terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Megadeth: O Testamento Final de Um Gigante do Metal

 


23 de janeiro de 2026, marcará a data de lançamento do álbum de estúdio final da carreira de um dos gigantes do Metal, o titã do Thrash Megadeth,  criado e capitaneado por seu mentor Dave Mustaine em 1983. 

O álbum será precedido de uma longa turnê de despedida. Produzido por Dave Mustaine e Chris Rakestraw, este 17º álbum conta com o guitarrista Teemu Mäntysaari, o baterista Dirk Verbeuren e o baixista James LoMenzo.

Muitos dos ícones dos 70 e 80, que criaram, pavimentaram e moldaram sub-estilos no Rock Pesado e Metal, já nos deixaram, alguns se aposentaram, e muitos outros já estão na reta final da aposentadoria, então nos resta celebrar o legado e acompanhar os novos nomes que surgem, levando o estilo através de gerações.

Um marco dessa importância merece o máximo de nossa atenção, mesmo que ainda não seja o suficiente, e para essa matéria especial, três redatores do Road, de diferentes gerações, emitiram suas opiniões e prestam sua homenagem ao último testamento de Dave Mustaine e seu Megadeth. 

Parodiando uma cena de "Wayne's World", nos ajoelhamos simbolicamente a Mustaine e proferimos: "não somos merecedores", mas vamos lá, tentamos traduzir em palavras a emoção de ouvir esse derradeiro álbum. (Mas com aquela esperança de que não seja hahahahah).



"Megadeth" por Caco Garcia 


Chegará o momento em que todos os gigantes dos anos 70 e 80 infelizmente não estarão mais nos palcos, e, se não for uma daquelas despedidas momentâneas (veremos se Dave vai se aguentar ficar muito tempo sem compor), chegou a hora de Dave Mustaine, uma daquelas personalidades ímpares da história do Metal, escrever o capítulo final do seu Megadeth, com o último álbum de estúdio e derradeira tour mundial.

Propriamente auto intitulado, um fecho ao qual não são necessários títulos que expressam o sentimento do momento, ou destaque a composição que represente melhor o todo, é simplesmente um álbum do Megadeth, um gigante do Metal, o integrante do Big 4 que ostenta desde sempre o maior apuro técnico.

O álbum me remeteu à era em que Dave criou seu clássicos definitivos, Peace Sells - Rust in Peace - Countdown to Extinction e até Youthanasia, e me senti voltando aos anos 80, sentando no chão ouvindo o “Peace Sells” (ainda ouço vinis assim, sentado no chão, e viajo no tempo).

Mesmo sem a voz entrar, já sabemos que é Megadeth, tal a assinatura sonora marcante que Dave construiu, e o início com “Tipping Point” escancara isso, a identidade da banda. Une a agressividade, melodia e técnica com refino e precisão, despejando riffs e solos cortantes e de puro headbanging.

Sabemos que Dave tem o Punk como uma de suas inspirações, e já homenageou um dos ícones do estilo lá atrás, e “I Don’t Care” tem aquela pegada punk e mais direta, (e talvez, não por acaso, um título similar a uma música do Ramones). E aqui Dave também manda seu recado, que não importa o que pensem, ele tem suas convicções.

Em “Hey God?!” o refino técnico se sobressai, e traz uma levada mais meio tempo,  e é uma música em que Dave apresenta mais de suas crenças, aliás, tem muita coisa bem pessoal no álbum todo.

Em “Let There be Shred”, como o título sugere, fala muito sobre o estilo do Megadeth, que sempre valorizou a técnica, e não poupa riffs e solos arrebatadores. Aliás, temos que ressaltar que Teemu formou uma dupla afiada com Dave, e assimilou muito bem a alma da banda. Na letra, Dave descreve as sensações de estar no palco, e também aquele garoto, que “nasceu com a guitarra nas mãos”.

“Puppet Parade” tem peso, solos e mudanças de tempo típicas, com menos brilho que as demais, mas longe de ser uma peça fraca.

“Another Bad Day” é mais cadenciada, refinada e melódica, mas sem perder a pegada; na sequência, “Made To Kill” traz aquelas mudanças ágeis de ritmo e múltiplos solos, bem típicos do Megadeth clássico; “Obey The Call” é mais Dark, mas mantém a fórmula, com riff e solos em profusão, e mudanças de tempo. 

“I Am War” é pedrada vigorosa, com as nuances clássicas da banda, não tem tanto brilho, mas mantendo a qualidade geral do álbum.  

E a cortina começa a se fechar com “The Last Note”, título com aquele tom de despedida, e ela é como um último testamento, com toques quase melancólicos, trechos com guitarras acústicas dão um tom introspectivo.

Como bônus, o álbum encerra o capítulo final com a versão de Dave para uma das suas contribuições para o Metallica que, segundo ele, melhor representam a sua influência naquela fase inicial da banda, e gravar “Ride The Lightning” para este último álbum, é uma forma de prestar homenagem aos seus companheiros e onde tudo começou. Como diria o poeta, “tudo acaba onde começou”.

Mustaine trouxe aqui algumas das melhores músicas e riffs em muito tempo, creio que ao compor este álbum ele simplesmente fez sem peso ou pressão alguma, somente deixou fluir, compôs para ele e criou um trabalho do Megadeth que qualquer fã gostará de ouvir.




"Megadeth" por Gabriel Arruda 


Cada vez mais tem sido um prazer ver grandes lendas tocando ao vivo e, em alguns casos, lançando trabalhos inéditos, algo que naturalmente gera ansiedade e expectativa sobre o que está por vir, independentemente de comparações. No entanto, conforme o tempo passa, o prazo de validade dessas bandas vai se aproximando do fim. 

Para o Megadeth, esse momento parece cada vez mais próximo, já que a banda está prestes a lançar seu último álbum, seguido de uma vindoura turnê de despedida, que inclusive passará pelo Brasil no mês de maio.


Sucessor de The Sick, The Dying… And The Dead! (2022), o novo trabalho, que chega na próxima sexta-feira (23/01), carrega uma expectativa especial. Afinal, se realmente for o capítulo final, que esteja à altura de sua história. De forma homônima, sem título e trazendo apenas o emblemático Vic Rattlehead em meio às chamas na capa, o álbum faz jus à trajetória do grupo liderado por Dave Mustaine. 

Ao lado de Dirk Verbeuren (bateria), James LoMenzo (baixo) e do estreante Teemu Mäntysaari (guitarra), o Megadeth não se força a repetir formulas, apesar de haver certas influências oitentistas e noventistas em certas ocasiões, mas soando, acima de tudo, puramente Megadeth.

Em 46 minutos, o disco apresenta um trabalho de guitarras competente, algo que já fica evidente em “Tipping Point”, primeiro single e responsável por um videoclipe super bem produzido pelo brasileiro Leo Liberti, que mostra Dave Mustaine e toda a banda presos em um cativeiro. É um thrash convincente, com riffs e solos bem distribuídos, que rendem boas cotoveladas no mosh pit. 



A veia punk, somada ao vocal ameaçador de Mustaine — característica bastante explorada neste álbum — aparece em “I Don’t Care”, outra faixa lançada como single. Sim, o “faça você mesmo” funciona dentro do metal, e o Megadeth é uma das bandas que sabe aproveitar muito bem esse espírito.

A intimidadora “Hey God” e “Let There Be Shred” seguem com ainda mais punch e pegada. O clima catártico da primeira dá lugar à euforia da segunda, que poderia facilmente integrar o álbum Peace Sells… but Who’s Buying? (1986). 

Destaque para as excelentes camadas de guitarra do finlandês Teemu Mäntysaari, que caprichou neste trabalho, substituindo com meritocracia o nosso querido tesouro Kiko Loureiro, desligado da banda no final de 2023. Vale mencionar também “Puppet Parade”, uma das melhores do repertório, com linguagem mais rock n’ roll, além de “Another Bad Day”. Ambas trazem nuances mais obscuras, que logo se dissipam na esmagadora “Mad To Kill”.

Já “Obey The Call” apresenta certa semelhança com Trust, principalmente no início e no refrão de tom melancólico. Em “I Am War”, o que mais chama atenção é o riff inicial, com forte influência hard rock. O encerramento com “The Last Note”, como o próprio título sugere, soa como uma despedida — sentimento que se escancara na narração de Mustaine, acompanhada por melodias de violão clássico nos minutos finais. Porém, não termina por aí. 

Como faixa bônus, Mustaine presta uma homenagem ao Metallica, banda que o revelou, com uma versão mais moderna de “Ride the Lightning”, música que ajudou a compor quando ainda integrava o grupo. Uma bela homenagem, que mostra que o respeito e a gratidão seguem pulsando em seu coração. Ainda bem.


Não é apenas mais um disco em meio a uma carreira de 43 anos, mas sim um sincero “muito obrigado” por ajudar na evolução do heavy metal e por ter sido peça fundamental na criação de um dos subgêneros mais importantes do estilo que é o thrash metal. Gostando ou não, Dave Mustaine é um dos símbolos mais relevantes da história do heavy metal, mesmo sendo, por vezes, rabugento e ácido. 

Se este for realmente o último sinal, aproveite, aprecie e curta sem moderação.





"Megadeth" por Pedro "Rato de Show"



Neste próximo dia 23 de janeiro, o primeiro mês do ano recebe, dentre inúmeros lançamentos no mundo da música, um que certamente chega carregado de um peso simbólico. Falo do 17º e já anunciado último álbum de inéditas do Megadeth, auto-intitulado, e que, diga-se de passagem, uma tremenda tarefa aguardar mais de quatro décadas antes de finalmente produzir o famoso álbum que leva o nome da própria banda.

Tivemos a grande honra e prazer de receber o material antecipado, e posso partilhar aqui um pouco dessas primeiras impressões em contato com sua sonoridade. E logo de cara já adianto: não é o melhor trabalho do Megadeth, mas tampouco o pior. Talvez nem se faça justiça colocá-lo nesse tipo de análise, uma vez que este álbum claramente vem carregado de emoção e sentido, dada a chegada do fim de um dos Big Four do thrash metal americano, o que, por consequência, torna este disco mais sobre legado, trajetória e constância.


De um modo geral, o Megadeth reforça o status alcançado ao longo dos anos e sua inconfundível sonoridade agressiva, rápida e cheia de riffs marcantes, entregando um álbum que se conecta com o passado sem concessões no que diz respeito a fugir de sua essência.

E isso já fica visível logo de cara com Tipping Point, primeiro single lançado e primeira faixa do álbum, que simplesmente grita “Megadeth”. Uma música para lá de feliz não só pelo ritmo e pelos arranjos, que dialogam com os primeiros álbuns, mas também pela grata oportunidade de ver Teemu Mäntysaari brilhando nas execuções, entre palhetadas rápidas e um solo insano. Ao longo do álbum como um todo, ele reforça o motivo da escalação e deixa sua marca, sendo impossível chamá-lo apenas de “o substituto do Kiko”.

I Don’t Care mostra aquele lado mais punk, direto e intransigente do thrash que simplesmente pede uma roda para extravasar energia contida. Aqui já é possível ver brilhando outro nome que, sem dúvida, deixa sua marca ao longo do disco: James LoMenzo. Ainda que não seja aquele baixo extremamente visível e groovado, talvez nem seja esse o objetivo da sonoridade, mas ele se faz presente, e em diversos momentos o ritmo cortante ganha contornos de profundidade.


E se é melodia, naquele estilo música-cantada-anasalada que você quer, Hey God!, primeira música inédita no disco, parece aquela faixa que daria para ouvir o dia todo no rádio sem enjoar, seja pelos riffs hipnóticos, seja pela letra chiclete, em um andamento mais contido. Uma ótima forma de manter a versatilidade do álbum e já entregar bons picos e vales até aqui.

Na sequência, as duas últimas lançadas como single: Let There Be Shred e Puppet Parade. A primeira, o nome já entrega, é um retorno ao lado veloz e agressivo, possivelmente a melhor música para shows do álbum, daquelas que já nascem clássicas, em uma explosão de energia, vigor e peso. Já a segunda segue um caminho mais mid-tempo, narrativo e melodioso, com um lado guitarrístico mais virtuoso.

Como a maioria já pôde conferir quatro dessas cinco primeiras, é importante ressaltar outro nome que é um dos maiores destaques do álbum: Dirk Verbeuren, com controle preciso e brutal das baquetas, trazendo ritmo, cadência e velocidade quando requisitado. Mas, no fim do dia, não tem jeito: as grandes estrelas continuam sendo as guitarras, técnicas, estruturadas e velozes.

Entramos na segunda metade do álbum com outra mid-tempo chiclete, Another Bad Day, que tem aquele andamento fluido e grudento, e mal chega no segundo refrão e você já está cantando junto com o Dave. Made to Kill inicia com uma bateção frenética de Verbeuren, somada a um baixo grosso, e aquela aceleração progressiva das guitarras que dá a sensação de que o álbum não vai terminar antes de provocar um pouco mais de agressividade.



Na reta final, talvez as músicas que mais dão uma sensação de “filler”, não no sentido de realmente o serem, mas mais por não manterem a euforia dos momentos iniciais, Obey the Call traz tensão e cria uma atmosfera, mas, para mim, não funciona tão bem. A música tem sim um final mais rápido e frenético, mas olhando pro conjunto da obra, talvez pudesse se ter mantido por mais tempo a velocidade e a agressividade, em vez desse “acelera” e “freia”.

I Am War segue uma lógica melodiosa de tempo médio, com refrão chiclete. É uma boa música, dentro também da linha narrativa lírica típica do Megadeth, lidando com conflito (interno e externo) e postura, aquela atitude de “vou te mostrar do que eu sou capaz”. E, nesse sentido, esse álbum carrega muito dessa sensação, como várias músicas já mostraram até aqui.

Fechando, The Last Note traz um lado mais emotivo, de fechamento de ciclo e encerramento, mas com uma energia que parece atravessar o álbum inteiro, algo como: “vamos cair, mas vamos cair atirando”.

E claro, realmente finalizando e, de certa forma, até ofuscando o que deveria ser o fim, a faixa bônus Ride the Lightning é, sem sombra de dúvidas, uma das joias do álbum, talvez mais pelo peso simbólico do que pela sonoridade em si.

O polêmico “cover” do Metallica, da música que teve participação de Mustaine em seu breve período na banda, é bonito de se ver, principalmente vindo de uma figura que crescemos ouvindo, e de certa forma até vendo, ser essa persona egocêntrica. 

Aqui, no entanto, ele parece de fato proclamar uma homenagem no próprio fim, retornando ao seu ponto mais remoto, ao começo e ao significado histórico que duas das principais bandas do thrash metal global dividem entre si.

Não, Megadeth (o álbum) não é o melhor disco do ano, tampouco o melhor do acervo desse grande mestre dos riffs rápidos. Não estamos diante da melhor interpretação vocal de Mustaine, apesar de sua voz estar vívida, compatível com um homem de 64 anos que sobreviveu a um câncer de garganta. Não é uma voz frágil ou debilitada, mas é reflexo de décadas de contribuição ao aço, de uma vivência e corrida ímpar que devem ser consideradas e enaltecidas como tal.

No fim do dia, o álbum cumpre o que promete, sendo um retrato fiel de como o Megadeth se manteve leal à própria essência e aos fãs, ainda que, através dos anos, tenha buscado explorar, criar e experimentar, sem nunca perder de vista o que é. 


É poético, bonito e admirável ver a narrativa chegando ao fim e a forma corajosa com que Dave Mustaine decidiu iniciar esse capítulo final, que sim, ainda deve durar alguns anos no que tange aparições e shows, como dito pelo próprio, mas que, em termos de contribuição criativa ao mundo da música, passa a ter em 2026 o último capítulo de Rattlehead.

Vida longa ao Megadeth e às suas contribuições. Agora, resta a torcida para que seu próximo show em nossas terras não seja a última vez que avistemos esses Titãs por aqui. O show acontece exclusivamente em maio, no Espaço Unimed em São Paulo e já se encontra sold out.


"Megadeth" será lançado em 23 de janeiro de 2026, via Tradecraft (selo de Dave Mustaine) em parceria com o selo BLKIIBLK (parte do Frontiers Label Group) globalmente, com lançamento no Brasil pela Shinigami Records, incluindo versão em vinil.







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