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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Entrevista – Trovão: Colhendo os Frutos da Persistência

Divulgação 

Por Gabriel Arruda - @gabrielarruda07

Em 2021, em plena pandemia, uma banda que trouxe a influência do heavy metal e hard rock oitentista chamou a atenção do público brasileiro com o disco Prisioneiro do Rock N’ Roll, que marca a estreia do Trovão e que despertou o interesse do público, das mais variadas faixas etárias, por esse resgate clássico do estilo e por ser cantado em português.

Depois de três anos, a banda, agora com uma nova formação e mais consolidada, lançou o Diamante, que, depois de um ano de lançamento, ainda continua rendendo bons frutos e proporcionando shows em festivais importantes, como o Bangers Open Air e o Keep It True, um feito histórico para uma banda que canta na sua língua nativa em um país que respira heavy metal.

Para falar sobre esse momento especial que a banda vem vivendo, o vocalista Gustavo conversou com a Road To Metal para falar sobre esses acontecimentos, o mais recente disco, os novos singles e o novo trabalho, que já está na fase de composição e que será lançado no próximo ano.

2026, até agora, está sendo um ano muito legal para o Trovão. Teve o lançamento do Diamante no ano anterior e a estreia de vocês lá no Bangers. Vocês fizeram recentemente um show bem legal abrindo para o Riot V, em Curitiba, e, muito em breve, vão estar no Keep It True, na Alemanha. São consequências do trabalho que vocês estão fazendo? Como vocês têm vivido esse momento? Em algum instante caiu a ficha de que a banda estava alcançando um novo patamar?

Gustavo: Na verdade, a coisa foi andando passo a passo. A gente lançou o Diamante sem nenhuma pretensão, apenas de lançar mais um disco, já que o Prisioneiro... tinha ido muito bem na época. Acabou sendo uma continuação, mas não foi pensando em fazer grandes shows ou esse monte de coisa. A coisa simplesmente foi acontecendo. O primeiro convite que a gente teve foi para tocar lá fora. Não foi no Keep It True, foi em um evento em Portugal, que teria o Sortilégio como headliner. Mas a parte financeira que eles iam arcar não estava tão interessante para a gente. Acabamos recusando. Depois veio o convite para tocar no Ópera de Arame com o Riot V. E aí foi indo. Depois apareceu o convite do Keep It True. Então foi uma coisa atrás da outra. Mas não era algo que estava programado, que a gente pensou que ia acontecer. As expectativas sempre foram baixas. A gente é uma banda, querendo ou não, de nicho. É uma banda underground. Então não pode ficar sonhando com muita coisa. Eu estou preocupado em fazer um bom material, que é o que vai ficar. O resto é consequência, e a gente está aproveitando cada momento.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

E olhando para trás, desde a formação do Trovão até hoje, qual você considera ter sido o principal ponto de virada da trajetória da banda?

Gustavo: Eu costumo falar que não teve um ponto de virada. A virada foi quando a gente decidiu gravar o primeiro disco. A partir daí foi uma sequência. A gente gravou, ficou satisfeito com o trabalho e o pessoal gostou bastante. Foi muito bem aceito na época. Até hoje ele é muito bem falado. Depois pegamos tudo o que faltou no primeiro disco e trouxemos para o segundo. Fizemos mais músicas, mais variações. Trabalhamos melhor as letras, a timbragem dos instrumentos e a produção. Então fomos melhorando o trabalho. Para mim, não houve uma virada, e sim uma evolução da banda. Foi consequência da vontade de fazer a coisa muito bem feita.

Agora falando sobre o Diamante, um disco que eu adorei, gostei bastante. Ele foi recebido com muito entusiasmo pelo público. É difícil até escolher uma faixa preferida, porque todas são ótimas. Parabéns mesmo. Mas, se eu fosse escolher uma, seria Olhos da Cidade, que é a que eu mais curto do disco.

Gustavo: Essa também está entre as minhas favoritas. Foi uma música que eu fiz meio de última hora. Ela surgiu para completar o repertório, porque faltava uma balada. Acabei fazendo ela. Dessas músicas do disco, acho que é uma das mais novas que eu compus.

E justamente por essa questão de ser uma balada, de ter aquela melodia logo no início, ela me cativou muito. Foi isso que mais me surpreendeu. Conceitualmente e musicalmente, o que esse álbum representa para o Trovão?

Gustavo: Para a gente, esse foi o ápice da parte criativa. Tudo o que a gente pôde fazer de melhor, fez. Eu lembro que foi um trabalho de dois anos. Pensamos com muito cuidado em tudo: na ordem das músicas, na parte lírica, na capa. Fizemos tudo com muito carinho. Então, para mim, representa isso: o melhor que a gente podia fazer naquele momento. Agora já estamos trabalhando nos materiais futuros.

Todo disco registra um momento específico de uma banda. O que o Diamante diz sobre quem vocês eram durante o processo de composição e gravação?

Gustavo: Fala muito sobre maturidade. Eu, particularmente, consegui gravar algumas tonalidades que, na época do Prisioneiro..., eu não conseguia cantar. Era muito difícil para mim. No Diamante eu consegui. Tem várias músicas em tonalidades que eu jamais imaginaria que conseguiria interpretar. Explorei bastante essa parte vocal. A parte dos solos de guitarra também evoluiu bastante. Os teclados cresceram muito. Quando o Luke foi gravar com a gente, trouxe outras referências de timbres e ideias que agregaram bastante ao som. Agora, nesse próximo disco, vamos contar com o Fusa, que está tocando teclado com a gente. Ele também vai trazer outras referências. Então a gente vai agregando, amadurecendo e se aprimorando. O futuro ninguém sabe, mas eu sei que quero gravar outro disco. Já estou com algumas músicas prontas e também tenho um cover que vou fazer. Vou resgatar mais uma banda nacional desconhecida. Vai ser uma grande surpresa para quem curte. Não vou revelar agora o que é, mas podem ficar tranquilos que vem coisa boa. Depois que a gente finalizar o show do Keep It True, ainda teremos mais um show de encerramento, no final do ano, aqui em São Paulo. Depois vamos parar os shows para nos dedicar somente ao estúdio, à composição e ao próximo trabalho.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

Continuando falando sobre o Diamante, existe alguma faixa do álbum que ganhou um significado diferente, além de Olhos da Cidade, que a gente comentou agora, seja por ter sido levada aos palcos ou pela forma como foi abraçada pelos fãs?

Gustavo: Acredito que não. Acho que as letras foram abraçadas da maneira que eu imaginei mesmo. Não acho que tenha mudado o significado de nenhuma delas.

Recentemente vocês lançaram um single novo, que é como se fosse uma prévia do que a gente vai ver no terceiro disco, que você comentou que deve sair no ano que vem. Meu Caminho transmite, ao mesmo tempo, uma sensação de perda — você tinha comentado isso comigo antes —, mas também de perseverança e identidade. Temas que parecem dialogar com o momento que o Trovão vive atualmente. Essa conexão foi intencional ou a música acabou ganhando um significado ainda maior conforme a trajetória da banda foi evoluindo?

Gustavo: A letra de Meu Caminho fala sobre perda, sobre luto. Ela conta a história de uma pessoa que perdeu outra e, para continuar sentindo essa pessoa por perto, conversa com ela. A letra fala disso. Nem todo mundo entendeu essa parte. Muita gente levou para o lado da perseverança. Também existe essa questão da perseverança, mas acho que ela é muito mais focada no luto. É uma música mais melancólica.

Junto com esse novo single, Meu Caminho, vocês também fizeram um cover de Olho Animal, da Patrulha do Espaço, e, de certa forma, estabeleceram um diálogo com uma obra que faz parte da história do metal brasileiro. O que motivou essa escolha? E como vocês encontraram esse equilíbrio entre preservar a essência da música original e imprimir a identidade do Trovão nessa nova versão?

Gustavo: A Patrulha do Espaço foi uma das minhas referências para montar o Trovão. Então, acho que nada mais justo do que prestar essa homenagem. Eu fui mais na onda da regravação que eles fizeram no Primos Inter Pares, com o Percy Weiss nos vocais, que também é uma grande influência para mim. É um cover que eu já queria gravar havia algum tempo. Na época do Diamante, eu já cogitava gravar esse som, mas, como eu já tinha feito o cover de Vapor, não queria colocar dois covers no mesmo disco. Então pensei: "Em um material futuro eu lanço essa música." Eu já tinha feito alguns testes em casa, algumas gravações minhas, e tinha dado certo. Depois imprimimos a nossa marca nela. Trabalhamos melhor a questão dos solos, acrescentamos algumas camadas de teclado, sem destoar da música e sem descaracterizar a versão original, mas trazendo mais para a nossa identidade. Então acredito que o resultado ficou bem bacana.

Agora falando um pouquinho do que aconteceu com o Trovão neste ano. Vocês tocaram no Bangers Open Air, um dos festivais mais importantes da América Latina e um objetivo para muitas bandas brasileiras. Como foi receber esse convite e viver essa estreia dentro do que é o maior festival de heavy metal do Brasil e também da América Latina?

Gustavo: Eu já tinha tocado em alguns festivais na época do Selvageria, mas não desse porte. Não eram festivais tão grandes, com tantas bandas internacionais e com uma estrutura como aquela. Então, para a gente, foi uma experiência totalmente nova. Foi bem diferente e muito legal. A gente tocou na festa de abertura, na sexta-feira, na Audio, e depois no Memorial da América Latina, no domingo. Foi fantástico. Um palco excelente, qualidade de som muito boa e um público incrível. Muita gente que não conhecia o Trovão teve a oportunidade de conhecer a banda ali. Como somos uma banda de nicho, existe muita gente de outros estilos que nem imaginava que existíamos. Também conhecemos muita gente de fora: pessoas do Chile, da Argentina e de outros países vizinhos que foram prestigiar o evento. Eles ficaram malucos com a banda e me mandam mensagens até hoje. Foi uma oportunidade muito importante para nós.

E vocês receberam esse convite através do Edu Macedo, da MS Metal. Foi muito legal da parte dele.

Gustavo: Exatamente. Ele colocou a gente no evento. O Edu é fantástico. Um abraço para ele, se estiver vendo esta entrevista. Foi foda. Foi muito legal. Inesquecível.

O que mais marcou você naquele dia? A preparação, a reação do público ou os bastidores, dividindo espaço com artistas consagrados? Pelo que eu sei, você teve a oportunidade de conversar com o Ralf Scheepers e ainda conseguiu um autógrafo em um vinil da primeira banda dele. Você tinha comentado isso comigo antes e eu achei muito legal. Infelizmente eu não consegui assistir ao show de vocês no domingo do Bangers, porque foi no mesmo horário do Smith/Kotzen.

Gustavo: A gente até encontrou o Adrian Smith de relance no túnel que tinha embaixo do palco. Na hora em que eu estava prestes a entrar, ele estava passando pelo mesmo corredor. Existe um corredor subterrâneo onde as bandas circulam, e foi muito legal. Eu vi o Udo, vi um monte de gente. No domingo tinha um espaço onde o pessoal ficava comendo, tinha churrasco, bebida... então as bandas acabavam se encontrando por lá. Eu tinha levado os discos do Tyran' Pace, que foi a primeira banda do Ralf Scheepers. Na sexta-feira eu não consegui encontrá-lo, porque estava uma correria muito grande. Então levei novamente no domingo para ele assinar. Ele ficou impressionado, porque muita gente nem conhece essa fase da carreira dele. O pessoal acha que ele nasceu no Primal Fear, mas não foi assim.

E também teve o Gamma Ray. Muita gente conhece ele por causa do Gamma Ray.

Gustavo: Exatamente. O Tyran' Pace era uma banda dos anos 80, com uma influência muito forte de Judas Priest. Depois ele foi para o Gamma Ray e, em seguida, para o Primal Fear, onde está até hoje. Eu não sei se ele tem algum outro projeto atualmente, mas esses são os que eu conheço.

Só esses mesmo. Ele chegou a fazer uma participação no Avantasia, mas o foco dele sempre foi o Primal Fear.

Gustavo: Ah, então. Acabei pegando o autógrafo e conversando um pouco com ele. Foi uma honra enorme.

Você comentou sobre o fato de terem tocado tanto na pré-party quanto no domingo, e de muitas pessoas que não estavam habituadas ao estilo do Trovão terem se surpreendido com as músicas da banda e com a qualidade de vocês ao vivo. Depois dessas duas apresentações, vocês perceberam mudanças concretas na visibilidade da banda, no alcance, nos convites para shows e também no reconhecimento dentro da cena?

Gustavo: Sempre acontece. Sempre abre novos horizontes. Recebemos outras propostas e estamos conversando com bastante gente, produtores também. Lá no evento a gente conheceu até o dono do Wacken. Ele foi na sexta-feira, tiramos uma foto com ele e tudo mais.

Eu cheguei a encontrar com ele também lá no Bangers.

Gustavo: Legal. A cada dia que passa, a gente acaba fazendo mais contatos, recebendo novos convites e surgindo novas oportunidades. Mas vamos avaliando o que faz sentido e o que não faz. Neste momento, a gente realmente vai parar para fazer um novo disco. Precisamos de tempo para isso. Não tem como manter uma agenda intensa de shows e, ao mesmo tempo, focar na composição. Pelo menos para a gente, não funciona. A cabeça acaba ficando concentrada em uma coisa só. Mas, neste ano, tudo o que a gente queria conquistar, conquistou. Foi muito legal. Até agora, tudo saiu melhor do que a gente imaginava. Nunca pensamos que conseguiríamos fazer tanta coisa em um único ano. Ficamos muito felizes, porque superamos as expectativas que tínhamos.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

Na sequência, depois do show de hoje, no Sesc Belenzinho (N.T.: a entrevista foi realizada no dia do show, 18/07), vocês embarcam para o Keep It True, na Alemanha. É um festival onde vocês vão dividir palco com Savatage, Saxon e Armored Saint. Levar um trabalho autoral brasileiro para um país que tem uma tradição tão forte no heavy metal — afinal, além do Keep It True, eles têm o Wacken, o Summer Breeze e tantos outros festivais importantes — certamente tem um peso especial. Qual é a expectativa de vocês para essa experiência, que também representa outra grande conquista para o Trovão?

Gustavo: Essa talvez seja a maior conquista. Levar um heavy metal cantado em português para a Alemanha, sendo que a gente ainda é uma banda de nicho, é um grande feito. É uma coisa que eu nunca imaginei que aconteceria. Eu até imaginava que faríamos shows internacionais mais perto daqui, como Bolívia ou Argentina, onde a língua é mais próxima da nossa e existe uma facilidade maior de entendimento. Na Europa, eu pensava mais em Portugal e Espanha, mas isso para um futuro mais distante. Não era uma coisa para acontecer agora. Mas aconteceu. Como eu tinha comentado, nosso primeiro convite internacional foi aquele evento em Portugal, que acabou não acontecendo por questões financeiras. Tenho certeza de que, depois do Keep It True, outros convites vão aparecer. Portugal e Espanha são mercados interessantes para a gente. Agora é fazer bonito, mostrar o nosso trabalho e colher os frutos, ainda mais quando tivermos material novo. Além disso, temos a parceria com a Classic Metal, que faz as prensagens dos nossos discos e CDs, e também com a Lost Helmet, de Portugal. Isso facilita bastante, porque você já tem um braço na Europa, alguém com contatos por lá, e isso ajuda a ampliar as oportunidades.

Acho que cheguei a ver um post da Classic Metal. Acho que eles estavam até mandando o disco do Trovão para o Japão.

Gustavo: Vai para o Japão algumas cópias também. O meu sonho é tocar no Japão. No dia em que eu tocar lá, vou sentir que venci na vida.

E eu sei que você é muito fã do Michael Schenker. Ele gravou aquele disco ao vivo no Budokan. Nossa, acho que seria um sonho para qualquer banda tocar ali. Os Beatles tocaram no Budokan também.

Gustavo: O Japão, para mim, é um grande sonho. Um sonho que eu tenho de conhecer, quanto mais tocar por lá. Acredito que um dia isso possa acontecer. Tenho essa esperança. Quem sabe mais para frente? Vamos ver como as coisas acontecem. Vamos gravar mais material, manter o nível do Diamante e do Prisioneiro. É capaz de isso acontecer lá na frente.

Vai dar certo, sim. Vocês estão fazendo um trabalho muito consistente. Tudo direitinho. Com calma, vocês vão conquistar isso.

Gustavo: Obrigado!

Falando agora sobre a identidade da banda. O Trovão vem construindo uma identidade bastante própria dentro do metal nacional. Na sua visão, quais características fazem a banda ser reconhecida logo nos primeiros minutos de um show ou de uma música?

Gustavo: Acho que muito pelo vocal. A forma como eu canto acaba trazendo uma identidade forte. Eu tenho um jeito específico de cantar. Peguei muita referência dos vocalistas nacionais dos anos 70. Tenho muita influência da forma de cantar do Made in Brazil, do Cornelius, do Percy Weiss, da Patrulha do Espaço. Toda essa aura do rock paulista dos anos 70 e 80. Então eu tenho muito essa veia na questão da voz. Eu não sou um cara supertécnico, superestudado, mas acredito que a forma como eu canto faz com que a pessoa escute e já saiba que sou eu. Agora, com essa questão dos teclados sintetizados e das guitarras, o pessoal também já faz essa associação. Então foi se criando essa identidade. O que eu faço não é uma inovação. Isso sempre existiu, principalmente lá atrás. Mas hoje em dia acabou ficando em desuso. É difícil encontrar uma banda que misture heavy metal, hard rock e AOR. Antigamente existiam várias. Hoje você encontra uma banda de heavy metal, outra de hard n' heavy, outra de AOR lá fora. Mas que faça essa junção toda, atualmente eu realmente não conheço ninguém.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

Você falou das influências da banda. Como vocês conseguem equilibrar todas essas características? Porque, quando a gente ouve as músicas do Trovão, percebe claramente a influência do heavy metal clássico dos anos 80, mas também do hard rock, do AOR e do melodic rock. E eu noto isso principalmente nos timbres de guitarra. Percebo muita influência do Warren DeMartini, do Ratt, e também do George Lynch, do Dokken.

Gustavo: Em termos de guitarra, minhas principais referências para fazer esse tipo de som são justamente o Warren DeMartini e o George Lynch, do Dokken. Para mim, eles são as grandes referências de guitarra para esse estilo que eu faço. Eu pego muita influência deles mesmo. Sempre tento chegar o mais próximo possível daquilo que me agrada. Às vezes muda alguma coisa no timbre, mas minha base sempre vai ser essa: o hard n' heavy. Sou apaixonado por esse estilo. É o tipo de som que eu realmente gosto. Mas também tem muita influência do Accept e do Judas Priest. Para mim, o Judas é a melhor banda de heavy metal do planeta. Não existe banda mais foda que o Judas. Vou pegando uma coisa aqui, outra ali. Também temos muita referência do Pretty Maids. É uma banda que fazia exatamente isso: misturava heavy metal com hard rock e também com AOR.

Eu adoro o Pretty Maids.

Gustavo: É uma banda de que pouca gente fala, mas fazia isso com excelência.

Você chegou a assistir ao show do Pretty Maids no Bangers Open Air do ano passado?

Gustavo: Não. Acabei não indo.

Que show sensacional! Foi uma realização ver o Pretty Maids ao vivo. Eu também consegui conhecer o Ronnie Atkins.

Gustavo: Conheceu? Ele estava enfrentando um câncer. Nem sei como conseguiu fazer aquele show.

Ele continua se tratando, mas está muito bem e cantando demais. É impressionante.

Gustavo: Demais! O Pretty Maids, para mim, é uma banda-modelo. Se eu tivesse que citar uma banda internacional como referência, seria o Pretty Maids. É uma puta referência para mim.

E naquele dia ele estava muito animado. Acho que, para eles também, foi a realização de um sonho. Afinal, são mais de quarenta anos de estrada. Ele comentou que faltava apenas um show do Pretty Maids no Brasil. Foi realmente um show inesquecível.

Gustavo: Todo mundo que foi falou muito bem.

Agora falando sobre o cenário nacional. Na sua opinião, o metal brasileiro vive um momento de renovação? O que ainda precisa acontecer para que as bandas autorais tenham mais espaço e consigam alcançar novos públicos?

Gustavo: É difícil responder isso. O metal underground ainda tem pouco espaço hoje em dia. Não existem muitos lugares que ofereçam uma boa estrutura. Acho que as bandas precisam correr atrás do próprio trabalho e fazer o melhor possível. É preciso se profissionalizar ao máximo. Eu estou nessa estrada há muitos anos. A primeira vez que subi em um palco foi em 2001. Então já comi muita poeira, já toquei em muito buraco. Sei bem do que estou falando. É preciso ter perseverança. Não se vender por pouco. Tem muita banda que paga para tocar. Eu mesmo já paguei muito para tocar. Tirei dinheiro do bolso e só me ferrei. Então acho que cada banda precisa fazer o seu trabalho e se preocupar em construir uma identidade. Isso é importantíssimo. Não adianta ser apenas uma cópia. É claro que a minha ideia nunca foi criar algo totalmente novo. Não é essa a proposta. A minha ideia sempre foi prestar uma homenagem a tudo aquilo de que eu gosto. Fazer o som que eu gostaria de ouvir em uma banda. Tudo aquilo que eu queria escutar, eu faço no Trovão. Então não é uma questão de inovação, mas é fundamental ter identidade. Identidade visual também. Se preocupar em fazer o melhor possível com os recursos que você tem. Acho que tudo começa por aí. Agora, o que falta? É difícil responder. O heavy metal continua sendo um estilo muito pequeno. É um nicho. E o som que a gente faz é o nicho do nicho. Então não tem muito segredo. É seguir em frente. Gravar discos. Fazer shows. Fazer aquilo em que você acredita de verdade. Não ficar pensando apenas no mercado, porque isso não funciona. Eu tenho o meu trabalho. Não vivo da banda. Os outros integrantes também trabalham. É claro que seria maravilhoso viver da música, mas essa ainda não é a nossa realidade. Como a banda não gera renda suficiente para isso, você precisa fazer tudo com a alma, com o coração, dentro das possibilidades que tem. O restante vai acontecendo naturalmente. As oportunidades aparecem como consequência do trabalho. Hoje a gente vai para a Europa. Tocamos no Bangers. Fizemos vários shows. Vamos tocar hoje no Sesc. Tudo isso aconteceu por causa do trabalho. É simples. Claro que também existe um pouco de sorte. Nem tudo depende apenas da gente. Mas o importante é continuar fazendo. Continuar seguindo em frente.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

Depois de conquistar festivais importantes, vocês sentem uma responsabilidade maior em representar essa nova geração do metal nacional?

Gustavo: Com certeza. A maioria dos shows que fizemos agora tinha gente de todas as idades. O pai levando o filho, o filho com a camiseta do Trovão... Teve um show que fizemos na Burning House, acho que foi o primeiro da turnê do Diamante. Cara, estava lotado. Tinha criança, adolescente, o pai levando o filho porque o filho gostava da banda. O pai também gostava, mas o filho gostava ainda mais. Também vi gente com mais de 70 anos no show. Isso é muito legal. O que mais me deixa feliz é ver o pessoal mais novo, porque é uma forma de manter tudo isso vivo. Não pode morrer com a nossa geração. As coisas precisam ser passadas para frente. Amanhã eu posso não estar mais aqui.

E o mais legal é que pessoas que nem ouvem o estilo do Trovão acabam gostando da banda. Vou dar um exemplo. Uma amiga minha vai estar no show de hoje. Eu apresentei o Trovão para ela, mas o estilo que ela costuma ouvir é mais metal sinfônico. Mesmo assim, ela falou: "Caramba, a banda é muito legal. Ela resgata esse feeling retrô." Ela gosta de coisas mais clássicas, mas não está acostumada com esse nicho. Ainda assim, gostou tanto que falou que irá assistir ao show hoje.

Gustavo: Isso foi uma conquista nossa. Muita gente de fora do nicho gosta do Trovão. Muita mesmo. Tem gente do black metal que gosta. O Wagner, que foi do Sarcófago, adora o Trovão. O pessoal do Vulcano veio falar comigo assim que lancei o Prisioneiro do Rock'n'Roll. Tem muita gente fora dessa onda do hard and heavy que gosta da banda. Até pessoas que tinham certo preconceito com metal em português acabam gostando do Trovão. Por algum motivo, elas se identificam. Eu não sei explicar exatamente o que é.

Acho que isso acontece porque, apesar de as letras serem em português, quando a gente ouve parece que vocês estão cantando em inglês. É muito difícil encontrar bandas brasileiras que compõem em português, mas que têm essa fluidez na melodia vocal. Acho que esse é um dos grandes diferenciais do Trovão.

Gustavo: Talvez seja pela forma como eu componho as melodias. Eu penso quase como se estivesse escrevendo em inglês. Penso de uma maneira que a melodia deslize sobre a música, sem aquela sensação de encaixe forçado. Eu componho o riff junto com a linha vocal. Não faço primeiro o riff para depois colocar a voz, nem escrevo a letra antes para depois criar a melodia. Eu faço tudo junto. É um processo meio maluco, mas foi a forma que encontrei de compor. Acho que isso acaba criando essa sensação de que a música tem uma sonoridade internacional. Cada compositor tem um método diferente. Não existe regra. Foi assim que eu me encontrei como compositor. Fazia isso no Trovão e também fazia no Selvageria, quando as letras também eram em português.

Já existem músicas novas? Um novo álbum? Outros projetos que o público já pode começar a esperar?

Gustavo: Sim. Na verdade, já tenho três músicas prontas. Também já decidi qual será o próximo cover. Então já posso considerar quatro faixas encaminhadas. A ideia é compor mais cinco músicas, totalizando nove, para gravar o próximo disco. Agora vamos focar totalmente nisso. Mas, antes do álbum de estúdio, quero lançar um trabalho ao vivo. Quero ver se consigo gravá-lo na Alemanha, para não ficar um intervalo muito grande entre um disco e outro. Quero fazer um disco ao vivo de verdade, bem produzido. As faixas ao vivo que lançamos como bônus são praticamente bootlegs, retiradas da mesa de som. Agora queremos fazer um trabalho com mixagem, tratamento e qualidade para se tornar um álbum oficial ao vivo. Como você comentou do Live at Budokan, existem vários discos ao vivo clássicos: Live After Death, Unleashed in the East, Priest... Live!, Stay Alive, do Accept... A ideia é fazer um trabalho que reúna músicas do Prisioneiro e do Diamante. Vamos ver se conseguimos lançar esse material antes do terceiro álbum.

Para a gente encerrar: se daqui a dez anos alguém olhar para a história do Trovão, o que você gostaria que fosse lembrado? Os palcos que a banda conquistou ou o impacto que as músicas tiveram na vida das pessoas? E por quê?

Gustavo: Com certeza, o impacto das músicas. O show é momentâneo. É uma lembrança daquele dia. Agora, o disco é eterno. A gente pode pegar como exemplo as bandas de que gosta. O Dio já se foi. Eu tive a oportunidade de assistir a vários shows dele, acho que três ou quatro. Os shows passaram, mas os discos continuam intactos. O disco é praticamente a imortalização do artista. É a obra que permanece. As músicas são eternas. Ninguém tira isso. Elas sempre vão estar lá, seja no formato físico ou no digital. Então, eu gostaria que o Trovão fosse lembrado pelo impacto das músicas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: P.O.D. – 13/12/2025 – Carioca Club/SP

Assim que foi anunciada a turnê do P.O.D. em conjunto com o Demon Hunter pelo Brasil, os fãs reagiram de forma intensa, especialmente os de São Paulo, onde, em poucos dias, os ingressos quase se esgotaram, o que possibilitou a inclusão de uma data extra para atender à grande demanda. O Carioca Club ficou abarrotado para a data original, realizada no dia 13, a qual encerrou com chave de ouro a turnê pelo país.

A responsabilidade de aquecer o público para uma noite tão aguardada coube ao Demon Hunter, banda norte-americana conhecida por seu metalcore cristão, que mescla com maestria a agressividade do metal com passagens melódicas e letras introspectivas. Logo na abertura, com “Sorrow Light the Way”, a banda demonstrou sua voracidade, com o vocalista Ryan Clark destacando-se como o coração e a voz do grupo. Sua habilidade de transitar entre vocais guturais potentes e um canto limpo e emotivo constitui a espinha dorsal do som da banda, apresentada com precisão ao longo da performance. Músicas como “Collapsing” e “Not Ready to Die” foram executadas com intensidade, fazendo o chão do Carioca Club tremer e preparando o público para o que viria a seguir.

O setlist do Demon Hunter foi uma viagem intensa, equilibrando faixas mais pesadas com momentos de maior profundidade emocional. A banda apresentou uma sequência de faixas marcantes, incluindo a sombria “The Heart of a Graveyard”, a visceral “Infected” e a cativante “Cold Winter Sun”, todas acompanhadas em coro pelo público. A performance coesa da banda, aliada à presença de palco carismática de Ryan Clark, garantiu o total envolvimento dos fãs. O encerramento com a poderosa “Storm the Gates of Hell” contou com o vocalista cantando no pit, próximo ao público, celebrando um verdadeiro hino e elevando a energia ao máximo, além de aumentar a expectativa para a atração principal da noite.

Quando o P.O.D. subiu ao palco, a atmosfera no Carioca Club atingiu um novo patamar de histeria. A banda, pioneira do nu metal e fortemente influenciada por elementos de hip-hop e hardcore, é reconhecida por suas mensagens positivas e pela intensa energia em apresentações ao vivo. O vocalista Sonny Sandoval, figura central e carismática do grupo, mostrou-se o principal motor da banda, com sua voz inconfundível e sua capacidade de estabelecer conexão direta com o público. O show teve início com “Southtown”, seguida por “Rock the Party (Off the Hook)” e “Boom”, sequência que rapidamente formou uma roda na pista comum, evidenciando que a banda mantém sua força e relevância. Durante a apresentação, Sonny exibiu a bandeira do Brasil com o nome P.O.D. ao centro, presente de um fã, gesto que reforçou a recepção calorosa do público brasileiro.


A noite foi marcada por momentos memoráveis e surpresas. Um dos pontos altos foi a execução de “Drop”, que contou com a participação especial de Ryan Clark, do Demon Hunter, promovendo a união das duas bandas em uma performance eletrizante. Sonny destacou que “tudo tem sua primeira vez” e ressaltou a importância de esse momento ter ocorrido em São Paulo. O P.O.D. também presenteou os fãs com a estreia ao vivo de “Lay Me Down (Roo’s Song)”, faixa do recém-lançado álbum Veritas, demonstrando que ainda há muito a ser explorado em sua discografia. Além de seu próprio repertório, a banda apresentou uma versão marcante de “Don’t Let Me Down”, clássico dos Beatles, e convidou fãs para cantar no palco durante “Murdered Love”, reforçando que não existe barreira e que todos fazem parte de uma família.

A reta final do show foi um verdadeiro espetáculo de nostalgia e celebração. Após a apresentação dos integrantes antes de “Afraid to Die” e um falso começo em “Sleeping Awake”, o P.O.D. engatou uma sequência de clássicos que incendiou o público. “Youth of the Nation” destacou-se como um momento especialmente emocionante, com jovens fãs convidados ao palco para cantar junto, simbolizando que eles são o futuro. Com a energia elevada, o grupo encerrou a noite com “Satellite”, faixa que não havia sido executada na data extra, e com a emblemática “Alive”, deixando a sensação de dever cumprido e a certeza de que, mesmo após décadas de carreira, o P.O.D. permanece como uma força vital e inspiradora na música. 

Ao final da noite, ficou evidente que a passagem do P.O.D. e do Demon Hunter pelo Carioca Club representou um marco para os fãs brasileiros. A combinação de casa cheia, performances intensas e uma conexão genuína entre bandas e público transformou a data original do dia 13 em um encerramento à altura de toda a turnê pelo Brasil. O Demon Hunter destacou-se não apenas como banda de abertura, mas como uma atração imponente, enquanto o P.O.D. entregou um espetáculo longo, consistente e significativo, reforçando sua relevância e sua mensagem positiva. Foi uma noite que justificou o sold out, o anúncio da data extra e deixou a sensação de ter participado de um momento especial, capaz de permanecer vivo na memória muito além do último acorde. 

Texto: Marcelo Gomes 

Fotos: Gabriel Eustáquio (P.O.D., para o Rock Brazil) / Gustavo Diakov (Demon Hunter, para o Sonoridade Underground)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Estética Torta 

Press: Acesso Music 


Demon Hunter – setlist:

Sorrow Light the Way

Heaven Don't Cry

Collapsing

The Heart of a Graveyard

Infected

Not Ready to Die

Cut to Fit

Undying

Dead Flowers

Cold Winter Sun

My Heartstrings Come Undone

The Last One Alive

Storm the Gates of Hell 


P.O.D. – setlist:

Southtown

Rock the Party (Off the Hook)

Boom

Set It Off

Drop (com Ryan Clark do Demon Hunter)

I Got That

Lay Me Down (Roo’s Song) 

Soundboy Killa

Don't Let Me Down (The Beatles cover)

Murdered Love

Lost in Forever

I Won't Bow Down

Sleeping Awake 

Youth of the Nation 

Will You

Afraid to Die 

Satellite

Alive

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Cobertura de Show: Angra (RockFun Fest) – 13/07/2025 – Viaduto do Chá/SP

Na noite do Dia Mundial do Rock, 13 de julho, o Angra mostrou por que é um dos nomes mais respeitados do metal brasileiro. A banda subiu ao palco montado em frente ao imponente Theatro Municipal de São Paulo para uma apresentação gratuita, como parte do Rockfun Fest — um evento que, com entrada livre, vem consolidando sua importância na cena musical da cidade. Mas essa noite tinha um peso especial: foi a penúltima apresentação do Angra na capital antes de um hiato por tempo indeterminado. A despedida oficial dos palcos em São Paulo está marcada para 3 de agosto. Sabendo disso, o público lotou a Praça Ramos de Azevedo com a energia de quem sabe que está vendo a história acontecer.

Com sua formação atual — Fabio Lione (vocal), Rafael Bittencourt (guitarra), Marcelo Barbosa (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) — o Angra entregou um setlist de respeito, equilibrando clássicos e músicas da fase mais recente da banda. A abertura com “Nothing to Say” foi explosiva; seu riff icônico já levantou o público, enquanto Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa duelavam nas guitarras com uma sincronia impecável, e Fabio Lione, com sua voz potente, conduzia o público com maestria.

Em seguida, "Millennium Sun" chegou com suas belas melodias, lembrando-nos o início dos anos 2000, quando a banda renasceu com o Edu Falaschi nos vocais. Com Felipe Andreoli à frente do palco, era hora de “Tide of Changes”, faixa do álbum Cycles of Pain, trabalho mais recente da banda. Com uma pegada mais progressiva, a canção trouxe um clima maior de introspecção para os fãs, que acompanhavam atentamente a performance da banda.

A seguir, a celebração dos 20 anos do disco Temple of Shadows, que faz parte dessa turnê de despedida. Nem precisa dizer muito sobre o álbum — é como chover no molhado falar de uma obra que é apreciada por 10 entre cada 10 fãs do estilo. A energia de "Spread Your Fire", uma das faixas mais rápidas do repertório, incendiou o público e mostrou que a banda vive um excelente momento. Impressiona a precisão dos músicos diante de tamanha velocidade. Não foi diferente em “Angels and Demons”, que reforçou a química afiada entre Valverde e Andreoli. Infelizmente, por conta de ser um festival, o disco não foi tocado na íntegra, como vem sendo feito na turnê. Fecharam essa parte com “Late Redemption”, anunciada como a preferida do vocalista. O público foi um show à parte: cantou maravilhosamente alto as partes em português, originalmente gravadas pelo cantor Milton Nascimento.

Com a recepção calorosa do público, Fabio Lione se empolgou e decidiu testar as habilidades dos presentes com praticamente um solo de vocal. Com a aprovação do vocalista, anunciaram a emblemática “Rebirth”. Nem precisa dizer que o lugar veio abaixo, mostrando a força do Angra. “Angels Cry”, sem anúncio, foi tocada em seguida, e mais uma vez o público se entregou completamente, cantando cada verso como se estivesse se despedindo de velhos amigos, encerrando com emoção esse momento épico.

No bis, a dobradinha “Carry On/Nova Era” foi simplesmente apoteótica. Clássicos absolutos, essas faixas fecharam o set não apenas revisitando os primórdios do Angra, mas também servindo como um lembrete poético do legado da banda. Certamente, um momento que será lembrado por muito tempo.

Vale destacar que essa apresentação no Rockfun Fest não foi apenas mais uma data na agenda: foi a penúltima vez que o Angra pisaria nos palcos de São Paulo, com a despedida marcada para 3 de agosto, anunciando um hiato por tempo indeterminado. Essa sombra de fim iminente adicionou um peso emocional extra ao show, transformando cada nota em um adeus temporário. Com uma formação tão coesa, o Angra provou mais uma vez porque conquistou fãs ao redor do globo, deixando todos ansiosos pelo que virá após o hiato — e esperançosos de que essa pausa seja apenas o prelúdio para um retorno ainda mais grandioso. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: RockFun Fest


Angra – setlist:

Nothing to Say

Millennium Sun

Tide of Changes - Part I

Tide of Changes - Part II

Spread Your Fire

Angels and Demons

Waiting Silence

Late Redemption

Rebirth

Angels Cry

Carry On/Nova Era

terça-feira, 10 de junho de 2025

Cobertura de Show: Carcass – 15/05/2025 – Carioca Club/SP

Que o mês de maio foi uma loucura para o metaleiro paulistano todos nos sabemos. Com muitos ainda se recuperando do absurdo que foi abril, que trouxe o Monsters of Rock, maio não ficou para trás, começando com os pés na porta, três dias de Bangers Open Air pós feriado, aí na semana seguinte simplesmente o retorno do System of a Down (além do Upfront Fest para os punks), respirar naquele mês estava difícil. Imediatamente após a aula de show que os armênio-americanos proferiram no autódromo de Interlagos, presenciaríamos mais uma aula, mas deste vez, de metal extremo, pois os lendários britânicos do Carcass estariam passando por São Paulo em uma quinta feira à noite, pouco mais de um ano depois de sua apresentação no Summer Breeze Open Air.

Chegando no Carioca Club, a casa estava bem mais cheia do que o esperado, considerando que era quinta, a quantidade insana de shows que rolaram na mesma época e tinham anunciado a apresentação apenas no final de março, os fãs haviam aparecido em peso, a fila dobrava a rua. Tudo isso não era à toa, visto que os outros garotos de Liverpool tem uma história extensa, tanto aqui no Brasil, quanto no metal no geral, totalizando 10 apresentações em nossas terras e sendo conhecidos como os inventores do goregrind e grande influência para o mundo do death metal melódico. Como sempre, deixo aqui meus parabéns à produção da Overload, que há anos vem trazendo eventos extremamente pontuais e organizados, e desta vez, não foi diferente.

O quarteto assumiu o palco (adornado com uma  faca do lado esquerdo e um garfo do direito) pontualmente às 20:30, e com precisão cirúrgica, Bill Steer tocou os acordes iniciais de “Unfit for Human Consumption”, faixa de seu álbum de retorno, “Surgical Steel”, que desde seu lançamento, nunca saiu do repertório dos shows. Uma roda punk de tamanho considerável dominou o meio da pista desde os primeiros segundos, e simplesmente não parou. Seguiram logo com “Buried Dreams”, uma das joias da coroa do brilhante “Heartwork”, que logo no primeiro riff já praticamente enfartou os fãs. Indo contra os padrões do death metal, o mestre Jeff Walker até conseguiu levar o público a bater palmas no ritmo; estava com a galera realmente na palma da mão. Mostrando as habilidades de Dan Wilding com as baquetas, veio “Kelly’s Meat Emporium”, primeira representante do seu trabalho mais recente, “Torn Arteries” (2021), introduzida com uma virada estonteante.

Pularem de era em era, trazendo “Incarnated Solvent Abuse”, de seu terceiro álbum, lançado 30 anos antes do mais recente. Vale ressaltar que independente da era da banda, o som sempre foi dinâmico, apresentando a mescla de peso e brutalidade que tornou os uma das maiores lendas do metal, e ao vivo, isto transparecia perfeitamente, o peso dos riffs era absurdo, mas Bull Steer também tinha uma finesse incrível nos solos, estavam realmente dando aulas de metal. “Heartwork” voltou com “No Love Lost”, e figurou novamente no bloco seguinte, quando juntaram “Tomorrow Belongs to Nobody” e “Death Certificate” em versões reduzidas, uma atrás da outra. “Dance of Ixtab” viu o retorno das palminhas, mas a energia era tanta que até rolaram alguns crowdsurfs. 

A casa não era das maiores, mas os fãs estavam usufruindo de cada milímetro do Carioca Club, como em “Keep on Rotting in the Free World”, emendada com “Black Star”, onde boa parte dos fãs pularam juntos, fazendo o bairro de pinheiros tremer.A interação direta com o público era pouca, não falavam entre uma música e outra, mas a conexão entre público e banda era mais que evidente, como ocorreu logo após “Rotting” com a casa dominada por gritos de “Carcass, Carcass, Carcass”. Jeff retribuiu arriscando um “obrigado”, rapidamente voltando ao inglês com um “how are you doing”, justificando que seu português era muito ruim. A nostalgia veio forte com a sequência da instrumental “Genital Grinder” com a clássica “Pyosisified (Rotten to the Gore)”, as duas vindas de seu disco de estreia, “Reek of Putrefaction”. 

“Pyosisified” também foi lançada como parte do EP “Tools of the Trade” 4 anos depois, ao lado da já contemplada “Incarnated”, que com a faixa-título compunham o lado A, além dela e “Hepatic Tissue Fermentation II” do lado oposto. Depois dos últimos acordes de “Tools”, a entrada sinistra de “The Scythe’s Remorseless Swing”, um dos destaques do último LP. Vale destacar o trabalho que fizeram com o fundo do palco, que estava adornado com um backdrop fino de uma caixa torácica, e em certas músicas, no telão aparecia o coração da capa de “Torn Arteries” justamente onde estaria posicionado um coração no corpo humano, e a iluminação era feita de um jeito que aparecesse o backdrop também. Fica difícil de explicar, mas na hora estava incrível. Fora isso, a iluminação era inconsistente, sendo difícil de ver a banda em certos momentos, mas nada que detraísse da experiência do show no geral.

Este bloco do show foi concluído com uma trinca de peso, simplesmente a pesadíssima “316L Grade Surgical Steel”, executada com precisão esperadamente cirúrgica, “This Mortal Coil”, praticamente um Iron Maiden em versão metal extremo, fechando com uma das mais icônicas da primeira fase da banda, “Corporal Jigsaw Quandary”. Antes de iniciar esta última, Walker jogou algumas águas para o público, provavelmente após flashbacks do que aconteceu com ele no Summer Breeze do ano passado. Para os que não lembram, pelo calor, o vocalista passou mal, e teve que fazer boa parte do show com um pacote de gelo em sua cabeça. Assim que desceram do palco, o público voltou a gritar o nome deles - havia passado aproximadamente uma hora e 10 de show, mas não havia nenhum sinal de cansaço. O “Carcass, Carcass, Carcass” rapidamente virou “olê, olê olê olê, Car-cass, Car-cass”, e atendendo aos pedidos de muitos, Walker ressurgiu, perguntando se queriam ouvir mais uma música.

Puxando o resto da banda, voltaram em definitivo para o palco, e Walker relatou que mesmo tendo viajado para um lugar há mais de 3 mil milhas de distância, ele estava se divertindo demais. “Querem uma música mais devagar, vamos fazer uma mais devagar.” Se “Captive Bolt Pistol” é devagar, não sei em que velocidade toca uma banda de doom metal, pois captive é vertiginosa, dando aquela sensação de ser atropelado por um trem. Se os corações já não estavam batendo mais fortes, seria com a última sequência que pulariam para fora do corpo de cada um dos fãs de lá, trouxeram um pouco da “old shit” com “Ruptured em Purulence”, que se assemelha a sensação de fazer wakeboard no chão de asfalto com a testa e simplesmente “Heartwork”. Quando aquele riff ecoou pelo sistema de PA do Carioca, parecia que São Paulo iria entrar em erupção, foi um momento de euforia pura. O público cantava cada nota da melodia a plenos pulmões, em uníssono, era algo grandioso, épico. Terminado o momento de catarse, soltaram um “we, Carcass, love you so much, make some fucking noise”, enquanto executavam o final de “Carneous Cacophony”, e foi ao som de “Have a Cigar” do Pink Floyd pelos alto-falantes que desceram do palco.

Não é todo dia que temos a oportunidade de ver uma das bandas mais influentes do metal extremo em uma casa intimista em uma quinta-feira à noite, especialmente fazendo um show praticamente impecável, como foi o caso da aula que os britânicos proferiram naquele dia 15. Quem viu, quem esteve presente, certamente não esquecerá desta apresentação, enquanto quem não foi, perdeu uma performance histórica. Agora, esperamos que o retorno deles seja em um final de semana, algo um pouco mais digno.



Fotos: Leandro Almeida (Rock Brigade)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Overload



Carcass – setlist:

Unfit for Human Consumption

Buried Dreams

Kelly’s Meat Emporium

Incarnated Solvent Abuse

No Love Lost

Tomorrow Belongs to Nobody/Death Certificate

Dance of Ixtab

Black Star/Keep on Rotting in the Free World

Genital Grinder

Pyosisified (Rotten to the Gore)

Tools of the Trade

The Scythe’s Remorseless Swing

316L Grade Surgical Steel

This Mortal Coil

Corporal Jigsaw Quandary

Bis

Captive Bolt Pistol

Ruptured in Purulence/Heartwork

Carneous Cacophony (final)

sábado, 7 de junho de 2025

Cobertura de Show: Tarja Turunen – 24/05/2025 – Tokio Marine Hall/SP

Sábado, 24 de maio, foi marcado por uma noite cheia de surpresas na vinda de Tarja Turunen e Marko Hietala a São Paulo em sua turnê no Brasil. E quando falamos de surpresas, não é eufemismo, começando pela banda de abertura Madzilla, vinda de Las Vegas que nos trouxe um show pra cima, melódico e com a apresentação de sua nova guitarrista e de um arriscado português demonstrando seu respeito ao público brasileiro.




Infelizmente, ao final da abertura, tivemos a notícia de que Marko Hietala não poderia fazer seu show acústico devido a problemas médicos, mas quem decidiu desistir do show e receber o reembolso não esperava que Marko iria se recuperar a ponto de conseguir subir ao palco ao lado de Tarja na parte final e encerramento de seu show.

Tarja subiu ao palco junto a sua orquestra impecável fazendo o público vibrar com seu vocal potente e sua simpatia, sem falar de sua beleza impactante e sua desenvoltura em cima do palco relembrando clássicos de sua carreira solo. 

Para quem vêm acompanhando seus shows ao Brasil, já sabe que Tarja fez uma homenagem a Rita Lee cantando seu grande sucesso Ovelha negra, mas o que não estávamos esperando era a participação de seu amigo, Kiko loureiro, o que deixou fez o chão do Tokio Marine Hall tremer. Importante lembrar que Kiko Loureiro, já considerado um dos melhores guitarristas do mundo estará no mesmo palco no dia 7 de junho.

Após esse dueto Tarja volta ao seu show e o que todos esperavam aconteceu, Marco entra ao palco para fazer sua participação e nos surpreende cantando boa parte do show, incluindo sucessos do Nightwish da época em que estavam juntos na primeira formação.

Tarja encerra seu show com um dos seus maiores sucessos da carreira solo I Walk Alone e com um discurso emocionante se despedindo da sua turnê e de São Paulo. Não precisamos dizer o quanto tudo foi incrível, a orquestra, músicos, os duetos, mas nada próximo a luz e força que Tarja Turunen nos trouxe nesta noite.


Texto: Cristina De Mouras

Fotos: Rogério Talarico

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Top Link Music


Tarja Turunen – setlist: 

Eye of the Storm

In for a Kill

Undertaker

Sing for Me

Deliverance

Demons in You

Victim of Ritual

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Acústico

Ovelha Negra (Rita Lee cover) (com Kiko Loureiro)

The Crying Moon / Feel for You / Eagle Eye (com Marko Hietala)

Higher Than Hope (com Marko Hietala)

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Left on Mars (com Marko Hietala)

Slaying the Dreamer (com Marko Hietala)

Silent Masquerade (com Marko Hietala)

Wishmaster (com Marko Hietala)

I Walk Alone

Bis

Dead Promises

Wish I Had an Angel (com Marko Hietala)

Until My Last Breath

terça-feira, 27 de maio de 2025

Cobertura de Show: UpFront Festival – 11/05/2025 – Carioca Club/SP

O que era para ser o último show do The Exploited em solo brasileiro acabou se tornando um capítulo à parte. 

Anunciado como parte da turnê de despedida que passou por Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, o encerramento em São Paulo, no Upfront Festival (realizado no Carioca Club), foi marcado por imprevistos, adaptações e uma grande demonstração de respeito coletivo à história da banda.

No dia anterior, durante o show no Rio de Janeiro, Wattie Buchan passou mal no palco e precisou ser socorrido após vomitar sangue em plena execução do set. A cena chocou o público, e a notícia logo correu entre os fãs. Assim, em São Paulo, a expectativa já era tensa: seria mesmo a última apresentação? E Wattie conseguiria se apresentar? A resposta veio ainda antes do início do show — um video publicado  nas redes sociais por Wattie foi exibido e o vocalista não subiu ao palco. A apresentação seguiu, mesmo sem seu líder histórico. E isso, de certa forma, mudou o tom da noite.

A abertura do festival foi feita com propriedade pelas bandas nacionais Escalpo, Urutu e Punho de Mahin. O Escalpo entregou um set rápido e direto, mostrando que o crust punk brasileiro ainda pulsa com força. O Urutu trouxe uma mistura de punk com metal extremo, fazendo a ponte entre agressividade e discurso político em canções como "Parasita" e "A Pátria que nos mata". Já o Punho de Mahin levantou o público com seu punk antifascista carregado de referências afrocentradas, com destaque para "Mãe África" e "Invasores".

O line-up internacional teve uma presença marcante antes do momento do Exploited: O The Chisel, representando o punk britânico atual, trouxe uma pegada mais Oi! e street punk que agradou os fãs mais jovens — "Retaliation" e "Not the Only One" foram cantadas em coro por uma boa parte da plateia.




O Ratos de Porão, uma das maiores instituições do punk/hardcore brasileiro, pegou o horario "nobre" - sendo a penultima banda da noite, com João Gordo ainda dando conta do recado mesmo após alguns shows "cansado demais". O grupo entregou a lista de quase sempre, "Crucificados pelo Sistema","Necropolitica", "Brasil"  e etc. A performance do Ratos serviu como preparação perfeita para o que viria a seguir.



Quando chegou o momento da entrada do The Exploited, já havia um burburinho no ar sobre como seria o show sem Wattie. O que aconteceu, no entanto, foi menos um show da banda e mais uma grande jam em tributo ao legado dela. Músicos convidados assumiram os vocais em diferentes momentos. João Gordo (Ratos de Porão) puxou "Cop Cars" e "Fuck the System" com propriedade e presença de palco, fazendo jus à crueza e energia exigidas por essas faixas. Outras músicas como "Army Life", "Dead Cities" e "Sex and Violence" foram distribuídas entre vocalistas como Jão (RDP), Mark (Fang) e membros do The Chisel e do Punho de Mahin.


A banda de apoio (formada pelos membros restantes da formação atual) segurou firme a base instrumental. Mesmo sem a figura icônica de Wattie, o público respondeu com respeito, entendendo o peso simbólico do momento. Os mosh pits não pararam, e a plateia — embora frustrada pela ausência do frontman — abraçou a proposta de um encerramento coletivo, improvisado, mas digno.


O que era para ser a despedida do The Exploited virou um tributo espontâneo. E talvez esse tenha sido o único jeito possível de encerrar uma trajetória tão marcada pela urgência, pela saúde frágil e pela entrega total ao palco. Wattie não esteve ali fisicamente, mas sua presença foi sentida em cada grito, em cada acorde e em cada roda que se abriu. Foi, ao mesmo tempo, despedida e homenagem. Um fim imperfeito — como deve ser no punk.


Texto: Filipe Moriarty 

Fotos: Raíssa Corrêa (Sonoridade Underground)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Agência Sob Controle

Press: Tedesco Comunicação Mídia 


The Exploited – setlist:

Dead Cities

UK 82

Fight Back

Chaos Is My Life

Why Are You Doing This to Me

Alternative

Class War

Beat the Bastards

Never Sell Out

Fuck the System

Dogs of War

Rival Leaders

(Fuck the) U.S.A.

Punks Not Dead

Sex & Violence