sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Entrevista - Jennifer Haben (Beyond The Black): Metal, Emoção e Conexão Global

Por Paula Butter

Beyond The Black, a banda de Metal Sinfônico alemã que tem agitado os palcos ao redor do mundo nos últimos anos, está na expectativa do lançamento de seu novo álbum, intitulado “Break the Silence”. Então, começamos 2026 com um grande presente para os headbangers, uma entrevista com Jennifer Haben, onde a simpática vocalista esclarece alguns pontos sobre o conceito desta obra, que já está disponível, pela gravadora Nuclear Blast, no dia de hoje (09/01/26).

Paula: É um prazer ter você aqui conosco para esta entrevista. Como você está hoje?

Jennifer: Estou bem. Tive uma semana muito corrida na semana passada. Fizemos algumas coisas ótimas com muitas das músicas captadas do Wacken e também outros projetos, e isso foi muito bom para poder contar um pouco mais sobre o álbum.

Paula: Ah, sim, estou muito animada. O lançamento é no dia 9 de janeiro, eu acho. É logo no começo do Ano Novo, então acredito que todo mundo esteja bastante ansioso pelo álbum.

Gostaria de começar com algumas perguntas sobre as três primeiras músicas, que foram lançadas como singles antes do álbum. Esses singles contam com várias participações, incluindo o Lord of the Lost e também com a cantora japonesa Asami. Acho isso muito interessante, adorei o álbum!

Essas três músicas parecem representar capítulos diferentes do disco, cada uma com uma identidade própria. Elas representam a variedade de Break the Silence?

Jennifer: Até agora, ainda não contamos a história completa. Ainda falta um single que, sim, vai apresentar o final deste capítulo.

Como eu já disse antes, todos esses videoclipes, do começo ao fim, funcionam quase como um pequeno filme, porque pensamos em um conceito completo para explicar às pessoas sobre o que estamos falando. Indo além, Break the Silence é um álbum sobre comunicação.

Desde o início, quando começamos a pensar no que escrever, percebemos que todos estávamos mais ou menos na mesma sintonia: as pessoas não estão mais conectadas — ou pelo menos não o suficiente. Elas estão mais divididas do que nunca, pelo menos é assim que sentimos.

Ao mesmo tempo, temos a internet, que nos deixa hiperconectados, mas sem conversas realmente profundas. Parece que as pessoas apenas expressam suas opiniões, sem ouvir o outro lado. Elas não querem entender de verdade o que o outro tem a dizer, apenas expor seu próprio ponto de vista. Acho isso muito perigoso. Acredito que poderíamos nos reconectar se tentássemos compreender o que o outro quer dizer com o coração, e não apenas pelas palavras.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Sim, concordo totalmente com você. Break the Silence é um álbum muito forte, e o título também é muito impactante. A capa do álbum é linda e chama muita atenção logo de primeira.

O que tudo isso significa para você e para a banda neste momento? Vocês estão tocando em muitos festivais e já estiveram no Brasil este ano, no Bangers Open Air (obs.: entrevista realizada em dezembro de 2025). O que esse álbum representa para você pessoalmente e para a trajetória da banda?

Jennifer: Acho que todo álbum revela um pouco mais sobre a personalidade da banda e sobre a fase em que estamos vivendo. Desde Beyond the Black, o álbum anterior, tudo estava mais relacionado à confiança. Já era possível sentir que estávamos mais seguros do que antes, que sabíamos melhor o que estávamos fazendo e o que queríamos.

Desta vez, foi um desenvolvimento em direção a algo mais profundo, no qual realmente quisemos expor nossas preocupações sobre como o mundo está evoluindo. Queríamos mostrar às pessoas o que sentimos. É empolgante ver isso finalmente se concretizando. Agora faltam alguns meses… não, na verdade, só um mês.

Paula: Nem isso, na verdade.

Jennifer: Exatamente, está muito perto. Há outras músicas no álbum das quais eu realmente me orgulho, então mal posso esperar para que as pessoas as escutem.

Paula: Preciso dizer que já ouvi o álbum. Agradeço à Nuclear Blast pela oportunidade. Acho que ele reúne muitos sons e culturas diferentes. É um disco muito diverso: cada música é diferente, cada uma conta uma história. Há elementos culturais de várias partes do mundo, de diferentes países e tradições. É como se muitas culturas estivessem reunidas em um único álbum.

Esse equilíbrio entre melodia, emoção e intensidade sempre esteve presente no Beyond the Black. Essa visão já existia desde o início ou foi se desenvolvendo ao longo do tempo?

Jennifer: Você diz de modo geral ou especificamente para este álbum?

Paula: Para este álbum.

Jennifer: Certo. A visão surgiu já no início do processo criativo, quando começamos a pensar no novo álbum. Desde o começo sabíamos qual seria o tema central: comunicação. Acho que foi a primeira vez que isso ficou definido antes mesmo de começarmos a compor as músicas.

Ter isso em mente ajudou muito no conceito geral, inclusive no que você mencionou sobre idiomas e culturas diferentes. Comunicação não é apenas alemão ou inglês, é algo global. Queríamos nos conectar com pessoas do mundo inteiro, por isso escolhemos diferentes idiomas e exploramos essas ideias.

Por exemplo, em “Rising High”, tivemos aquela voz africana antes mesmo de pensarmos em criar uma música do Beyond the Black ao redor dela. Foi quase um recomeço para nós. O mesmo aconteceu com os vocais búlgaros, japoneses e outros.

A ideia era nos inspirar nesses elementos e criar algo a partir deles, sem forçar a música a ser algo que ela não é. Queríamos criar algo harmônico a partir do que já existia na identidade do Beyond the Black.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Este álbum é muito verdadeiro. Tenho uma pergunta: se você tivesse que apresentar o Beyond the Black e Break the Silence para alguém que não conhece a banda, como descreveria?

Jennifer: Eu diria que é possível encontrar muitas emoções diferentes, elementos bem metal, mas também partes orquestrais, eletrônicas e com uma pegada de rock. No conjunto, há muitas dinâmicas diferentes.

Paula: Ótimo! E como foi trabalhar com outras bandas, como o Lord of the Lost e a cantora Asami (obs:. vocalista da banda de Metal japonesa Lovebites)? São duas vertentes muito fortes. Como foi essa colaboração?

Jennifer: Foi incrível. Eu sou apaixonada pelo Japão, então para mim estava claro que eu queria ter um vocal japonês neste álbum, além de letras em japonês. No início, pensei em cantar eu mesma (risos), mas percebi que talvez não fosse a melhor escolha, então precisávamos de outra pessoa. Fiquei muito feliz que a Asami tenha aceitado participar.

A ideia de “Can You Hear Me” é mostrar que sentimos as mesmas coisas, mesmo estando tão distantes no mundo: solidão, a tentativa de alcançar o outro, de ter conversas e emoções profundas.

Já com o Chris Harms, do Lord of the Lost, foi algo muito especial. Ele é um cantor incrível. Não conversamos muito antes de gravar juntos, mas senti que encontrei um novo amigo nele, porque compartilhamos um nível emocional parecido. Quando ele gravou e me enviou as partes vocais, foi como se tivesse acrescentado uma dimensão totalmente nova à música. Isso não acontece com frequência em colaborações, então foi realmente especial.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: É muito emocionante e tocante. Em “Can You Hear Me”, há um contraste muito forte entre os vocais. Como foi, para você, essa experiência de contrastar a sua voz com a dela?

Jennifer: Para mim, é sempre importante trabalhar com uma voz diferente da minha. Esse contraste permite alcançar diferentes níveis emocionais e torna a música mais interessante para quem ouve. Acho que essa faixa é um ótimo exemplo disso.

Paula: Tenho muitas perguntas, estou até um pouco nervosa (risos). Como fundadora do Beyond the Black, hoje é mais fácil separar seus papéis como líder da banda, compositora e cantora?

Jennifer: Você pode repetir a pergunta? Desculpe.

Paula: Claro. Existe uma divisão clara de responsabilidades dentro da banda? Como funciona o processo quando vocês estão compondo e gravando, considerando que você também é compositora e líder?

Jennifer: Obrigada por esclarecer. A composição no Beyond the Black é feita principalmente por mim e pelo nosso guitarrista, Chris. Fazemos grande parte do trabalho juntos. Quando se trata de decisões gerais, nós quatro decidimos em conjunto, mas cada um tem responsabilidades específicas, como merchandising ou outros aspectos. Ninguém faz tudo sozinho, e eu também não faço tudo sozinha. Cada um tem suas funções.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Hoje em dia, vemos muitas bandas na mídia por conflitos internos, e isso não é bom para o heavy metal (risos).

Jennifer: Estou tentando manter meus caras unidos.

Paula: E você consegue, isso é incrível.

Jennifer: Para mim, é muito importante que o tempo que passamos juntos seja bom. Se você não estiver se divertindo, não faz sentido ser músico. Na turnê, ter a equipe certa e boas pessoas por perto também é fundamental.

Paula: Eu vi vocês em São Paulo e senti uma energia muito positiva. Dá para perceber que vocês são uma banda de verdade. Foi incrível assistir ao show.

Jennifer: Muito obrigada.

Paula: Posso fazer mais uma pergunta? Como está o seu tempo?

Jennifer: Acho que ainda tenho uns cinco minutos antes da próxima entrevista.

Paula: Após o lançamento do álbum, vocês pretendem fazer uma turnê específica para Break the Silence?

Jennifer: Sim, teremos uma turnê pela Europa em janeiro e fevereiro. Vamos tocar algumas das músicas novas, claro. A turnê começa por volta de 15 de janeiro, logo após o lançamento do álbum, então estaremos bem ocupados.

Paula: E vocês pretendem voltar ao Brasil em 2026 ou 2027?

Jennifer: Ainda não sabemos, mas quando estivemos aí e vimos o público incrível, dissemos: “Precisamos voltar”. A energia foi maravilhosa, e tocar para pessoas assim é algo que amamos. Com certeza voltaremos, só não sabemos quando.

Paula: No Brasil, a banda é muito querida. Eu sou uma grande fã — adoro sua voz, seu estilo e o som moderno da banda. Posso fazer uma pergunta pessoal?

Jennifer: Claro!

Paula: O que você gosta de fazer quando não está no palco?

Jennifer: Boa pergunta (risos). Gosto de assistir a séries. Mas, sinceramente, minha vida gira muito em torno da música. Também gosto de estar com minha família. Tenho uma afilhada, e passar tempo com ela realmente ilumina meu coração.

Paula: Que bonito. Eu também sou mãe, e a família é muito importante para mim.

Jennifer: Eu não sou mãe, sou “apenas” a tia.

Paula: Mas hoje em dia é quase como ser mãe.

Jennifer: De certa forma, sim.

Paula: Muito obrigada pelo seu tempo.

Jennifer: Muito obrigada pelo seu tempo e pelo seu interesse. Espero voltar ao Brasil muito em breve.

E atenção aos amantes do Metal Sinfônico: Não deixe de conferir a obra de arte musical “Break the Silence”! Em tempo, ainda no mês de janeiro de 2026, o Beyond The Black dará início à sua próxima turnê europeia como atração principal, Rising High, coincidindo com o lançamento de seu aguardado sexto álbum de estúdio, lançado hoje, dia 9 de janeiro.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Beyond The Black: Quebrando o Silêncio Em Um Mundo Fragmentado

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Paula Butter

Mais um lançamento de peso para este início de ano. Estamos falando da banda alemã Beyond The Black, que chega em 2026 com seu sexto álbum de estúdio, Break The Silence.

Inicialmente, convém dizer que se trata de uma obra bastante conceitual, com várias nuances ao longo das faixas. Conforme a própria banda divulgou, Break The Silence possui raízes no metal melódico e influências étnicas, explorando temas como comunicação, força interior, resiliência e a necessidade urgente de reconexão em um mundo dividido. Novamente vemos o caos mundial como parte de uma obra musical, mas esta, em particular, foge do óbvio, pois nos apresenta o caos apenas como uma peça de um quebra-cabeça, em que cada parte vai se encaixando ao longo da audição.

A primeira faixa, “Rising High”, já mostra uma mistura de sons e riffs enérgicos, com pausas características na melodia, para um retorno dos vocais em força total, trazendo uma mensagem clara de superação e renascimento. Logo na sequência, chega a faixa-título, “Break The Silence”, que entrega exatamente o que promete: elementos bem característicos do metal sinfônico, com os vocais poderosos de Jennifer Haben, que reforçam a identidade da banda e comprovam tratar-se de uma canção atemporal.

Com “The Art Of Being Alone”, que conta com a participação do grupo Lord Of The Lost, também em ascensão no mainstream, o tom se torna mais sério. O início é belíssimo, quase onírico, porém carregado de melancolia. A junção musical das duas bandas alcança um alto nível, agradando tanto aos fãs quanto àqueles que ainda não conheciam o trabalho do Beyond The Black. Inclusive, esta foi uma das faixas escolhidas como single e ganhou videoclipe de divulgação do novo álbum.

Após essa pancada espiritual, chega “Let There Be Rain”, com a belíssima participação do grupo vocal feminino The Mystery of the Bulgarian Voices. O folk tradicional da Bulgária torna a música bastante peculiar, sem que ela perca peso ou melodia. A faixa funciona como um respiro para o ouvinte, deixando o disco ainda mais interessante e adicionando um novo elemento cultural à construção de Break The Silence. Além disso, evidencia como a música pode quebrar barreiras ao unir estilos distintos de forma assertiva.

Até este ponto, já é possível perceber que o disco representa um marco na carreira da banda. Apesar do ótimo antecessor, que ampliou significativamente o público do Beyond The Black e levou o nome do grupo a grandes festivais mundiais, este novo lançamento consegue superá-lo. Em tempo, dentre tantas diversidades, surge “Raven”, uma das minhas faixas favoritas do álbum. Além das participações especiais de diversos artistas, nesta música em particular, a banda resgata momentaneamente suas raízes, lembrando-nos de que, apesar das mudanças, o conforto ainda habita o âmago de sua essência.

Na sequência, temos mais uma peça importante: “The Flood”, que incorpora elementos industriais ao som da banda, transmitindo uma sensação de imperfeição e indiferença. Para equilibrar as forças, surge “Can You Hear Me”, um pedido carregado de emoção e um nó na garganta, com a excelente participação vocal da cantora Asami, da banda japonesa Lovebites. A união de sua voz com a de Haben resulta em uma faixa intensa, repleta de sentimentos à flor da pele, reforçando mais uma vez o contraponto cultural presente no álbum.

Quase ao final do disco, vale uma licença poética para comentar a oitava faixa, “(La vie est un) Cinéma”, que em português significa “(A vida é um) cinema”. Trata-se de uma verdadeira pérola, tanto na letra quanto no instrumental. Não é de hoje que o francês exerce forte apelo quando bem inserido na música pesada, e aqui o resultado é um deleite para os ouvidos. A canção carrega uma mensagem poderosa de união e entrega pessoal, que se manifesta em momentos cruciais, tanto na vida quanto nos filmes. A penúltima faixa, “Hologram”, é muito boa, embora não se destaque tanto quanto as demais.

Por fim, o álbum se encerra com “Weltschmerz”, termo alemão que, segundo o Dicionário Cambridge, expressa uma tristeza profunda e um desalento em relação ao mundo, sendo frequentemente citado como exemplo de sentimentos complexos sem tradução direta para o inglês. A proposta musical aqui se aproxima do metal sinfônico, mas incorpora elementos sonoros e instrumentais que remetem a uma atmosfera digna de “Senhor dos Anéis”, fazendo o ouvinte sentir parte da melancolia à qual o termo se refere. Um encerramento bastante assertivo.

Assim, vale sair da zona de conforto e apreciar Break The Silence, novo álbum do Beyond The Black, com lançamento marcado para o dia 9 de janeiro de 2026. Tudo indica que este trabalho tem grande potencial para figurar entre os melhores lançamentos do ano.

Heilemania

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Golpe de Estado – 21/12/2025 – Carioca Club/SP

O dia 21 de dezembro de 2025 marcou o ponto final de uma jornada de 40 anos, um adeus grandioso e emocionante da banda Golpe de Estado. Intitulado de forma poética e impactante como “O Último Golpe”, o evento reuniu fãs de todas as gerações, amigos, ex-integrantes e uma constelação de convidados para celebrar o legado de uma das maiores referências do hard rock brasileiro. Quase três horas de pura energia, nostalgia e gratidão marcaram uma despedida digna da história que a banda construiu.

O Golpe de Estado surgiu em meados dos anos 1980, em São Paulo, estabelecendo-se rapidamente como um dos pilares do hard rock e do heavy metal brasileiro. Sua formação clássica, que eternizou discos como Golpe de Estado (1986) e Nem Polícia, Nem Bandido (1988), contava com a voz inconfundível de Catalau, a guitarra virtuosa de Hélcio Aguirra, o baixo e as letras poéticas de Nelson Britto e a bateria potente de Paulo Zinner. Ao longo dos anos, a banda passou por diversas mudanças, com João Luiz assumindo os vocais em uma fase posterior e músicos como Kiko Miller, Tadeu Dias e Mateus Schanoski contribuindo para a evolução e a continuidade do som. Apesar das trocas, a essência do Golpe de Estado foi mantida, com um rock direto e visceral, além de letras que refletiam o cotidiano e as angústias urbanas, conquistando uma legião de fãs fiéis.

Antes que as primeiras notas ecoassem pelo Carioca Club, a atmosfera já era de profunda reverência. Um vídeo emocionante, projetado no telão, levou o público a uma viagem no tempo, revisitando momentos marcantes da trajetória do Golpe de Estado, desde seus primórdios até os dias atuais. Imagens raras, trechos de shows históricos e depoimentos costuraram a narrativa de uma banda que, por quatro décadas, manteve a chama do rock acesa no cenário nacional.

Com a formação atual composta por João Luiz (vocal), Marcelo Schevano (guitarra), Fabio Cezzar (baixo) e Roby Pontes (bateria), a banda deu início ao show com a explosiva “Quantas Vão”. João Luiz dominou o palco desde os primeiros segundos e, ao final da música, resumiu o espírito da noite com poucas palavras, ditas entre gratidão e melancolia: “Sejam bem-vindos ao Último Golpe”. Em seguida, “Não Faz Mal” manteve a energia em alta, enquanto o vocalista prometia uma noite longa, repleta de surpresas e amigos dividindo o palco. As canções “Não É Hora” e “Pra Conferir” ganharam novos contornos com a presença de Mateus Schanoski nos teclados. Embora integrante da formação atual, ele foi apresentado como convidado especial e recebeu uma calorosa resposta do público, acrescentando camadas sonoras que enriqueceram o hard rock característico da banda.

“Janis” trouxe à tona a força das letras de Nelson Britto. João Luiz fez questão de homenagear o ex-baixista e o ex-guitarrista Hélcio Aguirra, lembrando que ambos estariam orgulhosos daquela celebração. A emoção cresceu ainda mais quando Kiko Miller, ex-vocalista da banda, subiu ao palco para “Pra Poder”. João Luiz literalmente passou o bastão ao amigo, destacando sua importância e contribuição para a história do Golpe de Estado.

O impacto foi ainda maior em “Libertação Feminina”. Ovacionado, Kiko Miller participou de um dos momentos mais intensos da noite, com a plateia cantando em uníssono e reforçando a atualidade da mensagem da música. Em “Forçando a Barra”, João Luiz e Kiko dividiram os vocais e o palco, simbolizando a união entre diferentes fases da banda.

A sonoridade ganhou novos ares em “Olhos Vendados”, com a entrada de Bocato no trombone e a participação do ex-guitarrista Tadeu Dias, que substituiu Hélcio Aguirra logo após seu falecimento. Essa fusão se aprofundou em “Tudo Que Vem Fácil” e “Caosmópolis”, quando o saxofone de Neurozen se somou aos metais, criando uma atmosfera sofisticada e inesperada para o hard rock da banda. “Caosmópolis”, em especial, destacou mais uma vez a genialidade lírica de Nelson Britto, com vocais inspirados no rap, segundo João Luiz, a pedido do próprio Nelson.

“Moondog” elevou ainda mais o nível com a participação de Rodrigo Hid, ex-guitarrista do Patrulha do Espaço e figura lendária do rock nacional, acrescentando peso, história e respeito ao palco. Em seguida, “Zumbi”, um dos grandes clássicos da banda, fez o público cantar cada verso, relembrando a icônica participação de Rita Lee na versão de estúdio. Um dos momentos mais surpreendentes da noite aconteceu em “Paixão”. O jornalista e apresentador Celso Cardoso subiu ao palco declarando que o Golpe de Estado é, em suas palavras, “a maior banda de hard rock do Brasil”. Para surpresa geral, entregou uma performance vocal segura e emocionante, arrancando aplausos sinceros da plateia.

A emoção continuou com a entrada de Rogério Fernandes em “Todo Mundo Tem Um Lado Bicho”. Visivelmente emocionado, ele confessou estar à beira das lágrimas e fez questão de vestir uma camiseta da banda Malvada, exaltando o protagonismo feminino no rock. A parceria seguiu em “Cobra Criada” e “Feira do Rato”, com Rogério e João Luiz dividindo os vocais em um clima de cumplicidade e celebração.

Até esse momento, o show já era espetacular, mas a expectativa aumentou quando João Luiz anunciou a volta do vocalista original, Catalau. O Carioca Club veio abaixo. Ansioso e emocionado, Catalau retornou ao palco sendo recebido como um ícone, iniciando sua participação com “Dias de Glória”, cantada pelos fãs como um verdadeiro hino.

Após o solo de bateria de Roby Pontes, que demonstrou toda a força rítmica que sempre impulsionou a banda, Catalau voltou a dividir os vocais com João Luiz em “Onde Há Fumaça, Há Fogo”, unindo duas vozes fundamentais da história do Golpe de Estado. A sequência com “Filho de Deus” e “Real Valor” emocionou os fãs, mas quando Catalau pegou o violão para tocar “Olhos de Guerra” e “Caso Sério”, muitos não conseguiram conter as lágrimas. Da emoção à nostalgia, “Velha Mistura” reforçou o carisma de Catalau e sua conexão com o público, afinal, um rei nunca perde sua majestade.

Antes de “Terra de Ninguém”, Catalau fez questão de agradecer aos fãs, afirmando que tudo o que conquistou ao longo da carreira foi graças a eles. O momento, marcado por humildade e respeito, demonstrou que o tempo fez bem a todos. Com todos os convidados no palco, “Nem Polícia… Nem Bandido” e “Noite de Balada” transformaram-se em uma grande festa, coroando a celebração e a despedida dessa importante banda brasileira. Durante “Noite de Balada”, em um gesto retribuição, Catalau sentou-se na beirada do palco e distribuiu autógrafos aos fãs. Nem precisa dizer que esses grandes hinos levaram todos a cantarem juntos, transformando o Carioca Club em uma única voz, celebrando liberdade, atitude e resistência. Um encerramento emocionante a essa apresentação incrível.

O Último Golpe não foi apenas o fim de uma banda. Foi a despedida de uma era, de uma sonoridade que marcou gerações e de uma paixão inabalável pelo rock. As quase três horas de show, repletas de convidados, emoção e um setlist impecável, provaram que o Golpe de Estado encerra sua trajetória em grande estilo. A banda pode ter dado seu último golpe nos palcos, mas sua música e seu legado continuam vivos, ecoando e inspirando novas gerações. Apesar da ausência de Paulo Zinner, baterista da formação original, foi uma noite histórica para o rock nacional, um adeus que ficará gravado na memória de todos que testemunharam a grandeza do Golpe de Estado. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: TC7 Produções 



Golpe de Estado – setlist:

Quantas Vão

Não Faz Mal

Não É Hora

Pra Conferir

Janis

Pra Poder

Libertação Feminina

Forçando a Barra

Olhos Vendados

Tudo Que Vem Fácil

Caosmópolis

Moondog

Zumbi

Paixão

Todo Mundo Tem Um Lado Bicho

Cobra Criada

Feira Do Rato

Dias De Glória

Onde Há Fumaça, Há Fogo

Filho De Deus

Real Valor

Olhos De Guerra

Caso Sério

Velha Mistura

Terra De Ninguém

Nem Polícia... Nem Bandido

Noite De Balada 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Tiamat – 15/12/2025 – Carioca Club/SP

A noite de segunda-feira (15), no Carioca Club, marcou um retorno muito aguardado para os fãs brasileiros do Tiamat. Após 16 longos anos de ausência, a lendária banda sueca de doom/gothic metal escolheu São Paulo para encerrar sua turnê latino-americana, em um evento que, apesar da data pouco convencional, transformou-se em uma noite inesquecível. A expectativa era grande e, mesmo com a desvantagem de um show em plena segunda-feira, que naturalmente impactou a presença do público, aqueles que compareceram demonstraram uma paixão e devoção que valiam por uma multidão.

O início da apresentação teve um pequeno atraso de 15 minutos, mas o que poderia ser um inconveniente rapidamente se transformou em um momento memorável para os presentes. De cima do palco, o carismático vocalista Johan Edlund aproveitou a espera para autografar álbuns, camisetas e outros itens que os fãs estendiam em sua direção. Esse gesto inesperado agradou profundamente os fãs mais ardorosos, que fizeram questão de prestigiar a banda, criando uma atmosfera de cumplicidade e gratidão mútua. A felicidade estava estampada em cada rosto e, a cada autógrafo, a certeza de que seria uma noite especial se consolidava.

Especialmente notável foi a postura da banda. Longe de se abalar com o número de presentes, o Tiamat entregou uma performance impecável, como se estivesse tocando para um estádio lotado. A experiência de décadas e a paixão pela música transbordavam de cada integrante, transformando o Carioca Club no lugar perfeito para se vivenciar aquele momento. Os riffs melancólicos, os vocais profundos e a atmosfera densa, marcas registradas do Tiamat, preencheram o ambiente, e a banda conectou-se de forma intensa com cada fã que fez questão de testemunhar esse momento histórico. A resposta calorosa transformou o show quase em um encontro entre velhos conhecidos, algo que a banda pareceu valorizar a cada música.

O setlist, uma verdadeira viagem pela discografia da banda, começou com a força de “Church of Tiamat”, estabelecendo o tom sombrio e envolvente da noite. Clássicos absolutos como “In a Dream”, “Clouds” e a icônica “The Sleeping Beauty” foram recebidos com entusiasmo, transportando os fãs de volta às raízes do som que os conquistou. A precisão instrumental e a entrega emocional em cada nota provaram que o Tiamat não apenas retornou, mas o fez em sua melhor forma, revivendo a magia de seus álbuns mais aclamados.

A jornada musical continuou com uma seleção que contemplou diferentes fases da carreira, passando por “Divided”, “Will They Come?”, “Cain” e a hipnotizante “Love in Chains”. Faixas como “Phantasma De Luxe”, “Brighter Than the Sun” e, especialmente, “Wildhoney” e “Whatever That Hurts”, esta última considerada um hino por muitos, levaram o público a cantar em coro, ecoando anos de espera. A banda soube dosar a melancolia com momentos de pura intensidade, mantendo os fãs imersos em sua sonoridade única.

Para encerrar a noite e a turnê, o Tiamat brindou o público com uma sequência poderosa que incluiu “The Ar”, “Do You Dream of Me?”, “Visionaire”, “Cold Seed”, “Wings of Heaven”, “Vote for Love” e “25th Floor”, culminando com a épica “Gaia”. Cada música foi uma celebração da longevidade e da relevância da banda, provando que o tempo apenas solidificou seu legado. Foi uma despedida à altura: um show que, apesar das circunstâncias, tornou-se um testemunho da lealdade dos fãs brasileiros e da maestria de uma banda que, mesmo após tanto tempo, ainda tem muito a oferecer. O Carioca Club foi palco de um retorno tardio, porém honesto e intenso, que comprovou que a conexão entre o Tiamat e o Brasil segue viva, mesmo depois de 16 anos de espera. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Cacique Entertainment



Tiamat – setlist:

Church of Tiamat

In a Dream

Clouds

The Sleeping Beauty

Divided

Will They Come?

Cain

Love in Chains

Phantasma De Luxe

Brighter Than the Sun

Wildhoney

Whatever That Hurts

The Ar

Do You Dream of Me?

Visionaire

Cold Seed

Wings of Heaven

Vote for Love

25th Floor

Gaia 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Rhapsody Of Fire – 14/12/2025 – Carioca Club/SP

A noite do último dia 14, no Carioca Club, em São Paulo, foi palco de uma verdadeira odisseia sonora, com o Rhapsody of Fire entregando uma jornada épica que celebrou tanto seu trabalho mais recente, “Challenge the Wind” (2024), quanto o 25º aniversário do clássico “Dawn of Victory”. A expectativa era grande, e a banda italiana, mesmo com a ausência forçada do tecladista Alex Staropoli, devido a problemas de saúde, prometeu e entregou uma performance memorável. Abrindo a noite, a banda brasileira Cova Rasa aqueceu o público com sua energia, preparando o terreno para a tempestade sinfônica que estava por vir.

Responsável por abrir a noite no Carioca Club, o Cova Rasa mostrou por que vem conquistando espaço no cenário do metal nacional. Diante de um público que chegava aos poucos, mas já atento, a banda entrou no palco com postura segura e um som bem ajustado, algo que geralmente não é muito comum em shows de abertura. Abrindo a apresentação com “The Red Mansion” e “Borley Rectory”, a banda deixou clara sua proposta musical. “Heartbreakers Hunter” e “Countess of Blood” mantiveram o público envolvido, com refrões fortes e clima épico, enquanto “Reaper’s Rival” e “King of Ghouls” trouxeram um peso maior ao set. Na reta final, “Dr. Death” e “Black Shadow” encerraram a apresentação com energia e personalidade, consolidando um show coeso que agradou bastante quem chegou cedo ao Carioca Club.

Com a formação composta por Giacomo Voli nos vocais, Roby De Micheli nas guitarras, Alessandro Sala no baixo e Paolo Marchesich na bateria, o Rhapsody of Fire subiu ao palco sob uma recepção calorosa. O show teve início com a grandiosidade de “The Dark Secret”, seguida pela fúria de “Unholy Warcry” e pela intensidade de “Rain of Fury”, que imediatamente transportaram a plateia para os reinos fantásticos da banda. A presença de palco de Giacomo Voli mostrou-se magnética, e a coesão instrumental, mesmo sem a presença de Alex, evidenciou a força e a experiência da banda. 

Um dos momentos mais tocantes da noite ocorreu durante “I’ll Be Your Hero”, dedicada a Alex Staropoli, gesto que emocionou profundamente os fãs e evidenciou a união da banda. A emoção deu lugar à interação calorosa em “Chains of Destiny”, quando Giacomo Voli surpreendeu a todos ao cantar “parabéns” para uma fã chamada Priscila e, fiel à promessa feita minutos antes, desceu do palco para cantar no meio da plateia, criando uma conexão genuína e inesquecível. A magia seguiu com a execução envolvente de “The Magic of the Wizard’s Dream”, que hipnotizou o público presente.

O repertório transitou com maestria entre o novo e o clássico, apresentando faixas de “Challenge the Wind”, como a música-título e “Kreel’s Magic Staff”, que se integraram perfeitamente aos hinos consagrados da carreira. A celebração dos 25 anos de “Dawn of Victory” foi um dos pontos altos da noite, com a canção sendo entoada em uníssono pelo público. Um incidente inesperado durante “Triumph for My Magic Steel”, marcado por uma queda de energia de alguns minutos, acabou se tornando um momento memorável: ao perguntar se retomariam do trecho interrompido ou recomeçariam a música, Giacomo ouviu uma resposta enfática dos fãs, que levou a banda a reiniciar a canção do início, ganhando ainda mais o respeito dos presentes.

A parte final do show foi um verdadeiro deleite sonoro. Após a apresentação dos integrantes, a banda mergulhou em uma sequência de clássicos que culminou em uma apoteose. “Dargor, Shadowlord of the Black Mountain” preparou o terreno para a explosão de “Holy Thunderforce”, “A New Saga Begins” e “Land of Immortals”, mantendo a intensidade no nível máximo. O grand finale com “Emerald Sword” foi épico, com Giacomo Voli instigando um wall of death, transformando o Carioca Club em uma verdadeira arena, com o público entregue ao último mosh da noite.

Ao final, o Rhapsody of Fire deixou o palco do Carioca Club com a certeza de ter entregado uma performance que superou as expectativas. Apesar da ausência de Alex Staropoli, a banda demonstrou resiliência e paixão, honrando seu legado e apresentando um show vigoroso. Foi uma noite de power metal sinfônico em sua essência mais pura, repleta de momentos emocionantes, intensa interação com os fãs e uma energia contagiante, reafirmando o status do Rhapsody of Fire como uma das maiores forças do gênero e deixando uma marca duradoura na memória dos presentes. 

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: André Tavares

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Dark Dimensions

Press: JZ Press


Rhapsody of Fire – setlist:

The Dark Secret

Unholy Warcry

Rain of Fury

I'll Be Your Hero

Chains of Destiny 

The Magic of the Wizard's Dream

Challenge the Wind

Kreel’s Magic Staff

Lux Triumphans

Dawn of Victory

Triumph for My Magic Steel 

The Village of Dwarves

Dargor, Shadowlord of the Black Mountain

Holy Thunderforce

A New Saga Begins

Land of Immortals

Emerald Sword

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Loserville Gringo Papi Tour – 20/12/2025 – Allianz Parque/SP

Loserville Gringo Papi Tour transforma o Allianz Parque em caos coletivo com Bullet For My Valentine e Limp Bizkit

A tão aguardada edição do “mini festival” Loserville Gringo Papi Tour desembarcou no Brasil no último sábado, 20/12, reunindo nomes como Slay Squad, Riff Raff, Ecca Vandal, Bullet for My Valentine, que entrou como substituição após o cancelamento do Yungblud e o aguardado headliner da noite, Limp Bizkit.

A equipe do Road To Metal esteve presente e relata abaixo como foi a experiência do que se consolidou como o último grande festival de metal a encerrar o ano de 2025, marcando o calendário com peso, nostalgia e muita energia.


Slay Quad

O grupo californiano Slay Squad, que mistura hip hop, death metal e elementos industriais, foi responsável por abrir as apresentações do dia, enfrentando um calor intenso e um público que ainda chegava timidamente ao local.

O show teve início por volta das 16h10 e contou com cerca de 30 minutos de duração, encerrando-se às 16h40.

Ainda pouco conhecida por parte do público brasileiro, a banda chamou atenção pelo estilo agressivo de se apresentar, sobretudo pela energia constante de seus integrantes, que não economizaram na interação: ao longo do set, foram arremessados diversos itens de merch para a plateia, camisetas, palhetas e até um tênis, lançado pelo vocalista Brahim Grousse.

Riff Raff

O rapper americano Riff Raff, nome artístico de Horst Christian Simco, subiu ao palco às 16h55 para uma apresentação solo, sem banda de apoio. Com um setlist curto, figurino extravagante e pouco carisma, o artista teve dificuldades em prender a atenção do público, que também pareceu não compreender totalmente sua proposta de estética caricata.

O mini show durou cerca de 15 minutos, encerrando-se por volta das 17h10, deixando uma impressão morna e sem grande impacto na plateia.

Ecca Vandal

Em sua estreia em solo brasileiro, a artista sul-africana Ecca Vandal levou ao público presente uma energia e carisma distintos. Vestindo uma camiseta do Sepultura, com letras rápidas, muita dança e um forte “gingado”, a cantora que mescla punk e hip hop, conseguiu elevar o clima do festival, recuperando a energia que havia sido deixada pela atração anterior.

Com um setlist ainda curto, consequência da quantidade de artistas escalados para a noite, a apresentação teve cerca de 30 minutos, tempo suficiente para deixar uma excelente impressão em todos os presentes e marcar positivamente sua primeira passagem pelo país.

311

A banda americana 311 foi a primeira atração do dia a contar com mais tempo de palco e um setlist completo. Conhecida por mesclar rock alternativo, hip hop e reggae, a sonoridade do grupo é bastante familiar aos fãs de Sublime, por exemplo.

Liderada pelo vocalista Nick Hexum, a banda entregou uma performance que equilibrou momentos de energia, como em “Down” e “Come Original”, e com passagens mais melancólicas, destacando “Love Song”, cover do The Cure.

A sinergia entre os vocais de Hexum e Doug "SA" Martinez (DJ e também vocalista) evidenciou o entrosamento da banda no palco. A apresentação contou com 10 músicas e teve duração aproximada de 1 hora, sendo um dos pontos altos da tarde.

Bullet For My Valentine

A Bullet for My Valentine foi a primeira grande banda a se apresentar no dia. A participação do grupo galês veio após o cancelamento, por problemas de saúde, do artista Yungblud. Muitos fãs e inclusive este que vos escreve, consideraram a troca melhor do que o line-up inicial, algo que o Bullet For My Valentine fez questão de provar logo na primeira música.

A banda havia prometido executar na íntegra seu álbum de estreia, The Poison, lançado em 2005. Bastaram os primeiros acordes para ficar claro o porquê de o Bullet ter sido a melhor escolha possível como banda de abertura para o Limp Bizkit.

Logo nos primeiros segundos, entregando todo seu scream rasgado, Matthew Tuck, mais conhecido como Matt, incendiou o público com “Her Voice Resides”. A sequência veio com “4 Words (To Choke Upon)”, e nada acompanhou melhor a banda do que moshpits intensos, que surgiam por todos os lados. O público estava tão eufórico que sinalizadores vermelhos tomaram conta do espaço.

Sem dar tempo para respirar, “Tears Don’t Fall” entrou como uma verdadeira pedrada: muitos cantavam, muitos se jogavam no mosh, e muitos faziam as duas coisas ao mesmo tempo. Vale destacar que, mesmo após 20 anos do lançamento do álbum, a voz de Matt soa praticamente idêntica à de estúdio, sem oscilações. Os backing vocals de Jamie Mathias acompanham o frontman de forma magistral.

A sequência seguiu com “Suffocating Under Words of Sorrow (What Can I Do)” e “Hit the Floor”. Para dar um breve respiro após tantos pulos e rodas, veio a já clássica “All These Things I Hate (Revolve Around Me)”. Mas a calmaria durou pouco: em “Hand of Blood”, qualquer pausa foi deixada de lado. Sendo uma das faixas perfeitas para rodas punk, o que se viu foi um verdadeiro redemoinho de moshpits, novamente tingidos de vermelho pelos sinalizadores, um espetáculo tanto da banda quanto dos fãs.

Já se encaminhando para o final, “Room 409” e a faixa-título “The Poison” mantiveram o público em êxtase. A todo momento, Matt agradecia o público brasileiro, e a banda parecia tão empolgada quanto os fãs, que não viam o grupo no país desde 2022, quando passaram pelo Rock in Rio e um apresentação solo na Audio.

“Cries in Vain” sinalizou que a apresentação se aproximava do fim. A dobradinha final com “The End” e “Waking the Demon” encerrou o set, mas não a energia. Os fãs abriram a maior roda punk da noite até então, aquecendo definitivamente os motores para o headliner que viria a seguir.

Após aproximadamente 1h10 de apresentação, o Bullet for My Valentine mostrou toda a sua força e deixou claro o porquê de ter sido a escolha perfeita para a noite, reunindo fãs, incendiando o público e criando a atmosfera ideal para a sequência do festival.

Limp Bizkit

Todo o aquecimento e a energia deixados pelo Bullet For My Valentine vieram à tona quando o Limp Bizkit finalmente subiu ao palco. Com o estádio lotado e o público em êxtase antes mesmo da aparição dos integrantes, rolou uma singela e respeitosa homenagem ao ex membro Sam Rivers, faleceu em 18 de Outubro aos 48 anos.

Aos poucos, os membros da banda começaram a dar as caras e, logo nos primeiros segundos de “Break Stuff”, o público simplesmente não se conteve. Toda a energia que havia sido economizada durante as apresentações anteriores foi liberada de uma vez só, já no início do show.

Moshs, pulos, gritos, coros e muitos, muitos mesmos - sinalizadores tomaram conta do espaço. Era visível que o público parecia estar se guardando justamente para aquele momento e, como a própria música traduz, todos pareciam prontos para “quebrar alguma coisa”.

“Ladies and gentlemen, introducing the chocolate starfish and the hot dog flavored water”. A introdução marcante de “Hot Dog” trouxe ainda mais ritmo e energia ao palco, elevando o nível do show e mantendo o público em constante explosão.

Em “Show Me What You Got”, ficou evidente tudo aquilo que popularizou o Limp Bizkit: riffs marcantes, as rimas e o rap característicos de Fred Durst, além de DJ Lethal em plena ação, reforçando a identidade sonora de Nu metal, que consagrou a banda.

A sequência veio sem fôlego, com “My Generation” e “Livin’ It Up”, duas faixas que incendiaram ainda mais o público e transformaram o estádio em um verdadeiro caos controlado, com rodas, pulos e coros ecoando por todos os lados.

Para melhorar o que já estava bom, vieram “My Way” e, na sequência, “Rollin (Air Raid Vehicle)”, a faixa perfeita para quem quer cantar, dançar ou simplesmente se jogar no meio da galera enquanto se diverte sem pensar no amanhã.

“Re-Arranged” e “Behind Blue Eyes” vieram para acalmar os ânimos e dar tempo para todos respirarem, e incluo nisso tanto o público quanto a própria banda. Em seguida, com o estádio inteiro iluminado pelos flashes dos celulares, o clima se transformou em um verdadeiro momento de celebração coletiva durante “Behind Blue Eyes”.

Arrisco dizer que a canção ganha outra atmosfera na interpretação do Limp Bizkit, encaixando-se perfeitamente à proposta do grupo e, para muitos, inclusive este que escreve, tornando-se ainda mais impactante do que a versão original do The Who.

Após esse breve momento de celebração coletiva, a banda voltou a todo vapor com “Eat You Alive” e “Nookie”, recolocando o público em estado de caos e retomando a intensidade do show.

Em “Full Nelson”, tivemos uma das grandes surpresas da noite: uma fã, Bia Marcato, foi convidada a subir ao palco para cantar ao lado de Fred Durst. O momento chamou ainda mais atenção pelo talento e desenvoltura da fã, que mostrou muita atitude e conseguiu elevar ainda mais a energia da música, arrancando uma reação imediata do público.

Mantendo o nível e o ritmo da apresentação, veio “Boiler”. Na sequência, a banda surpreendeu com um pequeno trecho de “Careless Whisper”, de George Michael, cantado em coro por todo o estádio, enquanto alguns casais aproveitavam o momento para dançar e se divertir.

Acho curioso e até engraçado, como cada vez mais bandas e artistas do Metal, vêm utilizando esse clássico em suas apresentações. Esse tipo de pausa deixa o clima do show mais leve e descontraído e passa aquele recado implícito que todo mundo entende: metal não é só porradaria, também é amor e diversão.

“Faith” trouxe aquela vibe descontraída que o Limp Bizkit executa com maestria. Em seguida, veio um dos pontos mais altos da noite com “Take a Look Around”. Como o próprio Fred Durst brincou, era hora de “incorporar” Tom Cruise em Missão: Impossível.

A segunda metade da música reuniu tudo o que havia sido visto ao longo da apresentação: moshpits intensos, sinalizadores por todos os lados e o público completamente entregue. Em um momento tão inesperado quanto insano, um fã, quase em sincronia perfeita com o refrão, acendeu um rojão, que explodiu exatamente junto ao ápice da música.

Esse momento, aumentou ainda mais a sensação de loucura coletiva, elevando o clima do show, que já se encaminhava para sua última música.

Em “Break Stuff (Part 2)”, tivemos tudo o que já havia acontecido na abertura do show, porém em uma escala ainda maior e mais coletiva. O Limp Bizkit trouxe todos os artistas que haviam se apresentado anteriormente ao palco para acompanhar a execução da música, instaurando um caos absoluto e compartilhado, perfeito para encerrar a noite em altíssimo nível, após 1h40 de show.

O Loserville Tour Brasil cumpriu o que prometeu, entregando uma noite intensa, diversa e marcada por muita energia do início ao fim. Com apresentações que cresceram ao longo do dia e um encerramento caótico e memorável do Limp Bizkit, o mini festival fechou o ano em alto nível, deixando a sensação de missão cumprida para bandas e público.




Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: 30e


Limp Bizkit – setlist:

Break Stuff

Hot Dog

Show Me What You Got

My Generation

Livin’ It Up

My Way

Rollin’ (Air Raid Vehicle)

Re-Arranged

Behind Blue Eyes (The Who) — cover

Eat You Alive

Nookie

Full Nelson (participação da fã Bia no palco)

Boiler (com apresentação da banda)

Faith

Take a Look Around

Break Stuff (encerramento, com Slay Squad, RiFF RAFF, Ecca Vandal, 311 e Bullet For My Valentine no palco)