sábado, 20 de dezembro de 2025

Entrevista - Duzeck: Um Leve Toque de Originalidade no Alternative Rock Brazuka

 

- Olá Jonas. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do Single “Retrovisores”, pois o material ficou de primeira...

Eu que agradeço o espaço! Ficamos muito felizes com a repercussão de “Retrovisores”. É uma música muito especial pra gente, então ver que o público e a imprensa estão abraçando o material desse jeito é extremamente gratificante.

- Como você pode descrever o trabalho na composição deste tipo de sonoridade?

A sonoridade de “Retrovisores” nasceu de maneira bem orgânica. Eu trouxe as bases e melodias principais, e a banda inteira foi moldando a música a partir disso. A ideia era misturar nossa energia, com algo mais emocional, mais maduro.

E isso tudo se conecta muito com a letra, escrita m parceria com meu pai, todas as letras da DUZECK são dele. A música precisava soar como aquilo que ela diz: força, superação e movimento pra frente.

- Eu escutei o material diversas vezes e, só após várias tentativas, consegui captar parte das suas ideias. Os fãs têm sentido este tipo de dificuldade também?

Acho que “Retrovisores” tem camadas. De primeira, muita gente sente a energia e a atmosfera da música, mas quando escutam de novo percebem outros detalhes, das letras, dos arranjos, da interpretação.

Mas isso é algo positivo. A galera comenta que cada audição traz uma sensação nova, e isso mostra que o single tem profundidade.

- Existem planos para o lançamento de “Retrovisores” no Brasil, no formato físico? Tivemos contato até agora, apenas o formato digital...

Por enquanto não temos nada fechado, mas a ideia agrada muito a gente. Se a procura continuar aumentando, é bem possível que “Retrovisores” ganhe uma versão física sim, ainda mais agora com o reconhecimento que o single vem alcançando.

- Adorei o fato de trabalharem com o português, mas isso não pode vir a atrapalhar vocês no mercado exterior?

A gente acredita que não. Hoje o público mundial está mais aberto do que nunca para ouvir artistas em diferentes idiomas. E cantar em português é algo que nos conecta com quem somos. É a nossa identidade. Se um dia fizermos algo em outra língua, será por vontade artística, não por estratégia. A autenticidade pesa muito mais do que a limitação do idioma.

- Como estão rolando os shows em suporte ao Single? A aceitação está sendo positiva?

Tem sido muito legal. “Retrovisores” funciona muito bem ao vivo. O público já canta o refrão e isso dá uma energia absurda no palco.

Além disso, temos usado os shows pra testar ideias novas, e a resposta tem sido cada vez mais positiva.

- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela se conecta com o título?

A capa começou com uma ideia do nosso grande amigo e produtor de “Retrovisores”, o Renann “Borgz”. Ele jogou o conceito inicial e eu finalizei com outros elementos.

A imagem reflete muito bem o tema da música: deixar o passado pra trás. Ela tem uma estética de movimento, de transição, como se o personagem estivesse atravessando algo e entrando em uma nova fase, exatamente o que “Retrovisores” representa pra banda.

- “Retrovisores” foi todo produzido pela banda, confere? Foi satisfatório seguirem por este caminho?

A produção foi uma mistura de autodireção com colaboração. Eu costumo produzir grande parte das nossas músicas, mas sempre troco muitas ideias com o Renann “Borgz”, que é amigo de longa data e já tocou comigo em outras bandas.

Ele sempre traz sugestões valiosas, e isso fez toda a diferença no resultado final. No fim, foi extremamente satisfatório seguir por esse caminho mais independente, mas com apoio técnico e criativo quando necessário.

- Imagino que já estejam trabalhando em novas composições. Se sim, como está se dando o processo e como ele está soando?

Sim, já estamos compondo coisas novas, já gravamos duas músicas inéditas. Em 2026 já começamos um ciclo totalmente novo, com lançamentos acompanhados de videoclipe.

O processo segue a mesma essência: eu trago as bases e ideias principais, e a banda inteira entra somando, transformando a música em algo coletivo. Já estamos ensaiando uma música nova inclusive, e a vibe está ficando insana.

- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao DUZECK... 

Muito obrigado! A gente fica feliz demais com o apoio e com esse espaço pra falar sobre o que amamos fazer. Tem muita coisa vindo por aí, e mal podemos esperar pra mostrar o próximo passo da DUZECK.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Nervosa – 05/12/2025 – Sesc Bom Retiro/SP

PRÓLOGO

O outrora longo ano de 2025 está chegando ao seu derradeiro fim, só que ele não passou despercebido, e se prontificou em cravar a sua permanência na história. O famoso meme de internet "Come to Brazil" deixou de ser um mero meme em si ao chegar aos olhos e ouvidos de vários musicistas ao redor do globo, que atendereram o chamado de inúmeros internautas tupiniquins: alguns o fizeram genuinamente, outros apenas para entrar na onda no famigerado engajamento. Enquanto 2024 saiu de cena com a tarefa de deixar o ano atual com um grau generalizado de excitação por quem tem como símbolo de paixão o universo da música, independente do gênero de preferência, invadindo o bolso dos entusiasmados sem perdão devido a avalanche de anúncios, há outra razão do porquê dele prometer ser tão especial desde a sua espera.

Justamente em 2025 que a potência conhecida como NERVOSA chega a uma década e meia de existência, e em um mundo de competição selvagem o qual todos os da chamada "indústria" querem o seu lugar no Sol, este não é um feito trivial. Apesar do seu QG estar localizado na Grécia e ter integrantes do Velho Continente, a outra metade da sua formação, e mais do que isso, o seu gênese, possuem DNA brasileiro, o que só tornou mais necessário atender o chamado do infame "Come to Brazil".

Após uma turnê pela América Latina no começo do ano comemorando este aniversário, fomos vítimas de uma atitude similar com o BLACK SABBATH meses atrás: o final de um ciclo deve ser onde tudo começou.

Só que ao contrário da banda britânica, acabar é algo atualmente impossível de entrar na cabeça da NERVOSA: na verdade, o oposto é verdadeiro, já que um novo capítulo se inicia em 2026.


ATO I: QUANDO DOIS FILHOS DA ARTE SE TORNAM UM

Dado o horário exato de 20:10 (N. do R = olhando em retrospecto, este leve atraso soa como intencional, pois forma o ano 2010 ao juntar os algarismos), a fundadora Prika Amaral surge no palco sozinha sob a égide de uma luz solitária para contar os anos de formação, como ela estava numa banda chamada INNER VOICES e na necessidade de arrumar um baterista, apareceu em cena um profissional chamado "Trash" da banda ARMAGEDDON recomendando de olhos fechados uma moça chamada Fernanda Terra, sinalizando que ela dá conta do recado. Se juntando ao time, durante um brainstorm, ambas discutiram a ideia de montar uma banda só feminina de Metal. Curiosidade revelada: a primeira vocalista foi uma indivídua chamada Rose.


Após um ano e meio de várias entradas e saídas de baixistas e vocalistas, e por indicação do então namorado Amílcar Christófaro (conhecido pelo poderoso TORTURE SQUAD), Fernanda Lira se juntou ao front após sair do HELL ARISE, possibilitando a gravação da famosa demo "2012":

"E aí logo depois, a gente começou a produzir o primeiro disco da NERVOSA - que foi o "Victim of Yourself" - e lembro que a gente se enfiava em tudo que era evento aqui em São Paulo. Gostaria de agradecer a todos vocês aqui, porque se não fossem por vocês, a gente não teria saído daqui de São Paulo, não teria saído do Brasil, e a nossa história começou aqui. Eu estou muito feliz por a gente ter começado a nossa turnê comemorativa em São Paulo e estar terminando aqui. Este é o último show da nossa turnê, e tem muitas coisas aqui para eu revelar aqui hoje. E foi assim que começou a história da NERVOSA". [aplauso da plateia] - pontuou


A aparição de uma fraca luz azulada dá o ar de sua graça, juntamente com a companhia das integrantes restantes: Gabriela Abud (bateria), Emmelie Herwegh (baixo) e Helena Kotina (guitarra) surgiram com uma visão em que pela iluminação, podia ser vista a silhueta das suas imagens, caracterizando uma introdução com um toque de suspense através de um hype crescente, um comportamento adequado que pintou o cenário que fora anteriormente planejado.

Apelando para as suas origens, MASKED BETRAYER ficou responsável por abrir o espetáculo no SESC Bom Retiro, sendo a primeira música composta pelo então trio paulista. Logo de cara, a animação das integrantes ficou desenhada em seus rostos, que apesar do aspecto formal trago por um teatro, isso não foi causa para que elas passeassem pelo palco.

Ato contínuo, foi a vez de URÂNIO EM NÓS tomar de assalto os ouvidos da multidão, e tomar de assalto o fez com sucesso, porque a porrada auditiva era condição sine qua non para deixar todos preparados para a famosa DEATH!, comumente tocada no repertório como uma das primeiras atrações para acalmar os ânimos da plateia (ou seria elevar?) em deixá-los mais familiarizados com os petardos que as acompanham, em especial com o poderio vocal envolvendo o seu refrão que desafia a sua capacidade vocal e nasal em união.


ATO II: A INCONFORMIDADE É O MEU SOFTPOWER PARA IR ALÉM

Concluído o primeiro ato, agora todas as integrantes continuaram no palco para a próxima narração conduzida pela natural de Bragança Paulista, bem como o apontar de luzes em cada uma delas. Sendo assim, a narração pela líder é continuada.

Após um sucesso maior do que o esperado pelo primeiro álbum (importante apontar que na época em que o Facebook era a rede social de escolha da maioria da população do planeta em plena era digital, o começo da NERVOSA recebeu um empurrão do próprio Schmier, do DESTRUCTION, na divulgação), o acordo com a  renomada gravadora austríaca Napalm Records foi solidificado, pavimentando o caminho para que o próximo lançamento fosse parido ao mundo. "Agony" foi concebido em 2016 momentos após a NERVOSA conseguir engatinhar a sua primeira saída ao país em 2015, culminando com a memorável aparição no famoso festival europeu da República Tcheca: o OBSCENE EXTREME.


Este segmento da retrospectiva emendou também a fase seguinte, sendo descrito por Prika como o instante em que a NERVOSA consolidou o seu som característico doravante e "se encontrou de vez" (em verbatim), abraçando o casamento do Thrash com o Death quando "Downfall of Mankind" nasceu, que foi quando a agora renomada baterista gaúcha Luana Dametto (CRYPTA, CHAOS RISING, NEPHASTO) fez parte do time, no lugar de Pitchu Ferraz (AS MERCENÁRIAS, CHAOS RISING), adicionando o ingrediente composto por linhas de bateria mais agressivas. Adicionalmente, vemos a vocalista Fernanda Lira mergulhar mais profundamente na técnica vocal do fry scream, característica compartilhada pelo lendário Chuck Schuldiner em seu álbum final do DEATH (N. do R = The Sound of Perseverance).

E agressividade é o sobrenome não registrado no cartório de HOSTAGES, cuja chuva dos pratos de ataque conduzidos por Gabriela em seu kit de bateria atacam deselegantemente à mais de 80km/h, sem se importar se o ouvinte aguenta o tranco ou não. Quem duvidava da sua capacidade ao entrar para a NERVOSA no começo do ano passado deve ter torcido o nariz múltiplas vezes, já que a sua competência é a corporificação da crença de que a idade, em inúmeros cenários, é só um mero número.


Dando sequência ao repertório, e tão esperada quanto arroz de festa, KILL THE SILENCE se tornou um dos carros-chefe da sua discografia, sempre descrita pela vocalista como direcionada às mulheres que estão passando por algum tipo de repressão abusiva, seja física ou mental. Por causa do seu ritmo elevado, nota-se aqui uma característica que já foi estabelecida desde a abertura por MASKED BETRAYER: a euforia que tomava conta das integrantes era manifestada em grande parte por Helena e Emmelie: "viradas no 220v", ambas ficavam se movimentando constantemente, e não era incomum vê-las trocando de lado. Outros sim, com as devidas oportunidades, Prika se aproximava do palco e estimulava a multidão a fazer um barulho que desafiasse a acústica exalada por seus instrumentos. Destaque que naquele instante que precede a repetição de toda a letra, as três membras com instrumentos de cordas realizaram uma dança ao estilo Hard Rock, perfazendo uma movimentação de 90º da esquerda para a direita seguindo o fluxo audível, exatamente como têm acontecido "naquela parte" de "Bestial Invasion", do DESTRUCTION.

Para deixar uma representação mais fidedigna de CULTURA DO ESTUPRO, a vocalista/guitarrista/líder deixou as suas mãos livres e confiou as atividades de guitarra apenas para Helena. A execução desta faixa em pleno dezembro ganha uma característica simbólica, pois é exatamente no período de final de ano que ocorre um aumento nos casos de violência física contra o gênero feminino (muitas das vezes arbitrariamente). Seja pelo acaso ou por design, dois dias depois a icônica Avenida Paulista tinha um encontro marcado com um protesto em massa em desfavor da escalada do feminicídio.


Assim como o Superman possui uma inibição em seus poderes graças aos bloqueios mentais que foram estabelecidos desde criança (em boa parte, pela criação dos seus pais adotivos), a impressão que fica é que ao ficar livre da tarefa de guitarra, tivemos o imenso prazer de testemunhar a gloriosa gutural de Prika alcançando o seu esplendor, devida a sua liberdade em se dedicar exclusivamente ao canto aqui.


ATO III: SUPERAÇÃO DIANTE DA FACE DA ADVERSIDADE

E então chegamos ao instante mais delicado da história da NERVOSA. Meses após a histórica apresentação no ROCK IN RIO 2019, a primeira grande ruptura na formação aconteceu. No mencionado ano, a CRYPTA foi formada como um projeto paralelo, mas que em 2020, passou a se tornar o principal norte das agora ex-integrantes Fernanda Lira e Luana Dametto. Por um truque do destino, Prika Amaral ficou total e completamente sozinha entre as membras:

"E aí lá fui eu, com este desafio. Na verdade, quando teve esta ruptura, recebi milhares de mensagens do mundo inteiro de meninas implorando pra mim: 'não deixa a NERVOSA morrer'. Isso não passava pela minha cabeça, mas foi muito importante receber essa mensagem, porque aí eu me dei conta o quanto era importante. E me ajudou a me manter firme e forte em não desistir e ter certeza de que eu estava fazendo a coisa certa.

(...) E a gente tinha todo o tempo do mundo. Não era habilidade, mas era disponibilidade, profissionalismo, experiência... vários aspectos (N. do R. = sobre encontrar outras integrantes no Brasil para substituir as que partiram). E aí lá fui eu, encontrei as meninas da Europa (N. do R = Diva Satânica, Mia Wallace e Eleni Nota), remontei a banda, e aí começou a era do PERPETUAL CHAOS." - concluiu Prika


A faixa-título do quarto lançamento da discografia possui uma característica incomum: apesar de ter um tempo mais lento do que se espera de uma canção de Thrash Metal, o peso dos instrumentos é magnificado, estimulando a produção de um headbanging um pouco mais sofisticado (ou o mais próximo disso). VENOMOUS entrou na sequência, reforçando a presença fortificada da mescla com o Death Metal adquirida desde o álbum anterior. Enquanto a líder executava o solo desta, a holandesa Emmelie aproveitava para mudar de posições com mais frequência do que o normal. É a segunda vinda dela ao Brasil, e foi até uma surpresa vê-la mais agitada do que na sua performance anterior no Carioca Club: seria a magia do ambiente brasileiro ou do quão especial foi esta apresentação como um todo? Quem sabe...?


A ordem cronológica dos acontecimentos era religiosamente seguida, tendo UNDER RUINS como sucessor natural de VENOMOUS. Um lembrete, porém, que ela antecede a elegante e devastadora GUIDED BY EVIL, uma das principais do "Perpetual Chaos". O título é proposital, em consequência do fato da sua introdução soletrar magistralmente M.A.L.I.G.N.O., cortesia do riff memorável executado através de uma sinergia entre as duas detentoras de guitarras. Esta canção é um conflito constante com a natureza ambiental, já que a sua intensidade e violência sonora fazem com que os ali presentes pudessem apreciar num ambiente como uma arena, por causa da produção de moshes que está embutida em sua concepção.

ATO IV: RAIOS CAEM DUAS VEZES NO MESMO LUGAR

Chegamos ao período contemporâneo: a fase do "Jailbreak". Conduzindo a narrativa da história da banda, Prika continua a elaborar:

"Uma das coisas mais complicadas é você gerenciar o sonho dos outros. Expectativas... muitas vezes, a maior parte das meninas não tem experiência, e quando encontram a estrada... E o fato de você estar muito tempo longe de casa, você não ter tempo de fazer nenhum hobby seu, nada... absolutamente nada. De não saber quanto que vai ganhar, de ter surpresas aí na estrada, de ter um parente doente e você estar longe... é muito difícil. E aí as meninas se dão conta: 'é o que quero, é o meu sonho, mas não nessa intensidade'. E eu aqui, mais uma vez, na missão em encontrar mais meninas fodas.

(...) Mas, antes disso acontecer, antes delas saírem, já havia um segredo que eu vinha aí guardando a sete chaves. Eu já tinha planos, quando a Fernanda e a Luana saíram da banda, já tinha planos de termos duas guitarristas na banda. Mas a banda iria passar de três para quatro meninas, a logística iria ficar muito complicada dessa maneira, então eu pensei: 'Uma nova guitarrista fica para o próximo álbum'. Mas a gente já estava trabalhando por trás de tudo.

Quando a gente lançou o PERPETUAL CHAOS, meses depois, já entrei em contato com a Helena, e a gente começou a se falar. Eu vi que ela se encaixava bem com as ideias da Nervosa, e ela estava disposta" - Prika, ao descrever sobre o processo que se passou entre o PERPETUAL CHAOS e o JAILBREAK


Após um passeio pela penúltima parte da peça, a tocante abertura na guitarra semi-acústica de SEED OF DEATH invadiu todo o local do teatro do SESC Bom Retiro sem pedir permissão para entrar nos ouvidos de quem estava presente. A frase em sua letra "Will Never Die" reflete o período mais difícil que a NERVOSA passou, e é uma declaração de intenção de que a mesma continuará viva de geração em geração, desde que passemos os seus ensinamentos adiante. E de maneira inusitada, estando próxima de acabar, a líder saiu do palco para trafegar na escadaria central entre os espectadores, estando mais próxima deles. A plateia ao redor vibrou com mais vigor enquanto Prika e Helena performavam os riffs finais.

A execução de BEHIND THE WALL foi a materialização da sensação de orgulho em todas as conquistas realizadas até agora. Não só isso, mas pelo semblante de alegria e satisfação que tudo aconteceu para chegar neste momento.


A dobradinha composta por NAIL THE COFFIN com UNGRATEFUL serviu para mostrar que a conexão entre Prika e Helena é tão evoluída que pode acontecer até via sinal wi-fi: à distância, e definitivamente não pode ser subestimada. Ligadas a um nível quase celular, uma complementa a outra da mesma forma que goiabada combina com queijo minas, sobremesa tradicional do cardápio do brasileiro.

O arco de "Jailbreak" vai dando passagem ao futuro com KILL OR DIE, uma das faixas mais "cruas" do supramencionado álbum, com um espírito Thrash bem "na sua cara" e direta, ao passo de ser um desafio indireto se o ouvinte aguenta o massacre audível que testa a capacidade de resistência das orelhas.


ATO V: UM AMANHÃ MAIS BRILHANTE

A apresentação que passou de leve a marca de 1:30h, uma das mais longas de sua história, chegou agora ao ato final. Prika deu continuidade para a última parte da narração da estrada até agora:

"Temos o privilégio de ter duas baixistas. Elas não tocam juntas, elas vão revezando entre as turnês e tudo mais. Tem um tema importante para a gente falar aqui: nossa outra baixista tem uma filhinha pequena, e nem sempre ela pode ir a todas as turnês. Ela tem que cuidar da filha dela, muito pequenininha, não tem com quem deixar, toda a situação e tudo mais. E a gente entende. E essa foi a maneira que a gente encontrou".

Continuou: "A gente se sentiu bastante perdida nesse momento. Eu não vou tirar ninguém da banda porque ficou grávida, ou porque tem um filho. Isso não é motivo para tirar ninguém da banda [N. do R. = momento em que a líder é ovacionada pela plateia]. A gente sempre pode encontrar um jeito de fazer todo mundo viver um sonho, e também dar a oportunidade para outras pessoas. Não é só a questão de colocar alguém para cobrir a nossa baixista oficial. E essa menina aqui está dando o sangue tanto quanto a outra [N. do R = aponta para Emmelie], e é por isso que nós temos duas baixistas oficiais: EMMELIE HERWEGH [N. do R = anuncia o seu nome em tom gutural, arrancando uma salva de palmas da plateia], e uma salva de palmas para a nossa baixista que não pôde estar aqui: HEL PYRE" [N. do R. = o mesmo acima] - concluiu a fundadora


Assim como Emmelie, Gabriela também é peça-chave para o futuro da NERVOSA, anunciando a chegada de SMASHING HEADS, a primeira canção com a participação de ambas. O single, lançado em comemoração do aniversário dos quinze anos, foi tocado pela primeira vez no Brasil, e não estará presente no próximo disco, sendo uma celebração das origens da banda paulistana. Graças à qualidade acústica que um SESC habitualmente oferece, aliada com a experiência na estrada do quarteto, a faixa foi executada com alta fidelidade quando comparada à sua contraparte do estúdio.

Após as devidas apresentações de cada integrante, era a sinalização de que o final estava próximo. JAILBREAK é anunciada pela guitarrista e vocalista como uma dedicação a todos aqueles que não se contentam em fazer parte de um padrão em específico, para que todos esses tenham orgulho de ser quem são, e que carreguem a bandeira mais confortável para cada um.


Como tradição desde o lançamento do álbum, o encerramento é responsabilidade da fantástica ENDLESS AMBITION. Através de ginásticas cerebrais, o ser humano como um todo tem o deleite em se achar superior aos outros, por enganações da mente ou por problemas anteriores não-resolvidos. A "brutalidade com finésse" que envolve os decibéis de ENDLESS AMBITION é um aviso de que, ainda que sejamos a raça prevalente no planeta, em determinadas situações, ainda recorremos aos nossos instintos bestiais para nos manifestarmos de maneira mais precisa e natural, resgatando o fato de que o ser humano veio da selva.

EPÍLOGO

Chegando perto de 1:40h, a apresentação mais ousada da NERVOSA até agora é um marco da música extrema brasileira dos anos atuais. Sendo o completar de um ciclo, o horizonte aparenta ser próspero para que o novo capítulo se dê início em 2026, e acontecerá logo em Janeiro, pois o primeiro single do novo lançamento verá a luz do dia.

O nível de profissionalismo que foi observado como um autêntico presente antecipado de Natal é um testamento nada silencioso de que, assim como ANGRA e SEPULTURA antes delas, é perfeitamente seguro admitir que a NERVOSA encontrou o seu merecido lugar como uma das principais embaixadores do Metal extremo do nosso país mundo afora.


É de bom grado registrar esta nota de redator: este redator, assim como grande parte do público em geral, ficou confuso do porquê que uma apresentação da NERVOSA iria acontecer no teatro de um SESC, considerando que a própria possui um público para lotar uma casa com a capacidade tranquilamente acima do limite permitido de 291 pessoas. Um Cine Jóia com as suas 1000 pessoas seria um local mais apropriado, ou talvez uma reprise do Carioca Club no começo do ano.


Porém, no exato instante em que deu 20:10, com o apagar quase total das luzes e a música de fundo parando de tocar, tudo ficou cristalmente claro. O pensamento envolvendo a ação de "contar a história da NERVOSA" não foi uma frase bonita para se fazer média. O processo mental que envolveu este desejo significava utilizar um teatro como um local apropriado para unir dois filhos das Sete Formas da Arte de uma vez só para entregar uma experiência não apenas diferenciada, mas ainda mais completa, com o exato modus operandi em um ambiente da supramencionada integrante das Artes Cênicas, combinada com uma apresentação devastadora que se tornou o padrão da potência brasileira internacional que virou a banda em questão.

...E então a ficha caiu.

Quando há um cuidado em entregar um trabalho pensando mais na sua qualidade, ao invés de apenas um número maior de vendas, este redator passa a concordar que o termo "artista" não se categoriza mais como "pretencioso" e o considera como parte do reino da realidade. Não nos foi revelado de qual cabeça veio esta ideia, mas uma coisa é certa: essa pessoa merece um aumento para ontem.


Texto: Bruno França 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Nervosa – setlist: 

Masked Betrayer

Urânio Em Nós

Death!

Hostages

Kill The Silence

Cultura do Estupro

Perpetual Chaos

Venomous

Under Ruins

Guided By Evil

Seed of Death

Behind The Wall

Nail The Coffin

Ungrateful

Kill Or Die

Smashing Heads

Jailbreak

Endless Ambition


Agradecimentos à Roberto Bisca por ceder gentilmente o repertório

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Christian Death & Gene Loves Jezebel – 12/12/2025 – Burning House/SP

Mesmo com São Paulo enfrentando problemas de energia elétrica, nada foi capaz de parar a noite intensa e memorável no Burning House. A casa cheia e o público entregue provaram que a cena gótica e post punk segue mais viva do que nunca.

O Gene Loves Jezebel entregou um show vibrante, carismático e extremamente próximo do público. Michael Aston foi o grande destaque da noite, comunicativo, afetuoso e totalmente disponível, interagiu o tempo todo, dentro e fora do palco,  cantando junto, conversando, agradecendo e criando uma conexão real com os fãs. Os outros membros acompanharam essa energia, sorrindo, respondendo ao público e curtindo cada reação da plateia. O público cantou, dançou e respondeu com entusiasmo durante o show todo.

O set do Gene Loves Jezebel foi direto e envolvente, passando por Heartache, Flame, Downhill, Cow, 20 kHz, Loving You, Bruises, Beyond Doubt, Suspicion, Gorgeous, Motion of Love e Desire, reforçando o clima nostálgico e emotivo que marcou a apresentação.

Já o Christian Death trouxe a atmosfera mais sombria e ritualística da noite. Formada por Valor Kand (vocal e guitarra), Maitri Nicolai (baixo), Matthew Anderson (guitarra) e Steve Kilroy (bateria), a banda entregou um show à altura de sua história, denso, hipnótico e intenso, mergulhando o público em sua estética gótica clássica e mantendo todos completamente envolvidos do início ao fim.

O set passou por Tales, Penance, Drowning, Become, New Messiah, Forgiven, Abraxas, Beautiful, Warning, Rise and Shine, Elegant Sleeping, Four Horsemen, Blood Moon, Romeo, Church e Heresie, sustentando uma atmosfera densa e hipnótica durante toda a apresentação.

A interação da banda com o público foi um dos pontos mais marcantes da noite. A baixista Maitri Nicolai interagiu diversas vezes, cantou junto com o público e ainda chamou fãs para subir ao palco, criando momentos espontâneos e muito próximos. Tudo isso deixou o show ainda mais especial.

A presença de palco de Valor Kand foi forte e envolvente, conduzindo o público com segurança e intensidade do início ao fim. Para fechar a noite chuvosa e escura de São Paulo de forma histórica, God Save The Queen reuniu Christian Death e Gene Loves Jezebel no palco, com todos tocando e cantando juntos. Um encerramento simbólico, emocionante e memorável, que transformou o show em um verdadeiro marco no Burning House.

Tanto o Christian Death quanto o Gene Loves Jezebel deixaram claro, em diversos momentos, o quanto foi especial tocar para o público do Burning House. A resposta calorosa da plateia, a casa cheia e a entrega dos fãs criaram um clima de proximidade que as bandas sentiram do palco.

O Gene Loves Jezebel se mostrou visivelmente à vontade. Michael Aston falou mais de uma vez sobre o carinho recebido, agradeceu o público e demonstrou entusiasmo genuíno em estar ali. A banda tocou solta, sorrindo, interagindo e aproveitando cada reação, como quem realmente estava curtindo aquele momento com os fãs brasileiros.

Já o Christian Death também deixou evidente o quanto se sentiu acolhido. A conexão com o público foi intensa e constante, com trocas diretas durante o show e uma atmosfera de respeito e entrega mútua. A banda absorveu a energia da casa e devolveu em forma de um show forte, emocional e próximo, mostrando gratidão por cada resposta da plateia.

Foi uma noite em que ficou claro que o público do Burning House não foi apenas espectador, mas parte ativa do espetáculo. A troca entre bandas e fãs transformou o show em algo maior, especial e inesquecível para todos os envolvidos. Uma noite pesada, íntima e inesquecível.


Texto e Fotos: Monise Bianchi

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Dark Dimensions 

Press: JZ Press


Gene Loves Jezebel – setlist: 

Heartache 

Always a Flame

Downhill Both Ways

Cow

Twenty Killer Hurts

Loving You Is the Best Revenge 

Bruises 

Beyond Doubt

Suspicion

Gorgeous

The Motion of Love

Desire


Christian Death – setlist: 

Tales of Innocence

Penitence Forevermore

The Drowning 

We Have Become

New Messiah

Forgiven

Abraxas We Are

Beautiful

The Warning

Rise and Shine

Elegant Sleeping

Four Horsemen 

Blood Moon

Romeo's Distress

Church of No Return

This Is Heresy

God Save the Queen (Sex Pistols cover)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Mayhem – 07/12/2025 – Vip Station/SP

Após três anos de sua última apresentação em São Paulo, o Mayhem desembarcou na Vip Station para uma celebração de quatro décadas de história, controvérsia e pura escuridão sonora. A banda norueguesa, precursora do black metal, voltou ao Brasil para comemorar seu 40º aniversário, e o que ocorreu foi uma viagem ao submundo através de seu vasto e impactante catálogo. Apesar de um atraso de uma hora devido a problemas de voo vindos do Chile, que poderia ter abalado o ânimo de qualquer público, a energia e a expectativa na Vip Station permaneceram inabaláveis, provando que a aura dos noruegueses é capaz de transcender qualquer contratempo.

Com a formação atual composta por Attila Csihar nos vocais, Teloch e Ghul nas guitarras, Necrobutcher no baixo e Hellhammer na bateria, o Mayhem subiu ao palco para entregar uma performance visceral. O set principal mergulhou em diversas fases da banda, começando com a agressividade de “Malum” e “Bad Blood”, que imediatamente acenderam a chama da intensidade. Faixas como “MILAB”, “Psywar” e “Illuminate Eliminate” demonstraram a evolução sonora da banda, mesclando a brutalidade característica com elementos mais complexos, enquanto a execução impecável da formação atual garantia que cada riff e batida atingisse o público com a força de um tridente vindo direto do inferno.

A atmosfera sombria intensificou-se ainda mais com a sequência de clássicos que definiram a trajetória do Mayhem. “Chimera” e “My Death” prepararam o terreno para a avalanche de hinos que viria a seguir. Os fãs responderam com fervor e rodas a cada nota de “Crystalized Pain in Deconstruction”, “View From Nihil” e “Ancient Skin”, evidenciando a profunda conexão do público com a obra da banda. Contudo, foi com “Symbols of Bloodswords”, “Freezing Moon” e a transcendental “Life Eternal” que o show atingiu um pico de imersão, culminando na execução majestosa da faixa-título “De Mysteriis Dom Sathanas”, um verdadeiro pilar do black metal. A inclusão de “Funeral Fog”, com o backing track vocal de Dead, foi um momento arrepiante, uma ponte direta com o passado sombrio e reverenciado da banda.

A chegada do encore veio para coroar esse momento, e foi então que o baixista Necrobutcher, em uma demonstração de pura camaradagem e respeito pela história da banda, dirigiu-se à plateia dizendo que a celebração dos 40 anos não estaria completa sem a presença de Messiah e Manheim. Assim, para delírio dos presentes, os ex-integrantes originais Messiah (vocais) e Manheim (bateria) subiram ao palco, prontos para reescrever um capítulo da história do black metal ao vivo.

O Deathcrush EP foi o foco do encore, e a execução foi nada menos que lendária. A introdução de “Silvester Anfang” criou um prelúdio sombrio e hipnotizante antes que a explosão de “Deathcrush” tomasse conta do ambiente, com Messiah no vocal e Manheim na bateria, transportando a todos para as raízes mais cruas e primitivas do Mayhem. A energia contagiante continuou com “Chainsaw Gutsfuck” e “Necrolust”, nas quais a química entre os membros originais e a intensidade da performance foram inegáveis. O ápice da noite, no entanto, ocorreu com “Pure Fucking Armageddon”, que contou com a participação de Attila Csihar e Messiah nos vocais, com Manheim mantendo a brutalidade implacável. Ver duas eras dos vocais do Mayhem compartilhando o palco foi um momento histórico e eletrizante, uma prova da duradoura e complexa linhagem da banda.

No fim, a impressão geral foi unânime: a apresentação foi uma verdadeira aula de história do black metal. O atraso inicial, rapidamente esquecido, apenas serviu para intensificar a expectativa de uma noite que reuniu lendas e celebrou a arte sombria do Mayhem. A fusão do passado e do presente no palco, com a formação atual e os membros originais, criou um evento que ficará gravado na memória dos fãs como um dos momentos mais significativos da trajetória da banda no Brasil. 

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Roberto Sant'Anna

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Caveira Velha Produções


Mayhem – setlist:

Malum

Bad Blood

MILAB

Psywar

Illuminate Eliminate

Chimera

My Death

Crystalized Pain in Deconstruction

View From Nihil

Ancient Skin

Symbols of Bloodswords

Freezing Moon

Life Eternal

De Mysteriis Dom Sathanas

Funeral Fog

Silvester Anfang 

Deathcrush (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria)

Chainsaw Gutsfuck  (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria))

Necrolust (com Messiah nos vocais e Manheim na bateria))

Pure Fucking Armageddon (com Messiah e Attila nos vocai;  Manheim na bateria)

domingo, 14 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: P.O.D. – 09/12/2025 – Tork N' Roll/CWB

P.O.D. e Demon Hunter lotam o Tork N´Roll em pelo alerta de tempestades em Curitiba

Novamente, o começo de semana foi de comemoração em Curitiba, as bandas estadunidenses P.O.D. e Demon Hunter aquecem os motores dos headbangers em plena terça-feira, dia 09 de dezembro de 2025, com sua turnê conjunta, muito aguardada por aqui. A mesma é apresentada como um encontro de gerações e estilos, sendo o P.O.D., com suas três décadas de estrada e mostrando seu Nu Metal e Rock Alternativo e o excepcional Demon Hunter, contrastando com seu Metalcore e com temáticas Cristãs. Conforme algumas mídias aqui no Brasil, a iniciativa é descrita por produtores e fãs como histórica, devido à combinação de trajetórias longas e estilos complementares.

Apesar de pouco espaço disponível para descrever este encontro, não pela tecnologia, mas sim, em prol da paciência de nossos leitores, vamos tentar ser breve. A casa de eventos escolhida foi o Tork N´Roll, que atualmente reina absoluta na preferência das produtoras de shows, voltados ao Rock e Metal. Tal escolha se fortalece devido a estrutura que o local oferece ao público de todas as idades. Repetindo uma resenha anterior: “o lugar possui toda a estrutura para deixar qualquer público confortável, ar condicionado, camarotes com jogos, muitas mesas, praça de alimentação completa, incluindo estação central de bebidas e uma adega para os amantes do vinho”.

Convém ressaltar, que nesta noite houve a separação de pista normal e pista premium, além do camarote de costume. Mas ao contrário de algumas casas noturnas da capital, a pista premium é pequena e serve mesmo para aqueles que gostam de ficar colado na grade e ver seu artista cara a cara (situação da qual me incluo desde a adolescência), portanto nada que prejudique aqueles que optaram pela pista comum. E convenhamos, a esta altura do ano e a enxurrada de anúncios de shows para 2026, o brasileiro está precisando economizar. Então uma dica básica, caso o orçamento esteja curto, só opte por premium se a banda realmente mora em seu coração. E caso, dinheiro não seja problema, aproveite todos os shows que puder, pois a vida é curta!


Demon Hunter 

Agora vamos ao que interessa, a casa começou a encher no começo da apresentação do Demon Hunter, como foi um dia de semana complicado, não foram todos que venceram o trânsito, até as 19:30 da noite, mas o fluxo de pessoas chegando não parou, e em pouco tempo a frente do palco já estava tomada, tanto premium, quanto a pista normal. Como de costume, os horários são respeitados e a festa já estava rolando no máximo volume lá pelas 19:50! 

Assim que a banda subiu ao palco, já demonstrou força, energia, habilidade e empolgação, e o setlist escolhido não deixava a “vibe” esfriar. O som estava excelente, as luzes mereceriam um pouco mais de atenção, mas não comprometeram o espetáculo. 

A banda formada em 2000, na cidade de Seattle, ainda está em alta, e os vocais e presença de Ryan Clark continuam arrasadores. foi de longe uma das minhas melhores surpresas do ano de 2025, em se tratando de shows ao vivo. A banda possui uma vasta legião de fãs, vestidos com as camisetas do grupo e entoando os refrões para o resto do público. Foi impossível ficar parado! Os destaques vão para a abertura com “Sorrow Light the Way” que já estabelece o tom denso e reflexivo da noite, preparando o terreno para “Heaven Don’t Cry” e “Collapsing”, que aprofundam a atmosfera melancólica sem perder impacto. 

E então, chega a vez de “The Heart of a Graveyard” que mantém a construção emocional anterior, enquanto “I Will Fail You” surge como um dos primeiros pontos de maior conexão com o público, equilibrando peso e melodia de forma envolvente. Aliás, o público ficou concentrado na parte frontal do Tork, deixando para abastecer a garganta após o término da apresentação. 

Por fim, chegamos no meio para o fim, e o show ganha força com “Infected” e “Cut to Fit”, faixas que resgatam o lado mais direto e agressivo da banda, elevando a intensidade da apresentação. Por volta das 20:10 da noite, surgem “Peace” e “Dead Flowers”, esta última, minha favorita, funcionam como momentos de transição, trazendo um respiro emocional e reforçando o caráter introspectivo (não significa que o público tenha ficado mais calmo, longe disso!) que marca a identidade do Demon Hunter ao vivo. Temos ainda, a música “Cold Winter Sun” que traz olhos vidrados do público em direção ao palco. 

O Demon Hunter despediu-se de Curitiba, por volta das 20:30, com as forças poderosas de “The Last One Alive” e “Storm the Gates of Hell” e foram merecidamente ovacionados durante vários minutos por toda a platéia. 

P.O.D.

Após a tradicional pausa, entram ao palco a entidade chamada P.O.D. (Payable on Death), com seu Nu Metal, com pitadas de metal, rap, reggae e hardcore, e com letras que frequentemente abordam temas de fé, esperança e superação. Formada em 1992, na Califórnia, a banda sabe exatamente como conduzir seu público, equilibrando clássicos incontestáveis do auge mainstream, faixas de groove pesado e músicas mais recentes, tudo costurado por uma interação constante e um clima de celebração que atravessa gerações. Inclusive de cinéfilos, visto a quantidade de composições do P.O.D. que foram parar no cinema em grandes produções, mas isto já é assunto para uma segunda resenha.

Ressaltando, a abertura com “Southtown”, que já ficou evidente que o DNA Nu Metal segue intacto. É aquele tipo de música que não precisa de apresentação, o próprio público responde automaticamente, como se fosse um ritual coletivo, uma catarse. Na sequência, “Rock the Party (Off the Hook)” e “Boom” mantiveram a energia lá no alto, com riffs explosivos e uma resposta imediata da plateia, transformando o início do show em um verdadeiro convite ao caos organizado que o P.O.D. sabe criar tão bem. “Set It Off” apareceu como um dos momentos mais agressivos da noite, enquanto “Sleeping Awake” trouxe um peso mais emocional, mostrando que a banda também sabe trabalhar atmosferas mais densas.

Cabe aqui uma curiosidade, apesar da dificuldade de muitos em o reconhecerem, estava presente, no camarote do lado direito do palco, o ex-vocalista da banda Raimundos, Rodolfo Abrantes, que nos anos 90/2000 encantou uma geração de rockeiros. O músico estava prestigiando os shows e em especial do amigo Sonny Sandoval, vocalista do P.O.D.

Voltamos aos momentos que precedem o famoso “início do fim”, o bloco intermediário, que reforçou a versatilidade do grupo. “Drop” funcionou como representante natural da fase mais recente, soando totalmente integrada ao repertório clássico. “I Got That” e “Soundboy Killa” acentuaram o groove e o clima festivo, com o público acompanhando cada movimento. Um dos momentos mais bem recebidos, apesar de já esperada, foi a versão de “Don’t Let Me Down”, dos Beatles, que surpreendeu sem quebrar o fluxo do show, mostrando a liberdade criativa que o P.O.D. se permite atualmente. e sim, tiveram os desavisados e confusos no meio da multidão, o que é normal, visto a mistura de gerações presentes.

Por fim, a banda entregou exatamente aquilo que os fãs esperavam — e mais um pouco. “Murdered Love” e “Lost in Forever” destacaram a maturidade musical do grupo, enquanto “I Won’t Bow Down” reforçou a mensagem de resistência e perseverança, tão presente na trajetória do P.O.D. “Youth of the Nation”, como sempre, ocupou um espaço estratégico no set: um dos momentos mais emocionais da noite, com o público cantando em uníssono, transformando a música em um grande coro coletivo. “Will You” e “Afraid to Die” prepararam o terreno para o desfecho, com “Satellite” resgatando um clássico absoluto e “Alive” encerrando o show no ápice, como o grande hino que atravessou gerações e segue funcionando de forma impecável ao vivo.

Definitivamente, foi uma apresentação marcada por alta energia, discurso positivo e uma conexão genuína com o público. Em Curitiba, o P.O.D. mostrou que não vive apenas de nostalgia: a banda entende seu legado, respeita sua história e, acima de tudo, sabe como transformar isso em uma experiência ao vivo intensa, emocionante e profundamente coletiva. É esse equilíbrio que mantém o grupo relevante, depois de tantos anos de estrada.




Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Estética Torta 

Press: Acesso Music 


Demon Hunter – setlist:

Sorrow Light the Way

Heaven Don't Cry

Collapsing

The Heart of a Graveyard

I Will Fail You

Infected

Cut to Fit

Peace

Dead Flowers

Cold Winter Sun

I'm Done

The Last One Alive

Storm the Gates of Hell

Ryan Clark: vocal principal
Patrick Judge: guitarra e vocais
Jeremiah Scott: guitarra rítmica e backing vocals
Jon Dunn: baixo
Timothy “Yogi” Watts: bateria

P.O.D. – setlist:

Southtown

Rock the Party (Off the Hook)

Boom

Set It Off

Sleeping Awake

Drop

I Got That

Soundboy Killa

Don't Let Me Down (The Beatles cover)

Murdered Love

Lost in Forever

I Won't Bow Down

Youth of the Nation

Will You

Afraid to Die

Satellite

Alive 

Sonny Sandoval: vocal principal
Marcos Curiel: guitarra, programação e backing vocals
Traa Daniels: baixo e backing vocals
Zachary Christopher: bateria (substituindo Wuv Bernardo durante as turnês) 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Jim Peterik & World Stage: Legado, União e Celebração da Música

 

Dentre os vários lançamentos deste final de ano da Frontiers Music, temos este novo volume do projeto de Jim Peterik (Survivor, Pride of Lions), um dos grandes compositores do AOR e Melodic Rock, criador do mega hit "Eye of The Tiger", do qual Jimi nos falou em entrevista um tempo atrás, que não tem problema nenhum em ser reconhecido principalmente por esse hit. Mas Peterik produziu, e segue produzindo, muita música de qualidade, tanto para seus projetos, como para outros artistas do meio.

No World Stage Jim Peterik reúne artistas consagrados em colaborações especiais, "River of Music - The Power of Duets, Vol I" é um álbum que funciona como uma celebração da trajetória do compositor, guitarrista e mentor musical. 

Ele combina a energia do AOR/Hard Melódico com elementos modernos, muitos teclados e arranjos refinados,  explorando a força das conexões humanas através da música, em especial os duetos, que são a tônica deste trabalho.

Sob a produção de outra lenda, Ron Nevison (Kiss, Ozzy, Thin Lizzy, Led Zeppelin, Heart e outros), o álbum soa límpido, tendo precisão no momento em que cada elemento precisa de destaque.

A abertura é emblemática, um encontro de gerações, talvez até uma "passagem de bastão", no dueto de Jim com seu filho Colin na faixa título"River of Music", e a voz mais madura e encorpada de Jim contrasta com a juventude e o timbre mais suave de Colin, criando um equilíbrio interessante. Podemos sentir a energia quase palpável entre pai e filho. 

É um Melodic Rock de melodias suaves e emocionais, que inicia cadenciado e vai ganhando em emoção, destacando o referido dueto, e a letra que fala sobre essas conexões e vivência com a música: "Drink from The River, Drink from the River of Music", como diz em um trecho, reflete muito bem o sentimento da canção.

Colin Peterik 

O encontro se repete também em mais dois momentos, "Slow Lightning", com seu embalo suave e melodias assoviáveis. 

Novamente o timbre suave de Colin contrasta com a voz madura de Jim, entre arranjos de teclado e metais e instrumental de bom gosto impecáveis; em "Everything you Need", a dupla fecha o álbum, com uma balada emocional, com leves arranjos orquestras e belos teclados.

Dentre as três, destaco "Slow Lightning" entre os momentos de destaque do álbum. Outra que se destaca entre as demais é a versão para a balada do Survivor "In Good Faith", onde temos o dueto entre o alcance e timbre poderoso de Toby Hitchcock (Pride of Lions), com a também poderosa e bela voz de Kaity Heart, um dos nomes em ascensão do estilo. 

Peterik, Kaity Heart e Ron Nevison 

Mais um dos momentos que brilham mais intensos, é o encontro de Peterik com Kevin Cronin, do REO Speedwagon, na emocionante "Between Two Fires", com um refrão marcante e arranjos de bom gosto, que por vezes flertam de leve com o country;  e com Jason Scheff (ex-Chicago), Peterik mostra que sua veia de criador de hits segue aflorada, na "radiofônica" "The Cadence of Things" e seus teclados 80's.

Outros duetos incluem a radiante “Double Rainbow” com Cathy Richardson, do Jefferson Starship, a comovente “Waiting for You”, interpretada por Dave Mikulskis e Bree Gordon. 

E claro, o álbum conta com um elenco estelar de músicos, incluindo os bateristas Denny Fongheiser e Ed Breckenfeld, os baixistas Tony Franklin e Bob Lizik, os guitarristas Phil X e Mike Aquino e os tecladistas Kim Bullard e Kim Peterik.


O rio da música segue fluindo, e Jim Peterik entrega um álbum que agradará os seus fãs e os admiradores de AOR e Melodic Rock feito com propriedade, feeling e produção magistral.

Texto: Caco Garcia 
Fotos: Divulgação 

Artista: Jim Peterik & World Stage 
Álbum: "River of Music - The Power of  Duets, Vol I"
Estilo: Melodic Rock/AOR
Selo: Frontiers Music 

Tracklist:
1. River of Music: Jim Peterik e Colin Peterik
2. Waiting For You: Dave Mikulskis e Bree Gordon
3. The Cadence of Things: Jim Peterik e Jason Scheff
4. Soul of My Being: Toby Hitchcock e Bree Gordon
5. Between Two Fires: Jim Peterik e Kevin Cronin
6. Double Rainbow: Jim Peterik e Cathy Richardson
7. Slow Lightning: Jim Peterik e Colin Peterik
8. In Good Faith: Toby Hitchcock e Kaity Heart
9. I’m a Survivor: Jim Peterik e Kaity Heart
10. Everything You Need: Colin Peterik e Jim Peterik