do mundo. A energia da plateia confirmava esse laço: cada interação parecia elevar ainda mais o clima épico do show.


Em “Twisted Mind”, a voz de Tommy Karevik casou muito bem com a versão originalmente gravada pelo ex-vocalista do Kamelot, Roy Khan. Na maior parte das linhas interpretadas por Tommy, se fechássemos os olhos, sentiríamos que o próprio Roy estava ali, devido à semelhança entre os dois vocalistas.

Visualmente, o espetáculo impressionou com luzes dramáticas, painéis de LED imersivos e um clima teatral que já é marca registrada do Avantasia. A qualidade do som foi outro ponto alto: firme, pesado, cristalino e muito bem mixado, permitindo que cada voz e instrumento brilhasse em seu devido lugar.

Para quem acompanha a cena do metal, ficou claro que esse show entrou para a lista dos grandes momentos internacionais de 2025 no Brasil, evidenciando que a banda funciona muito melhor em ambientes fechados do que em festivais — especialmente quando comparado aos dois últimos shows da Metal Opera que foram realizados justamente em festivais.

Antes do final do show houve também uma breve e tocante homenagem de Tobias a Andre Matos, falecido em 2019, levando o público a celebrar o saudoso vocalista brasileiro. Sempre é bonito ver Sammet demonstrando esse carinho por Andre, apesar de até o momento ele não ter participado do documentário sobre a vida do músico, cuja parte final está prevista para 2026. Vale lembrar que a última vez que Andre subiu ao palco foi justamente em um show do Avantasia, em junho de 2019 — uma semana antes de nos deixar.

“No Return”, dedicada a Andre Matos, foi tocada e cantada e uníssono por todos os presentes, que antecedeu “Lost In Space” e “Sign of the Cross”, essa última com todos no palco. 

A combinação de técnica, emoção e grandiosidade fez da noite no Vibra São Paulo uma experiência inesquecível — daquelas que os fãs comentam por anos. O Avantasia provou mais uma vez que não é apenas uma banda: é um universo inteiro, e São Paulo teve o privilégio de mergulhar nele.





Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Rider2



Avantasia – setlist:

Creepshow

Reach Out for the Light (com Adrienne Cowan)

The Witch (com Tommy Karevik)

Devil in the Belfry (com Herbie Langhans)

Phantasmagoria (com Ronnie Atkins)

Against the Wind (com Kenny Leckremo)

Dying for an Angel (com Tommy Karevik)

Avalon (com Adrienne Cowan)

Promised Land (com Kenny Leckremo e Ronnie Atkins)

Avantasia (com Tommy Karevik)

Let the Storm Descend Upon You (com Herbie Langhans e Ronnie Atkins)

The Toy Master

Twisted Mind (com Ronnie Atkins e Tommy Karevik)

The Wicked Symphony (com Tommy Karevik e Kenny Leckremo)

Shelter from the Rain (com Herbie Langhans e Kenny Leckremo)

Farewell (com Chiara Tricarico)

The Scarecrow (com Ronnie Atkins)

Bis 

No Return (com Kenny Leckremo)

Lost in Space (com Chiara Tricarico)

Sign of the Cross / The Seven Angels (com todos no palco)

Cobertura de Show: Atrocity, Arkona & Leaves' Eyes – 23/11/2025 – Carioca Club/SP

As bandas Atrocity, Arkona e Leaves’ Eyes desembarcaram em São Paulo no último dia 23 para apresentações memoráveis. Talvez devido ao grande número de eventos do gênero, o público foi modesto, mas extremamente participativo. O evento ocorreu no Carioca Club e apresentou um lineup diversificado dentro do metal extremo, com influências que vão do death metal ao folk e ao symphonic metal. A participação do público, embora reduzida, foi decisiva, já que os presentes interagiram ativamente, cantando e aplaudindo, o que contribuiu para uma atmosfera empolgante. No geral, as apresentações foram sólidas, com cada banda entregando performances competentes e fiéis ao próprio estilo, mantendo a magia que só acontecem em shows ao vivo. 

A primeira banda da noite foi o Atrocity, grupo alemão de death metal formado em 1985 em Ludwigsburg. O conjunto é conhecido pela longa trajetória no cenário underground e por mesclar elementos do metal extremo com influências industriais e góticas em fases mais recentes. Fundado por Alexander Krull, vocalista e principal compositor, o grupo conta com integrantes como Thorsten “Tadd” Bauer na guitarra, entre outros músicos que contribuíram para álbuns relevantes. Com mais de três décadas de carreira, o Atrocity influenciou o metal europeu com composições marcantes e consolidou sua posição como referência do estilo por meio de uma discografia extensa e pela constante evolução sonora.

O Atrocity iniciou sua apresentação com um atraso de quinze minutos, o que forçou o corte da música “Necropolis” para adequação ao cronograma. Apesar disso, o grupo entregou um setlist consistente, incluindo “Desecration of God”, “Death by Metal” e “Reich of Phenomena”, que destacaram tanto o vocal gutural característico de Alexander Krull quanto o peso instrumental da banda. O público, pequeno, porém dedicado, respondeu de forma intensa, especialmente durante “Faces From Beyond” e “Bleeding for Blasphemy”. No geral, o show foi poderoso e atendeu às expectativas dos fãs de metal extremo, demonstrando profissionalismo ao compensar o atraso com uma performance coesa e envolvente.

Em seguida, veio o Arkona, que é uma banda russa de pagan folk metal formada em 2002 em Moscou e que se destaca pela fusão de elementos tradicionais da cultura eslava, como flautas e percussões folclóricas, com o peso do metal extremo. Liderada por Masha “Scream” Archipova, vocalista e principal letrista, a banda conta com músicos como Sergei “Lazar” Atrashkevich na guitarra, além de outros integrantes que incorporam instrumentos étnicos às composições. Com álbuns consagrados, o Arkona obteve reconhecimento internacional ao celebrar o folclore pagão e a mitologia eslava, misturando vocais limpos e agressivos em um som marcante.

A apresentação do Arkona no Carioca Club seguiu sem imprevistos e ofereceu um show dinâmico que reforçou a proposta estética do grupo. Com um setlist que incluiu “Kob’”, “Ydi” e “Goi, rode, goi!”, a banda envolveu o público com performances enérgicas conduzidas pela presença marcante de Masha Archipova. A participação da plateia foi incrivel, especialmente durante “Khram” e “Zimushka”, criando um ambiente imersivo. O show foi bem executado, mantendo qualidade sonora e entregando uma experiência culturalmente rica que atendeu às expectativas e reforçou o apelo da banda no cenário metal brasileiro.

Fechando a noite, era a vez do Leaves’ Eyes. Banda alemã de symphonic metal formada em 2003. O grupo foi originalmente idealizado pela vocalista norueguesa Liv Kristine, ex-Theatre of Tragedy, que contribuiu com uma abordagem lírica e operística ao lado de Alexander Krull (também do Atrocity) e demais integrantes responsáveis por acrescentar elementos orquestrais e temáticas vikings ao som da banda. Com discos dedicados à mitologia nórdica e arranjos sinfônicos marcantes, o Leaves’ Eyes consolidou presença internacional e participação constante em grandes festivais.

O show do Leaves’ Eyes no Carioca Club foi uma excelente surpresa, contrastando com o peso das bandas anteriores. A apresentação destacou o caráter sinfônico e melódico do grupo, que abriu com “Chain of the Golden Horn” e incluiu “Hammer of the Gods”, “Who Wants to Live Forever” e outras faixas marcantes. A banda entregou um setlist variado, evidenciando a qualidade vocal e a presença cênica de Liv Kristine. A plateia, embora pequena, participou de forma ativa, especialmente durante “My Destiny”, sendo ainda surpreendida com doses de vodca distribuídas pela banda. Outro destaque foi a apresentação de “Song of Darkness”, faixa anunciada como parte do próximo trabalho. No geral, a performance foi excelente e reforçou o domínio de palco do grupo, sobretudo em “Sign of the Dragonhead”, momento em que Alexander surgiu com vestimentas medievais e empunhando uma espada, elevando ainda mais o clima teatral da apresentação.

Em síntese, as três bandas apresentaram shows de qualidade, mantendo o público engajado e satisfeito.  Para um domingo à noite, o lineup diversificado atraiu os fãs verdadeiros, provando que não é sobre quantidade, mas da qualidade e da entrega daqueles que contribuem para fazê-lo acontecer. 


Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Edu Lawless 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Estética Torta

Press: Acesso Music 


Atrocity – setlist:

Desecration of God

Death by Metal

Fire Ignites

Fatal Step

Spell Of Blood

Faces From Beyond

Bleeding for Blasphemy

Shadowtaker

Reich of Phenomena 


Arkona – setlist:

Kob'

Ydi

Na strazhe novyh let

Yav'

Khram

Goi, rode, goi!

Zakliatie

Zimushka


Leaves' Eyes – setlist:

Chain of the Golden Horn

Hammer of the Gods

Across the Sea

Serpents and Dragons

Edge of Steel

Who Wants to Live Forever

Sign of the Dragonhead

Song of Darkness

Realm of Dark Waves

My Destiny

Swords in Rock

Hell to the Heavens

Farewell Proud Men

Forged by Fire

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Lynch Mob: O Último Rugido

Frontiers Records (Imp.)

Por Paula Butter

A tarefa de resenhar um álbum tão importante, sempre é um desafio, primeiro por ser uma banda com muita história e que passou muitas fases do Hard Rock estadunidense e, por que não, do Rock raiz mundial? George Lynch e companhia conseguiram sobreviver com maestria por vários anos, enfrentando a era Grunge, o fortalecimento dos Pop Stars, enfim, várias décadas de mudanças. Entretanto sempre fiel ao gênero, adaptando-se ao contexto e sempre entregando aos fãs música despretensiosa e de qualidade. 

Portanto a despedida da banda não poderia ser diferente, um álbum desafiador, tanto em sua arte, quanto em suas faixas. Fica difícil definir a melhor ou a intermediária, enfim, começo com a que chamou mais atenção, os singles “Saints and Sinners” e “Dancing With The Devil” realmente foram ótimas escolhas para os primeiros lançamentos. Qualidade musical impecável, músicos afiadíssimos, vocais perfeitos, o resultado que  pode se chamar de Hard Rock atual e agradável para os ouvidos, e não somente dos fãs, para quem está começando no gênero é uma boa pedida.  

Seguimos em frente, “Love In Denial” é uma boa surpresa, bem ritmada e que traz um pouco da era Glam Rock a tona, na sequência  a desafiadora “Machine Bones”. Já em “Follow Me Down” vem aquela canção com refrões cantantes e atmosfera vintage, dando um toque diferenciado na audição do álbum. Enfim, a pérola escondida “Golden Mirror”, um instrumental fabuloso e que nos leva para outras eras. 

Na sequência “Sea Of Stones” dando um ar mais lento e alternativo, mas sem perder a linha conceitual da obra e dando destaque nas melodias e vocais, trazendo também solos de guitarra que flertam com o Blues.

Para finalizar, temos a balada “The Stranger”, não que uma música de Hard Rock possa ser considerada uma completa balada, mas me atrevo a dizer que é o mais próximo deste conceito, dentre as faixas de “Dancing With The Devil”. Finalizando com a “Bonus Track” intitulada “Somewhere”, onde todo o tradicionalismo da banda é resgatado nos minutos finais da despedida. 

Definitivamente, o Lynch Mob venceu as barreiras do tempo e conseguiu encarar com dignidade e talento, desde o início, com os cabelos compridos e calças justas, ao visual atual moderno, mas ainda arrojado, que só a maturidade traz. 

Uma despedida com “chave de ouro”, frase um tanto piegas, mas que na falta de uma melhor, continua sendo a opção que define o reconhecimento de uma vida dedicada ao Rock N’ Roll.

Frank Lopez


Entrevista - Jack Grisham (T.S.O.L): Entre Horror, Humor e Humanidade

Kitten Robot

Por Paula Butter

A Road To Metal bateu um papo descontraído com Jack Grisham, grande personalidade do punk rock horror e vocalista do T.S.O.L, e ficamos sabendo um pouco mais deste carismático californiano que inspirou várias bandas da atualidade

A entrevista aconteceu às vésperas do show da banda em São Paulo, no dia 29 de novembro de 2025, juntamente com outra banda épica, o Adolescents. 

Jack Grisham é um músico daqueles do qual você nunca esquece, carismático, sincero e disposto a responder às mais difíceis perguntas, sem perder o bom humor. Começamos com o básico, sobre seu entusiasmo ao voltar para o Brasil e qual sua relação com o público brazuca, e a resposta veio com um sorriso sincero e muitos elogios ao país e especialmente às pessoas. Ele disse que conhece muitos brasileiros que surfam com ele, e são muito bons no esporte e nas conversas, e em suas palavras atrapalhadas “muito intensas” no melhor sentido. Relatou também algumas vindas ao Brasil em grandes eventos e que sempre gostou muito da experiência. 

Com relação aos shows do T.S.O.L. e das outras bandas das quais fez parte, ele disse que as horas mais cansativas são as longas viagens que uma turnê demanda, ainda mais nesta fase da vida, mas que ainda se sente feliz e enérgico em cima do palco. Relatou ainda (com muitas risadas), que recentemente excursionou com alguns músicos alemães e fizeram juntos alguns shows em Berlim, que fica bem longe da Califórnia, e apesar da diferença cultural e linguística, foi muito divertido. 

Figura centrada nas questões sociais e políticas da atualidade, deixou claro que a fase atual do True Sounds Of Liberty está mais madura e focada em agradar aos fãs. Ao falar sobre o novo álbum da banda A-Side Graffiti, ele relata que trata-se de um apanhado de inspirações, como em uma arte feita em grafite, dele e dos integrantes da banda, em suas palavras “Fizemos canções que remetem ao que gostamos, como filmes de horror, histórias engraçadas, homenagens, inclusive tem uma dedicada ao grande Bowie, clássicos de horror, reinvenção de antigos hits, vamos fazer o que temos vontade e é isto, com certeza resultou em um ótimo álbum”. 

Jack também contou um pouco sobre a versão de “Sweet Transvestite”, que gravou com Keith Morris do Circle Jerks. Além disso, também foi produzido um videoclipe com animações para lá de irreverente e um certo humor negro.  A música original fez parte do clássico “The Horror Picture Show” de 1974, e rendeu boas risadas durante sua explicação sobre refazer este clássico, juntamente com o amigo Keith. E pode-se perceber que ele realmente colocou sangue e suor nesta faixa, tanto que a pergunta sobre a releitura de “What a wonderful World” ficou só na pauta. 

Inclusive, a banda pretende executar algumas das novas canções no show de São Paulo, juntamente com os clássicos, é claro. Aproveitando a descontração, arrisquei a pergunta sobre o set list no Brasil e se teríamos a chance de ouvir alguma canção do quarto álbum da banda “Revenge”, que ficou famoso em 1986. Porém, Grisham mostrou-se sincero em dizer que esta época não se encaixa mais na dinâmica atual da banda, falou que não se sentiria confortável em executar as canções deste álbum, mesmo porque na época, a formação da banda era outra, e não tem motivos para reviver este momento passado, e ainda afirmou que o pensamento engloba todos os músicos da banda. Atualmente, a cortesia chama atenção nas pessoas, é muito gratificante entrevistar alguém que consegue falar sobre uma fase pessoal ruim com elegância, este é Jack Grisham. 

A fim de mudar os ares da questão anterior, o assunto foi a cena do punk na Califórnia, tanto décadas atrás, quanto em 2025. Segundo o vocalista, a troca de integrantes entre as bandas é constante, e no final todos acabam se encontrando e sem mágoas, tudo muito natural, surgem projetos aqui e ali, participações em shows e tudo certo, como se fosse uma grande família. Nesta parte da entrevista, surgem nomes como Bad Religion, dentre outros gigantes do punk californiano. 

Enfim, a grande pergunta: “O Punk ainda tem alguma relevância social atualmente? Para você, o que é ser Punk em 2025?”. A questão o pegou em cheio, mas após uma pequena pausa, Grisham começou a falar no sentido mais humano da palavra. Ele disse que apesar de estarmos em uma época “politicamente correta”, o preconceito ainda existe, algumas vertentes do punk não aceitam mudanças de estilos, roupas ou modo de vida, são muito radicais, enquanto que a maioria continua achando que o punk é somente contracultura, e não se encaixa nas lutas sociais da atualidade, outros pensam ser somente uma “modinha” que insiste em continuar entre nós. Em vez de preconizar a união, o movimento acaba incentivando a desunião entre os fãs do estilo. E segundo, Jack, isto não pode acontecer, os fãs de punk precisam se unir, e também aprender gentilezas, dizer “Bom Dia” ou “Olá” para o vizinho, o colega ao lado no show de sua banda favorita, enfim, não julgar, mas sim acolher. E independente do estilo de música, a união contra as desigualdades é mais importante do que a roupa ou o som que o outro ouve. Então, para resumir, o punk atual precisa de gentileza, de informação, de acolhimento e principalmente de união.

Bom, recado dado, vamos para o final, carreira e planos futuros. Jack falou com orgulho que não possui redes sociais em seu nome pessoal, pois acredita que as pessoas conseguem fazer amizades pessoalmente e não só através das telas. Contou o dia em que conheceu um “cara que usava sapatos sem meias” e disse: “No começo achei estranho, mas no final das contas, acabamos nos encontrando eventualmente e viramos colegas. E sabe de uma coisa? Eu também passei a não usar meias (risadas) e me sinto ótimo com isto”. 

Grisham, que também é escritor e já concorreu ao cargo de governador da Califórnia, falou que no momento está escrevendo outro livro. Segundo ele, estar sempre trabalhando em algo é muito importante para se manter ativo, independente do que for, mas no momento seu foco são os shows deste ano e seu futuro livro.

E o mais importante, o recado final do músico foi: “Continuar fazendo o que gosta, independente do que seja e sempre tentar ser uma pessoa melhor e mais gentil, sem comprometer sua identidade, isto é ser punk”.

A banda T.S.O.L. vai se apresentar em São Paulo, juntamente com o Adolescents, no dia 29 de novembro, no Cine Joia. 

Os ingressos estão disponíveis através do site da Fastix: https://fastix.com.br/events/adolescents-eua-t-s-o-l-eua-em-sao-paulo

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Cobertura de Show: Picture – 23/11/2025 – Manifesto Bar/SP

Novembro está sendo um mês de celebrações! Mesmo com cancelamento do Artillery e Atrophy no Burning House no mesmo dia, o metal em São Paulo não parou e trouxe mais uma comemoração de 45 anos - após o Grave Digger na semana anterior no Carioca Club.

Desta vez, o Picture apareceu para comemorar em terras brasileiras a mesma idade de surgimento em uma passagem brilhante por São Paulo, sendo o Manifesto Bar praticamente a segunda casa do quinteto holandês (por onde fez show ano passado, além de gravar um DVD ao vivo em 2019). O público reviveu uma de suas noites mais especiais no domingo, consagrando um dos ícones absolutos do Heavy Metal europeu. 

Subiram ao palco entregando um show intenso, honesto e histórico — um daqueles eventos que lembram por que o metal clássico permanece tão vivo no Brasil. O público fiel ao estilo chegou cedo ao Manifesto Bar. 

A recente expansão da casa, agora com capacidade ampliada e som mais robusto, mostrou seu valor: a combinação de palco novo, iluminação forte e o público enérgico criou o clima ideal para uma noite de pura celebração.

Ao som nas caixas de Kashmir (Led Zeppelin) e sem grandes cerimônias, o PICTURE iniciou o show com a energia de quem nunca saiu da estrada. Com "Griffons Guard the Gold", o impacto foi imediato: guitarras afiadas, bateria firme e a presença marcante de Peter Strykes, que assumiu os vocais com autoridade absoluta. 

Sua voz, firme e melodiosa, mostrou que o frontman  estava muito bem na noite com a casa respondendo à altura! Logo nos primeiros minutos, já era possível perceber que a interação entre banda e público seria um dos pontos altos da noite.

O repertório transitou entre os clássicos que tornaram o PICTURE referência do metal europeu. Hinos antigos como “Eternal Dark”- disco que revelou a banda aos fãs brasileiros, “Lady Lightning” e “Bombers” foram recebidos como velhos amigos: refrões cantados em uníssono, braços erguidos, headbanging constante — o público brasileiro mostrou mais uma vez por que é conhecido como um dos mais apaixonados do mundo. 

Os fãs mais antigos pareciam revitalizados a cada riff familiar, enquanto os mais jovens, muitos deles vendo a banda pela primeira vez, eram carregados pela força desse heavy metal direto, sem truques, sem frescura.

A dupla de guitarristas, Len Ruygrok e Appie de Gelder, foi um espetáculo à parte. Os solos em duetos, as harmonias e os ataques sincronizados trouxeram a sensação de estar assistindo a uma verdadeira aula de metal clássico. Nada de exageros ou virtuosismo gratuito — apenas técnica, pegada e feeling. 

Na retaguarda, os veteranos Rinus Vreugdenhil (baixo) e Laurens Bakker (bateria) seguraram tudo com precisão e peso. Bakker, um dos fundadores da banda, mostrou vigor impressionante, enquanto Rinus entregou linhas sólidas que vibravam pelo chão do Manifesto que em determinado momento do show, desceu do palco foi tocar seu baixo no meio do público. 

O encerramento veio com alguns dos maiores clássicos da banda “Make You Burn” e “No No No”, levando o público ao delírio. Dezenas de vozes se uniram nos refrões, enquanto a banda tocava com a mesma energia do início do show. Quando as luzes finalmente se acenderam, ficou clara a sensação de que todos presenciaram algo único: não apenas um show, mas um marco para fãs de heavy metal tradicional.


Texto: Anderson Bellini 

Fotos: Pri Secco

Edição/Revisão: Gabriel Arruda / Roberto "Bertz"


Realização: Open The Road Agency


Picture – setlist:

Griffons Guard the Gold

Message From Hell

Blown Away

Line of Life

Lousy Lady

Diamond Dreamer

Eternal Dark

You're All Alone

The Blade

Get Back or You Fall

Bombers

Live by the Sword

Power of Evil

Heavy Metal Ears

The Hangman

Unemployed

Nighttiger

Lady Lightning

Encore:

Make You Burn

No No No